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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Entrevista: Maria Isabel Moura



Maria Isabel Moura nasceu na Covilhã, em 1955. Nas suas palavras, cresceu e aprendeu a magia da leitura na aldeia dos Trinta, em plena Serra da Estrela; o resto dos estudos, correndo a geografia portuguesa: em Sintra, com a sua serra e neblinas, num palácio onde reis e rainhas arrastaram saias, paixões, sofrimentos, loucuras e exílios; em Espinho, com o mar feito fúria, comendo ruas e casas e deixando maresias e poemas no ar; em Lisboa, onde se deixou perder, encantada, pelas calçadas de uma cidade vestida de rosa. Reside actualmente em Guimarães, cidade em que as pedras ainda têm a medida dos sonhos...

É colaboradora do Jornal do Fundão.
Trabalha em parceria com Matos Costa, seu ilustrador constante e companheiro de vida...

Obra publicada:
Vinte maneiras diferentes de contar a mesma história – Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca 1998;
Todo o começo é involuntário, com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Editorial Teorema, 2001;
Vou dar pontapés na Lua, contos infantis, Edições Afrontamento, 2004.


Devido ao tema a que este número da revista é dedicado, a entrevista de Maria Isabel Moura gira à volta do livro Todo o começo é involuntário, descrito como um romance erótico que foge ao tom comum na literatura portuguesa.

Samizdat: Porque escreveu este livro?

Maria Isabel Moura: Pelo prazer da escrita, como se escrevem todos os textos…, e porque, pessoalmente, considero a literatura erótica, a infantil e a policial as mais difíceis e queria saber até que ponto eu as conseguia dominar.

Sabemos que o considera “apenas” erótico. Não acha que a crueza carnal de alguns trechos (http://www.geocities.com/arsenio_grilo/moura.html), aconselharia a admiti-lo como pornográfico?
Estes anos depois, como acha que foi qualificado pelos leitores?


E como falar da vida sem crueza carnal? Como descrever uma guerra, uma fome, sem ser cruento?
E depois destes anos todos, estranhamente, não tenho ecos nenhuns dos leitores...

Importa-se com a distinção entre erotismo e pornografia? Como definiria cada um destes géneros?
A diferença está no “que” se diz ou no “como” se diz?


Importo e muito!!
É como a diferença entre brejeirice e ordinarice. A segunda ofende os ouvidos e o intelecto; a primeira é divertida, convoca o riso e a alegria. O erotismo é aliciante, criativo, leva o leitor a recriar o que lê. A pornografia é facial, sem margens imaginativas e as personagens movimentam-se sem depois nem antes.

Qual é a função da literatura erótica, na sua opinião?

A mesma função de toda a literatura: abrir a alma, abrir as comportas do sonho, da vida, do mundo, do estarmos aqui, agora e vivos! Que honra, esta de estarmos vivos.

Na sua percepção, o que diferencia a literatura erótica escrita por um homem daquela escrita por uma mulher?

Creio, e aqui entro no campo das incertezas, que a escrita masculina preocupa-se menos com os porquês. Que na literatura erótica feminina é muito importante saber o que motiva as personagens.

Li numa entrevista (http://www.arlindo-correia.com/061102.html), que preferiu abordar as fantasias masculinas às femininas. Não sendo homem, recorreu a que fontes para saber dessas fantasias? Que há de diferente entre “fantasias femininas” e “fantasias masculinas”?

Onde fui buscar as fantasias masculinas? Pois, vampirizando todas as confidências, todas as conversas, todas as vidas que por mim passaram. E não é essa a vocação do escritor, a de vampirizar as vidas alheias?

O filósofo Georges Bataille traça uma relação entre sexo, violência e morte – todas são instâncias de transgressão da normatividade, de liberação da nossa animalidade.
Identifica estes elementos na sua escrita?


Neste livro, é através de toda a violência e sexo, que se matam os fantasmas de toda uma vida e se renasce. De modo que sim, estão lá todos esses elementos...

Na descrição da obra pela editora, é mencionado que a sua escrita se aproxima da “de Sade, de Henry Miller, de Anais Nin”. Concorda com isso?

Como poderia não estar? São três ícones da literatura erótica e era exactamente o que eu estava a tentar escrever.

Na já citada entrevista, encontrei este trecho:

MTH – Sente-se mais perto, literariamente, do Henry Miller ou da Anais Nin?
MIM – A Anais Nin é mais poética e eu espero ter posto neste livro alguma poesia, portanto sinto-me mais perto da Anais Nin.


Não apenas no seu livro, mas também na prosa de ficção de outros autores que já tenha lido, quando acontece a aproximação entre prosa e poesia?


As palavras são uma coisa muito engraçada, têm textura, cor, sabor... e quando um texto em prosa consegue que a paisagem para lá da janela seja a de dentro dos nossos olhos, entrámos na poesia.

Falando da sua obra: como se processa a poesia na sua prosa? Está no todo da obra (o que qualifica todo o romance como uma grande metáfora) ou está em alguns pontos em que a narrativa se dilui em expressão poética?

Neste livro, a escrita processa-se em ondas, depois de um trecho o mais cruento possível, segue-se a acalmia poética. Foi um processo voluntário.
Ao contrário, na literatura infantil, tento que todo o texto seja poético.

Numa época dominada por imagens, pelo cinema, pelos vídeos no YouTube, existe espaço para o erotismo em palavras? Ou, melhor dizendo, para quem escreve?

Para começar, para mim mesma.
E, espero, desejo, anseio, que o espaço da literatura continue a existir. A palavra escrita deixa todo o espaço aberto para o sonho, para o raciocínio, para a recriação. No fundo, para uma liberdade que os audiovisuais não dão.

Como é a recepção das suas obras entre os leitores e a crítica portuguesa? A forte herança católica de Portugal é um obstáculo a ser superado pelos autores de literatura erótica?
E de leitores e críticos brasileiros – ou, ao menos, não-portugueses – já recebeu algum comentário? Sabe como foi a receptividade deste seu romance fora de Portugal?


O estranho deste livro é a discrição com que tem caminhado. Não tenho praticamente ecos nenhuns, o que me tem espantado francamente. Na altura do lançamento, e exactamente por causa da herança católica, esperava algum escândalo, mas fez-se um enorme silêncio. Talvez este silêncio seja bem mais significativo do que todas as polémicas.

A publicação dum livro deste cariz criou obstáculos às suas posteriores publicações? E à sua vida pessoal?

Precisamente devido ao enorme silêncio que se fez à volta deste livro, não senti problemas de espécie alguma. Creio que o facto de ser prefaciado por Urbano Tavares Rodrigues tenha influência.

Tenciona escrever mais livros na linha deste? Existe mercado para o erótico?

Existirá sempre um mercado para o erótico, já que sexo é vida e queremos estar vivos.
Quanto a eu escrever outros livros eróticos, não sei... para já brinco com micro-relatos, e vasculho a minha infância naquilo que chamo o Alfabeto das Saudades...

Qual foi o maior obstáculo que teve de superar para consolidar a sua carreira literária? Quais são os grandes desafios para um escritor, actualmente?

Os desafios são os mesmos de sempre: ter leitores. E nem sequer quero entrar na polémica de editor, distribuidor, escritor... Isso dá de imediato o cansaço de todas as respostas, de todos os debates...


Coordenador da entrevista:
Joaquim Bispo

Perguntas feitas por:
Henry Alfred Bugalho
Joaquim Bispo
Maria de Fátima Santos
Volmar Camargo Junior

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


1 comentários:

Excelente! Uma das melhores entrevistas da SAMIZDAT, se não a melhor.

Parabéns ao Jack pela coordenação e organização, e muito obrigado pela intermediação feita entre nós e a autora.

Meus cumprimentos e sinceros agradecimentos à autora, pela entrevista franca e direta.

E aos colegas entrevistadores.

Parabéns à SAM!

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