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domingo, 18 de janeiro de 2009

A doçura desta dor

Joaquim Bispo

Este conjunto escultórico é obra do magistral Bernini e encontra-se numa pequena igreja de Roma. Chama-se O êxtase de Sta. Teresa (1647-1652) e representa o episódio de amor místico experimentado por Santa Teresa de Ávila (1515-1582), também conhecido por «Transverberação de Sta. Teresa». Foi a própria que relatou o seguinte:



Ao meu lado esquerdo apareceu um anjo em forma corporal. Não era alto mas baixo e muito belo. E a sua face estava tão afogueada (…). Vi na sua mão um longo dardo de ouro, na ponta do qual julguei ver uma pequena chama. Pareceu-me que o fazia entrar de momento a momento no meu coração e que ele me perfurava até ao fundo das entranhas; quando o retirava, parecia-me que as arrancava também e me deixava toda abrasada com um grande amor de Deus. A dor era tão grande que me fazia gemer e, no entanto, a doçura desta dor excessiva era tal, que era impossível querer vê-la terminada, e a alma já não se contentava senão com Deus. A dor não era física, mas espiritual, se bem que o corpo aí tivesse a sua parte. Era uma tão doce carícia de amor entre a alma e Deus (…).

Como a muitos analistas contemporâneos, não escapou a Bernini a vertente do amor sensual aliado ao amor místico, no relato de Sta. Teresa. É bem evidente o abandono físico da freira perante o anjo, como o abandono da mulher aluada perante o homem desejado. O rosto do anjo reflecte aquele doce júbilo que qualquer homem sente no momento anterior à posse da mulher rendida. O dardo não pode ser mais simbólico, na sua rigidez fálica e na sua ponta penetrante. O gesto delicado da mão esquerda do anjo a levantar o hábito descomposto da freira, como quem afasta uma última peça de roupa íntima, eleva a sensualidade do conjunto a um nível nunca esperado num altar.
E, no entanto, que melhor ícone para venerar que as doces penas do tesão ou a experiência transcendente e sublime de um orgasmo?!

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


4 comentários:

que boa lembrança, joaquim! vc sabe que jacques lacan tem toda uma reflexão sobre o amor e o gozo a partir justamente de santa tereza de ávila? se quiser, envio-te a referência... só à guisa de complemento, deixo aqui a primeira estrofe de um de seus versos, que faz eco ao trecho postado por vc:

"Esta divina união

com o amor por quem eu vivo

faz de Deus o meu cativo

e livre meu coração;

mas causa em mim tal paixão

ver a Deus em meu poder

que morro de não morrer..."

de fato, entre o êxtase místico e o orgasmo, a distância é bem menor do que gostariam de nos fazer crer os puritanos de plantão...

Excelente, Joaquim! Bataille também trabalha com a história da Tereza D'Ávila em "Erotismo". Inclusive, na edição que tenho em casa, a foto da capa é desta escultura.

Obrigado!
Envie-me a referência, sim, Marcia. É que o assunto junta duas das minhas preferências.

As revelações de Santa Brígida da Suécia também são reveladoras...

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