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domingo, 18 de janeiro de 2009

Auto-ajuda

Joaquim Bispo




Sabemos, caro leitor, como você gostaria de estar sempre sempre in, infelizmente, as limitações humanas obrigam-no a estar out, a maior parte do tempo. Para essas longas horas, que nunca mais acabam, para esses dias que se transformam em semanas, este consultório sensual dá-lhe algumas dicas para não morrer de inanição sensorial.


1. Se você é dos que gosta de um beijo bem chupado e repenicado, experimente o beijo do cano do aspirador. É inesquecível. Mas não exagere, que a sua mulher pode desconfiar de tanta vontade de aspirar a casa.


2. Se você faz longas viagens, nem sempre em companhia galante, não se acabrunhe. Meta a mão fora da janela, em concha, virada para a frente, aumente a velocidade para 120 e desfrute de longos minutos da consistência de um seio na sua mão. Pode apertar, que a ilusão é convincente. Se o tempo estiver quente, tanto melhor. Não há conversa chata dos acompanhantes que o impeça de fruir o seu gesto inocente.


3. Se a sua mulher vai fazer pastéis de massa tenra, filhós ou outra receita que obrigue a amassar farinha, ofereça-se para amassar. A lisura e a consistência da massa transmitem ao seu tacto a ilusão de carnes tenras de uma mulher, só que, com massa, você pode dar livre curso às mãos sem medo de magoar. Desfrute, mas não dê a entender que gosta mais de amassar que de comer.


4. Se é obrigado a fazer longos passeios a pé, compre um cacho de uvas e consuma-o bago a bago. Enquanto acaricia um entre os dedos, faça rebolar outro nos lábios antes de a língua brincar com ele, como faz com os mamilos da sua mulher. Distrai e faz bem à saúde.


5. Se é época de diospiros (ou caquis), use e abuse. Compre daqueles bem maduros, muito moles. Retire-se para a privacidade que o acto pede, mergulhe de boca aberta na sua polpa deliquescente, e sorva conjuntamente as estruturas gomosas que lhe conferem uma ilusão vulvar. A sofreguidão desse cunnilingus desvairado vai deixar-lhe o rosto lambuzado, mas há certas coisas que não são adequadas para comer à colher.


Nunca deixe, caro leitor, de estar atento ao que o rodeia: uma protuberância numa árvore, um tufo vegetal numa praia, o perfil de uma paisagem. O mundo está cheio de oportunidades para você estar sempre on.

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
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