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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

António Botto

Joaquim Bispo



António Botto (1897-1959) nasceu no Casal de Concavada (Abrantes). O pai trabalhava nos barcos que atracavam nesse ponto do Tejo, pelo que é natural a sua intimidade com o rio e a sensibilidade à natureza que revela nos seus poemas. Com cerca de onze anos, foi para Lisboa na companhia dos pais, que se instalaram no bairro de Alfama, cuja atmosfera popular se reflecte também na sua poesia. Trabalhou em livrarias e foi funcionário público. Descrevem-no como magro, de estatura média, «dandy», e como tendo «um sentido de humor sardónico, incisivo, uma mente e língua perversas e irreverentes, e sendo um conversador brilhante e inteligente.» Colaborou em quase todas as revistas literárias de vanguarda – Contemporânea, Athena, Águia e outras que o levaram a uma grande massa de leitores, como a Ilustração, a Portucale, a Magazine Bertrand e a Civilização. Frequentava o café Martinho da Arcada, local de encontro eleito por vários intelectuais da época. Com Fernando Pessoa elaborou uma Antologia de Poemas Portugueses Modernos. Em 1947 exilou-se no Brasil, para fugir às perseguições homófobas de que foi vítima, morrendo atropelado no Rio de Janeiro em 1959, onde vivia na mais dolorosa miséria.

Por entre a sua vasta obra, que inclui teatro e contos para crianças, é mais conhecida a obra poética, em que avulta Canções, publicada em 1921, que foi causa de agitação nos meios intelectuais portugueses e de condenação nos meios religiosamente conservadores da época, por ser uma obra explicitamente pederasta. «Homossexual assumido (apesar de ser casado com Carminda Silva), a sua obra reflecte muito da sua orientação sexual e no seu conjunto será, provavelmente, o mais distinto conjunto de poesia homoerótica de língua portuguesa.» Além desta obra, publicou: Cantigas de Saudade (1918), Canções do Sul (1920), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Piquenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Ciúme (1934), Baionetas da Morte (1936), A Vida que te Dei (1938), O Livro do Povo (1944), Ódio e Amor (1947), Fátima – Poema do Mundo (1955), Ainda não se Escreveu (1959). No Brasil, a antologia Bagos de Prata foi publicada pela Olavobrás, editorial de Curitiba.




Andava a lua nos céus

Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Placidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu ombro
Falou-me de um pajem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinho..., até cair.



Ouve, meu anjo

Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?...

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!
A carne do assassino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar…
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!



Inédito

Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
Lavadinho , todo nu, gosto!

Sem ter pentelho nenhum
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.

Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!



Anda vem...

Anda vem..., porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha – rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
– Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!



Não é ciume o que eu tenho

Não é ciúme o que eu tenho.
É pena,
Uma pena
Que me rasga o coração.

Essa mulher
Nunca pode merecer-te;

Não vive da tua vida,
Nem cabe na ilusão
Da tua sensibilidade,
- Mas é bela! Tu afirmas
E eu respondo que te enganas

A beleza -
Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe,
E quando existe não dura.
A beleza -
Não é mais do que o desejo
Fremente que nos sacode...
- O resto, é literatura.

Conheço bem os teus nervos;
Deixaram nódoas de lume
Na minha carne trigueira;
- Esta carne que lembrava
Laivos de luz outonal,
Doirada, sem consistência,
A aproximar-se do fim...

Eu já conheço o teu sexo,
Tu já gostaste de mim.

A frescura do teu beijo
E o poder do teu abraço,
Tudo isso eu devassei...

Não é ciúme o que eu tenho;
Mas quando te vi com ela
Sem que me vissem, chorei...

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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