Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Laboratório Poético


Do caroço de uma hora

(a essência das Horas)


 Volmar Camargo Junior


do caroço de uma hora

extraí a substância vítrea

oleosa

fugaz como a vontade

etérea como a sensatez

 

em nenhum recipiente

pude contê-la a contento

escapava sempre um tanto

às vezes muito

quase sempre dobrava de tamanho

e assim, aos poucos

às gotas

às partículas

preencheu o espaço

tão meu conhecido

 

era sedutora, envolvente

a bruma que nascia

pois era bruma

era um vapor invisível

que fez sumir as paredes

a paisagem da janela

os hábitos convenientes

e os meus pés

 

sim, por dias

se ainda lembrava o que eram

fiquei sem vê-los

 

deixei-me entregue

à essência do caroço das horas

inalei, comi, bebi

despi-me

e assim, despido

cobri-me inteiro com ela

 

não era dor

era antes um frio

das pontas dos cabelos até a boca do estômago

enredou-me

dentro e fora de mim vivia aquilo

impossível conter

e mesmo quando do fundo da garganta

nasceu o último murmúrio

a coisa cristalizou-se

virou gelo

rocha

diamante

vidro

 

era o vidro em mim

o vidro das horas

- o vidro das raízes do tempo

de toda árvore vítrea que é o tempo

da seiva vítrea

sangue do que não se vê –

era o vidro em mim

não mais nas horas

não mais preenchendo os vãos

entre as partículas da poeira

do tecido das estrelas

era o vidro em mim

deixou de ser essência

primordial ou quintessencial

era em mim

era eu

 

e

como é próprio das coisas

nascidas ou tiradas

da árvore que dá os frutos do tempo

o vidro que tinha a mim cristalizado

sumiu

 

voltaram as roupas

as paredes, as janelas

a paisagem

os sapatos

 

da essência das horas

restou só

uma gota

escorreu-me pela testa até a ponta do nariz

intempestiva

decidida

livre

lançou-se no espaço

num mergulho que só eu percebi

até o choque derradeiro contra o piso

 

saí

fechei as janelas, tranquei as portas

segui como pude

vivo como consigo

 

ainda lá está, intocado

o piso onde caiu a última gota

da substância vítrea

oleosa

extraída do caroço de uma hora

 

tinha a esperança que

onde a gota caiu

pudesse brotar outra árvore

com um tempo diferente

quem sabe misturado

a um tanto da poeira

dessa poeira que sou eu







Share


Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

todo dia 08


0 comentários:

Postar um comentário