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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A desinformação pública

Joaquim Bispo

A era de Cristo, convencionou-se, começou a 1 de Janeiro do ano 1. Há o momento zero, mas não há o ano zero. No fim do dia 31 de Dezembro do ano 1, completou-se 1 ano. Se alguém tivesse comemorado a data, devia ter comemorado um ano, como os pais fazem com qualquer criança quando completa 1 ano. Neste método, claro e lógico, no fim do ano 2, passaram 2 anos desde o início da era; no fim do ano 99, passaram 99 anos; no fim do ano 100, passaram 100 anos; no fim do ano 1999, passaram 1999 anos desde o início da era; no fim do ano 2000, passaram 2000 anos e é altura de comemorar a completude de dois milénios. Alguma dúvida?

Isto é o que os historiadores sabem e não lhes merece qualquer tipo de discussão.
No entanto, não foi isso que vimos por todo o mundo, com a comunicação social, ignorante mas arrogante, comandada pela globalização mercantilista e a pressão consumista, a propagandear o embuste e a incentivar a comemoração da passagem do milénio na passagem de ano de 1999 para 2000. Cheguei a ouvir a alarvidade de que mudava o milénio, mas não mudava o século. Enquanto isso, não vi qualquer tentativa, por parte das entidades científicas, que também têm responsabilidades sociais, de desmistificar a falsidade. Alguns docentes, com quem abordei o assunto, encolheram os braços em atitude de demissão.
Esse período foi penoso para mim. Imbuí-me da consciência aguda de que a razão, o rigor e a verdade científica estavam arredados das nossas vidas e da nossa sociedade, substituídas por interesses meramente económicos, ou ainda de índole mais obscura. Descri da possibilidade de qualquer avanço de mentalidades, tendo por mentores tais pedagogos de massas. Se não conseguem elucidar a sociedade sobre uma coisa tão simples e descomprometida, que sabedoria, que esclarecimento se pode esperar deles, em questões de importância crucial para a Humanidade?

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
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