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terça-feira, 18 de novembro de 2008

Crónica: A vida continua

Joaquim Bispo



Os cemitérios de Lisboa são lindíssimos. Têm avenidas bordejadas de «palacetes» e esculturas, muitas flores e algum silêncio. Ostentam uma arquitectura que, ao longo dos tempos, tem reflectido a arquitectura dos vivos. E melhor preservada que a da cidade dos vivos. É que, nessa cidade dos mortos, não é necessário deitar jazigos abaixo para construir agências de bancos e de companhias de seguros. Ali, não abundam os clientes financeiros.
Vêem-se jazigos de todos os estilos: neo-gótico, neo-manuelino, neo-clássico, casa portuguesa. Uns, imponentes, a reflectir a importância do defunto em vida, outros, discretos, a exaltar a humildade devida ao novo estado. Alguns são autênticas esculturas arquitecturais. É nos cemitérios, também, que existe, talvez, a maior concentração de escultura por hectare. Alguma, de grande qualidade. Além de chorosos anjos, escondendo a face, encontram-se, também, muitas alegorias da dor e da perda, adequadamente acompanhadas de fustes de colunas partidos ou troncos de árvore decepados precocemente. Lápides verticais ostentam delicados rendilhados florais em alto-relevo ou símbolos adequados à profissão e ao estatuto do finado.
Uma deambulação por um silencioso cemitério lisboeta é, quase de certeza, mais tranquilizante e culturalmente mais estimulante que um passeio por muitos dos jardins da cidade.

Estes cemitérios têm ritmos próprios. Cada talhão de enterramento passa por uma fase de alvoroço, de abertura de covas e montões de coroas de flores, que progride, durante umas poucos semanas ou meses, em linhas paralelas ao longo do talhão. Aos poucos, as linhas revoltas vão evoluindo para um aspecto arrumado, pincelado de lajes de mármore e floreiras multicoloridas. Chega um momento em que todo o talhão se arrumou e mantém um aspecto muito estável durante cinco anos, com os mármores alinhados, entremeados por um ou outro monte de terra dos defuntos de menos posses, cada um com a sua floreira. Às vezes, com uma ou outra placa de mármore com inscrições do tipo: «Grand-maman – Je ne t’oublierais jamais».
Muitas vezes, esses talhões, de meio hectare de área, estão circunscritos por um muro quadrilátero de gavetas de cimento embutidas nas quais, mais tarde, serão depositados os pequenos caixões contendo apenas os ossos lavados e desinfectados dos corpos que tenham atingido o estado necessário ao levantamento.

Estar sozinho num desses talhões a observar a extensão florida agitada pela aragem e a ouvir o concerto da vibração das centenas de pequenas floreiras metálicas, faz-nos sentir num universo distinto do nosso. São várzeas artificiais, «prados» de flores naturais de caules cortados, e de flores de plástico, inseridas em floreiras, numa densidade e numa multiplicidade de cores que nem a Natureza produz.
Depois, passados os cinco anos da curtimenta, os talhões começam a ser escalavrados pelos levantamentos avulsos, que deixam uma paisagem desoladora semeada de crateras rectangulares por entre as campas intactas cujos ocupantes se atrasaram a atingir a decomposição total. Passado algum tempo, tudo recomeça e o talhão recobra a «vida» florida – se de vida podemos falar –, para mais um ciclo de enterramentos.

Aos Domingos, os ciganos instalam-se todo o dia no cemitério a honrar os seus mortos. Pintaram de branco a moldura da gaveta onde está o caixão do familiar falecido e o chão do passeio por baixo da gaveta. Mantêm-se por ali a limpar a gaveta, o caixão, o pano que o tapa e depois ficam simplesmente sentados, de porta da gaveta aberta com várias fotografias do defunto expostas e jarrinhas de flores sobre naperons brancos.
Os outros vão menos ao cemitério. E tanto menos quanto o inexorável apagamento da dor que a passagem do tempo provoca. As floreiras deixam de ter flores naturais e ficam-se pelas de plástico que «duram mais tempo». Mesmo essas são, às vezes, levadas pelo vento. No fim do Verão, a maioria das floreiras está vazia.

Perto do Dia de Finados – 2 de Novembro –, os cemitérios enchem-se, numa romaria de mãos carregadas de flores. Cumpre-se a «obrigação» e o ritual. Por entre o bulício respeitoso dos que levam um rumo determinado, é possível ouvir pelas alamedas:
– Anda cá, o 1622 deve ser para aqui!
– O João não disse onde é? Ele já cá veio uma vez!
– Sim, mas já foi há muito tempo!
Há pessoas de todas as idades encavalitadas nas escadas metálicas que os cemitérios disponibilizam para aceder às posições mais elevadas. Nessa ocasião, são sobretudo os muros repletos de gavetas que registam uma primavera fora de época.
Pode ler-se, aqui e ali, nas portinhas: «O tempo passa – A saudade aumenta». Ou outra mentirinha parecida, crida com toda a sinceridade. O tempo passa e tudo faz passar, felizmente. Ninguém conseguiria viver, sempre, com a dor do primeiro dia; ninguém conseguiria aguentar, ano após ano, as saudades sentidas no primeiro.

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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