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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Paulette na cidade

ou  Esta Cidade não é para Frutos Secos

Joaquim Bispo

Paulette, a Castanha, não queria acabar comida por um esquilo. Nem a sua ambição era ficar lá pela terra e um dia gerar um grande castanheiro.
– Maior e mais majestoso que o papá – chilreavam de entusiasmo as irmãs.
Antes de tomar qualquer decisão, queria saber o que havia para lá da curva do caminho. Um dia, de manhãzinha, disse adeus às duas irmãs, que se mantinham no aconchego do ouriço familiar, e partiu em direcção a Sul. A meio da manhã, encontrou outra Castanha como ela, mas mais anafada.
– Olá! Quem és tu e para onde vais? – perguntou Paulette.
– Sou uma Castanha da Índia e vou para a cidade. Uma prima arranjou-me trabalho – respondeu a outra radiosa nas suas bochechas luzidias.
– Então vamos as duas!
Mais à frente encontraram uma espécie de castanha pequenina e redondinha.
– Olá! Quem és tu e para onde vais? – perguntou a Castanha?
– Sou uma Avelã e vou para a cidade. Quero ganhar dinheiro.
– Então vamos as três!
Por volta do meio-dia, num cruzamento, encontraram outras duas.
– Olá! Quem são vocês e para onde é que vão? – disse a Castanha da Índia, que já tinha aprendido a senha. A mais encorpada respondeu:
– Eu sou uma Noz e esta minha amiga é uma Amêndoa e vamos para a cidade estudar. Estamos fartas de ser casca-grossas.
– Então vamos todas de companhia! – Era a vez da Avelã concluir.
E lá foram divertidas e tagarelando a tarde inteira. Ao anoitecer, encontraram uma Castanha Pilada toda encarquilhada, que lhes ofereceu guarida. Aceitaram agradecidas, que a noite está cheia de roedores. Mas apenas começou a haver luz, partiram e chegaram à cidade ainda de manhã.
Deram uma volta a apreciar os prédios enormes e o formigueiro dos carros. Depois encontraram um jornal de anúncios grátis.
– Olha este – disse a Amêndoa. – «Precisa-se amêndoa para fábrica de doces conventuais». Vou responder! Se for um part-time, posso ganhar uns dinheirinhos e ter tempo para estudar.
– Olha, este é para mim! – entusiasmou-se a Avelã – «Chocolataria procura avelã grada. Paga bem». Se ganhar muito dinheiro, compro um pulverizador à minha mãe.
– Hum, não sei o que este é – disse a Castanha carregando o sobrolho – «Castanhas nacionais e estrangeiras. Quentes e boas!». É capaz de ser uma empresa de trabalho temporário. Mas não há mais nada!
Combinaram que cada uma iria responder ao seu anúncio e que voltariam a juntar-se de tarde, excepto Paulette que ficou à espera de saber se havia vagas no trabalho da Castanha da Índia. À hora aprazada chegou a Noz muito zangada. Tinha ido responder a um anúncio para Segurança e tinham-lhe dito que era um estágio não remunerado.
– Lá na terra nunca me fizeram uma proposta tão desavergonhada!
– Eu cá, estou contente com o trabalho – disse a Castanha da Índia. – Fiquei a trabalhar em casa duma velhota simpática e o que tenho que fazer é só ficar numa gaveta de roupa a afugentar as traças. – O sorriso de orgulho que lhe assomara à casca fechou-se logo a seguir. – Mas não é trabalho para vocês. Não têm este cheiro!
Da Amêndoa e da Avelã, nem sinal. A Castanha da Índia teve que voltar ao trabalho. A Noz e a Castanha esperaram ainda umas duas horas, e como as outras não vinham, foram responder ao anúncio para a Paulette.
Era numa rua estreita e o local de trabalho, envolto em fumo, não passava despercebido. Aproximaram-se, sem dizer nada, e ficaram à espreita, para descobrir qual era o ramo do patrão. Este, de bigodinho e cabelo com gel, pegava nas castanhas, dava-lhes um golpe na casca e atirava-as para um pote esburacado que tinha sobre brasas.
Só então, horrorizadas, se aperceberam do cheiro a castanhas assadas que enchia o ar, e as viram amontoadas num grande tabuleiro. Estavam irreconhecíveis. A casca golpeada encanecera como noiva adiada e abrira-se pela acção do calor, deixando ver o delicado véu interior, que se separara do corpo expondo o miolo dourado das castanhas. «Que degradante! Porquê estas atrocidades, porquê?» – perguntavam-se. Observaram então como os homens se aproximavam de olhos lúbricos e esmigalhavam com mãos papudas o resto de casca e de película que as castanhas ainda mantinham. E depois – oh horror! – de uma só dentada comiam-nas. Inteiras.
Escapou-se-lhes um «Oh!» involuntário. O homem das castanhas viu-as e baixou-se para as apanhar. Estava quase a agarrar Paulette quando a Noz, ginasticada e enraivecida pela repulsa, saltou. Apontou uma cabeçada aos dentes do homem. O lábio superior deste interpôs-se e ficou esmagado entre os próprios dentes e a cabeça dura da Noz. O homem gritou agarrado ao lábio a sangrar. Várias cabeças de homens se voltaram. A Castanha e a Noz sentiram aquelas dezenas de olhos sobre si. Um medo imenso apoderou-se delas. Fugiram dali tão depressa quanto conseguiram, sem olhar para trás. Ao virar uma esquina, quase foram esmagadas por um carro. Atiraram-se para o lado às cegas e caíram numa sarjeta. No escuro húmido e fétido, olharam em volta tentando enxergar o que quer que fosse. Só três pares de olhos brilhantes guinchavam.



Foto de José P. Sousa

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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