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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Entrevista: Rui Zink

Rui Zink (Lisboa, 1961) é um escritor português com extensa e variada obra publicada de que salienta os romances Hotel Lusitano (1987), Apocalipse Nau (1996), O Suplente (1999) e Os Surfistas (2001), e os livros de contos A Realidade Agora a Cores (1988) e Homens-Aranhas (1994). Lança o seu último romance, O Destino Turístico, em finais deste Outubro. Recebeu o Prémio do P.E.N. Clube Português pelo romance Dávida Divina (2004), e tem representado o país em eventos como a Bienal de São Paulo, a Feira do Livro de Tóquio ou o Edimburgh Book Festival. Professor universitário, é dado como o introdutor dos cursos de escrita criativa em Portugal.

Mais informações no seu site: http://ruizink.com/


Assisti a um vídeo seu num programa (creio que seja de televisão), chamado Sempre em Pé, no qual você compara a atuação do professor com o fazer stand up comedy. No Brasil há muito disso, de o professor "atuar" em escolas particulares e nos chamados "cursinhos pré-vestibular". A minha pergunta é a seguinte: o professor, o bom professor, é o que dá mais prioridade ao "o que" ensina, ou o que prioriza o "como" ensina? Há um meio-termo para isso?

Rui Zink: Há uma infinidade de meios-termos. O bom professor começa por compreender quem é e adaptar a panóplia de métodos disponíveis – muitos deles contraditórios – à sua personalidade. A regra é parecida com a escrita: eu faço o que posso, não o que quero ou gostava de fazer. Sem comunicação eficaz não há aprendizagem, sem nada para dizer também não. Mas uma antecede a outra. Preciso de saber se os interlocutores entendem o que digo antes de começar a dizer, né?

Você é professor, escritor e leitor em Língua Portuguesa. Qual é a sua opinião sobre a nova reforma ortográfica?

R. Z.: Sou inteiramente a favor. Só peca por tímida. Quero que os meus filhos possam viajar pelo mundo em português e ganhem dinheiro falando português. Isso só é possível graças ao Brasil, desde há mais de um século o nosso maior embaixador.

Um aluno ou um escritor em início de carreira devem ser penalizados por escrever com pontuação incorrecta, mas a mesma que é usada por escritores aclamados como Lobo Antunes?

R. Z.: Sim, um aluno deve ser penalizado. Primeiro dominar as regras, depois quebrá-las. Lobo Antunes, tal como antes dele Joyce, Faulkner, Guimarães Rosa, Raymond Queneau, etc., domina-as com mestria. O caso dum escritor é diferente do de um aluno, mas qual o interesse de escrever “tal e qual” outro escritor? Escritor, para mim, é aquele que cumpre o ditado: “Quem conta um conto acrescenta um ponto.” Tudo o mais é redundante. E, sim, a maioria dos nossos tele-escritores são nesse sentido redundantes. Porque se limitam a pisar caminho trilhado, a pôr os pés nas marcas alheias, tanto no que dizem como no modo como dizem.

O que o fez iniciar os cursos de escrita criativa?

R. Z.: A poetisa Ana Hatherly, minha mentora, sabia que eu tinha estado nos EUA e me interessava pelo assunto. E desafiou-me a fazer isso com alunos da [Universidade] Nova, em 1991. Acredito que o jogo com as palavras e as ideias pode ajudar as pessoas a tornarem-se melhores escritores do que eram e, sobretudo, melhores leitores.

É possível aprender a ser escritor, ou seja, é possível estudar para sê-lo? Há "técnicas" para isso?

R. Z.: É possível aprender e apreender técnicas, tal como é possível aprender a tocar piano ou a pintar ou a dançar. Naturalmente que dar o passo extra depende de algo que não se pode ensinar e que a pessoa tem ou não em bruto dentro dela. Mas o treino, a técnica e a teimosia ajudam, e não há artista digno desse nome sem nenhuma destas três coisas.

Qual é o seu primeiro conselho a um aspirante a escritor?

R. Z.: Ler e copiar, copiar muito. E, já agora, viver.

Concorda com o apelo à concisão de Saul Bellow? Onde termina uma narrativa literária concisa e começa uma listagem de frases ligadas por um mesmo tema?

R. Z.: Boa questão. Obviamente o apelo de Bellow tem uma batota: ele fê-lo depois de ter escrito prolixos calhamaços. Mas a busca da palavra exacta parece-me tão aconselhável como a busca da nota certa. Senão somos como aquele aluno a quem o professor pediu quanto eram 2+2 e que responde 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, e fica espantado por chumbar, já que deu a resposta certa.

Um escritor principiante deve ousar experimentar novas estruturas narrativas ou deve ater-se às consagradas pela literatura?

R. Z.: E porque não ambas? Com peso e medida umas vezes, sem peso nem medida outras.

Ter um "estilo próprio" é coisa a acalentar como virtude ou é um vício de escrita a combater?

R. Z.: É um objectivo a acarinhar. Mas não serve de nada pensar muito nisso. Ou se chega ou não se chega. Só é escritor, para mim, quem alcança uma voz própria.

Existe má literatura? Que critério tem para dizer que um texto é boa ou má literatura?

R. Z.: Sim, existe. Aquela que maltrata a linguagem ou se limita a reproduzir ideias e frases gastas de tanto uso. Margarida Rebelo Pinto, José Rodrigues dos Santos e Miguel Sousa Tavares não são (até à data) bons escritores, o que não significa que os seus livros não entretenham nem desmereçam de ser lidos ou comprados. Mas não são bons e quem achar o contrário (a começar pelos próprios) está lamentavelmente equivocado. Mas eu próprio gosto de ler maus livros, tal como há bons autores que não me convenço a ler.

Uma história construída com o objectivo de transmitir uma ideia política, filosófica ou científica pode ser boa literatura? Como?

R. Z.: Pode. É o caso de Gonçalo M. Tavares, Musil, Brecht, Soeiro Pereira Gomes. Mas é raro.

Quando acha que alguém escreve muito bem, aconselha-o a continuar a escrever, ou a publicar? Ou seja, para si, é a escrita que deve ser incentivada ou a publicação?

R. Z.: A escrita é íntima, a publicação não. Se acho que uma pessoa tem talento para cantar, aconselho-a tentar gravar um disco, pois é simpático partilhar. Além de que, publicando e tendo eco (aplausos, bombons, dinheiro), a pessoa tem incentivo para trabalhar mais e crescer.

Prosperar na carreira de escritor é uma questão de talento, sorte ou persistência?

R. Z.: Depende do que se entende por “prosperar”. De qualquer modo, uma conjugação das três ajuda sempre. Não há receitas.

Ao escrever, o que o decide a optar por um conto ou por um romance: o tamanho da história a contar; a intensidade pretendida; ou o quê?

R. Z.: O tempo que eu acho que a história pede. O Bicho da Escrita não aguentava mais de oito páginas, embora pudesse ser esticado por duzentas. O Destino Turístico exige uma leitura prolongada – sobretudo um longo primeiro capítulo (que vai até metade do livro e dura tanto como os doze seguintes).

Na sinopse que você mesmo dá (foi você mesmo?) ao livro Homens-Aranha, você menciona o fato de que "as melhores histórias" são as que ao autor não é necessário inventar nada. Há quem diga, embora não recorde quem o diga, que a literatura não deve ser autobiográfica. Até onde a "vida real" deve ser a massa da ficção?

R. Z.: Tal como eu não posso pintar a cor verde com tinta vermelha, também não posso imaginar sem ser a partir da pessoa que sou e fui. O que somos é a matéria-prima a utilizar, mas obviamente que é apenas o trampolim, não o salto. E todos nós já lemos livros em que tivemos a percepção de que o escritor não fazia ideia do que estava a falar e nos soaram a falso, não é?

Após o sucesso de O Código Da Vinci, multiplicaram-se as obras sobre "mistérios" ligados a seitas, escondidos pela Igreja ou por antigas irmandades. Esse filão não acaba por tornar-se repetitivo? Os escritores estão escrevendo sobre isso apenas porque viram que tem leitura ou porque os temas atuais estão esgotados?

R. Z.: Quem não quer ser papagaio não lhe vista a pele.

Existe mesmo uma indústria cultural que controla os destinos do mundo capitalista, ou isso é intriga da oposição? Independente de existir ou não, em um cenário de poucos leitores (como o Brasil), é válido que se leia porcarias desde que se esteja lendo? Ou é isso que "eles" querem que pensemos?

R. Z.: Comer um hambúrguer é melhor que não comer, ou mesmo que comer caviar podre. Mas obviamente que a leitura que me ajuda a crescer como leitor pode, um dia, já só servir para me impedir de crescer. Isto tanto funciona para os livros de entretenimento como para a papa Nestlé. É triste se um adulto pleno, que já não vive com a mãe e tem a dentição completa, só comê papinha c’a mamã dá.

Ultimamente têm proliferado nas livrarias, pelo menos do Brasil, os romances ambientados em culturas bem distintas da nossa, com destaque para as histórias que se passam em países de maioria muçulmana. Isso se deve à natural curiosidade para com o que é diferente do que conhecemos? É um modismo? Ou faltam bons livros ambientados no Brasil/Portugal?

R. Z.: Nihil obstat, desde que o autor tenha dado o seu melhor. Um autor é livre de escrever sobre o que quiser com o seu tempo livre. E uma pessoa não escreve sobre o que quer, escreve sobre o que pode. Há assuntos sobre os quais eu gostava de versejar, mas sinto/sei que não consigo. Felizmente, com sorte, aparece sempre alguém que o faz melhor.

Em mais de 100 anos de Prêmio Nobel, apenas um único autor de língua portuguesa foi laureado. A que você atribui esta indiferença global em relação aos autores lusófonos? É uma questão qualitativa, lingüística, política ou o quê?

R. Z.: Os suecos são um povo maravilhoso, mas não encontrei nenhuma passagem da Bíblia onde diga: “E a Academia Sueca dirá qual é o melhor escritor do mundo.” Obviamente a limitação é deles, que lêem poucas línguas, e a vergonha é para eles, não para Guimarães Rosa, Clarisse Lispector, Jorge Amado, Lígia Fagundes Telles, João Cabral de Melo Neto, Drummond de Andrade, Moacyr Scliar, Rubem Fonseca…

O que falta e o que sobra na ficção contemporânea, em geral, e na ficção contemporânea em língua portuguesa, em particular?

R. Z.: Sobra truque barato para agarrar o leitor, sobretudo a leitora, falta algum trabalho crítico sobre a linguagem. Os escritores não podem cair na armadilha de dizer o que acham que o leitor quer ouvir – isso é tarefa de político.

O que reserva o futuro ao mercado editorial? O livro impresso está "condenado" a desaparecer? Desmembrando a pergunta: qual é a sua visão sobre o fenômeno da publicação on-line?

R. Z.: Nada contra o online, excepto o facto de não receber a minha percentagem, à qual eu tenho direito, pois não roubei ninguém e filhos tenho só dois. Há espaço para ambos, mas as gerações futuras não vão ter o “amor ao papel” que quem nasceu no meio do século passado tem. Nada de grave.

Que pensa de adaptações para outras mídias – coisa que parece ter ficado tão comum ultimamente: literatura para o cinema, quadrinhos (aqui) ou banda desenhada (aí) para o cinema, true stories para o cinema?

R. Z.: Prefiro sinergias a adaptações. Mas tenho o maior respeito por todas essas formas, de que sou consumidor – e, de muitos autores, admirador.

Qual a resposta à pergunta que uma comunidade de escritores principiantes ou/e pouco conhecidos devia ter feito, mas não fez?

R. Z.: A resposta à pergunta só pode, obviamente, ser uma pergunta: “Qual o sentido do dito ‘ler é escrever, escrever é ler’?” A leitura é um prolongamento, por letras, de um acto que fazemos desde o nascimento até à morte: ler o mundo, ler os sinais, unir os pontos no desenho, não para atingir o desenho que o autor imaginou, mas um outro, sempre um outro.


Coordenador da entrevista:
Joaquim Bispo

Perguntas feitas por:
Henry Alfred Bugalho
Joaquim Bispo
Maria de Fátima Santos
Maristela Scheuer Deves
Volmar Camargo Junior

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
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