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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Encontro com Joaquim Maria- Giselle Sato


Desci a rua do Ouvidor pensando em minhas maiores paixões, as boas graças femininas e a literatura. Não necessariamente nesta ordem:

- O cavalheiro deixou cair este envelope, por muito pouco não se perde, precisei correr para acompanhar seus passos.

- Meu manuscrito! Não sei como agradecer, nem dei conta, o senhor não imagina a importância do que acabou de salvar.

- Ainda bem que percebi a tempo, há uma procissão e as ruas estão tomadas de devotos.

- Um verdadeiro absurdo, em pleno século XIX! Retornei há bem pouco da Europa, as diferenças são alarmantes.

- Devia ter visto antes. Atualmente temos pavimentação, iluminação a gás, transporte coletivo, tudo seguindo os parâmetros das capitais européias. Tempo de ‘’galas novas’’...

- Não quero parecer arrogante, no entanto, a sociedade carioca carece de bom gosto. Os cafés e teatros nunca chegarão aos pés dos Parisienses. O povo mantém hábitos provincianos, não sabem viver na capital.

- Infelizmente, somos uma nação predominantemente rural e analfabeta.

- Certamente. Porque haveria de ser diferente? Sem querer ofender, sou extremamente bem nascido, afortunado com a melhor educação que um jovem poderia sonhar. Sou versado em cinco idiomas. Inclusive o latim, falo fluentemente, melhor que muito padre.

- Percebi no instante em começamos o agradável colóquio. Inclusive, só de ouvi-lo falar, sinto a influência européia.

- Meu caro, onde aprendeu a expressar tão bem suas idéias? Salvo pequenos deslizes naturais, fala o português quase perfeito.

- Sou autodidata, aprendi com muito sacrifício. Tinha tudo para não dar certo. Graças aos livros, sou capaz de manter um diálogo com um homem como o senhor.

- Compreendo, o senhor trabalha em uma oficina. Maneja o maquinário ou algo equivalente?

- Sim, algo equivalente. Trabalho com livros, livros o tempo inteiro. Sabe que o senhor é uma inspiração? Sempre encontro tipos interessantes, dignos de atenção redobrada.

- Como assim? Que tipo de influência, além de ser um exemplo, um ideal a ser copiado...

- O senhor é muito modesto. ''Haja à vista'', a inspiração preciosa, sou eternamente grato.

- Por sinal, o que posso fazer para demonstrar minha gratidão?

- O senhor já agradeceu, é o suficiente.

- Se algum dia precisar, freqüento a livraria Garnier,quase diariamente.Fica logo adiante, no final da Rua do Ouvidor.O único lugar decente desta cidade.

- Quase uma pequena Paris. Senhor?

- Que esquecimento! Oliveira Neves, mas pode me chamar por Joaquim Maria. Meu nome de batismo.

- Machado, muito prazer. Que coincidência, homônimos! Quase esqueci, tenho uma reunião daqui a pouco no Jornal do Commercio . Com licença, preciso ir andando. Passar bem,senhor Oliveira.

Que homem estranho, ofereci uma pequena ajuda e partiu furioso . Homônimos, era só o que me faltava! Um quase negro, um pouco mais letrado, pensando que me engana. O que esperava? Que o convidasse para um café? Decerto imaginou que havia algum dinheiro no envelope. Devolveu esperando uma boa recompensa, depois fez ares de ofendido.

Ah! As jovens senhoras, fina flor da sociedade. Que visão! La jeunesse dorée , apreciando as modas , fazendo compras, tomando o ar fresco. Algumas são cortesãs disfarçadas em busca de romance. Se a sorte for benfazeja, ofereço meus préstimos, carrego alguns pacotes e falo um pouco de francês. Voilá! Convido para um chá na confeitaria, acompanho até a residência...

Finalmente a livraria, um lugar com certa exclusividade, longe dos pobretões que embaçam as vitrines. Sinto que estou no meu mundo, escritores, intelectuais, políticos:
- Joaquim, Joaquim Maria. Quanto tempo! Que bons ventos trouxeram meu melhor amigo de volta?

- Pacheco Leitão! Que prazer, cheguei semana passada. Mas já estou querendo voltar.

- Joaquim, não seja tão severo! Faz parte da nata da sociedade, freqüenta festas maravilhosas, cassinos, usufrui do bom e do melhor. E nem mencionei os bordéis! Não é suficiente?!

- Sim, o suficiente para quem se contenta com pouco. Quero muito mais, hoje entrego meu primeiro romance para impressão.

- Um amigo escritor é uma honra e tanto. Está com sorte, hoje chegou o último de Machado: Memórias Póstumas de Brás Cubas. É uma obra-prima, todos estão comentando. Se bem que Machado sempre surpreende.Quando pensamos que já lemos o melhor, eis que surge algo desconcertante.

Senti um pequeno desconforto ao ouvir aquele nome, o segundo Machado em uma tarde. Para não ser grosseiro, folheei o livro, um pouco desatento. No primeiro parágrafo, senti que não conseguiria descansar, até completar toda leitura.
Extraordinário estilo, perfeito em todos os aspectos, tão bom que senti vergonha do meu manuscrito.

Fui para casa terminar a leitura do romance. Não pude controlar a inveja, o rancor, o ódio pelo tal escritor brasileiro. Seis anos jogados no lixo, meus sonhos desfeitos em uma tarde, minha existência reduzida ao limbo. Por um Machado, um machado destruidor de sonhos.

No dia seguinte, mais calmo, soube que o escritor, recém eleito meu favorito, estaria na livraria. O espaço estava apinhado de gente vinda de todos os pontos da cidade. Muitos aplausos anunciaram a chegada. A turba ruidosa, movimentava-se impedindo a visão de seu semblante. Quando consegui espaço suficiente, reconheci o homem que havia salvo meu envelope. Quis morrer naquele instante:
- Pacheco, está abafado demais, preciso sair um pouco e respirar.

- Mas logo agora? Vai perder a leitura, Machado vai nos dar a honra do primeiro capítulo.

- Então fique e aproveite, não precisa me acompanhar. Insisto que fique, é seu autor preferido.

- Imagine, nunca abandonaria o amigo, faço companhia até que melhore e retornamos.

- Pacheco, deixe-me em paz! Preciso respirar, estou angustiado.

- Não precisa ser grosseiro,não quer ser visto com um simples comerciante. Hoje está no meio dos seus, não precisa da companhia do velho amigo Pacheco. Não tenho seus estudos, meus pais não me mandaram para Europa. Minha mãe achou um desperdício, meu pai mal sabe assinar o nome, e agora esta desfeita...

Deixei meu amigo falando sozinho, nunca tive paciência para ouvir sermão, muito menos do Pacheco. Perdi a noção do tempo enquanto caminhava, o peito transpassado de vergonha. Não havia percebido a fina ironia no breve diálogo com o mulato ardiloso.

Enxerguei o romance por um novo ângulo. Agora eu via a desfaçatez mascarada nos diálogos dos personagens,a personalidade complicada dos protagonistas, a estratégia da redação confusa e angustiante.
Senti que naquele instante nascia minha verdadeira vocação. A vida ganhava um novo sentido, tecia planos de publicar uma crítica devastando cada obra. Planejava vasculhar cada linha, sonhava de olhos abertos com o reconhecimento público.

A aversão machadiana crescia como um tumor pestilento. Esquecido da vida, os sentidos embotados pela vingança, não percebi o veículo descontrolado. Por ironia do destino, um importado inglês, mal conduzido por um jovem inexperiente.
Morri.

Joaquim Maria morreu, morreu atropelado em plena Praça da Constituição. Há poucos metros da famosa Tipografia Dois de Dezembro. Na hora do acidente, lotada de escritores e intelectuais.

Meu último pensamento... a existência inútil. Não deixei qualquer legado. Nem filhos, nem obras, nem saudades, nem amigos... Fui um farsante, pedante, esbanjador e mentiroso. Expulso da própria casa após a descoberta das vilanias praticadas na Europa. Agora, uma alma incompetente.

Contudo, carrego o consolo, um sonho questionável e anônimo: Ter sido a inspiração, ainda que fugidia, de Joaquim Maria Machado de Assis.

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2 comentários:

Excelente o desencobrir progressivo dos personagens e o interessante desenlance de estar lendo uma narrativa de um morto, tal qual o Brás Cubas, pivô da desgraça do narrador.

Parabéns, Gisele!

Vejamos agora se a Márcia, a viciada em Machado de Assis, vais adorar o conto.

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