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sábado, 16 de agosto de 2008

Entrevista com Laura Bacellar



Laura Bacellar trabalha em editoras desde 1983. Começou na Editora Paz e Terra como estagiária e já ocupou todas as funções editoriais – de produtora na Hemus a editora chefe na Brasiliense. Fundou e dirigiu o primeiro selo editorial inteiramente dedicado às minorias sexuais, Edições GLS. Já foi editora em casas pequenas, como a Mercuryo, e enormes, como a Scipione. Sua especialidade é não-ficção, mas edita também paradidáticos, literatura adulta, literatura infantil e interesse geral. Escreveu três livros como ghostwriter e um com seu próprio nome, Escreva seu livro – guia prático de edição e publicação, pela Editora Mercuryo. Adaptou cinco clássicos do inglês, Robinson Crusoé, Drácula, Sherlock Holmes, Frankenstein e Rei Artur, para a editora Scipione e escreveu uma outra obra infantil, Mini Larousse da educação no trânsito, para a Larousse do Brasil em 2005. É co-autora, com o índio cariri Tkainã, do juvenil Mãe d'água pela Scipione. Dá cursos regularmente para autores e editores em instituições como a Universidade do Livro, ligada à Unesp. Mantém o site www.escrevaseulivro.com.br, que é bastante utilizado por editores para instruir autores que os procuram. Atualmente trabalha como free-lancer para várias grandes editoras e é responsável pela Editora Malagueta, a primeira editora dirigida a lésbicas do Brasil.


SAMIZDAT: Laura, como você percebe a relação das editoras com a literatura que tem surgido na internet? Os editores têm prestado atenção no que ocorre no mundo virtual ou ainda preferem os métodos tradicionais para selecionarem autores inéditos?

Laura Bacellar: Claro que só posso falar sobre os editores que conheço, certo? Mas entre esses profissionais meus colegas, a internet é vista como algo sem muitos critérios de qualidade, sem seleção prévia. Assim, ficar lendo textos na rede chega a ser pior do que ler os originais que chegam sem ser solicitados às editoras, porque pelo menos para enviar um texto para análise o autor tem um trabalho mínimo, enquanto que para colocar alguma coisa na internet parece muitas vezes não haver nenhum esforço ou custo.

Pessoalmente, as poucas vezes em que naveguei em sites de textos de ficção, fiquei um tanto escandalizada com a falta de respeito pela língua portuguesa e pelas convenções mais básicas sobre como contar uma história. Há uma quantidade imensa de textos ruins online, ainda que misturada a muita coisa boa, o que desanima quem queira fazer uma seleção.

Por outro lado, há os blogs de pessoas inteligentes, há sites bem escritos, há revistas interessantes que permitem aos editores localizar especialistas articulados em determinadas áreas, há discussões em fóruns e toda uma gama de atividades intelectuais que podem servir de vitrine para escritores.

Assim, para responder à sua pergunta, eu diria que editores ainda preferem escolher autores de ficção que existam fora da rede, mas usam a internet para verificar a abrangência de opiniões daquela pessoa, o que existe sobre ela, se ela tem contos ou artigos já publicados em algum lugar, se já fez parceria com alguém e todo tipo de informação que é útil ter sobre um autor.

Diante de um país como o Brasil, onde a leitura está longe de ser algo que realmente faça parte da cultura cotidiana, como fica o interesse das editoras em lançar novos escritores?

L.B.: Olhe, é impossível generalizar a atitude das editoras, porque elas são muitas. Há desde editoras que caçam apenas um possível sucesso comercial até aquelas que são projetos de vida, dedicadas a publicar talentos raros. E no meio também tem de tudo, passando pelas que publicam os amigos, as que são cooperativas de autores para se auto-publicar, as que arriscam algo diferente de vez em quando, as que só publicam clássicos, as que só olham para os estrangeiros premiados fora do país, etc, etc.

Publicar é um negócio de risco, e um escritor desconhecido de ficção é o maior risco que existe. Dali pode brotar um sucesso sensacional ou uma reputação prestigiosa, mas também pode não acontecer absolutamente nada. Há autores que não vendem nem dez exemplares por ano!

Os editores usam tudo o que sabem – experiência, prêmios, tendências no exterior, gosto pessoal, conversas com o público, atenção da mídia – para apostar nos autores que lhes pareçam mais interessantes.

E o quanto investem em possíveis novos talentos depende das editoras em que trabalham, da margem que têm para puro risco, do perfil de aventura ou tradição cultivado pela casa.

Nos EUA e Europa, os agentes literários representam um papel importante no mercado, servindo de ponte entre autores e editoras. Este modelo poderia ser reproduzido eficazmente no Brasil? Quais seriam as vantagens desta intermediação para um autor inédito?

L.B.: Sim, esse modelo ajudaria bastante nosso mercado. O problema principal das editoras é justamente triar o que tem certa qualidade e depois trabalhar com o autor de forma a chegar num texto publicável, já que a grande maioria dos autores não sabe como produzir um texto acabado. Os agentes fazem isso lá fora, mas a um custo. E eles existem num mercado que têm muito mais intermediários do que aqui. Qualquer universidade merreca lá tem cursos e mais cursos de escrita criativa, de fantasia, de roteiro, de criação de personagens. O escritor americano e canadense e europeu tem muito mais oportunidades de aprender e refinar sua escrita de maneira calma, num ambiente profissional, do que o brasileiro.

Aqui os cursos são poucos e conheço apenas uma agente que trabalha com autores iniciantes.

Assim, nossos escritores iniciantes são realmente iniciantes, não entendem nada do processo editorial, em geral não conseguem separar uma crítica ao texto de uma crítica pessoal, não têm noção de público e adequação de estilo, são super inseguros, de modo geral super ansiosos e difíceis de lidar.

Se houvesse uma batelada de agentes explicando para essas pessoas o que é o quê, sem dúvida cumpririam a missão de funcionar como interface entre eles e os editores. Facilitaria bem o trâmite e é provável que aos poucos venha a acontecer, já que os editores têm cada vez menos tempo para essa educação do autor, mas o mercado está super ativo.

O que você pensa das editoras que trabalham sob demanda? Qual a importância delas no mercado literário?

L.B.: Acho que elas cumprem a função de atender ao autor que quer ser publicado por razões pessoais, que não envolvem necessariamente uma interação com um público que não o conheça previamente. Mas para lançar autores no mercado, pelo que tenho visto esses prestadores de serviço não funcionam.

Estão criando um ambiente perigoso, aliás, de contar lindas histórias, prometer várias coisas bem vagas e extrair quantias respeitáveis dos autores.

Eu não vou me estender aqui sobre isso porque é um assunto enorme, mas vou dar uma dica: se a editora pede que o autor “contribua”, “arque com os custos de produção”, “invista na divulgação” ou qualquer outra frase bonita que subentenda colocar a mão no bolso e pagar alguma coisa, não se trata de uma editora, mas de um prestador de serviço. Se é um prestador de serviço, então o autor deve com todo o cuidado avaliar a relação custo-benefício. Quais são os serviços que serão prestados exatamente? Qual a garantia? Que exemplos de serviços já prestados a outros autores a empresa pode dar?

E, como com todo serviço, é bom olhar em volta e comparar preços.

A chamada “literatura espírita” é um segmento que tem parte considerável do mercado literário. A maioria das obras é publicada por editoras especializadas e têm o lucro revertido para o movimento ou entidades relacionadas - as chamadas obras básicas, por exemplo, são editadas pela própria Federação Espírita. Outros autores, bem menos proselitistas, seguem a mesma linha, estando, em geral, entre os mais vendidos.

Um escritor que iniciou a carreira vendendo obras quase como "manuais de prática mágica" é Paulo Coelho. Seus livros sempre foram grandes sucessos e, até hoje, ainda vendem muito.

Qual sua opinião sobre esse fenômeno? Como você o explicaria?

L.B.: Ora, as pessoas gostam de ler obras que expliquem os mistérios do mundo. Se o autor é convincente e passa credibilidade, encontra leitores.

Qual é "o segredo" da Rhonda Byrne?

O Jornal O Povo, em sua versão online de 31/07/07, publicou a notícia “O Segredo é novo fenômeno editorial”, onde se encontra o seguinte trecho:

Versão impressa do documentário homônimo filmado em 2006, a publicação criou uma espécie de "segredomania'' nacional, dando origem a outros lançamentos na mesma linha. Recheada de frases e histórias que demonstram que o pensamento é o responsável por tudo o que ocorre de bom ou ruim na vida das pessoas, a publicação mostra como a força do pensamento pode modificar a vida de todos.

Essa estratégia de pegar a mesma onda dos títulos que estão fazendo muito sucesso não é novidade. Com sua experiência, acha que funciona?

L.B.: Em parte, sim. Tem muita gente que ouve falar de alguma coisa mas não sabe bem o que é. Assim, ao entrar numa livraria, compra o primeiro título que lembra aquilo que está sendo tão comentado, sem se dar conta que sequer é a obra original. O Quem mexeu no meu queijo gerou uma série de cópias semelhantes e várias delas tiveram vendas bem razoáveis. Mas claro que isso só pode ser praticado por uma grande editora, que tenha um bom relacionamento com as redes de livraria. Uma cópia por uma editora pequena sem expressividade de distribuição não sai do depósito.

Mas O segredo está mais para Paulo Coelho do que para cópia...

No site "Escreva seu livro", você reproduz algumas dicas de Jean Bryant sobre o que o aspirante a escritor não deve fazer. Entre elas, estão "faça muita pesquisa antes", "espere até estar inspirado" e "deixe para depois" - ou seja, algumas das desculpas comumente utilizadas para postergar a escrita. Você acha que esse é um mal do escritor iniciante, o fato de encarar a escrita como uma arte que depende apenas da inspiração, esquecendo-se do fato de que é preciso também transpiração, ou seja, trabalho metódico e disciplinado?

L.B.: Há vários tipos de personalidade, o que leva a vários tipos de problemas com a escrita. Os muito autocríticos tendem a querer se certificar demais de que está tudo certo e aí empacam no mesmo texto para sempre. Os muito autoconfiantes acham que qualquer coisa que produzam está ótima e nem precisa de releitura. Os muito sonhadores ficam imaginando tudo que receberão de prestígio e dinheiro antes mesmo de tocar um dedo numa tecla. Os preguiçosos só falam sobre suas histórias. E por aí vai. A autora que cito deu muitos daqueles cursos de escrita tão numerosos lá nos EUA e portanto tem experiência com uma série de bloqueios comuns de escrita, mas não são os únicos.

Eu não diria que ser metódico e disciplinado é o único caminho para a escrita, mas que sem dúvida a pessoa precisa dar uma olhada para seus próprios hábitos e localizar o bloqueio caso deseje escrever e não esteja conseguindo.

Há quem diga que, para se tornar um escritor profissional, é preciso suportar, pelo menos, 15 anos de rejeição. Tomando isso como verdade, como esse tempo poderia ser diminuído?

L.B.: Virginia Woolf dizia que ninguém devia ser publicado antes dos trinta anos de idade, hehehe.

Eu não acho que ninguém deva se preparar para a rejeição, mas acho muito útil abrir os olhos. Se você der uma olhada nos comentários postados no meu site, vai encontrar uma reclamação repetida por vários: eu sou dura, furo o balão dos sonhos, jogo baldes de água fria.

Eu sempre abro as mãos e olho para cima em perplexidade quando leio algum desses comentários. Então a pessoa prefere sonhos sem base na realidade? Prefere embarcar em lindas histórias de prestadores de serviço que lhe arrancarão o preço de um carro novo? Prefere achar que vai ganhar o prêmio Nobel de Literatura do ano que vem?

O quanto antes o escritor novato se livrar desses delírios, tanto melhor para sua carreira. O quanto antes se livrar da noção de que a literatura é produzida num vácuo, que não depende em nada do mundo ao redor, tanto melhor.

A escrita, como qualquer carreira, depende de uma conjunção de vários fatores, incluindo talento, dedicação e sorte. Todos podem ser cultivados (quem sabe lendo O segredo você muda sua sorte, hehehe), mas não há dúvida de que a dedicação rende bons frutos. E não quero dizer a dedicação de escrever feito um maníaco, apesar de este ter sido o caminho de escritores ótimos como Jack London, mas sim a dedicação de entender o que está acontecendo em volta.

Porque as pessoas gostam de tal obra? O que esse escritor está dizendo que atrai os leitores? Por que as editoras publicam esse tipo de autor? O que essa autora diz que tanto seduz seu público?

Já vi várias ocasiões em que o autor finalmente teve um momento aha! e adaptou a sua obra, sendo publicado em seguida.

Ou seja, entender o lado de trabalho, o lado de construção das obras, o lado não romântico da escrita. Não há nada de errado com a inspiração, mas sem os pés na realidade a carreira a meu ver não decola.

Qual sua opinião sobre concursos literários? Acredita na eficácia e valor deles no incentivo à produção literária?

L.B.: Sim quando são sérios. Eles incentivam as pessoas a escrever e entregar num determinado prazo, dentro de condições específicas e oferecem a possibilidade de um prêmio – muitas vezes nada simbólico – como incentivo. Mais ainda, dão a certeza de que a obra será lida por pareceristas atentos.

Nenhuma escolha é isenta de vieses, claro, mas sei de vários casos em que os prêmios de fato abriram caminho para que escritores até então inéditos fossem publicados e recebidos com simpatia pelo mercado.

Claro que nada disso vale quando o prêmio é um jogo dentro de uma panelinha...

Ainda no site “Escreva seu livro”, há várias dicas de como um escritor pode facilitar a publicação de seu livro e como a utilização realista e fundamentada das políticas editoriais contribui para o possível sucesso dele. Diante disso, o que você pode nos falar de sua obra “Escreva seu Livro – guia prática de edição e publicação”? Ela foi planejada segundo as próprias dicas dadas? Esta abordagem funcionou?

L.B.: Sim, eu escrevi o livro com base nas necessidades que sentia nos autores, com base em minha experiência de vários anos como editora. Note que deixei de lado reminiscências, causos e outros assuntos que poderiam ser divertidos para mim mas não iriam auxiliar em nada meu público potencial, além de poderem tornar a obra grande e cara.

De certa forma errei ao publicá-lo em uma editora genérica como a Mercuryo e não em uma especializada em comunicação. Meu raciocínio foi o de que toda editora, afinal, trata com autores, este é um assunto básico para qualquer casa editorial, mas não fui esperta. Meu assunto era comunicação e eu deveria ter tido a paciência de encontrar uma editora focada. Qualquer hora corrijo isso publicando outra obra sobre editoras...

A equipe editorial da SAMIZDAT agradece muito sua participação e deseja todo sucesso em seu trabalho!


Coordenador da entrevista:
Carlos Alberto Barros

Perguntas feitas por:
Carlos Alberto Barros
Henry Alfred Bugalho
Maristela Deves
Naldo Gomes
Volmar Camargo Junior


Site da entrevistada: www.escrevaseulivro.com.br

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4 comentários:

A entrevista com a Laura ficou ótima!!!

Ao contrário dos leitores dela que escrevem criticando-a por ela ter posto um fim a seus sonhos, eu acho que uma dose de realidade nunca fez mal a ninguém. É muito mais fácil superarmos os obstáculos quando sabemos quais são.

assino em baixo, henry!
realmente, a entrevista está muito bem montada, e útil!

Idem. Bom trabalho, especialmente o do Carlos, que montou a entrevista.

Também curti muito!
A Laura se mostrou muito atenciosa e respondeu todas perguntas com grande propriedade sobre o assunto. Totalmente pertinente a nós, escritores. Um aprendizado e tanto!

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