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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Exame último

Cambaleio e é com coragem que sigo e olho em frente e fito um por um os meus interlocutores. Meus olhos castanhos gastos, cansados não me respondem e não correspondem atempadamente a todos os meus anseios. Toda eu sou tormento e dor quando entro trémula em silêncio na sala grande e fria. E já não consigo ser eficaz. Não tenho mais a capacidade de estar a sós comigo mesma e nessa calma ver com a clareza e discernimento de antes. Sempre omnipresente está a dor! A muito custo mantenho minha presença e compustura. e meu ânimo já não é o que era. Tenho a doença, aquela doença, sabem !... E sei que minhas hipoteses de cura são extremamente reduzidas. A radioterapia e os outros tratamentos provavelmente não farão mais do que adiar um pouco o que já é inevitável.

Relembro os inúmeros testes desde a infância e meninice escola doce até à Universidade imponente e austera, de Coimbra, onde fui aluna regular na maior parte das matérias e até acima da média, quase exemplar em algumas cadeiras, as minhas preferidas. Onde troquei as festas e farras pelo aturado estudo noite dentro, noites e noites a fio, tanta vez... Recordo meu início de carreira, meus ideais, meu empenho pelo ensino nesta profissão que amo e à qual me fui habituando a dar tudo. Lembro o riso e o choro, a solidão e o namoro, a força de minha mocidade. E as exigências e apoio contante de meus pais que já se foram, bem hajam, Deus os tenha.

E sinto medo. Porque hoje vou a exame e este teste é diferente, de todo desprovido de qualquer estudo ou preparo. O resultado não depende de mim mas sim deles. Daquele grupo de desconhecidos que se perfila ao fundo por detrás da secretária. Serão humanos ou será que serei para eles apenas mais um número, roda dentada de métrica de eficiência e contenção de custos de tostões onde se continua gastando milhões sem quê nem porquê? Não sei. Por isso estou temerosa. E espero...

Uma voz lá do fundo, clara e fria, mecanográfica ordena que me levante. A deliberação vai ser proferida. Estou ansiosa, é o momento que chega. E ouço incrédula a decisão. Na qual eles dizem que a incapacidade alegada não é devida. Que deverei voltar e terei de me apresentar ao serviço fazendo o mesmo de sempre (provavelmente com as exigências de sempre). Quase não acredito, solto uma lágrima. Quero gritar mas não sou capaz. E fito as faces incrédula. Procuro em vão ajuda e compreensão mas não encontro pessoas, apenas rodas dentadas, cuidadosamente programadas e instrumentalizadas.

De repente percebo tudo e vejo que nada adianta lutar contra essa máquina surda. Que me aprova! Má sorte passar neste exame sem exame. Meu último!

P.S:
Meu personagem é inteiramente fictício. No entanto a história se inspira em factos bem reais. Em Portugal vários professores foram considerados aptos para continuar suas funções após análise pela "Caixa Geral de Aposentações" apesar de padecerem de doenças graves como o cancro. Alguns já faleceram. Felizmente que agora (mais vale tarde que nunca) estão fazendo algo para evitar esse tipo de situações.

Aproveito para apresentar extracto de notícia do jornal "O Público" na Net

"... A Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) garante que a Escola Alberto Sampaio, em Braga, garantiu "todas as condições humanas" ao docente recentemente falecido que a Caixa Geral de Aposentações havia considerado apto para leccionar, apesar de ter cancro na traqueia."

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1 comentários:

Está aí um texto seu que eu não conhecia, José. Muito forte e inquietante.

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