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domingo, 17 de junho de 2018

Livre epiderme



Livre epiderme







     A mão esquerda voltou a ser o que era, livre epiderme. Um dos dedos, o segundo, retornou ao seu estado inicial. O metal nele arranhava a grua do ônibus, o banco e a mesa de pedra. Sempre se ouvia quando tocava o mundo, lembrando que o vínculo era físico e sonoro. A pele não era mais pele, era pele e metal opondo-se às coisas. Agora, nada opõe-se ao mundo, a pele é novamente pele, única como sempre foi. As digitais da mão estão de volta, a mão que cumprimenta, segura, abraça, sem muita habilidade, mas com toda a vontade, agora, de volta ao contato puro. Sem intermediação.






























sábado, 16 de junho de 2018

Dos pesos

Duas calças, um vestido preto, um edredom de listras azuis. Confere. Já deixei pagos. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda para guardar no porta-malas. O porta-malas está cheio; não cabe mais nada. Tem uma mala lá dentro. Tamanho gigante. Comprei hoje. Sim, no banco de trás pode ser. Mas é tão pouco peso que eu aguento sozinha. Eu aguento carregar até coisa mais pesada. Sim, eu volto semana que vem. Vou trazer mais peças. Dois conjuntos de blazer e saia, e um terninho. Não, não é tudo a mesma coisa. Terno tem calça. Conjunto pode ser de qualquer coisa. Tailleur. Chamava assim. Tinha que ser com saia. Terninho chamava slack. Acho que sumiram com um monte de palavras estrangeiras de uns anos pra cá. Os estrangeiros não sumiram. Só as palavras. Tem um francês que mora em cima de mim. Não. Acima. Não fede nem cheira. Tem cheiro de europeu, só isso. Bonito. Ô! Bonito. Se morasse em cima de mim eu ia gostar. Tem cara de bom amante. Faz barulhos de bom amante. Barulhos que não acontecem mais lá em casa. Mas ele mora acima. Infelizmente. Ninguém sumiu com ele como sumiu com as palavras estrangeiras. Vai ver é porque ele trepa bem. Tailleur e slack não deveriam ser lá essas coisas na cama dos linguistas. Dispensados com desonra. Tem doisedredons também pra próxima semana. O estampado com flores e o cor-de-rosa. Pesados. Mas eu aguento peso. Como estas onze sacolas cheias de comida. Penduradas em duas mãos. As minhas. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda pra guardar no porta-malas. O porta-malas está cheio. Tem uma mala lá dentro. Gigante. Comprei hoje. Mas eu já disse isso. Pra moça da lavanderia. No banco de trás, agora, também não cabe mais nada. Tem duas calças, um vestido e o edredom de listras. No chão do carro? Pode, sim. Atrás. Cinco sacolas de um lado, cinco de outro. São só sacolas de comida mesmo. E uma vai comigo no banco da frente. Precisa, sim. Faz as contas. Onze não se divide por dois. Nem nove, nem sete, nem um. Eu não tenho TOC. Eu gosto de números ímpares. Por exemplo: um dia. Sem dividir por dois. Um prato. Um travesseiro. Uma toalha. Uma televisão. Sem dividir por dois. Todas as novelas; a das 6, a das 7, a das 9. Sem dividir o controle remoto. Nem a tela. Telejornal, não. Cansa. A cara certinha do William B. cansa. Menos a boca. De quem beija bem. Os certinhos sempre são os mais tarados. Como ex-seminarista. Dormi com um, faz anos. Banquete pra muitos talheres. Repressão liberada é fogo. É um tira-atraso toda hora. Menos na hora do telejornal. Telejornal corta qualquer tesão. Acidente, corrupção, futebol. Morte todo dia. Na tela. Na vida. Um peso danado. Mas eu aguento peso. Eu já falei isso também. Subi com um engradado de cervejas. Geladas. Tomei todas. De dia mesmo. Fiz a mala gigante antes da hora do jantar. Desci com ela depois do jantar. Pesada. Levando o que tinha que ir embora. Eu aguentei o peso. Não disse que aguentava? Agora, só falta guardar a mala no carro. Pesada. Dentro dela, o que não é meu. E se não é meu, vai embora. Vai sumir. Como sumiram o tailleur e o slack.
Boa noite. Não, obrigada, eu não preciso de ajuda pra colocar a mala no porta-malas. Não! Tira a mão daí! Larga essa mala, porra! 






terça-feira, 5 de junho de 2018

ampulheta




enquanto tivermos tempo
haverá o sonho
o gosto
o cheiro

um cigarro aceso
no cinzeiro

uma gota 
para transbordar o copo

alguma chance 
de sermos verdadeiros

entre medos
erros e poemas tortos

um suspiro 
antes de dizer 
já chega





segunda-feira, 28 de maio de 2018

ARTEIRO



Quando menino, sonhava em ser mágico. A velha fralda que se fazia de reluzente capa e a varinha improvisada com um galho de cajueiro renderam-lhe os poucos momentos realmente felizes de sua vida. Seus números mais notáveis consistiam em transformar pedras em calangos e fazer desaparecer as pitangas atiradas à cisterna. Tinha como plateia a cadela Nanica, uma gasta fotografia de Vó Benta e a cabeça de uma boneca, encontrada à beira do córrego que cortava a fazenda dos Calixto.

A mãe não gostava daquelas brincadeiras que distraíam o menino do trabalho no plantio e da instrução religiosa. Indiferente às súplicas do filho, o ramo delgado foi partido ao meio e a indumentária esvoaçante transformada em pano de chão. Fazer o quê? Era para a graça de Deus e bem de seu rebento.

Teimosa, a magia perseverou clandestina até a primeira seca, quando se transformou em desgraça. O pai ― pendurado pelo pescoço em um caibro da pobre casa de taipa ― havia realizado seu último truque: Escondera a própria alma em um pecado sem perdão.

Após o agourento sumiço da cachorra e antes que a terra rachada se partisse de vez e os engolisse faminta, decidiram fugir para a capital. Lá eu serei artista de televisão, fantasiava o menino à medida que se esquecia das bolhas dolorosas que se formavam em seus pezinhos errantes. Quando chegassem à rodoviária, a mãe tocaria pandeiro, ele cantaria para os passantes e, com o apurado, comprariam duas passagens só de ida. Talvez sobrassem alguns miúdos para um sanduíche de pão com ovo antes do sonhado embarque.

Retirantes, estrangeiros na metrópole, alojaram-se no barraco de um parente que os obrigava a trabalhar mais do que um dia haviam lidado no campo. A fim de garantir o teto de zinco sobre suas cabeças, a mãe cedeu aos abusos do cunhado e o filho ao sadismo do tio. Sofriam agarrados aos santos que, cansados de tantas súplicas, fingiam-se de barro.

Todos os dias, sob um sol de cozinhar cabelos em suor, o pequeno vendia limões nos sinais, enquanto olhava para dentro dos carros e sonhava com a vida daqueles outros meninos, de mochilas repletas de histórias e lancheiras que não conheciam uma tarde de fome e sede.

Os limões e o sol giravam no ar. Orbes, esferas, movimento. Poucos assistiam ao espetáculo do engenhoso malabarista e ninguém se dignou a aplaudi-lo. O sinal abriu no mesmo instante em que uma bofetada do tio despertou-o de suas criativas escapadas. Um motoqueiro riu da agressão e, malvado, passou de propósito por cima de um dos frutos caídos.

― Acunha, estropiço! ― gritou o tio, ao arrancar o sobrinho de sua solitária apresentação ― Se tu quengar minha mercadoria, eu te cubro de cascudo e sabacu. Tu tá pensando que é o quê?

― Eu sou artista! ― gritou o menino. Depois, meteu o pé na carreira. Vagueou por horas, até suas magras pernas não aguentarem mais sustentar o corajoso equilibrista que era.

Em uma torneira de jardim, tomou um generoso gole d’água e refrescou sua nuca. Menos afogueado, deu-se conta de que se encontrava em uma praça viçosa, arborizada. Deitou-se para descansar em um dos bancos de madeira e encolheu seu frágil corpo até desaparecer diante do olhar daqueles que por ali passavam.

Sob o manto da noite que se insinuava, sua inquieta cabeça formulou um último pensamento antes do porvir:

― Amanhã, vou ser domador de fera ― sussurrou para si mesmo o jovem artista e, em seguida, adormeceu menino pela última vez.  


Emerson Braga






sexta-feira, 25 de maio de 2018

A angústia do dirigente na iminência do embate



Estou nervoso, Lampreia!; acha que vamos conseguir mostrar um bom jogo no domingo?
Presidente, estou convencido que vai ser dos melhores da temporada.
Ah, ótimo! Adoro desfrutar de uma partida de futebol, no seu conceito mais puro: o embate vigoroso entre duas equipas de garbosos mancebos, virtuosos no tratamento de uma bola com os pés, envolvidos numa sã competição inspirada no lazer varonil, e comandados por duas mentes altamente estratégicas que analisam ao pormenor as forças e as fraquezas da equipa adversária.
Felizmente, nisso, somos dos melhores.
O adversário é difícil, hem!?
Muito difícil! Tive de chegar aos oitenta mil.
Então, quer dizer que estamos com força anímica para vencer!
Com tendência para 3–1. É o que está combinado.
1?
Presidente, fica sempre bem um golo de honra, para abrilhantar a nossa vitória.
Mas, a forma física deles parece estar em alta.
Sim, mas a preparação física de véspera vai incluir uma jantarada bem regada. Só para alegrar um pouco a noite.
Jantarada é uma boa solução. E os nossos, estão motivados?
Muito! Já lhes lembrei que a claque ficaria muito aborrecida se eles não se esforçassem.
Ah, pois ficaria! E não é para brincadeiras…
Para nenhum se esquecer disso, já marquei uma conferência de balneário para a próxima terça.
Conferência de balneário parece-me bem. E os árbitros?
O costume: fruta ou chocolate, conforme os gostos. Fruta russa e chocolatinhos de Cabo-Verde.
Não há nenhum com gostos menos exóticos?
Um preferiu um voucher para uma digestão em Ibiza.
Muito bem, Lampreia! Gosto de ver tudo bem encaminhado, mas, sabe, às vezes, temo que este desporto transmita, aos mais novos, uma imagem de competição desregrada; que se perguntem onde fica o desporto pelo desporto, o prazer do esforço físico, o ideal de que o importante não é a vitória, mas sim a participação.
O clube tem sempre esse lema como bandeira: participação. Queremos que as claques compareçam massivamente no estádio, com todos e com tudo — cornetões, matracas, very lights — sobretudo quando a bancada adversária for poderosa ou os árbitros pouco propícios. A bola é redonda e o nosso clube não tem proteção celeste, digamos assim; precisa de ajuda.
Muito bem, Lampreia! E a pedagogia social, o fair play, a gentileza para com o adversário? Não nos esqueçamos que os jovens copiam, na vida de todos os dias, o que observam em campo!
Se o Paulinho Quebra-ossos tiver de meter os pitões na cara do Juvenal Gazela e lhe quebrar os queixos… é chato, mas é a vida. Às vezes, é a única maneira de acalmar um espírito demasiado fogoso e impedir um golo certo. Só podemos esperar o fair play do Juvenal de dar a outra face, não é?
Isso mesmo. Aprecio o espírito cristão.
Os espectadores gostam sempre de ver uma boa metáfora bíblica. Estamos à espera de quarenta mil.
Como é isso, Lampreia? Pensei que o estádio só comportasse trinta e três mil!
É! Não pude suportar a imagem de sete mil rostos juvenis, chorosos por não conseguirem ingresso.
Ah! Muito bem, Lampreia!; vejo que tem bom coração.
Obrigado! O desporto sadio toca-me fundo. Acredito que é o melhor sustentáculo de mentes saudáveis e um formidável gerador de cidadania responsável.
Estou absolutamente de acordo. Isso e uma imprensa livre.
Sim, sai amanhã mais uma dose das escutas aos nossos adversários, e que já enviei aos jornais de referência: Offside, Penalty e Hat-trick.
É isso que precisamos — jornalismo desportivo de investigação.
Já avisei os repórteres que a avença está a pagamento.
Perfeito, Lampreia! O desporto deste país nem sabe quanto lhe deve. Nem o clube de todos nós.
Cerca de seis milhões. Já fiz as contas. Mas não se preocupe — o perdão do empréstimo bancário do Banco Benemérito Nacional ao clube já está assegurado.
Nem sei como lhe agradecer, Lampreia!
Sugiro um apoio vigoroso do clube à minha candidatura autárquica!
Pode contar com ele, Lampreia! Um amigo na Câmara é bom para o clube e é bom para o desporto. Bola para a frente!

Joaquim Bispo

*
Imagem: Jean-Baptiste Oudry, Uma Lebre e uma Perna de Cordeiro, 1742.
(Natureza Morta)

* * *






segunda-feira, 21 de maio de 2018

Diva


Entrou um tanto cabisbaixo na loja de lingerie do shopping congestionado pelo temor em ser reconhecido. Tremia ante a possibilidade de deparar-se com alguma amiga da sua esposa em tão inusitado local para uma figura masculina. Perguntas maliciosas certamente seriam a tônica do hipotético encontro. Logo ele, um preservador de sua imagem de homem integro, temente a Deus até as entranhas, bom pai de família, marido exemplar. Fez menção em dar meia volta e abortar o plano traçado há meses quando uma vendedora aproximou-se exibindo um sorriso artificial, perguntando-lhe o que desejava. Suores transbordavam de sua face, traçando afluentes pelo pescoço, empapando o colarinho. Pediu uma calcinha vermelha. “Qual o tamanho?”, inquiriu a vendedora. “A menor que você tiver”, respondeu timidamente. Comprou ainda um sutiã, cinta-liga e meias, todas escarlates como a calcinha, sendo esta minúscula, menor do que já se poderia ser chamado de um modelo indecente.
Continuou sua insólita romaria por uma loja de sapatos. Comprou um salto alto, agulha. Atravessou em seguida o corredor do shopping preparando-se para sua mais audaciosa tarefa: a compra da peruca. Diante da vendedora, uma senhora com ares aristocráticos, a encará-lo de modo interrogativo, pediu uma peruca loira, comprida, fios até a cintura.
Pelos corredores do shopping descobriu um quiosque onde eram vendidas tatuagens temporárias, em forma de decalques. Adquiriu a figura de uma maçã, pecadoramente mordida. Quando já deixava a catedral de consumo, bateu com a palma da mão direita no alto da careca. Estava esquecendo um dos itens mais importantes: um aparelho de barbear.
Chegando a casa, encontrou a esposa ansiosa pela sua demora. Sem delongas ela se apoderou das bolsas de compras e foi para o quarto montar-se. O conjunto de cinta-liga, sutiã, meias e calcinhas, caíram-lhe bem no corpo balzaquiano. Os sapatos ficaram apertados. O esposo nunca acertava o número que ela calçava. Já a peruca construiu na mulher uma aparência germânica, a despeito da cor amorenada de sua pele. Quanto à buceta, o próprio marido fez questão de depilar. Ela arriou as calcinhas até os tornozelos. Sentimentos conflitantes de medo e excitação a assaltaram enquanto permanecia de pé, pernas abertas, sentindo o aparelho de lâmina afiada, impecavelmente manejada pelo marido, raspando-lhe o púbis. Como toque final, a tatuagem em forma de maçã mordida foi estrategicamente decalcada no lado esquerdo de sua bunda.
O homem não cansava de encarar, encantado, a nova mulher que concebera. Batizou a personagem interpretada pela esposa de Diva. Após doze anos de um casamento levado a banho-maria, Diva seria a sua primeira amante.





domingo, 20 de maio de 2018

A SENHORA DOS SOLITÁRIOS

- Senhora, o Dr. Marcondes avisou que não vem para o jantar.
Ana Beth levantou a sobrancelha esquerda, sem tirar os olhos da mesa desabitada 
dos filhos crescidos e de um marido cada vez mais abduzido pelo mundo dos negócios. 
Sinalizou em silêncio para que a sopa pudesse ser servida.
                                                                                   
- Senhora, seu sexto sentido não falhou: aqui está a prova de que seu marido tem uma amante.
Ana Beth examinou as fotos entregues por um detetive particular. Marcondes chegava de táxi 
à porta de um hotel no centro da cidade, acompanhado de uma loura com idade de ser sua filha. 
Na sequência, andavam de mãos dadas em direção à portaria. Ela ainda para e dá uma ajeitadinha 
na sandália de salto. Moça fina, disse o detetive.                                           

- Senhora, aqui estão mais detalhes do affair.
O detetive expõe minúcias da investigação. Marcondes e a loura encontravam-se uma vez por 
semana neste mesmo lugar. Não se tratava de uma amante alucinante que pudesse
ameaçar o casamento. Era uma garota de programa, universitária de moda, danada de
bonitinha e carinha de capa de revista. Só queria se divertir e fazer um negócio: receber sua
parte de quem tem muito em troca de algumas horas semanais de sexo e auto estima a quem
beirava o ocaso da macheza.
                                         
Ana Beth se sentiu apunhalada entre a cervical e as escápulas. De nada adiantaram anos de 
plástica e botox, ginásticas localizadas e spinning, silicones, depilações a laser, bronzeamento 
artificial, luzes e chapinhas. A verdade é que o marido estava prevaricando com uma menina 
bem mais nova e fogosa, com tudo no lugar, de pele macia e peitos naturais. Não caiu na história 
do detetive de que garotas de programa não abalavam casamentos. Para ela, sexo fora de casa, 
com amantes assumidas, ou marafonas, ou casinhos de embriaguez, ou desfrutáveis inconsequentes, ou mesmo bonecas infláveis, era tudo a mesma coisa. Por outro lado, Ana Beth não sabia o que fazer. Chegou a pensar por que diabo procurou um detetive. Não imaginava obedecer a seus ímpetos de mulher traída e sair por aí a se esfregar em tórax malhados de academias, sentindo novos invasores de seu corpo, ouvindo sussurros revigorantes. 

Ana Beth dependia de Marcondes até para mandar a criada comprar pão ali na esquina, numa total sujeição ao provedor da casa, que por sua vez, ao perceber a mulher de cara amarrada – e ser chicoteado por uma culpa algoz -, um dia chegou cedo para o jantar, sem mais nem menos, com um agrado. E que agrado: um solitário da Tiffany´s, encomendado ao seu doleiro contrabandista. Os olhos de Ana Beth se encharcaram, tambores rufaram dentro do peito, as maçãs do rosto formigaram, surgiu um sorriso encabulado. Muito menos pelo gesto, muito menos pelo mimo em si, muito mais pela ideia ardilosa que teve, diante do brilho multifacetado da joia.

- Senhora, só para eu entender a sua proposta: a madame põe um detetive particular na cola do seu marido, descobre que ele anda saindo comigo, consegue meu celular e liga para mim, pedindo pelo amor de Deus para eu manter este caso eternamente. Certo? 
- Perfeito!
- Em troca, sem que ninguém saiba, num acordo de mulher para mulher, a senhora promete depositar na minha conta o mesmo que ele me paga, certo? 
- Certíssimo, menina. Você não é nada boba...
- Ou seja, vou receber em dobro para aturar seu marido babando em cima de mim. É isso? 
- Exatamente, minha filha.
- Por mim, está feito. Sou uma profissional. Mas acho que a senhora é meio maluca.

Um ano depois. 
Ana Beth entra no seu closet e retira do fundo do armário de calcinhas e sutiãs, uma caixa de joias majestosa e aveludada. Como criança diante de um álbum de figurinhas incompleto, admira embevecida sua coleção de mimos mais recentes: diamantes e solitários Tiffany´s, Boucherons, Harry Winstons, Van Cleefs e Cartiers. Escolhe um deles, gosta, não gosta, põe no dedo anelar esquerdo, estica o braço, movimenta a cabeça, franze os lábios, enfim, decide-se. Diante do espelho, leva a mão de unhas bem feitas às têmporas, ajeita os cabelos, gosta da última plástica, sorri enviesada e discreta. Tudo combinando: brincos, anéis, colares e estado de espírito. 
Está se sentindo linda e poderosa. Pronta para sair para jantar com seu marido Marcondes e um casal de amigos. Em grande e perfumado estilo.





quinta-feira, 17 de maio de 2018

O atirador de facas - Poema de Eliza Caetano Alves





O atirador de facas



O atirador age calmo e morno
mesmo o sangue do baço perfurado
mesmo o sorriso de olhos fechados
ganha o jogo quem acertar sem querer


O herói do circo é o atirador de facas
aos olhos da moça pregada na parede
seus olhos tremem


O que ela quer
receber facas pelo corpo
o fio dos dentes do atirador de olhos azuis partindo suas postas.


Era uma vez uma garota na ponte
eram olhos de correnteza que a fitavam lá
de baixo.
Atirador, ela é nas suas mãos
retalhada de olhos fechados
de olhos abertos
fixos em seus olhos de correnteza azul.


Enquanto você gira para atirar
seu sorriso é morno
e seus olhos continuam
correnteza. Suas mãos
e meus olhos são
castanho–escuros.
Enquanto você ganha
meus seios e pele, enquanto,
querido atirador, escrevo
uma carta e mostro
o caminho para suas lâminas
sei que você tentará acertá–la.
Me atire, a garota na ponte,
o sorriso na ponte,
seus olhos de correnteza azul
na ponte.





Do livro O Caderno das inviabilidades, Editora Urutau.







quarta-feira, 16 de maio de 2018

O rato


Nunca tivera um animal de estimação. Nem em criança. Nada de cães, gatos, passarinhos, tartarugas. Por isso se desconheceu naquele desejo desenfreado de ter para si um rato. Bicho feio, cinza, cheio de bigodes sombrios, dentuço. Ele mesmo tinha sido dentuço em criança. Será que... Não, não era isso. Identificou-se com o bicho por outro motivo que não sabia qual. Não importava. Decidiu: queria o rato. Teria o rato. Encurralou o animalzinho num canto, o mais gentilmente que pode, e entre pedidos de desculpa e pedaços de queijo conseguiu prendê-lo numa caixa de sapato em cuja tampa havia feito pequenos furos. Dia seguinte saiu cedo e foi para a loja de animais. Olhou, olhou, mas não comprou a casinha de vidro transparente cheia de buracos simétricos para entrar o ar. Pensou na quantidade de luz e calor que o material iria concentrar e teve pena do bicho. Claridade demais para um ser das sombras. Deixou o pequeno dentro da caixa mesmo e começou a alimentá-lo com tudo o que imaginou que um roedor pudesse gostar.
A casa improvisada foi instalada em cima da cômoda do seu quarto. A cada três dias, ele removia o animal para outra caixa, nova e limpa. Era a única ocasião em que se viam. Cara a cara. Cara a focinho. E ele confessou a si mesmo que já amava Carrapato. O nome caíra bem. A intimidade caíra bem. Na verdade, era ele quem não desgrudava do animal, mas gostava de pensar que a recíproca era um fato. O bichinho precisa de cuidados, de um lar melhor — finalmente se convenceu. — Amanhã eu vou ver isso. Levou o rato ao veterinário na manhã seguinte, evitando os olhares surpresos da maioria dos clientes.

Não, ratos não tomam vacina. A gente pode fazer uns exames de sangue para investigar a saúde dela, disse o doutor. É uma fêmea.

Saiu de lá carregando, finalmente, a casa de vidro de dois andares e rezando para que o exame de sangue não acusasse nada. Mesmo sem saber por quê, sentiu-se desconfortável com a notícia de que Carrapato era uma fêmea. 
O animal pareceu ficar feliz com a nova casa. Adaptou-se logo ao novo lar e em pouco tempo já dava voltas na escadinha circular colocada no segundo piso. Ele teve certeza de que havia feito a coisa certa. Agora, podia enxergar o bicho comendo, bebendo, brincando, dormindo. Companhia dia e noite.
Nunca se dera bem com gente, essa massa complicada e cheia de humores e vontades e dissimulações e maldades. Definitivamente, as pessoas o assustavam. Não que elas prestassem atenção nele. Nem o notavam. Mas era a mera possibilidade de um dia o notarem que o apavorava. A cada vez que um olhar mais prolongado cruzava com o seu na rua, no mercado, no ponto de ônibus, sentia os pelos dos braços e das pernas se eriçando como se tivesse levado um choque. Deixava de pegar um ônibus, virava uma esquina antes do quarteirão de casa, desistia de comprar leite e pão, mas fugia, assustado, para bem longe daqueles olhares pousados. Por isso, preferia a noite. A ausência da luz enjoada do sol o acalmava e confirmava a invisibilidade que escolhera para si. Quando o breu tomava o céu, abria as janelas de casa e se sentava no jardim iluminado por apenas duas lâmpadas instaladas no chão. Às vezes cuidava das flores, que plantara num desenho ousado, e da pequena horta doméstica onde algumas verduras brotavam bem cuidadas. A pouca iluminação permitia que sombras engraçadas, agigantadas fossem projetadas na parede branca da fachada da casa e nos muros altos que faziam limite com a esquina da rua, à esquerda, e com a casa de um vizinho, à direita.
Naquela noite, sentou-se ao sereno e colocou ao seu lado, sobre um banco alto, a casa de vidro. Primeiro, Carrapato agitou-se. Mas, de repente, ficou muito quieta, como se a noite a tivesse acalmado. Ou não. Assustado, ele achou que o animal poderia estar passando mal. Abriu a porta da casinha, ansioso, e pegou bichinho, segurando-o bem em frente ao rosto. Viu os olhos brilhantes, maliciosos, quase ao mesmo tempo em que levou a mordida. Não gritou. A dor maior foi por dentro. Dor de mágoa, de surpresa. Soltando o animal, levou a mão rapidamente ao rosto. Sangrava no nariz, onde os dentes afiados tinham se fincado. Carrapato aproveitou o momento e fugiu. Desconsolado, desorientado, sofrendo, ele não sabia se procurava o bicho ou se cuidava de si mesmo, prática incomum. Relutou por mais de uma hora até perceber, pelo tamanho do inchaço, que teria que ir a um hospital.

O que houve?, perguntou a enfermeira na triagem. Mordida de rato, ele respondeu acabrunhado. Capturou o animal?

Capturar? Não, ele não sabia onde Carrapato estava. Queria saber. Mas não seria naquela noite. Sob o efeito das injeções que precisou tomar, dormiu um sono pesado. Pela manhã, acordou cheio de culpa. Eu devia ter procurado por ela ontem mesmo!, se recriminou, sem perceber que chamou Carrapato de “ela” pela primeira vez. Vasculhou todo o jardim, procurou nos bueiros perto de casa, nas latas de lixo, mas nada. Depois de muito tempo, exausto, convenceu-se de que o bicho tinha ido embora. Resignado, e mais pela saudade que pelo hábito, limpou o bebedouro, o comedouro e trocou o forro daquele latifúndio de dois andares.
O nariz ficou curado. A crença nos bichos, nunca mais. Nocauteado pelo que acreditava ser uma grande ingratidão, deixou de comer, de beber, de tomar banho. Evitou o sol, a luz das lâmpadas e mesmo os espelhos. Abandonou as noites de sereno, as flores e as verduras. E se convenceu de que os animais eram exatamente como os homens, desprezíveis, egoístas, maus. Sem vontade de pensar ou de sentir mais nada, encolheu-se na cama imunda de cheiros e fluidos, até que primeiro morreu, depois deixou de respirar.
No quintal apagado, sem sombras na parede, dois olhos curiosos brilharam na entrada da casa de vidro abandonada, e um focinho de bigodes sombrios cheirou insistentemente o ar, procurando por algo. Do lado de dentro, escondidos num ninho bem construído no segundo andar, oito filhotes amontoados abraçavam-se no sono dos recém-nascidos.





quarta-feira, 25 de abril de 2018

Um gesto ou dois



O homem tinha a cara enrugada, poucos dentes e um aspeto decrépito. Teria bem mais de 70 anos e adivinhava-se-lhe já pouco préstimo para o trabalho do campo. O patrão contratou-o por um misto de piedade e oportunidade. Chegou ao monte para guardar o “vazio”, isto é, o pequeno rebanho de carneiros e de outros ovinos que não estavam “cheios” prenhes , mas também ajudava em inúmeras outras tarefas da horta e da casa. Havia sempre lenha para cortar e água para acartar.
Era por meados da década de 50. O contrato era de 100 escudos por mês e “de comer”. Ficou a dormir num catre no palheiro e arranjou-se-lhe uma mesinha onde comer logo à esquerda da porta de entrada, separada do lume pelo monte de lenha. Os patrões e o filho pequeno comiam a dois metros dele, numa mesinha igualmente pequena e sentados em bancos rasteiros. Os dois cães de caça andavam sempre por ali, à espera que algo caísse da mesa.
A casa dos patrões era ampla e contígua ao palheiro. No verão, enchia-se de moscas, devido à proximidade com os animais, e também não faltavam pulgas. Só tinha a estrutura interna em taipa de dois quartos e um “peneirador” onde também se guardavam a masseira, a salgadeira, a bilha do azeite, a talha das azeitonas e duas arcas. Por cima deste conjunto, um sobrado onde se espalhavam as batatas e as cebolas para o ano inteiro. O resto era espaço amplo de telha vã, com um grande arcaz, o pote da água de usos de cozinha, uma cantareira com uma bilha de água de beber, e uma mesa enorme, só usada quando era preciso sentar muita gente numa matança do porco. O lume era feito num canto, no chão, onde se cozinhavam as refeições em panelas de ferro, e o fumo escoava-se pelas telhas. À noite, além do lume, só tremeluzia a chama de um candeeiro a petróleo, que se perdia na vastidão da casa.
Os tempos eram outros. Não havia eufemismos — empregados, trabalhadores agrícolas, assalariados —, só patrões e criados. A penúria dos agricultores rendeiros era quase tão grande como a dos criados, e não só na Beira Baixa. No entanto, vincavam bem as diferenças. Por isso o ti Mné Lucas — como o chamavam — sentava-se a uma mesa separada da dos patrões. E comia pão centeio. E dormia no palheiro.
A situação era “natural”, mas, de qualquer modo, o velhote estava por tudo. Nunca reclamava, nunca se queixava, nunca pedia nada; aceitava o que lhe davam ou o que achasse natural apanhar: figos, maçãs, ameixas. Certa vez, ralharam com ele, por ter apanhado mais de dois quilos de “lenticão”, a cravagem do centeio, vendido para remédios, e que rendia bom dinheiro. E foi motivo de galhofa quando uma vez pediu um martelo para bater um prego nas decrépitas botas de sola de borracha, remediadas com pregos. Um andava a entrar-lhe na carne.
Para o miúdo da casa, um catraio de seis ou sete anos, a chegada de um velhote carcomido, mas simpático, prometia animar o ramerrame campestre. Sentiu curiosidade, alegria, carinho. Certa vez, pediu mesmo aos pais que o deixassem acompanhá-lo no seu percurso matinal com o rebanho. Foi uma longa e monótona caminhada pelas encostas circundantes, mas o velhote acabou por animar o garoto ao construir um pequeno redil de brincar com muros de pedrinhas, e cancelas feitas de pauzinhos. Quando chegou a hora de comer, partilharam ambos o pão centeio dele, com algum conduto — certamente azeitonas, talvez queijo —, e ainda hoje o rapazito gosta da côdea queimada do pão centeio.
A rotina de saídas dos patrões era irem à terra de quinze em quinze dias, a uns doze quilómetros, onde a patroa tinha a mãe e duas irmãs, mesmo do outro lado da rua. Até aos sete anos do garoto, iam os três na garupa da égua: o pai escarranchado, a mãe sentada de lado, atrás dele, e o miúdo ao colo da mãe, de pernas penduradas. Depois, já iam de carroça, sempre com carga extra de trigo para moer, ovos para vender, e outras cargas circunstanciais.
Nunca passavam o natal no campo. Não faziam festa ou ceia especial de natal, mas era uma data que nunca falhavam na terra. Exceto daquela vez: havia um assunto que o patrão não quis deixar entregue a outros, talvez uma vaca a parir por aqueles dias. Portanto, ficaram todos no monte. E nem avisaram ninguém, porque para isso era preciso ir até à terra mais próxima, a três quilómetros, e enviar uma carta. Não valia a pena; quando se fizesse dez ou onze da noite, os familiares certamente suspeitariam que tinha acontecido um dos inúmeros inesperados que aconteciam na vida do campo e descansariam.
A ceia desse natal foi como a de muitas outras noites: batatas cozidas com couves, acompanhadas com uma fatia de toucinho, rodelas de farinheira e morcela. A única diferença foi que, apesar de não se fazer habitualmente qualquer ceia especial, todos sabiam que era noite de natal, até porque nesse dia a patroa tinha amassado as filhós e tinham estado a fritá-las na caldeira de cobre antes da ceia. E havia um certo sentimento de complacência no ar. A patroa murmurou qualquer coisa para o patrão, este meditou uns segundos e chamou:
Ó ti Manel, hoje é noite de natal. Venha aqui para a nossa mesa!
E pela primeira vez em três ou quatro anos, o ti Mné Lucas foi comensal dos patrões. A princípio, não se falou muito mais do que nas outras noites, mas o ambiente era afetuoso e no fim comeram-se filhós à roda do lume. Nessa noite, para além de algumas histórias já conhecidas, o ti Manel contou como acontecera o seu casamento: era marujo embarcado e, certa vez, ao atracar em Lisboa, soube por um conterrâneo que a sua noiva estava para casar com outro. Meteu-se logo no comboio a caminho da terra, “pôs tudo em pratos limpos” e casou ele com ela. Sentia-se-lhe na voz um misto de alegria pela evocação de um episódio tão especial, e uma nostalgia de tempos desaparecidos. Quando, pouco depois, se foram deitar, todos levavam um aconchego de alma inusitado.
No dia seguinte, o almoço foi guisado de batatas com um coelho bravo que o patrão caçou nessa manhã. O ti Mné Lucas não estava presente, porque andava com o rebanho, mas, à noite, quando chegou ao lugar habitual, atrás da porta, foi mimado com um pouco do guisado do almoço. Ainda antes de se sentar, meteu a mão num dos bolsos do casacão remendado e amarrotado que usava, tirou uma pequena escultura de uma ovelha, talhada à navalha num tronquinho de giesta, e estendeu-a ao deslumbrado miúdo.
Andava o rapaz já pelos quinze anos, quando o pai, na expectativa de uma vida menos áspera como operário fabril, decidiu desistir da lavoura, deixar os vários arrendamentos, vender rebanhos, vacas e o carro de bois e abalarem todos para a aldeia. Nunca mais viram o ti Mné Lucas. Parece que tencionava ir ter com uma filha a Lisboa. Souberam que morreu talvez um ano ou dois depois.
Passaram entretanto muitos anos, quase todos os protagonistas desta história já morreram, mas a criança de então mantém um especial carinho por ela e pela pequena escultura. Ainda hoje a guarda e de vez em quando gosta de a ter exposta. Mesmo agora estará a contemplá-la, ali na segunda prateleira da estante.

Joaquim Bispo

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Imagem: Julien Dupré (1851–1910), O pastor e o seu cão.

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domingo, 22 de abril de 2018

Suor de Bunda


Não lavo as mãos quando vou ao banheiro, revelou Ignácio, em tom de confidência, a Lionel, colega de repartição. Um erro, diria do ato nas semanas posteriores, pois Lionel, até então discreto, propalou tal confidência a mundos e fundos, acrescendo falsos detalhes para dar à história melhor graça: as mãos dele têm fungos, perdeu um dos testículos num surto de gonorreia, nem no banho as limpava. Tudo isso inventou Lionel, rancoroso sabe-se lá por quê, e malgrado Inácio repreendesse-se por ter confiado a ele uma de suas íntimas peculiaridades, terminou não apenas aceitando tamanha indiscrição, mas entendendo-a como fundamental às suas aspirações, dir-se-ia um alerta da grande latrina universal.

Soube que Lionel entregara seu segredo ao ouvir, dos outros, comentários indiretos acerca de higiene, sobre a importância de se banhar as mãos no lavabo, sobre a proliferação de floras bacteriológicas em dedos e partes do corpo expostas ao ar. Ouvindo essas observações e similares, entendendo e acolhendo suas razões de ser, não confrontou o colega, não deu sinal de consciência, impérvio expondo-se às intempéries; assim deixou seguir a malha dos dias até escutar de Lionel, num evento qualquer, enquanto degustavam bolinhos e discutiam temas casuais, a seguinte pergunta:

Mas então, Ignácio, você lava as mãos quando vai ao banheiro?

Naquele momento calaram-se os presentes, Ignácio tendo certeza da emboscada moral quando em sua direção voltaram-se, ávidos tal qual Hitler ante a fronteira polaca. Todos conspiravam contra ele, todos e o mundo, era o seu raciocínio, e não obstante a raiva atacasse-lhe os nervos, permaneceu calmo e comedido, à indagação respondendo:

Sim, sempre lavo.

Ouviram-se risinhos, galhofas abafadas, e encarando-se os duelistas Lionel também não demonstrou incômodo. Interessante, disse, e a conversa retornou a seu curso ordinário.

No dia posterior Ignácio e Lionel não compareceram à repartição, e apesar de existir animosidade entre eles, e agora esse conveniente elo omissivo, ninguém demonstrou preocupação, considerando tal embate natural ao ambiente de trabalho, falando-se, inclusive, que os mais inocentes e santos faziam da rotina um fardo intolerável. Apesar de Ignácio logo voltar ao departamento, Lionel continuou sumido, não atendendo sequer as ligações e mensagens enviadas, coisa estranha a sua índole. Vai ver ele não lavou as mãos quando no banheiro e morreu em consequência, brincou Flávio nesse mesmo dia em um dos intervalos, cutucando Ignácio com o cotovelo; este, despreparado, engasgou-se e tossiu, nem tanto incomodado pela brincadeira como por sua própria vulnerabilidade à ela. Mas riu, tomando o gracejo por último aviso, o derradeiro, o prenúncio de sua confissão e liberação.

Pois então faltaram Flávio e Ignácio, e nesta mesma tarde investigadores de polícia irromperam edifício adentro. Lionel fora encontrado, explicaram eles, assassinado, seu corpo deposto no esgoto. As mãos, decepadas, ornavam o banheiro da rodoviária pública, fechadas rigor mortis em torno de um bilhete narrando a vida e os sofrimentos de Ignácio, como sempre se sentira e fora desprezado por não lavar as mãos no banheiro, o seu ódio, a promessa de vingança e vítimas, a missiva assinada com sua nova alcunha criminosa: Suor de Bunda.





sábado, 21 de abril de 2018

A Ceia dos Rejeitados


Após um certo período sem escrever e publicar e virtude de uma doença na família, volto pedindo desculpas aos que me leem pelo desaparecimento. Volto com um conto inspirado numa ideia do meu irmão e que, infelizmente, ele não teve tempo de ler. Carlos, onde você estiver, fica a homenagem.

A Ceia dos Rejeitados
Simone cantando a versão de “So This is Christmas”, comércio abarrotado de gado-gente consumista, caixinhas em portarias, a obrigação de participar do amigo oculto no trabalho e uma fingida atmosfera de concórdia impregnando as pessoas. Nada disso me incomodava mais do que passar a noite de Natal junto aos familiares. Conservadores, tementes à ira divina ou mesmo hipócritas, pais, irmãos, tios e sobrinhos sempre questionaram minhas escolhas, desde a iniciante caveira tatuada no braço esquerdo – mais tarde tomado inteiro por dragões, seres mitológicos e monstros de diversas estirpes – a minha opção sexual finalmente assumida há alguns anos quando fui viver com Nanda, minha companheira até hoje.

Juntas, decidimos que passaríamos o natal em casa, na companhia de poucos amigos. Nanda ainda havia questionado se minha saúde, precária nos últimos meses, não atrapalharia nossos planos de anfitriãs. “Quero estar entre àqueles que amo.”, sorri em resposta.
Deixamos o prato principal, o peru de natal, sob responsabilidade de Rogerinho, nosso cabeleireiro de longos anos e chef de cozinha amador. Ele sempre aparecia em nossas reuniões com quitutes, regalos comestíveis e outras guloseimas. Órfão de família viva que o expulsara de casa aos treze anos quando o descobriram nos braços de um vizinho, Rogerinho nos adotara como duas tias quarentonas. Bebidas e complementos à ceia foram rateados entre os outros convidados.
O primeiro a chegar foi Tarso. Veio na companhia de uma quantidade imensa de packs de refrigerantes de variados sabores – Tarso há anos frequentava os alcoólicos anônimos – tudo sustentado pelos braços cuja envergadura fizera sua fama de medalhista olímpico na seleção de vôlei como meio de rede. Ansioso como sempre fora, chegara cedo e sem deixar de reclamar da algazarra dos cachorros presos no quintal sacudindo os trilhos de Santa Teresa. Sofócles, Aristófanes e Ésquilo reagiram assustados, latindo ante a ciclópica figura carregando quatro dúzias de latinhas debaixo dos braços. Abriu o porão e venceu o lance de escadas do nosso sobrado. Após descarregar a carga na cozinha, deixou-se desabar no maior sofá da casa enquanto choramingava:
Aquela puta me largou de vez!
Tive um pouco de dó em ver um gigante chorando feito criança enquanto nos explicava que desta vez o rompimento com a esposa fora definitivo, que ele temia não ver o filho crescer e que não estava ali para sustentar capricho de mulher fresca. “Pelo andar da carruagem, acabaria leiloando minha medalha olímpica!”
Depois, vieram Sascha, Alberto e Miguel, amado trio “Dona-flor e seus dois maridos”. Ricos, bem-apessoados e adeptos do poliamor, escandalizavam o jet-set carioca com aquela união. Trouxeram vinhos maravilhosos.
A cerveja ficou por conta de Adélio, dublê de ator de filmes de estética favela e funkeiro. Com o nome artístico de MC Délio da Perereca, em homenagem à comunidade do mesmo nome, caíra em minhas graças depois de haver assistido a um desses filmes. Desejava encaixá-lo em um projeto de seriado de humor que estava escrevendo para televisão mas que andava hibernando em virtude da minha doença. Família? A dele havia sido destroçada pela violência no Rio. Sobrara um irmão traficante, perigoso e sanguinário, enjaulado em um presídio de segurança máxima. Para o bem da sociedade, passaria o nascimento do Cristo na solitária. Adélio trouxe uma loura oxigenada assemelhada às panicats que ele esquecera de mencionar o nome nas apresentações.
Nanda me alertou sobre a demora de Rogerinho. A febre, minha parceira constante dos últimos meses, se manifestou depois de algumas horas de trégua. Alegando indisposição, pedi para minha companheira encontrá-lo através de uma mensagem de texto ou pelo celular enquanto fiquei a observar o comportamento dos nossos convidados. Tarso, entre um gole e outro de Coca-cola, esculhambava a ex-esposa para Alberto que parecia atento a tudo o que o campeão relatava, visto suas caras e bocas cambiando da indignação à piedade ante cada resmungo. Sacha e Adélio conversavam animadamente, enquanto Miguel por cortesia ciceroneava a loira, que descobrimos se chamar Josiane, pelos cômodos da casa após aquiescência de Nanda que, entrementes, tentava encontrar digitalmente Rogerinho e nossa ceia.
Não sabe da maior! O viado está agora no supermercado comprando a porra do peru! – sussurrou Nanda em meu ouvido. Podia sentir o ódio em seu hálito de menta, mas como estava em tempos de paz e amor e a febre me deixava sem disposição para brigas, pedi que ela relaxasse.
Antes da meia-noite ele chega…
São quase oito horas, Lídia! O cara ainda vai ter que preparar o Peru, arroz, a farofa… A gente devia ter encomendando uma ceia pronta!
E deixar o menino perder a oportunidade de ser gentil?
A gentileza dele parece carecer de responsabilidade.
Mudei de assunto para não me aborrecer em um dia em que desejava harmonia entre os meus amigos. Se quisesse confusão, teria pedido para que Nanda me levasse à casa dos meus pais e suas ideias fundamentalistas, suas indiretas acerca da minha vida, o quase desrespeito com minha enfermidade.
Pensando em escrever uma coisa curta, talvez um conto, para ganhar ritmo.
Já tem o tema?, perguntou Nanda.
Umas ideias passeando pela cabeça, nada definitivo, respondi.
Perto das nove, Rogerinho finalmente apareceu. Tocou ruidosamente o a campainha. ouriçando novamente os rottweilers. Rogerinho detestava interfones.
O Cérbero está preso? - gritou.
Você sempre pergunta isso, meu caro. Já sabemos dos seus conhecimentos rasos de mitologia e da alusão aos três simpáticos cãozinhos de nossas anfitriãs – debochou Alberto surgindo na janela do sobrado cujo pequeno quintal abrigava os cachorros, nossa segurança em um bairro outrora aprazível.
Subiu um tanto invocado pelas provocações de Alberto, mestre nas ironias. Sascha o recebeu com um selinho e Nanda com uma série de impropérios. Miguel tomou os sacos de supermercados que ele tinha em mãos, em especial o mais pesado que abrigava a ave. No sofá, Tarso se lamentava para mim.
Dez anos de casamento com aquela ingrata!
Rogerinho, após leve discussão com Nanda, tratou de iniciar os preparativos para assar o peru. Sascha e Josiane o assessoravam. Alberto, taça de vinho em uma das mãos, duvidava dos dotes culinários do cabeleireiro.
Esse só manja de quitutes e tábuas de frios. Não deveríamos ter confiado tamanha tarefa ao nosso pobre alisador de cabelos crespos – dizia a Miguel que gargalhava em resposta.
Rogerinho não deixava por menos.
Não fode, vértice podre do triângulo!
Em meio a galhofas, burburinhos e a música ambiente, levantei-me ainda um pouco amolecida pela febre e fui à janela onde estava Nanda. Ela afagou meus cabelos e sorriu. O hálito de menta agora exalava ternura.
Está melhor?
Assenti com afeto. Ambas ficamos observando a ladeira de paralelepípedos entrecortada pelos trilhos de um bonde que raramente transitava. Havia um quase deserto de almas. Um mendigo ocupava o outro lado da calçada deitado em seu colchão maltratado pelo tempo. Saberia ele que hoje era véspera de natal?
Não faço a menor ideia, mas a gente manda uma quentinha para ele assim que o Rogerinho conseguir assar o peru.
O cabeleireiro travava naquele momento árdua batalha contra a ave que já estava há algum tempo no forno. Reclamava das instruções na embalagem, achando o tempo de assamento curto. Sascha dava mais palpites que efetivamente ajudava, Josiane preparava a farofa e o arroz enquanto os outros convidados bebiam.
Pela nossa janela passava agora Kátia. Descia de Santa Tereza rumo à Lapa levando seu rebolado dentro do vestido colado e botas de cano alto. Teria ela clientes naquela noite?
Certamente que não. Quem na véspera de natal vai procurar uma garota de programa? Não vai ganhar nem para as passas.
Que maldade, Nanda –, ralhou Adélio enquanto lhe oferecia um copo de cerveja.
Ficamos os três a conversar. Passaram dois policiais em sua ronda noturna e ao fundo ouvia-se o ruído incômodo de um caminhão de lixo. Para alguns trabalhadores e desfortunados aquela noite se descortinava como outra qualquer. Despertados pelo barulho, Sofócles, Aristófanes e Ésquilo novamente latiram. Nanda achou que era hora de soltar as feras no quintal. O bairro andava inseguro ultimamente. Desceu para cumprir a tarefa.
Finalmente, por volta das onze horas, o peru ficou pronto. Orgulhoso, Rogerinho exibia o assado em uma bandeja como fosse a cabeça de um Sansão. Batemos palmas, Adélio a comparou com um avestruz, dado o seu tamanho, eu o batizei por Fênix aludindo à minha esperada cura que representaria um renascimento, Alberto preferiu apelidar nossa janta de uma Ave do Estínfalo, perigosa e, consequentemente, intragável. Josiane e Adélio esculpiram interrogações em suas faces em sinal da suas ignorâncias acerca de mitologia grega. Rogerinho, que só conhecia o mito do Cérbero, também não entendeu a chacota. Os outros riram, com exceção de Tarso que ainda pensava na ingratidão da ex-mulher.
Tomado pelo clima festivo, Rogerinho exagerou em suas já clássicas presepadas e começou a bailar pela sala equilibrando a bandeja. Em um dos seus rodopios o pior aconteceu: um tropeço na borda de um tapete e o peru ganhou vida, voando em direção à janela. Tarso, que estava sentado próximo, ainda tentou um dos bloqueios que o deixaram famoso mas conseguiu tão somente interceptar a bandeja. Fênix foi espatifar-se no quintal e sob nossos olhares incrédulos que lotaram o quadrado da janela vimos a ave ser destroçada pelas mordidas dos rottweilers. Foi um espetáculo digno de uma arena da antiguidade. Em parcos minutos o peru desapareceu entre as dentadas de Sófocles, Aristófanes e Ésquilo que, terminada a refeição, olharam para cima num misto de agradecimento e quero mais.
Nanda, ariana típica, tentou, a exemplo dos cães, estraçalhar Rogerinho. Foi contida por Miguel e Tarso. Os outros convidados entreolhavam-se atônitos ante o acontecimento. Rogerinho chorava, implorando desculpas. A fúria de Nanda estancou e aos poucos, o ambiente foi serenando e o processo de decantação de emoções deixou apenas uma atmosfera decepcionante. “E agora?”. A pergunta coletiva ecoou por toda a sala.
Pensei alguns segundos. Não desejava que a noite natalina tão aguardada tivesse um desfecho infeliz. Eu era uma roteirista, uma especialista em tramas intrincadas e, por que não, finais felizes. Espremi toda a minha criatividade e a solução, simplória veio de imediato. Disse que iria descansar poucos minutos no quarto. Todos assentiram com suas caras de velório. Nanda quis me acompanhar, creditando minha retirada da sala aos eventos desagradáveis da noite. Tranquilizei-a com um beijo na boca e fechei a porta. Minutos depois, retornei sorrindo.
Tudo resolvido. Nada de perguntas e confiem. Ânimo, gente! Afinal, não estamos em uma festa?
Aos poucos a normalidade, ainda que desconfiada devido as minhas palavras, se reestabeleceu. Rogerinho servia bebidas, Alberto servia sarcasmo. Um grupo conversava sobre arte literatura, outro malhava o governo. Tarso olhava o vazio abrigando um copo de refrigerante na manopla direita. Sentada ao lado de Nanda, deixei minha cabeça cair em seu ombro. Os cães, saciados, pareciam dormir.
Soou o interfone. Levantei-me e fui atender. Minutos de ansiedade por parte dos convidados. Quando abri a porta e deram com a figura do entregador gargalharam, uivaram e aplaudiram meu ovo de colombo. Três pizzas superfamília de calabresa, napolitana e de palmito, a predileta de Nanda, começaram a ser divididas, não feito hóstias sagradas e sim a semelhança de um ritual pagão, com voracidade e gula. Perguntei ao entregador se ele gostaria de passar o natal conosco, prontamente aceito. Servi-lhe uma fatia enquanto Alberto lhe ofertava uma taça de um vinho californiano extraordinário.
No meio da confraternização Nanda lembrou do mendigo. “Convide ele para cear conosco, amor”, disse. Minha companheira foi buscá-lo. De princípio ele estava acanhado e um tanto sujo pelas ruas. Oferecemos um banho e um roupão e assim vestido ele integrou-se a nós. Sacha ofereceu cerveja, ele preferiu refrigerante. ‘Não bebo, senhora. Obrigado.”
Da rua ouvimos os saltos de Kátia estalando pelos paralelepípedos. Nanda a chamou para a ceia. Estava em companhia de uma mulata aparentando um metro e oitenta. Kátia perguntou se poderia levar a amiga. Nanda, coração batendo em compasso natalino, permitiu. Foram recebidas com festa e animaram ainda mais nosso natal com danças e relatos de suas aventuras pelas esquinas da Lapa. Miguel mostrou curiosidade pelos nomes verdadeiros das duas. Kátia, disse se chamar Sirlene. Já Vanessa, a mulata estonteante de olhos verdes fictícios, era Luís Cláudio na certidão de nascimento.
E foram chegando os policiais da ronda noturna, garis, outras garotas de programa, michês, garçons que deixavam o trabalho e meninos de rua que se revelaram corteses, tratando a todos de tio. A nata dos rejeitados pela sociedade jantou conosco naquela noite. O milagre da multiplicação da pizza realizou-se em nossa sala, alimentando a todos. O ambiente regado de confraternização e alegria, cerveja, vinhos e refrigerantes. Tarso mostrou-se interessado em Kátia/Sirlene e esqueceu a ex-mulher cujo nome nem eu lembrava. Rogerinho e o entregador de pizza flertavam.
À quatro horas da madrugada a festa estava no ápice mas minhas forças se esvaíram e precisei me deitar. Despedi-me de um por um dos convidados desejando feliz natal. Mal fechei a porta percebi a diminuição do som e as conversas sussurradas em respeito a meu repouso. Mas não consegui dormir. Fiquei pensando nos acontecimentos da noite. Assim, acendi o abajur, peguei meu caderno de notas e comecei a rascunhar esta história.