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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Festa de Anos

 

O cheiro a comida deliciosa permeia a casa, a mesa nunca esteve tão bonita e os meus convidados irão começar a chegar daqui a nada. Ou seja, vem aí mais uma festa de anos.

Nem sei mesmo porque me dou ao trabalho. Ano após ano as mesmas caras, os mesmos brindes pouco entusiásticos, a mesma solidão no meio de tanta gente.

Nem sequer são meus amigos. Esses, não os tenho, não dos verdadeiros. Ou familiares, próximos ou afastados. Que também não tenho. Então porque é que continuo a convidar um monte de meros conhecidos para me ajudarem a festejar o meu aniversário?

Todos os anos juro que será a última vez. Mas à medida que se aproxima o dia fatídico, aí estou eu mais uma vez, a decorar a casa, a comprar champanhe do bom — embora ninguém o aprecie a sério — a escolher pratos especiais que serão demolidos sem sequer serem saboreados.

E todos os anos o resultado é o mesmo. Fingem todos que se estão a divertir imenso, comem e bebem até mais não poderem, sujam a minha sempre tão arrumada casinha e eu acabo a noite sozinha no meu quarto, a chorar silenciosamente contra o travesseiro.

Não era assim tão mau quando eu era mais nova. Tolice minha, mas esperava sempre um milagre quando o relógio batia as 11 da noite, a hora em que nasci. Não um milagre específico, note-se, um qualquer serviria, mesmo um bem pequeno. Como ser transformada numa pessoa linda. Ou ser magicamente transportada a um dos sítios que sempre quis visitar sem nunca o ter feito. Bastava-me que houvesse uma mudança qualquer.

Acho que nunca ultrapassei a fase infantil do cavaleiro andante montado num belo alazão branco. Sempre à espera que algo ou alguém me viesse salvar da vida comezinha de professora primária numa pequenina vila rural.

Mas com quase 57 anos, já devia ter mais juízo. Depois de tantas festas de anos dececionantes, de conhecimentos indiferentes que nunca desabrocharam em amizades, das muitas zombarias sorridentes, que magoam apesar de serem aparentemente uma brincadeira, depois de tudo isso, devia realmente ter mais juízo.

Já nem sequer dou aulas, uns problemas cardíacos forçaram-me a uma reforma antecipada há dois anos. Mas talvez seja melhor assim. No início de cada ano escolar ali estava eu, cheia de esperança e expectativas. Mas os meus alunos acabavam por ser sempre as mesmas crianças normais, sem interesse pela leitura ou por aprenderem algo que não tivesse aplicação prática e imediata.

Começarão todos a chegar daqui a uma meia hora. Porque me é mais difícil do que de costume entrar num simulacro de disposição para os receber?

A Joana vai ser a primeira a chegar, um pouco antes da hora marcada. Fá-lo sempre. Assim, pode examinar minuciosamente os outros convidados à medida que chegam, guardando no cofre-forte que é a sua mente todos os detalhes de vestuário e não só para críticas posteriores.

E para tomar conta de tudo. Juro todos os anos não deixar que isso aconteça. Mas mal me entra porta dentro, as minhas boas intenções desaparecem janela fora e fico reduzida a uma fúria impotente enquanto observo aquela mulher detestável a agir como se fosse a casa DELA e a festa DELA.

Sendo assim, porquê convidá-la? O hábito, suponho. Veio a todas as minhas festas de anos desde a nossa adolescência. Sim, éramos vizinhas e odiamo-nos cordialmente desde o liceu, é quase uma relação amorosa, somos basicamente “aminimigas”.

Os outros convidados pouco melhores são. São quase todos antigos colegas de ensino com os respetivos parceiros, os que ainda os têm, claro, labutámos e envelhecemos juntos e fingimos, por isso, que somos amigos. Alguns não me desagradam totalmente, mas outros... Mas estiveram sempre presentes na minha vida, fazem parte do cenário, digamos.

A minha vida é realmente uma colcha de retalhos feita de hábitos, todos muito pegadinhos uns aos outros, sem nenhum espaço vago entre eles. Penso até às vezes que se retirasse um deles, o todo desmanchar-se-ia deixando-me sem nada: sem passado, sem presente, sem identidade.

Nunca me fiz tantas perguntas. Deve ser um sinal de que estou a envelhecer. Mas a questão é esta, farei 57 anos esta noite e o que fiz com esses anos todos? É-me até difícil recordar algum deles em particular. Fundiram-se todos numa massa cinzenta uniforme, sem ângulos, sem características distintivas. Uma mera esfera lisa, monótona, sem princípio e sem fim.

Ocorre-me até às vezes que quando eu morrer a esfera não se desintegrará. Sentirão a minha falta? Ou deixarei aqui uma sombra cinzenta de mim mesma que dará a mesma festa de anos ano após ano, por toda a eternidade? Quem notará a diferença? Haverá sequer uma diferença?

Mas houve uma altura, há muitos, muitos anos, em que tinha sonhos, esperanças, desejos. Costumava dizer, para o ano irei a Paris. Ou a Roma. Ou escreverei um livro. Ou FAREI alguma coisa.

Há quanto tempo já nem penso assim? Vinte anos? Vinte e cinco? Nem eu mesma sei. Esses sonhos e esperanças afogaram-se, simplesmente, na tal esfera cinzenta, como tudo o mais.

Oito horas. A Joana vai chegar a qualquer momento.

Sim! Aí vem ela. Reconheço-lhe os passos rápidos no caminho de gravilha. Quase consigo ouvir o seu demasiado animado, “Muitos mais, querida!” Di-lo há já tanto tempo!

Não sei porquê, não consigo enfrentar a ideia de ouvir isso mais uma vez. Ou de a ver. Ou a nenhum dos outros, com a sua falsa boa disposição de festa e os seus falsos votos de felicidade.

Mas já o faço há tanto tempo, que mal tem mais uma vez? Vendo bem as coisas, decidi dar a festa apesar de saber perfeitamente como iria ser. E convidei-os a todos.

Ou terá sido a minha sombra? Importa?

A campainha! Quase consigo ver a minha sombra das outras festas a dirigir-se lentamente para a porta com o seu sorrisinho tão animado, pronta para receber os convidados.

Que faço então no quintal? E quando é que peguei no casaco e carteira? Ou será esta a sombra das esperanças há muito perdidas que tenta escapar-se enquanto eu estou dentro de casa abrir a porta à Joana?

Não, esta sou EU! Vou finalmente fugir a tudo. Eles que pensem o que quiserem, que enlouqueci, que me esqueci da festa, o que quiserem. Não fará diferença. Este ano festejarei os meus anos noutro sítio.

Apanharei simplesmente o primeiro comboio que saia desta parvónia.

Luísa Lopes

Glass Stock photos by Vecteezy






sábado, 3 de abril de 2021

OS SAMAMBAIAS CHORONAS – TRILOGIA III


 

                 Algumas pessoas me perguntam sobre o meu processo de criação. Não sei bem o que dizer, mas digo que três fatores são essenciais: método, disciplina e solidão. Geralmente elas concordam com os dois primeiros itens e me questionam, sempre, quanto ao terceiro. Digo-lhes que este é o décimo terceiro livro que escrevo ou do qual participo e que, com exceção dos livros de poesia, que são a maioria e que é algo inexplicável, os demais livros, em prosa, seguem este protocolo.

            É claro que depois do Fausto ter entrado em minha vida e ter roubado as minhas histórias ou parte delas, alguma coisa mudou, mas a essência permanece a mesma. Eu diria que sou um escritor de feriados prolongados, quando a casa está vazia e você pode então se exercitar no método, na disciplina e na solidão que já então é intrínseca.

          No meu caso, especificamente, conta o fato de eu e minha família estarmos deslocados no espaço geográfico, bem como os meus vizinhos mais próximos, que também não são daqui. Não tenho parentes e pouquíssimos amigos na cidade onde moro. Nos feriados, cada um caça o seu rumo e o meu rumo como é distante ou inexistente, permaneço aqui entre ovelhas de sonhos que cultivo em silêncio. Não que eu quisesse, sempre, poder ir para a minha cidade natal. Até porque, presentemente, eu não gostaria de morar lá. Mas ela é sempre uma referência, um espaço a se conquistar, como aquele antigo amor que você sabe que nunca será seu e que, não obstante nunca deixa de te des/nortear a vida.

            Outro dia, num show de rock que eu e minha banda imaginária fizemos em nossa cidade, alguém da platéia gritou que éramos o que de melhor havia e eu retruquei, do palco onde eu estava então, que agradecia os seus elogios superlativos, mas que na verdade eu não passava de um bêbado. E nisto consiste o meu método e a minha disciplina: nos feriados prolongados, quando todos viajam, tranco-me em casa, não sem antes me abastecer de cervejas, carnes, cachaças e filmes pornográficos. A literatura e a música precisam ser reais, mas o sexo pode ser virtual. Durante esses três ou quatro dias geralmente eu não ponho o focinho para fora da caverna. Tranco tudo e é preferível que o telefone e a campainha não toquem, como de resto não tocam mesmo, para que eu mantenha a minha disciplina solitária. Como escrever, por exemplo, um romance com a televisão ligada e com conversas e pessoas circulando pela casa? O recolhimento, mais do que o silêncio, é fundamental, assim como é fundamental o egoísmo no ato de escrever e que cada coisa esteja no seu devido lugar.

              Então, entre uma cerveja e outra eu escrevo. Entre uma cachaça e outra eu escrevo. Entre um orgasmo e outro eu escrevo. Entre um alimento e outro eu escrevo. Sem ter varrido a casa, sem ter lavado a louça, sem ter tirado a poeira dos móveis, sem ter lavado a roupa suja, sem ter desentupido a pia da cozinha, sem ter passado a roupa da semana anterior, sem ter lavado os banheiros, sem ter passado pano molhado no piso, sem ter cozinhado o feijão, sem ter vivido o que minimamente se entende por vida, sem ter visto ou falado com ninguém sequer ao telefone. Preso ao abismo da tela do computador, desvinculado do mundo e alheio a tudo o que seja externo ao desespero e às lembranças e à memória de um mundo afinal inexistente.

No entanto é fundamental que se tenha pássaros cantando e vasos de flores e peixes no aquário e montanhas verdes que se estendam através da paisagem e que essas montanhas sejam circundadas de árvores. E que os ônibus passem na estrada ao longe, recortada pelo ângulo da janela e que não haja ruídos nem vozes de gente. É claro que a solidão, a despeito do que se produz ou do que se deixe de produzir, cobra o seu alto preço e a morte é um medo permanente e o sono escasso e a fome negligenciada, assim como o corpo e a alma igualmente relegados a um plano secundário e tantos outros inconvenientes, de tal modo que sorrio sempre e com alívio quando afinal ouço a chave no cadeado do portão e Rita de C. sobe pela escada da rotina afinal restabelecida. Mais uma vez fui salvo de mim mesmo.





domingo, 28 de março de 2021

Os Anjos Têm Olhos Azuis



No princípio tudo estava escuro. Pequenos pontos de luz, quase como estrelas, viam-se ao longe. Estaria a ver o céu? Estaria deitado num prado relvado numa noite estrelada de verão? Algumas “estrelas” moviam-se lentamente e outras com mais velocidade… mas moviam-se sem dúvida. Estrelas cadentes? Tantas? O universo estava definitivamente vivo!
O negrume intimidador parecia até convidativo, sentia vontade de se juntar àquela dança de estrelas, de ser uma delas a vogar na imensidão. Sentia isso, mas não percebia o que sentia mais, havia uma leveza, uma ausência de algo… O seu corpo; percebia que mandava comandos aos dedos e depois aos braços e às pernas, mas não sabia se eram executados. Na escuridão absoluta, mexia os braços e as pernas e não tocava em nada. Não, não estava deitado no prado verdejante, antes flutuava naquela matéria escura, longe das estrelas. Flutuava? Caía! Uma sensação de terror percorreu o corpo que não sentia e arrepiou os pelos do pescoço que não sabia se estavam lá.
Agora estava… no fundo do mar? A sua visão ondulava, como que debaixo de água e havia pequenas fitas verdes, que partiam do chão coberto de seixos e areia dourada, agitavam-se, tentando libertar-se e fugir para a superfície. Vendo-as de perto, parecia distinguir rostos que apareciam e desapareciam em expressões de angustia ou simplesmente desespero. Por entre as fitas, passavam por vezes corpos escuros, como golfinhos luzidios e sorridentes, flutuando, nadando?
“Isabel?” O pensamento pareceu ganhar forma e solidez e como as sombras escuras, nadou para longe. Mas o que quer que fosse que o fez pensar naquele nome, não se fora embora e o rosto dela acudiu-lhe à memória, dolorosamente.
Uma das sombras escuras pareceu imobilizar-se à distância e observa-lo, por entre as ondulantes fitas verdes. Depois, nadou decididamente na sua direção enquanto se metamorfoseava numa mulher, de cabelos escuros e esvoaçantes. O corpo coberto por um diáfano vestido branco, ocultava-lhe os pés, que agora caminhavam. Toda ela era em tons de cinzento, sobressaindo da tonalidade azulada das águas e do verde das fitas entre eles.
“Luís.” A voz quente ecoou-lhe na privacidade dos seus pensamentos. “Vieste!”
“Como poderia não vir?” Ele achava que tinha lágrimas nos olhos, se eles existissem.
“Não devias!” A voz que o acariciava, repreendia-o. “Fiz-te muito mal, deixei-te...”
“Disse-te que o meu amor estava para além de tudo. Não podia deixar de vir.”
Ela “flutuou” em volta dele fazendo-o rodar sobre si próprio e reluzir fracamente, como um holograma. Encostou o nariz ao dele, focando os expressivos e brilhantes olhos azuis, a única parte que parecia manter-se colorida nela.
“Os teus olhos… tão azuis!” Ele suspirou mentalmente.
“Já eram azuis, assim continuam.” Ela afirmou pragmática.
“Todos os anjos têm olhos azuis?” Era mais um pensamento do que propriamente uma pergunta.
“Porque achas que sou um anjo?” Havia divertimento na interrogação.
“És bela como um anjo, flutuas… tens olhos azuis...”
“A beleza, é a dos teus olhos. Aqui somos todos iguais: simples sombras acinzentadas, vagueando numa tristeza morna. Libertos da prisão do corpo, mas presos numa decisão precipitada. São os teus olhos que me veem com amor e constroem aquilo que não se vê… como podiam os olhos serem azuis, num mundo onde o cinzento reina?”
“Mas há os teus olhos, azuis, as fitas verdes que se querem libertar do chão de areias douradas. A própria água é um azulado cristalino!” Ele contrapôs.
O rosto dela mascarou-se de uma tristeza momentânea, antes de brilhar novamente com esperança. Ergueu lentamente uma mão que usou para acariciar com suavidade o rosto de Luís, que se tornou sólido para receber o afago. E ele sentiu aquele toque suave e meigo, embora sem calor, mas igual a tantos outros, há tantos milhares de anos atrás.
“És um anjo sim!” Concluiu ele, de olhos fechados, com um sorriso beatífico. “Agora estou feliz.”
“Também estou feliz por te ver.” Os lábios finos dela arredondavam-se num sorriso subtil, mas os olhos tremiam numa tristeza profunda. “Fiz-te muito mal e gostava de te poder compensar… não sei se alguma vez conseguirei… Fiquei feliz por te ver, mas não pode ser assim!”
“Que dizes?” Todo o corpo dele começava a adquirir uma solidez igual à dela e os dois seres, cinzentos, flutuavam um em frente ao outro, de mãos dadas.
“Não pode ser assim.” Ela repetiu, afastando o azul dos olhos para se perderem no horizonte. “Ainda não é hora! Não podemos ficar juntos.”
“Porquê? O que se passa?” Havia alarme nos pensamentos fazendo tremeluzir as águas, pressentindo o desequilíbrio.
“Não é hora, simplesmente.” Ela soltou as mãos dele e afastou-se uns centímetros. “Tens de ir!”
“Não quero!” Ele insistiu, o corpo cintilando entre desvanecer-se e agrupar-se num corpo quase sólido.
O rosto dela endureceu por uns segundos mas rapidamente voltou a máscara do amor e os seus lábios estreitaram-se num beijo. No segundo seguinte, empurrou-o com violência e imprimiu forte o pensamento: “Vai!”
Foi de um salto só que ele caiu da banheira, de joelhos sobre o tapete da casa de banho, completamente encharcado e nu.
Chorando de dor e saudade, vomitou golfadas de água e comprimidos mal digeridos.








sexta-feira, 26 de março de 2021

Sem condições



Desde pequena ela ouvia

o pai

o avô

o tio

o irmão

o vizinho

com aquelas condições esfarrapadas deles

“Quando eu voltar, eu faço”

“Se eu melhorar, conserto”

 “Quando eu chegar, eu lavo”

 “Se eu animar, ajeito”

“Quando eu sair, eu busco”

 

Tão essenciais

em seus sérios serviços

viris em seus não-me-toques

inquilinos da preguiça

curtindo e emporcalhando a casa

prometendo só de fachada

 

Sua Mãe

A Avó

Sua Tia

A Irmã

A Vizinha

sempre forçadas ao “e”

sem condicional nem escolha

o banheiro e as panelas e os quartos e as crianças e as roupas e as tarefas e as compras e a segunda e as contas e o domingo e o janeiro e o marido e o dezembro e o choro

mesmo sem tempo areavam e coziam e limpavam e cuidavam e lavavam e faziam e pensavam e pagavam e se davam mesmo doentes não paravam

(e odiavam também, o tempo todo, porque ninguém pode com tanto amor)

 

Pra não repetir tanto “e”,

Sara casou com Murilo,

que não botava condição.

Tão sensível o professor.

Mas também não dividia.

A ajudinha minguando dia a dia.

Ela, que só queria usar um “se” e um “quando” ao menos de vez em quando,

tá igualzinha 

À Mãe

À Avó

À Irmã

À Tia

À Vizinha.

Sem condições.


O que será da filha?


Maria Amélia Elói


Imagem: "A leiteira", óleo sobre tela, de Johannes Vermeer





quinta-feira, 25 de março de 2021

A genética prática dos pastores

 


Abençoado! Um sentimento de bem-aventurança cintilava-lhe no íntimo. Desfrutar dos bens necessários, do respeito dos outros, de felicidade. Tudo isto Deus e a Igreja Dele trouxeram e providenciavam continuamente a Rúben, o atual nome de Amadeu Rodrigues.

Antes, tinha sido vendedor de seguros; depois, de apartamentos. Finalmente, um bendito dia, acompanhara um colega a uma sessão daquela Igreja. O amigo não o enganara: aquele meio prometia possibilidades imensas e não imediatamente percetíveis. Havia no entanto que aprender a Bíblia a fundo. O Livro sagrado era a origem, a ferramenta e o objetivo. Seguindo a Bíblia, tinha-se acesso a conhecimentos de todo o tipo, desde as grandes revelações das origens, às verdades da vida; desde a mediação transcendente do saber cósmico, ao domínio das pequenas atividades quotidianas. Rúben empenhou-se a fundo. Leu-a em poucos meses, em jornadas pela noite adentro. Frequentou sessões de aprofundamento, apanhou cada argumento a aplicar a cada questão mais polémica.

A ascensão na hierarquia foi rápida e prometedora. Habituado a interpretar sinais faciais e conhecedor de outras atividades que lhe tinham exigido capacidades de argumentação e de persuasão, em breve integrava a elite da Igreja. Fazia pregações memoráveis, citava partes da Bíblia, mostrava como ela continha, já há milhares de anos, grandes conhecimentos que, só mais tarde, os Homens pensaram descobrir, e já predizia muitas das descobertas atuais: a Bíblia indicava onde estavam localizados os poços de petróleo, chamando-lhe betume; antecipava claramente o submarino, com Jonas a viajar no ventre de uma baleia; e o avião, com Enoch a ser levado para os céus por um carro de fogo; profetizava as missões humanitárias, com o lançamento do maná; e os bombardeamentos, com a destruição de Sodoma e Gomorra. A seguir às predicas, Rúben incitava os doentes e os mal-amados a pedirem a cura ao Senhor, em paroxismos de aflição coletiva e algumas curas milagrosas. Por fim, pedia o dízimo, tão justo e necessário que até Moisés o colocara na Lei.

Se em tempos mosaicos o dízimo era dado em géneros, no século XXI mais valia que os aflitos da cidade não andassem carregados com verduras ou criação. O dinheiro transporta-se com muita facilidade e também com prontidão se separa nas quantias necessárias. Era o dinheiro que fazia viver e melhorar a Igreja do Senhor. E os seus ministros. Nem em tempos de especulação imobiliária o então Amadeu vivera com tal bênção económica. Habituou-se a boas refeições, primeiro, e depois a boa roupa e bons carros. De bem-aventurado era o seu estado de espírito.

Rúben nunca deu guarida a qualquer pensamento de remorso. Sentia-se a prestar um serviço — o mais importante —, trazer esperança ao coração dos desesperados. Pela vontade do Senhor. E como ele o fazia bem!

Como primeira prioridade, o Homem procura alimentar-se, sobreviver. Por vezes, consegue-o, em tal quantidade e com tal facilidade, que a anterior necessidade começa a ser soterrada pelos apelos do estado de abundância. Então, acumular, esbanjar, experimentar o exagero do luxo e da luxúria ganham foros de estilo de vida. A luxúria, ah, a vertigem dos sentidos!

Cedo, Rúben percebeu que seria fácil obter sexo naquela mole de mulheres carentes e sugestionáveis. E bem percebia como era fácil estender o clima coletivo de carências individuais a um estado de espírito de ajuda mútua. “Temos de ser uns para os outros, neste mundo tão cruel.” “Temos de ver o que cada um dos nossos irmãos precisa.” “Eu preciso que o Senhor me ajude, mas, e eu posso ajudar alguém?” “Será que posso ajudar o meu irmão?” “O que é que ele precisa?” “O que é que eu posso dar, eu que recebo tanto do Senhor?” E, se não se via a aceitar intimidades com a maior parte daquelas mulheres, outras havia a quem podia abrir exceções e, solenemente sonso, aceitar o dízimo em géneros…

Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.” Dinheiro a rodos, sexo até à exaustão, o que faltava? Nada, ou quase nada.

A dica para o patamar seguinte veio de um simples programa de televisão sobre a vida selvagem. Naquela noite, mostravam-se técnicas de manha e embuste usadas por vários animais, para que os seus genes chegassem em maior quantidade e segurança à geração seguinte. Sentiu uma iluminação ao perceber como uma simples ave desenvolveu procedimentos de dissimulação e parasitismo, para que ingénuos casais de minúsculas carriças chocassem os ovos e alimentassem as crias de uma espécie bem maior: o manhoso cuco.

Hum, espalhar o seu sangue pela população, olhar a multidão de fiéis na sala da sua assembleia e saber que inúmeros deles eram seus filhos secretos, a crescer felizes e saudáveis, sem ter ele de se sacrificar nas prosaicas tarefas de levar bebés à vida adulta! Muitos bebés; muitos adultos, também eles a propagar o seu sangue. Era, sem dúvida, um patamar apetecível. Um cúmulo de vida.

Um pormenor, no entanto, parecia poder complicar esse intento: Rúben era o único ruivo, numa comunidade maioritariamente de cabelo escuro. Nada a que o Senhor e a sua palavra não pudessem fornecer solução. Pois não explica a Bíblia, no capítulo 30 do Génesis, como procedeu Jacó, certamente com a inspiração do Senhor, para obter vantagem na divisão dos rebanhos, quando quis terminar o contrato com o sogro, Labão, e afastar-se para terras mais a ocidente com mulheres, filhos, escravos e rebanhos?

Combinou com o sogro que ficaria com o gado malhado, enquanto o pai das suas mulheres, Lia e Raquel, ficaria com o de uma só cor — ovelhas brancas, cabras negras. Aceite o trato, Jacó colocou varas nos bebedouros, às quais tirara partes da casca. Quando os rebanhos vinham beber e as fêmeas eram aí cobertas pelos machos, ao emprenharem com os olhos postos nas varas às manchas vinham a ter crias malhadas. Pelo contrário, quando Labão quis um trato inverso, Jacó colocou nos bebedouros varas de uma só cor; e as crias passaram a nascer, maioritariamente, de uma só cor. Com este estratagema, obteve Jacó um rebanho muito maior do que o do seu sogro, para glória do Senhor.

Assim também Rúben esperava vir a ter um rebanho de filhos apreciável e não lhe era difícil imaginar-se um patriarca bíblico. Se Jacó, com duas mulheres e duas escravas tivera doze, quantos poderia Rúben vir a ter, com tanta mulher na comunidade? A Bíblia continha todo o saber do mundo, todas as soluções, para glória do Senhor e dos que O seguiam. Aí vinha ela de novo em auxílio do abençoado servo do Senhor.

A pregação de Rúben alterou-se subtilmente; passou a enaltecer a vida de família, a bênção de uma prole, a excelsa graça de continuar-se nos filhos. Passou a ser mais permeável a aproximações de irmãs menos apetecíveis, desde que em idade fértil. Só tinha dois preceitos incontornáveis: não usar preservativo, ou furá-lo previamente; e colocar sempre uma peruca negra, argumentando que queria imitar o Senhor, tanto quanto possível. Se a técnica resultava com as ovelhas e as cabras de Jacó, com certeza que também resultava com o rebanho do Senhor.

Muitas gravidezes depois, algumas das quais tinham constituído autênticas impossibilidades nas contas de cabeça das neo-grávidas, mas que Rúben se encarregava de encorajar, por serem certamente a vontade do Senhor, começou a perceber-se que estavam a nascer vários bebés ruivos. Surgiram dúvidas, interrogações, tentativas de explicação: Influxo transcendente trazido pelo inspirador pastor? Sinais de algum evento miraculoso? Alteração somática induzida pelo estado de beatitude alcançado no local santo da igreja?

«Não devem ter conseguido tirar da ideia a cor forte do meu cabelo», presumia Rúben, surpreendido.

Quando já se tornava difícil atribuir a singularidade capilar a causas metafísicas e antes que o seu rebanho em disparada o dizimasse, Rúben pediu à hierarquia transferência para a Escócia, terra de ruivos, onde certamente seria mais fácil continuar a espalhar a palavra do Senhor e a aumentar a Sua Igreja.

Joaquim Bispo


*

Imagem: Bartolomé Murillo, Jacó põe as varas ao gado de Labão, c. 1660–1665.

Museu Meadows, Dallas, EUA.

* * *






terça-feira, 23 de março de 2021

DORES E AMORES

 



 

Ajeitada na velha cadeira colocada na calçada da pequena hospedaria que administra, Carminda observa a noite que cai. O costumeiro xale a lhe cobrir os ombros, os pés metidos em sapatos de pano, aspecto que em nada lembra a menina cheia de ideias que foi um dia. Desolada, de cabelos brancos, opacos, olha o movimento rotineiro das pessoas da vila. Em intervalos longos, os carros passam. Lentos. Mas, mesmo assim, a poeira da rua pouco cascalhada incomoda os olhos. Acende um cigarro, contrariando a ordem médica. Não quer saber. Atingiu uma idade em que apenas atende as próprias vontades. As mais simples. Para as outras, já não há espaço.

Sonhou tão alto. Não foi infeliz, mas deveria ter nascido num mundo mais avançado. Sentia-se adiante no tempo. Aquele lugarejo tolhera seus horizontes. Traz tanta coisa no peito, tanta fala engolida, mas, ali, nem as opiniões podiam ser externadas. Ela sempre foi diferente, ninguém compreenderia. Só o marido, companheiro dos voos sonhados. Voaram, ainda que só em pensamento.

Pensa nos pais. Estrangeiros, fascinados pela promessa de conquistas aqui, nesta terra, cruzaram o oceano a bordo de um navio apinhado de esperançosos, desembarcando em Santos, no ano de 1918. Na bagagem, força de trabalho e sonhos. Prosperaram. E testemunharam que conquistas não são apenas riquezas. Foram felizes, ainda que por pouco tempo, mas foram. Tiveram duas filhas: Angelita e Carminda. Lindas, saudáveis. Certamente, as maiores vitórias.

Época de grandes epidemias, a mãe, de início, resistiu a um acometimento, mas não teve a mesma sorte quando enfrentou a escarlatina. Dias e dias de delírio, febre insana. Não resistiu. As meninas entravam na fase da adolescência. O pai, caixeiro-viajante, sem alternativa, internou as meninas num famoso colégio que ficava na Capital. Instituição renomada e dirigida por religiosas.

De início, tudo foi assustador. A falta da mãe, do quarto, da casa, das refeições alegres, das brincadeiras, das histórias contadas antes de dormir. Mudança difícil para ser assimilada assim, bruscamente. De repente, tudo passou a ter horário fixo, inflexível. Diferente da complacência da mãe. Não havia possibilidade de alterar nada, absolutamente nada, apenas seguir em frente.

Adaptaram-se ao internato. O requinte do ensino era prioridade da instituição. Era oferecido, além do estudo acadêmico, um leque de atividades. Aprenderam: costura, bordado, pintura, culinária, boas maneiras. Inteiraram-se da literatura, eram leitoras vorazes. Dedicadas, interessadas, exemplares, não foi difícil conseguirem uma convivência amistosa.

Aos domingos, quando não estava viajando, o pai sempre as visitava. Conversavam, ganhavam docinhos, balas. Alegria nas chegadas, tristeza nas partidas. E os anos se passavam. Para as meninas, o internato era de janeiro a janeiro. Não iam para casa nem mesmo nas festas de final de ano. Aliás, não havia casa. Com o tempo, o pai decidiu vender o imóvel. Morava em uma pensão. Além de menos oneroso, era muito menos solitário. A casa era povoada de recordações, ele não conseguia lidar e conviver apenas com lembranças. Queria a vida, lutaria até seus últimos dias pela educação das meninas.

E lutou. Mas o velho coração, num ataque fulminante, interrompeu a batalha. As meninas ficaram chocadas quando um parente distante apareceu no internato. Sem meias palavras, a verdade foi contada. E a dor foi infinita. Choraram, silenciosamente. Angelita era a mais velha, mas ainda não era adulta. E assim, por determinação do tio, que mal conheciam, foram obrigadas a deixar o internato. Foram morar numa vila do interior. Distante, muito distante da Capital. Viajaram quase dois dias para chegar à nova morada. O tio era comerciante de calçados, casado com uma senhora muito refinada, prima de Santos Dumont. Não tinham filhos. A esposa, inconformada de morar naquele fim de mundo, vivia em constante litígio com o tio. Não demorou muito, a vontade da mulher venceu a demanda e se mudaram para Minas Gerais. Mas deixaram para trás as duas meninas.

Elas nunca souberam o que foi feito do dinheiro do pai. Foram deixadas ali, sem eira nem beira. Sozinhas. Através de ajuda de um e de outro, Angelita conseguiu uma sala para dar aulas, espaço cedido pela prefeitura. Ganhava uns trocados. Carminda bordava enxovais. O serviço era de tamanha perfeição que em pouco tempo conseguiu encomendas até mesmo das grandes cidades. Um primor.

Ainda procurando adaptação, receberam a notícia de que precisariam desocupar a edícula da casa do tio, onde viviam. Os novos proprietários iriam utilizar aquela área. E então foram acolhidas por uma prostituta. Passaram a viver em dois cômodos locados a preço simbólico e as duas continuaram trabalhando.

Angelita conheceu Samir. Apaixonaram-se. Depois de vários meses, ficaram noivos. Havia muitos planos para um futuro próximo, preparavam o casamento. Então, apareceu na cidade um engenheiro mecânico alemão, homem bonito, loiro e de misteriosos olhos azuis. Chegara para programar o serviço de abastecimento de água na cidade, expandir a área de distribuição. Assim que botou os olhos nele, Angelita perdeu a paz. Foi um amor tão arrebatador que não havia como controlar. De ambos os lados.

O noivado com Samir acabou. O forasteiro era casado, morava na Capital. Não escondeu, não mentiu. Angelita sabia que havia outra família, mas não se importava. Não demorou nada, engravidou. Para os moradores, foi um flagelo. Os alunos, aos poucos, foram se afastando até que a prefeitura não mais permitiu o uso da sala. Passou, então, a ajudar a irmã nos bordados.

Com a gravidez, o engenheiro abandonou a outra família, o casamento acabou. Quando a criança nasceu, Angelita estava muito debilitada. Quase não conseguia amamentar a filha. Era visível o esmorecimento do corpo, a prostração que acometia a mãe. Começaram as febres noturnas, o suor abundante, a inapetência, a tosse. A tuberculose foi diagnosticada. As poucas pessoas da cidade que falavam com ela, afastaram-se. Até mesmo o pai da criança deixou de visitá-la. E partiu...

Angelita era cuidada pela irmã e pela prostituta. Revezavam-se nos cuidados com a mãe e com a filha. A menina recebeu o nome de Lenita, e quando completou um ano, a mãe sucumbiu. Não resistiu ao mal.

Carminda ficou com a menina e cuidava dela como se fosse sua filha. Era tanto amor, tanto carinho, tanto desvelo. Quando a tomava nos braços, sentia que o coração que batia ali era também de Angelita.

Samir assistira a tudo, distante. Como sofreu com a morte de Angelita! E não escondeu. Conversava longas horas sobre isso com Carminda. Afeiçoou-se à menina, sentia-se próximo. E a criança retribuía. A convivência, intensificada dia a dia, foi trazendo uma sensação de família, de aconchego. Não seria possível dizer que entre eles havia um sentimento arrebatador, mas havia amor, algum tipo de amor. E assim, os dois passaram a viver juntos. Os três. Na casa, os móveis eram de caixotes. Os vestidos da menina, mesmo feitos de sacos de farinha, eram lindamente bordados. Lenita tinha beleza angelical. Amada, muito amada.

A mãe de Samir, comerciante de roupas e calçados, ofereceu parceria em uma filial que seria aberta numa cidade próxima. E foi um sucesso. Os dois, numa união serena, cheia de carinho, de respeito, conceberam um casal de filhos. Eram três riquezas. Lenita herdou o amor pelos livros, lembrava a mãe. Aliás, era a figura da mãe. A mesma beleza, a mesma altivez, a mesma força. Meiga, agradecida. Casou-se e foi imensamente feliz... Assim como os outros filhos.

Samir e Carminda mudaram de ramo. Adquiriram a hospedaria e moravam ao lado, parede-meia. Ela continuou com o trabalho das agulhas, uma artista. Lia vorazmente. Era serena...

− Já é tarde, a noite está fria, vamos entrar... – Sente a mão delicada de Samir pousar em seu rosto, com a mesma suavidade da vida toda. Foi feliz, é feliz...

Amparada pelos braços do parceiro, caminha em direção à porta. A noite está realmente fria. Sente-se exausta. Sabe que é chegada a hora de descansar...

 

 

               Regina Ruth Rincon Caires

 

 

 





sábado, 20 de março de 2021

METADES


Somos Thales e Tadeu.  Digo “somos” porque viemos gêmeos univitelinos 

e assim percorremos os primeiros anos com as mesmas feições, o mesmo andar, 

as mesmas roupinhas, o mesmo terninho, as mesmas meias três quartos, 

as mesmas gravatinhas borboleta. O mesmos topetes de Gumex.


Ainda crianças, levamos a mesma porrada. Perdemos nossa mãe, 

nosso pai endoidou e deu um tiro na boca, e nos dividimos na vida. 

Eu fui pra Barbacena para casa de uns tios, onde mais crescidinho entrei 

para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar, enquanto meu irmão ensaiava 

no Rio, morando com primos distantes, os primeiros estudos de Medicina.


Nunca mais nos vimos. Pouco nos sabíamos.


Até que apareci para assistir à final Brasil e Uruguai da Copa de 50 no Maracanã. 

Fiz questão de convidar meu irmão para ir comigo. E fomos. Depois de tantas vidas 

dispersas, não nos reconhecíamos mais como gemelares crianças que fomos, 

sem identificação alguma que houvesse perdurado. Ele ainda usava Gumex. Eu não.


Quando Ghiggia fez o segundo gol do Uruguai, colocando a alma brasileira na lona, 

houve um silêncio de doer os ouvidos como se tivessem enfiado um cotonete de arame. 

Soluços explodiram ao nosso redor. Acabou o jogo, o povo foi saindo devagarinho. 

Lembrou o cortejo da mamãe.


Foi neste momento que meu irmão, impassível, tirou um limão do bolso, descascou 

com os dentes e começou a chupar. Chupou, chupou, chupou, até chegarmos sem trocar 

palavra na casa do primo distante onde ele morava, perto do Maracanã.


Um trauma. Mas não tão aflitivo quanto à curiosidade que começou a me perseguir 

e nunca tive coragem de perguntar: por que chupar limão?


Eu virei piloto de avião, larguei a caserna e fui para os Estados Unidos 

treinar em Constellations – voltei direto para a cabine de um deles da Panair. 

Meu irmão formou-se em Médico Legista. Mesmo à distância, sabia por fontes 

confiáveis que ao chegar em casa depois de uma jornada dissecando defuntos, 

danava a chupar limão.


Enquanto eu flanava mundo afora, conferindo de fato o mapa mundi da parede 

da escola, não tinha tempo para conviver com ele. Na verdade, não tinha 

tempo para ele. Mas sabia de seu casamento, do casal de filhos e do casarão 

na Tijuca, que comprou de tanto escarafunchar os mortos com extrema habilidade. 

Virou diretor do IML. Mas nunca deixou de chupar limão.


Quando a filha deu desgosto, se enrabichando com um sujeito de cabelo crespo, 

meu irmão passou a chupar limão no café da manhã. Quando as brigas com a mulher 

atingiam os píncaros da insanidade, trancava-se no banheiro e chupava limão.


Quem me contava essas coisas era uma amante que tinha no Rio, uma psicóloga 

bem mais nova que eu, a tal fonte confiável, por acaso do destino, vizinha 

do casarão do meu irmão. E como vizinha, amiga da família dele, sem que nunca 

revelasse a nossa clandestinidade. Nunca falou de mim para meu irmão, mas 

sobre ele, dizia que vivia chupando limão.


Minha formação militar, objetiva, técnica, metódica e cartesiana não me deu 

margens a pensamentos profundos. Mas minha amante defendia que meu irmão 

compensava as agruras da vida chupando limão. A acidez cítrica extrema lhe 

provocava um alívio, por encontrar entre a língua e o céu da boca algo mais 

ácido do que os piores momentos que a vida oferecia. E assim ia vivendo. 

Talvez fosse isso, não sei. Sou bom em aterrissagens, decolagens e não em 

interpretações, subjetividades e diagnósticos de psicólogos. 


Numa manhã cheguei de Paris e, como de costume, fui para o Hotel Novo Mundo 

no Flamengo encontrar minha amante. Ela chegou muito atrasada, esbaforida e 

me veio como uma notícia: “seu irmão acabou de morrer de infarto, debruçado 

em cima de um cadáver no Instituto Médico Legal”. Horrível. 

Imaginei um corpo sobre o outro. 


No velório não consegui chorar. Olhei o rosto céreo do meu irmão, vi minha 

cara com algodão no nariz. Mas nem a lembrança de nós meninos de gravatinha 

e meia três quartos mexeu com minhas entranhas. Cumprindo protocolo, abracei 

os filhos e consolei a viúva, agradecendo seu último esmero em pentear o cabelo 

do marido morto com Gumex. Nem uma lágrima me veio. Nem nó na garganta. 

Nem quando o caixão baixou sepultura.


Saí do cemitério do Catumbi sozinho, minha amante achou por bem não me acompanhar. 

Peguei um taxi que me deixou numa feira. E comprei uma dúzia de limões.