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sábado, 25 de setembro de 2021

Os pombos



É meio da manhã, numa cidade satélite da c
apital. Alguns transeuntes conseguem harmonizar o passeio do cão com as compras básicas do dia na mercearia da rua: pão, um saco de fruta, talvez uns iogurtes. Os retardatários passeiam canídeos em tensão urinária.

Boss, um Labrador creme, e Gugu, um podengo malhado, encetam a análise do estado do mundo, depois de terem analisado o cheiro do rabo um do outro.

Estava aflitinho — queixou-se Gugu. — A minha dona fica a ver séries pela noite adentro e eu é que me tramo. Estava a ver que fazia na carpete.

É uma chatice — concordou Boss. — O meu dono fica na Internet. Gosto muito dele, mas acho que não me dá o devido valor. Se não fosse eu, ficava fechado em casa e nem tinha coragem de meter conversa com a tua dona.

Sim, nós somos mais que úteis; somos indispensáveis às pessoas. Valemos cada tigela de ração que comemos. Sai-nos do corpo, em distribuição de carinhos, em dedicação, em melhoria da auto-estima deles.

Dando voltas largas e consecutivas sobre a praceta próxima, um bando de pombos faz o primeiro treino diário, depois de ter acomodado o papo com migalhas que tinham ficado espalhadas do dia anterior.

No rés-do-chão do 14, abrira-se entretanto uma janela e uma mulher na casa dos sessenta atirara uma carcaça rija em pedacinhos para a calçada de pequenos “paralelos” de calcário. Os primeiros pombos não demoraram mais de cinco segundos a pousar e a iniciar a debicagem enérgica do pão. Toda a pequena nuvem de pombos, num momento, estava a debicar e a competir pelo pedaço maior. Provavelmente, o grupo tinha vigias de atalaia, atentas a possíveis distribuições de comida, nas janelas habituais. Para alguns, a prioridade ia para a corte às fêmeas, arrulhando o habitual “rutututu-rutututu” ou o mais refinado galanteio “ouh-ouh-ouh”, que soava a grande e agradável assombro.

Aqueles é que a levam boa, já viu? — observou Boss. — Vêm sabe-se lá donde, vivem todos ao molho, passam o dia por aí sentados à sombra a acasalar ou a voar, e não precisam de ganhar a comida. Há sempre algum totó que lha dá.

E daqui a bocadinho estão a sujar tudo. Olhe, já começaram. Agora é no chão; mais logo é carros, é candeeiros, é parapeitos de janela, é tudo. Isto é meio caminho para doenças. Só sabem fazer porcaria. Deviam era ir cagar lá prá terra deles!

Agora inspiraram-me. É só um bocadinho, que já venho.

Dito isto, Boss, alongando a trela, afastou-se para o meio do relvado contíguo ao passeio, deu duas ou três voltas sobre si próprio, já de patas traseiras abertas e traseiro esticado e, depois de evidentes esforços, largou meia dúzia de rolos pastosos e fumegantes. Logo a seguir, aliviado, começou a raspar com firmeza as patas na relva e preparava-se para voltar à conversa com o amigo, mas este já se aproximava e fazia uma análise fecal sumária.

O que é que você anda a comer, meu amigo? Isto cheira lindamente. Não me diga que lhe andam a dar bifes?

Não, nada disso! — riu-se o outro. — É ração do hipermercado; mas da cara. Sabe a croquetes de vaca, com uns toques de guisado de frango. O meu dono não se poupa a despesas comigo.

O dono de Boss, para não ficar mal visto perante a vizinha, desenrolou um saco plástico que trazia no bolso, enfiou-lhe a mão direita e, com cuidado, para não esmagar aqueles rolos mornos, foi-os catando um a um, tendo o cuidado de não deixar cair os que já iam enchendo a mão. Com a outra mão, virou o saco do avesso e deu um nó. Daí a pouco, iria largá-lo no caixote do lixo aplicado no poste elétrico.

Ah, desta vez, apanhou o cocó — continuou Boss. — Às vezes, finge que não tem saco ou que eu não fiz nada. Mas, aqui para nós, mesmo com uma ou outra falha, sempre somos mais limpos do que os pombos, não acha? Deviam arranjar maneira de lhes diminuir o número. Eu não digo matá-los, que eu não sou racista. Aliás, já desisti de correr atrás deles — escapam-se sempre.

Podiam dar-lhes anticoncecionais, já que não é fácil apanhá-los para os caparem, como fazem connosco — concordou Gugu. — É que não é só as cagadelas. Esta corja está cheia de piolhos. Há dois meses, a minha dona teve de me pôr uma coleira contra os parasitas. Eu sei lá se não eram piolhos? É que a minha tigela está na varanda e, de vez em quando, lá está a corja de volta dela. Roubam-me a ração e deixam os piolhos.

Naquele momento, já quase todos os pombos tinham partido, talvez a beber água junto a um torniquete de rega do jardim. Posta a conversa em dia, os donos dos cães despediram-se e também abandonaram o passeio.

No dia seguinte, o dono de Boss levou-o à rua mais cedo. A conversa com a vizinha no dia anterior tinha-lhe dado algum entusiasmo. Logo após o xixi, Boss passou a vasculhar os recantos do relvado. Junto à parede, percebeu um cheiro convidativo e avistou algo que parecia comida. Preparava-se para o provar, quando sentiu uma picada no flanco direito. Virou-se zangado e quase apanhava o patife de um pombo, que, pelos vistos, se tornara demasiado atrevido e queria competir com ele por comida. Voltou para apreciar o petisco, mas, desta vez, a dor foi violenta: uma bicada no escroto fê-lo ganir. Pousado na relva, a pouca distância, o pombo cinzento, irisado de verde no papo, olhava-o, em pose de desafio. Correu pare ele, mas o pombo saltou e voou para pousar logo a seguir a um arbusto. Boss, determinado a apanhá-lo, foi atrás dele, mas, quando chegou atrás do arbusto, estacou. O pombo cinzento, muito direito, estava pousado junto à cabeça de outro acastanhado visivelmente morto. Do bico, escorria um muco azulado e, logo ali, um pedacinho de algo muito parecido com o petisco que Boss havia pouco se preparava para comer.

Por um momento, encarou o pombo cinzento, a raiva a cair a pique, um sentimento de gratidão a crescer. Sem saber como agradecer, baixou o olhar e afastou-se.

Daí a bocado, quando a dona de Gugu o trouxe à rua, e a conversa se encaminhava novamente para as queixas contra os malandros e desocupados que só sabiam acasalar, voar, debicar e defecar, a conversa de Boss era outra.

Não diga isso dos pombos, meu caro! A mim, as cagadelas deles não me incomodam. Temos de ser tolerantes com o modo de vida a que, em certa medida, estão coagidos. Não sabemos se um dia vamos precisar uns dos outros. E, olhe, tenha atenção: andaram a pôr comida envenenada por aí. Não coma nada que encontre, mesmo que tenha um ar apetitoso.


Joaquim Bispo

*

Imagem: Autor desconhecido, Casas pintadas, painel a fresco, séc. XVI.

Fundação Eugénio de Almeida, Évora.

Foto de jaime.silva

* * *






quinta-feira, 23 de setembro de 2021

VALENTIM

 



 

Acomodava-se sempre na última carteira, no canto da janela. Apartado, quieto, de olhar disperso. Não participava da aula, mas também não atrapalhava. Alheado. Estudava ali havia muitos anos, morava no bairro. Aluno de desempenho sofrível, sempre apresentando imensa dificuldade de aprendizagem. Mas era de paz. Sem qualquer esforço, ganhara a afeição de todos.

Valentim não faltava, não cabulava aula. Era quase sempre o primeiro a chegar ao portão da escola. Madrugador. De aspecto bem cuidado, uniforme impecavelmente limpo. Com trajes nem sempre novos, mas asseados. Nas reuniões de pais, a figura que se apresentava era a avó materna. Infalivelmente. Também muito calada, retraída, mas atenta. Sentava-se nas cadeiras da frente, acompanhava com devotada atenção tudo que era falado. Apesar do desgaste dos anos, trazia semblante sereno, olhos mansos.

Um dia, o portão foi aberto e Valentim não estava lá. Estranho.  E, naquele dia, a carteira do fundo, no canto da janela, permaneceu vazia. Francisco, professor de Português, percebeu. A ausência se estendeu pela semana. Apareceu, dias depois. Abatido, ainda mais silencioso, totalmente absorto. Encabulado, desgostoso. Perguntado sobre as faltas, tentou falar, gaguejou, desdisse. Não queria tocar no assunto.

Francisco não se contentou. Percebia que havia alguma anormalidade, Valentim aparentava embaraço, deixara de ser apenas retraído. Estava aflito. Difícil era a aproximação. Fechava-se feito ostra. De repente, o menino passou a dormir durante as aulas. Debruçava-se sobre a carteira e ali ficava. Imóvel. Muitas vezes, encostava a cabeça no rebordo da janela, cerrava os olhos, ressonava. Ninguém bulia com ele. Era respeitado pela distância que sempre impusera.  Parecia viver só, sem amigos.

Na reunião de pais, Francisco aproximou-se da avó de Valentim. Ressabiado, meio sem jeito, cheio de dedos, perguntou se havia algum problema, se o neto enfrentava alguma moléstia, explicou que o achava debilitado. O olhar da avó não tinha a mesma mansidão, os olhos ficaram marejados, mostravam cansaço. Por um minuto, Francisco acreditou que ela fosse contar alguma coisa, mas, ligeira, disfarçou, refutou qualquer prosa.

A partir dali, com a atitude da avó, a suspeita do professor se consolidou: Valentim precisava de ajuda. Falaria com ele. No dia seguinte, o menino não apareceu.

Francisco procurou o prontuário de Valentim, anotou o endereço e foi até lá.  Casa simples, um minúsculo jardim, organizado. A avó, assustada, encarou o professor. Eram olhos de súplica. Ela o levou para dentro. Calada. Não demorou muito, desatou a chorar. Disse que não sabia onde o neto se encontrava, que, havia algum tempo, ele não falava mais com ela, que se tornou estúpido, sem regras, sem horários. Não se alimentava direito, dormia fora de casa, e estava sempre alterado. Nervoso. O professor perguntou sobre os pais de Valentim. O rosto da avó ficou ainda mais sofrido. Muito encabulada, disse que a filha estava presa. Pela terceira vez. E o pior, que nem mesmo a filha sabia quem era o pai do menino. Um silêncio comprido se instalou. Francisco ficou chateado por não ter sabido disso antes. Deveria ter buscado informação entre os funcionários da escola. Se soubesse da história do menino, não precisaria ter provocado tanto constrangimento para a pobre senhorinha.

A avó percebeu que Francisco ficara chocado e, refeita, procurou desfazer o peso da situação. Timidamente, pediu ajuda. Sentia-se desorientada com a brusca mudança do neto. Queria entender, queria resgatar o convívio de antes. O professor, desassossegado, prometeu que tentaria ajudar, iria procurar desvendar o mistério. Se bem que, pela experiência de tantos anos na lida com adolescentes, sentia uma fagulha a lhe queimar o peito. A fagulha da certeza, da verdade que ele não queria enxergar. Dia melancólico.

Quando Valentim retornou, Francisco o chamou para uma conversa. Sentaram-se num banco, na parte distante e arborizada do pátio. O menino estava contrariado, apreensivo. Difícil o início da conversa. Ele se mantinha retesado, fizera uma blindagem para qualquer argumento. Foi um monólogo, um perguntar sem fim... Sem resposta. Ele só repetia: não preciso de nada. Nenhuma alteração foi percebida no semblante do menino. Saiu dali da mesma maneira que chegou. Apreensivo, blindado.

Francisco falara com muito amor. Fez as perguntas, argumentou. Queria que Valentim sentisse a preocupação que ele, professor, guardava no peito. Que soubesse que havia quem se preocupava com ele. Que ele entendesse a sincera disposição de ajudar, o verdadeiro carinho, afeição. Na verdade, queria que Valentim soubesse que não estava sozinho. Mas, terminada a conversa, sentiu que o menino não absorvera nada do seu mais profundo desejo.

Por um tempo, Valentim ficou afastado. Raras foram as vezes que retornou à escola. Depois, sumiu de vez. O professor continuava buscando notícias, mas nem mesmo a avó sabia do paradeiro.

Numa manhã, Francisco preparava-se para o início da aula e viu, no portão da escola, a figura definhada da avó do menino. Discretamente, ela acenava, desorientada. O professor foi ao encontro dela. Com seu modo reticente, muito abalada, explicou que a polícia estivera em sua casa. Que um corpo havia sido encontrado, que poderia ser Valentim. O corpo precisaria ser reconhecido. Trêmula, suplicou que ele fosse até lá, ela não tinha coragem para tanto.

Infelizmente, era ele.

                             

****************





segunda-feira, 20 de setembro de 2021

BICHOS





Uma formiguinha cruza minha caminhada carregando uma folha
oito vezes maior que ela. Parece um saveiro de uma vela só
ziguezagueando por um mar ajardinado, encontrando uma ou
outra embarcação do tipo, no sentido contrário.
Param, cochicham alguma coisa. Não deve ser nada importante,
porque as duas seguem decididas nos seus caminhos opostos.
Ou talvez uma informação fundamental para tocaram a vida,
cada uma na sua. Ou algum desaforo a ponto de não caminharem
juntas. Mas vou me fixar na primeira. Para onde vai tão esforçada?
Hora do almoço, claro. Em algum buraco, formiguinhas esfomeadas
rodeiam a mesa com guardanapo enrolado no pescoço e duas das tantas
perninhas batendo garfos e facas ansiosas pelo repasto que não chega.
Claro que não chega. A mãe não anda em linha reta e ainda cisma em
fofocar com outras iguais. Opa. Uma tenta roubar a folha. Tenso.
A que carrega não larga, a que quer carregar avança embolando
as patinhas, mas depois de um tempo relativo das formigas – talvez
uma Guerra de Cem Anos – a dona da vela verde consegue se desvencilhar
da pirata, que acelera em retirada sabe-se lá para onde.
Sinto que minha caminhada ganha ares de National Geografhic, ainda
mais que minhas lentes naturais percebem um cameleão na beira terracota
de uma jardineira salpicada de folhas secas, pensando que eu estou
pensando que ele é uma delas, tolinho, pensando que tolo sou eu.
E assim que me vê, dá uma meia volta fulminante
e se embrenha no que para ele é uma grande floresta tropical.
Imagino que lá dentro encontre farta fauna para se alimentar e
igarapés para se banhar, já que o rapaz da mangueira há poucos
minutos acabou de fazer chover naquele bioma.
Ih, o camaleão assustado assustou alguém. Lá de dentro voa uma
borboleta azul que rodeia meu caminhar, como se me comboiasse feliz
ou me pedisse ajuda para liquidar, tal um São Jorge salvador,
o Tiranossauro Rex que se apossou de seus domínios.
E retomo os passos firmes em direção à baixa curva glicêmica, quando
sinto algo no meu pescoço, a despeito do balançar ritmado do meu corpo,
desce à gola da camiseta fazendo cosquinha. Bom dia, joaninha.
Que lindo seu pijama. Bolinhas pretas sobre um vermelho sopa de tomate,
um biscuí que agora passeia pelos meus dedos diante meu olhar enfeitiçado,
distraído, a ponto de quase pisar numa minhoca se contorcendo de ponta
a ponta, como se quisesse descobrir de que lado está a cara.
Ao meu recuo súbito, a joaninha voa encantada, engolida pelo denso azul
de maio, mês de céu puro e temperaturas sensatas, tempo de caminhadas
mais que necessárias: contemplativas da vida e suas belezas acima
do bem o do mal. Como o beija flor que risca o vento, para no ar e faz
o que tem que fazer: beija uma flor.
Mas eis que um quero-quero me voa em rasante, esquivo do
golpe e compreendo a advertência: há ovinhos de quero-querinhos chocados
ali por perto e ái de quem se aproximar, mesmo que minha intenção não
seja de rapina.
Dado o recado. Hora de voltar. O infinito jardim cumpriu sua missão.
Abro a porta de casa e encontro um rabo em riste, acelerado como um
metrônomo alegro, e um focinho tenta me escalar com lambidas que se
dizem beijos. Nunca fui cachorreiro. Até passar a ser. Quando descobri
que os bichos vêm ao mundo para futucar a fantasia que doura a razão,
aquecer os afetos e ensinar pureza aos humanos.
Pena que alguns – ou muitos – teimam em não a aprender.





domingo, 19 de setembro de 2021

Do primeiro ao último

 


No primeiro instante, foi como um desgarrar ermo, distante, estéril. Minha mãe foi a única que desceu o batente e, correndo, tentou, com um choro aturdido e doído, me demover do destino. Pai quedou impassível, qual um pedaço de tronco morto, incapaz de pronunciar a última palavra – sim, pouco tempo depois morreu de “causa natural”. Meus irmãos já haviam ganhado o mundo. Sendo o mais novo, deveria seguir os seus passos – me sentia compelido a isso; uma força estranha me conduzia –, contrariando a vontade de mãe: “Meu filho, seus irmãos já foram. Você vai me deixar sozinha com o seu pai? Eu não vou aguentar”. Ou seria assim, ou não seria nada. Nenhuma ruptura é prudente e aceitável, pelo menos para quem fica. Uma légua e meia de caminhada me fez titubear. Se houvesse carro, ou qualquer transporte veloz, não teria tempo de pensar no fracasso. Tia Bernardina me esperava em Quixadá, para, logo, me despachar na rodoviária e me apresentar, como disse, “às bonanças de uma vida nova”. Ela atuava como um desses coiotes que fazem a travessia aos Estados Unidos. Pode acreditar, ela recebia para isso. Eu tive que liberar cerca de quatrocentos reais, dinheiro de hoje – a minha economia de uma vida inteira de pobreza –, para que ela comprasse as passagens e me arranjasse um lugar para ficar na cidade encantada, Fortaleza. De lá, eu não sabia nada, só que a vivência seria de muito trabalho, se quisesse mesmo sobreviver; senão, seria atropelado e morto pela realidade. Em 25 de março de 1980, cheguei abobalhado e feliz. Botei o pé direito no solo sagrado e me benzi. Um senhor corpulento, de nome Inácio, me levou para a rua Princesa Isabel, no centro da cidade. Na viagem, ele largou duas palavras no meu peito: “Você é louco, rapaz?!”; “Fortaleza está um caos!”. Ou seja, uma bela recepção, digna de um errante moribundo. Titia me alojou numa espécie de pensionato, onde morava a senhora Liduína, uma velhota sem filhos e sem marido, que alugava os cômodos para “cuidar” da vida dos fregueses, para ocupar o tempo ocioso e ganhar um trocado para o dia a dia. A velha avarenta contava os pães que eu comia; só eram permitidos, no máximo, dois por dia. A despesa da casa, com alimentação, era dividida pelos quatro hóspedes; ela não pagava nada. “Menino, é assim: sua tia pagou o primeiro mês, mas a partir de maio você deve pagar cento e cinquenta reais [dinheiro de hoje], mais as despensas da casa, rateada entre os quatro”. A soma dava, em média, duzentos e cinquenta reais por mês. De entrada, arrumei um serviço de faz-tudo numa vendinha. Limpava, organizava as mercadorias e fazia o trabalho que os gatos da vizinhança rejeitavam, o de espantar os ratos – muitos. O pagamento era in natura e variável; havia meses que eu recebia cem por semana, ou oitenta, e isso dependia do humor do patrão espezinhador. Fui me forçando à adaptação, algo muito duro para quem não tem coisa nenhuma. Como fazia falta o colo de mãe, o aconchego certo depois de um dia de labuta… Resolvi estudar, por insistência da minha irmã Jandira, que já morava em Fortaleza há pelo menos dez anos, casada, com filhos, que declarou, certa e segura, que havia um jeito de se livrar da pressão a que estava submetido: virando doutor. Apesar de não ter conseguido, ela disse que botava fé em mim. Estudava à noite, correndo o risco, vez ou outra, de dormir no relento, pois que, se chegasse depois das oito, a velha era capaz de me deixar do lado de fora. Felizmente nunca aconteceu, apesar das ameaças. Não tinha dinheiro que desse sequer para assistir a um filme no São Luiz, então o jeito era se escorar na porta, fazer cara de mendigo e esperar um trocado, até que juntasse o necessário para entrar. Foram, talvez, quatro ou cinco vezes que entrei assim. Adorava os filmes dos Trapalhões, E.T. e De volta para o futuro. Calhava meses impregnado com a maravilha, sonhando com o dia em que me tornaria ao menos ajudante do ajudante de limpeza do citado cine. A oportunidade veio quando contava com um ano e sete meses na Capital. Uma tremenda sorte; surgiu uma vaga para lanterninha, e eu agarrei com afinco, como se agarrasse um bote salva-vidas. Assisti de Indiana Jones a Cinema Paradiso. Maldita ou bendita a hora em que assisti ao belíssimo Cinema Paradiso. Eu me achava o próprio menino, o protagonista, um salvador da própria sorte. Foram anos de completa fantasia, preso à promessa de um final feliz. Não abandonei os estudos. Passei no vestibular para Odontologia, com a ideia ingênua de cuidar da minha dentadura, de confeccionar a minha prótese, já que, com o tempo da carestia e com a alimentação e a higiene desordenadas, havia perdido pelo menos meia dúzia de dentes. Em poucos meses, um anjo me socorreu, o doutor Alcimar. Professor e cirurgião dos bons, me pegou pelo braço e me ensinou as minucias da arte. O melhor de tudo é que eu não precisava me aperrear com o dinheiro fugaz, pois ele me pagava um salário razoável e ainda dava a alimentação. Nessa altura eu não estava mais no pensionato, e sim num alojamento independente, ligado à universidade. Para isso, eu não gastava um tostão; minha bolsa servia, praticamente, para comprar livros, materiais da faculdade e comida boa. Quatro anos e meio depois eu me formei e passei a trabalhar num novo consultório, no Palácio Progresso, o prédio mais lindo da cidade, ao lado do meu mestre e amigo Alcimar Rocha. Deslanchei e arrumei o meu espaço, angariando minha própria clientela, no bairro de Fátima – numa dessas, encontrei Anadir, que curou e somou flores; três filhos e um bocado imensurável de amor. Bem, a leitora deve se perguntar sobre o porquê dessa história condensada, feita em retalhos mal-amanhados. Meu filho Marcelo me pedia insistentemente para contar a minha trajetória, através de um livro. Em que pese ser dono das minhas horas, tempo me falta para escrever uma narrativa longa – teria de renunciar aos preciosos momentos em que dedico aos meus netos, por exemplo. Além do mais, não sou escritor, mesmo arriscando amontoar bons versos e prosas aqui e ali. Lógico, eu poderia dizer muito mais, relatar o dia em que fui mordido por um cachorro de rua; as vezes que tive de pedir comida de porta em porta; sobre as duas semanas que dormi na rua; o reencontro e o restinho da jornada de minha mãe, ao meu lado, sendo acarinhada e mimada. Mas o essencial está aqui. O que importa, de fato, é que resisti, por sorte ou por obra de um ente divino. Sei que sou exceção. E, por favor, não me venha com conversa falaciosa de meritocracia. Eu contei com o acaso, com a boa vontade de algumas e alguns e com os meus princípios, dos quais nunca me desliguei. Do primeiro ao último dia, fiz um propósito, serei feliz com o que tenho; com o ânimo de poder, sempre, aprender e recomeçar, se preciso.





sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Dois textos de Rodrigo Mendonça

 







 






quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Agarra que é ladrão

 


Manhã cedo e Maria Amália já andava no corrupio que se lhe tornara ultimamente habitual. Nada mudara na sua vida, não tinha afazeres ou obrigações novas, no entanto parecia que o tempo lhe estava sempre a escassear.

Quando parecia ter encontrado um modo de meter de novo a vida nos eixos, uns dias depois dava por si novamente a correr para conseguir meter tudo num dia cujas horas lhe pareciam cada vez mais escassas.

Passou a levantar-se mais cedo e a deitar-se mais tarde, apesar de parecer uma zombie durante o dia, cortou as distrações “inúteis” e mesmo assim, nada. Tudo corria bem durante uns dias e depois voltava a correria por falta de tempo. A sua vida limitava-se agora apenas ao trabalho, onde estava sempre atrasada para tudo, e a tratar mal e porcamente da casa e dos filhos.

Um dia encontrou por acaso a vizinha do piso térreo do prédio de três andares onde vivia e apesar de há muito não se falarem, devido a uma quezília entre os filhos que rapidamente se estendera às respetivas famílias, não pôde deixar de reparar que tinha o mesmo aspeto de morta-viva que via quando calhava olhar para um espelho e o ar de quem gostaria que o dia tivesse mais horas ou que houvesse uma tragédia que parasse o mundo, deixando-a então repousar.

Dessa vez não se falaram, mas com o passar dos dias os encontros tornaram-se mais frequentes. Parecia até que não se passava um dia em que não dessem de caras uma com a outra a entrarem ou a saírem do prédio, sempre com um ar esbaforido. Inevitavelmente acabaram por chegar à fala, esquecida a querela face ao ar de exaustão que ambas apresentavam.

E as queixas eram as mesmas para ambas, a sua vida não mudara em nada e de repente sentiam que lhes faltava o tempo até para as obrigações inadiáveis. É claro que lá diz o ditado, “em criança o tempo arrasta-se, em jovem caminha e em adulto corre.” Mas neste caso parecia ter-se convertido subitamente num Usain Bolt sobrecarregado de esteroides.

E analisando a situação de Ana, a vizinha, o caso tornava-se ainda mais incompreensível. Os dois filhos mais velhos tinham saído de casa, ele para um apartamento próprio e ela para a universidade numa outra cidade, por isso, com apenas o filho mais novo em casa, o da querela, devia sobrar-lhe tempo para tudo e mais alguma coisa. Mas não, a correria aumentara para níveis que nem com três filhos pequenos conhecera.

Enfim, que podiam fazer? Se calhar era o cansaço que as fazia pensar que andavam mais azafamadas do que nunca. Mas pensando bem, era como a questão do ovo e da galinha. Andavam cansadas devido à azáfama contínua ou parecia-lhes que lhes faltava o tempo por andarem cansadas?

Entretanto, no piso superior, José Eduardo, refastelado no sofá, assistia a uma das suas séries favoritas, que gravara nos dias anteriores. Tinha tempo, tinha imenso tempo antes de ter de sair para o trabalho. E gostava de começar o dia com umas boas horas de televisão e de descontração, petiscando qualquer coisa, até ter mesmo de sair. Pena não ter mais umas horas livres por dia...

Isso recordou-lhe que tinha visita marcada a um apartamento novo para quando saísse do emprego. Estava ansioso por mudar de casa e esta segunda visita era apenas para se certificar de que era de facto o seu favorito entre os muitos que vira. Mas tinha quase a certeza de que o iria comprar e mudar-se o mais rapidamente possível.

É claro que colegas de trabalho e amigos iriam estranhar essa compra. Porquê trocar um belo e espaçoso andar num prédio de apenas três pisos num bom bairro por um apartamento bem menor num enorme prédio de 15 pisos e três fogos por andar num bairro muito inferior e bem mais longe do emprego e de bons restaurantes e distrações? Parecia absurdo, a menos que tivesse sofrido fortes perdas monetárias e quisesse reduzir o seu nível de vida. Mesmo assim, haveria certamente alternativas melhores.

Vista de fora, parecia realmente uma decisão altamente bizarra. O que as pessoas não sabiam é que ele tinha mesmo de se mudar e para um local com muita gente em permanência.

É que uns meses antes, após um acidente rodoviário que o deixara em coma durante duas semanas, descobrira que tinha agora um novo talento, quase um superpoder. Ao roçar-se casualmente por alguém algumas vezes em dias diferentes, conseguia roubar-lhes alguns minutos do seu dia, acrescentando-os ao seu.

Foi o que fizera com Maria Amália e Ana, as únicas vizinhas que encontrava regularmente. Nunca vira os respetivos maridos e tinha escrúpulos em usar crianças, por isso estava limitado a duas fontes. Dia após dia, semana após semana, já conseguira acrescentar ao seu dia quatro horas de uma e três horas e meia da outra. Mas perante o seu ar de cansaço permanente, receava que não aguentassem se continuasse a sugar-lhes tempo, tendo pois decidido parar.

O pior é que se tinha viciado em ter dias longuíssimos e apesar dos acrescentos que conseguira continuava a achar que o tempo nunca era suficiente para tudo o que queria fazer.

Mudando-se para um prédio com 45 fogos e várias pessoas em cada um deles, as suas hipóteses aumentariam imenso, sobretudo se entrasse e saísse a horas diferentes para encontrar o máximo de residentes. E havia sempre as reuniões do condómino. Pressionada pelas suas perguntas incessantes, a agente imobiliária confessara que havia um ambiente conflituoso no prédio e que as reuniões eram frequentes para tentarem resolver as inúmeras questões que estavam sempre a surgir.

Sim, tinha mesmo de se mudar e o mais rapidamente possível. É que o seu objetivo era vir a ter um dia com 72 horas bem contadas!

Luísa Lopes





sexta-feira, 3 de setembro de 2021

ANÍMICA

 


ANÍMICA

 

quando eu tinha todos os movimentos

eu era sol entre nuvens

aves de arribação

qualquer coisa de menos sólida

por haver.

eu via cachoeiras em meus sonhos

remanso de rios

pedra grande de sentar menino

florestas a esculpir.

 

Poema inédito do livro igualmente inédito “Da Essencialidade da Água”





sábado, 28 de agosto de 2021

A Caminhada

especial-terceiraidadefotomarcossantos009

Exausto, foi com grande alívio, que o octogenário se deixou cair no banco de jardim, na entrada do parque. Aquelas caminhadas custavam-lhe cada vez mais e, pelos vistos, demoravam cada vez mais. Estava a começar a anoitecer. Fez um esforço para recordar a que horas saíra de casa, mas não conseguia.

Deixou-se ficar um pouco a restaurar as energias… noutros tempos, achava ele que não há muito, faria todo aquele percurso a correr e quase sem transpirar, mas agora… como se pusera naquele estado?

Olhou com curiosidade os sapatos de quarto, empoeirados, como se os visse pela primeira vez; os seus pés estavam “gordos” e o calçado parecia querer rebentar. "Não admira que me sinta cansado! Tenho de fazer uma dieta!" Pensou de si para si. "Recuperar a forma, esta fadiga só pode ser banhas, olha-me que patas”.

Recostou-se e esticou preguiçosamente os braços pelas costas do banco, enquanto apreciava o trânsito barulhento e apressado.

O seu olhar fixou-se no enorme edifício na esquina: "Que esquisito, não me recordo de ter sido derrubada a padaria e já ali está um prédio de uns sete andares, pronto e habitado! Não há dúvida que tudo agora é construído a uma velocidade estonteante!"

Uma carrinha branca imobilizou-se ao pé do edifício e descarregou dois fardos de jornais, antes de arrancar em grande velocidade. Estranhou a distribuição do jornal tão tardia, normalmente acontecia de madrugada. "Está tudo tão diferente…" Ainda se recordava do sinaleiro, luvas e capacete brancos a gerir o transito naquela esquina, antes da sua substituição pelo semáforo, que empoleiraram muito alto, mesmo no meio do cruzamento. Não foi assim há muito tempo… mas também o semáforo lá não está, foi substituído por um conjunto de colunas, cada esquina sua, com o seu próprio conjunto de luzes… de certeza que fora feito para a autarquia ajudar a enriquecer um qualquer fabricante amigo. Sorriu com a sua própria maledicência.

— Bom dia! — A voz masculina sobressaltou-o, fazendo-o descobrir a seu lado o jovem polícia que o mirava com curiosidade.

— Boa tarde! — Corrigiu-o.

— O senhor está bem? — Perguntou o agente.

— Eu? Sim, estou! E você? — Ele não estava a perceber a razão da abordagem.

— Eu também estou, obrigado! — O polícia endireitou-se com um sorriso e afastou-se num passo curto para a berma da rua, sem o perder de vista. Pegou no telemóvel e fez uma chamada.

Ao fim de um minuto ou dois, fitou com suspeição o agente que regressava, sempre com um sorriso nos lábios.

— Posso perguntar-lhe o seu nome? — O jovem voltava à carga.

— Posso saber porquê? — Respondeu na defensiva. — E o seu, qual é?

— Peço desculpa pela minha falta de maneiras. — A boa educação do polícia começava a ser irritante. — Meu nome é Meireles!

— E eu sou obrigado a dizer-lhe o meu? — Agora estava a ser deliberadamente insolente.

— Não, claro que não. Não está a fazer nada de mal. — O jovem exibiu um rosto triste. — Era simples curiosidade.

— A minha mãe dizia que a curiosidade matou o gato! — Atirou com um ar de triunfo, voltando o rosto para o lado, como que indicando que acabara ali a conversa. — Tenha uma boa tarde! — Rematou.

— Um bom dia, quer o senhor dizer! — O rapaz era insistente. — Ainda é de madrugada, o sol está a nascer agora. — Apontou para as silhuetas dos prédios onde um clarão avermelhado parecia querer sobrepor-se às trevas.

— Madrugada? — O rosto dele tornou-se uma máscara de espanto, enquanto a sua mente trabalhava em alta velocidade: "A que horas saíra de casa? Quanto tempo caminhara?... De onde viera?"

Um pequeno Opel Corsa parou bruscamente ao lado do passeio onde os dois se encontravam. Outro jovem, este à civil, correu para eles e olhou-o nos olhos, preocupado.

Já eram dois de volta dele, que estava naquele estado de confusão… começava a ficar assustado, quando o recém-chegado disse finalmente, numa voz estrangulada:

— Pai! Graças a Deus! Andamos a noite inteira à tua procura!

 

Manuel Amaro Mendonça

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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Coração sem asas

 




Os corações

quase todos

têm o amor inspirado

têm o voo destinado

as aves todas do céu


Voam sem saber

como

vivem sem saber

para quê

traçam um voo perfeito

no seu eleito

viver


Trazem asas ao nascer

abrem-nas à viração

lançam velas

à vastidão

do espaço e voam

Cumprem o destino delas


Uma asa que não voa

asa que não tem sentido

A uma ave

de que serve?


Um coração que não ama

de que serve a quem o tem?


Algum dia se encerrou

de asa ferida

magoado

Nesse momento lançou

um olhar derradeiro

ao firmamento negado

e disse adeus à vida


Coração que não ama:

asa que não voa


Ave que não cante:

coração agonizante


Joaquim Bispo


*

Esta composição, desencadeada numa oficina de escrita de Conceição Garcia, em 2007, foi um dos textos selecionados para integrar a coletânea resultante do XIII Concurso Literário de Presidente Prudente — Brasil, 2020.

*

Imagem: Hugo Simberg, O anjo ferido, 1903.

Ateneu, Helsínquia, Finlândia.

* * *






segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O PECADO DA LÍNGUA COMPRIDA

 





 

A tarde da última sexta-feira do mês era reservada para o benzimento das crianças.

Com chuva ou com sol, nesse dia, todos os deveres da manhã eram acelerados, o almoço saía mais cedo, e logo estávamos a caminho. Sempre acompanhadas de três adultos, invariavelmente mulheres, as crianças desmamadas seguiam em fila indiana para o sítio de Dona Genoveva. Os pequenos, que ainda mamavam no peito, não careciam de passar o ramo. Minha mãe e minha avó eram as acompanhantes titulares: a avó já era velha, não mais teria filhos, e eu, com seis anos, era a caçula da minha mãe. As outras tias ainda estavam no período parideiro. E como pariam! A cada ano, a fila indiana ficava maior.

A benzedura que Dona Genoveva fazia nas crianças era contra verme, feito lombrigueiro. À frente e fechando a fila, a tia e a mãe, e no meio, a avó. Todas no controle zeloso do bando. Usávamos roupas domingueiras e, nos pés, as inseparáveis alpargatas: azuis para os meninos e vermelhas para as meninas.

O percurso era longo. Havia muitas cercas de arame farpado a serem vazadas, e sempre era exigido muito cuidado! Não podia rasgar a roupa!

E durante o trajeto era um converseiro danado! A tia falava lá na frente, a avó não escutava direito, as crianças repetiam até que o recado chegava ao fim da fila. E muita coisa era falada. Eu adorava ouvir tudo, prestava uma atenção danada. Quase sempre era conversa de adulto, e as outras crianças se distraíam e nem escutavam direito, mas eu não perdia uma palavra.

Naquele dia até que a prosa não estava tão boa...  Elas falavam sobre a dose de óleo de rícino que tomaríamos na manhã do sábado. Coisa triste! Existem gostos e cheiros que ficam impregnados na memória de tal maneira que, mesmo que vivêssemos por mais de um século, não arrefeceriam. Entre os maus, estão o gosto do óleo de rícino, e daquele remédio branco, leitoso e grosso, que ficava num vidro marrom com a fotografia do homem com um peixe enorme nas costas. Engolir esses dois remédios era um suplício! E o pior do óleo de rícino era a revolução que provocava na barriga. A gente nem podia andar direito. Tinha de passar o dia inteiro numa distância mínima da privada. Era um corre-corre danado! Um martírio! E não adiantava reclamar, ninguém escapava.

Atravessada a última cerca, já no terreiro da casa de Dona Genoveva, era hora de retirar os carrapichos das roupas e das alpargatas. Hora dura! As pontas dos dedos ficavam doídas com tantas espetadas, e as minhas mais ainda. Castigo por roer as unhas! Terminada a cata dos espinhos, ajudávamos a avó. Ela, seguindo as tradições espanholas, usava saias com saiotes rodados e compridos até a altura dos tornozelos. E ainda usava meias! Virava uma maçaroca de panos com espinhos, tudo tão emaranhado que deixava as saias mais curtas e as meias à vista. Nessa hora, eu sempre pensava que uma boa faca ajudaria no serviço, mas nunca disse nada. Retirava, dolorida e pacientemente, os impiedosos carrapichos.

Refeitos, entrávamos na casa. Casa escura, de janela minúscula, paredes com reboco desalinhado, precariamente disposto sobre trançados de bambu. Chão de terra batida. Tudo marrom. O chão, a parede, o telhado, tudo era marrom, cor do barro. O pior era o cheiro do cachimbo. Dona Genoveva pitava. Ela toda cheirava a fumo. Na sala, onde fazia o benzimento, havia um banco comprido de madeira, ensebado. De frente, ficava a cadeira onde deveria sentar-se aquele que seria benzido, e ao lado ficava a cadeira de Dona Genoveva. Cadeira rústica de pau, com braços, assento desgastado, feito de trançado de palhas. E na parede, próximo a ela, havia um buraco escavado no reboco, onde ela guardava o cachimbo, o fumo de corda, o canivete e os fósforos. Sempre que ia pegar uma coisa, caía tudo. Uma aflição!

Dona Genoveva, com toda a calma do mundo, pegava o fumo, picava e repicava uma porção sobre a mão em concha. Juntava os picados, e, com o dedo, ia compactando tudo no fundo do fornilho. Apertava, apertava, riscava o fósforo e, enquanto pelejava para incendiar o fumo, dava seguidas tragadas e baforadas com a boca murcha, absolutamente carente de dentes. E muitas vezes a saliva escorria e ela a amparava com as costas da mão. Um ritual triste, repetido por inúmeras e inúmeras vezes, sempre assistido pela plateia que diariamente lotava o velho banco de madeira. Dona Genoveva foi a única benzedeira de verme e espinhela caída da região por décadas e décadas. Benzia crianças e adultos.

Naquele dia, depois de várias baforadas, quando o ar já estava empesteado de fumaça, Dona Genoveva apagou o fumo do cachimbo com uma cuspida e o recolocou no mocó escancarado do reboco. Passou as mãos para o lado direito da cadeira, pegou o galho de arruda que descansava num caldeirão com água, arrancou um pequeno ramo, e colocou-se de pé para começar a benzedura. A avó sempre era a primeira, e depois seguia a ordem do banco. E o ramo era passado nas costas, no peito, na barriga, nas pernas, na cabeça... A boca de Dona Genoveva não se aquietava. Rezava, rezava, rezava.

Na minha vez, era um sofrimento! O cheiro do cachimbo, do fumo, das mãos de Dona Genoveva, e mais o odor da arruda, virava tudo um bodum só. Enjoava.

O que mais me impressionava é que, quando o benzimento da família acabava, o ramo de arruda estava completamente murcho, pendido.

Nesse dia, a primeira sessão de benzedura de Dona Genoveva de que tenho lembrança, não sei o que houve. Terminado o ritual, todos ainda sentados no banco, a avó colocou-se de pé para a despedida, e eu, intempestivamente, perguntei:

- E o café?!

Avó, mãe e tia empalideceram.

- Que é isso, menina?! – disse a avó.

- Não! Nós ainda não tomamos café e, em casa, as visitas só vão embora depois que é servido o café! – respondi.

Dona Genoveva também ficou surpresa. Surpresa, não! Ela ficou toda sem jeito, incomodada. Imediatamente, chamou a filha, cochichou alguma coisa no ouvido dela. A rapariga saiu como um corisco pela porta afora.

E a benzedeira, toda encabulada, foi até a cozinha, ajeitou a lenha do fogão, colocou mais alguns gravetos, um pouco de palha seca de milho, remexeu as brasas que estavam sob as cinzas, e o fogo ardeu. Destampou a velha chaleira de ferro que estava sobre a chapa com o intuito de se assegurar de que estava cheia de água.

De volta à sala, desculpou-se pela demora e disse que o café ficaria pronto em pouco tempo. Era só o tempo que a filha levaria para voltar da casa da vizinha mais próxima, aonde fora buscar café torrado, uma vez que a reserva da casa havia acabado. A programação era torrar café na manhã do sábado.

Nem olhei para o lado. Ouvia apenas a respiração ofegante e contida da mãe, perto de mim. Fazia assim quando estava furiosa! Com certeza, os olhos das crianças estavam todos voltados pra mim. Apesar do beliscão doído que recebi do meu irmão, nem pude gemer. Aguentei calada.

E o tempo não passava.

Finalmente, a filha de Dona Genoveva entrou esbaforida pela porta da sala, passou como um raio por nós e seguiu para a cozinha. Num minuto ouvimos o barulho da rotação do moinho, manivelado pelas mãos da moça. E um cheiro forte de café moído encheu o ambiente. Nem achei gostoso... Sabia o que me aguardava! Não seria nada fácil, e muito menos agradável.

Logo o café foi coado e servido. A minha mão tremia quando fui pegar a caneca do café. E demorei a tomar. Não queria que acabasse. A volta pra casa seria medonha, caótica.

E foi...

Feitas as despedidas, repetidos os agradecimentos, por uns minutos de caminhada, o silêncio imperou. Mas, passada a primeira cerca de arame farpado, o caldo entornou. Se pudesse, eu sairia correndo na frente! Mas não podia.

Foram petelecos e palavras da mãe, da tia, da avó. As crianças, silenciosas, só me olhavam com aquele ar de zoeira. Que raiva! Por que não fiquei com a boca fechada?! Meu Deus, o caminho de volta seria comprido...

Cheguei em casa com as orelhas em brasa. Estúpida! Por que não segurei a língua?!

Os dias correram, e tudo caiu no esquecimento.

Até que chegou novamente o dia do benzimento de Dona Genoveva. Tudo igual. A fila indiana, as cercas de arame farpado a serem vazadas, as conversas de gente grande, os carrapichos, o ritual do cachimbo, as benzeduras e a despedida.

Nesse momento, eu virei pro meu irmão e disse:

- Nada de falar em café! Você sabe o que acontece...

Meu irmão chegou a prender a respiração de tanto susto, e Dona Genoveva caiu na risada, dizendo:

- Não, menina! Hoje, tem café.

A filha rapidamente passou o café e serviu.

Nem preciso dizer que na volta tudo aconteceu da mesma maneira. Petelecos pra lá, petelecos pra cá, falação, reprimendas, e as orelhas em brasa.

Durante meses, fui impedida de participar dos benzimentos. Ficava com as outras tias e com os pequenos que ainda mamavam, e a mãe dizia que eu só voltaria lá quando a minha língua encurtasse, quando ela coubesse na minha boca.

Expectativa frustrada.

Nunca encurtou.

 

      

 

               Regina Ruth Rincon Caires





sexta-feira, 20 de agosto de 2021

A FÁBULA DA ESCUTA




Tinha Desirée uma filha, que um bibelô em tudo lembrava, nem tanto pela pele alva 

e delicadeza de traços, mais pela obsessão da mãe extremosa, como se vestisse a 

menina de plástico bolha. 


Havia em Desirée motivos. Marie de Moi, assim chamava seu pertence, foi concebida 

pelo acaso de uma noite com um forasteiro, dito marinheiro, que bem antes do sol nascer, 

zarpou por mares sem fim, deixando Desirée um pote de geleia de tristeza, decepção e raiva, 

por ter guardado suas virtudes para um aventureiro de péssimas intenções. 


Ah, é? Decidiu criar a menina sozinha, como sozinha sempre se viu, destino de uma família 

desfeita pelo ciclo natural da vida, um tanto exagerado, já que a partida trágica dos pais e irmão 

foi  mais precoce do que o roteiro da normalidade pudesse determinar. 


E Desirée zarpou para dentro de si, virando e se virando para honrar a raiva do amante fugaz e 

sumidão. Fez de tudo de trabalho e estudo, sem largar do seu o bibelô pendurado pra lá e pra cá. 

Sensível, esperta, criativa e neurótica pitoresca, foi dar com os talentos numa agência de 

propaganda, onde seu jeito excêntrico e olhos que nunca piscavam cativaram os diretores, pares 

e clientes, a ponto de admití-la mesmo com a filha grudada no colo, dia sim, dia sim. 

Como um apêndice fofinho, atração djugo-djugo do escritório. 


E assim, tanto quanto a profissional redatora Desirée, crescia a menina para vida, sem nunca 

ter desgrudado da pele da mãe, coisa já normalizada pelos generosos diretores, chefes e colegas, 

que as acolheram como se as duas uma só fossem. 


Marie de Moi já avançava nos seus cinco anos, sob a proteção do colo materno. Aqui não vai 

metáfora alguma. Dormia nos braços de Desirée, comia nos braços de Desirée, aprendeu 

o bê-a-bá nos braços de Desirée. A mãe só a largava para que um velho tio distante, o Dr. 

Maubert, de consultório nos arredores igualmente distantes, examinasse a garota, acompanhasse seu 

desenvolvimento e oferecesse à Desirée confiança, compreensão e nenhum aconselhamento sobre 

como a mãe deveria ou não deveria cuidar da criança. Era um guru preguiçoso. Não se coçava 

para alertar sobre a doideira de Desirée. Daria muito trabalho. 


Um dia, Desirée irrompe na sala do supervisor Jean Paul, claro, com Marie de Moi a tiracolo.

- Surto de varicela na cidade! Vou precisar viajar para vacinar Marie de Moi. Só lá tem a vacina.

- Como assim, Desirée?

- A varicela! A varicela! Contagiosa! Contagiosa!

- Mas ela não está imunizada pela vacina tetra viral? Não tomou quando bebezinha?

- Claro! Mas é preciso reforço! A varicela! A varicela! Contagiosa! Contagiosa!

- Calma, Desirée. Para de chorar. A menina está com algum sintoma?

- Não. Mas vai ter. Feridas por todo corpo. A varicela! A varicela! Contagiosa! Contagiosa!

- Olha, Desirée. Eu tenho filhos pequenos. Vou ligar para o meu pediatra e você liga para o seu. 

E a gente faz o que deve ser feito.


Jean Louis ligou para o Dr. Aramis, que o tratou como um chato.

- Tem surto nenhum. Um caso isolado a 500 km daqui. Se tiver, eu vou ser o primeiro avisar. 

Fica na sua. 


Constrangido, Jean Paul mal desligou o telefone.

- A varicela! A varicela! Contagiosa! Contagiosa!

- Calma, Desirée. Falou com o pediatra?

- Confirmou! A varicela! A varicela! Contagiosa! Contagiosa! Vou encontrar meu médico, 

só ele tem vacina!

E com Marie de Moi agarrada aos seus prantos, sumiu pelo escritório aos gritos.

- A varicela! A varicela!


(A)moral da história 1: as pessoas estão assim. A verdade das coisas está no 

que desejam escutar. 

(A)moral da história 2: bater palma para maluco dançar enche o saco. 








quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Que graça, não?!

 

 

Graça era do tipo renitente, implicante. Não comprava fiado. Não arrumava crédito. Não fazia escolhas. Não se demorava no supermercado. Não retocava a sobrancelha, nem fazia escova. Não era amiga de ninharias ou de coisas. Não confiava nos outros. Não adulava o marido. Não acreditava em destino. Não lia horóscopos. Não tolerava arruaça e briga sem sentido. Não atendia o telefone. Não tomava banho nos domingos. Não saía sem necessidade. Não extrapolava o tempo no banco ou na rua – para não ser reconhecida. Não trocava de bolsa. Não se queixava do governo. Não entendia de política. Não gostava do PT. Não prestava atenção aos pormenores. Não gostava de pesquisar. Não controlava o dedo para compartilhar fake news. Não gostava de ler. Não queria tomar a vacina – mas foi obrigada pelo filho comunista, que “estava enfeitiçado pelo cão”. Não confiava em “vacina” feita no período de um ano – somente em cloroquina e afins. Não falava alto. Não falava baixo. Não suportava parte da igreja comunista. Não assistia à missa na igreja do bairro – porque o padre era comunista. Não tolerava comunista; comunismo e “absurdos” – incluía, no bolo fecal do ódio que apodreceu o seu coração, negros, gays e simpatizantes. Não sabia o que era comunismo – apenas que era coisa do demônio. Não gostava do papa – comunista. Não confiava na irmã – comunista. Não falava com o porteiro. Não cumprimentava o zelador – deixava-o falando com as paredes. Não gostava de bichos – de todo tipo, inclusive de gente moradora de rua. Não se achava fraca. Não se achava forte. Não era adepta de seitas – mas flertava com a maçonaria, com o olavismo e o bolsonarismo; com suas “teorias” e provocações. Não aturava Cuba e aliados. Não gostava do Norte do Brasil. Não gostava mais dos desertores, que antes amava – Sérgio Moro, Mandetta. Não vestia vermelho. Não tomava qualquer bebida rubra. Não lembrava que seu sangue era vermelho – felizmente. Não lia romances – todos feitos por vagabundos, comunistas. Não assistia à Globo. Não falava com xs amigxs do filho. Não aceitava namorico do filho com mulher com cabelo no sovaco. Não aceitava namorico com mulher com o cabelo pintado. Não aceitava namorico com mulher moderninha. Não sabia que o filho não gostava de mulher – sexualmente. Não queria saber, tampouco. Não achava que poderia contrair a Covid – nem o marido e o filho. Não usava a máscara corretamente – por birra. Não concordava com as roupas extravagantes do filho. Não aceitava a faculdade de letras do filho. Não dava dinheiro ao filho – para ele não se empolgar em sodomia. Não dormia bem. Não namorava com o marido há dois anos. Não tinha coragem de acabar o casamento – porque senão poderia perder as benesses e o nome de ser esposa do major Aquino. Não achava o marido um bom militar – porque não quis um cargo no governo. Não levava café ou água ao marido – só quando estava com bom humor; quase nunca. Não participava das reuniões de condomínio – porque era infestada por comunistas. Não concordava com nada que onerasse o seu bolso – o bolso do marido. Não tinha tempo para ajudar as pessoas carentes. Não tinha tempo a perder com pessoas que se diziam carentes. Não acreditava que todos esses “vagabundos” fossem carentes.Não dê o peixe, ensine a pescar…”. Não ensinava a pescar, entretanto – só falava que era preciso fazer isso. Não falava com estranhos. Não falava com conhecidos – tão-somente em estrita necessidade; caso de vida ou morte, até porque a família era consumida por escandalosos comunistas. Não compactuava com bandalheira. Não achava que o presidente fazia bandalheira. Não sabia o que é democracia – apesar de, nos últimos tempos, ser a palavra que mais saía de sua boca. Não participava da “vagabundagem” da coisa pública. Não suportava o SUS. Não tolerava qualquer slogan de governo petista – “para todos”; “Minha casa, minha vida” etc. Não conhecia, nem fez questão de conhecer, os ministros do STF – porque são comunistas e estão mancomunados com o PT. Não se incomodou com a gripezinha. Agravou-se a situação, que virou uma senhora gripe, contra ela, o marido e o filho. Todos ficaram acamados. Logo, foram ao hospital. O marido, direto para a UTI. Não aguentou, mesmo tendo tomado uma dose da vacina; faleceu com sete dias de internação. O filho por pouco não tombou. Ela assistia a tudo, calada, apática. Não podia dizer não ao SUS. Cedeu à morte em vida. Que graça, não?!