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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Os ardis de Amaltescher


Amaltescher é uma colónia penal alucinante — sei que dificilmente me vão entender. Na altura, eu pertencia à célula de Lisbuhan dos Albertianos — um movimento que tinha como referência os ensinamentos teóricos de Leon Battista Alberti e propugnava uma imaginária com a excelência representacional dos chamados pintores do século XV da era antiga. Éramos quase todos ex-estudantes de arquitetura que, por uma razão ou outra, nos tínhamos tornado representadores. «Com efeito, foi do pintor que o arquiteto tomou as arquitraves, os capitéis, as colunas e tudo o que faz o mérito dos edifícios» — argumentávamos a quem manifestasse estranheza pela opção que tomáramos. Usávamos quase sempre tecnologia eletrónica, mas, às vezes, preferíamos os métodos e os suportes analógicos, como adesão superlativa às práticas obsoletas dos criadores de imagens de há oitocentos anos, como Piero della Francesca ou Durer. A esta veneração interpúnhamos o filtro da naturalidade. Rejeitávamos as artificialidades, ainda que perspeticamente corretas, como os trompe l’oeil, mas abominávamos especialmente tudo o que indiciasse intenções de manipulação do espírito, como as deformações de El Greco, evidentes, ou as de Michelangelo, subtis.
Era esta recusa do artificialismo que nos levava a abdicar das representações holográficas, apesar da sua popularidade e da facilidade de criação que os equipamentos de última geração proporcionavam. Apenas a representação a duas dimensões perspeticamente inatacável, composicionalmente deleitosa e de matização venusta era o desafio que sempre procurávamos ultrapassar. E mensalmente fazíamos o nosso próprio certame expositivo — uma fila de ecrãs a todo o comprimento parietal de uma ala no centro discente, matizado com um ou outro suporte arcaico. Era a nossa vaidade e a nossa coragem. Percorríamos a exposição vezes sem conta em pequenos grupos a admirar e a criticar o que víamos. Os aspetos que nos mereciam apreço eram invariavelmente brindados com uma citação do De pictura, de Alberti, que quase todos sabíamos de cor: «O maior trabalho do pintor não é fazer um colosso, mas uma história.»; «Não vejo caminho mais seguro do que observar a Natureza.» Qualquer desatenção perspética, qualquer deformação ou incoerência detetada, era apontada de braço estendido e alvo de sarcasmos ruidosos, evocando aos gritos a norma hereticamente transgredida: «Esperamos que uma pintura pareça em relevo e que ela se assemelhe o mais possível aos corpos reais»; «Numa história, é preciso que todos os corpos se harmonizem pela estatura e pela função.» Quando o caso era grave, chegava-se frequentemente à execução sumária da obra e até a algumas vergastadas decididas pelo Coletivo Albertiano e aplicadas pelo Veteranus Albertianorum.
Só me alonguei nesta explicação para que percebam o contexto por detrás do que aconteceu e me deem razão no que fiz. Nessa noite tinha ido alimentar-me com dois colegas a um fornecedor alimentar, numa zona fora das nossas rotas habituais. A certa altura reparámos que havia umas quantas pinturas analógicas nas paredes, supostamente para as adornar. Levantei-me e fiz o giro de análise. O que vi não podia deixar-me mais irritado: eram umas pinturazinhas a tinta biótica, representando edifícios arcaicos das zonas reservadas, até com um apreciável tratamento lumino-cromático, mas… O ignorante que produzira aquilo nunca tinha ouvido falar em ponto de fuga — o rudimento dos rudimentos perspéticos. As linhas das cimalhas apontavam para uma zona do céu e as linhas dos lintéis das janelas e das portas apontavam para uma zona do piso a meio da rua. Chamei os meus colegas e, com a constatação daquela aberração representacional, começámos a lançar citações de Alberti: «Imaginar sempre uma linha transversal cortada por uma linha perpendicular, a fim de determinar na pintura uma posição fixa do ponto de vista.» A ira crescia dentro de nós. «Para um corpo retangular feito de ângulos retos, não se podem ver, com uma olhada, mais do que duas superfícies contíguas tocando o solo.» No auge da exaltação, peguei no forco da pasta proteica e desatei a esburacar aquelas indignidades. Logo um dos alimentários, um velho enrugado de cabelo pintado — que eu soube mais tarde que era o executante responsável — correu para mim, a tentar segurar-me os braços. Percebia-se que procurava defender aquela imundície. Não pensei ou talvez tenha pensado no que havia a fazer. Espetei-lhe o forco com força na lateral do pescoço. O que se seguiu nublou-se na minha memória, mas sei que senti uma grande serenidade, como quando se faz o que se espera de nós.
O processo judicial foi rápido e resultou num veredito cruel: ostracismo em Amalteia. O juiz devia ser um pós-picassiano: não teve em conta a atenuante de eu ter livrado a sociedade daquelas enormidades. Aliás, nem sequer proibiu o velho — que sobreviveu — de continuar a pintar. Tentou ainda dissolver a comunidade albertiana, mas isso não conseguiu. A ideia que a animava era mais intensa e íntima que a mera brandura conjuntural. Sei que o grupo continua a reunir-se, a espalhar os ensinamentos albertianos e a aprofundar a ligação entre os membros. Como tenho saudades do grupo e desses tempos! A vida em Amalteia era de uma crueldade sem nome, sobretudo para um homem com a minha preparação mental.
Amalteia ou Júpiter V é um dos satélites mais próximos de Júpiter. Minúsculo, é desde há uns quarenta anos usado como colónia de reeducação. Uma da dezena fora do planeta-mãe. O juiz não podia ter escolhido mais “acertadamente” o local de cumprimento da sanção. Claro que foi devido ao parecer do Conselho Normalizador que estudou o meu caso. Para me fazer sofrer. Tendo em conta o meu percurso de educação e de vida, as minhas escolhas, o meu pensamento, o que sou. Aquele mundo não fazia sentido. Depois de lá chegar, percebi muito bem por que há quem lhe chame Amaltescher, em referência ao alucinado criador de representações absurdas, irrealidades em imagem — Escher.
Com uma gravidade extremamente baixa, é um misto de anacronismos anatómicos, paradoxos geométricos e sobrepopulação. Tudo embebido num éter transparente, viscoso mas respirável, que deforma a perceção das formas. A fauna é variada, mas infinitamente metamorfoseável, quase fluida, resultado de evolução em condições de subgravidade. Como se percebe, é um mundo avesso a tudo em que acredito — rigidez, precisão, previsibilidade —, pelo que me era extremamente penoso viver ali. Era como se aquele mundo me estivesse continuamente a desmentir, a agredir, a humilhar. Nas primeiras semanas, eu e o grupo que chegou comigo, fomos obrigados a caminhar insensatamente numa espécie de sem-fins, para nos adaptarmos às condições singulares de gravidade e ilusão ótica. Durante horas incontáveis descíamos escadarias, sempre a descer, sempre a descer, mas não chegávamos a pisos inferiores — mantínhamo-nos no mesmo nível do edifício. Cruzavam-se connosco reeducandos de um grupo mais avançado, que subiam as mesmas escadas, interminavelmente. Mais tarde, passámos para um “nível” mais difícil: eram torres, edifícios, estruturas “impossíveis”, em que colunas da frontal do edifício sustentavam as traseiras do piso acima; em que cúpulas, a um tempo, eram abóbadas depois; em que escadas a ligar andares baixos e altos pareciam poder ser percorridas quer na sua parte de “gravidade normal”, como de “gravidade invertida” ou “lateralizada”, isto é, havia a ilusão de se poder caminhar tanto pelas paredes como pelos tetos.
Imaginem o que isso fazia à minha sanidade mental. Chamarem-lhe “reeducação” é de uma maldade obscena. Apetecia-me gritar: «Está bem, já percebi, estúpidos pós-naturalistas, já vi as vossas armadilhas surrealistas, mas não pensem que alteram a minha maneira de pensar. Na minha Terra é o rigor albertiano que explica a realidade. Isso é o que tenho de mais íntimo, de mais pessoal. Não se pode converter alguém que não queira. As inquisições descobriram-no pelo cansaço. Podem continuar com os paradoxos, que eu não abdicarei da minha certeza!»
Mais tarde passei para o “convívio” com outros seres. Chamar-lhes seres é arrojado. Pareciam-me mais materializações ilusórias de formas de seres do meu planeta, como se aquele satélite captasse o meu pensamento, o interpretasse e o representasse. De maneira totalmente “herética”, para usar a minha tão cara terminologia albertiana. Um sofrimento intelectual permanente. Uma tortura. Uma impiedade. Cruzavam-se uns com os outros num trânsito compacto e inextricável. Continuamente alteravam as formas de modo a cruzarem-se sem se tocar. Os seres que passavam como um grupo de tartarugas, mais à frente já eram lagartos e depois abelhas, borboletas, aves, peixes. Em sentido contrário deslizavam cavalos, aves, peixes, formigas. Mas nas transições passavam por formas desconhecidas para mim, embora me fizessem lembrar formas da Terra. A única regra parecia ser a de evitar espaços vazios. Alguma diferenciação de cor era o fugaz alívio percetivo, ao permitir distinguir a demarcação entre seres.
Descobri a vulnerabilidade do sistema, por acaso. Todas aquelas formas eram bastante paradoxais e incongruentes, mas eram neutras, inócuas, quase decorativas. Discorrendo, pensei que o tormento de lhes estar exposto só era penoso intelectualmente. Bem pior seria se, além de aberrantes, aquelas formas fossem assustadoras, como as de Bosch. Automaticamente, visualizei um pormenor de uma pintura dele: um homem com uma cobra enrolada às pernas a ser engolido por um enorme sapo com botas bicudas. A este pensamento inquietado, uma forte flutuação do fluido imersor transmitiu-se às formas imediatamente. Os peixinhos a metamorfosearem-se em aves mudaram para peixes monstruosos, de bocarras assustadoras cheias de dentes, em vias de devorar pássaros de aspeto jurássico; cavalos não apenas deformados ganharam desfigurações doentias, tumores e pústulas, enquanto escaravelhos repugnantes lhes devoravam o pus. De repente, todo o espaço que me circundava era uma representação alucinante e amedrontadora das Tentações de Santo Antão.
Suspeitando do que acontecera, rapidamente me controlei. Fora muito evidente que a perturbação se devera à influência do meu pensamento. Outras experiências com evocações de obras de De Chirico e Dali convenceram-me disso. Mais tarde, percebi que a chave não era apenas a evocação, mas alguma perturbação de medo ou inquietação, no meu espírito. O que não acontecia com outras emoções. O que havia a fazer? Como poderia aproveitar aquela singularidade ambiental em meu proveito? Talvez… A ideia fulgurou no meu espírito: treinar-me para sentir apreensão, receio, medo, mas por imagens que me agradassem.
Pensam que é fácil? Havia que evocar imagens como A Virgem dos rochedos, sugestionar-me para sentir medo delas e, quando o fluido imersor gerasse o universo sereno e deleitoso da imagem, conseguir manter um sentimento de medo, enquanto tentava fruir aquela paz. A ambivalência de sentimentos necessária tornava a experiência extenuante, devido à concentração exigida. A princípio, o fingimento não resultou, mas depois tornei-me eficaz a interiorizar medo no meu espírito. Quando o consegui, pude sentir a harmonia, o apaziguamento, em ambientes de Piero della Francesca ou de Da Vinci. E de vez em quando, permitia-me uma incursão em Botticelli. Mas era de mais. O medo construído começava a misturar-se com alguma aversão verdadeira. Então regressava a Ticiano, a Giorgione. Parecia que tinha conseguido escapar dos paradoxos e das aberrações. Parecia que conseguira burlar o sistema. Nada de mais errado.
Muito tempo depois, apercebi-me da armadilha. Cada vez era mais fácil recear as imagens de que gostava. O fingido ia passando a sentido. A certa altura, já sentia medo genuíno até da placidez de Bellini. E atrás da emoção incómoda de medo vinham sentimentos de desagrado, de asco, de rejeição. Sofria muito. Evocar uma imagem, mesmo a mais deleitosa, era equivalente a experimentar emoções de náusea e ódio. Paradoxo puro. Não tinha descanso. Não tinha para onde fugir. Nem daquele mundo nem de mim. Estava desesperado.
Certo dia, recebi uma ordem de transferência. Não sei por que motivo, tinham resolvido comutar-me a reeducação em Amalteia para guarda no Museu do Renascimento em Lisbuhan. Conclusões e decisões do Conselho Normalizador... Não sei se tenho razões para me alegrar. Deambulando pelas galerias repletas de obras de arte, tenho um só truque; não para burlar o sistema, mas para sobreviver: limito-me a caminhar de olhos no chão, para não vislumbrar sequer as obras expostas. Não posso ver, não posso espreitar, não posso permitir que o meu olhar caia sobre alguma. Não posso sequer imaginá-las. Tento manter vazio o espírito, sempre ameaçado pelos terrores e os paradoxos imagéticos de Amaltescher. Assim sobrevivo.

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: M. C. Escher, Relatividade, 1953.

* * *





domingo, 24 de setembro de 2017

Microconto premiado - Concurso Escambau (CE)






quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A mais breve história de amor

           

Amo rabada suculenta,
javali e picanha sangrenta,
bucho, mocotó e dobradinha,
língua, isca de fígado bem cortadinha,
moela, torresmo, foie gras,
cassoulet, sarapatel, vatapá,
caruru, pato ao tucupi,
miolo à doré, magret de canard,
paella, sardinha e pirarucu,
miúdos graúdos no angú,
pied de couchon, caviar,
feijoada, cozido de Portugal,
einsbein, bratwurtsbacalhau,
vôngole, escargot à provençal
goulash, labskaus, vaca atolada,
ovas, salsicha na macarronada,
tutu, feijão tropeiro, porcheta,
churrasco e feijoada,
de cordeiro a crocante paleta,
matambre, cupim, galinhada,
de porco, pernil e joelho,
frango à passarinho, caçarola de coelho,
linguiça, chouriço, boudin,
cochinillo, coq au vin,
leitão à pururuca, assado de costela,
paio, kassler, alcatra de panela,
galeto ao primo canto, galinha de cabidela,
molhos pardo, carbonara, bolonhesa,
spaghetti ao ragu de calabresa,
alheiras caseiras, carne seca no pastel,
ovos com bacon, picadinho de quartel,
escalope à milanesa, T-Bone aqui na mesa,
bisteca florentina, parrillada argentina,
pão com mortadela, salaminho e carne assada,
ceviche, sushi, mariscada,
carne de sol em manteiga de garrafa,
siri, guaiamum, caranguejo de tarrafa,
torta capixaba, lula alentejana,
brachola e bife à parmegiana,
moqueca de cação, barbatana de tubarão,
vieiras, polvo, ostra, mexilhão,
lagosta, cavaquinha,
lagostim, camarão.

"Jantarzinho lá em casa?
Você escolhe, lindeza!".

Ela se sentiu ofendida.
Ilusão mais curta da vida
Me passou carraspana. Era vegana.

Melhor assim, já é passado.
Alface me faz mal danado.





domingo, 17 de setembro de 2017

O rochedo



Fonte: https://africannum.com/





O rochedo leva
o mar para o céu:
estrelas de sal.




















sábado, 16 de setembro de 2017

Dias de contagem



A morte, essa curiosidade. Que lambe devagar como amante tímido, como bicho de rua. Essa vontade de rostos que só a saudade traça. O medo nervoso das doenças ruins, dos acidentes ruins, da velhice ruim sendo ofuscado por uma euforia que se apresenta em convite. Um relembrar de fatos bobos, tristes, bons. A mãe das fotografias velhas, com roupas estranhas (tudo é estranho quando se é passado). O pai de uma tristeza encolhida, disfarçada, das que burlam o faro dos que pressentem, o dó dos que percebem. Um irmão mais novo, um gato escaminha, um avô caduco, uma amiga de infância, um homem bom, uma mulher desperdiçada. 
Tanta gente ida. A balança em desnível frenético. Mais um corpo, mais um corpo, mais um corpo, mais um copo. Cheio de aguardente e soluços. Despedidas. Abraços, palavras, terços recitados para a audiência ávida por ritos, para a plateia de olhos sujos, de inveja funda, de pouco sentimento. A amargura cavando um oco nas entranhas. Os dedos tesos amassando a fronha. O choro seco de quem aprendeu a se aguar só por dentro. 
A morte, esse lugar sem instruções. Onde estão as criaturas do meu afeto. A vida, esta passagem estreita, autofágica. Coleção de ausências. Eu, quarto semiesvaziado. Travando na garganta as faltas. Esfregando as carnes sem calor. Absorvendo o derredor desabitado que confunde e desampara. E a solidão desaforada que insinua crenças em visões de eternidade. 
Por hoje, vou procurar moedas. Limpar, polir. Que a paga de Caronte precisa estar sempre pronta. Para o dia que não sei. 







sexta-feira, 15 de setembro de 2017

mulheres


a mãe da gente,
dizia: assim que tenha esta roupa lavada, e nem sabia de quem eram as duas camisas de linho e os dois pares de ceroulas mais um lenço, tudo branco, tudo encardido e apenas o lenço com um riscado em volta num azul tinteiro, e era eu, ainda sem idade de ir à escola: tenho tanta fome, senhora, e o olhar dela escorregava, de lá, de onde lavava a roupa de um e outro, como lhe escorregaria o sabão sobre a pedra onde desencardia, esfregando as peles dela nas ceroulas e lençóis e cueiros de onde já tinha tirado os restos de caca. O olhar dela a correr para me dizer: espera e cala-te, rapariga, ou apanhas, e já eu a deixar silenciar o estômago e a escorregar-me pelo muro baixo, uma parede que segurava as águas do tanque naquele lavadouro público. Os olhos dela e, atiçando-os, o grito do costume: vai ver do teu irmão, Maria Thereza, cuida que não se perca por aí o menino.
e as outras,
as que eram capazes de carregar duas ou três arrobas; capazes disso e de não perder o equilíbrio na tábua estreita com que, balançando-se do balanço das ondas, descarregavam, disto e doutra coisa, os barcos que se chegavam a terra e ficavam quase encalhados na ribeira.
Load (Lavadeira), óleo por Honoré Daumier (1808-1879, France)
Mulheres robustas no rosto e nas ancas e nos braços, e no bucho das pernas que nem se adivinhava debaixo das saias a encimarem um tornozelo ossudo e uns pés sempre descalços. Pés achatados que numa vida inteira o mais que veriam seriam umas socas de cabedal destratado.
Mulheres de seio farto e cabeleiras longas. De vez em quando, saiam-lhes, de sob os lenços, madeixas muito negras. Varinas e ciganas, diziam delas, não fosse pelos olhos tão da cor do mar e da cor da ribeira, em dias de bonança. Uma cor tão do céu que se diria nem terem cor própria e apenas reflectirem a cor dominante daquilo em que poisavam.
umas e outras
pariam e, se lhes não morriam, carregavam os filhos 
e pela vida inteira os ouviam: tenho tanta fome, senhora.





terça-feira, 5 de setembro de 2017

mergulho



transito 
pela orla do teu íntimo
num ritmo 
que transcende o entendimento
navego 
pelas águas do teu leito
e o meu peito 
não segura o que há por dentro
mergulho 
no fundo de um plano lúdico
impudico 
não prendo a respiração
e então 
eu me afogo no teu gozo
e morro 
em alguma margem do teu corpo





sábado, 2 de setembro de 2017

TEMPERANÇA


Às vezes, meu caminho é de areia
Viscosa
Ardilosa
Movediça
Lodo que aprisiona quem tenta dele escapar.

Às vezes, eu pego a areia
Umedeço
Ajeito
Modelo
E construo um lindo castelo, banhado de espuma do mar.

Mas às vezes eu apenas a observo
Nas dunas
Nos lençóis
Nas tempestades
E deixo que ela escolha qual face vai me mostrar.





sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Agenda encontrada numa ribanceira da Serra do Açor


Dia 10/8/16
Mais uma vez — como todos os verões — vim passar duas ou três semanas na minha terra, esta lindíssima vila de xisto e granito no vale do Alva. Como é bom rever e reviver as paredes de setenta centímetros da minha casa rústica e a sua frescura interior. E espero encontrar os amigos e os familiares, mesmo os emigrados, que “obrigatoriamente” aparecem no verão. Todos querem aproveitar a reunião inusitada para animar a vila com festas, encontros e comezainas.
Como desde há três anos, vou a um almoço dos nascidos em 1944, à semelhança do que fazem os nascidos noutros anos. O almoço é o pretexto para o encontro e a partilha da alegria de estar (ainda) vivo. Reveem-se os conhecidos, reconhecem-se as parecenças antigas por baixo das rugas modernas dos que vêm pela primeira vez, atualiza-se a fisionomia que cada um guarda do outro.

Dia 14/8/16
O Nunes está todo encarquilhado. A Georgina agora é loira.
Lembras-te daquela vez que te abri a cabeça à pedrada? — perguntou-me o Ramos.
Lembras-te de me fazeres serenatas, mais o Manel da biciclete? — tentou a Marisa.
As lembranças são um amontoado de tralha pessoal inútil, falsificada pelas ruminações, em que não consta a maior parte dos registos que os outros guardaram. Lembro-me dos folhos da Matilde, na igreja; lembro-me das reguadas que apanhei por causa do Zé Caçoila. O resto? Sei lá! Deve ter acontecido, se eles o dizem... O mais importante mesmo deve ser o encontro com pessoas do mesmo grupo etário. Ainda que não nos lembremos uns dos outros, temos lembranças no mesmo contexto, porque vivemos no mesmo ambiente, em certo tempo, mas, se calhar, o mais importante é que somos da mesma idade. Como estamos a viver a nossa reforma, a nossa velhice galopante? Vivemos para o futuro ou do passado?
Vocês viram ontem a chuva de estrelas cadentes? ― lançou um tipo de cabelo branco, mas ainda farto, quase à minha frente.
Quando? Ontem? Não soube de nada! ― disse uma. ― Eu à noite vou para a caminha ― respondeu outro. ― Chuva… ― desdenhei eu. ― Estive uma hora num caminho escuro da serra, mas só vi umas cinco.
Aquilo é um espetáculo fabuloso, não achas? ― prosseguiu o aficionado sideral, dirigindo-se-me decididamente.
Acontece todos os anos por esta época, não é? ― comentei, tentando mostrar algum conhecimento. ― Parece que são meteoritos que vêm da constelação de Perseu.
Não é bem assim ― contestou ele, sem alarde. ― São restos da cauda de um cometa que passou por aí.
Interessas-te por astronomia? ― perguntei, meio que para fazer conversa.
Eu interesso-me por tudo ― afirmou, categórico. ― Tem de ser, se não quero deixar enferrujar os neurónios.
Os outros tinham-se entretanto alheado da conversa, que se tornara nossa, e falavam dos colegas que tinham morrido, desde o último almoço.
Já viste o que nos espera, se não nos soubermos precaver? ― insinuou, apontando os circunstantes com o queixo.
No resto do almoço, tornou-me seu cúmplice num discurso de meias palavras, que se tornou enfático quando, após os pratos quentes, deambulámos pelas mesas dos queijos e dos doces:
Convence-te! Nós pertencemos à praga grisalha que só atrapalha. Cada vez somos mais a papar reformas. Que país é que aguenta isto? Passeamos, banqueteamo-nos, consumimos e não produzimos nada, já viste? Que planeta é que suporta isto? Não há recursos que aguentem. Somos uma praga.
Recebemos reformas, mas trabalhámos para elas ― tentei argumentar.
Mas agora somos uns inúteis. Uma sociedade bem organizada, sem tolerar desperdícios, devia descartar esta praga.
Mas isso é fascismo! ― indignei-me. ― Felizmente que a esperança de vida aumentou! Querias instaurar uma espécie de eutanásia por caducidade de prazo da validade produtiva?
Olha, porque é que não vens almoçar connosco um dia destes? Tenho um refúgio paradisíaco nos altos da serra do Açor. Podíamos falar deste e doutros assuntos aliciantes que ameaçam a Humanidade.
Apesar da minha relutância inicial, dei por mim a sentir uma curiosidade genuína pelas ideias dele e pelo modo de vida que levaria no tal refúgio serrano.


17/8/16
Às onze apresentei-me em Vide e fui conduzido por um trilho de terra batida que serpenteava pelas faldas da serra até desembocar numa espécie de côncavo arborizado com umas vistas de tirar o fôlego. O local parecia uma quinta de experimentação pecuária e botânica. Vários animais estavam confinados a espaços criteriosamente concebidos, em microambientes bióticos, com plantas específicas para cada animal. Alguns pareceram-me ligeiramente mutantes, como um, semelhante a um pequeno urso, que se alimentava de cenouras.
Conseguimos produzir cenouras com um alto teor de proteínas. A carne vai tornar-se um bem escasso num mundo como o nosso ― argumentou o Martins, o nome do meu insuspeito amigo de infância.
A esposa tinha preparado um almoço delicioso, com beringelas que sabiam a salsichas alemãs, beterrabas amarelas, com sabor a pato, e carne de cabrito que sabia mesmo a cabrito… Com sabor a vegetais, havia outras iguarias muito desleixadas pela maioria dos produtores agrícolas: figos de cato, juncos e fatias de uma espécie de meloa vermelha.
A conversa decorreu animada, mas encaminhou-se para rumos totalmente inesperados, apesar da conversa no almoço dos contemporâneos.
São versados em teorias da conspiração. Afirmam que os governos mundiais estão tomados por interesses estranhos, e que usam muitas técnicas de condicionamento. Dizem que os aviões dos governos espalham químicos na atmosfera, para nos tornar dóceis; que estão a ser aplicados “chips” nos recém-nascidos para monitorização de tendências antissociais; que existem muitos extraterrestres no planeta a preparar a invasão, com a conivência dos governos; que eles querem invadir o nosso planeta, porque ainda não conseguem produzir a carne que os nossos animais produzem com tanta facilidade.
Eu reagi, mais divertido do que assustado:― Mas por que é que vocês suspeitam disso tudo? Têm alguma prova de qualquer dessas teorias?
Então o meu amigo de escola primária, de quem eu não me lembro, abriu-se em revelações, talvez por achar que eu não iria acreditar nele, talvez porque não tinha nada a temer. Disse que, na verdade, ele e a mulher são extraterrestres; que estão na Terra outros duzentos mil; que a vida no seu planeta se tornou assustadoramente claustrofóbica, devido à praga grisalha que lá se tornou quase imortal; que a absurda quantidade de carne necessária à alimentação de tanta gente obrigou-os a socorrerem-se de outros mundos; que a obtenção de carne humana é a prioridade atual, dado o seu sabor sofisticado, parecido com o do cabrito, mas queixou-se da imprevisibilidade do fornecimento proporcionado pelas guerras.
Eu estava abismado, mas arrisquei uma piada, para amenizar a situação:― Caramba! Ainda bem que eu já não sou novo e que a minha carne deve ser rija. Só se fosse para ensopado de bode...
Eles não riram com a piada, ou antes, pareceu-me detetar um ténue e síncrono sorriso a iluminar-lhes o rosto. A conversa alongou-se ainda por várias horas, apesar de alguma inquietação latente minha, mas eles continuaram simpáticos e hospitaleiros. De tal modo que aceitei o convite para jantar e dormir aqui esta noite, neste paraíso natural e incrivelmente sossegado.
Estou a ficar com sono, mas não quis deitar-se sem registar os eventos deste dia incrível, enquanto ainda estão frescos. Amanhã podia não me lembrar.

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: Fernando Botero, Casal, 1999.

* * *
(Este conto integra a coletânea A Arte do Terror — Volume 4, da Elemental Editoração, 2017, pp. 174–176.)


* * *





quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Trova premiada em Cuba






terça-feira, 22 de agosto de 2017

Conquanto a Verruga


Ela: bela, belíssima, e, claro, linda, lindíssima. Assim seria se ausente a verruga no queixo, verruga que, pelo ângulo desfavorável, quiçá verdadeiro, afigurava-se maior e mais volumosa. Tinha nome, mas chamavam-na de Mô; era Mô para cá, Mô para lá, Mô com dois pelos escuros e grossos, crespos, ou, como dizia Josué, indecentes.

– Mulher com verruga, para mim, é mulher safada, ordinária, falava ele. E aqueles pelos pornográficos, pretos, hein, e aqueles pelos? Me explique.

– Pois ela gosta de você, Josué, disse Camila.

Conversavam durante o intervalo, bebericando água, aguentando o sol e a vida pelas sombras. Quicavam as palavras entre automóveis, pneus e motores, entre o balançar e soar das folhas.

– Quem, a Mô ou a Jéssica?

Mô era nome da verruga, criado por ele, diminutivo de ‘montanha’. Já Jéssica era ela, bela, belíssima, oculta. Findo o curto descanso, a conversa e sua eventual indignação, abriu a porta, e, de relance, não avistou-a entre os colegas trabalhando no escritório; onde estaria aquela cuja face o chamava, cuja infame carne o intimidava? Antes de reconhecer silhuetas, contudo, bateu o pé num degrau. Irritou-se, envergonhou-se, xingou baixinho. Então, fingindo descaso, transitou devagar, adentrou o cubículo e sentou ante a escrivania – e lá riu: eu a teria visto se buscasse seu defeito.

Inocente, as palavras de Camila tiveram para ele o fim de verdade, fim de indicação. Josué não era homem de recusar amor, malgrado inexistente atração ou vontade, e assim, nos dias seguintes, semanas, analisou Jéssica, buscando a mulher existente nela, seu valor, a forma atrás do erro; e confrontava a verruga, imaginando-a como sepultura recém coberta de terra onde cintilavam, recentes e vivas, as lágrimas do funeral. 

Demorou, demorou e o tempo cresceu, e ele, depois de sonhar e acordar, de indagar em cantos e detalhes o que enobrecesse Jéssica, de adormecer buscando correspondências metafísicas entre a vontade e o amor, de prometer ao espelho, encarando-se, ações mais firmes, verdadeiras, enfim ajeitou-se com intuito de agir. Crescera muito a atração, o desejo, nem tanto os dois como a curiosidade e a possibilidade – ou isso achava Camila, ao ouvi-lo falar, 

– A iniciativa é da Jéssica; a iniciativa, no amor, falava Josué, é de quem tem mais a ganhar.

– Você é o homem, menino, você é o homem aqui e agora, replicava ela.

– E desde quando isso é o mais importante? 

Era sexta-feira, dia dos audaciosos. Vestiu-se, ele que antes só usava panos, costuras, aprumou-se, cortou a irônica pelugem das orelhas. Quero ouvir o amor, dissera, de si para si; e dissera, também: apenas um convite formal, apenas isso, um café ou maçã, nada mais.

Durante esse hiato de considerações ocultara seu propósito. Deixara, sim, pistas, pequenas pistas, como quando, sentado ao lado de Jéssica nas reuniões, roçava o braço nela, leve e devagar, encantando-se com que o sentia através do ínfimo contato; era um universo, esses dois pontos de pele, aberto a toda interpretação, a todo imaginar de alegria; tocando-a, olhando-a, aterrava-o o contraste entre sua brancura e o negror da verruga, dimensão própria, concreta, cuja força gravitacional vencia esforços contrários de memória e atenção. Já entrando no estacionamento, lembrou-se de conversas e imagens; era novo, inocente, ocasionalmente esperto, e revendo detalhes desconfiou de quem o impelia a este namoro, pois Jéssica mostrava-se tão atraída por ele quanto a fortuna e o infinito. E a verruga, por Deus, como esquecê-la? Bom, vou é agir, e me livrar disso, dessa maldição, murmurou, e rasgando os pés no capacho, entrando no escritório, opôs-se a si: Jéssica ria, viva, iluminava-se sorrindo para, supunha, o novo gerente; este, homem elegante, de terno preto, cabelos e óculos negros, deixava-se numa bengala fina e longa.

Apolo apresentava-se, fluente na linguagem do comum; tinha tom de chefe, e pegava e usava silêncios como os ilusionistas usam a atenção e o movimento da visão alheia. Era um homem de palavras e contato, logo concluiu Josué, vendo-o tocar o rosto de quem com ele conversava. Cego de nascença, existia em seu tato uma aritmética de distâncias tão precisa quanto a dos olhos, e assim passando os dedos acertou a verruga de Jéssica. Estremeceu ela, nunca acarinhada ali, nunca chamando a satisfação dos dedos, e Josué já acusava-a de traição quando sentiu desfalecer a vontade até então contida.

– Meu objetivo é presentear a empresa com uma nova visão, disse Apolo, para riso universal.

Josué passou esse dia observando, ansioso, e conversou com o novo chefe, apresentou-se; julgou-o destituído de paixão por Jéssica, ou pela verruga, ou pelo que pudesse ser tocado, mas o fato de conhecer um homem cuja personalidade subjugava tanto as mais fracas como a própria noção de justiça e equilíbrio inquietava-o, além de remanifestar inseguranças e receios. Maldito ceguinho, era a sua fala, justo hoje me surge, justo na minha libertação; convidar Jéssica, cortejá-la, virara um objetivo a ser assinalado no calendário, objetivo agora adiado ante a iminência das férias e dos nervos. Era tarde, sabia Josué, tarde para isso, tarde para o choro do calor no asfalto; decidiu esperar duas semanas, entrar em férias, analisar melhor emoções e pensamentos.

O inferno era o mesmo, as nuvens finas e transparentes, e assim a vontade de vencer um fim. Era atacar ou morrer, meditou durante o recesso, imaginando com as fantasias e as mãos aquele corpo moreno e liso, o suposto cheiro adocicado, natural, de sua musa. Queria-a, concluíra na primeira semana, na cama, ouvindo o ventilador se entregar; usara a verruga para sonegar sentimentos e emoções, soterrá-los através da carne, da carne marrom e feia, saliente, inocente ao querer da pele tantas voltas quantas as da entranhas.

Indo, voltando, elegante, chegou no escritório. Entrou, cumprimentou um, o amigo e o inimigo, cumprimentou Apolo, e, não descobrindo Jéssica, deu graças pelo frio das máquinas. O que não cria o homem, além da culpa, perguntou-se, deixando a pasta na mesa, abrindo gavetas, pegando e gritando novidades. Suava, suava frio e pelo frio, e ao ouvir um ‘oi’, sentir abraço e beijo, viu-a: bela, belíssima, e, claro, linda, lindíssima, mas sem a verruga.

Era outra mulher, Jéssica, bela, linda, e perfeita: perfeita demais. Nem um fino risco ficara do bisturi. Como se de pedra, de mármore, suas feições afiguravam-se acima da carne, então admirada e rejeitada por Josué. É demais, perfeita demais, incomodou-se ele contra ele enquanto ela falava.

– E o sinal no queixo? Questionou.

­– Ah, arranquei. Ou melhor, o cirurgião arrancou. Foi sugestão do Apolinho; estamos noivos, disse, encarando-o. Josué olhou para Apolo, que, próximo, ouvira e se aproximava. A bengala ia e vinha, esquerda e direita, existia através das batidas. 

– Eu vi o potencial dessa mulher, falou, e riram. Riram os dois, riu Josué, e riu, também, o resto da verruga, abaixo da pele, concebendo a sua vingança.





domingo, 20 de agosto de 2017

ELISE

Hoje não tem conto. Nada de ficção, nada de invencionice. Talvez um ou outro número
impreciso, alguma cronologia fora do lugar, desimportâncias, enfim.

Fui acometido de uma vontade de desengasgar um personagem que durante tempos
frequentou a minha infância e adolescência como uma irmã que não tive
(só vim a conhecer o amor fraternal de verdade aos 21 anos) ou como uma companheira,
testemunha, cúmplice, sei lá, das minhas primeiras descobertas da vida,
nas quebradas da década de 50 para os anos 60: Elise.

José meu pai era fazendeiro, hobby quase profissional que mantinha em paralelo à sua
carreira sob o protetor e provedor Banco do Brasil. A fazenda era bem próxima ao Rio e
como todo fazendeiro, mantinha famílias de peões que trabalhavam na propriedade.
Uma dessas famílias era constituída por uma senhora de uns 40 anos, de nome Iraí,
abandonada pelo companheiro, alcoólatra (ele e ela), que vivia num casebre de
pau a pique e sapê, onde cuidava como brava boiadeira de um curral de triagem no meio do mato.
Dona Iraí, mãe de dois casais de crianças: Elvino, Edino, Elise e Eliete, trabalhadeira de dia,
bebum à noite, criava a prole ao Deus dará, sendo que os meninos mais velhos já se
encaminhavam para os Batalhões de Infantaria da região. Restavam as meninas. Meu pai e
uma de suas seis irmãs resolveram criar as quase mocinhas de Dona Iraí. Elise aos 9 anos
foi lá para casa e Eliete, de 8, para a casa da minha tia.

Eu tinha 6 anos quando Elise chegou num fim de tarde de domingo, carregando roupas e coisas numa sacola das Casas da Banha e um par de olhos que mais pareciam dois holofotes sob lacinhos de fita,
foi apresentada como a menina que iria me fazer companhia e cuidar de mim, já que minha mãe
trabalhava muito como professora e meu pai vivia atarefado entre o Banco, a fazenda e o tênis.

Isso foi o que me foi dito.

Na verdade, fui perceber bem mais tarde, que Elise era consequência da sociedade vigente,
ainda entranhada por resquícios de “Casa Grande e Senzala”, onde patrões rurais tinham o
hábito acolher crianças de seus peões em troca de serviço.
No caso de Elise, havia tudo isso, mais um ordenado justo, casa, comida e roupa lavada, médico,
dentista, tudo com total dignidade. E assim foi morar lá em casa, para ajudar a cozinheira,
fazer os trabalhos domésticos e me arrumar para a escola. Minha mãe, professora da rede pública,
não tardou em ajeitar um curso supletivo para Elise, embora já tivesse a menina chegado sabendo
ler, escrever e contar.

Na sua primeira semana, ao primeiro toque de telefone que ouviu, meteu-se debaixo do
beliche do seu quarto. Tempos depois, me confidenciou que ficou com medo da estridência
nervosa vindo sabe-se lá de onde. Na sua imaginação, telefone era um espaço imenso onde
a pessoa entrava e era abduzida a um outro mundo, onde uma voz do outro lado – também
sabe-se lá de onde – estabelecia um contato com o desconhecido. Imagine. Sem perceber,
estava eu diante de uma ficcionista científica, daquelas que o correr do tempo poderia
revelá-la gênio ou idiota.

Nem uma coisa nem outra.

Elise era a sinceridade e ingenuidade em pessoa. Certa vez foi comprar pão. Esperta,
logo aprendera as tarefas mais corriqueiras. Na volta da padaria, deslumbrada com outro
advento da tecnologia que havia descoberto -  a campainha da porta -  tascou o dedo
no botão durante minutos eternos.
- Pééééééééééééééééééééééééééééééééééééém!

Neste dia, meu avô estava lá em casa. Com estranheza, abriu a portinhola da porta
e viu o sorriso iluminado de Elise, debaixo de seus holofotes no olhar e seus
lacinhos na cabeça. Indignado, impaciente educador, meu avô fechou a portinhola.
- Pééééééééééééééééééééééééééééééééééém!

Mais uma vez, meu avô. Abriu, olhou indignado e fechou a portinhola.
- Péééééééééééééééééééééééééééééééééééém!

E por aí foi, por quatro, cinco, seis toques infindáveis de campainha, seguidos da
impaciência do avô, que não arredou pé de sua implicância.
Até que eu mesmo resolvi abrir a porta.
- Ué, seu avô não estava me reconhecendo!?

Numa tarde de um dia qualquer, minha mãe recebeu um telefonema. E respondeu em tom
lamentoso, assustado, aflito.
- Meu Deus, meu Deus!
E sem lagar o telefone, vira-se para Elise apressada:
- Elise, tire as capas dos sofás e das poltronas! Rápido, rápido!
E Elise parte para a cumprir a tarefa com desenvoltura, só que começou a chorar,
chorar, chorar.
- Menina, por que você está chorando?
-  A senhora está tão nervosa. Alguém deve ter morrido. Quem foi?
- Morreu ninguém, Elise. José inventou de trazer uns amigos do Banco para jantar. 
Vamos correr, vamos correr para arrumar tudo.

Histórias de Elise transbordam da minha memória. Lembro que sempre retribuía "Boa Noite"
a Gontijo Teodoro, na despedida do Repórter Esso. Lembro do dia que ela mesma declarou
ser o mais feliz da sua vida, quando minha mãe a levou ao cabeleireiro para fazer henê.
(Ah, os valores da época...). Lembro de sua companhia deliciosa nas manhãs de Tom e
Jerry no Metro Tijuca, nas matinés de Jerry Lewis e Oscarito, nas suas gargalhadas
contagiantes com o Circo do Carequinha. Lembro que tinha personalidade: era Flamengo,
numa casa de tricolores, americanos e um solitário botafoguense: eu mesmo por destino.
Quando Garrincha comandou aquele baile de 3 a zero no rubro negro na final de 62,
dia seguinte, ganhei do meu avô um uniforme completo do Botafogo: camisa listrada de
manga comprida estampando a mágica estrela no lado esquerdo do peito, calção e meiões pretos.
Ela desdenhou:
- Parece que está de luto.

Lembro do seu orgulho quando passei para o Colégio Pedro II e ela fez questão de engraxar
minha pasta de couro que me foi presenteada pelos meus pais meritosamente.  Lembro de
reproduzir para ela em casa as aulas de Português, História e Geografia, que recebia dos
vetustos professores, criando para mim mesmo um jeito de estudar. Lembro que ela era amiga
das minhas primas mais velhas e frequentava rituais familiares como se da família fosse.
Lembro de apresentá-la como minha irmã pretinha, com a pureza e inocência de tempos
diferentes de hoje, quando certamente seria processado, preso ou massacrado
nas redes sociais.

Um dia, minha mãe chegou encantada com uma professora angolana chamada Elise Echpo
Bassei, que conheceu num encontro de educadores. Pela semelhança do sorriso e do olhar
radioso, passamos a chamar Elise carinhosamente de Elise Echpo Bassei, apelido que foi recebido com bom humor e gratidão, tendo me provocado inventar situações, como apresentá-la a um
colega chato como uma estudante angolana. Neste dia pedi para Elise não abrir a boca, a não
ser para sorrir. Não sei se o chato acreditou até o fim, mas as risadas que explodiram depois
foram sinceras.

Elise era fã de Elvis Presley, enquanto eu iniciava meu encanto pelos Beatles.
Havia controvérsias veladas entre nós, até que em 1967, no lançamento histórico
do Sargent Peppers, ela achou que tinha me vencido.
- Como estão feios esses Beatles! Barbudos, desgrenhados.
Rebati com uma maldade. Disse que seu ídolo Wanderley Cardoso, um periférico da Jovem
Guarda, tinha mau hálito. Ela acreditou desolada. Como eu sabia? Não sabia.

E assim foram meus tempos adolescendo com Elise. A única manifestação sexual que aflorou
nesse convívio, foi num dia de ousada curiosidade. Percebendo suas jabuticabas escapulindo
pela camisola, perguntei inocentemente se já haviam crescidos cabelinhos na sua forquilha
entre as pernas.

Foi um desastre.

A indiscrição chegou aos ouvidos dos meus pais – com certeza, pela cozinheira carola -,
que me repreenderam e me colocaram num brando castigo. Talvez não ver Bonanza ou Jovem Guarda, ou não tocar os Beatles na vitrola.
Dias depois, entreouvindo uma conversa entre meu pai e meus tios, percebi o trauma que
a curiosidade sobre a tal forquilha poderia ter produzido em Elise.
A saber: de quinze em quinze dias, meu pai a levava para passar o fim de semana na fazenda,
com sua mãe, seus irmãos já sub oficias do Exército e sua irmã mais nova. Numa dessas,
Elise foi estuprada pelo novo padrasto. Ouvi a história em frestas, sem muito detalhes, mas o suficiente para entender a gravidade da estupidez.
A partir daí, alimentei uma pena protetora pela Elise, quando jamais a deixei se aproximar de
meus colegas do Pedro II, machos de ralo buço em permanente estado de ereção, à procura
de domésticas para desovar seus impulsos. Ah, os imbecis da época...

Elise cresceu no recheio afetivo da nossa família. Passou de acompanhante de um filho único
à cozinheira de forno e fogão e à administradora dos afazeres domésticos. Meu pai sempre
ocupado, meu avô recém viúvo sessentão, atarefado com as namoradas que lhe choviam,
minha mãe dando os primeiros e longos passos na administração da educação pública.
Elise cuidava da casa, fazia compras, preparava almoços e jantares. Já exibia a forma sensual
de uma menina de Angola, brejeira, sorridente e esperta como ela só.
Não tardou a ter uma conversa franca com minha mãe.
- Preciso falar uma coisa com a senhora. Estou namorando um bombeiro de São João de Meriti 
e estou apaixonada.

Naquele instante, minha mãe intuiu que estaríamos perdendo Elise. E para acolhê-la mais ainda,
cuidou a professora de mexer seus pauzinhos de autoridade pública e inscrever o pretendente num concurso para a Polícia Militar. Ele passou, sabe-se lá como.

Numa manhã de uma quarta feira comum, sentei à mesa para tomar meu café com leite
apressado antes de partir para o colégio, nesta época já o Colégio Andrews, onde me debatia
com Física, Química, Matemática e Descritiva, como se lutasse contra um polvo de Júlio Verne,
mas isso é outra história.

A verdade é que naquela manhã não havia mesa posta. Havia perplexidade e danação
de meus pais pela quebra da rotina. Curioso, entrei no quarto de Elise e nem vi seu chinelo de
dedo. Armário vazio, banheiro sem lavanda nem escova de dente. Apenas entreolhares perplexos
e desapontados entre mim, meu pai e minha mãe. A partir daquele instante, nunca mais saberia de Elise. Meu pai ainda tentou algum contato com a irmã dela que, por coincidência, tinha sumido da casa da minha tia exatamente naquela manhã. Na fazenda, não havia mais Dona Iraí – falecera
havia 5 anos - nem seu casebre no curral de triagem, muito menos a possibilidade de algum contato com seus irmãos.

O que adiantaria? O sumiço era eloquente.

Elise partiu sem deixar vestígios, pistas ou rastilhos. Nem mesmo o então soldado da PM
teve como ser encontrado. Só se sabia que se chamava Jorge, mas meus pais concordaram
com a sabedoria de Let it Be. Ah, os rapazes de Liverpool influenciando gerações...

Vinte e dois anos se passaram. Minha família estava desmembrada. Meus pais haviam se separado,
minha avó falecera bem antes. Anos depois, meu avô não resistiu a um aneurisma, eu já tinha
uma irmã por parte de pai e estava divorciado com dois filhos quase adolescentes.

Toca o telefone na casa da minha mãe
- Dona Lucy? É Elise, lembra de mim?

Minha mãe paralisou. Elise a tinha visto numa entrevista na TV, já que a professorinha
estava deixando o cargo de Secretária de Educação, aposentando-se do magistério,
partindo para estudar Direito.
- Quando vi a senhora na televisão, disse para minhas filhas: eu preciso reencontrar essa gente.
Foram eles que me criaram.

Passada a emoção inicial, ficou combinado um almoço numa churrascaria rodízio. E assim,
num domingo preguiçoso, sentamos a uma farta mesa eu, minha mãe, meus dois filhos,
Elise e suas três filhas – o soldado, agora cabo da PM, soube que estaria de serviço.
Filhas lindas e amorosas. Com traços e sorrisos tão angolanos quanto os daquela menina assustada
que chegou a nossa casa aos 9 anos de idade. As meninas eram mais velhas que os meus.
A primogênita tinha 21 anos.

E matei a charada.

Há 22 anos, Elise fugiu lá de casa, pois estaria grávida do soldado da PM.
Alguma coisa muito forte impediu que soubéssemos na ocasião. Medo? Vergonha? Paixão avassaladora? Desejo de chutar o balde da vida? Tudo junto? Tentei saciar a curiosidade,
ela me confirmou à boca pequena, entre uma linguiça, farofa e picanha fatiada.

Estava estabelecido o afeto interrompido. Saímos da churrascaria às lágrimas. A promessa
de vamos-nos-ver, não-vamos-nos-perder, temos-uma-história-de-vida ficou no ar.

Dia seguinte, na exata segunda feira, antes mesmo de dar meio dia, minha mãe recebe outro telefonema. Dessa vez, seco.
- Dona Lucy, preciso que a senhora me dê 5 mil reais (ou algum valor absurdo na época)
todo mês. 
- Como assim, Elise?
- Isso mesmo. Esse empreguinho de cabo da PM que a senhora arrumou não dá para criar minhas filhas.
- Elise, você quer trabalhar de novo conosco?
- Não, senhora. Quero uma mesada. Seu filho não vive dizendo que eu era a irmã pretinha dele?
- Desculpe, Elise. Mas não temos como. Podemos pensar outro jeito...

E Elise desligou o telefone. Súbita, como aquela quarta-feira sem mesa posta de café da manhã.
Nunca mais soubemos dela.

Que pena, Elise, que pena.





quinta-feira, 17 de agosto de 2017

a chuva do indigente - poema de Laura Cohen




 a chuva do indigente

     



    é morto o homem que não nos pertencia,
    o que esperava sobre as telhas de uma casa
    e perdeu todas as coisas que tinha
    as roupas do corpo, a terra em nada lavrada

    mas nós não julgávamos seus ossos brancos
    que receberam a chuva do indigente
    mas temos a bondade de nos esquecer deles
    e de toda a carne que nos escondiam

    e quando uma mulher ou um rapaz
    vir buscar a notícia de um homem sumido
    ele será uma coisa que jamais terá existido – 
    um nome apregoado em voz estrangeira.








Do livro Ferro. Impressões de Minas, 2016.





quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Cortejo de anjo

Pietá, de Michelangelo 

O cortejo fúnebre segue pela rua principal, criando uma paisagem anêmica. Carros, gente, bichos dando passagem ao morto em estranho respeito. No trajeto da procissão de rostos padronizados, casas pequenas mantêm portas e janelas fechadas. O fechamento é tradição. A intenção do gesto é homenagear o defunto com uma decência de passagem. Coisa antiga, de interior. Quem o morto foi não importa. Se foi ou não criatura de pecados. Ladrão, traidor, assassino, viciado. Na morte, tudo cessa. Porque a morte é paga que baste. Não, não importa mesmo quem foi o passante. Só às vezes. Quando tudo está errado. E a cor do caixão denuncia a trapaça nojenta. Como hoje em que a morte que segue na carreta é morte desonesta. Caixão branco. Meio metro de corpo. Nem metro inteiro. Até para Deus é covardia. 
Na falação excitada dos jovens, muita raiva:
<Se Deus existisse, não matava criança.>
<Gente ruim Deus não leva.>
No silêncio dos mais velhos, alívio. Mais um que escapou de crescer. De ter as mãos engrossadas pelo plantio, de ver o café comido pela geada, de pedir empréstimo para pagar empréstimo, de olhar para o prato vazio, de agonizar pela fome. Crescer é desumano. Só gente jovem não sabe. Hoje é dia feliz, isso sim. Amém. Aleluia. É o que pensam os velhos calados.
Alguns passos e eu também sou procissão. Não importam a minha roupa colorida e as minhas mãos sem terço. Eles me aceitam. E me entregam murmúrios recorrentes. Desgraça... Desgraça... Desgraça... Desgraça... As mulheres mais velhas se benzem, exorcizando a palavra, ordenando silêncio. Falar desgraça atrai coisa ruim.
O bebê morreu dormindo. Não sofreu, diz alguém. Não, não sofreu. Deixou o sofrimento todo para a mãe. A mulher devastada que agora abraça o caixão. Caixão branco. De meio metro. Carregado pela carroça fúnebre. É tudo o que lhe sobra da parição tão amada. Na mão, o rosário não avança uma conta. Não há Maria, Senhora, Mãe que a conforte. 
Eu tremo.  Corpo inteiro. Tão forte que me pergunto se alguém percebe. Ou se alguém se importa. Apesar dos filhos que não gerei, tenho alguma coisa para entregar à mulher na carroça. Uma saudade de parir e de embalar aquilo que não tive, que não sei. Mas sinto. Um choro aguado que me devolve à oração da infância:  A vós bradamos os degredados filhos de Eva. A vós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas. 
Três da tarde. O corpinho lacrado pela madeira branca é engolido pela terra. O hiato nos murmúrios é de espanto. É de dor exausta. Ninguém se mexe. Ninguém vai embora.
Eu também ainda estou aqui. Estrangeira. Intrusa. Triste.