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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

SAMIZDAT 45 - Lima Barreto


Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho


AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
O Homem que Sabia Javanês, Lima Barreto

CONTO
A Caixa de Arquimedes, Joaquim Bispo
A Garrafa de Água..., Rafael F. Carvalho
Pré-Natal, Tatiana Alves
Mesa Posta, Cinthia Kriemler
A Despedida, Marcelo Maio
Trânsito, Assis Furtado
Dom, Tamara Chagas
Arriola, Maria Fátima Santos
O Velho Portão Grafitado, Fábio W. Sousa
No Brasil Ninguém Passa Fome, Marcos Salvatore
O d’Abumbrado Perfil, João Pereira de Matos
Maria Rute de Bastos, Bruno Scuissiatto
O Homem do Saco, Filomena Gonçalves

CRÔNICA
Barbie Cusquenha, Henry Alfred Bugalho
Sarariman, Edweine Loureiro
O Último de Nós, Gabriel Bocorny Guidotti

POESIA
Limiar, Marília Lima

LINKS PARA DOWNLOAD
Scribd - https://www.scribd.com/doc/298835143/SAMIZDAT-45-Lima-Barreto
Calaméo - https://en.calameo.com/read/000002238945cd55f34cc





sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

enraizando

fotografia de Daniel Giannechini

ouço pássaros noturnos
colorindo o que anda escuro
dentro da minha cabeça 
ouço o vento em correnteza
desaguando em aquedutos
que afloram no meu corpo
ouço a força da lagoa
musicando qual se fosse
orquestrada pela chuva
ouço enfim outro silêncio
à margem de um novo centro
no fundo de alguma coisa





quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Rembrandt em Havana


Herejes


Cuba já possuia uma comunidade judaica importante. Na década de 20, parte significativa dos judeus de Kirklareli, no finado Império Otomano, passaram por lá - muitos ficaram, outros partiram para os Estados Unidos e até para cá..., mas isso é assunto para outro momento.

O fato é que, por pressão americana (os EUA só entrariam na guerra no final de 1941), Cuba foi forçada a negar o asilo, ao cobrar dos refugiados tamanha soma de dinheiro que, na prática, fez com que o navio retornasse para Hamburgo da forma como veio. Desesperados, os passageiros saltavam ao mar. O navio também foi expulso dos EUA e do Canadá. Escrito antes do estouro da crise de refugiados de 2015, é impossível lê-lo, hoje, sem traçar algum paralelo com a situação atualmente vivida pelos sírios em direção à Europa.

Mas, em 1939, ao menos uma pessoa conseguiu desembarcar do Saint Louis.


Daniel Kaminsky era então um garoto. Como conseguiu isso? O tio Joseph, que já aguardava os Kaminsky em Havana, tinha algo a oferecer. Algo que estava com a família há geraçõs. A chave está numa imagem de Cristo, atribuída a Rembrandt, e que foi utilizada como moeda nas docas de Havana. A corrupção imperava na Cuba daqueles anos. Padura é uma figura peculiar na Cuba castrista: claramente não alinhado ao regime, é por ele tolerado com liberdade. Não se furta a tratar da corrupção de seu país, bem como a decadência pós-URSS. Ao mesmo tempo, mostra um povo capaz de viver como se estivesse sempre em uma festa, apesar da situação política e econômica caótica.

Mas, na Havana atual, Mario Conde, ex-policial, livreiro e eventualmente detetive, é procurado por Elias, filho de Daniel. Quer saber o que exatamente aconteceu naquele episódio - afinal, os pais e irmãos de Daniel voltaram para a Alemanha e morreram nos campos. O que, exatamente, não funcionou naquele dia?

No entanto, o grande momento do livro não é o século XX, e sim, o XVII. 


O mistério em torno da tela de Rembrandt remete à Amsterdam de 1645-1647, a situação dos judeus e também a relativamente pouco explorada situação interna da comunidade. Havia um judeu trabalhando com o Mestre. E talvez o maior momento da pesquisa seja justamente a última parte, com a carta descrevendo o pogrom da Polônia, também no século XVII. A carta vale o livro.


O post deve parar por aqui - afinal, trata-se de um romance histórico mas, também, policial. Padura fecha muito bem as três histórias que compõem Hereges: do Saint Louis de 1939, passando por Amsterdam de 1645 e Cuba de 2007, passando por refugiados judeus em Cuba e refugiados cubanos em Miami e pela Cracóvia de 1648.


Mas, atente aos hereges: Daniel é um herege, ao abandonar a fé judaica para se tornar um cubano típico - ele faz um esforço deliberado e consciente nesse sentido; o judeu que trabalha para Rembrandt, pintando e desenhando figuras humanas de forma clandestina em Amsterdam é um herege, assim como Judy, jovem cubana privilegiada que se torna emo - sua história toma a terceira parte do livro, mas é justamente a que menos funciona em toda a narrativa. Os hereges estão aí em busca de liberdade. Na entrevista para O Globo:

Decidi resgatá-lo para uma história que deveria abarcar a relação das pessoas com as ortodoxias que nos rodeiam e a busca pela liberdade. Primeiro, a história de um adolescente judeu que chega a Cuba vindo da Europa e começa a assumir o modo de vida da ilha até se converter em um cubano. Depois, a história dos judeus sefaradis na época de Rembrandt e a da jovem que pertence a uma tribo urbana no presente cubano. 

Padura se mostra, como em O homem que amava os cachorros, um grande e detalhista pesquisador - além de excelente romancista.





terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A ESTRELA QUE SONHAVA SER LUA




Stella nascera no circo. A mãe, uma antiga bailarina, mais bonita do que propriamente talentosa, apaixonara-se pelo pai da menina numa das temporadas do circo na cidade. Fugira com ele aos quinze anos, para uma união que já durava quase vinte. O marido ensinara-lhe tudo o que ela sabia. Um ano depois, nascia Luna. Três anos depois, chegava Stella, herdando involuntariamente o destino nômade e o estigma de ser a filha caçula num lugar onde o estrelato estava reservado à primeira. Os nomes das moças deixavam entrever o gosto da mãe pelo misticismo. No fundo, Carmen queria ser cartomante, mas o marido enxergara em sua beleza o potencial para que ela virasse a grande atração daquele circo. Luna tinha a graça e o talento natos a uma bailarina. Seguindo os passos da mãe, ela logo se revelou uma das maiores atrações do Grande Circo Royal, atraindo aplausos de admiração em todos os lugares por onde o circo passava.
A pequena Stella, frágil e tímida, fora treinada para ser apenas ajudante em atrações em que houvesse a necessidade de um auxiliar. Nos números de mágica e na maquiagem dos bailarinos, ela era sempre requisitada. Mas sentia que lhe faltava algo. O brilho dos holofotes atraía-a de forma quase hipnótica, sendo esse fascínio contido apenas pela sua timidez.
Depois de uma temporada ruim, em que o pai teve de dispensar alguns funcionários, a situação da menina piorou. Agora ela era também encarregada de vender balas e pipocas durante o espetáculo, função que odiava. Apesar de tímida, ela era belíssima, e as gracinhas dos clientes agrediam-na. No íntimo, preferia ser uma das aberrações, que atraíam a atenção por causa de sua deformidade, a ficar à sombra da irmã, cuja semelhança com a mãe rendera-lhe também o posto de favorita junto ao pai. E ela, a desastrada que derrubava as pipocas que deveria vender, sentia-se, no alto de seus quinze anos, a mais desengonçada das criaturas.
Uma vez, pensara em fugir. A irmã rira da imaturidade de sua ideia, argumentando que o circo já representava a fuga. Como evadir-se de algo que já contém em si o simulacro, o palco, a ilusão? A ilusão mora dentro de nós. Está no nosso sangue, dissera ela, na ocasião.
A cada mudança de cidade, a cada novo acampamento, Stella sentia-se definhar. Alguns têm asas, dizia a mãe; outros, raízes. E o sonho da mãe, realizado em um arroubo juvenil, era o pesadelo de Stella.
Apenas uma coisa a prendia àquele circo: Rodolfo, um acrobata, mais arredio do que os animais, mais destemido do que qualquer outro integrante daquela trupe. Seu coração, tão livre quanto o dono, sempre estivera vazio, e talvez nesse pormenor residisse a sua liberdade. Colecionava aventuras nos lugarejos onde o circo passava, mas o fazia justamente porque contava com a efemeridade da situação. Uma vez, Stella perguntara-lhe se ele não tinha vontade de se casar. A resposta foi uma sonora gargalhada, com um leve afago em sua cabeça: meu coração é pirata, Stellinha. Nem o atirador de facas seria capaz de feri-lo – disse ele, afastando-se após dar-lhe um beijo fraternal na testa.
Todas as tardes, Stella observava o árduo treino da irmã, absorvendo cada movimento, cada detalhe de uma arte que misturava graça e precisão. Uma falha, numa fração de segundo, poderia ser fatal. Após o fim do ensaio, num momento em que o picadeiro ficava vazio e os artistas descansavam até a hora do espetáculo, Stella reproduzia graciosamente os movimentos da irmã. Nesses momentos, ela nada tinha de tímida ou de desastrada. E o fazia com mais leveza, e com mais paixão. Não possuía a beleza da irmã, o que a fazia se encolher, envergonhada, quando alguém a surpreendia em seus momentos de devaneio. Faltava-lhe a consciência de que talvez se tornasse uma bailarina melhor do que a irmã jamais fora, se lhe fosse dada uma oportunidade.
A temporada naquela cidade vinha sendo uma das melhores que o circo já havia conhecido. Todas as noites, os ingressos eram integralmente vendidos, levando-os a respirar, aliviados. Se dependesse daquela temporada, poderiam pagar os artistas, que estavam sem receber havia três meses, e comprar um novo veículo para o grupo.
Stella aproveitou a tranquilidade do horário após o almoço e foi conversar com madame Soraya. A cartomante do circo tinha a fama de embusteira, mas conhecia bem a alma humana, e sempre dizia aquilo que seus consulentes queriam ouvir, o que lhe assegurava o emprego no circo e polpudas gorjetas a cada noite.
O ruído das cortinas de contas fê-la erguer os olhos.
– Olá, criança. Perdida por aqui, na tenda de Madame Soraya? – o tom da cigana era tão benevolente quanto o dos demais, e isso irritava Stella. Mas ela ouvira uma história de que a cartomante havia sido namorada de seu pai antes de ele conhecer Carmen e se apaixonar por ela, e, ainda segundo os rumores, a mãe só não exigira a demissão da cartomante, descendente de ciganos, porque temia que ela a amaldiçoasse. O pai, de resto um coração mole que não queria deixar a antiga namorada à míngua, resolveu a situação mantendo-a no circo. Seu trailer era o mais modesto, e o mais afastado, mas ele a via mais como vítima do que como ameaça, e, de mais a mais, ela fazia sucesso com os clientes e, com sua gorjeta, era uma das que menos reclamavam do salário atrasado.
– Sente aqui, meu anjo. Você quer fazer uma consulta? Quer saber o que o futuro lhe reserva? – seu tom continha um leve sarcasmo, como se a insólita visita estabelecesse uma cumplicidade entre si e a menina, de resto filha de seu maior desafeto. O amor pelo pai da menina havia desaparecido; a mágoa, não. Salivou, no gosto amargo do rancor que alimentava havia vinte anos.
Stella sentou-se defronte à mulher. O lenço vermelho, saia florida, a maquiagem carregada, nada daquilo era encenação. O olhar misterioso, perscrutador, daquela mulher era real. Todos a tomavam por enganadora, mas Stella sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo quando a vidente pegou em sua mão, puxando-a para perto de si.
– Deixe ver... Você vive um grande dilema, criança. Essa aventura não é para você. Seu mundo é o dos castelos, não o das tendas. Você precisa de paz, algo que o mundo do circo não lhe oferece. Alguns precisam de aventura; outros, de sossego. Mas eu também vejo que você tem uma âncora aqui. Mas ele sempre está longe de você, não é? – as palavras da mulher foram acompanhadas de um olhar que parecia enxergar a alma da menina.
Stella recuou, instintivamente.
– Não, não é nada disso – desconversou, fingindo naturalidade. – Só queria saber se as coisas vão melhorar. Se esta cidade vai ser boa para nós.
– Esta cidade vai mudar a sua vida, criança – a mulher jogava um baralho de cartas gastas, falando antes mesmo de desvirá-las por completo. O cigarro pendia de um canto da boca, dando-lhe um ar meio vulgar.
– Como assim? Eu vou conseguir mudar de vida? Ou estou destinada a morrer neste circo?
Nesse momento, a cartomante assumiu um ar solene. Largando as cartas, começou a acariciar uma bola de cristal nebulosa. Parecia de fato absorta em algo que vira. Sua atuação era impecável, embora a falta de caráter não excluísse algum talento real para o ocultismo.
– É verdade que você e meu pai eram namorados antes de ele conhecer minha mãe? – perguntou a menina, arrependendo-se em seguida, ao ver a expressão da cigana.
– Esta consulta é sobre você, não sobre mim, criança. Não me distraia com tolices. – o tom da mulher continha uma indisfarçável amargura que até a menina, apesar de sua pouca idade, foi capaz de perceber. – Isso foi há muito, muito tempo. Quase outra vida. Venha. Dê-me novamente sua mão. – continuou ela, secamente.
A contragosto, Stella levantou-se e aproximou-se da mulher, estendendo a mão direita.
– A outra, criança. – enquanto dizia isso, pegou a outra mão da menina, recuando, horrorizada.
– Cuidado, criança. Muito cuidado. – Stella detestava quando a vidente a chamava assim, mas não esboçou qualquer reação. O tom da mulher trouxe-lhe novo arrepio.
– Por que você demorou tanto a me procurar? Medo de Madame Soraya? – a cigana jogou a cabeça pra trás, em um ar de desafio.
– Não... É que eu me sinto meio perdida. Nunca saí daqui.
– E nunca esteve aqui de todo, não é? Não posso lhe dizer muita coisa. Só que a sua vida mudará em breve. Seu brilho é diferente. Você é como uma borboleta, mas todos só enxergam a lagarta. Mas isso irá mudar. A hora de seu voo está próxima. – disse ela, encerrando a conversa.
Em silêncio, um tanto arrependida por ter ido até ali sem obter qualquer informação precisa, Stella voltou ao seu trailer, com o cuidado de não ser vista. Não sabia do que a mãe seria capaz se soubesse que ela havia cruzado os limites permitidos. Numa mistura de medo e respeito, a mãe não admitia que as filhas tivessem contato com a cigana, e a última coisa de que Stella precisava era que a mãe se aborrecesse com ela.
Luna treinava para o espetáculo da noite. Sua beleza fazia com que qualquer imperfeição nos movimentos passasse despercebida. Stella, contudo, possuía um olhar quase técnico, e detectava algumas falhas nos movimentos da irmã, mas jamais diria nada. Quem era ela para criticar algo em Luna? Uma vendedora de pipocas?
E foi justamente um movimento errado, que Stella sempre observava no mesmo ponto da coreografia, o que fez a irmã cair de mau jeito, torcendo o pé. Não parecia nada grave, mas que provavelmente a deixaria fora do espetáculo por duas semanas.
– Logo agora, que estamos com a casa cheia, perdemos nosso melhor número! – – o pai passava a mão pela cabeça, transtornado.
– Nossa filha se machuca, e você se preocupa com o espetáculo? – gritou a mãe.
– Não é nada demais. Não é, filha? – disse o pai, agora preocupado.
Luna sacudiu a cabeça e olhou o pé, apreensiva.
– Acho melhor levá-la a um médico. Somos treinados para cair, mas pode haver algum dano maior. É melhor não arriscar. – a voz de Rodolfo se fez ouvir.
– Não... É... Sim. Você pode fazer isso, Rodolfo? Tenho de pensar como vamos fazer esta noite. E nas outras...
– Eu faço o número dela! – a voz de Stella assumiu um tom que fez com que todos se virassem.
– Você, filha? – o pai deu uma gargalhada. – Mas você...
– Tenho tudo para ser mais do que uma vendedora de balas, pai. E sempre treino o número da Luna. Conheço cada passo da coreografia. Só até ela ficar boa...
– Não sei, não sei... – o tom do pai mesclava prudência e desconfiança. – Por que você não nos mostra o que sabe fazer?
Stella ligou o som, e começou a dançar. Aos poucos, os integrantes do circo aproximavam-se, surpresos. A menina havia crescido, e sabia fazer um bom trabalho.
– Acho que já posso me aposentar. – Luna parecia de fato animada com o talento da irmã.
– Vamos fazer assim, então: enquanto a Luna não puder atuar, você a substitui. – disse o pai, aliviado.
– Depois... Volto a vender bala, né? – o tom de Stella não disfarçava a amargura.
– Depois vemos como fica, Stellinha. – disse Rodolfo, tentando contemporizar. O importante é que agora o problema está resolvido. E Luna poderá descansar até ficar bem.
A cartomante ouvia, temerosa. O casulo começava a se romper.
Stella passou o resto do dia ensaiando. Por mais que conhecesse a coreografia de olhos fechados, não podia se dar ao luxo de errar. Os olhares estariam centrados nela, e qualquer descuido confirmaria o seu destino de coadjuvante. O brilho naquele circo era destinado a Luna. E ela, embora não quisesse competir com a irmã, também desejava seu momento de estrelato. Isso poderia ser decisivo para que Rodolfo a notasse.
Chegou, enfim, o momento da estreia. A mãe parecia emocionada, e até o pai, apesar de sua indisfarçável predileção por Luna, sorria, orgulhoso.
O picadeiro estava todo iluminado, e o calor das luzes aquecia a alma da moça. Seu nervosismo, aliado ao calor, fazia com que a maquiagem começasse a derreter. Nada que comprometesse o brilho daquela noite. Lembrou-se, por um momento, das palavras da cartomante: você é uma borboleta. Os outros só veem a lagarta.
Hoje seria diferente. A primeira parte da coreografia foi executada de forma magistral, e os aplausos a ela destinados pareceram ainda mais efusivos do que os que a irmã estava habituada a receber.
A segunda parte da coreografia era um pouco mais elaborada, e envolvia um plano um pouco mais alto, e foi justamente nesse ponto que a irmã se machucara. Teria de ser cautelosa. Os tambores começaram a rufar.
Respirando fundo, preparou-se para subir ao trecho de onde a irmã costumava realizar aquela parte. Procurando Rodolfo com os olhos, encontrou-o ao lado da irmã. Atencioso, ajudava-a a se sentar em um lugar que permitia a visão do espetáculo.
            Stella subiu até o ponto desejado. Buscando novamente Rodolfo com o olhar, encontrou-o cochichando algo no ouvido da irmã, que ria. Tolos, pensou. Nem prestavam atenção nela. Ela lhes mostraria.
Continuou a subir, para executar o movimento de um ponto ainda mais alto. Provaria a todos que era melhor do que Luna. Que poderia ser a estrela daquele espetáculo. Que fora subestimada a vida inteira.
Alguns integrantes da equipe cochichavam, apreensivos. Fazer o número daquela altura era uma loucura, pois o risco era muito maior. Nem Luna, com seus anos de experiência, jamais tentara aquilo. Os tambores continuavam a rufar.
Seus pensamentos foram interrompidos pela visão do beijo que Luna e Rodolfo trocavam naquele momento. Nada mais fazia sentido. Muito mais do que a preferência dos pais, Luna roubara-lhe também o amor de Rodolfo. O amor que ela nunca teria a chance de conquistar.
De repente, as palavras cifradas da cigana ganharam outro sentido: sua vida irá mudar... A hora de seu voo está próxima. O rufar de tambores cessou. Mirando o público, respirou fundo antes de se atirar, em seu primeiro e único voo-solo, como a borboleta-estrela daquela noite.






segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

outra cauda

os irascíveis se cosem na mornidão. seus percalços nos enfiam em solilóquios. somente a morte nos trivializa pelos escrúpulos. enxertos desagradáveis da adaptação. o esterco é um futuro a ser amimado no nosso intercâmbio sadista. não há lugar para as pétalas nesse celeiro de bestas. apodreceremos aos olhos crus se formos guiados pelas mãos do destino. a verdade sempre nos ardeu em despedida. vaidade alguma salvou a inocência. deformidade que nos pariu em modéstia. arrimamos uns nos outros a pretensão narcisista. polir reflexos é o feitio sanguíneo. não mais zelaremos a vigília pela redenção. os mitos nos restam como despejos. nossos corpos são jazigos desacatados. ensopados no pus da incurabilidade. estamos perdidos na frouxidão. promessa alguma aliviará a velharia. nossa arcada será concebida por maníacos. rochas amontoadas por balbucios. o veneno do acasalamento nos bradou em indignidade. província gangrenada no centrismo da desatenção. estirpe desprovida de aconchegos. a percepção nos descortina em passividade. saquear a vazies não é mais uma bonança. o gesto heroico da desistência nos instituiu. pestes insones em pálida polidez. o escarcéu nos aterrou na saliva. nossa ânsia é inominável. átomos genocidas das ambições.

[Léon Frédéric - The Keeper of the Heavenly Key]





quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

AS VITALINAS



        Cícera acordou sobressaltada e agarrou o peito como quem segura um pássaro ferido. Marilda, deitada na cama ao lado, riu do desassossego da irmã e fingiu pouco interesse ao perguntar se havia sido o mesmo sonho. Sentando-se com dificuldade no gasto colchão de estopa, Cícera confirmou a suspeita fraterna com um aceno de cabeça. O pesadelo que perturbava suas poucas horas de sono havia se repetido.
         ― Ciça, um dia tu me conta que diacho de sonho é esse? ― quis saber a mais jovem das idosas, enquanto calçava as sandálias que mal enxergava com seus olhos miudinhos.
         ― Te preocupa com o manto da santa, Dindinha. Depois do café, vou preparar o altar. Pirru já chegou pra varrer a casa e passar o pano? ― perguntou incomodada, certa de que o rapaz que lhes ajudava nos afazeres domésticos havia se atrasado.
         ― Sei não ― respondeu Marilda esfregando as pernas. ― Acordei com teus bodejo. Anda, te sacode que o dia hoje vai ser comprido.
         Na pequena Cabo Amaro, todos conheciam e respeitavam as irmãs Alvarenga, últimas descentes de uma família que emprestava o nome à pracinha da cidade. Cícera e Marilda eram tão velhas quanto as lendas locais, amalgamavam-se ao folclore e causos transmitidos às novas gerações de contadores de história. Muito se falava sobre a natureza dócil e solteirice de ambas, mas poucos sabiam a verdade.

         A mais velha delas, Cícera, fora destinada ainda menor de idade a casar com um comerciante local, mas se apaixonou por outro homem, um boiadeiro dono da viola mais afinada das redondezas. Rapaz sem posses nem instrução ― porém fino no trato com as senhoritas ―, devotava suas melodias à jovem Marilda, irmã mais moça daquela que lhe dirigia sincero afeto.
         Coronel Alvarenga, pai das moças, jamais permitiria que uma de suas graças caísse nas mãos de um violeiro que nem sequer tinha um pé de pau para lhe fazer sombra. Depois de casar a primeira, desposaria a mais nova com Jesus Cristo. Nem mesmo seus filhos homens possuíam autonomia para contrair núpcias com aquelas que bem entendessem. Todos se dobravam à vontade do pai e torciam conformados pela melhor das sortes. Mas sorte é uma coisa que muito cedo as mulheres sertanejas descobrem que não existe.

         ― No dia do meu casamento com o Seu Quaresma do Depósito, tu aproveita pra fugir com o Barreto, Dindinha ― pediu Cícera com franqueza, segurando junto ao colo as mãos da irmã.
         ― Não posso, Ciça ― protestou Marilda deitando a cabeça nas pernas de sua única amiga e confidente. ― Eu num vou fugir com o homem que tu ama, criatura.
         ― Mas que só tem vista pra ti ― constatou Cícera com um sorriso e uma lágrima. ― Eu também vejo o jeito que tu olha pra ele, Marilda. Já faz tempo que vocês se enamoraro... Seu Quaresma já tá velho, talvez ele seja bom pra mim.
         ― Bom? Se ele fosse bom não fazia gosto nessa maldade. Mana, vamo jurar uma combinação? Tu não casa com o carrasco e nem eu com a Santa Igreja. Será pecado querer mais da vida do que um hábito, um marido ou a garupa do Barreto? Ele é bonito, tem duas estrela onde era pra ser os olho, mas só ia servir pra encher o bucho de uma de nós duas de menino. Se tu desfizer teu noivado, eu rejeito o capuz e o limpel. Sou devotada à minha fé, mas num quero ser freira.  
         ― Arra! Tu só pode ter comido pirão e tomado banho no açude. Papai bota nós pra fora de casa e deserda a gente. Já pensou?
         ― Que seja. Por essas banda, mulher já nasce mesmo sem nada. Quem tomaria conta da nossa herança seria outro homem, mesmo? Que serventia tem isso? Primeiro, a gente precisa ser alguém na vida, mana. Melhor fugir daqui, procurar um trabalho, se matricular numa escola. Essas coisa do amor pode ficar pra depois. Arriégua. Será que pra tudo nós há de necessitar de um macho? Tem que fugir com um pra escapar do outro? Galdino, Carlito e Bonifácio tão estudando pra ser doutor, enquanto a gente só estuda pra escrever carta e ler a bíblia. Quero fazer diferente dessas abestada daqui de Cabo Amaro, minha irmã. Vamo ganhar o lote, cair na estrada.
         ― Tu tá é doida, Marilda! ― exclamou Cícera com um brilho no olhar, encantada com o sonho sibilante que facilmente a seduziu.
         ― No jantar de sexta-feira, tu rejeita o Quaresma. E pode deixar que eu mesma trato de dispensar o padre Vivaldo ― concluiu Marilda, beijando a testa da irmã.
         Como haviam planejado, fizeram. O pai quis surrá-las, amaldiçoou-as, mas não as expulsou de casa. Manteve-as ali, sob o junco de sua brutalidade por todos os anos em que ainda se manteve sadio. A mãe nada dizia, não as acarinhava nem protegia, também envergonhada pela desfeita de ambas. Por anos foram impedidas de sair e, se o fizessem sem o consentimento paterno, os peões tinham autorização para arrastá-las pelos cabelos de volta à fazenda.
         O tempo passou e os velhos morreram. Os irmãos Alvarenga venderam a propriedade e retornaram à capital, onde já viviam há anos. Deixaram para as duas vitalinas ― assim as chamavam ― apenas a casa na Rua do Passo Largo. Ali viveram por todos os dias, uma em função da outra: Dois fantasmas cândidos que espiavam através da janela da sala o perambular sem destino dos vivos.

         ― Será que fizemo certo em convidar o pessoal do terreiro de Mãe Rainha pra participar da novena desse ano, Marilda? ― perguntou Cícera, receosa de que as carolas da região boicotassem o tradicional evento.
         ― Nossa paróquia tá sem padre pra se opor. Errado era deixar outra vez de fora do festejo gente que também é devota de Sant’Ana ― concluiu Marilda com um muxoxo.
― Ficou linda a manta que tu bordou, Dindinha. Não duvido que nossa protetora permita que tu alcance uma graça logo depois da procissão ― elogiou Cícera agarrando-se ao braço da irmã, enquanto admiravam as feições da estátua de gesso.
         ― Sei não. Faz tempo que peço a mesma coisa e a santinha não me atende ― falou Marilda com enfado.
         ― E que pedido tão impossível é esse? Tu ficou ambiciosa com a idade? ― brincou Cícera enquanto ajeitava a coroa na cabeça da imagem.
         ― Só conto se tu me disser primeiro que sonho é esse que te desgraça o sossego ― barganhou, mais preocupada que curiosa. ― A gente já tá muito velha. Daqui a pouco uma de nós morre. De repente eu tenho remédio pra tua aflição, não sei... Ande, me diga!
         Cícera agarrou os próprios braços como se uma dor a atravessasse. Não tinha mais jeito, não poderia levar aquele fantasma pavoroso para a sepultura.
         ― Toda noite eu sonho que papai vivo, Dindinha ― revelou Cícera com os olhos marejados. ― Que ele me faz casar com o Quaresma e que te manda pro convento. Nós duas nunca mais se encontra... Nunca mais!
         ­― Nosso pai tá morto e enterrado, Ciça. Essa graça Sant’ana já me concedeu faz tempo ― disse Marilda muito séria, abraçada à irmã. ― Venha, deixe de bestagem.
         ­― E teu pedido? Vai me dizer o que é, não? ­― cobrou Cícera, feito uma criança que não se esquece do prometido.
         Marilda passou uma das mãos pelo rosto irmão e, por trás dos sulcos e rugas, buscou enxergar o semblante da menina com a qual crescera.
         ­― Cicinha, tá com uma ruma de tempo que eu venho implorando pra santinha fazer tu parar de acordar com um susto. Mas acho que ela anda ocupada pras banda de Alagadiço Novo, onde ela tem uma capela, num sabe? Minha irmã, hoje nós vamo dividir a mesma cama. Vou vigiar teu sono, pra tu dormir em paz.
― E se papai aparecer? ― calculou Cícera com um arrepio.
Marilda então ajeitou os cabelos em um gesto impetuoso. Com as mãos postas sobre a cintura, lançou o queixo para trás e intimou:
― Nós uma sova nele, rouba o cavalo e a viola do Barreto e vai simbora de Cabo Amaro cantando uma moda bem animada.

Emerson Braga
        






quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Colcha de Retalhos #17

Seguem alguns breves textos da coluna Colcha de Retalhos, homônima do livro que está disponível gratuitamente AQUI:


O TEMPO DAS PAIXÕES

A todo momento, há algumas paixões despertando
E outras, em fuso horário diferente, indo dormir




TODO DIA

— Eu passo o dia todo esperando ela aparecer.
— Que triste isso...
— Não é triste não... Triste, só quando ela não vem.




AMPARO

Na desforra, até ouso blasfemar
Mas no desespero, rezo fervorosamente
Quando estou para baixo, ter um santo ajuda




BALEADO

Quando chegava em casa cambaleando, sentia-se como um voluntário do atirador de facas
Enquanto a cama girava, ele ficava inerte, incapaz de desviar das acusações






segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O tempo dos rebuçados


O primeiro encontro foi como uma caixa de rebuçados. Era o tempo dos rebuçados e dos berlindes. Mas também de uma das primeiras responsabilidades: a escola.
Nos dias de primavera, Orlando, de botas com sola de borracha feitas no sapateiro, palmilhava bem cedo os três quilómetros do caminho entre muros que separava a queijeira, onde morava com a avó, da escola da aldeia, cruzando-se com carros de bois, grupos de mulheres a caminho das hortas, um rebanho a atravessar de um terreno para outro. Se estava frio, apressava o passo a contornar uma ou outra poça de água, mala com cadernos a tiracolo, uma mão a aquecer-se no bolso, a outra a pegar no cabazinho da merenda. Daí a pouco, as letras, as contas, as brincadeiras de recreio e o almoço debaixo de uma olaia, com os outros dois miúdos que também vinham dos campos.
No regresso, o conforto do calor e da falta de pressa convidavam-no a alongar-se em observações da natureza: o lagarto verde esparramado ao sol que, não conseguindo intimidá-lo abrindo a boca vermelha, se esgueirava para um buraco das paredes; o rendilhado de alguns penedos; as poupas, os cucos, os pintassilgos. E a estranheza do mundo do tic-tic-tic ritmado dos canteiros, alguns bem jovens, em alguma das pedreiras adjacentes ao caminho. Um mundo que não era de rebuçados.
Um dia encontrou vinte e cinco tostões no recinto da romaria que o caminho atravessava. Rapidamente se esfumaram em rebuçados embrulhados em estampas de jogadores de futebol.
De inverno, a ida para a escola era mais monótona e mais simples. Era só atravessar o casario, desde a casa da avó, na aldeia. No regresso, a brincadeira com a restante criançada nos quintais e nos casarões familiares. Ao domingo, catequese à tarde e talvez apanhar moedas pretas e rebuçados lançados de alguma janela ou varanda no fim de um batizado. Os dias corriam sem preocupações, com pouca relação uns com os outros. E, de repente…
O primeiro encontro com ela foi como receber uma caixa de rebuçados. A festa era de carnes, da matança do porco e respetiva comezaina. A família alargada habitual estava reunida em casa de um tio por este motivo. Segurar, matar, limpar e desmanchar um porco exigia o concurso de vários homens. E o trabalho de lavar as tripas, preparar os recheios e encher com eles as farinheiras, as morcelas e as chouriças exigia o concurso de várias mulheres. Para também prepararem o banquete para todos aqueles adultos e respetiva miudagem.
Daquela vez, o tio convidou também uma família colateral, que não costumava estar presente neste acontecimento anual em casa de cada tio. E ela apareceu, linda e discreta. Devia ter mais um ano do que Orlando e era muito diferente das outras meninas que orbitavam o mundo dele. As outras eram como que irmãs, na proximidade de parentesco e nas brincadeiras estouvadas. Delfina — esse o seu nome —, não. Ela era outro mundo. Um mundo de arranjo e delicadeza. Os cabelos — oh, os cabelos —, caíam penteados, lisos, a terminar numa volta, sobre os ombros. Os olhos seriam castanhos como os cabelos? Eram suaves e sorriam. A compostura do vestido de golinha, apertado por um cinto do mesmo tecido, também tocou Orlando. E a graça e simpatia que irradiava deslumbraram-no durante toda a tarde.
Ninguém faz planos para se apaixonar, muito menos um menino de oito ou nove anos. Sabe que os homens e as mulheres se casam, mas não sabe muito bem por quê. E calcula que um dia também casará. Talvez por gostar de alguém.
A única experiência que Orlando tivera nesse campo não correra bem. A inconfidência de uma tia que, à janela, lhe sussurrara “Olha, vai ali a tua esposada!”, quando passava Acilda, uma morena de trança, teve como consequência a humilhação de um “Querias-me?! Pff…” que a morena lhe lançou quando o encontrou a caminho da escola e o deixou infeliz, a suspeitar que casar, ainda que gostando, era mais difícil do que parecia.
Orlando não falou a ninguém, sobretudo à desbocada tia, da perturbação que a recente conhecida lhe provocara. Não sabia dizer se era amor — aquilo de que os adultos falavam — o que sentia. Não sabia dar-lhe um nome. Sentia, sim, uma alegria íntima e serena, que não se manifestava por cabriolas, mas também uma inquietação, um temor de não conseguir aprofundar aquela afeição. Sentia ternura e um querer bem que não sentira, talvez, por ninguém.
Nas suas orações antes de adormecer, passou a lembrar e interceder por aquela criatura doce e bela por quem estremecia. O máximo de harmonia com ela vislumbrava-o numa atualização da estampa pendurada por cima da sua cama: ambos de mão dada na travessia de uma ponte frágil sobre um rio caudaloso, mas protegidos por um anjo-da-guarda.
Por aqueles dias, Orlando recebeu uns três ou quatro rebuçados. Logo decidiu que um seria para ela, para lhe oferecer, como prova de bem-querer. Por uma lamentável desatenção das forças celestes, porém, Delfina adoeceu. Orlando, de rebuçado no bolso, não encontrou a estremecida do seu coração nos dois dias seguintes.
No terceiro dia, no regresso à escola depois de almoço, tão alheado ia que automaticamente fez o que não queria: desembrulhou o rebuçado e meteu-o na boca. Chegou a sentir-lhe o doce. Espantado, desagradado consigo próprio, retirou-o da boca, como blasfémia. O rebuçado era para ela, estava prometido em intenção. Tinha de lho entregar, ainda que lhe apetecesse continuar a saboreá-lo.
Resolveu entrar na venda do pai de Delfina e confiar-lhe o rebuçado para ele lho entregar. Temia, no entanto, que algum cliente percebesse o enamoramento no seu gesto e fizesse algum comentário que o envergonhasse. Ganhou coragem e entrou, mas a venda estava vazia. Mesmo o pai de Delfina devia estar lá para dentro. Pensou chamá-lo, mas isso já ia além da sua coragem.
Deixou o rebuçado, embrulhado e um pouco agarrado ao papel, em cima do balcão de mármore e saiu em direção à escola. Não era isto que tinha idealizado, mas cumprira a promessa, tanto quanto conseguira.
No regresso, entrou na venda, mais uma vez deserta. O balcão estava limpo. Nem sinal do pequeno volume roliço do rebuçado. Teria Delfina chegado a recebê-lo? Pouco provável, concedeu. Com certeza que o pai o tinha deitado fora, sem suspeitar da sua importância.
Quando voltou a vê-la, já tinha passado uma semana ou duas e o enamoramento, por falta de alimento, murchara. Casar devia ser muito mais difícil do que parecia. Era o tempo dos rebuçados e dos berlindes. O que parecia importante num dia esquecia-se alegremente no dia seguinte. O futuro é que traria a compreensão da importância de cada coisa. Talvez.

Joaquim Bispo

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Imagem: do filme Aniki Bóbó de Manoel de Oliveira

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(Este conto obteve o 5º lugar, na categoria Conto, no I Prémio Literário Pescaria (Brasil), de 2015.)
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domingo, 24 de janeiro de 2016

SÉRIE: TROVAS PREMIADAS (IV)







sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O Corvo de Três Olhos







Mamãe o deixou no sol, a pele entre fios verdes e irregulares; com dedinhos quis pegar cores e formas, mas não era além de ficar, não era além dos músculos fracos e macios. Já mamãe foi descascar a louça, pratos, o pouco do silêncio como vigia.

A alegria, essa âncora dos homens.

E ria o pequeno, berros que atravessavam jardins e flores, canteiros; ria forte, obstinado, as gargalhadas se fundindo em pranto, depois em choro, quando calou.

Mamãe fechou  a água e correu, assumiu passos rápidos.

Caído, barriga para cima, era como se dormisse, mas da face caía um laço de nervos e veias, desvios de sangue marcando o rosto através de riscos curvados, grossos na origem. Petrificada acima dele, observava o buraco onde outrora houve um pequeno olho cor de céu, como este no qual agora planava o corvo que levara sua visão.