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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A TENDA



Quando criança, vivi em uma dessas pequenas cidades onde quase nada acontece e banalidades são transformadas em hilariantes sessões de conversa entre comadres. Minha mãe e suas amigas reuniam-se todas as noites na modesta calçada de minha casa e tagarelavam sobre os mesmos assuntos da véspera. Eu, de tranças apertadas e metida em monótono vestido de chita, sentava-me sobre o grosso tronco de jacarandá e assistia à dança das línguas, que bailavam sobre a vida das mulheres ausentes ao costumeiro encontro.

Eu não compreendia o que as animava. Apesar de ainda ser uma menina sem os dentes de leite incisivos, eu já sentia piedade das mulheres que ignoram tudo que move o feminino. Nenhuma daquelas senhoras jamais experimentaria ― durante toda uma vida de risos sem graça ― satisfação real.

Após as despropositadas conversas, despediam-se sem a necessidade de confirmar as devidas presenças no dia seguinte, e depois, e depois, e depois. Sonolenta, eu suspirava cansada não só daquela noite, mas de todas elas, das passadas e das futuras. Antes de entrar, meus olhos corriam o mundo e apenas viam, decepcionados, aquele ininterrupto cenário de moscas. Restava-me a servil obrigação de deitar, mas o sonho nunca vinha.

Naquele domingo de agosto, uma das sessões enfadonhas de troca de feitiços entre fadas gordas teve a verborreia estancada por um repentino alvoroço que se desenhou na rua em que morávamos. Voltamos nossos olhos na direção do alarde e nos deparamos com um grupo de ciganos que avançava em direção ao Centro. Como se aproximavam, mamãe sugeriu que entrássemos, sob o pretexto de que eram todos bandidos e ladrões. Do portão de minha casa, pude devorá-los com meus olhos quase cegos pela monotonia. Finalmente, haviam chegado. Eram lindos, mágicos, deuses que quase pereciam por eu jamais os ter alimentado com meu desejo de tragar a eternidade das coisas.

A razão da balbúrdia era uma das ciganas, trazida na vanguarda do bando. Estranhamente, seu próprio povo agredia-a com pedradas, enquanto lhe rogava terríveis maldições. Mamãe tentou tapar meus ouvidos, mas inquietei a cabeça. Eu precisava ouvir a melodia daquelas palavras de fogo. Quis saber a razão da tortura, adivinhar o que a mulher fizera, que falta havia cometido, o que justificaria tão grotesco espetáculo. Em seu corpo brotavam chagas penosas e de sua cabeça escorria o sangue que lhe banhava a face. Mesmo assim, a cigana mantinha-se impassível e de semblante desafiador. Seu olhar trazia sentimentos que eu desconhecia. Ao encará-la, senti-me atraída por seu sangue, sua dor, seu olhar de navalha.

Quando a rua acalmou-se, minha mãe ordenou que eu entrasse. Com o ouvido preso à porta do quarto, escutei-a fazer mil recomendações às suas amigas:

― Tenham cuidado. São um bando de cães!

Quando a casa silenciou, sentei-me sobre o colchão de estopas e lamentei outra noite sem sonhos. Eu nunca sonhava. Nunca.

Derrotada, dormi.

Galinhas apavoradas, gargalhadas, um pote cheio de caranguejeiras, um vestido vermelho balançando no varal. Pela primeira vez em minha curta existência, meu sono foi invadido por fenomenal assombro. Como fantasmas sem cabeça, misteriosos sinais se arrastaram por minha inconsciência e me confidenciaram segredos incompreensíveis. Acordei sobressaltada e, com meu limitado discernimento infantil, refleti sobre a novidade. Uma leve mordida no lábio inferior. A perna boa fora da cama.

De repente, uma rajada de vento escancarou a janela do meu quarto. Vi que, lá fora, a noite me aguardava para o vertiginoso passeio. Não desobedeci a mãe de todo mistério: pulei o peitoril, rodeei a casa e saltei a mureta do quintal.

Apenas os cães perambulavam pelos becos de Corguinho Novo e poucas casas ainda tinham suas luzes acesas. Ofegante, corri na direção que os ciganos haviam tomado. Chegando ao fim da avenida principal, entrei na mata e segui a Picada da Raposa.

― Onde estão? Por que me deram de presente um sonho que não entendo? ― perguntava-me desorientada, enquanto corria às escuras na direção do rio.

A primeira visão que tive foi a de vaga-lumes às margens da correnteza, petrificados no ar como tristes estátuas de luz.

As tendas iluminadas por pequenos lampiões e armadas em círculo estavam guardadas por três homens, que velavam uma grande fogueira enquanto bebiam. Contive minha excitação a fim de que nenhum deles me percebesse ali. Segurei meu peito com força, respirei todo o ar do planeta e, mesmo assim, quase desfaleci.

Pé ante pé, aproximei-me do aglomerado de barracas. A mesma lufada de ar que invadira meu quarto me fez olhar na direção do leito do rio, onde encontrei aquela infeliz tenda, segregada das demais.

O resto do bando não me despertava interesse. Chegando ao abrigo improvisado, tomei em minhas mãos a velha lamparina que iluminava sua entrada. Ao clarear o interior daquele sarcófago, encontrei ― prostrada sobre o chão e mortalmente ferida ― a cigana que há poucas horas havia sido apedrejada. Indiferente, dissequei-lhe a face cadavérica, com meus olhos outrora infantis. Não me assustei ao vê-la morta. Senti-me vingada. Retirei seus anéis, suas pulseiras e todos os outros acessórios de sua massacrada beleza e enfeitei-me com vaidade. Com um gesto simples, apaguei a chama da lamparina e, em um salto espectral, as imagens de meu sonho estamparam a lona da tenda. Só então fui capaz de ler a enigmática mensagem. Eu havia nascido para recuperar o lugar que aquela mulher havia usurpado. Daí a razão de seu apedrejamento: os outros ciganos também sabiam a verdade. E, naquela noite, haviam chegado à minha cidade a fim não só de julgá-la, mas de resgatar-me.

Após tantas noites sem sonhos e de angustiosa espera, eu finalmente havia encontrado meu povo.  


Emerson Braga





segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Metapoema


Espinho metido a flor
Mordomo rendido ao frevo
Saudade da tal vanguarda

E o desejo de presença
Mesmo do que não há
Daquilo que nem pode ser

Quando me meto num poema
Dentro, bem dentro dele
Pelejo esquecer a reta

Nenhum verso me espanta
Toda loucura me agiganta

Palavra polvo se alçando
Abraço que me sufoca
E assim é que me liberta

Efeito pólvora poética

Viés de muitas marés
Múltiplo encontro e por isso único
Oceânico

Um quê que me ousa outra
Um eu que nem sempre houve
Mas tem tudo a ver comigo

Metamórfico


Maria Amélia Elói


Tela "Fundo do Mar", série Universo Imaginário, do artista plástico André Cerino.





domingo, 25 de setembro de 2016

A ruptura


A vida de Gualdino Freixo, sempre acompanhada por uma corrente de consciência palradora, decorria num ramerrame pontuado pela regularidade pendular das refeições domésticas, a vacuidade dos programas televisivos e a futilidade dos seus passatempos, em que avultava o sudoku. Há muito tinha deixado a sua Beira Baixa para conquistar a grande capital, que muitas vezes se revelara uma amante perversa. “Porra!” acudia-lhe aos lábios quando se lembrava desses tempos de desenraizado.
Os beirões têm fama de laboriosos e diligentes, mas, nesse aspeto, Gualdino não era um beirão típico. Na sua meia-idade, cultivava uma postura ativa e vagamente agreste, como a árvore que lhe dava o sobrenome — Freixo —, mas estava sempre disposto a deixar para melhor oportunidade alguma tarefa agendada. Trabalhar e competir tinham tido o seu tempo. Agora, reformado e apaziguado dos antigos afãs, Gualdino só queria sossego, algum silêncio, e desfrutar a boa-vida. Junto a um sofá onde fazia umas sestas tinha um pequeno quadrinho com a frase: “Que bom é não fazer nada e depois descansar!”
Nessa manhã acordou com um auspicioso sinal: o consolo gratificante de uma ereção. Era uma prova de vida mais relevante que a habitual confirmação de poder mexer o dedo grande do pé em cada início de mais um dia. A sua mente, seduzida pelo contentamento do físico, deixou-se invadir por um júbilo sereno. O dia que aí vinha só podia correr bem.
Pouco depois de verificar que a manhã prenunciava brindá-lo com as primeiras chuvas de outono, pegou no caderninho com problemas de sudoku que o entretinha horas esquecidas e instalou-se ao comprido no sofá da salinha, cabeça no braço do lado da janela, para apanhar o máximo de luz no papel.
Desde novo que gostava de paciências, palavras cruzadas, puzzles, resolução de problemas. Andar à volta da questão, encontrar o fio da meada, prosseguir pouco a pouco até encontrar a solução, traziam-lhe um prazer intelectual dos mais saborosos. Cada número a descobrir no sudoku era, quase sempre, um problema autónomo por cuja solução havia que penar, mas tinha a paciência e a pretensa sabedoria dos beirões: “Grão a grão, enche a galinha o papo”, pensava, confiante. Nestas preocupações ociosas se empenhava.
Um sorriso subtil aflorou-lhe os lábios ao ouvir a chuva a bater na vidraça. Esticou os pés para a frente e para trás, que estalaram agradavelmente. Ia ser uma manhã daquelas!
Enquanto alguns dos seus ex-colegas tentavam continuar a ganhar dinheiro, e outros arranjavam depressões por se sentirem inúteis, Gualdino declarava que “Inútil” era o seu nome do meio e convivia bem com ele. “Quanto menos chatices, melhor.”
Na verdade, parecia que as procurava, mas daquelas que lhe davam prazer. Ultimamente, passara dos habituais problemas de sudoku de 9x9, para os enormes 16x16. No fim dessa manhã teve a satisfação orgástica de terminar um desses problemas que já o vinha deliciando havia três dias, como metodicamente anotara na margem do caderninho. “Ah, dia abençoado!”
Depois de almoço, como a chuva parara, a mulher foi fazer a caminhada habitual, mas Gualdino só a acompanhou até ao jardim próximo de sua casa. O tempo estava fresco e agora eram brancas, em borbotões de algodão, as nuvens que evoluíam no céu estranhamente luminoso. Durante um pouco, aceitou o jogo das formas para o qual estas nuvens, autónomas e bem delineadas, sempre convidavam. Uma pareceu-lhe o seu cão “pelo de arame” da infância no campo; outra, um torso feminino deitado. Cães de apartamento frustrados, na ânsia de encontrarem almas-gémeas pelo cheiro, arrastavam cinquentonas solitárias pela trela, ao longo das estreitas alamedas sinuosas em que já eram evidentes os despojos que o outono impõe às árvores. “Por baixo da roupa, todas vão nuas.”
Junto ao banco em que se sentara, chamou-lhe a atenção um formigueiro. Diligentes e sem hesitações, os insetos negros estavam a espalhar no chão em volta do buraco de entrada todos os haveres que a chuva da manhã tinha ensopado — sementes, pedaços de talos, folhas e carcaças de bichinhos vários. Depois de secos, voltariam a recolhê-los.
Sempre admirara os insetos sociais, a sua disciplina, a divisão do trabalho, a certeza das tarefas a executar. “Seria desejável uma sociedade humana semelhante à das formigas? Será que não há indivíduos que tenham dúvidas, que contestem a justeza das decisões, que se desalentem do esforço a realizar?” — perguntava-se.
Deu uma volta pausada pelo jardim. Num recanto onde a autarquia instalara mesa e cadeiras metálicas, um magote de outros reformados rodeava quatro compenetrados jogadores de sueca, saboreando provavelmente os seus requintes de estratégia. “Muito reformado há em Portugal!” Gualdino não se aproximou; cultivava o individualismo dos autossuficientes beirões. “Formigueiros, não!”
Uma nuvem tapou o sol por momentos e uma brisa fria fê-lo arrepiar-se. Regressou a casa, sentindo-se recomposto de físico e mente. À porta do prédio encontrou o tosco da cave esquerda. Estava agitado e falava atabalhoadamente:
Vizinho, já liguei para o piquete; o vizinho não estava, já liguei para o piquete para virem fechar a água. Veja como isto está!
O átrio de entrada, com um dedo de água, alimentava um estreito córrego que desaguava nas pedras do passeio e escorria para a valeta. O tapete de cânhamo estava ensopado. Um jorro bem visível nascia nas uniões das pedras de mármore da parede lateral esquerda, a meio metro do chão.
Oh, porra! — Gualdino percebeu que a bonança do dia acabava de sofrer uma reviravolta. Era ele o administrador do prédio e uma coisa destas significava chatice, muita chatice. “Não há bem que sempre dure…” — Mas donde é que vem a água? Será que foi alguma infiltração vinda do telhado? Esta manhã choveu…
Não, vizinho; isto deve ser da canalização. Também, com mais de quarenta anos…
Eles disseram se demoravam?
Já liguei há uma hora. Devem estar a chegar. Se o vizinho quiser, eu tenho um canalizador amigo que é muito competente. Quer que eu lhe ligue?
Não, deixe estar — defendeu-se Gualdino, desconfiado. — Com certeza que eles arranjam o que houver para arranjar.
Não se fie! Vai ver que só cortam a água e nós que nos desenrasquemos.
Na verdade, apareceu um indivíduo que tinha ar de poder arranjar uma briga ao menor atrito: cabeça rapada, olhar agressivo, poucas e sobranceiras palavras. Entrou no átrio, olhou fugazmente para a parede que vertia e saiu. Com um gancho, levantou uma pequena tampa redonda de cimento a meio do passeio, introduziu no buraco uma chave especial e deu-lhe várias voltas. O fluxo da parede amainou até só gotejar.
Vocês têm alguém que arranje isso? — lançou.
Não!; os vossos serviços não reparam os problemas com a água que abastecem? — devolveu Gualdino, meio perguntando, meio reclamando. — Aliás, o que acha que aconteceu?
Uma ruptura na canalização; só pode; já dentro do vosso prédio. Desta torneira para lá é da vossa responsabilidade.
Gualdino estava a ver a vida a andar para trás. Ser administrador, até então, não lhe tinha dado nenhum problema.
Eu não reparo, não posso — retornou o mal-encarado —, mas se quiserem dou-lhes o contacto de um colega meu que pode vir cá, fora das horas de serviço.
Se fizer favor! — balbuciou Gualdino, derrotado. Percebeu que estava provavelmente a cair nas garras de alguma mafia das reparações, mas, que fazer?
Quando tiverem isso reparado, comuniquem connosco para virmos abrir a água — explicou, sobranceiro, o profissional do abre-fecha, enquanto estendia ao infeliz cidadão um cartão com um número de telefone.
Uma hora depois de Gualdino ligar, chegou o técnico contactado. Olhou, encostou o ouvido à parede do átrio, avaliou o local e declarou:
Têm aqui uma bela encrenca. Se vamos partir o mármore, corremos o risco de escavacar isto tudo e não darmos logo com a ruptura. E o mais provável é que a canalização esteja toda podre. O melhor é passar um cano por fora da parede desde a rua, por cima da porta, até encontrar a continuação da canalização ali já na escada. É um trabalho mais limpo.
E em quanto é que isso nos fica? — tateava Gualdino, esperançado na resolução rápida do problema que secara as torneiras a todos os condóminos, mas preocupado com os míseros 100 euros da caixa. No banco pouco mais devia haver.
O técnico sacou da fita métrica e foi anotando os tamanhos dos vários trechos retos que o novo cano faria. Depois despediu-se:
Tenho de saber uns preços de material. Eu já lhe ligo.
Gualdino correu ao Multibanco a saber que saldo tinha a conta do condomínio: pouco mais de 400 euros. Comprou dois garrafões de água e levou-os à mulher. Passava das 19 horas, vizinhos entravam, queriam saber se teriam água para fazer o jantar, queriam respostas. Afixou um papel no átrio, ao lado da lista dos condóminos devedores, avisando que havia uma ruptura e que, provavelmente, não seria reparada nesse dia.
De chofre, tomou consciência da falta que fazem alguns dos fornecimentos prosaicos que damos por certos: a água, a energia elétrica, o gás, até mesmo o telefone, a televisão ou a internet. “Se algum falta, instala-se a perturbação nas famílias. Comparando, um transtorno quase tão grande como sobreveio às que perderam dois ordenados anuais, por desgoverno dos governos. É desagradável, é, cria desconforto e revolta, mas que desordem se instalaria se faltasse ao mesmo tempo a água, a energia elétrica e todos os outros bens essenciais, incluindo a comida? Deve ser um equivalente terramoto na vida que experimenta quem fica desempregado. Aí, sim, deve ser o caos. E todos os dias estão a fechar dezenas de empresas.”
Ligou para o técnico. “1500 euros!” foi o preço que ouviu. Se quisessem fatura eram mais 23%. “Porra!” Gualdino parou de respirar. 1500! Não tinha grande noção de preços, mas esperava muito menos. Só pensava que estava tramado. “Sem dinheiro para a reparação, o que lhes restava? Ficarem sem água?”
Não temos tanto dinheiro; somos só dez condóminos e há vários com dificuldades.
O técnico argumentou que o problema era deles, que o material é caro mas é bom, que o prédio ficaria com uma instalação garantida, mas que ia refazer as contas e já voltava a ligar.
Gualdino começou a elencar as possibilidades e as alternativas. A mais óbvia era tentar arranjar alguém que fizesse a reparação por um preço menor. Foi à sua lista dos cartões que lhe apareciam na caixa de correio a oferecer todo o tipo de serviços e começou a contactar os canalizadores um a um. Dos que atenderam, vários escusaram-se, dizendo que estavam cheios de trabalho, mas dois prometeram aparecer de manhã — “9, 10 horas” — e outro logo depois de almoço. O amigo do vizinho da cave disse que vinha ainda nessa noite.
Que fazer a seguir? A diferença entre o orçamento recebido há pouco e o dinheiro de que dispunham era abismal. Sem prejuízo de uma melhor proposta, era evidente que tinha de arranjar mais dinheiro. Sabia de cor a lista dos cinco devedores e quanto deviam. Começou pelo condómino da cave esquerda, o que tinha andado o tempo todo por ali:
Ouviu o que eles levam, Sr. Inácio? O senhor não consegue pagar o que está a dever? Ou pelo menos parte?
Ó, vizinho, não posso. Como sabe, tenho esta situação: desempregado e com a minha mãe à minha conta… A minha mulher é a única que ganha alguma coisa, mas como mulher-a-dias, já vê… E tenho o miúdo a estudar — explicou-se contristado. — Vamos lá ver se não tenho de entregar a casa ao banco…
É uma gaita!”, pensou Gualdino. O que ele dizia era verdade, mas sentia que à conta das dificuldades se ia aproveitando.
O vizinho tem a sua razão, mas quem não tem problemas? Agora, com este berbicacho, todos temos de ajudar, senão ficamos sem água… Já viu? — atirou ainda Gualdino para a parede em que se tinha transformado a lamúria do homem. A seguir, foi à gorda do segundo direito:
Boa noite, Dona Conceição, desde há bocadinho — começou Gualdino cortesmente, mas com vontade, há muito, de lhe chamar uns nomes feios. — Não vamos ter água hoje. E amanhã, não sei. Estamos com um grande problema. Os técnicos levam 1500 euros e nós só temos 500. A senhora não consegue pagar alguma coisa das quotas em atraso?
Então, o seguro que pague o arranjo, não é? — devolveu ela, impante.
Gualdino olhou-a com um misto de tristeza e animosidade. “Esta vaca tem o descaramento de falar em seguro do prédio quando está a dever três anos de quotas de condomínio?” Suavizou:
Já há um ano e tal que não temos seguro, Dona Conceição. A administração não tem dinheiro nem para a limpeza da escada. Não se lembra que na reunião combinámos que cada um limpava a sua parte por não haver dinheiro para a mulher da limpeza?
A faltosa pareceu ficar surpreendida. “Como é possível que haja pessoas tão indiferentes ao governo do prédio?” Aventou o impensável para Gualdino:
Podia pedir-se um empréstimo ao banco… Se se explicasse que era para obras…
Ó, Dona Conceição, não diga mais nada! — eriçou-se Gualdino, que não tinha cartão de crédito e era ferozmente contra os empréstimos. Só comprava o que precisava depois de juntar o dinheiro necessário. — E quem é que o paga, sou eu? Ou acha que os empréstimos não se pagam? Peça-o a senhora, que os três anos de quotas muita falta fazem ao condomínio. Francamente! A senhora desculpe, mas em vez de andar com um telemóvel de 300 euros bem podia pagar o que deve.
Eu ando com o que eu quiser, e o senhor não tem nada com isso. Nem o senhor nem ninguém. Comprei-o, estou a pagá-lo, é meu. Se o arranjei é porque preciso.
Precisa para quê? Qualquer telemóvel de 30 euros dá para ligar para todo o lado…
Preciso! E agora? Quero ir à internet onde me apetece — respondeu a consumista com menor exaltação do que Gualdino esperava. — E também tem GPS. Mas em relação às quotas, digo-lhe mais: eu só pago quando todos pagarem, que eu não estou para andar a trabalhar para os outros. De qualquer maneira, agora também não tenho dinheiro.
Pois, se o gasta em juros! — sibilou Gualdino. — Quem se estende mais que a cama…
A devedora acabou por prometer tentar arranjar 100 euros no fim do mês. Gualdino não disse que no fim do mês já não vinha a tempo para o problema de “agora”, mas agradeceu. A seguir ligou para duas condóminas que não viviam no prédio, mas tinham as casas arrendadas. Uma começou por dizer que não devia nada, mas depois de confrontada com a leitura do texto da ata, prometeu enviar um cheque no valor de um ano: 200 euros. A outra combinou que o seu advogado receberia Gualdino dentro de dias para efetuar o pagamento dos dois anos em atraso, mas frisou que queria que a reparação fosse feita “com fatura”, talvez para se dar ares de cumpridora fiscal, o que Gualdino duvidava. Pouco depois, o técnico ligou:
Olhe, senhor… não me lembro do seu nome, desculpe; eu consigo fazer por 1300 euros, mas isso é um trabalho em que praticamente já não ganho nada. Se quiser, posso começar amanhã, lá para as 3 da tarde, que eu tenho o serviço de manhã.
Gualdino, entre a espada e a parede, optou pela espada, reafirmando que não havia tanto dinheiro e que ia tentar arranjar uma solução mais barata. Vizinhos desciam, perguntavam pela reparação, resmungavam, saíam e voltavam com garrafões de água, faziam comentários: “Isto só no nosso prédio!”, “são sempre os mesmos a pagar”, “a administração devia fazer alguma coisa”, “também vou deixar de pagar”. Entretanto, chegou o amigo do tosco da cave. Olhou, apurou o ouvido de encontro à parede, fez medições. Era da mesma opinião do técnico dos serviços de águas: passar um cano por fora da parede.
1200 euros! Os senhores não arranjam mais barato. Mas têm de me adiantar pelo menos metade do dinheiro para eu comprar o material. Se estiverem de acordo, tenho isto pronto antes do meio-dia de amanhã. Já podem cozinhar o almoço.
Gualdino não respondeu, pensativo: “1200! Com sorte, talvez para o fim do mês possa ter esse dinheiro. E até lá? Uma coisa é certa: só me renderei depois de esgotar todas as possibilidades.”
Veja lá! Hoje é quinta; se demora muito a decidir, mete-se o fim-de-semana e depois só segunda-feira — chantageou o canalizador dos dias úteis.
Gualdino deitou-se cedo, mas dormiu inquieto. Sonhou que caminhava por uma planície árida e pedregosa, tropeçando a cada passo, e angustiado por não encontrar uma fonte que lhe matasse a sede que o consumia. Acordou desejando que o novo dia resolvesse a chatice em que estavam metidos, mas os deuses que gerem as arrelias pareciam estar divertidos, quais espectadores de um reality show da moda.
Os dois canalizadores, que tinham marcado para meio da manhã, não apareceram. Gualdino foi para a internet procurar mais contactos e marcou mais visitas.
O emproado do terceiro direito, numa das passagens pelo átrio, interpelou Gualdino.
Ó, senhor administrador, nós precisamos de água em casa. Mais 100 menos 100, é irrelevante. O senhor desculpe, mas parece que anda a brincar aos orçamentos. Por favor, não nos faça andar mais dias sem tomar banho.
O senhor Ferreira empresta o dinheiro? É que sem dinheiro eles não reparam — ironizou Gualdino, provocador.
Não há dinheiro porque o senhor administrador não se impôs a cobrar as quotas, como era seu dever. Não lhe ficava mal adiantar o dinheiro.
Não diga isso, senhor Ferreira. Pensa que eu vivo à larga? As dívidas já vêm da administração anterior, algumas até da sua, quando alguns condóminos deixaram de pagar, revoltados por o senhor ter gasto o fundo de reserva com obras desnecessárias. Mas, olhe, até estou satisfeito que isto tenha acontecido, para ver se as pessoas percebem que é preciso pagar para as despesas de condomínio, as indispensáveis, claro.
Pode esperar sentado. E se eu tiver algum prejuízo com esta falta de água vou responsabilizá-lo por isso — ameaçou Ferreira, enquanto se afastava abanando a cabeça.
Por volta das 5 da tarde surgiu uma novidade: um canalizador que dizia ter um método inovador. Era duma empresa com um nome a condizer — Mão Mágica — e que fazia todo o tipo de reparações domésticas. Propunha-se partir a parede, encontrar a ruptura e aplicar uma manga vedante no cano roto. Não seria preciso passar um tubo por fora. Para saber onde partir, dizia ter um detetor de metais. Preço? 600 euros. Já com o IVA incluído.
Os olhos de Gualdino brilharam. O preço era irresistível. Depois de saber que o prédio poderia voltar a ter água “lá para as 9”, assinou alegremente a autorização para o início da reparação. Logo o “mãozinhas mágicas” começou a trazer material da carrinha, apoiado por um ajudante. Gualdino cooperou, ligando uma extensão elétrica em casa da velha do rés-do-chão esquerdo. Quando pôs o pé fora de casa dela, a rajada: Tatatatata! Atirou-se para o chão, o terror estampado no rosto colado ao piso, enquanto estilhaços voavam por todos os lados. A flagelação apanhara-o mais uma vez na zona de morte. Tentou ser racional. Não se sentia ferido. Era preciso reagir, mas estava demasiado aterrorizado. A rajada parou.
Ó, senhor, sente-se bem? — perguntava ansioso o ajudante do canalizador. Este também o olhava surpreendido.
Gualdino levantou-se, olhos incrédulos, suores frios a banharem-lhe a camisa. O canalizador tinha começado a escavacar a parede de mármore com um pesado berbequim. Fora o barulho martelado da ferramenta que fizera Gualdino reviver o pesadelo de uma emboscada numa picada angolana, durante o serviço militar. Já fora há tanto tempo, mas de quando em quando ainda acordava a gritar. Pediu desculpa e recolheu-se a casa. Por pouco tempo. O canalizador apareceu logo a seguir, informando:
Já abrimos a parede. Estão cheios de sorte: o cano está bom, só tem aquela ruptura. O senhor faça-me um favor: ligue para os serviços de águas a pedir que venham fazer a ligação, enquanto eu vou comprar material. Não demoro nada.
Gualdino desceu ao átrio pejado de pedaços de mármore e tijolo. Dentro do rasgo de meio metro de largura da parede via-se um troço de cano metálico de uns seis ou sete centímetros de diâmetro. Um quarto de hora depois, chegou o técnico dos serviços de águas e postou-se junto à torneira mestra, de chave na mão, pronto a atuar. Passado mais outro quarto de hora, começou a impacientar-se:
Vocês metem-se com profissionais da treta… Eu não posso ficar aqui à espera deles. Vou-me embora, que ainda tenho de cortar a água a dois que não pagaram a conta.
E foi-se. Gualdino esperou mais meia hora, enquanto ia ouvindo a ladainha das queixas e dos remoques mais ou menos explícitos dos vizinhos. Quando o canalizador voltou, rapidamente aplicou duas meias cânulas forradas a borracha, de uns dez centímetros de comprimento, mutuamente aparafusadas a envolver o cano roto. Parecia demasiado simples. “Se é só isto, é caro!” Como que por telepatia apareceu o técnico e abriu a água. Um silvo aquático fez-se ouvir, enquanto um fino mas potente jato de água se escapava da face escondida do cano e encharcava o interior da parede. O técnico voltou a fechar a água, enquanto resmungava um “profissionais da treta”.
Quando tiverem a reparação pronta, voltem a ligar para os serviços! — avisou, antes de se ausentar. — Mas, já sabem: cada deslocação são 50 euros. Vem tudo na próxima fatura.
O canalizador, vagamente embaraçado, tateava a superfície curva do cano. Em seguida aplicou um segundo par de meias cânulas na zona danificada. Não demorou mais de dez minutos. Depois começou a arrumar a ferramenta, instando o ajudante para que varresse os detritos e a água que tinham transformado o átrio num charco pedregoso, o que este foi fazendo com grandes delongas. Na verdade, tempo não faltava. O técnico acabou por aparecer mais de uma hora depois de ser chamado. Finalmente, mais de 24 horas depois do início da tormenta, a água voltou às torneiras do prédio nº 74 da rua Finisterra, sem mais contratempos. O cano mantinha-se seco após a abertura total da torneira mestra. Gualdino quase se comoveu com o fim do calvário a que tinha estado submetido. Nessa noite iria dormir muito bem e no dia seguinte poderia voltar à confortável calma do ramerrame quotidiano, com um ou outro passeio pelo jardim, as divagações da consciência, os programas tontos da televisão, e sobretudo o seu sudoku.
Um mês depois, recebeu uma carta da Mão Mágica na qual se pedia o pagamento de 48,99 euros referente à primeira prestação mensal do contrato de manutenção da canalização do condomínio. Gualdino ligou imediatamente para a empresa, ficando a saber que tinha assinado um contrato de manutenção anual, automaticamente renovável, cujo prémio não estava incluído nos 600 euros que tinha pago em cheque ao canalizador.
Porra! Quem se mete por atalhos mete-se em trabalhos!
Definitivamente, os bons e calmos tempos tinham acabado. “Os puzzles da vida social são bem mais traiçoeiros que os do papel.” Adivinhava já os múltiplos contactos com a Defesa do Consumidor, as tentativas de conciliação em algum Julgado de Paz, os meses a passar. Estava certo de que esse ano lhe ia ficar na lembrança como “o ano da ruptura”. Paradoxalmente, a perspetiva não lhe era completamente desagradável. A possibilidade de uma boa briga legal sempre o inflamara. “Muito ovo põe a pita, mas a zorra é que arrebita.”

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: Edvard Munch, Autorretrato em frente de casa, 1926.

(Este conto obteve o 7º lugar, na categoria “Conto de autor Adulto”, no Concurso “Cidade do Penedo de Poesia e Conto/2015”, promovido pela Academia Penedense de Letras, Artes, Cultura e Ciências, Penedo, Brasil.)

* * *





sábado, 24 de setembro de 2016

SÉRIE TROVAS PREMIADAS DE EDWEINE LOUREIRO






terça-feira, 20 de setembro de 2016

A filha do pai

Ademilton Caldeira era fascinado pela sua filha única: Jade, 17 anos.
Viúvo precoce, jamais ousou admitir outro amor. Criou a menina sozinho,
dentro de redoma de princesa, imune a príncipes a quem temia serem todos sapos.
Jade foi educada no colégio mais cuidadoso da cidade, de excelência em
ensinamentos, esmero na vigilância, rigidez na disciplina e rigores nas boas maneiras.

Mas no baile da formatura no clube campestre, Caldeira perdeu Jade de vista na multidão
de moços e moçoilas que se embalava ao som de uma orquestra de metais, bem ao estilo
Glenn Miller. Cismou que a filha havia escapulido com alguém pelos jardins escuros
da madrugada. Entrou em pânico.

- Cadê Jade? Cadê minha filha?

Caldeira gritava para dentro enquanto se imiscuía pelos arbustos com isqueiro na mão.
Não descobriu o menor vestígio e voltou em desespero para o baile no salão.
Não encontrou sua menina, mas uma Jade irreconhecível, rosto colado com um rapaz
e olhos cerrados de encantamento e excitação romântica.
Caldeira tremeu. Ardências subiram-lhe aos colarinhos, o coração
fora alfinetado, a sudorese brotou. Mas depois de alguns respiros profundos, a razão
e a sensatez vieram a prevalecer. Preferiu admitir o rapaz bem apessoado e distinto,
sentou-se a uma mesa próxima e conformou-se em vigiar a alegria da filha.

O gentil pé de valsa e cavalheiro de fim de festa, de nome Aldo,  devolveu Jade aos braços do pai,
espargindo elogios e respeito por tão encantadora companhia. Despediram-se como
manda o figurino, embora entre o casal piscassem faíscas secretas de um amor que nascia.

Tempos depois, o namoro foi esquentando.  Aldo, Jade e Caldeira viviam a
harmonia de uma bonita família que estava por se desdobrar. Não demorou muito,
Aldo fez o que Caldeira mais temia: pediu Jade respeitosamente em casamento,
num jantar comum de um dia de semana.

- Você é um rapaz que me parece sério, Aldo.
- Pode ter certeza que por Jade tenho as melhores intenções, Sr. Caldeira.

Caldeira pediu a Jade que se retirasse da sala.

- Muito bem, meu rapaz. Estamos para uma prosa a sós. 
De futuro sogro para futuro genro.

Aldo arregalou os olhos. Caldeira pôs-se de joelhos aos pés de Aldo.

- Por favor, Sr. Caldeira. Não carecem súplicas de juízo. 
Serei o marido leal honrado que sua filha faz por merecer.

Caldeira emudecido agarrou as canelas de Aldo, que paralisou. Subiu as mãos pela calça
bem cortada do rapaz, abriu sua braguilha, encontrando algo de acuado,
tão perplexo quanto o dono. Ainda paralisado, Aldo sentiu a boca e a língua
de Caldeira sugarem sôfregas uma suculência crescente, bem dotada,
incontrolavelmente pulsante. As mãos do quase sogro apertaram as coxas
e glúteos do quase genro, como uma criança que não larga um presente. Nem um
pirulito.

Queria Ademilton Caldeira conhecer e sentir nas entranhas o que a filha
haveria de provar com tanto gosto. Como se fosse ela mesma.





domingo, 18 de setembro de 2016

Estripulias







O falatório se instaurou qual fagulha na festa que começava. É o Campeão, olha só, o Campeão chegou, é ele sim! Mas não, que claro que não, não é possível isso. É sim, olha lá a mãe da Renata levando ele pro banheiro, ele vai aparecer vestido como ele é, você vai ver como é ele. Não é, não!
Marcela não podia acreditar. Era muito estranho aquilo que via, não dava pra saber se era mesmo ele, se não era. Só se ela... Antes mesmo de terminar de pensar, já estava correndo na direção do moço que chegava cheio de sacolas e malas, largando as amigas que ainda chamaram seu nome aos gritos. O disparo foi tanto que, desabituada com os sapatos novos, de sola um tanto escorregadia, não conseguiu frear a tempo, trombando com as coxas do possível Campeão e de imediato falando um:
— Desculpa - A voz ainda mais fininha do que era sempre a sua.
Sentiu medo. Ele podia ter ficado bravo e isso seria assustador. E não só ele, mas a dona Salete, mãe da Renata. Talvez fosse melhor voltar correndo e fingir que não tinha ido atrás dele. Vai ver era tudo história da Isabel e todas estavam acreditando, ele devia ser tio da Renata, primo, alguma coisa assim. E já estava começando a se virar quando uma mão grandona travou-lhe o pulso esquerdo:
— Você queria falar comigo, mocinha? - Uma voz forte, grossa. Suave.
Ele se abaixou e agora Marcela podia ver bem de perto seus olhos pretos, tão bonitos. Mas ainda não dava pra saber se era ele mesmo, teria que perguntar:
 É que eu queria saber se você é o Campeão - falou, olhando pro chão.
— E o que você acha? - O sorriso dele de ponta a ponta, os lábios tão finos, ela conseguia olhar de novo pra cima e vê-lo, lábios que pareciam uma coisa macia de morder, cor-de-rosa bem clarinho.
— Não sei, minhas amigas estavam dizendo que era mas eu não sei.
— Qual é o seu nome? 
— Marcela - respondeu baixinho, a coragem cada vez menor.
— Olha, Marcela, eu sou e não sou. Sou porque quando troco a roupa e faço a maquiagem, ponho a peruca e fico todo colorido, eu viro o palhaço Campeão. Mas quando estou assim, como você está me vendo agora, eu sou o Diego, que vai no banco, anda de ônibus, de metrô, vai no mercado, essas coisas. Mas mesmo quando eu sou o Diego, sempre tem algo do Campeão comigo, entende?
Marcela não sabia se tinha entendido, mas estava tão encantada de estar assim pertinho dele, vendo o moreno daquela pele macia, o contorno daquele nariz, que foi falando:
 Sim, sim.
Mas seus olhinhos deviam estar diferentes do que o que a boca dizia, porque ele falou logo: 
— Acho que não, não é? Mas tudo bem, agora vem aqui pra eu te dar um abraço que eu tenho que me trocar, já vai começar o espetáculo, sua amiga Renata está fazendo aniversário e eu vou fazer vocês todos darem bastante risada, tá bem?
Marcela então passou um bracinho de cada lado do pescoço dele, bem forte, aproveitando ele estar agachado e se jogando sentada sobre uma daquelas pernas grandalhonas. A calça bege era macia sob a saia vermelha e branca que ela usava, a camisa azul, o botão de cima aberto, dava pra ver os pelos do peito bem pretos, e ela brincou um pouco com eles, trançando-os nos dedinhos da mão e dando risadinhas. Queria falar que o amava, mas cadê coragem? Então resolveu dar um beijo na bochecha dele, sentindo o áspero da pele daquele rosto, os pontinhos da barba despontando. Ele riu e deu um beijo no rosto dela dizendo:
— Princesa, princesa, tenho que ir, linda princesa.
A apresentação dele para a criançada foi boa, deu pra ela ter certeza de que era mesmo o Campeão que ela conhecia da tevê. Ele fez um montão de palhaçadas e ainda cantou umas músicas acompanhado do violão, fazendo todo mundo cantar junto. Mas não valeu nem um pouquinho do que teve antes.
E agora, indo pra casa da avó, no carro, o tique-taque do relógio do pai era o único som que se ouvia. Ele tragava o cigarro e soltava a fumaça sem pressa, enquanto a mãe permanecia de cabeça baixa, concentrada em alguma prega do tecido da saia.
Marcela tinha cinco anos naquele dia, e se concentrou em apenas olhar pela janela traseira os faróis amarelos dos carros que vinham atrás, com suas luzes de sonho e amor.





sábado, 17 de setembro de 2016

A foto dela












                   Vi uma foto dela, tirada recentemente. Ela estava linda, absolutamente encantadora. Não posso sequer perguntar como vai a vida, como estão os pais, o trabalho, a vida, porque dissera a ela, um dia, claramente, que a amava. Foi uma guerra perdida, mas sem qualquer tipo de rendição.






















sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Lama



(Rio Verde, Varginha, Sul de Minas Gerais)

Seguiu a pé em direção ao rio, o barro da chuva da véspera lambuzando os pés expostos pelas sandálias de tiras. Os homens tinham tentado impedi-la, mas ela era mais ágil do que eles. Não havia quem a fizesse desistir daquela vontade. Vontade de mãe. Ninguém ia afastá-la da cria. Que mãe não aguenta distância de filho; que mãe não dorme, não sossega enquanto não enxerga e confere se está tudo lá: dois braços, dois pés, duas orelhas, dois olhos lindos, cor de jabuticaba. Tudo.
A chuva estava começando outra vez e vinha de aguaceiro. Nada pouco, que o céu adora um desperdício. Ela precisava correr se quisesse alcançar a margem do Rio Claro antes que o temporal a obrigasse a se abrigar. Não. Não podia parar de jeito nenhum. Parar só o tempo. No ontem, no mais cedo. Tropeçou em um tronco podre escondido na lama, escorregou e feriu a mão em um pedaço de madeira esfiapada. O sangue vivo brotando da pele, dando alguma cor à natureza cinza. Esfregou a mão machucada no pano da saia, tentando limpar o ferimento. Merda! Não ia se atrasar por causa de dor. 
A cortina de água parecia um muro de cimento. Mas não era. Só ilusão. O chão irregular, o rio bravo, o céu desfeito, tudo continuava lá, atrás daquela parede falsa. Seguiu pisando com força, sem escolher onde afundar os pés, agora já totalmente imundos de barro. Força. Precisava de força para seguir em frente. Nada de tomar cuidado. Cuidado desvia da intenção.
Avistou os homens à beira d'água, enfileirados como os bonecos de jornal que o pai recortava para ela brincar de sombras na parede do quarto pobre, iluminado apenas pela luz de velas. Fazia tanto tempo. Não era mais menina. Nem pobre. E os homens não estavam brincando. Ajeitavam alguma coisa em uma lona amarela e, por um instante, só o tempo de uma fuga, ela pensou que aquele amarelo ficava lindo na chuva, como um sol molhado. Os homens tentavam levantar o fardo. E a cada vez que tentavam, a água fazia com que a lona escorregasse de suas mãos. 
A falta de visibilidade causada pelo temporal não deixou que a vissem se aproximando. Até que foi tarde demais. E o grito que ninguém escutou foi por causa dos trovões. Empurrando os homens com chutes e socos, livrou-se dos braços que queriam segurá-la e abriu a lona amarela jogada no barro mole da beira do rio. Nem sentiu as unhas sangrando. Nem sentiu os braços se estirando pelo esforço. Mãe não aguenta distância de filho; não dorme, não sossega enquanto não enxerga e confere se está tudo lá: dois braços, dois pés, duas orelhas, dois olhos feios, abertos, opacos, azulados pela morte. 
Abraçada ao corpo frio e mutilado, ela odiou o rio, a correnteza e o redemoinho traiçoeiro que puxava as vidas para o fundo, tornando-as carcaças disformes. A mão sangrava novamente. E as unhas. E a alma. Um dos homens prometeu que levaria o corpo para casa.
Sim, ela o queria em casa. No quarto inundado de luz elétrica, onde o computador esperava com mensagens. Protegido da chuva, do rio. Lá ele era seu menino. E não aquele rapaz cheio de si, cheio de vontade própria. Vontade de pular no Rio Claro, de enfrentar o redemoinho da morte e ser herói para os amigos, para as mocinhas cheias de hormônios. 
Maldito! Maldito! Desobediente, malcriado! Viu? Viu no que deu você não me escutar? Viu agora que mandar na própria vida é decidir sozinho a própria morte? Quem estava com você no sorvedouro? Que mão agarrou a sua mão, puxou o seu braço? Quem mergulhou para lutar por você? Maldita criança estúpida! Por que é que você tinha que querer ser homem?
Desviou os olhos do caixão que descia silencioso, sendo engolido lentamente pelo chão de lama do campo santo. Ao redor, os rostos jovens e assustados a emocionaram por alguns segundos. Mas logo teve raiva deles. Serão os próximos. Presos às ferragens retorcidas de um carro, vencidos pela overdose inesperada, abatidos por tiros em uma briga sem sentido. Achando graça. Orgulhosos por terem crescido. Sem saber o preço da morte.
Voltou a pensar no fundo do rio, na força das águas entrando nos pulmões do filho, tirando-lhe o ar. Deixou que a levassem embora, que a deitassem na sua própria cama e que lhe dessem o remédio mágico que congelaria a dor por algumas horas. Quando o aperto no peito voltasse, tomaria mais um, antes que a garganta gritasse.
Algum tempo depois, acordou, sentindo-se abraçada. Olhando em volta, contou os bonequinhos de papel ao redor do próprio corpo. Viu o pai na cadeira de balanço, roupa velha, sorriso farto. Correu até ele, deitando a cabeça naquele colo que balançava o passado. Sentiu o cheiro da pobreza. Um cheiro feliz. Depois viu o filho sentado no chão, mãozinhas miúdas montando alguma coisa com as peças de um jogo colorido de madeira. Um castelo pra você, mamãe. 

E então aquele cheiro enjoativo de lama. Lama de rio, de fundo de rio. Lama de morte. No quarto escuro, realidade. Dormiu novamente. Só queria acordar para ser sonho.





quinta-feira, 15 de setembro de 2016

baloiço




Natércia tem uns olhos muito verdes e muito expressivos.
O olho direito teimosamente encasquilhado quase junto ao outro olho, junto ao nariz que nela é um nariz arrebitado, pequenino como só podia ser numa cara miudinha salpicada de sardas.
Natércia tem a testa alta e o cabelo, vagamente branco, está cortado curto: uns caracóis onde ainda se adivinha a cor do tijolo que terão tido, um ocre quase igual à cor que espreita das esfoladelas de cal nas paredes, esfoladelas que se multiplicaram desde que Natércia ficou a habitar, sozinha, a casa da avó Cremilde.
A avó era uma mulher espigada e rija como um tronco de alfarrobeira, sempre com aquela saia negra a roçar a terra e o soalho do quarto onde Natércia dorme, ela e a cadela, uma podenga cor de mel que a segue para onde vá, e não vai longe, que Natércia faz meses que lhe rebentou aquela ferida feia na perna esquerda.
Natércia sempre foi órfã.
A mãe, Maria do Rosário, que nunca conheceu, era uma rapariga dada a fadigas prolongadas e a desmaios. Disse-lhe isso a avó Cremilde nos raros momentos em que lhe falou da mãe. Foi também a avó que lhe contou que a mãe tinha dezasseis anos quando emprenhou do Afonso, seu pai. Que tinha sido num dia de baile lá na freguesia. Era junto à praia, uns dois quilómetros indo pela estrada, mas as raparigas, seguidas por um rancho de rapazes, atalhavam sempre caminho pelos campos.
Afonso já tinha sido incorporado.
Embarcaria para Moçambique e Maria do Rosário pariria às mãos da madrinha Gertrudes vinda na burra Graziela e retornando com os alforges com o que bastasse para o esforço de ter salvo mãe e filha, que Natércia, como o senhor prior a baptizaria, viera atravessada e com o cordão enrolado no corpo.
Natércia nasceu no mesmo dia em que chegou a carta.
A avó Cremilde despedira-se com mesuras e beijos da comadre Gertrudes depois de lhe ter enchido os alforges da burra e, mal a alimária e a comadre desapareciam lá abaixo, quase junto à estrada, já ela se sentava à luz do candeeiro.
Ainda foi ao quarto onde Maria do Rosário e a recém-nascida era suposto que dormissem: parecera-lhe ouvir um vagido. De manso, entreabriu a porta, mas tinha sido apenas um ronronar da criança ainda mal habituada ao ar que respira e, sossegada, a avó Cremilde preparou-se para ver o que trazia o envelope. Era azul clarinho com umas riscas inclinadas em azul forte e encarnado a fazerem um debrum em todo em volta.
Rasgou-o devagar.
A avó Cremilde tinha-os casado nos poucos dias antes do embarque.
Caso-os, não vá o diabo tecê-las, tinha pensado.
E tinha tido razão em desconfiar daqueles corpos ferventes.
De dentro do envelope retirou uma folha fininha. Desdobrou-a e chegou-a à luz trémula do candeeiro, que a luz eléctrica viria apenas depois dos cravos. Por sinal, muito depois.
A avó de Natércia sabia ler o que bastasse para soletrar aquelas letras batidas com vigor de modo a encastrarem no papel de seda, que era a carta, caracteres negros, aqui e ali borrados do vermelho de fita de outro carreto o que levaria a crer que tivesse sido numa máquina velha que aquele “Major Almeida do Patrocínio, segundo comandante” escrevera ou mandara que escrevessem e ele assinando apenas com dois traços verticais onde ninguém adivinharia que era José Carlos Almeida do Patrocínio a fazer em Moçambique a sua terceira comissão.
E foi soletrando.
Mas, antes que o que lia lhe dissesse fosse o que fosse, foi espreitar o que estava escrito no verso do envelope, e balbuciou as letras escritas na caligrafia segura de quem sabe: Comando da Região Norte, Moçambique. Tudo em letras de forma.
Só depois retornou à folha de papel que mantivera presa entre dois dedos, e foi balbuciando palavras que nem lhe fizeram sentido, assim, a lê-las soltas, mas que, pouco a pouco, no seu balbuciar que era como se a carta lhe falasse, se juntaram em dizeres que entendeu.
A avó Cremilde segurava o papel nas mãos pintalgadas do verde da erva que apanhava, a cada dia, para os animais: ficara-lhe aquele tom como segunda pele.
Natércia dormia o seu primeiro sono de nascida.
E as mãos da avó Cremilde tremelicaram enquanto no rosto magro, serpenteando uma ruga, lhe correu um fio de lágrima.
Foi, assim, depois que leu a carta inteira.
Natércia já sem pai quando nasceu, ficaria sempre órfã, que a mãe morreria dois meses depois de ter chegado a carta que a avó Cremilde lhe daria para que lesse a saber do marido.
Natércia cresceu sem outro mimo do que aquele imenso silêncio da avó Cremilde a tratar dos bichos e a tratar do pedacinho de horta e a tratar da roupa das camas na barrela de cada semana e a tratar de que ela, Natércia, “fosse uma senhora” que era como lhe dizia a vestir-lhe o bibe muito branco por cima da roupa que, nos intervalos do muito que fazia de uma lado para o outro, passajava sentada na sombra daquela alfarrobeira enorme: todos os puídos bem unidos num ponto entretecido para que durasse outro inverno.
Natércia nunca soube.
Que tinham sido febres do parto, disse-lhe sempre a avó Cremilde no mesmo tom em que lhe dizia, amiúde, a entrançar-lhe os cabelos: vais aprender para seres uma senhora.
Natércia nunca soube que o corpo de Maria do Rosário ficara balançando na alfarrobeira onde, anos depois, a avó Cremilde lhe faria um baloiço.
Fez a quarta com distinção e empregou-se, que a avó Cremilde tinha falado com a dona da padaria, e foram trinta e oito anos com os descontos todos.
No dezassete de um Agosto insonso de calores, depois de umas dores de cabeça e duns frios despropositados, Natércia fora dar-lhe o caldo e encontrou a avó virada sobre o lado esquerdo, o braço pendente para fora do leito de ferro onde sempre tinha dormido naquele mesmo quarto onde os escafelos, hoje, deixam ver o vermelho dos tijolos.
A avó Cremilde morreu ainda Natércia era uma rapariguinha de cintura fina e pele rosada que subia e descia lá do cimo do monte até à estrada onde passava a camioneta da carreira que a levava à cidade pelas oito e a trazia, ao fim do dia, já de noite nos dias pequeninos de Dezembro e Janeiro.
Natércia nunca buscou marido nem homem algum lhe terá descoberto escondidas formusuras.
A reforma que recebe é pequena mas ela sempre tratou da horta e o que tem chega-lhe para o prato e ainda lhe sobra para pagar ao pedreiro que virá amanhã rebocar as paredes e dar uma pintura.
A ferida, essa, é que a preocupa: não sara nem com mezinhas nem com remédios da farmácia, e cresce, como cova, para dentro do bojo da perna.
Uma ferida feia, disse-lhe o médico e repetiu-lhe, ontem, a enfermeira.

Um dia destes, Natércia sentou-se debaixo da alfarrobeira e lembrou-se do baloiço. Lembrou-se daquelas cordas grossas que seguravam a tábua do assento. E benzeu-se. Que ideia tão pecadora lhe havia de vir à ideia. E benzeu-se de novo.