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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A GOTA D'ÁGUA



                                         
                                           
         Na manhã cinzenta, fria, céu carrancudo de meados de maio, Olga ajeita o casaco tentando driblar o frio que insiste em lhe martirizar o peito. A garoa fina e persistente incomoda a vista, embaçando as lentes dos óculos. Caminha apressadamente pelas calçadas estreitas e molhadas, com a bolsa a tiracolo, apertando contra o peito a pasta transparente que traz os documentos da mãe, e luta para controlar o guarda-chuva que bamboleia ao sabor do vento, de um lado a outro.
         Hospedada em casa de parentes, ali, no extremo da zona sul da cidade de São Paulo, e agora precisa do transporte coletivo para chegar à Praça da República. Fica lá o escritório do plano de saúde do qual é beneficiária titular há mais de vinte 20 anos, e dele participava, como beneficiária dependente, a sua mãe. Empurrada pela burocracia infame, está ela ali, depois de tantos transtornos e de uma longa viagem, para entregar pessoalmente os documentos que atestam o óbito da mãe e, só assim, excluí-la do plano.
         Olga conhece muito pouco a capital, e chegando ao terminal dos ônibus urbanos, pergunta a uma senhora, que aguarda na plataforma, como deve proceder para chegar à Praça da República. A gentil senhorinha sugere que Olga embarque no ônibus que traz o letreiro “Praça da Sé”, pois lá chegando tudo estará perto. Olga agradece, remexe a bolsa para retirar uma cédula de cinco reais, e a segura firmemente enquanto aguarda a chegada do ônibus que a levará ao destino.
         Não demora muito...
         Olga embarca, cumprimenta o motorista e estende a mão com o dinheiro para que o cobrador faça o troco da sua passagem. O cobrador olha fixamente para Olga, e com a maior simplicidade do mundo lhe diz:
         - A senhora não paga, não! Pode passar pela roleta e sentar ali, nas cadeiras reservadas para os idosos...
         De início, Olga enrubece, fica meio sem jeito, não sabe o que fazer com a mão erguida que segura o dinheiro. Mas, diante da atitude cordial, simplória, natural, e observando que o cobrador usa um tom reservado, falando baixinho, com delicadeza, apenas agradece. Guarda o dinheiro, passa pela roleta e se acomoda em uma poltrona da ala dos idosos. A ala está quase deserta, só há um senhor. As outras sete poltronas estão vazias.
         Olga escolhe a poltrona da frente, lado contrário ao do motorista, o que facilitará a ela conversar com ele, caso seja necessário, para pedir orientação quanto à chegada ao seu destino, mesmo sabendo da proibição.
         Acomodada, ajeita o guarda-chuva no canto, rente à janela, coloca a bolsa sobre os joelhos, e fica observando a pasta transparente que traz na superfície alguns respingos da garoa. Passa a manga da blusa sobre ela para secar as gotículas, e consegue ler na parte de baixo do papel expedido pelo hospital: “causa mortis: morte natural”. Melhor assim. Apesar da dor da perda, Olga agradece pela passagem feliz, pela passagem digna que foi concedida à mãe. Partiu durante o sono, depois de 87 anos bem vividos. Morte santa!
         Imersa em seus pensamentos, Olga nem se dá conta do trajeto percorrido pelo ônibus, das sacudidelas, do movimento das pessoas. Olha pela janela e tudo é cinza. Continua cinza. Céu carrancudo...
         A ala dos idosos está mais povoada! Velhinhos e velhinhas simpáticas, e Olga os cumprimenta com um aceno, um meneio de cabeça, um sorriso. Apenas a poltrona, ao seu lado, continua vazia.
         De repente, uma senhorinha aparentando bem mais de 70 anos, miúda, gordinha, de fartos cabelos branco-acinzentados de brilho intenso, de olhinhos claros e muito bem vestida, bem agasalhada, trazendo sobre os ombros um xale tricotado com lã da mesma cor dos cabelos, aproxima-se de Olga, senta ao seu lado, e segurando fortemente em seu braço lhe diz:
         - Preciso da sua ajuda, por favor!
         De pronto, após um susto danado, Olga responde:
         - Claro! Em que posso ajudar?!
         Olga percebe que a senhorinha é portuguesa. Fala lindamente.
         E a senhorinha, então, lhe diz:
         - Preciso chegar à Casa de Portugal. A senhora leva-me até lá?
         Olga sente-se incomodada. Como poderia levar a senhorinha até a Casa de Portugal se não conhece nada, se não sabe mesmo nem como chegar ao seu próprio destino?!
         E a senhorinha continua:
         - Preciso ir à Casa de Portugal para receber a ajuda que o governo português envia todos os meses. A senhora leva-me até lá?
         O motorista, que a tudo ouvia, percebe que Olga está aflita, embaraçada, e diz:
         - A senhora pode acompanhá-la. Fica perto da Praça João Mendes...
         Olga responde quase gritando:
         - Não, meu senhor! Não posso acompanhá-la. Não conheço nada por aqui, sou do interior e só estou aqui porque preciso entregar uns papéis da minha mãe no escritório do plano de saúde.
         A senhorinha, quando ouve a negativa de Olga, volta a segurar-lhe o braço com força, e diz:
         - A senhora não vai me acompanhar até a Casa de Portugal? Vai deixar-me só, perdida aqui na cidade?
         Olga fecha os olhos, suspira fundo, procura se acalmar. Sente os dedos da senhorinha apertando o seu braço, e olha para ela. Os olhinhos suplicantes e marejados enternecem Olga. Como dizer não a uma súplica tão cristalina?!
         Olga coloca a mão sobre a mão morna que lhe aperta o braço com tanta força que, das pontas dos dedos, o sangue foge, e a afaga. Percebe as unhas bem cuidadas. Claro que não iria abandoná-la. Esta senhorinha havia se perdido. Deve ter saído de casa sem que ninguém percebesse, e não soube achar o caminho de volta. A família devia estar à procura dela. De alguma maneira, Olga a ajudaria.
         Primeiro tenta confortá-la, repete várias vezes que não a abandonará, e quando vê que aquele ar angustiado, aquele olhar de súplica deixou o semblante da senhorinha, Olga pergunta:
         - Qual é o seu nome, minha senhora?
         A senhorinha, aliviada, responde:
         - Meu nome é Maria Leontina. Um minuto que vou pegar o meu documento...
         E sentada ao lado de Olga, a senhorinha começa a remexer a bolsa, nervosamente. Após retirar vários objetos e colocá-los desordenadamente sobre as pernas, consegue, enfim, achar o documento pessoal e o entrega nas mãos de Olga.
         Um documento antiquíssimo, datado de 1970, totalmente avariado, com a chancela do governo português, apresenta a informação de que o documento foi expedido em nome de Maria Leontina de Jesus Machado, nascida em 24 de janeiro de 1930, em Aveiro.
         Depois de analisar o documento, Olga percebe que Dona Maria Leontina, apesar de não aparentar, é uma senhora de 85 anos, e fica ainda mais apreensiva ao vê-la ali, ao seu lado, pedindo-lhe guarida, sozinha numa metrópole tão impiedosa.
         Olga vira-se para o motorista e pergunta se ele pode orientá-la a levar Dona Maria Leontina até a Casa de Portugal. Nisso, uma senhora que também ouviu a solicitação de Olga, e percebendo a sua insegurança, pede licença e argumenta:
         - Minha senhora, a Casa de Portugal não abre durante o dia. É um ambiente para festas, confraternizações, jantares, bailes, e funciona apenas no período noturno. Esta senhora deve estar procurando a Embaixada de Portugal no Brasil.
         Dona Maria Leontina, abruptamente, fala:
         - Não! Eu quero ir à Casa de Portugal para receber o meu pagamento!
         Diante de mais esta informação desencontrada, Olga não consegue ordenar os seus pensamentos. Nem lembra o motivo que a trouxe até ali, nem se preocupa com o tempo, com a urgência de entregar os papéis do óbito da mãe. Está aflita tentando achar uma solução para amparar Dona Maria Leontina.
         Para tentar organizar a situação, Olga pergunta a Dona Maria em que lugar ela mora, e então a senhorinha volta a remexer a bolsa em busca de um papel que prontamente mostra a Olga. Uma conta de água do ano de 1979, papel muito manuseado, com endereço quase ilegível, tendo apenas o nome do bairro bem visível. O bairro era Campo Limpo.
         Então, Olga pergunta:
         - Dona Maria Leontina, a senhora mora no bairro do Campo Limpo?
         Ela pensa um pouco e responde:
         - Eu moro lá. Isso mesmo!
         - E a senhora sabe o nome da sua rua, o número da sua casa, ou o número do seu telefone residencial? – pergunta Olga.
         - O meu endereço está neste papel que lhe dei. E o número do meu telefone é 3879-2218. Não! É 3591-8827... Não! Eu confundo os números. Antes eu sabia direitinho, mas agora está tudo embaralhado na cabeça. – Dona Maria fala sem qualquer convicção, com ar confuso, com o rostinho assustado, e mostra o medo de encarar Olga, o medo de perder o seu amparo.
         Olga a acarinha e diz:
         - Pode ficar tranquila. Só me separo da senhora quando houver uma solução, prometo!
         Dona Maria suspira aliviada, dá um sorriso e finalmente relaxa o corpo sobre a poltrona.
         Olga olha pela janela. A garoa continua lá, persistente, o céu continua sisudo, cinza. E Olga sabe que terá que resolver uma situação que nem consegue entender.
         Depois de muitas retas, muitas curvas, inúmeros semáforos, freadas bruscas, o motorista para no ponto, vira-se para Olga e diz:
         - A Praça da Sé está próxima, a senhora pode descer aqui e pedir informação lá, naquele ponto de táxi. As pessoas ensinarão como fazer para chegar à Casa de Portugal.
         Dona Maria Leontina coloca-se de pé, Olga pega o guarda-chuva, recoloca a bolsa a tiracolo, abraça a pasta transparente com os documentos da mãe, e segue em frente pelo corredor do ônibus até a saída. Desce e toma a mão da senhorinha para ajudá-la a descer do ônibus e a firmar os pés na calçada.
         A garoa está fraquinha, mas sem trégua. Olga abre o guarda-chuva e coloca o braço sobre os ombros da parceira para abrigá-la da garoa fria. Atravessam a rua e dirigem-se ao ponto de táxi. Ali há uma cobertura acrílica e Olga acomoda Dona Maria Leontina no único banco em que apenas um velho encontra-se sentado. Rapidamente aproxima-se dele e pergunta se sabe onde fica a Casa de Portugal. O velho, mesmo sem olhar para Olga, responde de maneira ríspida que não sabe e que ela pergunte a outra pessoa.
         Assustada com a reação agressiva do velho, Olga percebe a presença de um jovem bem vestido, em pé rente ao meio-fio, com um enorme guarda-chuva aberto, e o serviço dele parece ser abrir a porta para o passageiro que chega com táxi, ou que com ele parta. Realmente, um serviço diferenciado!
         Procurando se aproximar, Olga espera, entre um passageiro e outro, uma brecha para perguntar se o jovem pode informar qual rumo deve tomar para levar Dona Maria até a Casa de Portugal.
         A falta de interesse do jovem em ajudar faz com que Olga perca a paciência, e alterada começa a falar:
         - Por favor, encontrei esta senhorinha no ônibus, eu não sou daqui, não conheço a cidade, e preciso levá-la até a Casa de Portugal. Como faço? Por que ninguém pode me explicar?!
         O rapaz, assustado, fala:
         - A Casa de Portugal não abre durante o dia, minha senhora. Só à noite, quando as festas acontecem, as reuniões...
         - Impossível! A Dona Maria precisa ir até lá para receber a ajuda mensal que o governo português repassa a ela, como pode ser?! – diz Olga.
         - Senhora, ela deve estar procurando a Embaixada de Portugal, que fica nos Jardins, muito distante daqui. – responde o jovem, com ar enfadonho.
         Olga olha para Dona Maria Leontina e percebe que ela está chorando. Para a conversa com o rapaz e corre até ela.
         - Dona Maria, não chore, por favor! Tudo vai acabar bem, tudo vai dar certo! – fala Olga.
         A senhorinha, trêmula, diz não estar se sentindo bem. Percebe-se que ela tem dificuldade de respirar. Olga, muito aflita, volta a falar com o velho que a tudo assistiu, sempre alheio.
         - Por favor, o senhor não poderia me ajudar?
         - Dona, virando a esquina tem o prédio da Procuradoria. Pergunta lá quem pode ajudar, ora! – responde o velho.
         Olga pede à Dona Maria Leontina que se acalme, que tenha mais um pouquinho de paciência, que não saia dali de maneira alguma, e que irá buscar ajuda na Procuradoria. Sai quase correndo, atravessa a rua novamente, vira a esquina como o velho a orientou. No meio do quarteirão vê um prédio antigo, preto de fuligem, e entra ansiosamente. Na recepção, uma jovem pergunta-lhe em que poderia ajudar. Olga, sofregamente conta de novo toda a história. A moça ouve impacientemente e diz:
         - Sinto muito, mas não podemos ajudá-la. Não há nada que nos cabe fazer...
         Olga olha para os vigilantes, ou seguranças, trajados em seus ternos pretos e suplica por ajuda. Um deles, com um sorriso irônico, fala:
         - Dona, aqui é a Procuradoria... A senhora precisa da ajuda da polícia!
         Olga leva um susto. Por que não pensou nisso antes?!
         Indignada, Olga sai apressadamente pela imensa porta do prédio, esforçando-se para ignorar o riso dos três funcionários que ali permanecem. Nenhum deles fica tocado com a situação.
         Antes de chegar à esquina, pergunta ao dono de um bar onde encontraria uma viatura policial por ali, é informada de que em frente à Praça da Sé há várias viaturas que lá mantêm guarda durante todo o dia.
         Pensando em Dona Maria, preocupada se ela continuaria lá passivamente à espera, Olga resolve vê-la antes de seguir para a Praça da Sé. Passa correndo pelo ponto de táxi. Dona Maria continua trêmula, respirando com dificuldade. Olga explica a ela que irá até a praça buscar uma viatura, e que tudo será rápido. Faz um carinho em sua cabeça, e toma a direção da Praça da Sé.
         Há três viaturas estacionadas na praça, com as portas abertas, e com os policiais dentro, abrigando-se da garoa. Apenas um policial está de pé junto ao último carro. Olga aproxima-se rapidamente dele e narra novamente toda a história. O policial, enquanto ouve Olga, balança a cabeça negativamente. Percebendo o desinteresse dele, Olga altera a voz e diz que Dona Maria Leontina está muito mal, que pode morrer se não tiver atendimento médico, que certamente ela havia saído de casa e não conseguiu encontrar o caminho de volta, que ela está confusa, desorientada, e que a família deve estar aflita sem saber do paradeiro dela.
         O policial interrompe a fala de Olga, e retruca:
         - Minha senhora, se a viatura ficar atendendo casos de pessoas perdidas nesta cidade, não sobrará tempo para outro serviço. Se ela está passando mal, a senhora deve procurar uma ambulância, um resgate...
         - Eu, não! – grita Olga. - O senhor é que tem a obrigação de auxiliá-la no que for possível. Por favor, leva a Dona Maria para um hospital mais próximo e peça que a atendam com urgência! O senhor pode entrar em contato com a Central da Polícia aqui da capital e verificar se existe o registro do desaparecimento de uma senhora de 85 anos no dia de hoje. O senhor pode e deve fazer isso! – Olga desabafou.
         O policial faz um sinal com a mão para que Olga aguarde ali, e vai falar com os outros policiais que estão nas outras viaturas. De longe Olga percebe que todos resistem a prestar o socorro, disfarçam o olhar, dão as costas. E Olga continua ali, aflita, aguardando... Pensa na senhorinha sentada naquele banco, sozinha, exposta ao frio e ao vento, trêmula, insegura, confusa.
         Demora um tempo até que o policial retorne, e, rispidamente, se dirige a Olga.
         - A senhora pode seguir o seu caminho. Não se preocupe com a Dona Maria. Daqui a pouco eu irei até lá e a levarei a um hospital. – diz o soldado.
         - Daqui a pouco?! Quando?! – interpela Olga.
         O policial suspira fundo, e irritado, dando as costas para Olga, diz:
         - Pode ir, pode ir... Eu não demoro!
         Ela nem agradece. Encaminha-se rapidamente para o ponto de táxi, rezando para que Dona Maria Leontina ainda esteja lá, e bem. É um trecho razoável a ser percorrido, e quando é preciso ter pressa parece que a distância fica ainda maior. Depois de uma boa caminhada, e ainda do outro lado da rua, Olga avista a viatura estacionada diante do ponto de táxi. Corre, atravessa a rua, e quando chega ao carro, Dona Maria já está acomodada no banco traseiro, com os olhinhos assustados, chorando baixinho e tremendo muito. Olga agacha-se no meio-fio, pega as mãos dela entre as suas e tenta acalmá-la.
         - Dona Maria, pode ficar tranquila. Os policiais vão levá-la ao hospital, a senhora será atendida e eles irão procurar a sua família, pode confiar! – fala Olga, docemente.
         Dona Maria Leontina, demonstrando muita dificuldade para respirar, aperta as mãos de Olga e as beija, em sinal do mais profundo agradecimento.
         - Que a vida seja generosa com você, minha filha! Que os seus dias sejam plenos de luz! Com tantos acontecimentos no dia de hoje, nem o seu nome você me disse! – fala a senhorinha.
         - Olga, Dona Maria. Meu nome é Olga. Agora vá com eles, e tudo acabará bem. – diz isso, beija o rosto de Dona Maria, faz um afago em suas mãos, e fecha a porta da viatura.
         O policial faz um barulho estrondoso pisando fortemente no acelerador antes de arrancar violentamente e parar logo à frente, obrigado que é em respeitar a passagem de pedestres.
         Olga olha a viatura pela última vez, e enxerga a mãozinha espalmada de Dona Maria no vidro do carro, como a despedir-se e agradecer. Logo a viatura dobra a esquina levando a doce senhorinha.
         Olga continua ali, no meio-fio, olhando sem nada ver... No peito, uma mistura de tristeza, de conforto, de decepção. Vira-se para o banco, sob o teto de acrílico. Lá está o velho impiedoso, amargo, da mesma maneira, olhando o nada. Só então, Olga percebe que precisa seguir, precisa encontrar a Praça da República. A garoa não dá trégua. O sol continua amoitado, e as mesmas nuvens negras encarrancam o céu. Tudo cinza, gelado. Olga puxa a bolsa, que traz a tiracolo, na altura do peito, comprime-a com a pasta de plástico transparente que traz os documentos da mãe, o guarda-chuva em punho, atravessa a rua e entra num bar para tomar um café e pedir orientação de como chegar ao seu destino. Tem as mãos frias. A alma também.
         A moça do bar diz a Olga que, seguindo a calçada do bar, sempre em linha reta até chegar ao final da descida, encontrará uma banca de revista, e lá estará o início de uma passarela imensa, tortuosa, que a levará à Praça da República. Olga agradece e começa a descer pela rua indicada. Em sua cabeça vai reconstituindo tudo o que aconteceu naquela manhã. Rapidamente o rostinho aflito de Dona Maria Leontina forma-se em sua mente. Quanta desumanidade, quantos seres miseráveis, desprezíveis... De repente, toda aquela aflição reprimida, aquele pavor que sentiu quando achou que não conseguiria ajuda, toda a insegurança de procurar em lugares que não conhecia, sem perceber, Olga desata a chorar. Um choro convulsivo, sem controle, raivoso. As pessoas que passam por ela procuram se desviar, preservam certa distância. Os soluços podem ser ouvidos de longe, e Olga caminha vagarosamente...
         Quando chega à banca de revistas, segue em direção à passarela sinuosa. Ao longo do percurso, acomodadas rente aos muros de proteção, várias pessoas deitadas, abrigadas sob caixas de papelão abertas, andarilhos descalços, enrolados em cobertas molhadas. Tudo triste...
         Finalmente está em frente ao prédio do escritório do plano de saúde. Olga retira os óculos, enxuga os olhos com a manga da blusa, recoloca os óculos ainda embaçados e vai ao balcão de atendimento. É preciso deixar a carteira de identidade ali na portaria, tirar uma fotografia no computador, e então, fica liberada para subir pelo elevador.
         A sala de espera está repleta. A maioria, idosos. Olga retira a senha e procura uma cadeira desocupada. Acomoda-se. Olha novamente a pasta transparente. Vê o nome da mãe, a data e o horário do óbito, a causa mortis. E novamente o rosto de Dona Maria Leontina aparece em seus pensamentos. Como estará? Será que recebeu atendimento médico? Será que os policiais a trataram bem? E chora... Um choro calmo, silencioso, cheio de indignação.
         Olga fica sentada ali por mais de duas horas. Repensa a vida. E chora baixinho. Quando o atendente chama pelo seu número, sobressalta-se. Estava longe. Dirige-se ao guichê com os olhos molhados, retira os papéis da pasta e os passa ao funcionário.
         - Sou associada ao plano de saúde há muito tempo, e com o falecimento da minha mãe, preciso que você faça a exclusão dela como minha dependente. Tentei resolver isso por telefone, mas como não deu certo, fui orientada a comparecer aqui, pessoalmente, munida dos documentos que aí estão. – fala Olga.
         O atendente, sem dizer absolutamente nada, verifica os papéis, um a um, refaz o procedimento. Depois de analisar tudo pela terceira vez, sob o olhar apreensivo de Olga, diz:
         - Sinto muito, minha senhora, mas o atestado de óbito não está autenticado. É impossível excluir a sua dependente desta maneira!
         Olga pensa não ter entendido, e pergunta:
         - Como? Não é possível fazer a exclusão?
         - Isso mesmo! A senhora precisa apresentar cópia autenticada do atestado de óbito da sua mãe. – responde o atendente.
         Olga coloca-se de pé, afasta a cadeira com as pernas, e com voz alterada fala:
         - Meu senhor, por favor, aí estão todos os documentos que comprovam a morte da minha mãe. O senhor pode ver que há o atestado original expedido pelo hospital comprovando a morte, a data, o horário, há a autorização para o sepultamento, e quando eu liguei aqui, apenas foi solicitado que eu apresentasse a cópia do atestado de óbito, nada foi dito sobre autenticação. – esbraveja Olga.
         - Eu sinto muito, minha senhora! – completa o atendente.
         - Sente nada! O senhor não sente nada! O senhor é como todos os outros. O senhor não se abala com nada, os problemas dos outros não mudam a sua rotina! Não sei de que maneira, mas a exclusão da minha mãe vai ser feita hoje! – grita Olga.
         - Senhora, infelizmente a exclusão não vai ser feita agora. Fica na dependência do atestado de óbito autenticado. Quando for apresentado, ela será excluída. – diz o atendente, com veemência.
         Olga fica ensandecida. Esmurra a mesa, chuta a cadeira, joga o guarda-chuva em direção da janela de vidro, estilhaçando-a. Grita, chora. Passa a mão no teclado sobre a mesa, agarra-o e o arremessa contra o armário, empurra o computador com tamanha força que ele se espatifa no chão, e o atendente, apavorado, esconde-se ao lado do armário, fica recostado à parede.
Aquela foi a gota d’água para dar vazão a tudo.
         As pessoas que aguardavam o atendimento estão todas procurando a saída, numa correria infernal, quando Olga sente as mãos fortes de dois seguranças apertando-lhe os braços, e mesmo assim ela esperneia, bate com a cabeça nos ombros dos seguranças, tenta mordê-los, e faz tudo isso aos berros. Grita e chora sem parar.
         De repente, sente uma picada no braço e tudo começa a ficar embaralhado. Olga não consegue mais falar, não controla mais a boca, a língua fica grossa, as pernas afrouxam-se, as pessoas cada vez mais distantes, pequeninas...
         E tudo sumiu.


Regina Ruth Rincon Caires


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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

O vira-casaca - um conto de Juliana Berlim




                      O vira-casaca


      Eduardo andava estranho. Até então, seguia a cartilha da tradição familiar: gostava de estudar, mas não o bastante para parecer um otário; derrubava ampolas de cerveja com gosto, já ostentando um pequeno abdômen alcoólico; trocava tudo por mulher, menos futebol, porque a gorducha com a rapaziada era de lei; dirigia em alta velocidade seu carro, já que impressionar a gata com a potência do motor era vantagem; comia carne como um ogro nos churrascos da família, e se peidasse, a culpa era sempre do Caramelo, o vira-lata da casa. Um garoto exemplar, a quem as tias entupiam de presentes no Natal e as avós o ano todo, enchendo o tanque do carro e da moto dada pelo tio Pedro. Ia tudo bem no curso de Administração da universidade particular, até o dia em que o rapaz comunica ter pedido remanejamento de matrícula para a UERJ.
A notícia parou o churrasco da família. Tio Emilio olhou por cima dos óculos:
       – Não é a universidade dos cotistas?
       – É sim, meu tio – respondeu Eduardo.
      – Eles fazem cair o nível do ensino – disse o tio, do alto dos seus quarenta anos de Ensino Médio incompleto.
       – Foi uma sugestão do Júlio, tio Emilio.
      O ódio lambeu o quintal e caiu no colo do Júlio, o menino-prodígio. Ninguém gostava daquele moleque de nariz arrebitado, óculos de aro vermelho e cinco idiomas no currículo. A mãe separada o tinha criado para ser brilhante e o rapaz superara as expectativas: era um gênio. Eleonora não cansava de repetir que o filho faria um ano de intercâmbio na Itália com todas as despesas pagas pela universidade de lá. Universidade pública na Europa ok, não era essa balbúrdia como é no Brasil, em que o pessoal, principalmente o dos cursos de Humanas, só quer saber de fumar maconha, fazer rodas pelados em volta de fogueira e caçar piolho no cu dos outros, como naquela peça dos macaquinhos. Ninguém na família antes de Júlio e agora Eduardo jamais havia pisado em um chão de universidade pública, mas a verdade sobre estes antros do pecado chega onde tem de chegar, seja via Telegramm, seja via WhatsApp. Nem adianta ouvir os professores e estudantes desses lugares, favorecidos pelo esqueminha de regalias de sempre, muito menos a mídia tradicional, puro lixo. Tem é de combater a ideologia de gênero e o consenso na família era que esse moleque Júlio era viado. Quem faz Arquitetura em sã consciência? Pessoas normais fazem Direito. Ele estudava as pirâmides do Egito na UFRJ e tinha uma namorada pintora da Belas-Artes, uma garota sempre coberta de tinta e com uns amigos hippies – maconheiros, é claro. O que Júlio e “sua gatinha” faziam à noite era motivo de piada, entrar na caverninha é que ele não vai, diziam os tios em roda. Mas agora Eduardinho, o quindim da família, tinha seguido os passos do primo de gosto duvidoso e entrado na UERJ – alerta vermelho no peito varonil dos Araújo. Tio Pauleta logo gritou: calma gente, o Dudu não faz curso de boiola. Houve uma gargalhada geral, que se espalhou como um ola de estádio pela casa, e o alívio da tensão fez com que todos voltassem às cervejas e à macarronese.
      Três meses de UERJ e Eduardo apareceu com uma camisa de estampa floral no aniversário do primo Paulinho, filho de Pauleta. A roupa foi um choque, mas o comportamento do rapaz foi aos poucos se acentuando no comunismo. Agora ele defendia cotistas, percebia inconsistências nas verbas públicas destinadas à Educação, marcava museu com Júlio depois do futebol; mas a gota d ́água foi a defesa do uso medicinal da maconha.
       – Você já fumou esta erva do diabo, meu filho? – perguntou o pai, consternado.
       – Meu pai, admito que sim – respondeu firme Eduardo.
       – Filho, você se tornou um eleitor do PSOL! – disse o pai tremendo.
     Seu Armando decidiu comprar uma arma. Ia atirar bem no meio da cara de bicha do Júlio, mas constatou que seu saldo na conta e suas economias não davam para pagar nem o valor pedido pelo bandido local por um .38. Decidiu fazer um empréstimo no banco: na sua casa, o sangue jamais seria vermelho. Ainda na fila de espera de atendimento do banco, a esposa liga: Eduardo tinha terminado com a Simone, uma loura estonteante, para ficar com uma pretinha invocada e despenteada, segundo a mãe. O mundo de Armando caiu: se tivesse de atirar em alguém, teria de ser em si mesmo e no filho. O esquerdismo tinha destruído sua família. Chegou à casa faminto e sem dinheiro para matar, por não poder fazer mais um consignado. Seu garoto, melhor dizendo, ex-garoto, comia um hambúrguer de aspecto ótimo. Eduardo empurra uma embalagem em direção ao pai.
     – Experimenta, é a família da Zuzu (a nova namorada) quem faz. Os hambúrgueres levam nomes de cantores. Estou comendo o Roberto Carlos. O seu é o Oswaldo Montenegro. O pai comeu o lanche com vontade, mas, depois de duas mordidas, o largou em cima da mesa.
      – Eduardo, meu filho, esse hambúrguer é orgânico?
     – Sim, e pequeno, porque se provar muito, enjoa – respondeu o filho, com seu lanche descongelado só em dezembro.


A imagem pode conter: 4 pessoas, pessoas sorrindo, atividades ao ar livre 




 





quarta-feira, 16 de outubro de 2019

ENTRE



Entre. A porta está só encostada. Não deixei aberta porque preciso
de um resquício de decência — foi assim que aprendi sobre o pudor. 
Algum afastamento mínimo entre mim e esses seus olhos de incêndio
e essas suas mãos que mapeiam e essa sua mente descarada. 
Um de nós há de ser entrega reticente. 
Entre. Limpe os pés no tapete da porta. Não quero pegadas de lama 
no chão recém-encerado. E não fique parado na soleira, essa palavra 
imponente que eu vinha guardando para dizer em alguma ocasião 
especial. Hoje é especial. Você esta à porta. Acabaram-se as danças 
de talvez. Vamos finalmente ser. Nos tornar. Explodir. Mesmo que não 
saibamos bem o que essa plenitude de ânsias fará com o sentimento. 
É o preço. 
Pressa. De converter pelo delírio os segundos, os milímetros que nos 
separam ainda em corpo e corpo. De banir a permissão do recuo.
De ser pecado. Esse contrato original firmado por todas as carnes que
arquejam. 
De ser consentimento. Esse cimento de infernos.






quarta-feira, 9 de outubro de 2019

A Escalada



Ainda a escalada ia a menos de meio e já se sentia esgotado. O suor escorria-lhe pelo rosto de rugas cavadas e a camisa fresca que vestira de propósito para a ocasião mais parecia um farrapo agarrado ao corpo. O coração batia-lhe desordenadamente e sentia tonturas e a vista nublada. A respiração arfante e difícil ecoava pelas vizinhanças, mais parecendo um concerto dos bombos lá da aldeia.
Meio atordoado estendeu os braços até encontrar apoio e devagar e muito cuidadosamente deixou-se escorregar para o chão, onde se sentou, aliviado. Talvez fosse melhor fazer uma pausa, embora já estivesse bastante atrasado. Por este andar não seria tão cedo que chegaria ao cume. Mas seria bem pior se lhe desse um ataque ou algo do género e para ali ficasse abandonado, sabe-se lá por quanto tempo.
Ao fim de alguns minutos conseguiu regularizar a respiração e acalmar um pouco o coração. Talvez a mulher tivesse razão e 70 e muitos anos fossem demasiados para tais aventuras. Mas estava decidido a terminar a escalada, nem que levasse o resto do dia.
Com algum esforço conseguiu retirar das costas a pequena mochila onde enfiara alguns artigos que lhe pudessem ser úteis. Abriu-a e, depois de muito remexer e descartar duas garrafitas vazias, lá conseguiu encontrar uma cheia. Sofregamente bebeu pelo gargalo, entornando um pouco sobre a já encharcada camisa na sua ânsia de matar a sede. Só se deu por satisfeito depois de a esvaziar.
Recostando-se um pouco ficou a gozar a tão merecida pausa. Com o cansaço veio a sonolência e para ali ficou a cabecear, numa posição cada vez mais incómoda. Despertou com um sobressalto, sentindo-se gelado. A camisa secara no corpo dando-lhe uma sensação de frio intenso. Há quanto tempo estaria ali? Depois de procurar os óculos, que afinal estavam suspensos do peito mas muito sujos, conseguiu consultar o relógio. Perdera quase três quartos de hora!
Pôs-se de pé num salto e quase ia caindo ao escorregar na garrafa que esvaziara. Não deveria ter bebido tanto. De manhã enfiara na mochila quatro pequenas garrafas de água e três já lá iam. A este ritmo não teria o suficiente para o resto da escalada. Teria de ser mais comedido durante o resto do percurso.
Com um gemido de dor tentou voltar a pôr a mochila às costas. Mas o melhor que conseguiu foi deixá-la pendurada de um dos ombros, a bater-lhe na anca. Paciência! Era mais incómodo mas não conseguia retorcer-se o suficiente para corrigir essa posição.  Teria de aguentar assim.
Fazendo um esforço retomou a marcha, mas a passo moderado. A subida era íngreme e as mudanças de sentido que era forçado a fazer não ajudavam. Enquanto trepava tentava decidir se as zonas planas eram uma ajuda, permitindo uma breve pausa, ou uma dificuldade acrescida, obrigando a novo posicionamento dos músculos das pernas. Nunca resolvera satisfatoriamente este ponto. Umas vezes inclinava-se para um dos lados, outras vezes para o outro.
Foi com satisfação que viu passar a marca do meio caminho. Sempre tivera tendência para o “copo meio cheio”, por isso concentrou-se na ideia de que metade já estava feita. Uma vozinha lá no fundo da consciência bem tentou insinuar-lhe que ainda faltava a outra metade mas foi prontamente abafada.
Durante algum tempo subiu a um bom ritmo, atendendo à sua idade e falta de preparação física. Foi com desgosto e indignação que notou a presença de lixo aqui e ali, papéis, latas de refrigerante vazias, pontas de cigarro e coisas não identificadas mas que deitavam um cheiro intenso e repugnante. Era uma pena que as pessoas se preocupassem tão pouco com a preservação do ambiente onde viviam ou por onde passavam. Nada custava levar consigo um pequeno saco plástico, que bem dobrado cabia em qualquer bolso, onde deitar o lixo até o poder depositar no recipiente apropriado. Bem gostaria de apanhar estes vândalos à mão!
A pensar no que lhes diria e faria até se esquecia do esforço da escalada. Parecia ter encontrado o ritmo certo, embora de vez em quando os pés escorregassem numa irregularidade ou falha em que não reparara. Mas tudo estava a ir com suavidade e sem cansaço excessivo. Até parecia que criara novas forças com a breve soneca da última paragem!
Estava quase a chegar aos três quartos do percurso, mais coisa menos coisa, quando ficou numa quase total escuridão. O acontecimento não era totalmente inesperado e até se precavera com uma pequena lanterna para esta eventualidade. O pior era encontrá-la dentro da confusão da mochila, usando só o tacto. Da próxima vez tinha de planear melhor as coisas, colocando os artigos de emergência num local de fácil acesso. Do que precisava era de uma nova mochila, daquelas de desporto cheias de bolsas e bolsinhas, onde podia arrumar de tudo. O pior era o custo.
Tinha deixado cair metade dos objectos que transportava quando a encontrou. O feixe luminoso não era muito forte, mas sempre dava para ver um pouco melhor. Com muito esforço e gemidos baixou-se para apanhar o que deixara cair, voltando a enfiar a tralha toda dentro da mochila de qualquer maneira. Distraído, até apanhou duas latas vazias e amachucadas que para ali estavam e que definitivamente não lhe pertenciam.
Quando já estava pronto apontou a lanterna para o chão e continuou a subir, verificando bem onde punha os pés. Uma queda podia ser fatal, sobretudo por estar sozinho. Mas estava com pressa de sair da zona de fraca visibilidade pois nunca gostara da escuridão e ainda menos desde que fora assaltado à noitinha junto à abertura de um beco escuro. Desde então gostava de muita luz à sua volta, caso contrário sentia-se inquieto e assustado, olhando constantemente em seu redor.
Quando se viu de novo na claridade deu um suspiro de alívio e decidiu fazer nova pausa para beber a última garrafa de água. Tinha a boca seca, não sabia se do esforço se do medo dos últimos minutos. Já faltava pouco para o topo e quanto menos peso transportasse melhor. Decidiu também comer um pouco do chocolate que levava, para energia rápida, dissera, por gulodice pura, insinuara a mulher. Era delicioso, embora estivesse meio derretido pelo calor e com um aspecto pouco convidativo. A água é que soube a pouco!
Foi de forças retemperadas e ânimo renovado que se meteu novamente a caminho, disposto a percorrer a última etapa de uma só vez. Fazia-se tarde e quanto mais depressa chegasse, melhor. Tentou acelerar o ritmo mas ao ver que recomeçava a arfar abrandou um pouco. Se tivesse de parar com falta de ar o atraso seria ainda maior.
Passo a passo lá foi trepando, evitando olhar para cima com medo de se assustar se verificasse quanto lhe faltava ainda. Com os olhos no chão podia concentrar-se em manter o ritmo, contando os passos de um a dez e voltando ao princípio. Era um truque que há muito utilizava quando tinha um longo caminho a percorrer e estava estafado. A contagem tinha um efeito quase hipnótico, limpando-lhe as ideias do espírito e adormecendo-lhe a mente.
Foi, por isso, uma surpresa descobrir que atingira o topo. Embora totalmente estoirado não deixou de sentir uma enorme satisfação. Conseguira! Vencera a escalada que se propusera fazer! Estafado ou não, era um vencedor!
Deixou-se ficar por ali uns momentos tentando descansar um pouco. Mas já era tarde e a mulher estava à espera. Chamou, por isso, o elevador para descer os 20 andares até ao rés-do-chão onde morava.
O Sr. Gomes levava muito a sério a campanha do “Vá para fora... cá dentro”!

Luísa Lopes