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domingo, 20 de maio de 2018

A SENHORA DOS SOLITÁRIOS

- Senhora, o Dr. Marcondes avisou que não vem para o jantar.
Ana Beth levantou a sobrancelha esquerda, sem tirar os olhos da mesa desabitada 
dos filhos crescidos e de um marido cada vez mais abduzido pelo mundo dos negócios. 
Sinalizou em silêncio para que a sopa pudesse ser servida.
                                                                                   
- Senhora, seu sexto sentido não falhou: aqui está a prova de que seu marido tem uma amante.
Ana Beth examinou as fotos entregues por um detetive particular. Marcondes chegava de táxi 
à porta de um hotel no centro da cidade, acompanhado de uma loura com idade de ser sua filha. 
Na sequência, andavam de mãos dadas em direção à portaria. Ela ainda para e dá uma ajeitadinha 
na sandália de salto. Moça fina, disse o detetive.                                           

- Senhora, aqui estão mais detalhes do affair.
O detetive expõe minúcias da investigação. Marcondes e a loura encontravam-se uma vez por 
semana neste mesmo lugar. Não se tratava de uma amante alucinante que pudesse
ameaçar o casamento. Era uma garota de programa, universitária de moda, danada de
bonitinha e carinha de capa de revista. Só queria se divertir e fazer um negócio: receber sua
parte de quem tem muito em troca de algumas horas semanais de sexo e auto estima a quem
beirava o ocaso da macheza.
                                         
Ana Beth se sentiu apunhalada entre a cervical e as escápulas. De nada adiantaram anos de 
plástica e botox, ginásticas localizadas e spinning, silicones, depilações a laser, bronzeamento 
artificial, luzes e chapinhas. A verdade é que o marido estava prevaricando com uma menina 
bem mais nova e fogosa, com tudo no lugar, de pele macia e peitos naturais. Não caiu na história 
do detetive de que garotas de programa não abalavam casamentos. Para ela, sexo fora de casa, 
com amantes assumidas, ou marafonas, ou casinhos de embriaguez, ou desfrutáveis inconsequentes, ou mesmo bonecas infláveis, era tudo a mesma coisa. Por outro lado, Ana Beth não sabia o que fazer. Chegou a pensar por que diabo procurou um detetive. Não imaginava obedecer a seus ímpetos de mulher traída e sair por aí a se esfregar em tórax malhados de academias, sentindo novos invasores de seu corpo, ouvindo sussurros revigorantes. 

Ana Beth dependia de Marcondes até para mandar a criada comprar pão ali na esquina, numa total sujeição ao provedor da casa, que por sua vez, ao perceber a mulher de cara amarrada – e ser chicoteado por uma culpa algoz -, um dia chegou cedo para o jantar, sem mais nem menos, com um agrado. E que agrado: um solitário da Tiffany´s, encomendado ao seu doleiro contrabandista. Os olhos de Ana Beth se encharcaram, tambores rufaram dentro do peito, as maçãs do rosto formigaram, surgiu um sorriso encabulado. Muito menos pelo gesto, muito menos pelo mimo em si, muito mais pela ideia ardilosa que teve, diante do brilho multifacetado da joia.

- Senhora, só para eu entender a sua proposta: a madame põe um detetive particular na cola do seu marido, descobre que ele anda saindo comigo, consegue meu celular e liga para mim, pedindo pelo amor de Deus para eu manter este caso eternamente. Certo? 
- Perfeito!
- Em troca, sem que ninguém saiba, num acordo de mulher para mulher, a senhora promete depositar na minha conta o mesmo que ele me paga, certo? 
- Certíssimo, menina. Você não é nada boba...
- Ou seja, vou receber em dobro para aturar seu marido babando em cima de mim. É isso? 
- Exatamente, minha filha.
- Por mim, está feito. Sou uma profissional. Mas acho que a senhora é meio maluca.

Um ano depois. 
Ana Beth entra no seu closet e retira do fundo do armário de calcinhas e sutiãs, uma caixa de joias majestosa e aveludada. Como criança diante de um álbum de figurinhas incompleto, admira embevecida sua coleção de mimos mais recentes: diamantes e solitários Tiffany´s, Boucherons, Harry Winstons, Van Cleefs e Cartiers. Escolhe um deles, gosta, não gosta, põe no dedo anelar esquerdo, estica o braço, movimenta a cabeça, franze os lábios, enfim, decide-se. Diante do espelho, leva a mão de unhas bem feitas às têmporas, ajeita os cabelos, gosta da última plástica, sorri enviesada e discreta. Tudo combinando: brincos, anéis, colares e estado de espírito. 
Está se sentindo linda e poderosa. Pronta para sair para jantar com seu marido Marcondes e um casal de amigos. Em grande e perfumado estilo.





quinta-feira, 17 de maio de 2018

O atirador de facas - Poema de Eliza Caetano Alves





O atirador de facas



O atirador age calmo e morno
mesmo o sangue do baço perfurado
mesmo o sorriso de olhos fechados
ganha o jogo quem acertar sem querer


O herói do circo é o atirador de facas
aos olhos da moça pregada na parede
seus olhos tremem


O que ela quer
receber facas pelo corpo
o fio dos dentes do atirador de olhos azuis partindo suas postas.


Era uma vez uma garota na ponte
eram olhos de correnteza que a fitavam lá
de baixo.
Atirador, ela é nas suas mãos
retalhada de olhos fechados
de olhos abertos
fixos em seus olhos de correnteza azul.


Enquanto você gira para atirar
seu sorriso é morno
e seus olhos continuam
correnteza. Suas mãos
e meus olhos são
castanho–escuros.
Enquanto você ganha
meus seios e pele, enquanto,
querido atirador, escrevo
uma carta e mostro
o caminho para suas lâminas
sei que você tentará acertá–la.
Me atire, a garota na ponte,
o sorriso na ponte,
seus olhos de correnteza azul
na ponte.





Do livro O Caderno das inviabilidades, Editora Urutau.







quarta-feira, 16 de maio de 2018

O rato


Nunca tivera um animal de estimação. Nem em criança. Nada de cães, gatos, passarinhos, tartarugas. Por isso se desconheceu naquele desejo desenfreado de ter para si um rato. Bicho feio, cinza, cheio de bigodes sombrios, dentuço. Ele mesmo tinha sido dentuço em criança. Será que... Não, não era isso. Identificou-se com o bicho por outro motivo que não sabia qual. Não importava. Decidiu: queria o rato. Teria o rato. Encurralou o animalzinho num canto, o mais gentilmente que pode, e entre pedidos de desculpa e pedaços de queijo conseguiu prendê-lo numa caixa de sapato em cuja tampa havia feito pequenos furos. Dia seguinte saiu cedo e foi para a loja de animais. Olhou, olhou, mas não comprou a casinha de vidro transparente cheia de buracos simétricos para entrar o ar. Pensou na quantidade de luz e calor que o material iria concentrar e teve pena do bicho. Claridade demais para um ser das sombras. Deixou o pequeno dentro da caixa mesmo e começou a alimentá-lo com tudo o que imaginou que um roedor pudesse gostar.
A casa improvisada foi instalada em cima da cômoda do seu quarto. A cada três dias, ele removia o animal para outra caixa, nova e limpa. Era a única ocasião em que se viam. Cara a cara. Cara a focinho. E ele confessou a si mesmo que já amava Carrapato. O nome caíra bem. A intimidade caíra bem. Na verdade, era ele quem não desgrudava do animal, mas gostava de pensar que a recíproca era um fato. O bichinho precisa de cuidados, de um lar melhor — finalmente se convenceu. — Amanhã eu vou ver isso. Levou o rato ao veterinário na manhã seguinte, evitando os olhares surpresos da maioria dos clientes.

Não, ratos não tomam vacina. A gente pode fazer uns exames de sangue para investigar a saúde dela, disse o doutor. É uma fêmea.

Saiu de lá carregando, finalmente, a casa de vidro de dois andares e rezando para que o exame de sangue não acusasse nada. Mesmo sem saber por quê, sentiu-se desconfortável com a notícia de que Carrapato era uma fêmea. 
O animal pareceu ficar feliz com a nova casa. Adaptou-se logo ao novo lar e em pouco tempo já dava voltas na escadinha circular colocada no segundo piso. Ele teve certeza de que havia feito a coisa certa. Agora, podia enxergar o bicho comendo, bebendo, brincando, dormindo. Companhia dia e noite.
Nunca se dera bem com gente, essa massa complicada e cheia de humores e vontades e dissimulações e maldades. Definitivamente, as pessoas o assustavam. Não que elas prestassem atenção nele. Nem o notavam. Mas era a mera possibilidade de um dia o notarem que o apavorava. A cada vez que um olhar mais prolongado cruzava com o seu na rua, no mercado, no ponto de ônibus, sentia os pelos dos braços e das pernas se eriçando como se tivesse levado um choque. Deixava de pegar um ônibus, virava uma esquina antes do quarteirão de casa, desistia de comprar leite e pão, mas fugia, assustado, para bem longe daqueles olhares pousados. Por isso, preferia a noite. A ausência da luz enjoada do sol o acalmava e confirmava a invisibilidade que escolhera para si. Quando o breu tomava o céu, abria as janelas de casa e se sentava no jardim iluminado por apenas duas lâmpadas instaladas no chão. Às vezes cuidava das flores, que plantara num desenho ousado, e da pequena horta doméstica onde algumas verduras brotavam bem cuidadas. A pouca iluminação permitia que sombras engraçadas, agigantadas fossem projetadas na parede branca da fachada da casa e nos muros altos que faziam limite com a esquina da rua, à esquerda, e com a casa de um vizinho, à direita.
Naquela noite, sentou-se ao sereno e colocou ao seu lado, sobre um banco alto, a casa de vidro. Primeiro, Carrapato agitou-se. Mas, de repente, ficou muito quieta, como se a noite a tivesse acalmado. Ou não. Assustado, ele achou que o animal poderia estar passando mal. Abriu a porta da casinha, ansioso, e pegou bichinho, segurando-o bem em frente ao rosto. Viu os olhos brilhantes, maliciosos, quase ao mesmo tempo em que levou a mordida. Não gritou. A dor maior foi por dentro. Dor de mágoa, de surpresa. Soltando o animal, levou a mão rapidamente ao rosto. Sangrava no nariz, onde os dentes afiados tinham se fincado. Carrapato aproveitou o momento e fugiu. Desconsolado, desorientado, sofrendo, ele não sabia se procurava o bicho ou se cuidava de si mesmo, prática incomum. Relutou por mais de uma hora até perceber, pelo tamanho do inchaço, que teria que ir a um hospital.

O que houve?, perguntou a enfermeira na triagem. Mordida de rato, ele respondeu acabrunhado. Capturou o animal?

Capturar? Não, ele não sabia onde Carrapato estava. Queria saber. Mas não seria naquela noite. Sob o efeito das injeções que precisou tomar, dormiu um sono pesado. Pela manhã, acordou cheio de culpa. Eu devia ter procurado por ela ontem mesmo!, se recriminou, sem perceber que chamou Carrapato de “ela” pela primeira vez. Vasculhou todo o jardim, procurou nos bueiros perto de casa, nas latas de lixo, mas nada. Depois de muito tempo, exausto, convenceu-se de que o bicho tinha ido embora. Resignado, e mais pela saudade que pelo hábito, limpou o bebedouro, o comedouro e trocou o forro daquele latifúndio de dois andares.
O nariz ficou curado. A crença nos bichos, nunca mais. Nocauteado pelo que acreditava ser uma grande ingratidão, deixou de comer, de beber, de tomar banho. Evitou o sol, a luz das lâmpadas e mesmo os espelhos. Abandonou as noites de sereno, as flores e as verduras. E se convenceu de que os animais eram exatamente como os homens, desprezíveis, egoístas, maus. Sem vontade de pensar ou de sentir mais nada, encolheu-se na cama imunda de cheiros e fluidos, até que primeiro morreu, depois deixou de respirar.
No quintal apagado, sem sombras na parede, dois olhos curiosos brilharam na entrada da casa de vidro abandonada, e um focinho de bigodes sombrios cheirou insistentemente o ar, procurando por algo. Do lado de dentro, escondidos num ninho bem construído no segundo andar, oito filhotes amontoados abraçavam-se no sono dos recém-nascidos.





quarta-feira, 25 de abril de 2018

Um gesto ou dois



O homem tinha a cara enrugada, poucos dentes e um aspeto decrépito. Teria bem mais de 70 anos e adivinhava-se-lhe já pouco préstimo para o trabalho do campo. O patrão contratou-o por um misto de piedade e oportunidade. Chegou ao monte para guardar o “vazio”, isto é, o pequeno rebanho de carneiros e de outros ovinos que não estavam “cheios” prenhes , mas também ajudava em inúmeras outras tarefas da horta e da casa. Havia sempre lenha para cortar e água para acartar.
Era por meados da década de 50. O contrato era de 100 escudos por mês e “de comer”. Ficou a dormir num catre no palheiro e arranjou-se-lhe uma mesinha onde comer logo à esquerda da porta de entrada, separada do lume pelo monte de lenha. Os patrões e o filho pequeno comiam a dois metros dele, numa mesinha igualmente pequena e sentados em bancos rasteiros. Os dois cães de caça andavam sempre por ali, à espera que algo caísse da mesa.
A casa dos patrões era ampla e contígua ao palheiro. No verão, enchia-se de moscas, devido à proximidade com os animais, e também não faltavam pulgas. Só tinha a estrutura interna em taipa de dois quartos e um “peneirador” onde também se guardavam a masseira, a salgadeira, a bilha do azeite, a talha das azeitonas e duas arcas. Por cima deste conjunto, um sobrado onde se espalhavam as batatas e as cebolas para o ano inteiro. O resto era espaço amplo de telha vã, com um grande arcaz, o pote da água de usos de cozinha, uma cantareira com uma bilha de água de beber, e uma mesa enorme, só usada quando era preciso sentar muita gente numa matança do porco. O lume era feito num canto, no chão, onde se cozinhavam as refeições em panelas de ferro, e o fumo escoava-se pelas telhas. À noite, além do lume, só tremeluzia a chama de um candeeiro a petróleo, que se perdia na vastidão da casa.
Os tempos eram outros. Não havia eufemismos — empregados, trabalhadores agrícolas, assalariados —, só patrões e criados. A penúria dos agricultores rendeiros era quase tão grande como a dos criados, e não só na Beira Baixa. No entanto, vincavam bem as diferenças. Por isso o ti Mné Lucas — como o chamavam — sentava-se a uma mesa separada da dos patrões. E comia pão centeio. E dormia no palheiro.
A situação era “natural”, mas, de qualquer modo, o velhote estava por tudo. Nunca reclamava, nunca se queixava, nunca pedia nada; aceitava o que lhe davam ou o que achasse natural apanhar: figos, maçãs, ameixas. Certa vez, ralharam com ele, por ter apanhado mais de dois quilos de “lenticão”, a cravagem do centeio, vendido para remédios, e que rendia bom dinheiro. E foi motivo de galhofa quando uma vez pediu um martelo para bater um prego nas decrépitas botas de sola de borracha, remediadas com pregos. Um andava a entrar-lhe na carne.
Para o miúdo da casa, um catraio de seis ou sete anos, a chegada de um velhote carcomido, mas simpático, prometia animar o ramerrame campestre. Sentiu curiosidade, alegria, carinho. Certa vez, pediu mesmo aos pais que o deixassem acompanhá-lo no seu percurso matinal com o rebanho. Foi uma longa e monótona caminhada pelas encostas circundantes, mas o velhote acabou por animar o garoto ao construir um pequeno redil de brincar com muros de pedrinhas, e cancelas feitas de pauzinhos. Quando chegou a hora de comer, partilharam ambos o pão centeio dele, com algum conduto — certamente azeitonas, talvez queijo —, e ainda hoje o rapazito gosta da côdea queimada do pão centeio.
A rotina de saídas dos patrões era irem à terra de quinze em quinze dias, a uns doze quilómetros, onde a patroa tinha a mãe e duas irmãs, mesmo do outro lado da rua. Até aos sete anos do garoto, iam os três na garupa da égua: o pai escarranchado, a mãe sentada de lado, atrás dele, e o miúdo ao colo da mãe, de pernas penduradas. Depois, já iam de carroça, sempre com carga extra de trigo para moer, ovos para vender, e outras cargas circunstanciais.
Nunca passavam o natal no campo. Não faziam festa ou ceia especial de natal, mas era uma data que nunca falhavam na terra. Exceto daquela vez: havia um assunto que o patrão não quis deixar entregue a outros, talvez uma vaca a parir por aqueles dias. Portanto, ficaram todos no monte. E nem avisaram ninguém, porque para isso era preciso ir até à terra mais próxima, a três quilómetros, e enviar uma carta. Não valia a pena; quando se fizesse dez ou onze da noite, os familiares certamente suspeitariam que tinha acontecido um dos inúmeros inesperados que aconteciam na vida do campo e descansariam.
A ceia desse natal foi como a de muitas outras noites: batatas cozidas com couves, acompanhadas com uma fatia de toucinho, rodelas de farinheira e morcela. A única diferença foi que, apesar de não se fazer habitualmente qualquer ceia especial, todos sabiam que era noite de natal, até porque nesse dia a patroa tinha amassado as filhós e tinham estado a fritá-las na caldeira de cobre antes da ceia. E havia um certo sentimento de complacência no ar. A patroa murmurou qualquer coisa para o patrão, este meditou uns segundos e chamou:
Ó ti Manel, hoje é noite de natal. Venha aqui para a nossa mesa!
E pela primeira vez em três ou quatro anos, o ti Mné Lucas foi comensal dos patrões. A princípio, não se falou muito mais do que nas outras noites, mas o ambiente era afetuoso e no fim comeram-se filhós à roda do lume. Nessa noite, para além de algumas histórias já conhecidas, o ti Manel contou como acontecera o seu casamento: era marujo embarcado e, certa vez, ao atracar em Lisboa, soube por um conterrâneo que a sua noiva estava para casar com outro. Meteu-se logo no comboio a caminho da terra, “pôs tudo em pratos limpos” e casou ele com ela. Sentia-se-lhe na voz um misto de alegria pela evocação de um episódio tão especial, e uma nostalgia de tempos desaparecidos. Quando, pouco depois, se foram deitar, todos levavam um aconchego de alma inusitado.
No dia seguinte, o almoço foi guisado de batatas com um coelho bravo que o patrão caçou nessa manhã. O ti Mné Lucas não estava presente, porque andava com o rebanho, mas, à noite, quando chegou ao lugar habitual, atrás da porta, foi mimado com um pouco do guisado do almoço. Ainda antes de se sentar, meteu a mão num dos bolsos do casacão remendado e amarrotado que usava, tirou uma pequena escultura de uma ovelha, talhada à navalha num tronquinho de giesta, e estendeu-a ao deslumbrado miúdo.
Andava o rapaz já pelos quinze anos, quando o pai, na expectativa de uma vida menos áspera como operário fabril, decidiu desistir da lavoura, deixar os vários arrendamentos, vender rebanhos, vacas e o carro de bois e abalarem todos para a aldeia. Nunca mais viram o ti Mné Lucas. Parece que tencionava ir ter com uma filha a Lisboa. Souberam que morreu talvez um ano ou dois depois.
Passaram entretanto muitos anos, quase todos os protagonistas desta história já morreram, mas a criança de então mantém um especial carinho por ela e pela pequena escultura. Ainda hoje a guarda e de vez em quando gosta de a ter exposta. Mesmo agora estará a contemplá-la, ali na segunda prateleira da estante.

Joaquim Bispo

*
Imagem: Julien Dupré (1851–1910), O pastor e o seu cão.

* * *





domingo, 22 de abril de 2018

Suor de Bunda


Não lavo as mãos quando vou ao banheiro, revelou Ignácio, em tom de confidência, a Lionel, colega de repartição. Um erro, diria do ato nas semanas posteriores, pois Lionel, até então discreto, propalou tal confidência a mundos e fundos, acrescendo falsos detalhes para dar à história melhor graça: as mãos dele têm fungos, perdeu um dos testículos num surto de gonorreia, nem no banho as limpava. Tudo isso inventou Lionel, rancoroso sabe-se lá por quê, e malgrado Inácio repreendesse-se por ter confiado a ele uma de suas íntimas peculiaridades, terminou não apenas aceitando tamanha indiscrição, mas entendendo-a como fundamental às suas aspirações, dir-se-ia um alerta da grande latrina universal.

Soube que Lionel entregara seu segredo ao ouvir, dos outros, comentários indiretos acerca de higiene, sobre a importância de se banhar as mãos no lavabo, sobre a proliferação de floras bacteriológicas em dedos e partes do corpo expostas ao ar. Ouvindo essas observações e similares, entendendo e acolhendo suas razões de ser, não confrontou o colega, não deu sinal de consciência, impérvio expondo-se às intempéries; assim deixou seguir a malha dos dias até escutar de Lionel, num evento qualquer, enquanto degustavam bolinhos e discutiam temas casuais, a seguinte pergunta:

Mas então, Ignácio, você lava as mãos quando vai ao banheiro?

Naquele momento calaram-se os presentes, Ignácio tendo certeza da emboscada moral quando em sua direção voltaram-se, ávidos tal qual Hitler ante a fronteira polaca. Todos conspiravam contra ele, todos e o mundo, era o seu raciocínio, e não obstante a raiva atacasse-lhe os nervos, permaneceu calmo e comedido, à indagação respondendo:

Sim, sempre lavo.

Ouviram-se risinhos, galhofas abafadas, e encarando-se os duelistas Lionel também não demonstrou incômodo. Interessante, disse, e a conversa retornou a seu curso ordinário.

No dia posterior Ignácio e Lionel não compareceram à repartição, e apesar de existir animosidade entre eles, e agora esse conveniente elo omissivo, ninguém demonstrou preocupação, considerando tal embate natural ao ambiente de trabalho, falando-se, inclusive, que os mais inocentes e santos faziam da rotina um fardo intolerável. Apesar de Ignácio logo voltar ao departamento, Lionel continuou sumido, não atendendo sequer as ligações e mensagens enviadas, coisa estranha a sua índole. Vai ver ele não lavou as mãos quando no banheiro e morreu em consequência, brincou Flávio nesse mesmo dia em um dos intervalos, cutucando Ignácio com o cotovelo; este, despreparado, engasgou-se e tossiu, nem tanto incomodado pela brincadeira como por sua própria vulnerabilidade à ela. Mas riu, tomando o gracejo por último aviso, o derradeiro, o prenúncio de sua confissão e liberação.

Pois então faltaram Flávio e Ignácio, e nesta mesma tarde investigadores de polícia irromperam edifício adentro. Lionel fora encontrado, explicaram eles, assassinado, seu corpo deposto no esgoto. As mãos, decepadas, ornavam o banheiro da rodoviária pública, fechadas rigor mortis em torno de um bilhete narrando a vida e os sofrimentos de Ignácio, como sempre se sentira e fora desprezado por não lavar as mãos no banheiro, o seu ódio, a promessa de vingança e vítimas, a missiva assinada com sua nova alcunha criminosa: Suor de Bunda.





sábado, 21 de abril de 2018

A Ceia dos Rejeitados


Após um certo período sem escrever e publicar e virtude de uma doença na família, volto pedindo desculpas aos que me leem pelo desaparecimento. Volto com um conto inspirado numa ideia do meu irmão e que, infelizmente, ele não teve tempo de ler. Carlos, onde você estiver, fica a homenagem.

A Ceia dos Rejeitados
Simone cantando a versão de “So This is Christmas”, comércio abarrotado de gado-gente consumista, caixinhas em portarias, a obrigação de participar do amigo oculto no trabalho e uma fingida atmosfera de concórdia impregnando as pessoas. Nada disso me incomodava mais do que passar a noite de Natal junto aos familiares. Conservadores, tementes à ira divina ou mesmo hipócritas, pais, irmãos, tios e sobrinhos sempre questionaram minhas escolhas, desde a iniciante caveira tatuada no braço esquerdo – mais tarde tomado inteiro por dragões, seres mitológicos e monstros de diversas estirpes – a minha opção sexual finalmente assumida há alguns anos quando fui viver com Nanda, minha companheira até hoje.

Juntas, decidimos que passaríamos o natal em casa, na companhia de poucos amigos. Nanda ainda havia questionado se minha saúde, precária nos últimos meses, não atrapalharia nossos planos de anfitriãs. “Quero estar entre àqueles que amo.”, sorri em resposta.
Deixamos o prato principal, o peru de natal, sob responsabilidade de Rogerinho, nosso cabeleireiro de longos anos e chef de cozinha amador. Ele sempre aparecia em nossas reuniões com quitutes, regalos comestíveis e outras guloseimas. Órfão de família viva que o expulsara de casa aos treze anos quando o descobriram nos braços de um vizinho, Rogerinho nos adotara como duas tias quarentonas. Bebidas e complementos à ceia foram rateados entre os outros convidados.
O primeiro a chegar foi Tarso. Veio na companhia de uma quantidade imensa de packs de refrigerantes de variados sabores – Tarso há anos frequentava os alcoólicos anônimos – tudo sustentado pelos braços cuja envergadura fizera sua fama de medalhista olímpico na seleção de vôlei como meio de rede. Ansioso como sempre fora, chegara cedo e sem deixar de reclamar da algazarra dos cachorros presos no quintal sacudindo os trilhos de Santa Teresa. Sofócles, Aristófanes e Ésquilo reagiram assustados, latindo ante a ciclópica figura carregando quatro dúzias de latinhas debaixo dos braços. Abriu o porão e venceu o lance de escadas do nosso sobrado. Após descarregar a carga na cozinha, deixou-se desabar no maior sofá da casa enquanto choramingava:
Aquela puta me largou de vez!
Tive um pouco de dó em ver um gigante chorando feito criança enquanto nos explicava que desta vez o rompimento com a esposa fora definitivo, que ele temia não ver o filho crescer e que não estava ali para sustentar capricho de mulher fresca. “Pelo andar da carruagem, acabaria leiloando minha medalha olímpica!”
Depois, vieram Sascha, Alberto e Miguel, amado trio “Dona-flor e seus dois maridos”. Ricos, bem-apessoados e adeptos do poliamor, escandalizavam o jet-set carioca com aquela união. Trouxeram vinhos maravilhosos.
A cerveja ficou por conta de Adélio, dublê de ator de filmes de estética favela e funkeiro. Com o nome artístico de MC Délio da Perereca, em homenagem à comunidade do mesmo nome, caíra em minhas graças depois de haver assistido a um desses filmes. Desejava encaixá-lo em um projeto de seriado de humor que estava escrevendo para televisão mas que andava hibernando em virtude da minha doença. Família? A dele havia sido destroçada pela violência no Rio. Sobrara um irmão traficante, perigoso e sanguinário, enjaulado em um presídio de segurança máxima. Para o bem da sociedade, passaria o nascimento do Cristo na solitária. Adélio trouxe uma loura oxigenada assemelhada às panicats que ele esquecera de mencionar o nome nas apresentações.
Nanda me alertou sobre a demora de Rogerinho. A febre, minha parceira constante dos últimos meses, se manifestou depois de algumas horas de trégua. Alegando indisposição, pedi para minha companheira encontrá-lo através de uma mensagem de texto ou pelo celular enquanto fiquei a observar o comportamento dos nossos convidados. Tarso, entre um gole e outro de Coca-cola, esculhambava a ex-esposa para Alberto que parecia atento a tudo o que o campeão relatava, visto suas caras e bocas cambiando da indignação à piedade ante cada resmungo. Sacha e Adélio conversavam animadamente, enquanto Miguel por cortesia ciceroneava a loira, que descobrimos se chamar Josiane, pelos cômodos da casa após aquiescência de Nanda que, entrementes, tentava encontrar digitalmente Rogerinho e nossa ceia.
Não sabe da maior! O viado está agora no supermercado comprando a porra do peru! – sussurrou Nanda em meu ouvido. Podia sentir o ódio em seu hálito de menta, mas como estava em tempos de paz e amor e a febre me deixava sem disposição para brigas, pedi que ela relaxasse.
Antes da meia-noite ele chega…
São quase oito horas, Lídia! O cara ainda vai ter que preparar o Peru, arroz, a farofa… A gente devia ter encomendando uma ceia pronta!
E deixar o menino perder a oportunidade de ser gentil?
A gentileza dele parece carecer de responsabilidade.
Mudei de assunto para não me aborrecer em um dia em que desejava harmonia entre os meus amigos. Se quisesse confusão, teria pedido para que Nanda me levasse à casa dos meus pais e suas ideias fundamentalistas, suas indiretas acerca da minha vida, o quase desrespeito com minha enfermidade.
Pensando em escrever uma coisa curta, talvez um conto, para ganhar ritmo.
Já tem o tema?, perguntou Nanda.
Umas ideias passeando pela cabeça, nada definitivo, respondi.
Perto das nove, Rogerinho finalmente apareceu. Tocou ruidosamente o a campainha. ouriçando novamente os rottweilers. Rogerinho detestava interfones.
O Cérbero está preso? - gritou.
Você sempre pergunta isso, meu caro. Já sabemos dos seus conhecimentos rasos de mitologia e da alusão aos três simpáticos cãozinhos de nossas anfitriãs – debochou Alberto surgindo na janela do sobrado cujo pequeno quintal abrigava os cachorros, nossa segurança em um bairro outrora aprazível.
Subiu um tanto invocado pelas provocações de Alberto, mestre nas ironias. Sascha o recebeu com um selinho e Nanda com uma série de impropérios. Miguel tomou os sacos de supermercados que ele tinha em mãos, em especial o mais pesado que abrigava a ave. No sofá, Tarso se lamentava para mim.
Dez anos de casamento com aquela ingrata!
Rogerinho, após leve discussão com Nanda, tratou de iniciar os preparativos para assar o peru. Sascha e Josiane o assessoravam. Alberto, taça de vinho em uma das mãos, duvidava dos dotes culinários do cabeleireiro.
Esse só manja de quitutes e tábuas de frios. Não deveríamos ter confiado tamanha tarefa ao nosso pobre alisador de cabelos crespos – dizia a Miguel que gargalhava em resposta.
Rogerinho não deixava por menos.
Não fode, vértice podre do triângulo!
Em meio a galhofas, burburinhos e a música ambiente, levantei-me ainda um pouco amolecida pela febre e fui à janela onde estava Nanda. Ela afagou meus cabelos e sorriu. O hálito de menta agora exalava ternura.
Está melhor?
Assenti com afeto. Ambas ficamos observando a ladeira de paralelepípedos entrecortada pelos trilhos de um bonde que raramente transitava. Havia um quase deserto de almas. Um mendigo ocupava o outro lado da calçada deitado em seu colchão maltratado pelo tempo. Saberia ele que hoje era véspera de natal?
Não faço a menor ideia, mas a gente manda uma quentinha para ele assim que o Rogerinho conseguir assar o peru.
O cabeleireiro travava naquele momento árdua batalha contra a ave que já estava há algum tempo no forno. Reclamava das instruções na embalagem, achando o tempo de assamento curto. Sascha dava mais palpites que efetivamente ajudava, Josiane preparava a farofa e o arroz enquanto os outros convidados bebiam.
Pela nossa janela passava agora Kátia. Descia de Santa Tereza rumo à Lapa levando seu rebolado dentro do vestido colado e botas de cano alto. Teria ela clientes naquela noite?
Certamente que não. Quem na véspera de natal vai procurar uma garota de programa? Não vai ganhar nem para as passas.
Que maldade, Nanda –, ralhou Adélio enquanto lhe oferecia um copo de cerveja.
Ficamos os três a conversar. Passaram dois policiais em sua ronda noturna e ao fundo ouvia-se o ruído incômodo de um caminhão de lixo. Para alguns trabalhadores e desfortunados aquela noite se descortinava como outra qualquer. Despertados pelo barulho, Sofócles, Aristófanes e Ésquilo novamente latiram. Nanda achou que era hora de soltar as feras no quintal. O bairro andava inseguro ultimamente. Desceu para cumprir a tarefa.
Finalmente, por volta das onze horas, o peru ficou pronto. Orgulhoso, Rogerinho exibia o assado em uma bandeja como fosse a cabeça de um Sansão. Batemos palmas, Adélio a comparou com um avestruz, dado o seu tamanho, eu o batizei por Fênix aludindo à minha esperada cura que representaria um renascimento, Alberto preferiu apelidar nossa janta de uma Ave do Estínfalo, perigosa e, consequentemente, intragável. Josiane e Adélio esculpiram interrogações em suas faces em sinal da suas ignorâncias acerca de mitologia grega. Rogerinho, que só conhecia o mito do Cérbero, também não entendeu a chacota. Os outros riram, com exceção de Tarso que ainda pensava na ingratidão da ex-mulher.
Tomado pelo clima festivo, Rogerinho exagerou em suas já clássicas presepadas e começou a bailar pela sala equilibrando a bandeja. Em um dos seus rodopios o pior aconteceu: um tropeço na borda de um tapete e o peru ganhou vida, voando em direção à janela. Tarso, que estava sentado próximo, ainda tentou um dos bloqueios que o deixaram famoso mas conseguiu tão somente interceptar a bandeja. Fênix foi espatifar-se no quintal e sob nossos olhares incrédulos que lotaram o quadrado da janela vimos a ave ser destroçada pelas mordidas dos rottweilers. Foi um espetáculo digno de uma arena da antiguidade. Em parcos minutos o peru desapareceu entre as dentadas de Sófocles, Aristófanes e Ésquilo que, terminada a refeição, olharam para cima num misto de agradecimento e quero mais.
Nanda, ariana típica, tentou, a exemplo dos cães, estraçalhar Rogerinho. Foi contida por Miguel e Tarso. Os outros convidados entreolhavam-se atônitos ante o acontecimento. Rogerinho chorava, implorando desculpas. A fúria de Nanda estancou e aos poucos, o ambiente foi serenando e o processo de decantação de emoções deixou apenas uma atmosfera decepcionante. “E agora?”. A pergunta coletiva ecoou por toda a sala.
Pensei alguns segundos. Não desejava que a noite natalina tão aguardada tivesse um desfecho infeliz. Eu era uma roteirista, uma especialista em tramas intrincadas e, por que não, finais felizes. Espremi toda a minha criatividade e a solução, simplória veio de imediato. Disse que iria descansar poucos minutos no quarto. Todos assentiram com suas caras de velório. Nanda quis me acompanhar, creditando minha retirada da sala aos eventos desagradáveis da noite. Tranquilizei-a com um beijo na boca e fechei a porta. Minutos depois, retornei sorrindo.
Tudo resolvido. Nada de perguntas e confiem. Ânimo, gente! Afinal, não estamos em uma festa?
Aos poucos a normalidade, ainda que desconfiada devido as minhas palavras, se reestabeleceu. Rogerinho servia bebidas, Alberto servia sarcasmo. Um grupo conversava sobre arte literatura, outro malhava o governo. Tarso olhava o vazio abrigando um copo de refrigerante na manopla direita. Sentada ao lado de Nanda, deixei minha cabeça cair em seu ombro. Os cães, saciados, pareciam dormir.
Soou o interfone. Levantei-me e fui atender. Minutos de ansiedade por parte dos convidados. Quando abri a porta e deram com a figura do entregador gargalharam, uivaram e aplaudiram meu ovo de colombo. Três pizzas superfamília de calabresa, napolitana e de palmito, a predileta de Nanda, começaram a ser divididas, não feito hóstias sagradas e sim a semelhança de um ritual pagão, com voracidade e gula. Perguntei ao entregador se ele gostaria de passar o natal conosco, prontamente aceito. Servi-lhe uma fatia enquanto Alberto lhe ofertava uma taça de um vinho californiano extraordinário.
No meio da confraternização Nanda lembrou do mendigo. “Convide ele para cear conosco, amor”, disse. Minha companheira foi buscá-lo. De princípio ele estava acanhado e um tanto sujo pelas ruas. Oferecemos um banho e um roupão e assim vestido ele integrou-se a nós. Sacha ofereceu cerveja, ele preferiu refrigerante. ‘Não bebo, senhora. Obrigado.”
Da rua ouvimos os saltos de Kátia estalando pelos paralelepípedos. Nanda a chamou para a ceia. Estava em companhia de uma mulata aparentando um metro e oitenta. Kátia perguntou se poderia levar a amiga. Nanda, coração batendo em compasso natalino, permitiu. Foram recebidas com festa e animaram ainda mais nosso natal com danças e relatos de suas aventuras pelas esquinas da Lapa. Miguel mostrou curiosidade pelos nomes verdadeiros das duas. Kátia, disse se chamar Sirlene. Já Vanessa, a mulata estonteante de olhos verdes fictícios, era Luís Cláudio na certidão de nascimento.
E foram chegando os policiais da ronda noturna, garis, outras garotas de programa, michês, garçons que deixavam o trabalho e meninos de rua que se revelaram corteses, tratando a todos de tio. A nata dos rejeitados pela sociedade jantou conosco naquela noite. O milagre da multiplicação da pizza realizou-se em nossa sala, alimentando a todos. O ambiente regado de confraternização e alegria, cerveja, vinhos e refrigerantes. Tarso mostrou-se interessado em Kátia/Sirlene e esqueceu a ex-mulher cujo nome nem eu lembrava. Rogerinho e o entregador de pizza flertavam.
À quatro horas da madrugada a festa estava no ápice mas minhas forças se esvaíram e precisei me deitar. Despedi-me de um por um dos convidados desejando feliz natal. Mal fechei a porta percebi a diminuição do som e as conversas sussurradas em respeito a meu repouso. Mas não consegui dormir. Fiquei pensando nos acontecimentos da noite. Assim, acendi o abajur, peguei meu caderno de notas e comecei a rascunhar esta história.





sexta-feira, 20 de abril de 2018

I LOVE MY JOB

José Armindo Moreira da Motta foi visto almoçando com uma bela mulher, numa mesa de canto
do restaurante Volare, no centro do Rio de Janeiro. A voz passiva e a indefinição do sujeito
nesta vaga sentença ameniza a gravidade do fato. Vamos à verdade explícita: quem o viu foi
Maria Regina Gregori da Cunha, amiga de sua esposa Heloisa Bastos Moreira da Motta, que
não poupou tempo e saliva.

- Helô, não foi a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez. Ele frequentemente almoça 
com essa pequena na mesma mesa.

Heloísa ouviu calada, um tanto por estupefação, outro tanto por não dar trelas a mexericos a
respeito de um marido tão austero, trabalhador, gentil, pai zeloso e provedor como José Armindo.
Embora tenha feito ouvidos de mercador às maledicências recorrentes de Maria Regina, também
não poupou os ouvidos do marido, quando chegou já tarde da noite.

- José, sempre espero você para jantar, não importa a hora. Faço o cabelo, visto um vestido 
sempre diferente, passo batom. Respeito sua dedicação e amor ao trabalho. Mas estou com uma
pulga atrás da orelha. 

- Eu sei, Helô. Admiro sua compreensão com a Royal. Mas que diabo de pulga seria essa?

José Armindo é Presidente da Unidade Brasil da Royal Breddell Propaganda, multinacional inglesa
que cuida da Comunicação e Relações Públicas de uma vasta carteira de anunciantes do Império
Britânico na América Latina. Poderoso esse Moreira da Motta. Conquistou a confiança de acionistas
e chefes londrinos, a quem devia gratidão pelo cargo, que exerce desde 1957. São quase cinco anos
de bons resultados e lucros mais do que suficientes para os gringos lhe admirarem e respeitarem.
Sua devoção incondicional à empresa e às liturgias da função é algo louvável pelos pares e superiores. Voltemos às pulgas de Heloísa, pois.

- José, um passarinho me contou que você anda almoçando com uma bela mulher. Mais jovem do 
que eu. Dizem até que é fina e elegante. 
- Helô, diga a esse seu passarinho para engolir um saco de alpiste a seco. 
- Ficou nervoso. Então é verdade.
- Pois é verdade. De fato, almoço pelos menos uma vez a cada quinze dias com a Sra. Áurea Lucia Smith. Faço questão de declinar nome e sobrenome desta senhora, com quem mantemos projetos comerciais para a Royal e para os clientes da Royal. 
- Mas como uma mulher é tão importante, a ponto de ocupar o tempo de um executivo tão graduado?
- Trata-se de uma rara exceção, Helô. Ela representa uma empresa parceira com muita competência, apesar do desdém que você mesmo exala ao se referir a uma mulher que trabalha.  
- Não se trata de desdém.
- Trata-se de pinimba. Trata-se do que a vida lhe ensinou, além de bordados, prendas domésticas, 
etiqueta, disposição de talheres e francês fluente. Está surgindo uma leve tendência no mundo dos 
negócios. Há algumas mulheres diferentes, que trabalham e não esperam maridos para jantar. 
Lamento por dizer isso. 
- Duvido que a moda pegue. Mulher decente não abandona o lar.
- Pois fique sabendo: são tão talentosas na profissão quanto você é dedicada ao ofício da administração da nossa casa.
- Obrigado.
- Você sabe que sempre prefiro você, do jeito que você é. Não aceitaria uma esposa que fosse diferente. Gosto de chegar em casa e sentir sua doçura. 
- Eu sei que você me tem como esteio da nossa família, o que muito me honra.
- Pois, honre-se. O que se trata no momento é crer ou não crer que um marido como eu esteja à mercê de comentários de passarinhos, quando almoça com uma parceira de trabalho.
- Você sempre tem um jeito de me convencer.
- Sou assim mesmo. Não que a persuasão faça parte do meu dia a dia na propaganda, mas quero lhe deixar à vontade para escolher entre acreditar em mim ou no que é mal dito sobre mim.

Madá, a copeira, trouxe a sopa. Só dois pratos, as filhas já haviam se recolhido. O casal fez o sinal
da cruz, orou agradecido pela refeição e iniciou o jantar, que se deu em quase silêncio. Heloisa ainda
ouviu do marido o convite para conhecer a Sra. Áurea.

- Não carece, meu marido.

Helô teve medo estreitar relacionamento com uma mulher diferente de si mesma. Talvez fosse acometida de inveja. Talvez quisesse não chacoalhar o cômodo ritual de esperar o marido provedor,
a hora que fosse, bem arrumada, cheirosa e prestimosa. Talvez não quisesse saber mais o que as aparências diziam. Talvez fosse conveniente acreditar no bom marido.

Dia seguinte, à mesa num canto do Volare, Moreira da Motta e a Sra. Áurea marcavam presença.

- Ora veja, minha esposa ouviu fofocas sobre nossos almoços frequentes.
- Que tolice.
- Entendo. Faz parte da sua criação desconfiar de maridos almoçando com outras senhoras. 
Assim como faz parte dos bons costumes esperar o marido para jantar, a hora que for. Ainda 
mais um marido assoberbado pelo trabalho, bem sabe você.
- Concordo. Mas não deixa de ser uma tolice.
- Claro. Nunca faltou nada à minha esposa e à minha família, nada faria que lhes faltasse. 
Mas mudando de assunto...
- Isso. Negócios. Vamos aos negócios.
- Mr. Breddell chega nesta quarta para uma semana de auditoria da filial.
- E você está preocupado?
- Neca de pitibiribas. Apenas me pediu para providenciar com você uma de suas garotas. 
- Alguma preferência?
- Sim. Diz que gostou muito da moreninha da última vez.
- A Dominique?
- Acho que é esse nome. O gringo ficou doido com a dedicação da menina. Disse que no auge 
das quenturas do amor gritava “I love my job, I love my job...”

Os dois caíram numa gargalhada contagiante. Aos poucos, retomaram a conversa.

- Dominique é uma das minhas melhores. Nunca lhe ofereci?
- Nem quero. Mr. Breddell não me perdoaria. 





terça-feira, 17 de abril de 2018

Prazer de ouvir as histórias

Asakusa Honganji temple in th Eastern capital.jpg







Prazer de ouvir
 as histórias dos velhos.
  Visto um pequeno quimono.
















segunda-feira, 16 de abril de 2018

Desobediência


Engole o choro, menina! Que coisa feia essa manha!

Secando os olhos na manga do pijama e soltando fungados longos, suspirados, ela guarda a dor num lugar que ainda não sabe que se chama alma. Estica para a mãe os bracinhos pequenos. 

E ainda quer colo, depois dessa feiura toda?

Quer. Mas não ganha. Sentada no berço, agarra pelas tranças a boneca de pano e se deita sobre ela, soluçando.

Engole o choro, idiota! Aqui, ninguém chora porque apanhou na escola! Se chegar em casa chorando de novo vai apanhar é de mim! 

Choro guardado. Rosto lavado com água fria. A alma quase sem espaço pra ajeitar qualquer dor. Mas ela empurra até caber. No quarto, abraça as fotos dos artistas que adora. Todas compradas na banca de revistas. Autografadas e tudo. Gosta de pensar que cada autógrafo foi dado só para ela. E dorme sonhando com um beijo na boca do seu cantor predileto.

Engole o choro, mulher! Que merda é essa? Cala a boca! Se você não parar eu vou te quebrar todinha!

Quebra, não. Não tem mais pedaço inteiro. E essa coisa salgada escorrendo dos olhos é só um hábito de menina feia. Passa. É que de vez em quando a alma  expulsa uma dor que se revolta lá dentro. E a dor sai molhada. 
No banheiro, vira o rosto para cima e jura até para si mesma que as lágrimas são do chuveiro. 

Engole o choro, vovó! Por que é que velho chora à toa, hein?

É a novela. É gripe. Claridade. Cebola. Alergia. Eu posso parar, quer ver? Eu sei sorrir. Está vendo? Está vendo, sua porra de menina idiota? 

Engoliu todos os choros. Mas cansou de obedecer. E foi deixando vazar toda aquela água represada ao longo dos anos. Disfarçadamente. Gotejando. Até secar. 
Hoje, abriu a porta, desceu os degraus e sentiu a rua fria sob os pés tortos pelo reumatismo. Caminhou feito bêbada, esbarrou nas pessoas, abraçou os postes, berrou com as buzinas, dormiu com os mendigos. E estendeu os braços para o nada, essa alma enorme.





segunda-feira, 2 de abril de 2018

DE AMORES E MOINHOS








Deslizo pelas entrelinhas do que escrevo,
Embora saiba que no momento você talvez não consiga me ler.

Lembro-me das paisagens e dos lugares que nunca chegamos a conhecer e,
Como num parque de diversões fechado para obras,
Enterro-me nos castelos de sonhos que construímos para nós.

Releio cartas que pensei em te enviar,
Mas percebo que foram escritas com sumo de limão,
Invisível a ti,
Como inaudível a ti é agora minha voz.

E deixo-me arrastar pelo moinho,
Quixote sem Rocinante,
Riobaldo sem sertão,
Riacho sem ribeirão,
Até me tornar pó, fim do grão.






domingo, 25 de março de 2018

Cinzas da vida



Ficou-lhes sempre na lembrança que tinham casado uns dias antes de Salazar ter caído da cadeira — 1968. Escolheram a igreja de São João Batista ao Lumiar, para a cerimónia religiosa, e o Castanheira de Moura, um restaurante da Estrada da Torre, para a boda. Vieram muitos familiares de Amélia, do Alvito, e alguns outros convidados do noivo Leonardo, da zona de Lisboa. Enquanto não arranjavam casa, ficaram a viver em casa da mãe dele, que tinha um andar espaçoso na zona velha da Quinta de S. Vicente.
Os primeiros anos correram bem, tanto quanto podem correr a quem tem ordenados de datilógrafa e de eletricista; valia-lhes não pagarem renda de casa. Depois ela conseguiu entrar para hospedeira de terra, no Aeroporto, e ele para técnico do Rádio Clube, mas, se entrava mais dinheiro, a separação determinada pelos horários ditou um maior afastamento.
Quando o 25 de abril de 74 rebentou com os dias negros da Ditadura, abriu também janelas de esperança a todos os que viviam vidas de cinza. Amélia viveu as euforias das manifestações, das lutas por melhores salários, das liberdades conquistadas. Passou a sair com colegas que, como ela, terminavam o turno à meia-noite, para beber um copo. Era bem mais apetecível do que ir a correr para casa, onde a esperava a sogra controladora. Leonardo fazia geralmente o turno da meia-noite às oito da manhã.
No grupo de quatro ou cinco colegas, rapidamente se aproximou do Paulo, que, além de uma boa figura, tinha carro e era a boleia certa para casa. Por fins de novembro, Amélia passou a ser visita frequente do quarto dele na Calçada de Carriche. Nunca o marido suspeitou, embora a mãe não deixasse de o informar das horas a que ela chegava a casa.
Certa noite, lá por maio, o desejo não pôde esperar por um quarto — amaram-se no banco do pendura do carro de Paulo, numa rua sem casas dos altos do Restelo. De vidros embaciados, uma lanterna acesa tentando descortinar o que se passava lá dentro foi um final desagradável — pós-final, felizmente. Dois polícias de giro identificaram os amantes e aconselharam maior discrição.
No dia seguinte, o alarme: um dos polícias telefonou para casa de Amélia — sabe-se lá com que intuitos lúbricos — e não houve como negar a relação extra-conjugal. Depois de discussões violentas, Amélia saiu de casa. Paulo recolheu-a e durante umas semanas parecia que a situação era o melhor que lhes podia ter acontecido, a não ser…
A não ser pelos meandros escuros da natureza humana. Pareceu a Paulo que a situação de Amélia era de dependência, e tornou-se um pouco sobranceiro. Além disso, a relação perdera aquela fulgurância de chama que só a clandestinidade atiça. Sexo sem ser furtivo perdia parte da graça. E Amélia não deixou de o perceber. Dois meses depois, mudou-se para um quarto que dividia com uma amiga.
Paulo não gostou. Mesmo sem a excitação de coisa proibida, sexo em casa, disponível sem muito trabalho, agradava à sua preguiça inata. Agora voltava a ter de se esforçar — combinar encontros, organizar e acompanhar passeios, fazer trabalho de sedução. E tornou-se altamente ciumento. Quando soube que Amélia tinha saído com um grupo de outro colega, fez uma cena. Mas Amélia tinha crescido, à imagem do país, que estava muito mais aberto e liberal. Já não estava para aturar manápulas de controlo. E rompeu com Paulo.
Ao contrário do homem de ideias arejadas que Paulo parecera ser, revelou-se, afinal, um tipo misógino e vingativo: no auge do ressabiamento, telefonou para o ex-marido de Amélia. Identificou-se, pediu desculpa pelos atos anteriores, declarou-se solidário com a sua situação de marido enganado e pediu solidariedade para a sua similar situação de amante enganado. Por palavras hábeis, demonstrou como ambos tinham sido atirados para a mesma humilhante condição por uma mesma pessoa, uma mulher volúvel, sem caráter. A terminar, indicou pormenorizadamente o local onde ela se encontrava com o novo namorado.
Leonardo, querendo recuperar alguma dignidade que julgava perdida, dispôs-se a mostrar firmeza conjugal. Dirigiu-se ao local indicado e efetivamente apanhou os amantes em flagrante. Uma moca de Rio Maior, que nessa altura era muito popular nas lutas políticas norte-sul, foi a ajudante que convocou para dar o necessário corretivo na ex-mulher. Deixou-a inanimada com escoriações e hematomas nas pernas, nas costas, no peito e um traumatismo craniano. O namorado escapou antes que Leonardo pudesse apanhá-lo.
A Polícia tomou conta da ocorrência e o processo da agressão foi a tribunal em novembro. Depois de ouvir as queixas de uma e as razões de outro, o despacho do juiz foi claro: admoestava-se o ex-marido pela conduta descontrolada, mas tomava-se em conta a humilhação a que tinha sido sujeito. Verberava-se com ênfase a conduta traiçoeira de Amélia, causa primeira das posteriores agressões. Referia-se que, felizmente para ela, já não se apedrejavam adúlteras, como era de lei nos tempos sagrados relatados na Bíblia.
De nada valeu que o advogado de Amélia lembrasse que não era ela que estava a ser julgada, que ela é que fora agredida barbaramente, e que todo o indivíduo tem direito a não ser discriminado perante a Justiça, conforme a Declaração dos Direitos Humanos.
Amélia ouviu uma repreensão verbal por conduta indigna e o ofendido um pedido de comiseração, tendo em conta os tempos desvairados que se atravessavam. Saiu calada. Sentiu-se outra vez género menor. Percebeu que os tempos de liberdade e luz que a sociedade vivia não tinham tocado alguns setores.
Pouco depois, o golpe contra-revolucionário de 25 de novembro de 75 punha um ponto final nas aspirações progressistas pós-ditadura de Salazar. Nada que ainda causasse perplexidade a Amélia. Claramente, o 25 de abril não chegara à Justiça, mas também já não ia chegar. Três meses depois, aceitou a carta de chamada de um primo e mudou-se para o Canadá. De vez.

Joaquim Bispo

Imagem: Jean-Paul Laurens, O Papa e o Inquisidor [Sixto IV e Torquemada], 1882.

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Este conto integra a coletânea “Direitos humanos e minorias” da Revista Gueto, 2º semestre de 2017, edição especial, pp. 64–66.


* * *





quinta-feira, 22 de março de 2018

O Defeito Necessário



Tudo o mais em Leila era perfeito, as feições e linhas da face, cada traço delicado, mesmo as clavículas ou suas ebulições intestinais, destacando-se nela as coxas cujo tamanho e lisura, cujos músculos agigantados desafiavam as proporções do corpo feminino. Tudo o mais era perfeito, tudo, menos o nariz de gancho, e isso constataram os pais quando Leila nasceu, conferenciando eles acerca do membro desproporcional, de sua origem, se oriundo de um ascendente macabro e desconhecido ou se consequência de lastimosas anomalias genéticas. Quando com as mãos encobriam aquela tromba o bebê mudava e afigurava-se belo e divino, e ante às imposições desse fenômeno ótico-estético aos genitores restou suplicar pelo bem da filha, pela saúde, pela sorte de um acidente. Como se ouvindo aos clamores a menina cresceu e com sucesso ignorou a mácula em sua face, e ignorou também as insinuações dos amigos ou as injúrias professadas por outras crianças, tendo cada gracinha o condão metafísico de intensificar o encanto de seu rosto.

Pois viveu Leila desse jeito até a adolescência, alheia à magnitude da falha e da virtuosidade, e foi só ao beijar e por descuido cravar o nariz no olho de um namoradinho, ferindo-o, que teve consciência de si. Após visitar a emergência de um hospital e tomar conta do amado, no banheiro de casa trancou-se e à frente do espelho estudou sua deformidade. Soube-se amaldiçoada ao ver o que de espaço ocupava ela, e virando-se de perfil soube-se amaldiçoada em dobro. Era o tamanho, a curvatura de bico, o osso acima e entre os olhos, e com estes enevoados e já não mais inocentes agradeceu a ausência de verrugas.

Sou a bela e a fera em pessoa, refletiu. 

E fungou.

Ciente do contraste entre formosura e monstruosidade, e ignorando o assédio constante do animal homem e do animal mulher, que desconsidera méritos ou deméritos físicos, compreendeu como certas situações agora se explicavam, vide quando a ela ofereciam, em trens e coletivos, o banco reservado aos deficientes. 

E fungou e chorou mais. 

Entretanto a perfeição em Leila abrangia, além do exterior, seu interior, as rebuscadas sinuosidades do coração e da vontade, pois as provações da vida nela despertavam outra força, outra manifestação do belo, este não visto mas sentido. Para a mulher o inferno não passa de distração, evocou ela o verso de seu compositor predileto, e mal ruminado o até então escuso infortúnio decidiu acerca de como agir: faria uma rinoplastia. Assim foi em frente, altiva, e a consciência do defeito e a confiança exibida a tornaram ainda mais atraente. Amantes e galanteadores a enxergavam e cortejavam-na com despudor, e cercada de flores ela indagou se aquele órgão de bruxa não exalava feromônios. As amigas, belas e sedutoras também, inexistiam ao seu lado: viviam, ou escorriam, à sombra do nariz. Independente, Leila não quis ajuda dos pais, nem aos íntimos exprimiu sua vontade, apenas juntou moedas e sorriu ao ter em mãos os valores da cirurgia e, nos ouvidos, a confirmação do médico.

É um procedimento de rotina, disse ele. Tudo hoje é um procedimento de rotina, reiterou.

Dias antes da operação, rolando sobre a cama fofa e perfumada, sonhou com praias e ondas gigantes, a derradeira e maior delas retraindo-se até restar uma duna alta, vergada e sombria, desfazendo-se ao vento. A intervenção ocorreu sem adversidades, e a cara, inchada e roxa, foi isolada em ataduras. Retiradas as últimas, duas semanas depois, o curativo já não úmido e rosado, e refeita a cútis e suas cores, de imediato assomou-lhe a seguinte revelação: sim, era linda e formosa, mas não tanto quanto com o defeito. Aliás, era bem comum e ordinária.

Após a consulta final, exausta e chegando no lar, entrou no quarto e chorou ao enxergar em seu travesseiro a marca de uma reentrância singular e curva como os acasos da vida.


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