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domingo, 17 de janeiro de 2021

Ausência do amor

 










sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Manteiga com Marmelada


Embora estivesse preparado para isso, a porta quase o atingiu. De todas as mulheres que conhecera, Maria Helena era a melhor a bater com a porta na cara das pessoas. Uma verdadeira artista.

Suspirando, virou-se e abriu a porta do elevador. Viera de tão longe, e para nada. Não conseguia entender a atitude de Maria Helena, como não entendera a de Susana, ou a de Gabriela, ou a das muitas outras mulheres que tinham passado pela sua vida.

Ao penetrar no forno que era a rua apercebeu-se subitamente de que era agora um homem totalmente livre. Sem emprego, sem relacionamentos e, a partir do dia seguinte, sem ter onde morar. O mundo abria-se à sua frente, com miríades oportunidades e destinos que podia escolher à sua inteira vontade, sem estar dependente de nada nem de ninguém. Mas ao contrário do que lhe era habitual não se sentia esperançoso nem excitado com este panorama, mas assustado e, até, um pouco só.

Precisava de pensar muito a sério nos passos seguintes, a começar pelo mais premente, a habitação. Era ridículo que uma pessoa com o seu estilo de vida não tivesse dinheiro nem sequer para ir passar umas noites a um hotel ou para a renda do primeiro mês de um novo apartamento alugado. Não sabia como, mas o dinheiro escoava-se-lhe pelos dedos e era raro o mês em que não se via aflito para pagar todas as despesas em que se metia.

Ao seu desconforto moral juntava-se agora uma sensação de fraqueza. Era tarde e ainda não almoçara. Por sorte estava perto de um dos seus restaurantes favoritos, mas que Maria Helena sempre detestara. Achava-o uma mistura sem sentido, cozinha chinesa e francesa no mesmo menu. Estava já à porta quando se lembrou de que não podia usar os dois cartões de crédito enquanto não pagasse parte do saldo. Meteu a mão ao bolso e contou rapidamente o pouco dinheiro que trazia consigo. Talvez desse para um café e uma sandes.

Não conseguia ultrapassar a atitude de Maria Helena. Ou a do patrão, que o despedira há duas semanas. Ou a da senhoria, que não lhe renovara o contrato de aluguer. Ou a de Gracinda, que também o abandonara. Que se passava com essa gente? Seria assim tão impossível compreender a sua filosofia de vida, o seu modo de estar no mundo?

O patrão, por exemplo. “Não cumprimento de funções!” Não esperava, com certeza, que passasse o dia inteiro enfiado num escritório a olhar para fiadas de números, quando havia tantas outras coisas para fazer. Estudar, jogar (não que fosse muito bom em desporto, mas o importante era tentar um pouco de tudo), dar passeios, eu sei lá. Produzia de facto menos que os outros, nunca cumpria as cotas, apesar de terem sido reduzidas várias vezes, mas, pelo menos, nunca lhe faltavam assuntos de conversa.

Despedido! A ideia causava-lhe tantas náuseas como a sandes meia amachucada que comprara a um vendedor ambulante.

Até custava a acreditar! Mas ontem fora o seu último dia de trabalho. E o que o chocara mais fora a completa indiferença dos colegas quando se despedira. Sempre pensara ser popular, ou, pelo menos, um deles. Ficara, contudo, com a impressão de que não deixava saudades.

A princípio recebera a notícia com indiferença. Até se divertira à custa dos ares pomposos do patrão durante o jantar com Gracinda e, mais tarde, com Maria Helena. Rapidamente arranjaria algo melhor e mais bem pago. Infelizmente os patrões em perspetiva não ficavam entusiasmados com os cursos abandonados a meio, os vários empregos de que fora despedido sem carta de recomendação, as ideias meio alinhavadas e a completa falta de capacidades comprovadas. Passara-se um mês e nada tinha conseguido.

O pior era que os credores sabiam da situação e fora obrigado a gastar todo o dinheiro que recebera para pagar algumas dívidas urgentes. Nem dinheiro lhe ficara para comer e no fim do mês tinha o problema dos cartões de crédito. Não deixava de ser irónico. Ontem, marisco e vinhos caros no melhor restaurante da cidade. Hoje, pior que um mendigo) estes, pelo menos, não devem a toda a gente).

Sentindo-se pior deitou fora o resto da malfadada sandes. Não chegara, sequer, a descobrir de que era. O melhor era voltar para casa, enquanto ainda tinha uma.

Esse era um outro ponto que não compreendia. Mudara-se para aquele apartamento de luxo porque era exatamente o tipo de local onde sempre sonhara viver. Carote, é claro, mas do melhor. Porteiro (dia e noite), piscina, ginásio, serviço de limpeza, enfim, uma vida descansada. Havia regras, é claro, dúzias delas. Nada de animais, festas só depois de informar os vizinhos, informar o porteiro sobre possíveis visitantes, código de vestuário em público, enfim, um nunca acabar de imposições. Concordara com a senhoria quando esta lhe dissera que eram essas regras que mantinham o nível do prédio. Mas...

Mesmo assim não havia razões para não lhe renovarem o contrato. Só porque quebrara uma ou outra regrazita (a megera da senhoria insinuara que tinham sido todas e algumas em dose repetida) não via porque não podia continuar por ali. Não tinha dinheiro para a renda, é claro, mas isso só viria a ser problema depois de seis ou, com alguma sorte, sete meses. Em vez disso estava na rua. Literalmente. Incrível!

Apesar do calor apressou o passo. Ainda não começara a empacotar as coisas e precisava, pelo menos, das roupas se tinha esperanças de encontrar um quarto algures sem pagamento prévio. O resto teria de ficar, pois não tinha onde guardar a tralha que acumulara num ano. Ainda se ao menos pudesse vender algumas coisas! Faria bom dinheiro, pois era tudo da melhor qualidade e de um bom gosto impecável. Ou o melhor, ou nada, era o seu lema. Mas nada estava totalmente pago e não precisava de acrescentar problemas legais à longa lista das recentes desgraças.

Distraído com os seus pensamentos por pouco não era atropelado por um camião. Insultou vagamente o motorista, embora a culpa fosse totalmente sua. Mas insultar motoristas sempre o pusera de boa disposição, embora ficasse furioso quando o insultavam de volta. Mas desta vez não resultou.

Que ideia tão parva tivera em visitar Maria Helena. Depois da última conversa, ou antes, discussão, as hipóteses de reconciliação eram diminutas. Mesmo assim tivera esperanças de a conseguir convencer a aceitá-lo de volta. Ensaiara discursos, olhares suplicantes e expressões contritas. Mas não tivera tempo de os experimentar. Assim que vira quem ali estava, Pum! O prédio até estremecera com o vigor daquele bater de porta!

E gastara a última nota no táxi em que atravessara meia cidade. Agora nem para o autocarro tinha.

Maria Helena estava fora da equação. E Gracinda? Sempre lera que as mulheres em vias de se divorciarem passam por fases de sentimentalismo, de anseio pelos “bons velhos tempos”. E se falasse com ela? Talvez fizessem as pazes e arranjasse um tecto para os dias seguintes. Havia, é claro, a ordem do tribunal mantendo-o afastado da casa da em breve ex-mulher. Nunca percebera bem porquê. Serenatas às duas da manhã, telefonemas contínuos, súbitas aparições no emprego, nos restaurantes ou no médico talvez pudessem ser considerados um pouco excessivos, mas, uma ordem do tribunal? Tudo o que pretendera era que a mulher desistisse da ideia do divórcio e que voltassem a viver juntos.

Divorciarem-se por causa de Maria Helena! Francamente! Sempre tivera uma amante, desde a primeira semana de casados. Nessa altura amava perdidamente Gracinda mas isso não o impedira de se entender com Odete, a empregada da loja de vídeos. E essa fora apenas a primeira. Não era promíscuo, nada de escapadelas momentâneas, por muito desejável que fosse a mulher. Uma de cada vez, e durante o máximo de tempo possível.

Mulher, amante, as duas faces do casamento, pelo menos do modo como o entendia. Cada uma tinha o seu cantinho na sua vida e nada lhe dava mais satisfação do que passar de uma para a outra. Pena que as coisas não durassem. Mais cedo ou mais tarde a amante começava a exigir mais, (mais tempo, mais disponibilidade, mais compromisso), e a relação acabara.

Mas Gracinda só agora descobrira não ser a única mulher naquele casamento. Felizmente só soubera de Maria Helena. Fora o suficiente para exigir o divórcio. Estranhamente, isso levara à rutura com Maria Helena. Sempre soubera que era casado e nunca o pressionara sobre esse ponto. Parecia que finalmente conseguira a tão desejada estabilidade, com a mulher em casa, satisfeita com o casamento, e a amante na outra casa, contente com a sua situação. O divórcio estragara tudo. Não só perdera a mulher como começara a ser pressionado pela amante para se casarem, “agora que estás livre”. Daí a discussão e a rutura.

Chegara, finalmente, a casa, cansado, suado e esfomeado. Ignorando os olhares de soslaio do porteiro de serviço entrou no elevador e subiu até ao seu andar. Colado à porta estava um aviso da senhoria lembrando-lhe que devia sair até ao meio-dia seguinte. Irritado, amarfanhou-o e atirou-o para o chão, quebrando mais uma regra.

Chuveiro ou comida? Sentia-se esfomeado, mas não seria capaz de gozar o que quer que fosse antes de se lavar e mudar de roupa. Tresandava.

Foi de espírito mais feliz que se dirigiu para a cozinha em busca de alimento. Não esperava grande coisa, pois sempre comera em restaurantes (pelo menos até ter problemas com os cartões). Mas sempre devia haver pão e qualquer outra coisa.

O pão era de há dois dias, mas uma passagem pela torradeira e ficaria ótimo. Enquanto tratava disso abriu a geleira. Estava quase vazia. Retirou o pacote de manteiga, quase no fim, e pôs-se em busca de mais qualquer coisa que lhe pudesse adicionar. Era um hábito que sempre irritara Gracinda e também Maria Helena e as outras. Nunca se satisfizera com uma simples fatia de pão com manteiga. Tinha de lhe pôr algo mais: fiambre, queijo, azeitonas, enfim, o que houvesse à mão. Às vezes saíam as misturas mais estranhas. Mas só manteiga é que não.

Sempre fora assim. Em miúdo era a avó, uma mulher enérgica e despachada, que tratava dos lanches dos inúmeros netos quando estes saíam das respetivas escolas e esperavam em sua casa que os pais os viessem buscar. Sentavam-se todos em torno da bem polida e enorme mesa da cozinha, já decorada com os copos de leite que tinham de beber até à última gota. Depois vinha a pergunta sacramental: “Queres o teu pão com manteiga, ou com marmelada?” Marmelada feita em casa, já se sabe, que a avó Cremilde não gostava “dessas mistelas que se vendem por aí e que nem sabemos de que são feitas”.

O mais velho respondia e recebia a dose pretendida, preparada mesmo ali à sua frente. Um a um todos indicavam a sua preferência. Havia-os de todos os tipos. Os fanáticos da manteiga, os fanáticos da marmelada, os que variavam, com regra fixa (um dia uma, no seguinte a outra) ou ao sabor da ocasião.

Os problemas começavam sempre quando chegava a sua vez. Em vez de escolher, dizia sempre: ”Quero manteiga com marmelada”. E rebentava a habitual tempestade, a que já nem prestava atenção. Segundo parecia querer as duas coisas denunciava mau caráter, egoísmo, ganância, e muitas outras coisas do mesmo género. “Hás de acabar preso (ou assassinado, conforme a disposição do momento)”.

As consequências também eram sempre as mesmas: ficava só com o leite!

Nunca conseguira perceber porque era um crime tão grande escolher manteiga com marmelada. Ainda hoje não entendia o problema. Se havia das duas coisas, porquê limitar-se só a uma delas?

Agarrando na sandes de manteiga com sardinhas de conserva que entretanto preparara dirigiu-se para a que ainda era a sua sala. Estava na hora do seu concurso televisivo favorito e não tencionava perdê-lo. Emalaria as suas coisas antes de se deitar ou durante a manhã. Ou até durante a tarde, dando uma desculpa qualquer à senhoria. Sim, não havia pressas. Alguma coisa se havia de arranjar.

Luísa Lopes






domingo, 3 de janeiro de 2021

EXPURGO

hoje eu mordi 

um chumaço de 

papel higiênico 

para estancar 

(ou tentar conter) 

o sangramento 

da língua dilacerada: 

como um cadáver 

antecipado que devora 

o seu próprio sudário.


 





terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Traição

 


Na penumbra da sala, reinava pesadamente o silêncio, apenas interrompido a espaços pelo crepitar do fogo na lareira. Lá fora o vento rugia, naquela temível manhã de janeiro, disparando gotas de chuva contra a vidraça.

Ele estava afundado no sofá individual ao pé da lareira, com os pés esticados sobre um pequeno banco e o olhar vidrado, perdido sobre o telemóvel que repousava na mesa de apoio. Estava já nos últimos anos dos quarenta, bastante magro e com olheiras profundas no rosto pálido. Os fios de prata no cabelo ondulavam à luz bruxuleante da chama. A sua mão esquerda brincava com o que parecia um pequeno cartão de visita.

Estremeceu com o súbito toque do telemóvel. Aquela melodia, escutada tantas vezes, trouxe-lhe memórias de ocasiões felizes... e outras nem tanto.

No ecrã do equipamento o rosto sorridente de um homem entre os trinta e os quarenta, de cabelos desgrenhados claros. O nome “Ricardo” piscava ao ritmo da música.

Após uns segundos de hesitação, ele soergueu-se, clicou para atender e encostou o telemóvel ao rosto. Do outro lado, uma voz grave e enérgica interpelou:

— Olá bom dia dorminhoca. Tudo bem?

— Bom dia... — A resposta foi rouca e arrastada. Do outro lado fez-se um silêncio, fruto da surpresa. — Desculpa, sei que esperavas a Sandra.

— Pois…, sim. Ela está? — A voz mudara de decidida para cautelosa.

— Não, ela não está. De facto, estava mesmo aqui a pensar se te deveria ou não ligar.

— Ligar-me?!? — Um tom de incredulidade. — Mas nós conhecemo-nos?

— Na verdade não e já agora, chamo-me Fernando e sou o marido da Sandra.

— Ricardo. — A resposta tardou um pouco. — Mas continuo sem perceber...

— Bem sei. — Um sorriso cansado perpassou nos seus lábios, algo divertido. — Queria ter uma pequena conversa contigo, não te importas que te trate por tu, pois não?

— Como disse, não nos conhecemos, mas não, não me importo.

— É verdade, não nos conhecemos, mas temos uma coisa muito importante em comum... a minha mulher Sandra.

A afirmação soou como um tiro e provocou um longo momento de silêncio nervoso

— Como? Não estou a perceber. — Era uma patética tentativa de ganhar tempo. — Que quer dizer com isso? A Sandra sabe que está a falar comigo? Que é que ela lhe disse?

— Não adianta negar. — O sorriso alargou-se. — Eu sei de tudo: os encontros nos motéis, os jantares, os passeios nos jardins... até mesmo a conferência há dois meses em Londres... — Não se ouvia o respirar do outro lado da linha. — … de todas as formas, não te posso censurar. Ela é uma mulher muito bela e inteligentíssima, uma combinação irresistível.

— Mas... quando soubeste? — Rendeu-se, percebendo que não adiantava negar.

— Oh, já sei há muito tempo. Quase que posso dizer desde o início.

— Não posso crer... e não disseste nem fizeste nada? — Ricardo tentou passar ao ataque. — Há quanto tempo achas que aconteceu?

— Deverá fazer dois anos em Março. Estou certo?

O silêncio do interlocutor era o assumir da culpa.

— Inicialmente não me apercebi de nada, claro. Pelo menos, nada que me fizesse suspeitar disto. — Fernando continuou. — De repente, a relação morna de um casal da nossa idade com muitos anos de casamento, tornou-se muito mais ativa sexualmente. Como já não era há muitos anos. — Limpou uma lágrima que correu no rosto. — Ela procurava-me mais frequentemente e não se negava tantas vezes aos meus “avanços”.

A chuva parara, entretanto e o latido de um cão ouviu-se longe, trazido pelo vento que amainava.

— Eu estava feliz, ela estava feliz, como poderia suspeitar? Nem reparava nas frequentes trocas de SMS, no falar mais baixo ao telemóvel em algumas circunstâncias... estava cego. — O suspiro que se seguiu saiu mais audível do que pretendera. — Até que um dia, ela chegara a casa mais tarde que eu. Estava a tirar as coisas da carteira e vi que trazia amarrotado um pano negro... onde consegui divisar pequenas rendas. Mesmo depois da sua atrapalhação em esconder, fiquei sem qualquer dúvida que trazia na carteira as calcinhas que vestira naquela manhã... Porque traria ela as calcinhas amarrotadas na carteira? Porque as tiraria?

— Há milhares de outros motivos para além de... — Ricardo tentou defendê-la.

— Pois há. Por isso não poderia ficar com a dúvida. Ela disfarçou e escondeu... e eu fingi não ter reparado.

— Ela deve ter pensado que não viste... — Pareciam dois amigos a conversar.

— Mas vi. E, louco de dor e confusão, andei atento a todos os seus movimentos, atitudes e horários... que cada vez aprofundavam mais as minhas suspeitas. Até que um dia, à hora do almoço, fui para a rua em frente à escola onde ela trabalhava e esperei. Não tardou que a visse... que vos visse juntos.

— Sim, encontrávamo-nos ao almoço muitas vezes.

— Para saber a extensão “do problema”, contratei uma pessoa para a seguir durante uma semana e dar-me um relatório; com isso fiquei a saber mais do que queria: o relatório era extenso o suficiente para incluir fotos, horários, os motéis e restaurantes que frequentavam e a altura aproximada em que começaram a ser vistos juntos. Um bom trabalho em suma.

— Nunca nos apercebemos de nada...

— Como eu disse, um bom trabalho. Mas o que me deixava louco era a sua naturalidade, a facilidade e o prazer com que fazíamos amor, a sua vontade e carinho. Parecia que continuava apaixonada por mim...

— E continuava. Ela disse-mo várias vezes. Sempre que lhe pedia para te deixar e vir viver comigo. Nunca o quis, dizia que te amava demais para poder viver sem ti e que o que existia entre nós era uma paixão que ela esperava que passasse um dia.

Foi a vez de Fernando ficar em silêncio por uns minutos. Ambos os homens calados a escutar a respiração do outro através do éter.

— Por fim acabei por me conformar. — Fernando retomou a narrativa. — Aceitei que ela seria discreta o suficiente para não me envergonhar e aceitei que deveria apreciar cada minuto da sua atenção, cada beijo e cada carícia, como dádivas que poderia perder a qualquer momento.

— Foi precisa muita coragem para uma decisão dessas.

— Não, não foi. Muita covardia isso sim, medo de ficar sem ela, sem a mulher que amo. Medo que se fosse e não tornasse mais. A vida sem ela seria insuportável. Mas nos últimos tempos é assim que tem sido mesmo com ela, insuportável.

— Daí esta chamada. — Ricardo sentenciou. — Concluíste que não consegues viver assim e vens pedir-me que me afaste.

— Serias capaz?

— Se isso for o melhor para ela... sim. — Suspirou audivelmente. — Também vou sofrer imenso. Deixei a minha mulher há uns meses, achando que facilitaria a decisão da Sandra, mas ainda não lhe disse que o tinha feito.

— Temes pressioná-la?

— Sim, ela é adorável, mas sob pressão é imprevisível. — Sentiu-se o sorriso na voz.

— Consigo perceber que também a amas, não se trata apenas de um caso.

— Não, não é. Desde o início, desde o primeiro riso, as primeiras palavras, fiquei completamente preso a ela. Julgava que depois de uma certa idade já não era possível uma paixão com tal intensidade.

— E aqui estamos nós os dois... apaixonados pela mesma mulher.

— Não tenho coragem de continuar a fazer-te o mal que temos andado a fazer. Até aqui achava que não sabias...

— Que era um corno feliz...?

— Não, nunca pensamos, pensei, em ti nesses termos. Eras apenas o outro que a impedia de vir para mim de vez.

— Agora não interessa mais, não vale a pena estarmos a discutir sobre isto.

— Que se passa? Zangaram-se? — Ricardo não conseguiu disfarçar a esperança.

As lágrimas corriam agora livremente pelo rosto de Fernando.

— Não, caro amigo, a Sandra teve um acidente de automóvel na noite passada, quando regressava de tua casa. Faleceu de madrugada no hospital... O funeral é às 9h de amanhã e o corpo encontra-se na capela do hospital. Se quiseres podes aparecer... todas as pessoas que a amavam são bem-vindas.







sábado, 26 de dezembro de 2020

Não-me-esqueças

 

"(...) ‘homem nenhum bate em mulher, Hilda, eles batem na própria verdade quando ela não é o que eles querem’ (...) ‘Antônia, eles batem na mentira, mas é a gente quem apanha’ (...) 

Os homens daqui são assim mesmo, (...) dão nome pra tudo o que é nosso. (...) São só homens, filha, homens obrigados a fazerem exatamente o que querem’.” 

(Trechos do romance Meu corpo ainda quente, de Sheyla Smanioto)

                                                                                                                    

O Reinaldo me chamou pro velório. Ligou hoje às 7 da manhã. “Estou muito triste, Carlão. É o amor da minha vida.” Quase não venho ao cemitério e não queria sair de casa tão cedo, ainda mais no último domingo do ano, durante o meu recesso; mas tive de vir dar uma força.

Meu amigo está mesmo abalado. Fica o tempo todo junto da urna mortuária. Óculos escuros, lágrimas salpicadas na camiseta preta, barba por fazer. Assoa o nariz de vez em quando, como que limpando a dor que escorre. Só se afasta um pouco do corpo morto da Gilda quando vai receber o carinho vivo dos amigos.

Vejo vários homens no velório. Quase todos conhecidos. Geralmente nos encontramos na empresa, no campinho de futebol ou no bar. Às vezes na saída da igreja. Nós nos comportamos bem durante o velório. Estamos e parecemos todos sóbrios. Entre o viúvo e os amigos, são permitidos abraços calorosos. Eu mesmo, quando cheguei, afaguei as costas dele um tempão. Nossos rostos ficaram bem próximos. Aqui não xingamos, falamos baixo, não zoamos. Por enquanto, não ouvimos nem contamos nenhuma piadinha machista. Acho que o enterro também vai ser contrito, civilizado.

De mulher, até agora só vejo a Gilda mesmo, que talvez nem quisesse ter vindo. Ela está bem no centro da capela para que possamos prestar esta última homenagem. Precisamos consolar nosso querido Reinaldo, que agora está só e chora a perda.

A morte da esposa parece ter despertado novas rugas no rosto dele. Dizem que o sofrimento envelhece mesmo, principalmente os homens bons. Pelo menos a mulher continua estampada nas duas filhinhas, ambas muito parecidas com a mãe.

Lembro que há menos de um mês a Gilda e o Reinaldo dançavam juntos, animados, na festa de um ano das gêmeas. Ensaiaram passos de um funk engraçado e apresentaram pras meninas, que davam pinote no carrinho de bebê. Uma família tão bonita! Agora desfeita. Como é que uma mãe jovem, atleta, estudada, servidora da Justiça, foi capaz de morrer de repente e deixar órfãs tão pequenas? Será que o Reinaldo vai conseguir cuidar delas sozinho, coitado?

 

Nunca tinha visto um defunto nu. É a primeira vez. Gilda está sem nenhuma roupa. Rosto à mostra e intimidades expostas sob o tampo de vidro. É um caixão com fundo e lados de madeira, mas a frente toda transparente.

— Quem preparou a Gilda, Reinaldo? Você acha certo ela ser enterrada desse jeito? — pergunto.

— Linda, né, Carlão? A mulher mais linda que já tive e, pra ser bem franco, a mais gostosa e a mais especial. Nunca vou esquecer essa mulher. Pena ela ir embora tão cedo.

— Pelo menos joga um manto em cima do caixão, cara. Cobre a sua mulher.

— Não. Sempre gostei mais dela assim do que vestida. O que é bonito tem que ser exibido, não é mesmo? Pensei em cada detalhe.

— Estranho. A funerária não foi contra expor a finada assim?

— A empresa faz o que o cliente manda. É só pagar. Eu pedi pro moço da funerária, e ele atendeu tudo. Passou o batom rosa nos lábios de cima e até aparou os pelos dos lábios de baixo. Só não raspou as axilas dela. O sujeito disse que é porque a posição estava meio difícil. A morte deixa as bonecas com articulação prejudicada. Ah, deixa pra lá. Ninguém vai ver os tais sovacos. E eu nunca mais vou poder nem tocar. Nunca mais.

— Nunca pensei que você pudesse...

— Experimenta enterrar a Tânia peladona também — ele brinca, parecendo esquecer o sofrimento por alguns instantes e até esboçando um sorriso.

Que bobagem. A minha mulher é forte e não vai querer morrer cedo, assim como fez a Gilda.

Quero ir embora, mas preciso ficar um pouco mais. Acho que vou ter que acompanhar o sepultamento. Sinto pena do meu amigo. Será que vai suportar a solidão?

 

O Reinaldo não sabe, mas no passado, há muitos anos, a Gilda dele já foi minha. Conheci a falecida bem de perto, por cima, por baixo, dentro e muito e fundo. Ela era quente mesmo e tagarela e espontânea, lembro bem. Me incomoda ver essa mulher nua de novo, só que nesta situação inerte. Murchou muito nova e está completamente nua. Coisa esquisita.

Não pretendo ficar fitando o corpo da morta. Respeito o meu amigo. Mas enquanto o Reinaldo recebe o Beto e o Muniz, lá na entrada da capela, aproveito para olhar, pela última vez, o rosto, os seios e os braços da minha ex-amante. Essa diaba continua linda. Só não encaro suas partes mais secretas porque, desculpe a franqueza, periga eu armar a barraca em pleno velório.

Eita. Há pequenas marcas roxas no pescoço e — será que só eu acho estranho? — três sulcos profundos perto do peito, embatumados/camuflados por muitas florezinhas brancas miúdas.

— São miosótis brancos, mais conhecidos como não-me-esqueças. O nome da planta não é sugestivo? Claro que eu nunca vou esquecer essa mulher, Carlão. Nunca.

Uma cor gelada e mais escura vai tomando o corpo da Gilda. Logo estará guardado na terra. A Gilda morreu mesmo de quê? Ainda não sei.

— Reinaldo, você seria capaz? Você tem alguma culpa nessa história?

Ele não responde. É um homem de bem. Só sofre, abatido. Será que só eu acho estranho? Sereno e resignado em sua desgraça, o viúvo continua velando o corpo nu de sua amada.

 

Maria Amélia Elói





quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

A visita do diabo

 



O dia amanheceu frio, mas luminoso. Nada fazia prever os acontecimentos dessa manhã.

Era terça feira, dia de o queijeiro passar a recolher a produção de queijo fresco da semana. Chegou na carroça puxada por um cavalo, seria perto das nove horas, e parou junto à porta da casa da queijaria, a uns cem metros da casa de habitação da quinta. Havia mais de uma hora que o casal e o filho tinham tomado a primeira refeição — o almoço —, provavelmente feijão frade cozido ou batatas com couves. O rapazito, em férias escolares de Natal, acompanhava o pai a observar o que fazia, mas sem largar o mais recente brinquedo que ele mesmo construíra: uma “espingarda”.

Dois ou três dias antes, na aldeia, assistira maravilhado à habilidade que um amigo aprendera nas aulas de Física do primeiro período: metia quatro ou cinco cabeças de fósforo num tubo inox (uma caixa de termómetro), aquecia a extremidade fechada com outro fósforo aceso e, passados instantes, o tubo disparava, como uma espingarda. A experiência foi uma inspiração para o rapaz de treze anos. Era evidente a mudança de nível que uma arma assim proporcionava. Podia facultar tiros tensos e certeiros. Não se podia comparar à fisga que até aí utilizava.

Logo que voltou ao campo, tratou de pedir a caixa do termómetro à mãe, amarrou-a a um pedaço de tábua, que afeiçoou em forma de coronha, e estava a arma pronta. Fez algumas experiências: aumentou a carga explosiva (tinha comprado várias caixas de fósforos de cera), juntou uns grãos de chumbo à frente das cabeças de fósforo, por fim, aplicou um bucha de cartão, para os grãos não caírem. Como os cartuchos do pai. Os tiros espalhavam um pouco o chumbo, mas os grãos ficavam bem cravados na casca dos troncos de mimosa que usava como alvo. Eram resultados muito prometedores. Tencionava experimentar em breve a nova arma na caça aos pássaros.

Dessa vez, o queijeiro não vinha sozinho; trazia o filho, assim disse. Só muitos anos mais tarde o jovem inventor suspeitou que aquele rapazola não era outro senão o diabo. Ou, pelo menos, o seu instrumento.

Apeou-se e dirigiu-se logo, seguro e sobranceiro, ao moço do campo. Que melhor surpresa podia esperar o habitualmente solitário miúdo rural? Orgulhoso, mostrou-lhe logo a "espingarda". Mas o visitante não parecia trazer tenção de brincar. Era entroncado e devia ter mais dois anos que ele, pelo menos. Dirigiu a curiosidade fiscalizadora para a cerca de troncos em que uma bezerra mugia a pedir a mãe.

Porque é que a bezerra está presa? — indagou, austero.

— Atão”, é a corte dela! — respondeu o miúdo, incapaz de explicar uma evidência.

Então, o visitante deu início à sequência fatal: com um resmungo indignado, destrancou a cancela, abriu-a e enxotou a vitela para fora. Solta, não se fez rogada e partiu em trote na direção que devia achar que estava a mãe. O jovem dono, incrédulo e atarantado, só emitia frágeis protestos:

— Atão”, soltaste a bezerra…

Mas o recém-chegado parecia ter um plano marcado. Mudou logo a conversa:

Isso dispara? — perguntou, interessado.

A atenção que o miúdo esperava para mostrar a sua "espingarda" foi o toque de mágica que o levou a esquecer o problema da vitela que ainda há pouco o desorientava.

Sim, sim. Queres ver?

Mostra lá! — concedeu o outro.

O rapazito correu para casa e rapidamente preparou o tubo, desta vez com uma carga de fósforos mais generosa, para fazer boa figura. Saiu com a "espingarda" carregada, fósforos e uma vela, e encaminhou o outro para trás da casa. Aí, acendeu a vela, encostou a coronha ao ombro e apontou a arma para um estreito tronco de mimosa a uns dois ou três metros, com a chama da vela a aquecer a extremidade do tubo.

Ao contrário do que era habitual, o estouro estava a demorar. Por um momento, o miúdo teve um assomo de receio. Nem sabia o que eram premonições. Baixou ligeiramente a cabeça, tapou mesmo o ponto de mira com a aba do chapéu que todos usavam no campo. Por fim, o estampido, uma dor fugaz, o negro.

Acordou com todos à volta dele, em grande alarido e alarme. O miúdo tinha dores, deitava sangue do olho, havia muitos pingos no chão. O tubo também caído indicava o que tinha acontecido: com a força de recuo, soltara-se da fixação à tábua e entrara pelo olho adentro do miúdo imprudente. Os pais estavam desanimados e zangados.

Fartei-me de dizer para não brincar com aquilo, que é perigoso, mas não… Só faz o que quer!

Já está “desmanzelado” o meu filho! — choramingava a mãe.

Logo depois, ensaiaram várias experiências visuais:

Tapa o olho esquerdo. O que é que eu tenho na mão? É uma colher ou um garfo? E agora, são dois ou três dedos?

Embora com forte perda de visão, conformaram-se por o ferimento não ter sido maior. O olho podia ter sido vazado.

Souberam então da ausência da bezerra. O que foi?; como?; porquê? — queriam saber. O miúdo, só tinha uma desculpa:

Foi ele!

Então e tu deixaste? E porque é que não foste chamar-nos? — eram perguntas cujas respostas o miúdo não sabia dar.

O pai estava descoroçoado. Andava a guardar aquela bezerra de boa raça para fazer criação. Começou por chamá-la, esperando que ela mugisse e a localizasse. O queijeiro também estava um pouco constrangido. No fundo, alguma responsabilidade havia do seu filho, nada habituado à vivência de uma quinta agrícola e pecuária.

Com os brados, outros vizinhos se juntaram à procura da vitela. Dividiram o grupo em três equipas e partiram em direções próximas daquela em que a vitela desaparecera. O miúdo ficou em casa com a mãe e durante um bocado ouviu os chamamentos das buscas, para os lados da zona florestal.

Passadas duas horas, chegou o pai. Vinha alterado. Não disse o que tinha acontecido. Não disse se tinham ou não encontrado a bezerra, nem o destino que lhe tinha sido dado. Certo é que a novilha não voltou à cerca. Pegou na espingarda e saiu, dizendo que ia dar uma voltinha à caça; para desanuviar, certamente. Menos de um quarto de hora depois, ouviram-se dois tiros bem próximos. Ele não costumava encontrar coelhos tão perto de casa, mas parece que desta vez tinha tido sorte.

Não; com a irritação, tinha acertado numa das cadelas. Coitada, entrou a ganir baixinho e a tremer, largando pingos de sangue de vários pontos da pele, e foi tentar encontrar alívio junto ao lume. Mas via-se que estava em sofrimento. O homem que numa só parte da manhã tinha tido um filho aleijado, uma vitela perdida e uma cadela chumbada saía e entrava em casa, visivelmente desnorteado. O peso do irremediável oprimia, uma e outra vez. Por fim, deve ter tomado uma decisão. Pegou novamente na espingarda, dirigiu-se para a porta e chamou a cadela ferida. Todos sabiam o que se seguiria. Mas antes de sair, parou, virou-se para o miúdo e convidou, a voz doce:

Anda! Queres vir? Anda!

O miúdo temia que o convite significasse o que lhe passou pela cabeça. Abanou a cabeça, receoso.

Mas, talvez o pai quisesse apenas fazer a pedagogia da dureza da vida, mostrando-lhe como a sua insensatez provocara a morte de uma cadela. Ou tivesse decidido, enfim, pôr-lhe nas mãos uma arma a sério. O mais assustador era o tom doce, amoroso mesmo, que não era muito comum no pai, muito menos nas últimas duas horas.

Anda!

Então, ó Domingos, deixa lá o menino! — à mãe também não passara despercebido o perigo. — Não vês que é uma criança? Vai, vai-te lá embora!

O pai saiu. De ouvido atento, o miúdo esperava o estampido a todo o momento. Sabia perfeitamente o que estava a acontecer. Imaginou a cadela a olhar para o dono, dono a quem servira lealmente, de espingarda apontada para ela.

«Podia ser eu» — pensou. Pareceu-lhe ver os enormes olhos negros da espingarda de dois canos a olhar para ele.

Um tiro, só um tiro se ouviu. O inevitável cumpria-se.

Joaquim Bispo


*

Imagem: Hecatombe na Herdade da Torre Bela, 12/2020.

* * *






quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

OS BENZIMENTOS DE MINHA AVÓ

 



 

         Miúda, serena, calma e doce. Mulher extremamente dócil. Submissa como nenhuma outra.

         Assim era minha avó. Silenciosa e terna. Não me lembro de sua voz alterada. Soava sempre no mesmo tom de cantiga de ninar.

         Mulher de movimentos leves e precisos. Criou nove filhos na escassez de recursos, gerenciando o pouco ou quase nada, e deu conta. E ainda deu conta de dar amor a todos os netos, a muitos que, de bando a cada ano, chegavam ao mundo.

         Leveza na lida dos afazeres domésticos. Casebre de barro, depois de tábuas, chão de terra batida. Sempre limpa. Amorosa e cuidadosamente limpa. E cheirosa. De manhã, quando passava pelos cômodos borrifando água com as pontas dos dedos no chão, antes de passar a vassoura, o cheiro da terra molhada lembrava a chuva. E depois, durante todo o dia era cheiro, cheiro... Do pão assado, do café coado, do feijão com alho, do arroz com cebola, da carne de panela, da linguiça frita, da pele de porco crocante, do pepino cortado, do limão espremido... E, no comecinho da tarde, o cheiro do bolinho de chuva, do bolo de fubá com erva doce, do biscoito de polvilho, do arroz doce com açúcar queimado e paus de canela, do doce de abóbora, de chá de folhas de laranjeira...

         Tudo doce e aconchegante, no mesmo sabor de uma infância bem vivida.

         E minha avó ainda benzia. Era a benzedeira da vila. Sempre arrumava tempo para atender quem batesse em sua porta.

         Seu benzimento, sua reza, tudo era brando. Igual a ela. Uma alquimia de sons e palavras que embalava os pensamentos e adormecia os pequenos. Crianças chegavam gritando e saíam dormindo. Isso eu presenciei inúmeras vezes.

         E o benzimento era feito. As orações eram sussurradas enquanto suas mãos costuravam um paninho. Isso mesmo! Dobrava um pequeno retalho de pano, colocava uma linha comprida na agulha, fazia o nó e começava a costurá-lo apenas em uma lateral. Conforme rezava, subia e descia a agulha com delicadeza, inúmeras vezes, costurando sempre de baixo para cima. Rezava, de vez em quando parava a costura, e docemente perguntava à pessoa que estava benzendo, ou ao seu responsável:

         - O que eu coso?

         A pessoa respondia com a explicação do mal que a afligia: dor nas costas, cólica, dor de cabeça, dor de garganta, tosse, fraqueza, noites mal dormidas, cansaço, rouquidão...

         Então minha avó, pacientemente, explicava para a pessoa que sempre que ela lhe perguntasse, por repetidas vezes: “o que eu coso?”, que ela respondesse: “carne quebrada”.

         E assim era feito.

         Depois que ela ouvia a pessoa falar: “carne quebrada”, juntava estas palavras à reza e respondia:

         - Carne quebrada, osso essssss...

         Por mais que eu apurasse meus ouvidos, chegando mesmo a prender a respiração, isso era tudo o que eu conseguia ouvir. Depois ia sussurrando palavras e as juntava às preces, e por aí seguia. Minutos e minutos de reza sussurrada. Cansei de perguntar o que ela dizia, mas ela nunca me contou.

         Esse ritual da costura deveria ser feito por três dias para a mesma pessoa, e o mesmo paninho seria usado até que a beirada costurada formasse um caseado firme, tantos os pontos feitos nos mesmos lugares. Cada pessoa benzida por ela levava seu retalhinho costurado, com agulha e tudo, e deveria voltar com ele nos outros dois dias. A linha só seria cortada no último benzimento, e o paninho costurado deveria ser jogado em água limpa e corrente ou queimado.

         E as pessoas voltavam, e as queixas dos males se esvaíam.

Um dia, depois de muito perguntar sobre o que ela dizia durante os seus benzimentos sussurrados, ela me pegou pela mão, colocou-me sentada diante dela, e docemente inquiriu:

- Por que quer saber o que eu falo quando estou benzendo? Quer seguir o ofício?

Fiquei tão assustada com a pergunta que respondi prontamente:

- Não!

Naquele ‘não’ quase gritado, eu deixei claro que nunca havia pensado nisso. Eu sabia que aquilo não era um ofício. Minha avó não ganhava absolutamente nada com as benzeduras. Era uma missão, um dom. Enquanto ela benzia e aliviava as dores e inquietudes das outras pessoas, ela abrandava o seu próprio coração, alimentava a sua serenidade. Benzer era vital para ela. Era uma doação sem medida, era uma entrega. Mas não para mim!

Desse dia em diante, nunca mais perguntei sobre o que falava enquanto benzia. Eu a respeitei, e nunca mais apurei meus ouvidos para tentar desvendar os seus sussurros sibilantes.

Não havia na vila criança ou adulto que não tivesse passado pelo benzimento de minha avó. Não tinha dia em que não atendesse os que a procuravam.

         Benzia enquanto havia a luz forte do dia. Mas, depois das seis horas da tarde, nem adiantava chegar. Não atendia em circunstância nenhuma.

         Havia duas coisas que não fazia depois das seis. Não benzia e não varria a casa. Mesmo que fosse da maior urgência, era perda de tempo insistir.

         E mesmo com a insistência de muitas pessoas, não se alterava para dizer não. Dizia mansamente uma, duas, quantas vezes precisasse negar o atendimento.

         Um dia chegou um senhor, e perguntou se ela poderia benzer um cavalo que estava doente. Minha avó se espantou. Não benzia animais, só benzia pessoas. Se bem que muitas vezes eu a vi passando as mãos carinhosas nos nossos gatinhos e cachorrinhos, e mexendo os lábios, como fazia nas rezas do benzimento! Mas, oficialmente, nunca ninguém trouxe bicho para que ela o benzesse.

         Receosa e surpresa com o pedido, ela explicou ao homem que não benzia animais. Mas, diante da insistência e da aflição do pobre coitado, penalizada com a situação, disse a ele que iria pensar e lhe daria uma resposta.

         Na verdade, ela não precisaria pensar. Ela pediu um tempo para conversar sobre isso com o meu avô. Tudo que fosse fora do combinado teria de passar pelo crivo dele.

         Se até mesmo o benzimento de pessoas que ela fazia ele não encarava muito bem, não acreditava naquilo, criticava o feito como uma perda de tempo da benzedeira e do benzido! Quando minha avó lhe falou sobre a benzedura do cavalo, ele ficou transtornado. Esbravejou, vociferou...

         O homem do cavalo era conhecido dele. Ambos trabalhavam como charreteiros da vila. Vida dura. E pobre.

         Minha avó, apesar de saber que ele não concordaria com a ideia desde o momento em que o homem lhe fez o pedido, ficou sem jeito de dizer não, e agora estava apavorada porque teria enfim que dar a negativa ao homem.

         Ficou tão aflita que não conseguiu pregar os olhos durante toda a noite. De manhã estava um bagaço... E tinha ainda a dura missão de dizer não ao homem do cavalo.

         Passado das quatro horas da tarde, ela ouviu as palmas vindas do portão.

         Chegou a estremecer. Era chegada a hora...

         Abriu a porta na certeza de que era o homem do cavalo. E era. O homem e o cavalo!

         Minha avó ficou tonta, as pernas tremiam. A visão que tinha era ainda mais assustadora. O cavalo estava com uma aparência horrível, muito inchado, nem entendia como ele havia chegado até ali.

         O sol estava muito forte, e aquele homem com aquele cavalo ali, diante dela, do lado de fora da cerca de balaústres... Nem sabia o que fazer.

         A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi abrigá-los do sol, colocá-los no quintal, na sombra da mangueira. E foi custoso fazer com que o cavalo andasse mais um pouco, que passasse pelo estreito portão e se ajeitasse na sombra.

         Quando tudo se acalmou, minha avó, toda sem jeito, tentou explicar ao homem que não benzeria o cavalo, mas ele insistia tanto que ela achou melhor fazer uma oração, uma reza pedindo a Deus que tivesse compaixão do sofrimento do bicho.

         Fazendo isso, rezaria com fé, poderia ser que o animal melhorasse, e o intuito principal dessa reza mais ligeira era que eles iriam embora antes do meu avô chegar! Tudo ficaria resolvido rapidamente.

E ela não faria de qualquer jeito, não! Rezaria com muita fé, mas rapidamente.

         Pensando assim foi para perto do animal. O coitado estava de pé, arrepiado, imenso de inchado, e mantinha os olhos fechados. Estava exausto com a caminhada até ali.

         Minha avó colocou a mão na testa dele, e nem assim o bicho abriu os olhos. Ajeitou o braço de maneira que toda a palma da mão tocasse no animal, e começou a rezar. E se entregou à reza. Mesmo aflita, com pressa, rezou serena.

         De repente, em meio à reza, o animal foi se movendo de mansinho, tremelicando, e tombou de lado.

         Foi um espanto danado!

         Minha avó deu um passo para trás e não conseguia entender o que estava acontecendo. Agachou-se perto da cabeça do animal, os olhos continuavam fechados. Correu os olhos pelo pescoço do bicho e parou na barriga. O cavalo não estava respirando, a barriga estava imóvel. O animal todo estava imóvel. Morto!

         Isso mesmo, o bicho estava morto. Estirado, imenso no seu inchaço.

         E minha avó, ali. Incrédula, apavorada, embasbacada, sem ação. Não demoraria nada e meu avô chegaria...

         Seria o caos! O que fazer com aquele animal caído?

A cada olhada que ela dava para o bicho, parecia que ele se agigantava. Um elefante no tamanho! E como tirá-lo dali?

O dono do cavalo permanecia calado. E imóvel. Não tinha o que fazer. Tinha de pensar. Pensar numa maneira de levar o animal dali.

E ficaram pensando. O homem, no cavalo, e minha avó, no meu avô. Aflitos...

E meu avô chegou.

Ainda na rua, desatrelou o cavalo da charrete, amarrou a corda comprida no cabresto e soltou o animal na data do outro lado da rua, um terreno vazio onde havia touceiras e touceiras de colonião. A charrete ficava ali mesmo, na calçada em frente da casa. Não havia risco. Não havia ladrão.

E entrou...

Em poucos segundos, o mundo veio abaixo. Ele gritou, esbravejou, amaldiçoou, praguejou, destratou... Foi um tendepá! E minha avó, calada. O homem do cavalo, petrificado. Parecia uma estátua!

Esgotados os desaforos e desacatos proferidos pelo meu avô, ele e o homem do cavalo decidiram pedir ajuda a um sitiante que morava perto da vila. Lá havia um trator muito velho, mas com boa vontade, poderia arrastar o animal dali para longe.

E foram atrás do socorro... E ele veio.

Parte da cerca de balaústres precisou ser derrubada para a operação da retirada do animal. E minha avó ouviu...

Quando, enfim, o cavalo foi retirado, a noite já ia alta. E minha avó ainda ouvia...

E ouviu por muitos dias...

Era uma pessoa resignada com a vida, submissa ao marido, e muitas vezes eu imaginava que um dia ela perderia essa resignação e faria o maior escarcéu, a maior gritaria, colocando fora toda a gama de desaforos que recebera da vida.

Eu sempre pensava que não era possível ser tão cordata, tão sem réplica. Uma hora a coisa ia descambar...

Fiquei na espera.

Ela se foi, e eu não vi esse espetáculo. Ela era assim. Era de boa têmpera. Tinha bom cerne, alma nobre, coração manso. Aliás, ela era só coração. Coração nas mãos que benziam, nos dedos que nos acarinhavam, nos braços que nos embalavam, na placidez do rosto que nos acalmava. Coração nas cantigas doces que nos faziam dormir, na serenidade da fala que chegava aos nossos ouvidos, nos olhos que nos enterneciam, e nos lábios que tanto rezavam por nós.

Era o coração que ela entregava nos benzimentos, nas rezas sussurradas.  

 

                      Regina Ruth Rincon Caires