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sábado, 25 de novembro de 2017

As tentações de São Batráquio


Ao depararem-se com uma capelinha perdida junto à desolada foz do Sorraia, poucos saberão as peripécias por que passou o santo do seu orago.

São Batráquio nasceu em Sarilhos Pequenos numa família de apanhadores de lamejinhas. Moço calado e solitário, desde cedo manifestou problemas de relacionamento e comportamentos desviantes. Era presa frequente de terrores noturnos e várias vezes desapareceu de casa, sendo sempre encontrado escondido em locais isolados, como casebres em ruínas ou abrigos de pescadores em canaviais. Mostrando-se avesso à apanha de bivalves, acabou por aceitar tarefas de sacristão na igreja de uma terra próxima, o que custou ao pai umas boas sacadas de lamejinhas para o senhor padre da dita freguesia. Tinha então dezassete anos.
Durante meses, o serviço foi aceitável, com exceção do irritante jeito de imitar amiúde e em surdina o som de algum dos animais com que se cruzara, sobretudo gaivotas e rãs. Era muito prestável no apoio ao padre, no preparo dos paramentos e das alfaias litúrgicas, na limpeza da igreja e no arranjo dos altares e dos santos aí expostos. Quando não havia serviços religiosos, refugiava-se no despojado cubículo da pia batismal, em busca de solidão, ou no escuro e reservado confessionário. O que poderia ser um tempo de relaxamento e reflexão tornava-se, frequentemente, em eternidades de pesadelo. É que o demónio sabe todas as fraquezas de cada homem. Conhece as suas aspirações mais inconfessáveis, os seus anseios mais pecaminosos. E se, com muitas pessoas, — que alegremente se entregam aos prazeres mais obscenos —, nem se dá ao trabalho de as tentar, em relação a São Batráquio sabia que ele procurava resistir, se amarfanhava de desejos reprimidos, lutava com quantas forças tinha. Por isso o diabo tinha de lançar ilusões e insinuar as doçuras e os encantos das práticas pecaminosas. Os cálices pareciam abarrotar de iguarias, fazendo São Batráquio salivar e resmungar:
Huarrh!
As portinholas de todas as caixas de esmolas abriam-se por si, oferecendo-se ao futuro santo em dezenas de moedas brilhantes. E ele, de mãos trementes, grasnava:
Huarrh!
Pelos espaços vazios da igreja o diabo fazia desfilar belezas femininas de provocante luxúria, de irresistível apetibilidade. E ostentavam o rosto angélico das santas dos altares. O pecador, fremente de desejo, coaxava:
Huarrh!
Estas eram as fases de maior penar, os tempos infindos em que ele agonizava de dores do espírito, tentando conter-se. De dia, geralmente, conseguia. Cravava as unhas na pele, lavava o rosto com pedras de gelo, açoitava-se com o azorrague dos carrascos de Cristo atado à coluna. À noite, era mais difícil. Muitas vezes, sucumbia: empanturrava-se da bolacha de hóstias e do vinho de missa; com demorado empenho e habilidade, conseguia retirar algumas moedas das caixas; acariciava com redobrada sensibilidade os contornos dos rostos sagrados de Santa Eufémia e da Virgem da Assunção e as pregas da madeira pintada dos seus vestidos, temente, mesmo assim, de se atrever a imaginar o hipotético corpo santo que se esconderia por dentro.
Huarrh!
Depois, relaxava. Parecia que os seus atos não tinham consequências, chegava a sentir-se feliz e confiante. Mas então, vinham as penas. Os remorsos faziam-no amarrotar-se por dentro, o medo dos infernos fazia-o tremer e chorar convulsivamente. Tudo piorou, depois de ter bisbilhotado alguns livros de arte do padre e se ter deparado com as estampas das pinturas de Jerónimo Bosch. Via demónios que ameaçavam esquartejá-lo com navalhas de arranjo de peixe e arpões, com redes que o arrastavam para o fundo das águas, criaturas horrendas cujos olhos lançavam fogo, cuja urina derretia as lajes da igreja e cuja boca cuspia vermes e exalava miasmas nauseabundos.
Huarrh!
Então o santo pecador jurava ser ainda mais forte da próxima vez que as tentações o assaltassem. Mas os demónios que regem as pulsões dos sentidos não desaparecem nunca. Às vezes parece que estão esquecidos, que o pobre mortal foi relegado para a montureira dos objetos usados e vencidos, mas há sempre um outro dia que amanhece maldito. E mesmo os futuros santos, antes de vencerem os seus demónios, são marionetas nas mãos nefandas do demo. E os pobres pecadores voltam aos velhos pecados, com a mesma certeza do condenado perante o cadafalso, mas com o entusiasmo das alegrias do êxtase. Nunca tão bem é aplicado o conceito de “ciclo vicioso”.
Este jovem pecador escolhia sempre o fim do dia para pôr em prática os seus desvarios mais obscenos, com os quais mais se comprazia o diabo. Depois de a igreja se esvaziar e o padre sair, fechava as portas, apagava as luzes e mantinha acesa só meia dúzia de velas elétricas das promessas. Certa vez, foi negligente. Não vendo o padre nem na nave, nem na sacristia, convenceu-se de que ele já tinha saído. Na verdade, o clérigo ficara sentado no confessionário, após uma confissão particularmente deprimente, meditando nas atribulações das vidas dos pobres, e acabou por adormecer. Quando saiu de trás do pano, deparou com o jovem sacristão em cima do altar de Santa Iria, roçando-se e acariciando a escultura da santa, com as roupas descompostas.
Huarrh!
Ao pecador apanhado não pareceram muito diferentes os tratos que o padre lhe aplicou, dos habituais pesadelos pós-pecado. Mas, desta vez, o verdugo brandia uma vara de marmeleiro e envergava batina. Durante uma semana mal conseguiu conciliar o sono, com as dores que o percorriam. Curiosamente, parecia que os açoites tinham afastado os pesadelos. Durante meses, o pecador não se atreveu a pensar em santas, de modo carnal. Até o padre começou a pensar que talvez o corretivo tivesse sido remédio santo. Mas o mafarrico está sempre à espreita. Só ele terá congeminado um plano tão malévolo: conseguiu que este eficaz padre fosse deslocado para a igreja de uma das freguesias de Alcochete, a freguesia deste que tal vos conta. E terá incutido na ideia do padre de que era melhor levar aquele problemático sacristão, então com 20 anos, do que deixá-lo ao cuidado incerto de um incerto substituto. Quando São Batráquio viu o interior da nova igreja e as formosas santas que ocupavam os altares, temeu pela tentação. Santa Teresinha pareceu-lhe a mais sensual. De olhos ingénuos, não era uma santa de madeira pintada como as que conhecia — um manto branco cobria o burel que lhe vestia o corpo, sob o qual apareciam dois pezinhos descalços...
Huorrh!
O diabo que nele habitava sabia que a partir daquele momento o trajeto de pecado do nóvel sacristão estava traçado. Era uma questão de tempo e oportunidade. E ela chegou tão cedo quanto esperava. Foi no dia de Páscoa. Padre e sacristão percorreram toda a freguesia, casa por casa, a dar o Senhor a beijar. Depois das maratonas de confissões próprias da época, aquela maratona de sobe e desce escadas deixaram o clérigo de rastos. Percebia-se que iria tombar na cama exausto. São Batráquio manteve-se acordado no escuro do seu quarto, como presa encurralada. Pelas três da manhã, decidiu-se. Abriu a porta em silêncio e deixou-se conduzir pelas sombras das ruas desertas, a caminho da igreja. Ao entrar, sussurrou:
Huorrh!
Fechou tudo, deixou só a lampadinha do Santíssimo, para conferir um certo mistério exaltante, tapou com um pano negro os rostos das outras figuras sagradas, Sagrado Coração de Jesus incluído, para não sentir os seus olhares nas costas, e trepou para o altar onde Santa Teresinha parecia esperá-lo.
Huorrh!
Como seria acariciar aquelas vestes? Sentiria logo as formas que se escondiam no interior? O coração batia-lhe. Seria capaz de meter a mão por dentro do hábito? A excitação emocionava-o.
Huorrh!
Acariciou a face sedosa da imagem. Abriu-lhe o manto, contemplando a graciosidade austera do hábito. A mão hesitou em tocar a sua superfície. Era denso e rústico. Percorreu-o, tentando encontrar as formas do corpo da santa francesa. Avançou mais e mais, mas os seus dedos não encontravam qualquer resistência. Num desvario aterrado, agarrou o hábito com ambas as mãos, em vão. Finalmente, em urgência, abaixou-se e levantou-o por inteiro.
Huorrh!
Manteve-se por muitos segundos, boquiaberto, sem atinar no sentido do que via: a santa era um cabide só com pés e cabeça, em que estavam dependurados o manto e o hábito. Apenas. Não havia corpo algum. Apenas um espaço vazio por baixo do hábito. Em vez da sensualidade esperada, aquela estrutura transmitia escárnio. Zombaria. Imaginou quanto terá rido o sádico santeiro, ao fazer aquela artimanha. Em que ele tinha caído.
Huooooorrh! — berrou.
Enlouquecido, começou a pontapear todo aquele embuste. Saltou para o chão, arrancou as toalhas dos altares, derrubou lampadários e tocheiros, partiu quanto pôde. Subiu à torre sineira e tocou a rebate. Apareceu muito povo e uma ambulância acabou por levar o tresloucado.

Quando teve alta, São Batráquio não voltou para nenhuma das suas igrejas. Caminhou sem destino e foi assentar-se num lameiro perto da foz do Sorraia, na freguesia de Póvoa de Santa Clara. Aí passou a alimentar-se de moscas, imitando as rãs. De vez em quando, oferecia punhados de moscas aos pescadores que por ali passavam. Foram eles que lhe criaram a fama de santo. As moscas que ele lhes oferecia eram um isco milagroso na pesca. E foram eles que lhe deram o nome. Na verdade, São Batráquio fora batizado como Eustáquio, mas a parcial semelhança fónica, os sons que emitia e a sua atividade de caça-moscas, como os batráquios, fizeram o resto.
Quando morreu de pneumonia, ergueram-lhe uma capelinha no meio do lameiro, toda forrada por dentro de painéis de azulejos com cenas da sua vida. Fazem-lhe uma festa em maio, a que acorrem quase todos os habitantes da Póvoa de São Batráquio — o novo nome da terra. A sua imagem, que ostenta na mão o atributo de um pequeno mata-moscas, é levada em andor em volta da capela. Dizem que ajuda nas artes da pesca e cura resfriados. 

Joaquim Bispo
(Nos 500 anos da morte de Jheronymus Bosch)

* * *
Imagem: Jheronymus Bosch, Tentações de Santo Antão (pormenor), 1505–1506.
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

* * *





sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Trova premiada






segunda-feira, 20 de novembro de 2017

DEPOIS DE ZULEIKA MORTA

O Professor Stênio aboletou-se na casa da filha tão logo se deu o sepultamento da esposa 
Zuleika. Não perguntou se podia ou não podia. Lucinha também não refletiu se poderia ou não poderia hospedar para sempre o pai viúvo. Jamil, o marido de Lucinha não foi ouvido, o que não 
faria diferença, porque voz ativa era coisa que lhe faltava. O neto único de Stênio, Jorginho, murmurou “hurra!”, pois, a ausência da avó seria preenchida por um avô daqueles de contar causos de verdades duvidosas, desfiar invencionices e charlar sobre bondes, Avenida Central e  Maracanã.

Nascia assim um novo arranjo de família. Pode-se dizer que Lucinha ganhou o pai novamente. 
Que Jamil ganhou mais um vivente que não lhe dava a menor importância. E que o adolescente 
de buço e mãos permanentes entre as pernas ganhara um irmão mais velho. Havia também na casa Maria das Graças que ganhava na mesa mais um comensal de suas delícias de forno e fogão. 

A falecida Zuleika: êta mulher enérgica. Não morava tão perto da filha no Rio Comprido, mas 
uma hora de bonde diariamente era suficiente para manter a pequena família sob seus cordéis, azucrinando a todos com o que já era sabido e vivido:
- Esse seu marido é uma banana. Um homem de fritar bolinho.

Lucinha engolia as intromissões por conveniência, mas virava onça quando a velha falava do filho.
- Esse menino diz que quer se médico. Mas nunca o vejo estudando. Vive com a mão no pinto, 
vai ver descobrindo a anatomia. Está na hora de fazer alguma coisa de útil.
- Meta-se com o pinto do seu marido, minha mãe!
- Aquilo, minha filha, é um gato de armazém. Vive dormindo em cima do saco. 
- Que chulo, Deus me perdoe ouvir isso.

E seguia-se um sinal da cruz.
Zuleika não tinha papas na língua. Seu definhamento fora providencial. Lucinha se libertava aos 
pouquinhos da mãe, sem que os grilhões da culpa de filha única fossem rompidos. Esmerou-se em cuidados com a moribunda até o último suspiro. 
Os primeiros momentos do luto foram chorosos e silenciosos. Mas o remorso veio a cavalo. 
Lucinha sentia que poderia ter feito mais pela mãe e ter tido menos impaciência com as bisbilhotices 
da matriarca.  
- Por que a chamei tanto de velha cacete? Por que, minha Nossa Senhora dos Arrependidos?

De nada adiantava recorrer à memória dos maus momentos, das chaturas e do nariz em pé. 
De nada servia lembrar das bengaladas que a velha distribuía na cama hospitalar montada em 
casa, relutando contra paliativos e rostos compadecidos de parentes que resolveram se despedir 
ou ao menos se certificar que Zuleika estaria partindo, padecendo como, segundo muitos, bem merecia.
- Eu não quero ver a cara urubulina da Cotinha. Ponha esta mulher daqui para fora.

O neto não entendia bem o que estava acontecendo. Achava que era tísica e que a penicilina resolveria. Sempre a visitava no cair da tarde, depois do colégio. Tinha um carinho cerimonioso 
pela avó, que o tratava como se fosse um filho. Ou um idiota de penugem no buço.
- Menino, tira essa mão de dentro da calça. Até no quarto de uma doente não perde essa mania.  
Vai nascer cabelo nos dedos.

Jorginho achava graça da rabugice da avó. E nos quadris insinuantes da enfermeira. Lembrava 
que o avô sempre lhe alertava para não se lambuzar de catarro da bexiga, coisa que só extraía na calada do banheiro e imerso em pensamentos delirantes pelo que escondiam aqueles quadris. 
Jamil era indiferente à moléstia avassaladora da sogra. Torcia por um breve desfecho, ah, com 
toda certeza. Em nada ajudava a mulher que se desdobrava em providências, compras de panos 
para fraldas, seringas, soros, balões de oxigênio e lotes de morfina, reuniões com os médicos, encontros secretos com Dr. Rodolfo, o clínico da família, que dispunha à Lucinha ombros, 
abraços e outros acolhimentos inconfessáveis.  Pouco Jamil falava com o filho que se esvaía em homenagens à enfermeira. Nunca se dirigia ao sogro, que assim como a esposa, 
o considerava um exemplar borra-botas. Jamil chegava da repartição cartorial pontualmente 
às 18 horas e mergulhava os ouvidos na Rádio Nacional. Jantava em silêncio e depois do 
Repórter Esso já babava na poltrona.

Quando se deu o óbito de Dona Zuleika, só Maria das Graças chorou. 
Stênio providenciou um funeral de primeira, resgatando a tradição de cavalos de penacho 
roxo puxando o coche envidraçado pelas ruas do Catumbi. Houve marcha fúnebre, coroas, 
rezas, homens com chapéu na mão e semblantes circunspectos sob véus pretos.
- Não sei por que papai vendeu a chácara na Ilha do Governador para comprar esse jazigo de 
granito com esse anjo de bronze. Coisa mais exibida. 

Na descida do caixão, os sentimentos de Lucinha não eram de saudade. 
O fim da enfermidade de Zuleika se dera como esperado. Cotinha exultou o rosto sereno da 
defunta, no que concordaram as outras comadres. 
- Deve estar feliz por se livrar de tanto traste em volta.

Na mesma noite, Stênio apareceu com a mudança. Três malas. Duas de roupas, uma só de livros. Deixava para trás a casa em São Cristóvão, onde já tinha tratado de alugar, a preço módico e
porteira fechada, a uma família aparentada distante. Stênio acomodou-se, sem pedir licença, 
no último quarto vazio do casarão do Rio Comprido. Precisava do convívio, mesmo que 
sorumbático, da família de Lucinha.

No jantar do dia fúnebre, Maria das Graças serviu galinha assada com batatas coradas, arroz de 
forno, farofa de miúdos e azeitona.
- Receita de Dona Zuleika.

Ninguém entendeu – ou quis entender – a homenagem da cozinheira. Todos se fartaram de chupar ossinhos e Stênio ensaiou um discurso com prenúncios de verborragia infinita.
- Que a memória de nossa Zuleika esteja presente nessa casa...

Não terminou a frase. 
- Nos poupe, papai. Deixe a mamãe em paz.

E todos se recolheram sem dar mais um pio. 
E assim o luto foi se dissipando, cada um com seu jeito de lidar com a morte. Apesar dos altos e baixos de Lucinha, a vida entrava nos eixos – o que se há de fazer? -, como se um alívio restaurador tivesse substituído as agruras de uma doença perversa.

Passado mais de ano, tudo seguia na normalidade imposta pelos novos tempos, em particular pela presença espaçosa do viúvo. Havia sinais de novas rotinas.  
- Das Dores, minha filha, com o perdão do trocadilho: essa sua rabada é dos deuses. 
- Modos, papai. Todo jantar uma troça?

Novos hábitos se sucediam. Um aparelho Gillete Monotech passeava dia sim dia não ao redor 
da boca, pelo queixo e bochechas de Jorginho. Mais raparigo e sabedor da doença da 
avó, concentrou-se no exame para a Escola de Medicina: resolveu ser oncologista. Jamil não
deixou de ser o macambúzio de sempre, mas passou a dar bom dia, boa tarde e boa noite, e a tecer 
elogios entusiasmados às receitas de Dona Zuleika, que Das Graças servia a todo jantar. 
Nem babava mais na poltrona. Mesmo sem sucesso, animava-se em procurar Lucinha sob 
os lençóis.

Certa noite, o rapazola insone levantou da cama. Avançada madrugada, passou serelepe pelo 
filtro de barro na cozinha e ao primeiro gole percebeu um vulto se esgueirando no quintal. 
Quase borrou-se.
- Quem está aí?

O vulto desapareceu por trás do tronco da mangueira. Jorginho insistiu trêmulo.
- Quem está aí?

Quem estava disposto a prestar exame para Escola de Medicina deveria estar preparado para 
os sustos da vida. E assim, entre peidos nervosos e mãos suadas, Jorginho chegou de mansinho 
ao centro do quintal, onde uma única árvore se postava equidistante entre o casarão e as 
dependências de serviço. 
- Sou eu. Seu avô.
- A essa hora?
- Desde que Zuleika morreu, não tenho um sono inteiro. Chegue aqui perto. Olhe o céu como 
está estrelado.
- O senhor acredita que vovó virou uma estrelinha?
- Talvez. Converso com ela, quando as nuvens deixam. Tenho coisas a dizer que não foram ditas.

Os dois se juntaram mais ainda num abraço cúmplice. Olhavam para o céu. 
- Como estudante das ciências, não deveria estar fazendo essa pergunta. Mas qual delas é a velha Zuleika?
- Agora não sei mais. Ela aparece e desaparece.
- Como assim?
- Mistérios de Dona Zuleika. Agora, vejo estrelas solitárias vivinhas da silva. 
- Eu também, vô! Aquele ali, aquele ali é o Garrincha, não é?
- Isso. Mais atrás o Didi e o Nilton Santos.
- Claro. As estrelas solitárias que nos conduzem.  
- Guarde bem esses nomes, Jorginho. Olhe bem para eles. Ano que vem tem Copa do Mundo na Suécia. Dessa vez, vai. Eu sei que vai. 

O encanto de avô e neto abraçados no quintal foi percebido por Jamil, que ao abrir sorrateiro 
a porta da cozinha para o quintal, tremeu-se e deu meia volta. Foi tão rápido quanto desapercebido.
Stênio e Jorginho voltaram abraçados a seus quartos. Despediram-se com fervor. Jamil chegou esbaforido na cama, onde Lucinha dormia como um prego de barriga para cima, rígida, mãos cruzadas, como se imitasse a mãe morta. Ela agora estava com essa mania. 

Entre novas manias, contemplações noturnas, silêncios, eloquências inesperadas, hábitos estranhos 
e jantares soberbos, a vida trilhava seu curso. Até que num fim de uma tarde, Lucinha deu a notícia:
- Maria das Graças foi embora.

Não fosse um acesso de tosse de Jamil, o silêncio seria total.
- Alegou a moça que precisava voltar para a Bahia. Saudade da mãe. Disse que temia não a ver mais, conforme se deu com mamãe.
- Você deixou, mãe?
- Não só deixei, como acertei suas contas e lhe paguei passagem de ônibus. A essa hora deve estar para lá de Magé. Mas não se preocupem. Amanhã mesmo Tia Cotinha vai mandar uma substituta. 
E Das Graças deixou um bobó na panela.

O jantar foi degustado sem prazer nem palavras. Seguiu-se um caminhar cabisbaixo cada um para 
seu canto. Nem Repórter Esso foi visto naquela noite. Muito menos as estrelas.

Cinco ou seis meses depois, numa manhã de sábado, o carteiro apareceu com três envelopes. 
Para o Professor Stênio, para o Senhor Jamil e para o “Doutor” Jorginho. Por sorte, todos 
estavam em casa, menos Lucinha: dia de feira. 
Estranharam os três os envelopes, principalmente pela ausência de remetente. Mas o selo com carimbo de Salvador – BA os fez tremer. Partiram para longe um do outro e às escondidas 
abriram a correspondência. Não havia palavras. Apenas uma fotografia em preto e branco de 
uma pessoa sorridente, sestrosa e conhecida. Nua. Frontalmente nua, no pé de um coqueiro. 
Cabelos castanhos fartos em caracóis, corpo moreno, ancas bem moldadas, mamilos rijos escurecidos, densos pelos no triângulo abaixo do umbigo. E sob o ventre, mãos entrelaçadas amparavam uma proeminência visível como uma melancia, de uns cinco ou seis meses crescentes. 
- Retratista, capricha na fotografia. É pra mandar pra gente que bem me quer.

O recado estava dado. 
Jamil queimou o retrato e jogou o que restou no vaso sanitário. Espalhou alfazema no banheiro 
para disfarçar o cheiro de papel queimado. Arrumou-se de qualquer jeito e partiu em desespero 
para o armazém, onde comprou chumbinho de matar rato. Jorginho escondeu a foto entre a
coleção secreta de revistas de desenhos de amores explícitos. Só para matar saudade.
O Professor Stênio vestiu colete, gravata e paletó, em cujo bolso escondeu a fotografia. Pegou 
o bonde rumo ao cemitério do Catumbi. Ao chegar lá, comprou flores e dirigiu-se ao jazigo 
de Zuleika. Dispôs a foto da Maria das Graças nua nos pés do anjo de bronze, ajoelhou-se, 
rezou um Pai Nosso, uma Ave Maria e encerrou as orações:
- Gato de armazém é a puta que te pariu. Amém. 





sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Hermenêutica - Poema de Hugo Lima



Hermenêutica




 noite de hotel
 hóspede da Lapa
 ouço risos e talheres
 num samba-canção


      descer
      ou reler Foucault?
      entornar Nietzsche
      nos copos de cerveja


 pagar as despesas
 que a filosofia me deixou
 (até quando?)














quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Beco

Não tenho janela que dê para cena bonita. Nem para um jardim visitado por pássaros bica-latas em frenesi de busca a um banquete de migalhas. Nada de flores sem-vergonha se oferecendo aos olhos como damas da noite. Nenhum parque onde crianças e idosos exponham o inevitável ciclo tese-antítese — irracionalmente injusto e belo — dos começos e fins.
Mas tenho o beco.
Durante anos, me recusei a olhar pelas vidraças. Nem mesmo um debruçar para que as narinas sentissem os cheiros ordinários das histórias urbanas; humanas, inumanas. Limitei minhas percepções ao para cá das cortinas sempre fechadas em todos os cômodos. E me deixei encaixotar por paredes seguras, por um teto limpo, linear, por um chão sem terremotos.
Quando as vozes me subiram da rua até os ouvidos de primeiro andar, dediquei-lhes a leve rotação de cabeça que permito aos incômodos, às coisas insignificantes, a tudo que está fora de lugar. Eram apenas pessoas trazendo alguns tons de plenitude ao meu espaço blindado. Mas as vozes ficaram, desde então. Recorrentes. Nítidas.
Três homens. Um deles denuncia a idade nos conselhos que dá aos outros dois. Em cada frase, a contrapartida de um alerta, de um já aconteceu comigo. É um velho. E os mais jovens se divertem com ele.
Às vezes, um deles não vem. E eu me pergunto o que estará fazendo. Desconforta-me não saber. Uma sensação que só mais tarde identifico como falta. Cada ausência, uma história inacabada. A namorada indecisa entre ceder ou guardar para futura chantagem uma virgindade a ser negociada a casamento. Um sofá em que quase tudo acontece entre as idas e vindas de um pai zeloso à cozinha. E no qual os sonhos de uma moça sem rosto se misturam ao tesão de um rapaz sem intenções. Cada ausência, outra história sem desfecho. O desespero do rapaz de voz grossa. Dívidas e os empréstimos que nunca deveriam ter sido feitos. E novos empréstimos. Um segundo emprego para fazer mais dinheiro. Uma crença perversa nos jogos de loteria.
O velho me irrita. Não gosto dele nem das suas rotas de fuga desgastadas. A bebida revelada no arrastado das frases; a ostentação de uma força inexistente; o óbvio sentenciado como verdade. Não gosto do descaso com que fala da própria mulher e do câncer que a tem levado aos poucos. Detesto gente em negação. Gente que não se quer realidade. Que não aceita sofrer, que olha para o outro lado para não fazer parte das dores, que se entrincheira em salas e quartos confortáveis, seguros, limpos, lineares, sólidos. Gente que cerra cortinas.
Hoje, me desenfreio. A janela aberta liberta meus olhos ávidos. Encostados à porta dos fundos do pequeno restaurante italiano, três homens falam e fumam. E eu vejo as vozes pela primeira vez. 
É apenas outra noite de conversas e conselhos. Uma noite de beco.





quarta-feira, 15 de novembro de 2017

este Novembro deu-se




Nem sei se estou aqui, se ainda estou lá, mas, ainda assim, conto.

Era uma praça. Um espaço amplo. 
Eu tinha lá chegado vinda da cidade e queria  ir adiante.
Ontem, como hoje, era este mês de Novembro. 
Era este mês de Estio quase em Dezembro.
Dava-me em cheio na nuca, um sol muito quente e eu com o pescoço a descoberto do cabelo que costumo ter solto mas trazia atado num desgracioso carrapito.
Eu de pele nua àquele sol de quase Inverno a brilhar com despudor de Julho.
A acrescer, aquela praça mais e mais imensa a cada passo que ía dando.
Comecei a ficar mole, febril, com tonturas e com tremores, e uma dor dispersa irradiou como se fosse de ferida nas tripas ou no peito ou no sangue.
Deu-me azia e, geladas, pingaram-me da testa umas bagas grossas que me escorrerem sobre o rosto, o pescoço e o peito que eu trazia descoberto num decote generoso, neste mês de loucos.
E nem um pensar solto, criativo, que me resolvesse a questão que parecia simples mas que, pastosa, se movia nos meus lábios sem solução.
- Como faço eu para sair deste largo.
E eu nem sequer mais um passo. Eu desistindo, que não havia rua para me levar dali a outro lado, e nem porta de prédio ou janela que eu abrisse para safar-me daquele sítio. Nada de nada, a não ser espaço. Dali ao infinito, nem um muro, nem uma parede, um poial, uma escada, um pedregulho. Um buraco no chão, que fosse.
De um e outro lado, espaço, apenas espaço.
Qualquer que fosse a direcção em que eu olhasse, apenas espaço, e eu a ficar mole, eu com azia, eu com tremores e umas bagas frias a pingarem-me da testa e a escorrerem-me, geladas, sobre os seios, o ventre, os dois dedos grandes, o direito e o esquerdo dos meus pés parados.
Eu sem ter para onde ir e tanto espaço.
- Como faço para sair deste largo?
E ninguém que me respondesse.





quinta-feira, 2 de novembro de 2017

HOMEOPATIA - parte II












Recusa

Ela torcia o nariz para todos os pretendentes que o pai lhe apresentava. Enquanto isso, o vestido de noiva feito pela mãe amarelava no armário.


Dressed to kill

Quando ela punha aquele vestido vermelho, dizia estar “vestida para matar”. A cruel assassina em série foi presa ontem.


Ecumênico

Ele, judeu; ela, muçulmana. Não precisavam de sinagogas ou mesquitas para saber que nem só de ódio vive a Faixa de Gaza.





sábado, 28 de outubro de 2017

REDENÇÃO



Aquino, quanto tempo um homem deve trottoir por São Paulo antes de te encontrar? Jamais pensei que te acharia na São Bento, dentre os alfarrábios da Casa Eclética. O que fazes aqui, afinal? Não me diga que abandonaste a aguardente e as mulheres, pois se me disseres tal heresia, hei de nunca mais falar contigo. Meu velho amigo, bem gostaria eu de contar-te as novidades que trago do Norte em uma mesa de bar, dentre putas e boêmios, mas pretendo debulhar meu rosário aqui mesmo, senão, sofrerei um destes faniquitos que sempre acometem castas moças no ato do defloramento. Anda, Aquino. Larga deste Lérmontov, senta-te ao meu lado e deixa-me vender minha prosa.

No porto do Ceará não se embarcam mais escravos, nobre colega. Sim, eu sabia que seria essa expressão de paspalho que em teu rosto eu vislumbraria assim que tu soubesses das boas novas que trago de Fortaleza. Uma patota liderada pelo João Cordeiro e empenhada no movimento abolicionista desdenhou da opinião do Imperador e libertou seus escravos sem a benção da Coroa. Quanta coragem! Que revolução! José Amaral, o Teodorico da Costa, o Cruz Saldanha, Alfredo Salgado, Manoel Albano, o Teixeira Júnior, enfim, os abolicionistas do Perseverança e Porvir despertaram repulsa dentre os cearenses quanto ao tráfico de negros para os centros cacaueiros e cafeeiros, criando um intenso movimento emancipador. O mulato que conheceste quando estivemos em casa de meu pai e com o qual tiveste uma desavença, aquele mercador de escravos que atende pelo apelido de Chico da Matilde, resolveu que nunca mais embarcaria escravos para o Ceará e ainda bateu o pé, firmando o ultimato de que não permitiria que mais ninguém o fizesse. Tudo isso com o apoio dos jangadeiros, do inspetor da alfândega e do agente da Polícia Militar da Marinha. Até mesmo as senhoras estão vendendo suas joias e promovendo leilões com a finalidade de comprar liberdades, homem de Deus. Escutaste-me, Aquino? O Brasil está prestes a livrar-se da vergonha da escravidão! Tu não imaginas como estão afogueados os humores daquela gente. É de nos fazer verter lágrimas de pura comoção, rapaz. O que estes olhos presenciaram no Norte do país foi algo de uma beleza estonteante, participei de um momento histórico, de uma transformação profunda na sociedade que conhecemos.

Mas há um causo ainda mais peculiar que certamente servir-te-ás de inspiração para a tua ferina prosa poética de escárnio. Há quatro meses, uma vila de nome Acarape alforriou de uma única vez cento e dezesseis cativos. A maioria deles, escravos comprados pela Sociedade Libertadora Cearense. Todavia, um comerciante local de nome João Brasilino libertou seus dez negros por vontade própria, sendo ele ovacionado pelos batutas da abolição. Mas isso não é o mais curioso na história desse mártir cearense, meu bom Aquino. Escuta-me, escuta-me. Tu não fazes a menor ideia do acontecimento escatológico que irei narrar-te agora.

Pois bem. Esse justo sertanejo de nome João Brasilino trata-se de um velho viúvo que carrega na algibeira dignidade e lucidez que raramente habitam um homem analfabeto de pai e mãe. Criou sozinho seus três filhos homens: Francisco Ageu, Antônio Agildo e Raimundo Agobar. Nunca mais quis saber de mulher, manteve-se fiel à esposa morta, sem se deitar com quengas ou amigar-se com viúvas jovens, capazes de esquentar-lhes as costas e descer a vara da educação em seus filhos. Permaneceu ele assim, sozinho, cuidando de seu armazém e criando seus meninos que, curiosamente, cresceram partilhando o mesmo incômodo desvio, o que despertava mexericos por toda a Vila do Acarape. Aquino, o que me dirias tu se eu te confidenciasse que os três moços filhos de João Brasilino, sem tirar nem por, são três meninas? Não faça esta cara, meu amigo. Não atravessei o país para encontrar-te aqui sentado diante de mim a duvidar de minhas palavras. Juro por minha santa avozinha que tanto amei em minha infância que os três rapazes são mais delicados que a nossa querida Luana das Sedas, todos moldados em uma forma da qual só deveria sair donzelas. Vestem-se como homens, muitas vezes deixam a barba por fazer, pegam pesado no trabalho árduo do armazém do pai, mas, quando param para descansar e tomar a fresca, relaxam na macheza e perdem-se em sorrisos e gracejos, trocando ideias sobre os folhetins que leem, olhando indecorosamente para traficantes e escravos, como se não os distinguissem... Como se fossem moças de família com licença para agirem libertinosamente. Sempre afogueados, sôfregos, transgredindo regras sociais com uma indiscreta naturalidade. As pessoas parecem ignorá-los, tão imersas encontram-se no processo abolicionista. Não entendo como em terra de cabra-macho ainda não deram uma sova naqueles três rapazolas. Talvez por respeito ao pai. Não sei, não sei. Tudo que posso dizer, Aquino, é que os filhos aflorzoados de João Brasilino ― Ageu, Agildo e Agobar ― tornaram-se tão familiares e misturados à geografia do Maciço de Baturité quanto os índios Potiguara, Jenipapo, Canindé e Choró. As pessoas riem, fazem um comentário malicioso aqui e acolá, mas ninguém os quer mal. Peguei-me dentre aquele povo quase por completo sem nenhuma instrução e percebi-me não como o homem educado e de trato europeu, mas como um sujeito repleto de preconceitos que, paradoxalmente, clama pela libertação dos negros e ao mesmo tempo desejava em segredo que aqueles três moços fossem corrigidos pela chibata e retornassem ao patamar das coisas tidas masculinas. Acredite-me, Aquino. Os tempos são outros e a liberdade terá que chegar para todos, inclusive para os homens-dama. Anda, filhote. Segura esse queixo, pois o melhor eu deixei para o final. O quê? Não percebes? Sim, Quiquino! Ainda tem mais.

Sete dos negros alforriados de João Brasilino se embrenharam no meio do mato e ninguém nunca mais teve notícia deles, talvez tenham feito isso por temerem que aquela febre de liberdade passasse e novamente fossem arrastados ao pelourinho e aos ferros. Ou seja, fugiram da Vila do Acarape para nunca mais voltar. Fossem os homens públicos abolicionistas ou escravistas, para eles não importava, eram todos brancos. Apenas três negros permaneceram sob a guarda de João Brasilino e continuaram trabalhando por livre e espontânea vontade no armazém do homem que um dia fora seu dono: Talo Grosso, José de Arimatéia e Domingos. Não me pergunte o nome de batismo daquele lá, que não sei, Aquino, e sua graça é o que menos importa a esta prosa. Segura na mão de Deus, companheiro republicano, e prepara-te para o desfecho desta farsa. José de Armateia amigou-se com Agobar, Domingos com Agildo e o destemido do Ageu entregou-se aos afagos pungentes de Talo Grosso. Ah, não ria, meu amigo, que o negócio é dos sérios. E o mais estranho é que não houve escândalo algum e o armazém do João Brasilino vende mais que nunca, talvez pela novidade.

O quê? O velho? Se morreu? Tu nem sonhas, coitadinho. O velho, se morre, é de afeição pelos genros de cor. Abençoou a união de seus três filhos como se estivesse a casar na santa igreja três cocotes. Acontece ali uma revolução de costumes, Aquino. Poder-se-á em um futuro próximo chamar àquele povo de parisienses do Rio Pacoti.

Pois é, rapaz! Quantos giros deu o mundo! José do Patrocínio nomeou o Ceará de Terra da Luz; não pela sua luminosidade tropical, mas por ter abolido a escravatura antes de qualquer outra província do Brasil. Quanto ao Chico da Matilde, não o chamam mais assim, foi cognominado Dragão do Mar. Já a Vila do Acarape, depois dos negros alforriados e dos filhos de João Brasilino que se amancebaram com escravos libertos, não tardou em mudar de nome. Agora se chama Redenção.

Emerson Braga

25/03/2013





quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A mulher que a gente quer ser



A gente que é mulher quer ser um mundo de coisas (astronauta, arqueóloga, estudante, artista, freira, presidente, estrela). A gente sabe que pode e gosta de ser tudo quanto é treco junto. A gente é forte, tem um plus a mais excedente extra multiplicado. A gente é muito, um tudo a gente é.
Então por que tantas vozes, quase o planeta todo, as galáxias inteiras entoam, insistem que a gente só é, só pode querer ser mulher? E por que tantas famílias, feudos, igrejas, nações, árbitros, reinados, gerações, acordos, dinastias, estatutos, tantos universos ficam zombando da gente, diminuindo essa competência, esse poder de ser tanto, muito mais? Virou mania, hábito ruim, vício dos infernos encher o peito, engrossar a voz, apontar o porrete pra gente dizendo que a gente é nada, a gente é só mulher. Que ângulo miúdo, redução descabida, que miséria de interpretação pra gente, meu Deus!
Quase terceira década do século XXI, tanto drone, androide, cada sistema tecnológico sinistro, artifícios, prótese cardíaca, clone, tribuna virtual, a ciência reproduzindo coelhos e informações em nuvens, e a gente ainda sendo desrespeitada, e nossa fala mimimizada. E a gente vem de uma luta do sempre, desde a tetravó, hecatovó, desde que nasceu com vagina (e com clitóris, esse sujeito incompreendido), desde que menstruou, pariu, ganhou ruga — luta que vai continuar depois do nome tinto na lápide. A gente pelejando, com delicadeza ou ira, elencando argumento contra o preconceito, contra a violência doméstica, contra o desgaste da tripla jornada de trabalho, a desigualdade salarial, as cantadas rasteiras, a indiferença, contra o estupro e a culpa que impõem à estuprada, contra a impunidade, a fofoca, contra os padrões estéticos, contra os odiosos manterrupting, bropriating, gaslighting e todas essas violências de gênero até ontem sem nome, mas que se repetem há eras.
Ano 2017 depois de Cristo Jesus (filho de Maria, aquela que foi o sacrário vivo, Mãe de Deus e nossa), e a gente aqui desenhando que as tarefas domésticas precisam ser divididas, os cuidados com os filhos devem ser compartilhados, que a gente tem direito ao lazer, ao estudo e ao trabalho digno, que a gente é dona do próprio corpo e não deve ser apenada por envelhecer. Ah, que canseira! A gente querendo registrar a verdade da gente, mas tendo de escrever tudo ligeiro, porque a gente não pode parar nunca. E a gente pelejando pra ser agente da própria liberdade transformadora, a gente desejando decidir a mulher que a gente quer ser.

Manterrupting: Quando um homem interrompe uma mulher constantemente, de maneira desnecessária, não permitindo que ela consiga concluir sua frase.
Bropriating: Quando um homem se apropria da mesma ideia já expressa por uma mulher, levando os créditos por ela.
Gaslighting: Abuso psicológico que leva a mulher a achar que enlouqueceu ou está equivocada sobre um assunto, sendo que está originalmente certa. É um jeito de fazer a mulher duvidar do seu senso de percepção, raciocínio, memórias e sanidade.

Definições: http://movimentomulher360.com.br/2016/11/mm360-explica-os-termos-gaslighting-mansplaining-bropriating-e-manterrupting/



Maria Amélia Elói, crônica publicada na antologia Mulherio das Letras - Contos & Crônicas, volume 3, Ed. Mariposa Cartonera.







quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Meia dúzia de safanões


«O novo panorama terrorista mundial obriga-nos a gastar muitos recursos e a equacionar outras formas de guerra.» — alertava a caixa introdutória do artigo da revista. O assunto interessava a Patrício Neves. Verificou as outras “gordas”: «Até aonde devemos ir no combate ao terror? De quanta humanidade estamos dispostos a abdicar? Devemos aceitar descer aos níveis de desumanidade dos terroristas, desde que nos salvemos e aos nossos compatriotas?»
Enquanto os colegas analisavam o conteúdo de uma escuta à comunicação de um suspeito, foi lendo o corpo do artigo. De repente, cresceu a agitação à sua volta. Parecia que as semanas de vigilância nas comunicações tinham dado frutos. Hasnain, o intérprete que trabalhava para os serviços secretos, foi perentório:
Bomba! Eles falar em bomba. Falar “Baixa-Chiado”. Passar gravação outra vez!
Não foi possível detetar a origem da chamada, mas o SIS já conhecia a morada do recetor: uma casa decrépita na zona da Mouraria.
Eram sete e meia da manhã quando os agentes entraram na rua do Capelão, já de saídas bloqueadas. O suspeito, um paquistanês de menos de 30 anos, não ofereceu qualquer resistência. Uma busca minuciosa encontrou uma dúzia de telemóveis e uns vinte sacos, de cinco quilos, de farinha. Antes das nove, iniciou-se o interrogatório nas instalações dos Serviços. Ahmid, o suspeito, garantia que não sabia quem lhe tinha telefonado.
Tu não me venhas com tretas! Quem é que te telefonou? Era uma ordem para um atentado? Fala, senão faço-te engolir esses dentes! — irritava-se o agente Moreira.
Eu não sabe. Telefone tocar, Ahmid ouvir.
Parecia sincero, mas com terroristas nunca se sabe.
Mas quem foi e o que queria?
Não sabe. Falar Lisboa, perguntar loja fruta.
Não se passou disto toda a manhã, até que, pelas duas da tarde, os quatro agentes envolvidos na detenção, cansados e irritados, resolveram fazer uma pausa para comer qualquer coisa. Um deles sugeriu uma conhecida adega do Lumiar, ali perto. Àquela hora já devia ter lugares.
Assim que se sentaram, veio o assunto de serviço à baila:
Eh, pá, não podemos ficar nisto, conversa, conversa… e nada — equacionava o Martins.
E uma chapada de vez em quando — brincava o Mendes. — Só para aquecer…
Isto se fosse na América não ficava por aqui. O Trump já disse que os serviços lhe garantiram que a tortura resulta — lançava o Moreira. — «Absolutely!»
Eles lá não são de modas. Vai tudo a waterboarding — concordava o Martins.
Mas eles não tinham proibido isso? O Obama!
Esta cena da verdade alternativa, de que agora se fala muito, já tem muita tradição por aquelas bandas — teorizava Neves, o mais calado. — Eles têm um problema com a verdade. Condenaram a Manning; e vão engavetar o Snowden e o Assange, se os apanharem lá. A verdade está amordaçada e emparedada nas masmorras da Administração.
Eh, lá! Temos poeta — ironizava o Mendes.
Quando atacaram o “borrego no forno”, passaram a falar abertamente da técnica de tortura conhecida como waterboardind ou afogamento simulado, talvez por uma mórbida associação de carnes indefesas.
Dizem que aquilo resulta mesmo. Porque o tipo com o pano encharcado na cara não consegue respirar, porque, se respirar, respira água. Se a água entra na faringe, o tipo engasga-se e a sensação de morte iminente por afogamento é avassaladora — explicava o Martins.
Eh, pá, como é que sabes isso tudo? — perguntava o Mendes. — Andaste a pesquisar... Não me digas que queres aplicar isso ao nosso Ahmid?
Mendes! Porra. Contém-te! — ralhou o Martins, que parecia a voz que congregava as dos outros. — Mas temos da fazer alguma coisa — adiantou em voz baixa, enquanto rastreava o resto da sala.
Eu também acho — apoiava o Moreira. — Até uma gaja como a Meryl Streep disse uma vez que, meditando sobre o assunto, chegou à conclusão que, se a tortura de um suspeito de terrorismo evitar milhares de mortos, então acha a tortura aceitável.
Nem de propósito — atalhou o Neves, enquanto sacava do bolso interior do casaco a revista que estava a ler nessa manhã. — Em 1932, Oliveira Salazar dizia isto: “Os presos maltratados eram sempre, ou quase sempre, temíveis bombistas. Só depois de empregar meios violentos é que eles se decidiam a dizer a verdade. E eu pergunto a mim próprio se a vida de algumas crianças e de algumas pessoas indefesas não justifica, largamente, meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras.” Salazar e Meryl Streep, a mesma luta...
— “Meia dúzia de safanões”… O tipo era um cómico — ironizava o Mendes, refeito.
Eh pá, não vamos misturar — reagia o Moreira. — Esta gaja é lá dos direitos humanos e dessas merdas, que agora até disse, referindo-se ao Trump, que “desrespeito convida ao desrespeito e violência incita à violência”.
Adoro coerências — adiantou o Neves. — O desrespeito do Trump incomoda-a, mas estava disposta a torturar prisioneiros.
Para salvar vidas…
Eh, pá, se a gente cede nos princípios, às tantas estamos a fazer o mesmo que os terroristas — reincidia o Neves.
Nós estamos a defender os nossos concidadãos. Esses terroristas não têm nada que ver com os nossos valores, com a nossa cultura. Se for preciso dar a volta a algum… temos pena.
Os nossos valores... antes ou depois de torturarmos pessoas?
Arre, que é estúpido! — exagerou o Moreira. — Desculpa. Ó Neves, porra!; não somos todos iguais. Eles são outra coisa. E se ainda por cima nos querem matar…
Eu também já li — defendia-se o Neves. — Parece que aquilo é lixado. Mesmo que o tipo desconfie que é simulação, nunca tem a certeza. A aflição é aterradora. O tipo fica traumatizado durante muito tempo. E há tipos que desistem e deixam entrar demasiada água nos pulmões e, se não morrerem, ficam com sequelas graves. Mas o mais ingrato, nesta cena de torturar ou não torturar, é que os resultados não são fiáveis. Um tipo nessas circunstâncias diz qualquer coisa para se livrar do que lhe parece uma morte certa.
É isso que é preciso, que fale, que diga o que nos interessa. Achas que um tipo a afogar-se vai pensar em dizer uma mentira? — racionalizava o Martins.
Se ele não tiver uma verdade para dizer, ou se a verdade que está a dizer não for aceite, ele diz o que lhe vier à cabeça. É o caso dos inocentes.
Sempre me saíste um lírico, ó Neves… Achas que aquele tipo que lá temos está inocente? Achas que não sabe quem lhe estava a telefonar? O Hasnain ouviu bem falar em bomba. Eh, pá, temos que dar este pequeno passo. Para defendermos a vida dos nossos concidadãos, que é a nossa missão sagrada. Ficas de consciência tranquila se falharmos e explodir uma bomba na estação de metro da Baixa-Chiado? Era uma carnificina.
O Mendes tinha-se calado de vez. As piadas não cabiam ali. O Moreira estava intimamente satisfeito com a argumentação do Martins. Concordava a cem por cento. O Neves sentia-se desconfortável, mas tinha dificuldade em arranjar argumentos. Não era fácil contrapor postura humanista, civilizacional, ao perigo de atentado potencial. Como arriscar? Havia uma enorme assimetria de risco envolvido.
Sem autorização de cima, temos de ser muito cautelosos. Não podemos forçar demasiado. Se o tipo não falar às primeiras, paramos, ok?
De regresso aos Serviços, passaram o resto da tarde com perguntas marginais.
Para que queres tanta farinha em casa? É para fazer uma bomba lenta?
Fazer frito, senhor. Ahmid vende na loja.
E os telemóveis?
Ahmid arranja.
Depois de todo o pessoal administrativo ter saído, levaram o suspeito para uma garagem e amarraram-no de costas sobre uma bancada, com a cabeça um pouco mais baixa.
— “It’s now or never”, Ahmid. Ou falas agora ou já não falas mais. Quem é que te telefonou?
O paquistanês apresentava um olhar aterrado. Até ali, tudo tinha sido mais ou menos esperado, mesmo as bofetadas. Agora as movimentações dos quatro homens indicavam que vinha aí violência extrema. Esqueceu-se até de responder. Um dos agentes colocou-lhe um pano sobre a cara, enquanto outro começou a verter água de um jarro sobre a zona entre boca e nariz. Ahmid manteve a boca fechada por uns momentos, sentindo alguma a inundar o nariz e a entrar para a garganta. Aguentou quase meio minuto sem respirar, mas um engasgamento irrefreável tomou conta do seu corpo. Conseguiu expelir alguma água, mas outra entrava e nenhum ar. Tossia água para fora e para dentro. Começou a estrebuchar violentamente. Uma angústia terrível assaltou-o. O coração ribombava. A morte devia ser aquilo. Lançou um último e desordenado pensamento para o seu jovem irmão que ficara no Paquistão.
Quem é que te telefonou? — foi o som que se ordenou um pouco, depois de lhe tirarem o pano da cara. O coração batia freneticamente. Inspirou num urro, tossiu convulsivamente, sentiu o ar a queimar nos pulmões. — Quem, quem? — repetia a voz. Antes que lhe colocassem o pano de novo sobre a cara, Ahmid gritou:
Allahu Akbar!
Eu não disse? — afirmava-se o Moreira, segurando o pano ensopado sobre o rosto de Ahmid. — Dá-lhe mais!
Pessoal, calma! Tínhamos combinado não exagerar — afligia-se o Neves.
Alguns sons sarcásticos dos colegas foram a primeira resposta.
Ó Neves, estamos nisto juntos — ripostou o Martins. — Se não assumes as tuas responsabilidades, sai daqui. Cá estão os colegas para fazer o trabalho que o menino não quer fazer. Sem problema. Vai! Vai lá! Mas já sabes… Não fales disto a ninguém, ok? Ok?
Neves aceitou a sugestão ordenada e humilhante. Meteu-se no carro e foi para casa, profundamente deprimido. Sentia-se incompetente e desenraizado. Começava a questionar seriamente a sua vocação para agente secreto. Parecia ser uma questão de estômago.

Joaquim Bispo

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Imagem: Fernando Botero, Abu Ghraib (série), 2005.

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(Este conto integra a coletânea Civilização e Barbárie da Revista Gueto, 1º semestre de 2017, edição especial, pp. 63–68.)

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