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domingo, 20 de agosto de 2017

ELISE

Hoje não tem conto. Nada de ficção, nada de invencionice. Talvez um ou outro número
impreciso, alguma cronologia fora do lugar, desimportâncias, enfim.

Fui acometido de uma vontade de desengasgar um personagem que durante tempos
frequentou a minha infância e adolescência como uma irmã que não tive
(só vim a conhecer o amor fraternal de verdade aos 21 anos) ou como uma companheira,
testemunha, cúmplice, sei lá, das minhas primeiras descobertas da vida,
nas quebradas da década de 50 para os anos 60: Elise.

José meu pai era fazendeiro, hobby quase profissional que mantinha em paralelo à sua
carreira sob o protetor e provedor Banco do Brasil. A fazenda era bem próxima ao Rio e
como todo fazendeiro, mantinha famílias de peões que trabalhavam na propriedade.
Uma dessas famílias era constituída por uma senhora de uns 40 anos, de nome Iraí,
abandonada pelo companheiro, alcoólatra (ele e ela), que vivia num casebre de
pau a pique e sapê, onde cuidava como brava boiadeira de um curral de triagem no meio do mato.
Dona Iraí, mãe de dois casais de crianças: Elvino, Edino, Elise e Eliete, trabalhadeira de dia,
bebum à noite, criava a prole ao Deus dará, sendo que os meninos mais velhos já se
encaminhavam para os Batalhões de Infantaria da região. Restavam as meninas. Meu pai e
uma de suas seis irmãs resolveram criar as quase mocinhas de Dona Iraí. Elise aos 9 anos
foi lá para casa e Eliete, de 8, para a casa da minha tia.

Eu tinha 6 anos quando Elise chegou num fim de tarde de domingo, carregando roupas e coisas numa sacola das Casas da Banha e um par de olhos que mais pareciam dois holofotes sob lacinhos de fita,
foi apresentada como a menina que iria me fazer companhia e cuidar de mim, já que minha mãe
trabalhava muito como professora e meu pai vivia atarefado entre o Banco, a fazenda e o tênis.

Isso foi o que me foi dito.

Na verdade, fui perceber bem mais tarde, que Elise era consequência da sociedade vigente,
ainda entranhada por resquícios de “Casa Grande e Senzala”, onde patrões rurais tinham o
hábito acolher crianças de seus peões em troca de serviço.
No caso de Elise, havia tudo isso, mais um ordenado justo, casa, comida e roupa lavada, médico,
dentista, tudo com total dignidade. E assim foi morar lá em casa, para ajudar a cozinheira,
fazer os trabalhos domésticos e me arrumar para a escola. Minha mãe, professora da rede pública,
não tardou em ajeitar um curso supletivo para Elise, embora já tivesse a menina chegado sabendo
ler, escrever e contar.

Na sua primeira semana, ao primeiro toque de telefone que ouviu, meteu-se debaixo do
beliche do seu quarto. Tempos depois, me confidenciou que ficou com medo da estridência
nervosa vindo sabe-se lá de onde. Na sua imaginação, telefone era um espaço imenso onde
a pessoa entrava e era abduzida a um outro mundo, onde uma voz do outro lado – também
sabe-se lá de onde – estabelecia um contato com o desconhecido. Imagine. Sem perceber,
estava eu diante de uma ficcionista científica, daquelas que o correr do tempo poderia
revelá-la gênio ou idiota.

Nem uma coisa nem outra.

Elise era a sinceridade e ingenuidade em pessoa. Certa vez foi comprar pão. Esperta,
logo aprendera as tarefas mais corriqueiras. Na volta da padaria, deslumbrada com outro
advento da tecnologia que havia descoberto -  a campainha da porta -  tascou o dedo
no botão durante minutos eternos.
- Pééééééééééééééééééééééééééééééééééééém!

Neste dia, meu avô estava lá em casa. Com estranheza, abriu a portinhola da porta
e viu o sorriso iluminado de Elise, debaixo de seus holofotes no olhar e seus
lacinhos na cabeça. Indignado, impaciente educador, meu avô fechou a portinhola.
- Pééééééééééééééééééééééééééééééééééém!

Mais uma vez, meu avô. Abriu, olhou indignado e fechou a portinhola.
- Péééééééééééééééééééééééééééééééééééém!

E por aí foi, por quatro, cinco, seis toques infindáveis de campainha, seguidos da
impaciência do avô, que não arredou pé de sua implicância.
Até que eu mesmo resolvi abrir a porta.
- Ué, seu avô não estava me reconhecendo!?

Numa tarde de um dia qualquer, minha mãe recebeu um telefonema. E respondeu em tom
lamentoso, assustado, aflito.
- Meu Deus, meu Deus!
E sem lagar o telefone, vira-se para Elise apressada:
- Elise, tire as capas dos sofás e das poltronas! Rápido, rápido!
E Elise parte para a cumprir a tarefa com desenvoltura, só que começou a chorar,
chorar, chorar.
- Menina, por que você está chorando?
-  A senhora está tão nervosa. Alguém deve ter morrido. Quem foi?
- Morreu ninguém, Elise. José inventou de trazer uns amigos do Banco para jantar. 
Vamos correr, vamos correr para arrumar tudo.

Histórias de Elise transbordam da minha memória. Lembro que sempre retribuía "Boa Noite"
a Gontijo Teodoro, na despedida do Repórter Esso. Lembro do dia que ela mesma declarou
ser o mais feliz da sua vida, quando minha mãe a levou ao cabeleireiro para fazer henê.
(Ah, os valores da época...). Lembro de sua companhia deliciosa nas manhãs de Tom e
Jerry no Metro Tijuca, nas matinés de Jerry Lewis e Oscarito, nas suas gargalhadas
contagiantes com o Circo do Carequinha. Lembro que tinha personalidade: era Flamengo,
numa casa de tricolores, americanos e um solitário botafoguense: eu mesmo por destino.
Quando Garrincha comandou aquele baile de 3 a zero no rubro negro na final de 62,
dia seguinte, ganhei do meu avô um uniforme completo do Botafogo: camisa listrada de
manga comprida estampando a mágica estrela no lado esquerdo do peito, calção e meiões pretos.
Ela desdenhou:
- Parece que está de luto.

Lembro do seu orgulho quando passei para o Colégio Pedro II e ela fez questão de engraxar
minha pasta de couro que me foi presenteada pelos meus pais meritosamente.  Lembro de
reproduzir para ela em casa as aulas de Português, História e Geografia, que recebia dos
vetustos professores, criando para mim mesmo um jeito de estudar. Lembro que ela era amiga
das minhas primas mais velhas e frequentava rituais familiares como se da família fosse.
Lembro de apresentá-la como minha irmã pretinha, com a pureza e inocência de tempos
diferentes de hoje, quando certamente seria processado, preso ou massacrado
nas redes sociais.

Um dia, minha mãe chegou encantada com uma professora angolana chamada Elise Echpo
Bassei, que conheceu num encontro de educadores. Pela semelhança do sorriso e do olhar
radioso, passamos a chamar Elise carinhosamente de Elise Echpo Bassei, apelido que foi recebido com bom humor e gratidão, tendo me provocado inventar situações, como apresentá-la a um
colega chato como uma estudante angolana. Neste dia pedi para Elise não abrir a boca, a não
ser para sorrir. Não sei se o chato acreditou até o fim, mas as risadas que explodiram depois
foram sinceras.

Elise era fã de Elvis Presley, enquanto eu iniciava meu encanto pelos Beatles.
Havia controvérsias veladas entre nós, até que em 1967, no lançamento histórico
do Sargent Peppers, ela achou que tinha me vencido.
- Como estão feios esses Beatles! Barbudos, desgrenhados.
Rebati com uma maldade. Disse que seu ídolo Wanderley Cardoso, um periférico da Jovem
Guarda, tinha mau hálito. Ela acreditou desolada. Como eu sabia? Não sabia.

E assim foram meus tempos adolescendo com Elise. A única manifestação sexual que aflorou
nesse convívio, foi num dia de ousada curiosidade. Percebendo suas jabuticabas escapulindo
pela camisola, perguntei inocentemente se já haviam crescidos cabelinhos na sua forquilha
entre as pernas.

Foi um desastre.

A indiscrição chegou aos ouvidos dos meus pais – com certeza, pela cozinheira carola -,
que me repreenderam e me colocaram num brando castigo. Talvez não ver Bonanza ou Jovem Guarda, ou não tocar os Beatles na vitrola.
Dias depois, entreouvindo uma conversa entre meu pai e meus tios, percebi o trauma que
a curiosidade sobre a tal forquilha poderia ter produzido em Elise.
A saber: de quinze em quinze dias, meu pai a levava para passar o fim de semana na fazenda,
com sua mãe, seus irmãos já sub oficias do Exército e sua irmã mais nova. Numa dessas,
Elise foi estuprada pelo novo padrasto. Ouvi a história em frestas, sem muito detalhes, mas o suficiente para entender a gravidade da estupidez.
A partir daí, alimentei uma pena protetora pela Elise, quando jamais a deixei se aproximar de
meus colegas do Pedro II, machos de ralo buço em permanente estado de ereção, à procura
de domésticas para desovar seus impulsos. Ah, os imbecis da época...

Elise cresceu no recheio afetivo da nossa família. Passou de acompanhante de um filho único
à cozinheira de forno e fogão e à administradora dos afazeres domésticos. Meu pai sempre
ocupado, meu avô recém viúvo sessentão, atarefado com as namoradas que lhe choviam,
minha mãe dando os primeiros e longos passos na administração da educação pública.
Elise cuidava da casa, fazia compras, preparava almoços e jantares. Já exibia a forma sensual
de uma menina de Angola, brejeira, sorridente e esperta como ela só.
Não tardou a ter uma conversa franca com minha mãe.
- Preciso falar uma coisa com a senhora. Estou namorando um bombeiro de São João de Meriti 
e estou apaixonada.

Naquele instante, minha mãe intuiu que estaríamos perdendo Elise. E para acolhê-la mais ainda,
cuidou a professora de mexer seus pauzinhos de autoridade pública e inscrever o pretendente num concurso para a Polícia Militar. Ele passou, sabe-se lá como.

Numa manhã de uma quarta feira comum, sentei à mesa para tomar meu café com leite
apressado antes de partir para o colégio, nesta época já o Colégio Andrews, onde me debatia
com Física, Química, Matemática e Descritiva, como se lutasse contra um polvo de Júlio Verne,
mas isso é outra história.

A verdade é que naquela manhã não havia mesa posta. Havia perplexidade e danação
de meus pais pela quebra da rotina. Curioso, entrei no quarto de Elise e nem vi seu chinelo de
dedo. Armário vazio, banheiro sem lavanda nem escova de dente. Apenas entreolhares perplexos
e desapontados entre mim, meu pai e minha mãe. A partir daquele instante, nunca mais saberia de Elise. Meu pai ainda tentou algum contato com a irmã dela que, por coincidência, tinha sumido da casa da minha tia exatamente naquela manhã. Na fazenda, não havia mais Dona Iraí – falecera
havia 5 anos - nem seu casebre no curral de triagem, muito menos a possibilidade de algum contato com seus irmãos.

O que adiantaria? O sumiço era eloquente.

Elise partiu sem deixar vestígios, pistas ou rastilhos. Nem mesmo o então soldado da PM
teve como ser encontrado. Só se sabia que se chamava Jorge, mas meus pais concordaram
com a sabedoria de Let it Be. Ah, os rapazes de Liverpool influenciando gerações...

Vinte e dois anos se passaram. Minha família estava desmembrada. Meus pais haviam se separado,
minha avó falecera bem antes. Anos depois, meu avô não resistiu a um aneurisma, eu já tinha
uma irmã por parte de pai e estava divorciado com dois filhos quase adolescentes.

Toca o telefone na casa da minha mãe
- Dona Lucy? É Elise, lembra de mim?

Minha mãe paralisou. Elise a tinha visto numa entrevista na TV, já que a professorinha
estava deixando o cargo de Secretária de Educação, aposentando-se do magistério,
partindo para estudar Direito.
- Quando vi a senhora na televisão, disse para minhas filhas: eu preciso reencontrar essa gente.
Foram eles que me criaram.

Passada a emoção inicial, ficou combinado um almoço numa churrascaria rodízio. E assim,
num domingo preguiçoso, sentamos a uma farta mesa eu, minha mãe, meus dois filhos,
Elise e suas três filhas – o soldado, agora cabo da PM, soube que estaria de serviço.
Filhas lindas e amorosas. Com traços e sorrisos tão angolanos quanto os daquela menina assustada
que chegou a nossa casa aos 9 anos de idade. As meninas eram mais velhas que os meus.
A primogênita tinha 21 anos.

E matei a charada.

Há 22 anos, Elise fugiu lá de casa, pois estaria grávida do soldado da PM.
Alguma coisa muito forte impediu que soubéssemos na ocasião. Medo? Vergonha? Paixão avassaladora? Desejo de chutar o balde da vida? Tudo junto? Tentei saciar a curiosidade,
ela me confirmou à boca pequena, entre uma linguiça, farofa e picanha fatiada.

Estava estabelecido o afeto interrompido. Saímos da churrascaria às lágrimas. A promessa
de vamos-nos-ver, não-vamos-nos-perder, temos-uma-história-de-vida ficou no ar.

Dia seguinte, na exata segunda feira, antes mesmo de dar meio dia, minha mãe recebe outro telefonema. Dessa vez, seco.
- Dona Lucy, preciso que a senhora me dê 5 mil reais (ou algum valor absurdo na época)
todo mês. 
- Como assim, Elise?
- Isso mesmo. Esse empreguinho de cabo da PM que a senhora arrumou não dá para criar minhas filhas.
- Elise, você quer trabalhar de novo conosco?
- Não, senhora. Quero uma mesada. Seu filho não vive dizendo que eu era a irmã pretinha dele?
- Desculpe, Elise. Mas não temos como. Podemos pensar outro jeito...

E Elise desligou o telefone. Súbita, como aquela quarta-feira sem mesa posta de café da manhã.
Nunca mais soubemos dela.

Que pena, Elise, que pena.





quinta-feira, 17 de agosto de 2017

a chuva do indigente - poema de Laura Cohen




 a chuva do indigente

     



    é morto o homem que não nos pertencia,
    o que esperava sobre as telhas de uma casa
    e perdeu todas as coisas que tinha
    as roupas do corpo, a terra em nada lavrada

    mas nós não julgávamos seus ossos brancos
    que receberam a chuva do indigente
    mas temos a bondade de nos esquecer deles
    e de toda a carne que nos escondiam

    e quando uma mulher ou um rapaz
    vir buscar a notícia de um homem sumido
    ele será uma coisa que jamais terá existido – 
    um nome apregoado em voz estrangeira.








Do livro Ferro. Impressões de Minas, 2016.





quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Cortejo de anjo

Pietá, de Michelangelo 

O cortejo fúnebre segue pela rua principal, criando uma paisagem anêmica. Carros, gente, bichos dando passagem ao morto em estranho respeito. No trajeto da procissão de rostos padronizados, casas pequenas mantêm portas e janelas fechadas. O fechamento é tradição. A intenção do gesto é homenagear o defunto com uma decência de passagem. Coisa antiga, de interior. Quem o morto foi não importa. Se foi ou não criatura de pecados. Ladrão, traidor, assassino, viciado. Na morte, tudo cessa. Porque a morte é paga que baste. Não, não importa mesmo quem foi o passante. Só às vezes. Quando tudo está errado. E a cor do caixão denuncia a trapaça nojenta. Como hoje em que a morte que segue na carreta é morte desonesta. Caixão branco. Meio metro de corpo. Nem metro inteiro. Até para Deus é covardia. 
Na falação excitada dos jovens, muita raiva:
<Se Deus existisse, não matava criança.>
<Gente ruim Deus não leva.>
No silêncio dos mais velhos, alívio. Mais um que escapou de crescer. De ter as mãos engrossadas pelo plantio, de ver o café comido pela geada, de pedir empréstimo para pagar empréstimo, de olhar para o prato vazio, de agonizar pela fome. Crescer é desumano. Só gente jovem não sabe. Hoje é dia feliz, isso sim. Amém. Aleluia. É o que pensam os velhos calados.
Alguns passos e eu também sou procissão. Não importam a minha roupa colorida e as minhas mãos sem terço. Eles me aceitam. E me entregam murmúrios recorrentes. Desgraça... Desgraça... Desgraça... Desgraça... As mulheres mais velhas se benzem, exorcizando a palavra, ordenando silêncio. Falar desgraça atrai coisa ruim.
O bebê morreu dormindo. Não sofreu, diz alguém. Não, não sofreu. Deixou o sofrimento todo para a mãe. A mulher devastada que agora abraça o caixão. Caixão branco. De meio metro. Carregado pela carroça fúnebre. É tudo o que lhe sobra da parição tão amada. Na mão, o rosário não avança uma conta. Não há Maria, Senhora, Mãe que a conforte. 
Eu tremo.  Corpo inteiro. Tão forte que me pergunto se alguém percebe. Ou se alguém se importa. Apesar dos filhos que não gerei, tenho alguma coisa para entregar à mulher na carroça. Uma saudade de parir e de embalar aquilo que não tive, que não sei. Mas sinto. Um choro aguado que me devolve à oração da infância:  A vós bradamos os degredados filhos de Eva. A vós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas. 
Três da tarde. O corpinho lacrado pela madeira branca é engolido pela terra. O hiato nos murmúrios é de espanto. É de dor exausta. Ninguém se mexe. Ninguém vai embora.
Eu também ainda estou aqui. Estrangeira. Intrusa. Triste.









quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O POÇO E O CAVADOR


“A gente morre um pouco em cada poço”.
(Caio Fernando Abreu)

A gente morre um pouco em cada poço,
E cá estou, recluso em meu castelo.
Ergui meus muros, cavei meu próprio fosso,
Com minhas dores, cortantes qual cutelo.

Se hoje em dia não temo nem a morte,
Se minha busca resume-se à estrada,
Direis, talvez, que sou homem de sorte,
Mas só eu sei o preço da jornada.

Se com a vida travei longo duelo,
E mergulhei no abismo até o osso,
Fui qual Narciso, julgando-me tão belo,
Ignorando que o lago era um poço.

Hoje me vejo tão vil e sem remorsos,
Nessa infâmia que mais e mais se agrava.
E quanto mais tento livrar-me desses poços,
Mais eu percebo ser aquele que os cava.






terça-feira, 1 de agosto de 2017

A Cantiga do Anti-Herói Bem na Sua Cara


Acabo de ler um texto da articulista Flavia Azevedo, publicado no site do jornal baiano Correio (link aqui: http://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/o-amor-datado-de-chico-buarque/), que tem sido amplamente divulgado e comentado pela internet. Flavia opina a respeito da nova (e tão esperada) canção do maior compositor que temos no Brasil. Pois já digo de antemão que, apesar do título soberano, não é intocável. Contrariando o dito popular, quem já foi rei está sujeito sim, a perder sua majestade. Todavia, ao contrário do que Flavia argumentou em sua coluna, Chico Buarque continua reluzindo sua coroa, refestelado de boas em seu trono. “Tua cantiga” não versa sobre um amor datado, como afirma Flavia, simplesmente porque o amor não se circula no calendário, nem aqui nem na China, nem amanhã nem quando sequer os sumérios haviam inventado de registrar os ciclos lunares e as datas. O amor talvez seja o único sentimento capaz de preencher e transbordar e no mesmo compasso esvaziar a humanidade de um homem. É o amor que nos torna inexoravelmente mortais. Não a morte.

E o personagem mais que mortal de Chico, nesta canção, talvez seja o anti-herói da nossa literatura romântica. Digo talvez, pois, seria no mínimo leviano interpretar seus versos sob uma perspectiva, apenas. Pior ainda, a meu ver, seria usar óculos de lentes fundas de ética e moralismo para decodificar seu texto melódico, ou qualquer texto que seja. Até porque, convenhamos, Chico jamais se propôs a uma convenção ou a um estado nobre de espírito. A subversão sutil de suas letras, sobretudo na voz de um eu-lírico feminino que nenhum outro letrista contemporâneo fora capaz de assumir com tanta magnitude, quebra toda espécie de discurso paradigmático, rançoso de “ismos” que mais se dedicam a teorizar o próprio umbigo do que contemplar uma obra de arte em todas as esferas cruas e abstratas que uma obra de arte pode gerar. 

Em um dos seus argumentos, Flavia explicita que “esse negócio de largar mulher e filho não desceu. Não funcionou”. Ora, há pelo menos duas maneiras de se interpretar esta passagem: 1) “largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir” pode ser uma metáfora. O personagem não antecipa na letra qualquer menção acerca de um lar, de uma família. Ele seria o tipo de homem capaz de abrir mão de todas as convenções em nome do amor por uma mulher. Ponto. 2) Pode não ser uma metáfora, de fato. E daí? No final da música, o personagem diz “mas teu amante sempre serei, mas do que hoje sou”. O termo “amante” pode nos conduzir à ideia de que se trata de uma relação extraconjugal; ou não. A priori, “amante” significa aquele que ama. E ponto também.  

Apresento essa visão rasteira somente para reforçar a ideia de que se ater apenas a uma interpretação, ainda mais se tratando de uma canção de Chico Buarque, é bobagem. E levar isso adiante, erguendo uma bandeira cujo pau não se tem onde fincar, uma bobagem ao quadrado. Chega a ser vibrante reler a acusação de Flavia, quando diz que a narrativa de Chico aborda um “amor covarde”, cujo personagem não passa de um “canalha fantasiado de super-herói”; vibrante, pois, é isso! O canalha fantasiado de herói é a mais perfeita tradução do anti-herói. É o cara (ou a mulher) que se entrega, que passa do ponto, que trai, que transborda e que se esvazia, possuído por essa coisa chamada amor que pode soar infantil, trouxa, torta, barroca, pós-muderna; que machuca, definha, exalta, delira. Não importa o gênero, idade, time de futebol. Chico, em “Tua cantiga”, apresenta só uma das facetas do que é viver realmente um amor, livre de julgamentos. A arte, assim como a vivência doce ou rústica de um amor, não tem sua existência atrelada às marteladas de um tribunal cujos juízes condenam ad aeternum somente pela vaidade. 

Inauguro o último parágrafo com a frase final da Flavia: “porque a gente mudou e até o nosso romantismo está, sim, numa outra vibe”. Honestamente, eu prefiro não estabelecer um critério social e antropológico sobre o romantismo nos dias de hoje. Até porque as estatísticas midiáticas me conduzirão automaticamente para manifestações como “me encara, se prepara que eu vou jogar bem na sua cara, eu vou rebolar bem na sua cara” e não-sei-quantos milhões de visualizações só irão corroborar tudo o que eu disse em relação ao single do Chico: seja o cafona, o canalha desertor de lares ou a emponderada no deserto do Saara; seja na cantiga do anti-herói ou no rebolado da odalisca – o amor, em todas as suas facetas românticas, pode estar bem na sua cara. Encare-o!




Link do Clipe Oficial 
de "Tua Cantiga":
 https://www.youtube.com/watch?v=dk8arhNQta0





terça-feira, 25 de julho de 2017

O passeante invisível


Nunca ninguém o viu. Nunca ninguém se deparou com ele ao dobrar uma esquina, fosse noite ou dia. Nunca ninguém duvidou que ele se passeava invisível por toda a cidade. Alguns afirmavam ter entrevisto sombras que eram indubitavelmente do passeante invisível. Alguns afirmavam ter ouvido sons abafados, momentâneos arrastamentos de pés, que comprovavam que ele se passeava por ali.
A cidade é feita de muitas estruturas artificiais. Os homens precisam de um lugar coletivo para viver. Estarem juntos dá conforto e segurança, mas demasiada proximidade torna-se inquietante. Estar a sós com outro homem numa rua deserta, noite alta, é tão ou mais assustador do que enfrentar os silêncios e os ruídos da noite na floresta, na serra, no campo. Os homens precisam de estruturas, muros que os separem dos outros homens. O passeante invisível construira a cidade, mantinha as estruturas fortes, escorraçava os inimigos, assegurava os fornecimentos. Ele é forte e destemido; passeia-se por toda a cidade, sobretudo no ermo da noite. Dizem. Porque veem sombras, ouvem certos sons reveladores, porque só pode andar por lá, invisível.
Olhem, lá vai a sombra dele, por entre os pilares daquelas arcadas — diz um.
Olhem, vi agora mesmo um reflexo dele no vidro daquela montra — assevera outro.
Ninguém punha em dúvida estes avistamentos fantasmáticos. Toda a gente sabia que o passeante invisível andava por lá. Nalgum sítio havia de estar: nas arcadas, nos vãos das portas, nas gares rodoviárias ou marítimas. Os seus sinais vislumbravam-se sempre a desaparecer por detrás de alguma estrutura da cidade. Ele andava lá, mas invisível.
Conta-se que, em tempos que ninguém já recorda, um jovem, irreverente como todos os jovens, ao ouvir alguém dizer, pela milésima vez, que acabara de avistar a silhueta do passeante invisível, não se conteve, como seria prudente:
O passeante invisível não existe!
Um grande burburinho se gerou entre os que ouviram tal dislate. Quiseram bater-lhe, ou então que retirasse o que tinha dito, que pedisse desculpa.
Quem é que achas que construiu a nossa cidade, mantém as estruturas fortes, afasta os nossos inimigos e assegura os fornecimentos de que a cidade precisa? — confrontaram-no.
O jovem ainda tentou persistir no erro, mas compreendeu que estava isolado e desacreditado. Pediu desculpa.
O alcaide, no entanto, não hesitou em tomar medidas que devolvessem à população toda a confiança eventualmente perdida e até a reforçassem. Emitiu um edital anunciando que, a partir de então, por especial mercê do passeante invisível, ele passaria a usar uma roupa que o tornasse visível e identificável. Além disso, quem quisesse ver a roupa por ele usada, bastaria dirigir-se à alcaidaria onde estaria exposta numa câmara junto à entrada.
Os muitos cidadãos que lá acorreram viram o que parecia andrajos de mendigo, dado o seu aspeto miserável, mas todos compreenderam que eram os mais adequados para alguém tão humilde que evitava mostrar-se. A confiança de todos fortaleceu-se. O passeante invisível continuava a proteger a cidade e agora podia ser visto. E mais frequentemente passaram a avistá-lo nas arcadas, nos vãos das portas, em outros abrigos precários. Se não era ele, parecia, pelos trajes.

Joaquim Bispo

* * *
Imagem:
Maria Helena Vieira da Silva (1908–1992), O passeante invisível, 1949–51.
Museum of Modern Art, San Francisco, EUA.

* * *






segunda-feira, 24 de julho de 2017

TROVA PREMIADA DE EDWEINE LOUREIRO






sábado, 22 de julho de 2017

Fixação



Jaqueline desde sempre se soubera assim, feia, muito feia, e desajeitada, malvestida; os pés eram de tal forma desarranjados, virados para fora, que pisava com os tornozelos. Exceção era o cabelo, liso e fino, ou, como diriam as campanhas publicitárias, sedosos; e, exceção também, a figura curvilínea, oculta além das falhas. Se não fosse por tais ressalvas seria de um horror absoluto, relegado a fossas ou celas.

Mas, além disso, mais além disso, sua feiura extrema desafiava o bom-senso. Ora, era bem testemunha o Desembargador Paulo Costa Freitas, homem já versado em anos, de comprar terreno em cemitério. Firmando a gravata, falava para o estagiário,

– Menino, essa mulher mexe comigo. Não mexe com você, não?

E o estagiário mentia, resmungava,

– Não é o meu número!

– Comigo mexe; em excesso.

Conheceram-se no tribunal de justiça; funcionária recente, conversavam ao acaso ou quando os compromissos profissionais assim exigiam. Antes dela comemorar ou chorar seu destino, Paulo, arrastado por desejos inéditos, avassaladores, convidou-a para jantar – apesar do casamento, dos filhos, apesar de jamais aventurar-se longe da culpa. Sim, disse ela, sim, e Costinha, como era chamado pelos amigos, voltou ao gabinete ciente de que não conseguiria lutar e resistir. Naquela tarde questionou-se se sonhava, se tal excesso não assinalava a ilusão escrava e involuntária dos fantasmas.

Suando, dia do encontro, chegou e sentou; era outra cidade, outra circunstância. A figura-violão de Jaqueline assombrava-o a ponto de negligenciar sua feiura, a ponto de só vislumbrar as curvas e reentrâncias pelas quais nutria obsessão. Ajeitando o terno, voltou-lhe um vigor juvenil, adolescente, e já a carne alongava-se para fora do prato. A sós, passados sessenta e nove minutos de terror, acalmou-se. Ela não viria, não o queria: que desistisse. Deu graças. 

– Fixação é prerrogativa dos jovens, disse ao garçom. 

Foi para casa, onde dormiu e sonhou com Jaque. De manhã, ao despertar, sumira o alívio antes comemorado; atormentava-o agora, isso sim, um desejo de compromisso, de sina a se cumprir.

Perdição.

No tribunal, logo no gabinete, quis saber dela. Acidentou-se, disseram, ontem à noite; o carro bateu, e queimou-se muito. Divulgando relatos e detalhes, o estagiário soluçava; abraçou-o. Jaqueline, Jaque, sussurrou ao sair dali rumo ao centro hospitalar; chorava Paulo uns suspiros guturais, estranhos, suspiros de quem não sabe como amar. Em esquinas e semáforos a imaginava, e do primeiro vendedor ambulante ele comprou um buquê de rosas; com cuidado e rigor mimou as flores, evitando nelas as próprias lágrimas.

– Como dói essa aflição, disse, antes de pagar.

Quarto adentro, segurou um grito. 

Presenciando-a ali, deitada e queimada, com fibras vermelhas expostas, cruas, coberta em suores amarelos e cremosos, pressentiu o futuro – desta circunstância ela renasceria bela, como animal mitológico a ressurgir das chamas, e todos comentariam a sua transmutação pelo fogo. Aspirando um aroma oleoso de grelha e carvão, sentiu-se traído. Aquela na cama não era a mulher por quem perdera o rigor da alma, por quem desejara romper laços que o uniam ao eu comum; ela o traíra, além do conhecimento e da explicação, com as labaredas.

Devagar, mas ereto, livre da outra, deixou o recinto. Caminhando pelos corredores entrou no banheiro e, em silêncio, de frente ao espelho, inteirou-se da solidão. Daí largou as flores na pia, e foi embora.





quinta-feira, 20 de julho de 2017

Usurpando Drummond

Gérson
amava Teresa,
que amava Raimundo,
que amava Maria,
que amava Joaquim,
que amava Lili,
que amava Cris,
que amava Glória,
que amava Lúcia,
que acabou virando Lúcio,
para amar Maria Helena,
que amava Bruno,
que queria ser Bruna,
pois amava Charles,
que amava Beto,
que amava ao mesmo tempo Rui e Lídia,
que amava o marido Clóvis,
que amava a massagem prostática de Edmílson,
que amava Shirley,
que amava seu agente Camacho,
que amava os euros da Sra. D´Orleans e Bustamante,
que amava prevaricar com jardineiro Dalvan,
que amava sua esposa Dirce,
que amava Jesus,
que amava todos,
inclusive a endiabrada Salete,
que amava de uma vez só Rosina, Léa, Robson, e Genésio,
que amava futebol acima da própria noiva Melaine,
que amava acalentar o sonho casamenteiro da sua mãe Marinete,
que amava Nicanor, que nunca lhe deu bola na escola,
pois amava Mirtes,
que amava Luis,
que amava Luisa,
que amava Renato,
que amava ser Renata,
que acabou espancada, esfaqueada e morta por Jorge,
que amava acreditar em limpar o mundo
de Renatos que amam ser Renatas,
mas que no fundo, no fundo,
amava
Gérson.





segunda-feira, 17 de julho de 2017

É que me toquei - Conto de Carol Araujo







  Deixei de escrever poemas pra você. É, deixei. Ando me preocupando pouco, já nem penso tanto no nosso futuro. É que me toquei. Ando me amando muito e melhor. E nas minhas 24 é tanta hora que falta pra pensar em mim, nos meus trampos, nas paixões que ainda vou viver, na festa de aniversário que daqui 2 meses pretendo fazer. Na hora da lista fiquei na dúvida entre você e o cara do apê de baixo que anda me dando bola… 




  É que me toquei. Ando me olhando muito e melhor. Cortei o cabelo daquele jeito que você detesta e não tiro mais o colar que costumava enroscar na sua barba. Ando usando sua camisa preferida pra limpar a casa e pouco ligo se respinga cloro. Eu nem contei, mas acho que já tem o tanto de manchas quanto as vezes que me deixou esperando no bar. Eu disfarçava sua falta dançando no canto da pista, com todos os braços, pés e quadris, bebendo um alambique pra esquecer que você não vinha. Eu até tentei, mas só conseguia dizer pra todo cara que se aproximava: – Não quero, não posso, estou esperando alguém. 




  Então, meu bem, não é por mal. É que me toquei. E dessa vez não foi pensando em você, nem no rapaz do apê de cima, digo, de baixo. Aquele que nem o nome sei pra completar a porra da lista de aniversário.
























domingo, 16 de julho de 2017

Memória de uma bicicleta com caixa


Pai sentou ao meu lado no degrau da porta. Desajeitado no seu corpo de quem não se cabia. Sentou assim do nada. Olhos vermelhos, boca esturricada pelo sol e a falta de riso que escondia a ausência dos três dentes que foram caindo de podres. As veias saltadas no dorso das mãos, os cabelos desidratados e descoloridos como a palha de milho seca, o cheiro de suor e de sal no corpo. Cheiro de um pai que foi saudade a vida inteira.
O momento era de escolhas. Mas eu ainda era menina. Não sabia o que um momento de escolhas faz com o depois. Ocupada em olhar de esguelha o inédito daquele homem sentado ao meu alcance. O pai que sempre estava em algum mar bem longe, mesmo que as águas desse mar começassem no cais no fim da rua de areia. O pai que a madrugada me mostrava numa névoa de sono com cheiro de café ralo. 
No degrau, ele falou comigo. Trazendo pra bem perto a voz acabrunhada e abafada que antes eu só ouvia diluída. 
Tô indo. Mas volto.
E foi. Pra longe do mar. Brigado com o mar. Foi. Consertar panela, peneira, porta rangendo, janela emperrada. Montado numa bicicleta velha com uma caixa quadrada atarraxada no assento do carona. A bicicleta usada que foi presente do irmão que era garçom na capital. E a caixa que ele mesmo fez com a madeira que ganhou do moço pra quem mãe lavava roupa toda semana. Lá dentro, cabos usados de frigideiras, borrachas de vedação para panelas de pressão, instrumentos enferrujados, uma furadeira de segunda mão, óleo, cola, panos e uma trouxa amarrada, dentro da qual se espremiam um casaco puído, uma coberta pesada, uma muda de roupa e duas garrafadas — uma pra curar diarreia, outra pra curar dor de estômago. As economias todas enfiadas ali, se esbarrando e tilintando a cada buraco.
Funileiro. Era assim que queria ser chamado. Encomendou pra mim a pintura das letras. Pra mim. Naquele dia no degrau da porta. Não dava conta de ler nem de escrever. Mas queria atrair a freguesia. Comprou tinta vermelha. E eu pintei aquele nome esquisito. 
A cada vez que os anos me trazem à memória a imagem da bicicleta com a caixa, o erro de escrita me vem à mente: Funilero. Acho que pai nunca soube. E a clientela também não era lá essas coisas com as palavras. 
Mas pai nunca soube mesmo de muita coisa. Nem dos olhos da mãe que se perderam na estrada buscando seu pescador e funileiro. Nem do destino das três filhas — a que não quis ter filhos,  a que amaldiçoou os homens, a que se deitou com todos eles. Nem do que um momento de escolhas faz com o depois.






domingo, 2 de julho de 2017

A LANÇA DO CENTAURO



O arqueiro aponta a seta
Na fenda zodiacal:
Fronteira Escorpião/Sagitário.
No dia do alinhamento,
Revelações, afinal.

O centauro aponta a lança,
Lança a seta atemporal.
Apocalipse, eclipse,
Interseção que se sente
Na dobradiça astral.

O arqueiro mira a seta
Em seu alvo-aracnídeo,
Mapa-espelho no astral.
Constelações que se formam
Na cúspide sideral.

E na seta que se lança
E na lança que se acerta,
O destino surge: meta.
Segue a flecha em linha reta
Rumo ao Juízo Final.





segunda-feira, 26 de junho de 2017

Como lidar com os terrorismos?

Seguro, seguro, ninguém está. Livre das balas perdidas, imune à dengue ou ao colesterol alto, incólume ao preconceito, a salvo de traições, vacinado contra “Eu quero tchu, eu quero tchá”, isento de impostos, resistente ao estresse, vedado contra suborno, dispensado do voto, falto de risco iminente, fora do alvo da morte, personne.
Desconheço tecnologias 100% eficientes de blindagem contra o mal. Para escapar de possíveis acidentes e de crimes cada vez mais deliberados, prefiro a oração fervorosa – gratuita e menos invasiva que a maior parte dos equipamentos de segurança pessoal. Meu búnquer é uma capela doméstica, adornada com meus santos de devoção. Mas minha fé não vem ao caso agora. Cada um se defende como pode.
Enquanto a violência procria em qualquer habitat, cresce o número de cidadãos apavorados que se cativam nas próprias residências. Na tentativa de se proteger, reforçam portas e janelas, blindam vidros e constroem aposentos secretos – casamatas a serem usadas como refúgio da família em caso de assalto ou sequestro. Uma reportagem da Veja de seis anos atrás contava que, naquela época, já havia mais de cem búnqueres em residências brasileiras. (Perdoem-me os puristas; mas, aportuguesada, a palavrinha ficou esquisita, hein? Então, como já esnobei o plural de hambúrguer, ou melhor, de búnquer, vou mudar a grafia do termo daqui em diante.) A matéria jornalística se referia a bunkers de verdade, edificados sob a casa ou o quintal, com direito a isolamento total, paredes revestidas de chapas de aço, geradores de eletricidade, linhas telefônicas privativas e estoques de mantimentos. Esse número já deve ter ultrapassado as 500 moradias, hein? Dia a dia, a população gasta mais em segurança privada, tendo crescido a obsessão por redomas.
Meus conhecidos não têm casamatas. Pelo menos que eu saiba. A maior parte deles usa grades, cadeados, trancas, cercas elétricas e alarmes para garantir a segurança de seus veículos e casas. Alguns já foram sequestrados; quase todos, assaltados. Sons de carro roubados, portas arrombadas nem são mais novidade. As vítimas preferem nem procurar a delegacia para registrar ocorrenciazinhas fúteis assim. Muitos amigos já sofreram com a clonagem de cheques e cartões, entre outras fraudes. Um primo professor foi assassinado quando saía do trabalho. A colega de uma sobrinha apanhou de uma gangue de meninas no pátio da escola: perdeu as unhas postiças, muitos fios implantados de cabelo e o celular com capinha da Hello Kitty. Será que as instituições de ensino têm perdido seu caráter de fortaleza?
Citei alguns tipos de violências factíveis, concretas. Mas o que fazer para se poupar dos ataques verbais, das humilhações, da negligência, falta de diálogo, incompreensões, fraudes amorosas e do bullying? Como se preservar dessas brutalidades “menores”, “frescuritizinhas” que passam despercebidas por outrem?
Quem se sente psicologicamente coagido demais procura construir um bunker a sua maneira. Algumas pessoas decidem usar o divã do terapeuta como escudo; muitas pedem ajuda a drogas; outros frequentam templos ou grupos de oração; muitos outros se ensimesmam, infelizes com a dor do silêncio que lhes lateja na alma; alguns optam pelo suicídio. Estes últimos devem considerar que o sepulcro seja a casamata mais segura de todas, onde a perturbação orle o zero – exceto em casos de exumação do corpo ou assalto a cemitérios, dentre outras possibilidades esquisitas.
Também há como se esconder por trás de um outro perfil, de uma máscara ou avatar. Pelo menos no mundo virtual, o procedimento é bem utilizado. Para se vingar dos insultos sofridos pelos colegas de classe ou pelos parceiros, demonstrar maturidade e autoaceitação, proclamar-se lindo, inteligente, querido e poderoso, o sujeito toma para si uma identidade fantástica. Assim, pela internet, agrega seguidores, fãs, súditos, amantes... Enquanto o mundo real o oprime, o indivíduo se relaciona muito bem com os entes do mundo virtual – desvencilhando-se inclusive dos ataques terroristas dos pais, amigos, irmãos, professores e companheiros. Não sei se é saudável e eficiente, mas a internet é um bunker bem mais barato que os tradicionais.
            Seguro, seguro, ninguém está. Mas não vou construir nenhuma casamata, não. Deus me proteja! Quero zanzar bem livre por aí, mesmo correndo o risco de ouvir o Despacito na esquina. 

                Maria Amélia Elói





domingo, 25 de junho de 2017

As mulheres da Paradanta


As mulheres da Paradanta são o amparo da casa. Robustas e determinadas, são por isso admiradas e protegidas pelas deusas primordiais. A sua aldeia fica encravada entre montes atulhados de pinheiros nas faldas da serra da Gardunha, onde só é possível cultivar estreitas leiras junto ao pontos mais profundos dos vales. Por isso, sempre tiveram de obter complemento económico fora da pequena agricultura de subsistência. Às vezes, em atividades inesperadas e até longe da sua terra. São vistas desde sempre a carregar pesos à cabeça. Em grupo, em rancho. Decididas, caminhando e equilibrando os carregos, balançando as ancas cheias. Como os deuses gostam de contemplar o seu caminhar! Talvez por isso as tenham colocado ali, na Paradanta, para lhes fruírem a atividade, em vez da rigidez de antanho.
Na década de 40, era comum vê-las a carregar caldeiros cheios de pedras com volfrâmio. O dinheiro do minério já lhes permitia comprar alguma massa ou arroz na venda da aldeia. Todas se lembravam e queriam afastar os tempos penosos da Guerra Civil de Espanha, com racionamentos e contrabandos. Os homens manejavam as enxadas a esburacar terrenos, e as picaretas a desfazer calhaus, um pouco por todos os montes das redondezas, onde vissem ou suspeitassem encontrar o apetecido minério negro e brilhante. Elas enchiam as vasilhas, punham-nas à cabeça e pelo meio dos pinheiros, dos matos, das pedras, por fim por veredas, carregavam-nas até pontos combinados, onde as mulas podiam chegar. De etapa em etapa, o minério lá acabava por chegar aos Aliados. E aos Nazis. O comércio não tem ideologia. Umas atrás das outras, em filas espontâneas, tenteando o peso, abanando as ancas, iam e vinham lançando um ou outro canto com temática de igreja, mas reconforto pagão. Por vezes, Atena apiedava-se do esforço brutal das suas amadas paradantenses e, disfarçada como uma delas, ajudava-as, sem que elas percebessem. E afugentava algum condutor de mulas que, fiado no ermo dos pinhais, se preparasse para abusar de alguma delas.
Na década de 50, com a II Guerra acabada, já ninguém queria saber do volfrâmio. As mulheres da Paradanta voltaram à agricultura, ou antes, ao trabalho sazonal nos grandes terrenos planos a sul da serra, por conta de proprietários ou rendeiros. Os homens iam para as grandes ceifas do Alentejo, elas ficavam-se por zonas não tão distantes. Aí por princípios da primavera, ora um ora outro agricultor aparecia na terra depois da missa de domingo e propunha o trabalho. O acordo não tinha nada que negociar: era um terço da produção para todas. Por isso lhes chamavam “terceiras”. Às vezes, já apalavradas de antemão, repetiam o lavrador de um ano para o outro. Constituído o rancho, apresentavam-se ao trabalho depois das ceifas, por meados de julho e mantinham-se até final de setembro. Regavam milheirais, melanciais e aboborais, colhiam a produção na altura certa, ajudavam a transportá-la para as tulhas ou para a eira, descamisavam as maçarocas, malhavam-nas, limpavam o grão. O trabalho mais demorado era o da apanha do feijão frade, em setembro, feijoeiro a feijoeiro. Calcorreavam extensões enormes, dobradas, apanhando as vagens maduras para as cestas, que eram despejadas em panais, que eram atados em trouxas quando as pilhas transbordavam, que eram carregadas para o carro de vacas, que as levava para a eira. Vendo-as em tão grandes penares de labuta campestre, Deméter, disfarçada como uma delas, imiscuía-se frequentemente no rancho, colhendo as vagens agilmente, aliviando a dureza da lida. A mais nova estava encarregue de, ao longo do dia de calor inclemente, ir buscar água a alguma fonte ou mina, numa bilha à cabeça, e dessedentá-las. Também era a aguadeira que ia adiantando os cozinhados de todas, em panelinhas de ferro individuais. Muita solidariedade coletiva, muita comunhão de quase tudo, mas mantinham áreas de reserva individual: a comida, os homens e a religiosidade pessoal. Uma fogueira, uma dúzia de panelinhas em redor, cozendo batatas ou feijão. Com um naco de toucinho cozido ou um pedaço de morcela, estava a ceia feita. Se houvesse lua e trabalho na eira, era possível que Zeus, Dioniso ou outro deus igualmente lúbrico incentivasse os cantares e as danças, disfarçado de ganhão ou pastor. Sileno nunca perdia uma desfolhada. E um beijo por outro não desonra ninguém. Iam à terra no sábado à tardinha e voltavam no domingo à noite. Uma cesta à cabeça, umas atrás das outras. Cantando, galhofando, calando. Como os deuses gostam de ver o balanço das suas ancas!
Na década de 60, os namorados foram combater para África, os maridos foram trabalhar para França. Algumas foram com eles. A salto. Malas à cabeça. As que ficaram na Paradanta amanharam-se como puderam. Rezavam, teciam, cuidavam dos filhos, tratavam de uma horta, iam à lenha. Traziam os molhos à cabeça. Os faunos dos pinhais gostavam de as ver calcorrear veredas. Meneando as ancas. Mesmo com poucos homens na terra, não deixaram morrer a romaria da Senhora da Orada. No quarto domingo de maio, partiam ao princípio da manhã, com o tabuleiro da merenda à cabeça, cantando glórias à Virgem. Oscilando as ancas, aos poucos iam vencendo os vários quilómetros que separavam a aldeia da capela, sempre a subir. Depois da missa, derramavam-se pelas sombras, saboreando a merenda, rodeadas da filharada e de uma ou outra deusa disfarçada de romeira e saudosa de convívio humano. Pagas as promessas, feita a procissão, regressavam à Paradanta, cantando modas menos religiosas que à ida.
Na década de 70, acreditaram na mudança prometida. Ouviram os militares, os políticos, fizeram reivindicações, conseguiram um lavadouro público coberto. Com a vulgarização do gás e a chegada da eletricidade, deixaram de ir à lenha. Os incêndios sucederam-se nos pinhais atulhados de mato. As fontes tornavam-se frequentemente chafurdos de cinzas. As mulheres da Paradanta punham os cântaros à cabeça e percorriam distâncias até alguma mina que não fora atingida. Por veredas serpenteantes, uma após outra, traziam para casa o líquido mais precioso. Como os deuses apreciam o seu caminhar! Algumas convenceram os maridos a regressar, fizeram reuniões, dançaram. Dioniso não deixava de aparecer, sempre que havia folia. Finalmente, chegou a água canalizada e uma estrada de alcatrão. Algumas famílias compraram carro. Ou motoreta.
Aos poucos, as mulheres da Paradanta deixaram de calcorrear lonjuras com pesos à cabeça. Os deuses ficaram melancólicos. Alguma graça no mundo se perdera. Chegaram a pensar devolvê-las aonde tinham ido buscá-las. Lá onde, rígidas e pétreas, eram o sustentáculo de arquitraves e platibandas clássicas. E a quem os mortais chamam cariátides. Além disso, estavam a ficar cheiinhas e roliças. Felizmente, Hera, também com um pouco de peso a mais, lançou a moda de andar a pé, para emagrecer, e precisou de companhia. As veredas da Paradanta voltaram a encher-se de mulheres que caminham. Embora sem pesos à cabeça. Mas ainda com o tão admirável meneio de ancas. E os deuses voltaram a ostentar um sorriso deleitado, no rosto divino.

Joaquim Bispo

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Imagem: Cariátides [figuras femininas esculpidas servindo como suportes de arquitetura — colunas ou pilares] do templo Erecteion, Acrópole de Atenas, século V a.C.

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(Este conto integra a coletânea resultante do X Concurso Literário da Cidade de Presidente Prudente, Brasil, em 2016.)

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