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domingo, 17 de fevereiro de 2019

Velhos talheres












                               Voltei a usar os talheres que trouxe de São Paulo. Não deveria tê-los trazido, mas vieram. Anos depois de aqui chegarem, estão em uso novamente. Minha vida anterior, meus sentimentos de antes, meu antigo jeito de ser. Como se outra pessoa retornasse, se sentasse à mesa para tomar um café comigo, em uma infinita conversa sobre os anos que virão...












sábado, 16 de fevereiro de 2019

Carma


Dezoito anos sem um teto. Dezoito. Ela gosta dos números pares. Duas meias de lã, duas luvas de lã, dois sapatos, dois brincos de argola vagabundos. Escondidos no carrinho de supermercado parado ao lado da barraca improvisada com panos velhos. Na rua, nada está a salvo. Tem roubo. Tem porrada. Tem sangue pingando na calçada. Por causa de um barbante, de um jornal velho, de meia garrafa de pinga, de um papelão rasgado. Na rua, morre-se por um par. De luvas, de meias, de sapatos. Com a garganta cortada. Durante o sono pesado do porre de cada noite; de todas as noites. Na rua, dormir é luxo. Coisa de bêbado burro.
Ela se levanta às seis da manhã. Todo dia. Abre o saco de aniagem que ganhou na padaria. Confere cada item. Calça, uma a uma, um a um, luvas, meias e sapatos, e enrola no pescoço o cachecol comprido que encontrou no lixo faz alguns anos. Ela tem sorte. Sempre encontra o melhor descarte. E ainda ganha coisas boas das pessoas. Ela tem jeito de gente honesta. Não incomoda. Não toca no braço. Não cerca. Não insiste. Não grita. Não rouba. Já roubou. Muito. Mas não rouba mais. Pede. Troca latinhas e garrafas. Recebe pão, esmola, roupa velha, cobertor, sorriso. Trocas. Já roubou, sim. E já fez outras coisas.  Não interessa. Agora, ela só faz o que quer. 
Dezoito anos que fugiu das porradas da mãe drogada. Surra após surra. Porque não vendia todas as balas. Porque o dinheiro não dava para comprar outra pedra de crack. Porque se recusava a ser estuprada pelos homens para quem a mãe a oferecia. Não adiantou de nada. Destino é foda. Carma. Palavra forte. Ouviu de uma mulher que pastoreava carros no estacionamento do teatro. Carma. Carma. Carma. Carma. O dela era bem ruim. 
Quando fugiu de casa, carregou três coisas. O retrato de um artista americano recortado de uma revista antiga (dizia para si mesma que era o pai que não tinha conhecido); uma fé tão ingênua que era quase esperança; e a virgindade, intacta graças ao facão que encostava no meio das pernas dos homens que tentavam trepar com ela. 
Perdeu as três coisas no primeiro mês. O retrato, encharcado durante uma tempestade. A virgindade, na curra de quatro bêbados que ainda por cima bateram muito nela. A fé, destruída por cada caralho imundo que se enfiou dentro dela. Naquela noite e em muitas outras. Chorou no dia da curra. E sangrou. Depois que o choro e o sangue secaram, sentiu alívio. Perder tudo assim, de uma vez. Restar mais nada. Apenas realidade, essa ferida que só dói no primeiro corte. Sorte dela aprender assim tão rápido, tão de uma vez. 
Fez a vida nas ruas. Trepou, fodeu. Abriu as pernas para qualquer um que pagasse ou lhe desse alguma coisa. Dinheiro, droga, boneca, casaco, comida, batom. Trepou em beco, em mato, em ferrovia, embaixo de ponte. Entrou em carro para fazer boquete. Em carro. Um deslumbre. Aquele cheiro bom que vinha dos bancos. Os vidros parecendo uma vitrine; separando dois mundos. Queria ter um carro. Ia morar dentro dele, pensou, enquanto chupava o pau nojento do homem que gemia e puxava os cabelos dela como se fossem rédeas. 
Pegou barriga três vezes. Tirou dois. Um vingou. Descuido. Só percebeu quando não tinha mais o que fazer. Ninguém quis fazer. Ela tentou sozinha. Não deu certo. Sangrou tanto que foi levada para o hospital pelas mulheres da caridade que passavam uma vez por semana. Ninguém desconfiou dela. Ou sei lá. Desconfiou. Médico sabe. Mas achou melhor fingir que o sangramento era natural. A enfermeira lhe deu um remédio e a pôs numa maca suja e estreita no corredor. Dormiu feliz. Pensando em como era bom dormir numa cama. Esquecida de que a criança ainda estava dentro dela, viva. 
Acordou mãe. Convicta. Ia ter a cria, ia lutar por ela. Um pedaço de carne que tinha forças para sobreviver a tanto pau espetado no útero merecia viver. Nem faltava muito. Três meses. E ela começando a imaginar coisas demais. Pensando na cara do menino. Na cor do menino. Eram tantas as cores dos homens com quem trepava. Pensando no nome do menino. 
Nasceu menina. Magra, calada, parecida com ela. Não, menina não! Que pesadelo da porra! Ela não ia criar carne para nenhum fodido estuprar. Preferiu não dar nome para a criança calada. Fez bem. Não ia viver mesmo a infeliz. Ela sem leite, a caridade deixando alguma coisa uma vez por semana. Ela sem poder fazer a vida. 
Tem tempo. Mas ela ainda se lembra. Da menina arroxeando numa madrugada gelada. Do cobertor fino, cinza, enrolado no corpinho pequeno. Da morte feito passarinho, sem soltar um som. Teve inveja de uma passagem tão bonita. Queria morrer igual. Sem piar. E ficou lá muito tempo, olhando aquele rosto sem nome. Depois, aconchegou a menina nos braços, como gente viva. Caminhou muito tempo. Com pressa. Precisava chegar a um lugar antes que fosse de manhã. 
Quando deitou o corpo miúdo da criança na escadaria da igreja, faltava pouco para a primeira missa começar. Às sete horas, algumas pessoas chegariam. Algumas delas veriam o cobertor e se aproximariam. Um susto, um grito, um choro. Olhos procurando ao redor, tentando achar a filha da puta que tinha deixado a menina morrer. Ela já estaria longe. De volta para o seu canto sem igreja, sem hospital, sem cobertor. A pequenina ia ganhar solo sagrado no dia seguinte. Em cova rasa, como qualquer pobre fodido. Mas ia. Que esse povo de igreja não deixa ninguém sem enterro, sem reza. 
Porra! Não é para ficar lembrando a cria morta. As coisas que o tempo leva pertencem ao tempo. Carma. Carma. Carma. 
Duas meias de lã, duas luvas de lã. Guardadas porque o dia esquentou. Dois sapatos de homem de tamanho grande. Calçados para proteger os pés do asfalto quente e das calçadas imundas. Sapatos de pedir esmola. Encontrados no lixo. Tão novos que deveriam ser de gente que morreu. Falta pendurar nas orelhas pretas de sujeira os dois brincos de argola vagabundos. Ela gosta de números pares. E de pensar na morte dos passarinhos.





domingo, 27 de janeiro de 2019

Rascunhos


Há sempre espaço

para mais um traço
- de medo

uma sombra
- de dúvida

ou um contorno
- de hesitação

os riscos incertos
de um sujeito-rascunho

um homem só fica pronto
- imutável

quando morto





sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

A ponte



Viajar para Saturno não fazia parte das aspirações de Oleg, em criança. As leituras de juventude — muita ficção científica, muita divulgação científica — levaram-no, no entanto, para caminhos insuspeitos, mas empolgantes. Aos trinta e dois anos via-se a caminho de Encélado, uma lua de Saturno com aparentes boas possibilidades de desenvolver vida: tem água líquida, atividade hidrotermal e uma composição gasosa com algumas semelhanças com a da Terra. Tais condições, talvez amigáveis para humanos, desencadearam mais uma corrida espacial entre as nações do planeta azul. Haverá um momento em que pequenas colónias de homens terão necessariamente de procurar alternativas de espaço e de recursos naturais fora da superlotada e envenenada Terra.
Oleg integra a minúscula equipagem da Moct, a nave que já navega há quatro anos e ainda precisa de mais dezasseis para chegar a Saturno. Os três membros viajam em regime de oito meses de semi-hibernação induzida, por quatro meses de vigília/sono. O tempo custa a passar. Ainda falta quase um mês para Oleg voltar a ser submetido à fase letárgica. O isolamento é penoso e pérfido. Trocar palavras com a base terrestre é um exercício kafkiano, devido ao desfasamento temporal provocado pela distância. Uma palavra que ele lançasse agora para a Terra demoraria mais de três minutos a chegar lá; se devolvida logo, a resposta chegaria a Oleg mais de seis minutos depois. Não dava para conversar; só parodiar um patético diálogo de afásicos.
Oleg não estava tão isolado assim, tinha consciência. A enorme equipa que programara a missão a Encélado previra as intermináveis horas de solidão, estudara os gostos e a personalidade de cada cosmonauta. A Oleg forneceu quinhentos “teras” de filmes e livros, distribuídos por vários unidades de armazenamento.
No final da adolescência, Oleg continuava muito reservado. Era frequentador da biblioteca da sua cidade natal. Gostava de se internar no universo fantástico das secções; como descobridor de mundos, costumava aterrar numa galeria, explorar o continente de uma estante, deambular pelos vales surpreendentes das prateleiras, deslumbrar-se com as residências dos habitantes, entrar nas páginas de uma e tomar contacto com os inesperados moradores, às vezes, seres bizarros e inquietantes; outras, criaturas simpáticas e calorosas. À despedida, um conforto espiritual acompanhava-o, animando a sua condição de homem em busca de enriquecimento íntimo.
Da adolescência guardou aquele gosto pelo inesperado: entusiasmava-se com o que a sorte lhe atribuiria, em pesquisas aleatórias de leitura. Instalou-se no conforto de uma ténue gravidade artificial da zona de lazer, posicionou o visor a uma distância cómoda e lançou a pesquisa. A máquina apresentou-lhe “O jovem pastor e a fadazinha”, um conto valáquio de Gorki. À memória acorreu a imagem de um prado de extensão inimaginável. E do deslumbramento juvenil do pastorzinho aconchegado entre céu e planura.
Lembrava-se de todos os grandes clássicos: da monumentalidade de Tolstoi, da sátira social de Gogol, dos contos suaves e realistas de Chécov; este conto tinha estado encoberto, há tanto tempo que não o lia... Dentro em pouco, estava embrenhado nas peripécias ingénuas e carinhosas do pastor e da pequena fada nas margens do Danúbio:

«O pastor sentou-se à sombra de uma árvore solitária que, amante da liberdade, se afastara da floresta para crescer em plena estepe; erguia-se orgulhosa e altivamente, balouçando suavemente os ramos sob a carícia do vento que soprava do mar.
Era no mês de maio, um mês encantador, um mês alegre. A folhagem nova que o mês tinha feito nascer, de um verde magnífico, clamava alegria; o rumor dessa folhagem formava uma longa onda sonora que se alongava pelo céu de um azul vivo onde flutuavam suavemente brancas nuvens macias que fundiam sob os raios ardentes do alegre sol primaveril. A fada balouçava nos ramos da grande faia e cantava:

A brisa é suave e perfumada.
Traz até nós, de toda a parte
suspiros, murmúrios e ruídos…
Dormir será delicioso;
o sono será terno e puro
na maravilha de um tão belo dia.»

Oleg deitou-se no chão da nave, o corpo enclausurado, separado da sua Terra por centenas de milhões de quilómetros; na mente, a ponte que o terno e inspirador conto lançara e o ligava ao seu país. Imagens aprazíveis das juvenis deambulações pelas margens do Volga afagaram-lhe a superfície da alma. Vislumbres de casa, dos seus...
Continuou a reconfortar-se na leitura, nas evocações, o sorriso tristemente feliz.
Lá fora, a noite era a eterna e infinita estepe que o separava de casa.

Joaquim Bispo

*

Imagem: Franz von Lenbach, Um pastorzinho, 1860.
* * *






terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O Meta-Oftalmologista


Foi o meta-oftalmologista quem diagnosticou a posição contrária de meus olhos: o esquerdo situava-se no lugar do direito e o direito no lugar do esquerdo. Esta seria uma condição inócua, disse ele então, se não estivéssemos em um mundo com os polos invertidos. Como assim, indaguei, enquanto o médico sentava-se, minha cútis ainda estranha ao toque de um terceiro. Simples, o polo sul está no lugar do polo norte e o polo norte está no lugar do polo sul, respondeu, e ao calar-se tinha no rosto uma expressão de alegria, como se tal esclarecimento bastasse.

Todos os vagos segundos desse diálogo já causavam em mim apreensão, e somente considerando a hipótese de que há tempos dentro de tempos, e existências dentro de existências, pude justificar as incontáveis teorias que me atormentavam, cada uma delas contendo implicações relativas à essa condição ou às circunstâncias responsáveis por ela. Pois qual seria o futuro agora, seria de sucesso, considerando o meu fracasso atual como consequência da ignorância em relação a esse defeito, ou seria de fracassos maiores, mais dignos de alguém com os olhos invertidos? Deveria cogitar uma carreira como inversor ou revisor de valores ou como obscenidade circense? Ou aceitar esse mal e mendigar em frente a óticas de renome?

Isso cogitava uma parte minha quando outra indagou qual o significado da moléstia. O médico, escrevendo num papel timbrado, falou que eu enxergava certo num mundo onde muitos enxergavam errado. E não só em relação às direções, prosseguiu ele, mas, também, em relação aos valores morais. Calou-se o doutor e calou-se eu, e ouvindo o rabiscar da caneta indaguei se deveria ou não confiar nele. Era um super-vilão regenerado, e mesmo que em teoria os super-vilões regenerados fossem mais confiáveis do que os cidadãos habitualmente honestos (ou assim anunciava o cupom de desconto), me era difícil aceitar seu prognóstico não obstante o mesmo explicasse muito. Pois Deus é testemunha de minha integridade e decoro, de meus erros moderados e, acima de tudo, de minha dor, afinal uma vida justa e virtuosa é uma vida de sofrimento. Aliás, como não sofrer com a verdadeira bondade, quando ela pressupõe nenhuma recompensa? Esta é a sua medida. Já no mal há algo que reafirma nossa identidade, torna o homem concreto. Meditando vim a sentir o silêncio branco do escritório, a enxergar a mesa branca à minha frente, a decoração de um branco também aviltante, e o médico, envolto numa aura de cifrões, estendendo-me uma receita de medicação. 

Corruptol 200 mg, disse ele. Por duas semanas, depois baixar para a metade. Mais duas semanas e marcar uma nova consulta. Seu corpo necessita de um pouco de má-fé. E calou-se, duro e inanimado feito suas palavras. Cumprimentei-o, e no solitário caminho entre cadeira e porta tive o primeiro lampejo de renovação, o meu primeiro passo em direção à mácula: considerei, como forma inicial de tratamento, deixar de remunerá-lo; mas daí lembrei que não existe justiça maior do que a de não pagar um médico.





quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Dividir a vida










































quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

As três Marias

Foto: Rene Burri, Alemanha, Berlim Ocidental, 1957.

A manhã já vai a meio. Mas tudo é silêncio. Cândida, Maria Inês, Maria Eulália e Maria Regina estão entregues à mudez. E às lembranças. E ao trabalho. A lida doméstica não pode parar. Tudo precisa estar pronto para o velório que começa em pouco tempo. Não há lugar para sons. O homem na sala, afundado no caixão de madeira entalhada, merece todos os silêncios. José da Anunciação Santos Martins. Marido. Pai. Que em vida arrancou de cada uma delas todas as palavras.
De Cândida (a que agora é rugas), os Como ele é lindo, meu Deus!, entremeados por suspiros adolescentes; o Sim! no altar da Igreja Matriz; os Ai, ai meu Deus! discretos do prazer amordaçado pelos bons costumes; os Graças a Deus! pelas três filhas perfeitas; os Por quê, meu Deus?, quando não foi capaz de parir um filho homem; o Não deixa, meu Deus!, quando soube da primeira traição; o Meu Deus, me ajuda!, quando apanhou pela primeira vez porque cobrou as infidelidades — e, das outras vezes,  porque o feijão estava salgado, porque a camisa estava mal passada, porque os pássaros cantavam, porque a chuva caía.
De Maria Inês, as súplicas e os gritos abafados pela mão que tampava a sua boca miúda para impedir os Não, papai!; Dói, papai!; Mamãe, me ajuda!; Eu não quero, eu não quero!; Vai embora, papai! E os Pai Nossos e as Ave Marias sussurrados como mantras todas as noites, depois que a mãe e as irmãs já estavam dormindo, ou quando calhava de não haver ninguém mais na casa além dela e daquele homem a quem devia respeito, obediência e nojo.
De Maria Eulália, as palavras entrecortadas pela gagueira que foi se acentuando a cada surra de cinto que a fazia se urinar e se descontrolar num tremor convulso. Os urros de dor das pancadas que nem a mãe nem as irmãs conseguiam interromper. E os Pa-ara! Pa-ara pe-elo a-amor de De-eus, pa-apai! desesperados que, quanto mais repetidos, mais enfureciam a besta.
De Maria Regina, as verdades reveladas às visitas, que se faziam de surdas; e ao padre, que se fazia de conselheiro e lhe pedia que rezasse por aquela “alma atormentada”; e à polícia, que não fazia nada além de mandar que abaixassem o tom de voz das brigas para não incomodar a vizinhança. E, ainda de Maria Regina, os berros de Monstro!; Desgraçado!; Vai para o inferno!; Em mim você não toca!; Em mim você não manda!; Se encostar na minha mãe de novo eu te mato, seu filho da puta! 
Morreu. O José da Anunciação Santos Martins. O filho da puta. 
Causa da morte: queda da escada.
Na perfeição desse dia de morte, quatro mulheres descansam seus medos. Não falam nada. Não precisam. Apenas seus olhares, que se cruzam ocasionalmente, sorriem no alívio do segredo que as une. Somente Cândida, Maria Inês, Maria Eulália e Maria Regina sabem de quem foi a mão que fez cessar todas as palavras.





quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Juízo final



Reduzidos pelo fogo
ao carbono essencial

devolveremos ao mundo

o calor perdido






terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O caso Dodô


As referências ao estranho caso de Dodô são escassas e pouco elucidativas. Foi ao folhear números do Jornal de Anadia do ano de 1965, em pesquisas etnográficas, que encontrei uma pequena notícia no fim de uma página par. Não consigo reproduzir o texto, porque entretanto perdi a cópia, mas lembro-me que tratava de uma mulher que se tinha suicidado, após ter assistido a uma apresentação do Coro Paroquial de Arouca, no Teatro Bairradino. A notícia referia que o grupo coral carregava um histórico de outras mortes inexplicadas de espectadores e levantava suspeitas sobre uma possível influência perniciosa da soprano principal, a tal Dodô. Na altura, não lhe atribuí grande credibilidade. Sabemos bem como, por vezes, se empolam e se adulteram factos com “explicações” sem qualquer relação de causalidade.
Quis o âmbito da minha pesquisa que eu consultasse outros jornais da zona centro, algum tempo depois. O Vouzelense forneceu-me a segunda referência a Dodô: após o espetáculo coral na Casa do Povo, um homem atirou-se do viaduto ferroviário para as rochas. Não se conheciam à vítima problemas económicos ou depressivos. Desta vez, a curiosidade obrigou-me a maiores empenhos. Alarguei a minha pesquisa etnográfica ao jornal de Arouca, na esperança de encontrar outras referências a Dodô, na sua própria terra.
No Arouquense, em todos os anos de meados de 60, foram noticiados um ou dois casos funestos com espectadores do coro paroquial. Depois de vasculhar os arquivos do jornal, comecei a fazer perguntas pela terra. As memórias estavam invariavelmente “apagadas”, mas depois de ser empurrado de um lado para o outro, dei com um ancião disposto a falar. Era um ex-professor primário e tinha teorias próprias:
«Sim, conheci-a muito bem. Chamava-se Maria das Dores. Era de uma aldeia da Serra. Farta de frios e malpassar, veio para criada de servir, para uma casa dalém. Até aqui, tudo normal. No princípio da década de 60, o padre, influenciado pelo espírito do Vaticano II, resolveu criar um coro, e ela foi das primeiras a aderir.»
«O senhor nem imagina. A miúda tinha uma voz! Ia para lá do que é humano. O canto dela tocava-nos onde nada mais nos atingia. Ouvir o seu atormentado agudo de soprano solar o Stabat Mater Dolorosa, sobre os graves de mau agouro dos baixos, compungia todo o auditório. Parecia que entrevíamos o fim do mundo, cataclismos inomináveis. Inundava-nos uma angústia tão grande que se, no fim da peça, olhássemos em volta, iríamos deparar-nos com muitas faces inundadas de lágrimas. Havia quem soluçasse incontroladamente. Não me admiro que algumas pessoas não tenham aguentado e tenham praticado atos tresloucados, como diziam os jornais.»
«A música tem o que se lhe diga. Não sei se o senhor sabe, mas aquelas notas têm relações matemáticas exatas entre elas, que já Pitágoras tentou desvendar. Na Idade Média, a Música era uma das sete artes liberais que os homens ilustrados deviam estudar, como a Aritmética, a Geometria e a Astronomia. E é perigosa, sabe? Há algo de mágico e maligno naqueles doze tons. Doze, como os signos do Zodíaco. E como os apóstolos, em que um traiu. A música entra no nosso espírito sem licença, sem nós querermos. Retine e ecoa no mais íntimo de cada um. É absolutamente intrusiva, violadora, manipuladora. Nós podemos estar muito satisfeitos da vida, mas se formos atingidos pela melodia certa, podemos ficar taciturnos e sentir-nos os mais miseráveis dos humanos. Era o que acontecia quase sempre que Dodô atuava.»
No dia seguinte, rumei à aldeia de origem de Dodô, nos altos da Serra da Freita. Era um lugarejo humilde, quase miserável, encaixado numa dobra da serra, em que as habitações confinavam com currais, e as poucas pessoas conviviam com todo o tipo de detritos rurais. Consegui localizar uma prima, já bem velha, que me facultou alguma informação mais íntima.
Contou que, quando iam as duas buscar as vacas, no fim do dia, Dodô parecia por vezes embeber-se daquele silêncio global, só céu e serra, e ficava muito parada, como se contemplasse algo peculiar, que só ela via. Então, lançava um canto dorido que se estendia pela superfície do planalto escalvado, alcançava as serras mais afastadas e regressava num eco transmutado, entremeado por reverberações fantasmagóricas como miragens. Contou que, nessas alturas, toda a sua pele se arrepiava, como se uma multidão de pequenos seres invisíveis as envolvesse.
Para Dodô, aquele eco parecia funcionar como estímulo, e prosseguia em repetições de outros cantos, outros enleios, sempre tristes. Certo dia, com o eco, vieram lobos. Seis, cinzentos e de olhos amarelos. Contou que ficou paralisada de pânico, certa de estar no seu último dia, mas Dodô enfrentou os lobos, com um canto da serra, nostálgico, mas firme e destemido. As feras estacaram surpreendidas e, perante o tom enérgico e uivado do canto de Dodô, afastaram-se, dando mostras de algum receio. «Ela nunca falava nisso, mas, um irmão, um pouco mais novo, um dia perdeu-se na serra, ou caiu nalguma quebrada, e foi atacado. Quando o encontraram, estava quase todo roído pelos lobos.»
Resolvi visitar o planalto onde ambas se tinham confrontado com os lobos. Como então, o dia chegava ao fim. A aragem fria e sussurrante trazia apelos, rumores, ameaças. Em certo momento, o murmúrio cortante pareceu-me um canto humano, uma queixa dorida e muito aguda. Nunca me senti tão sozinho. Após uma luta de minutos contra a superstição e o medo, dei-me por vencido. Desatei a correr sem olhar para trás, absolutamente aterrorizado.
Abandonei ali a minha investigação da figura e da personalidade de Dodô. Nem quis visitar a sua campa. Só resolvi contar tudo isto agora, vinte anos depois, porque me lembrei do caso ao ler notícias recentes de um estranho suicídio na Serra da Freita. 

Joaquim Bispo
*

Imagem: Caspar David Friedrich, Montanhas dos Gigantes, 1835.
Museu Hermitage, São Petersburgo.

* * *





sábado, 22 de dezembro de 2018

Excelsior, O Amante Final



Quando Svetlana ganhou, de amigo secreto, um vibrador, não conteve as gargalhadas. Riu, riu até as lágrimas infringirem a secura de seu olhar, e com ela riram as amigas. Quem, indagou, usa um objeto desses? Quem, meu bom Deus? Todavia a maioria das meninas ali, na solidão ou no desejo, servia-se desse estratagema e, se não dele, de outros – mas a verdade não convinha ao momento, a verdade nunca convém. Posou com o consolo ao lado do rosto, e analisando as fotografias riu-se mais. Para iniciantes, declarou Jordana, amiga de infância, referindo-se ao tamanho: era curto e fino, rosa feito um batom, e correu de mão em mão até decidirem elas o seu nome: César Augusto, em homenagem ao cantor favorito de Svetlana. Encerrada a reunião, guardou o falo artificial na dobra mais obscura e inacessível da bolsa, e ao chegar em casa, resolvida a ignorá-lo, embalsamou-o entre as meias e calcinhas do armário.

Pois se antes escarnecia dele, em um mês não escarnecia mais. Crescera em Svetlana a curiosidade, uma fome de revolução, e feito um surto a ideia de usá-lo amadureceu, colocando-a ela em exercício num de seus fins de semana. Acendeu velas aromáticas, deitou-se na cama de rosas e rendas e, ao final do ato, soube-se satisfeita. Habituada ao amor, dinheiro e saúde, nunca imaginara lhe faltar algo, menos ainda um objeto. Refeita, e tamanho o clímax, estendeu o lençol no varal, nele formando-se a úmida silhueta de um fantasma.

Mas, perguntou-se, ao entrar em casa, mas e se me falta mais? E se me falta muito mais?

A essa indagação reagiu galgando o comércio da cidade, afinal se algo havia de lhe faltar seria em tamanho ou diversidade, não em categoria. Ademais não era mulher de se contentar com o mínimo, o básico, e visitando os jardins do sexo retornou ao lar com um novo vibrador. Enjeitou César Augusto ao armário, entre calçados antigos, não sem antes acariciá-lo e exaltá-lo.

Bom menino, disse.

Chamou o novo consolo de Chaves. Era a chave de sua felicidade, e o nome de uma de suas mais amadas figuras televisivas. Maior, marrom, os dedos não se fechavam em torno dele. Apesar de Chaves agradá-la, malbaratava as horas investigando, na internet, outros modelos, cores e formas, havendo, além dos já conhecidos e humanos, os vibradores elétricos, mecânicos e digitais, os semelhantes aos aríetes medievais, ou os vibradores manufaturados com o mesmo titânio usado na fuselagem de aeronaves espaciais.

Cansando dele como cansava de tudo, da rotina e de si, em três meses substituiu-o por outro. Seu nome: Excelsior, fabricado para representar a estranha genitália de um dragão nórdico. Este contorcia-se feito uma língua curiosa e era encoberto por três séries de ferrões curvos e macios. Com a cólera das grandes amantes entregou-se a ele como não entregara-se aos anteriores, e já madrugada adentro sentiu o ventre revirar, clamar em dor. Não dormiu, indagando-se dos estragos interiores, se deveria ou não confessar o ato às suas confidentes, se deveria ou não ir à emergência, enfim acalmando-se com o amanhecer e o consolo, veja só, do sol, esse cafetão das estrelas. Por ele iluminada, aberta a janela, as cortinas e sua alma, decidiu conter-se, evitar o uso e o costume de outros amores senão o do diminuto César Augusto.

E assim foi. Todavia, e não obstante jamais fosse admiti-lo, ou mesmo manifestar tal sensação em termos, nunca deixou de excitar-se ao enxergar um extintor de incêndio.





quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O NEONATAL

Vésperas de Natal, 2018.
Esperança que ânimos receberiam
panos quentes, diferenças seriam esquecidas,
certos assuntos delicados evitados.
- Vai ter Natal este ano?
- Vai, na casa da Tia Leninha. Como sempre.
- Vai todo mundo?
- Ah vai, o Natal é mágico para as crianças.
- E os adultos?
- Bico calado. Só vale falar do calor e das rabanadas.
- Hipocrisia.
- Relaxa, não vai ser diferente dos outros anos.
- Verdade. Vamos todos pelas crianças.
- Ah, detalhe: não vai ter amigo oculto.
- Tá certo. O clima está para inimigo declarado.
E chegou a noite. Todos lá. Uns falavam do Palmeiras,
outros do filme do Queen, um grupinho mais separado
comentava Spike Lee. Muitas bobices simpáticas.
Claro, havia um constrangimento no ar.
- Bonita a sua saia.
- É do ano passado.
- Que crise, hein? Mas agora tudo vai melhorar.
Silêncio.
- Esse seu tênis deve ser muito confortável.
- É. Parece que estou descalço.
- Descalço, mas com o rastro da Nike.
Silêncio.
- O que é isso?
- Gin Tonica. Voltou a moda.
- O que são essas bolinhas pretas?
- Zimbro.
- Deus-me-livre, parece cocô de cabrito.
- É de coelho. Afrodisíaco.
Silêncio,
- Você viu o show do Roberto Carlos?
- Sempre igual. Preferi o filme do reloginho da Globo.
- Muito bonito.
- Que produção!
- Sempre me emociono.
- Pena que é da Globo.
Silêncio.
- Pessoal, vamos servir a ceia.
- E os presentes?
- Depois, meu filho, sempre depois.
Tia Leninha, em sua ingenuidade generosa, apareceu da cozinha.
- Queridos, fiz um prato novo.
- Até que enfim! Uma novidade!
Tio Genilson  bateu continência para anfitriã.
Alguns morderam a língua, engoliram o prosecco a seco, outros
repetiram o gesto. Mas todos rodearam a mesa.
- Ora, vejam!
- Arroz de lula!
À primeira piadinha, seguiu-se um respostão, logo depois
a réplica, a tréplica e, claro, o charivari instaurado.
Dedos em riste, perdigotos traçantes, veias saltadas.
Não houve tempo para silêncios respeitosos.
Tia Nancy saiu com fragmentos de rabanada no laquê.
E as crianças só foram receber os presentes em casa,
dias depois.





segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Dias e dias aguardo... poema de Telma Ventura





Dias e dias
 aguardo
   tirar-te de mim
    cada segundo
     de todas as horas
      Parte de mim
       Imagino
        vejo
         cada desejo
          estranho lugar
           A vírgula
            ponto
             A trema
              coma
         embaixo
       no tapete
     no rodapé (da página)
  frente a frente
a lambermos
onde me faz falta
palavras
nós
o verso
 Me reconstruir
   na ideia
    na imagem
     na letra que lês
      mas não escreve
       Não te escrevo
        Dizer o mesmo
         ao que está escrito:
        use qualquer palavra
      Falar silêncios?
    Gemer sussurros?
  Olhar
 o gosto
sobre ti
Mudar os rumos
a forma
a norma
 o desejo
  sobre o mundo
   até saciar
  o travessão
 no ventre da estrofe












sábado, 15 de dezembro de 2018

Bala[n]ço








Me ensinaram a chamar de alma esse lugar que dói. E me disseram que é cruz para se carregar no lombo a vida inteira a estrada que impede qualquer mudança no roteiro. Ao longo da trilha, a impotência das verdades que nos assumem devagar, subliminar e sub-repticiamente. E uns poucos bálsamos disfarçados. Pequenos alívios impedindo as têmporas do estouro final. Reprimindo o corpo das vontades de fim. Estrada comprida, fustigando os pés no caminhar ininterrupto sobre pedras sujas, feias, irregulares, pontiagudas. Vitrine de convites. Um pulo para o nada. Um frasco de químicos permitidos. Um cilindro de chumbo de ponta oca. Um talho ou dois a gume afiado. Um passo para a frente do caminhão sem freios. São machos os atalhos. Fêmea é a trilha. Que descarta os desfechos que sujam de miolos as paredes brancas ou respingam carmim no tapete do quarto. Fêmea. Como estrada / escolha / dor / solidão / realidade / rejeição / tortura / desistência. Ou como a morte, híbrida. Ou como a resistência, inútil.
Me ensinaram tantas coisas. Que chorar é na cama ou no banheiro. Eu choro embaixo do chuveiro. Mas ele chora melhor do que eu. Sem soluço. Sem nariz vermelho. Sem inchar as pálpebras. Sem pudor. Chora. Em mim. Comigo. Por mim. E em nossa pororoca desconexa, são dele as águas doces que me dessalgam as margens. Ele chora livramentos. Eu choro constrangimentos, ridículos, desatenções, afetos ignorados, amores que morreram, amores que viveram para outros amores. Até que nos calamos juntos. Exaustos. Enfim, uádis. 
Me ensinaram sobre os ventos violentos que antecedem as calmarias. Mas nunca me responderam sobre os que sopram depois. As calmarias me inquietam, emissárias de repentes. Prefiro a alma e os cabelos revirados por minuanos. Os marasmos me foram e me são enganos muito caros.  
Me ensinaram também, e muito, sobre os homens. Que me dariam amor. Que me trariam intensidade nos olhos, que me enxergariam para além das fronteiras das carnes, que me fariam poemas ou músicas, que me seriam abraço e riso. 
Foi a primeira vez que me ensinaram mentiras. 
Talvez se tivessem me ensinado sobre o sexo. Sobre as trepadas. Sobre os gemidos se sobrepondo ao vazio das palavras. Sobre os falos ávidos excursionando a vagina ávida. Sobre os roçares das bocas molhadas nos peitos duros de tesão. Sobre os sabores e cheiros das peles e dos fluidos. Sobre as partidas honestas, sem despedidas ou promessas. Sobre essas coisas fáceis de suportar.
Talvez se tivessem me dito que o amor não vem para todos. Que o amor não faz parte de algumas bulas e cardápios. Que o amor não está entre os bálsamos disfarçados nem entre os pequenos alívios.
Talvez se tivessem me ensinado a não sentir. 








terça-feira, 27 de novembro de 2018

Tormento



O tilintar do desespero

um chocalho de moedas
tremulando nas coxas do cego