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sábado, 20 de outubro de 2018

RETINAS

(trecho de um dos capítulos de O Jardim dos Anjos, romance deste mesmo autor)


As retinas da pequena Marie D´Amboise não tinham dimensão do que estavam captando. À sua frente um mar azul se acarpetava, no estreito entre duas fortalezas com canhões que espiavam de suas janelinhas os que chegavam e os que saiam, ora cuspindo fogo aos malvindos, ora celebrando a paz em silêncio. Nem enxergou como deveria enxergar o mar que se se abria a um contorno de montanhas cobertas de florestas e algumas pedras infinitamente pontudas, postas sobre um filete nem branco nem bege, mas cor de areia, coisas que a menina desconhecia. Atentou para os salamaleques de boas vindas de um cardume de botos, sorriu, apontando seus bracinhos para eles como que quisesse acaricia-los.  Desapercebeu-se que à sua esquerda, uma escultura imensa de granito paleozoico surgia de dentro do mar em direção ao céu, quando interjeições maravilhadas soaram ao seu redor
Que belle, que belle, que belle.
O vapor seguiu lentamente espumando as águas comboiado pelo cardume saltitante e Marie desviou sua atenção para uma montanha pontuda à sua esquerda, um tanto longe do convés, bem atrás de um filete de areia, algumas pequenas casas e uma densa floresta tropical, mas suficiente para que ela apontasse para o tal topo distante e cutucasse a mãe:
- Mama, je regarde Jesus.
A mãe carola arrepiou-se e fez o Sinal da Cruz. A menina não via o que via, mas via o que imaginava. Décadas depois, uma imensa estátua de Cristo de braços abertos foi colocada naquele cume.
Nenhuma novidade para a menina que sempre vislumbrava Deus em tudo de bonito, generoso e exuberante que a Natureza lhe apresentava.  Conheceu assim à primeira vista e aos seus 3 anos e 8 meses de idade, sentada no colo da beatíssima mãe Chloé de Chandizont, o que depois lhe contariam que se chamava Riô de Janeirrô, cidade emergente, exótica, calorosa e promissora, para onde a euforia inovadora e aventureira da Belle Époque empurrava vapores e grandes veleiros.
A bordo de um deles, embarcara a pequena família Chandizont, cujo patriarca, o Professeur Docteur Pascal Pierre Chandizont, jovem cientista e curioso pelos trópicos, resolveu deixar o Vale do Loire para conhecer a fundo e cuidar de mazelas típicas de paragens quentes e úmidas da América do Sul. Riô de Janeirrô não poderia ser melhor destino: ali mesmo, em pleno 1900, nasciam o Instituto Soroterápico Federal de Manguinhos - perfeito para Pascal se sentir em casa – e residências em estilo francês num bairro próximo, igualmente perfeitas para um novo lar dos Chandizont.
Sem confrontar com o pensamento cientifico do marido, que jamais desassociava a fé cristã dos caminhos da ciência, Chloé sentia-se uma freira sem nunca ter sido. Sua devoção a Deus era tamanha que foi abençoada com uma filha que nascera com a vocação das missões divinas. A menina cresceu na paz de Cristo e com um calor desgraçado. Suava e abanava-se pelas ruas, ainda com seus leques e vestidos franceses, mas sem grandes estranhezas com o novo cenário que a acolhia.
Mas as retinas de Marie D´Amboise, como sempre, não tinham dimensão do que estavam captando.  Via o que queria ver, não enxergava o que estava para ver. Desapercebeu-se que um fim de tarde chuvoso e encalorado, lágrimas manchavam a gravata de seda do pai, enquanto os dois assistiam Chloé arder em febre e prostração sobre a cama. Se o destino lhe acenou com felicidade ao cruzar a entrada da Baía de Guanabara, o mesmo destino lhe sorria irônico, quando a peste bubônica entrara com ratos sem pedir licença na sua casa de estilo francês e se instalou nas entranhas de Chloé. Logo a peste bubônica, que por tantas noites de estudo e experiência sorvera as energias de Pascal. Logo a peste bubônica, que levou o Governo a caçar ratos e pagar por eles – e descobriu mais tarde que muitos criavam o roedor transmissor para trocá-los por dinheiro público. Logo a peste, cuja vacina estava quase no ponto de ser testada em cobaias – já que a população se recusou a experimentá-la, gerando as primeiras revoltas populares urbanas da História do Brasil.
Logo a peste bubônica, que ironia. Muito injusto que a primeira cobaia fosse sua mulher, mãe de sua pequena Marie. Em menos de uma semana, Chloé definhou e faleceu.
Pascal enterrou a esposa como se fosse ele mesmo um zumbi. Não chorou, não olhou para a morta, não perdeu o olhar para o horizonte. Deixou o cemitério para casa na mesma carruagem fúnebre que levara a esquife mais cara que a cidade podia oferecer. Foi ao lado do cocheiro, com Marie já com sete anos no seu colo. A menina também estava apoplética, porem resignada. Não olhava tão longe como o pai, mas fixou as retinas no balançar dos penachos roxos dos cavalos à sua frente, e manteve um silêncio interiorizado até chegar em casa. Lá, sim, correu para os aposentos dos pais, abriu o armário da mãe e abraçou todo vestuário de uma vez só, até derrubar o cabideiro inteiro. Rolou no chão enfurnada na panaria, chorou alto, chorou baixo, soluçou o mais que pode, gritou e chamou baixinho pela mãe. Enfiou o nariz molhado em todas as dobras, rendas e babados, pelos anversos e avessos, como se mergulhasse no cheiro de um passado que não poderia ter passado assim tão de repente. E quando não havia mais choro a chorar, arrastou seus joelhos até ao altar que Chloé trouxera da França, com a imagem piedosa da Santa Françoise D´Amboise.
A santa fora uma beata da Idade Média de origem nobre, que ao enviuvar de um Duque, entrou para o Carmelitas de Nantes, onde alcançou a missão de Priora do Convento. Depois de sua morte, foi canonizada por tanto cuidar de crianças enfermas e – por ironia do destino ou desígnios sábios de Deus – faleceu da mesma doença que ajudava a curar, para servir de exemplo de entrega, de desapego à própria vida para salvar outras vidas. Chloé e Pascal batizaram sua filha única com o nome D´Amboise – sem saber que Deus também elegera sua família para desapegar-se em função de outras vidas.
Depois de muitas orações diante de Santa Françoise, a menina correu para os braços do pai no avarandado, que ainda mirava olhares para os horizontes infinitos. Pascal recebeu um abraço firme, caloroso e da menina.
- Papa, quero ser freira.
O desejo da pequena Marie de ser freira não pegou Pascal de surpresa. O lar, agora combalido, sempre recebera fluidos de fé na presença de Marie, seus vislumbros e seu enxergar além das retinas. Seu destino não poderia ser interrompido pelas trapaças do próprio destino. Pascal era sábio e racional. Na mesma semana, tratou de matricular a filha no Liceu da Purificação, um colégio religioso preparatório para noviças. E assim Marie deu seu primeiro passo à sua vocação de devoção a Deus e caridade com os desfavorecidos, seja pela enfermidade, seja pelas desfavorecidos de uma sociedade que emergia injusta e cruel, com quem não havia nascido em berço esplêndido. Não que os Chandizonts teriam nascido nesse berço, mas por Deus, já eram considerados nobres e abastados em suas atitudes.
Assim que Marie fora entregue aos cuidados do Liceu Nossa Senhora da Purificação, Pascal lhe ofereceu um profundo abraço, que se misturaram a grossas lágrimas na porta do colégio interno. Foi a menina que consolou o pai.
- Allez  papa, Deus e mama estão olhando por você.
Após desfazer o sonho de um lar no Riô de Janeirrô e deixar um estudo profundo no Instituto Soroterápico de Manguinhos, Pascal embarcou num vapor em direção ao porto de Marseille. Deixava para trás uma cidade linda, uma experiência frustrante, várias saudades e uma dor. Mas se é que para toda dor existe um alívio, ao chegar na França, Pascal recebeu a notícia que a vacina que ajudara descobrir, estava começando a salvar vidas.








quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Dois poemas de Beatriz Bajo







é preciso calar
.

é preciso calar os silêncios
inflamando as urgências

é preciso colar
as distâncias
é preciso colher
pra cada fome secreta
é preciso colher
o que plantou seu pé

cada calo é
escrito em língua morta




dele (tua)


devorar cristais para cintilar tempos
no ventre vitralizado de sais e sóis
a sós, carregados embaixo das unhas
que arranharam a brasa do peito
enraizado nas quadras quadradas
cegas certezas ressuscitando
outras águas
correntes como hinos soprados
pelos olhos mágicos de todas as portas
não abertas
ainda
umedecer as plantas dos pés
crescidas em solo dourado
país de mim, diretriz
rasgo o peito com a unha
suja de sol
solto a égua que cavalga sobre ele
danço sobre ele
e sou patrimônio tombado
preserve-me











terça-feira, 16 de outubro de 2018

A Constituição de Tal

Foto: Faces em ovos de galinha, série criada por kozyrev-vjacheslav 


Domingo, oito da noite. Rua pequena, cidade grande. O tropel de cinco ou seis pares de botas não tem testemunhas senão a própria vítima. Socos, pontapés, massacre. Um grito de medo, muitos de impotência. 
Mais tarde, no leito de um hospital público, não é a dor que enlouquece o paciente, mas as palavras que estacionaram em seus ouvidos, como mantras do mal: Viado! Viado aidético!
João José Manuel Raimundo de Tal tem a cabeça rachada em três lugares. Ou, para falar no jargão médico, sofreu traumatismo craniano. Sofre, ainda, da incredulidade de que tudo tenha mesmo acontecido. 
Esse cenário de violência homofóbica repete-se dia sim outro também nas cidades, nos jornais e na história dos que apanham por serem diferentes do que lhes tenta impor a massa obtusa. Apanham por serem o que são. Pessoas. Como a bailarina cujos dedos do pé são feios e tortos. Como o mecânico cujas unhas estão sempre negras de graxa. Como a freira cuja fé repele os homens da Terra para se entregar à Trindade dos céus. Vontades libertadas por prazer, hábito ou fé. Escolhas. 
Enquanto isso, no hospital público, João José Manuel Raimundo de Tal, cidadão trabalhador, filho de alguém, irmão de alguém apalpa a cicatriz que desce pela face. Vidro cortado; enterrado com sadismo em sua bochecha. Quer entender também a cusparada que levou antes do corte. Porque cuspe é mais que dor de corte. É humilhação. E compreender a dor de desespero que arde e coça dentro do peito. Mais que a cicatriz.
O policial de plantão cumpre o seu papel. Anota nome, endereço, detalhes e dá a queixa como prestada. Segue para o próximo caso. Um travesti de programa. Estupro seguido de esfaqueamento. Ninguém responde por ele. O traveeti foi morto e o policial com a prancheta se aborrece porque acredita que preencher a papelada é tarefa menor. Ele pega bandido. Papel é coisa de babaca. Mas tem muito crime e poucos homens para cobrir a megalópole, cada vez mais inchada. 
João José Manuel Raimundo de Tal consegue um advogado. Um doutor que lhe conta a que leis vai recorrer para colocar atrás das grades os agressores, capturados em razão de novos ataques a homossexuais. De Tal presta atenção às palavras bonitas da Constituição brasileira. E acredita que, perante a lei, é igual a qualquer outro homem, protegido do preconceito, da surra, do cuspe na cara. Não sabe ainda que, no Brasil, a incoerência, o deboche e o ódio não acontecem pelo texto ilibado da lei, mas pela prática diária da impunidade, pelo abrandamento das penas, pela vilania disfarçada em bons modos. 
No tribunal, os skinheads são julgados. Seis meses depois. E condenados a prestar serviços à comunidade. Mas João José Manuel Raimundo de Tal não se impressiona com a morosidade da Justiça. Nem com o número de crimes similares de que são acusados os nazistas de cabeças-raspadas. Nem a pena branda. O que mais lhe chama a atenção é o juiz que profere a sentença sem olhar na sua direção ao menos uma vez. O juiz que repudia a homossexualidade de João José Manuel Raimundo de Tal. Mas que se faz de imparcial, porque é um homem de leis. 
A dor do traumatismo passou. A da cicatriz de dentro continua. Sem previsão de passar. É dor de preconceito. 





quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Veredas


Caminhava a passos vagos
por noites esquecidas

e para marcar a trilha
- e retornar durante o dia

deixava pra trás um rastro

de migalhas do passado






terça-feira, 25 de setembro de 2018

Atlântida era uma ilha


O continente de Atlântida era uma ilha

Que existiu antes da grande inundação
Na área que agora chamamos Oceano Atlântico.
Donovan — Atlantis

Paulo estava a dar as primeiras chuveiradas no “Ruca”, quando recebeu uma chamada em tom de secretismo de Henrique, o seu ex-colega do secundário e companheiro esporádico de pesca no paredão de Paço d’Arcos.
Podes falar? — perguntou Henrique, encostado ao ancinho metálico, a um canto de um relvado de Odivelas que fora incumbido de varrer nessa manhã pelo chefe da brigada municipal de jardineiros.
Espera só um momento — pediu Paulo, a arranjar tempo para ligar o sistema de auricular ao telemóvel. — Diz lá!
Voltaste a saber mais alguma coisa da Andreia? A “Coca-bichinhos”!
Henrique referia-se a uma colega de ambos do secundário, morena e de oculinhos, que tinha sempre boas notas, especialmente a Estudo do Meio. Na altura, chegaram a fazer todos parte do mesmo grupo, mas a faculdade separara-os: Henrique fora para Antropologia, Paulo para Veterinária, e Andreia para Oceanografia.
Não, porquê? — respondeu Paulo, de novo a aspergir com a mangueira o cavalo de pelo avermelhado da escola de equitação de Fontanelas, em que trabalha a recibos verdes.
Encontrei uma publicação dela na Net, uma tese. Parece que está a fazer o mestrado em Paleoceanografia na Universidade do Algarve.
Ah, fixe! Conseguiste o contacto?
Não, na tese não tem nada. Nem encontro a página dela no facebook. Mas bem que gostava de lhe falar. Se calhar, um dia destes, ligo para a Universidade. Queria tirar umas dúvidas… A tese dela deu-me volta à cabeça — desabafou Henrique, também de auricular no ouvido e de novo a recolher a folhagem que as árvores largaram sobre a relva.
Então, por quê? Agora interessas-te por Oceanografia?
Lembras-te da nossa conversa sobre mitos, há quinze dias? — lançou Henrique, sem responder à pergunta. Falámos da Atlântida… Porque tínhamos estado a ouvir o velhinho Atlantis, do Donovan. Estive a pesquisar essa lenda e fui parar à tese da Andreia — esclareceu Henrique. — É por isto que te estou a ligar: ou o relato do Platão sobre a Atlântida reflete um acontecimento histórico, no sentido de verdadeiro, acontecido, ou a coincidência é inacreditável. Mas depois falamos melhor. Vamos lá no domingo?
— … Atlântida? Oh, pá, um continente no meio do Atlântico, com uma civilização avançadíssima, e que ainda ninguém encontrou… — gracejou Paulo, depois de uma hesitação, ao ouvir na mesma frase “Atlântida” e “acontecimento histórico”.
Sentindo que o ponto da conversa era crucial, Henrique encostou a vassoura ao carrinho de dois contentores cilíndricos em que tem acumulado os resíduos vegetais do jardim e acendeu um cigarro. Parece-lhe que o fumo o ajuda a pensar.
Ok, ok! Sabemos que os mitos são pouco credíveis, mas, mesmo assim, tomamos alguns senão como verdades, pelo menos como conceções do mundo que estruturam as nossas vidas. Talvez por terem caráter inspirador e gerador de atração sobre as pessoas — nós. Olha os anjos-da-guarda, olha as fadas, olha as mouras encantadas! Ao longo dos séculos, temos vivido, e vivemos, embebidos em mitos, ou não?
Sim, sem dúvida — condescendeu Paulo, a espalhar espuma sobre o pelo do cavalo, que vai buscar a um balde com uma esponja. — Os mitos fazem parte da nossa cultura, formatam-nos, mas não passam de uma espécie de histórias de um universo maravilhoso, sem fundamento objetivo ou científico. Por isso é que lhes chamamos mitos, coisas pouco credíveis, crenças injustificadas.
Pois, mas, se calhar, alguns são sedimentações de algo real, mas cujos fundamentos se perderam — insistia Henrique.
Diz-me um!
Olha, por exemplo, o Adamastor dos Lusíadas é muito credível como hiperbolização das enormes vagas oceânicas! E as mouras encantadas como exorcização das tentações suscitadas pelas belas e enigmáticas mulheres berberes. E o dilúvio, que aparece na tradição oral de todas as culturas?
Tá bem, mas não me venhas falar da Atlântida! Só porque o Platão falou dela com tantos pormenores como se a conhecesse de a visitar, não quer dizer que não tenha inventado tudo!
Não! A descrição dele é realmente impressionante, mas qualquer escritor mediano consegue descrever um local com tal carga de pormenores que parece falar de coisas reais, que conhece. Não; eu falo de uma coincidência tal que leva a admitir que, se a Atlântida não existiu, há conclusões científicas indiretas que apontam causas para a sua destruição na data indicada por Platão.
Causas para a destruição do que se calhar não existiu? Que formulação mais bizarra! Que coincidência é essa? — interessou-se Paulo, a secar o cavalo com panos de feltro.
Assim à distância, é difícil explicar-te. Queria mostrar-te um gráfico das temperaturas médias do mar nesses tempos da Atlântida. Podemos falar disso no domingo? Apareces?
*
Claro que no domingo seguinte Paulo apareceu no paredão, munido de duas canas, um saquinho de isco e um balde. Atacou de imediato:
Então, mostra lá esse gráfico!
Henrique puxou do telemóvel e mostrou ao amigo um gráfico que supostamente representava as temperaturas médias na Gronelândia entre há 80.000 anos e o presente. Parecia haver uma constância relativa muito grande entre o início do gráfico e a zona de há 15.000 anos, altura a partir da qual o gráfico mostrava várias enormes oscilações, encerrando com outro longo período de grande constância entre os 10.000 anos e o presente, mas de temperatura uns vinte graus mais elevada.
Antes de mais, como é que sabem? — perguntou Paulo, desconfiado e farto de teorias da conspiração.
Não acredito que perguntes isso… — começou Henrique, mas achou por bem tentar explicar: — Também não te sei detalhar as técnicas; sei que os cientistas engendram os mais incríveis processos para conseguirem as respostas que precisam, ainda que por métodos indiretos. Para a temperatura da Gronelândia, extraem amostras cilíndricas da capa gelada e analisam a composição dos vários estratos temporais em quantidade e tipo de micropartículas. Para determinarem a temperatura da superfície dos oceanos ancestrais, medem o volume e o tipo de micro-organismos mortos, contidos no estrato de lodo de cada período. Esses seres eram plâncton que vivia à superfície e cada espécie tinha a sua maior população a determinadas temperaturas. Conseguem assim aproximações muito fiáveis. Foi nessas medições que a Andreia trabalhou, para a tese.
Ok, acredito — avançou Paulo, a afastar a chateza do discurso técnico. — Mas o que é que a Atlântida tem que ver com micro-organismos?
Então, relembrando: Platão escreveu no Timeu e no Crítias que um sacerdote egípcio contou ao grande Sólon que, para lá das colunas de Hércules — o atual estreito de Gibraltar —, havia uma ilha enorme, em pleno Oceano Atlântico, com uma grande civilização e um grande poderio militar, mas que foi destruída por terramotos e se afundou 9.000 anos antes dele, Sólon, isto é, 9.600 anos antes de Cristo.
Hum, já não retinha esses pormenores. E então?
Então, olha para o gráfico e diz-me o que vês aqui, nos 9.600 anos antes de Cristo… — apontava Henrique.
Paulo olhava, mas não tinha a certeza do que o amigo queria mostrar. Henrique prosseguiu, apontando com o dedo:
Depois de um longuíssimo período glacial, iniciado mais ou menos há 80.000 anos, houve um violento aquecimento, aí há 14.500 anos. É este traço quase vertical. Voltou a arrefecer, aos solavancos, durante quase 3.000 anos e voltou a subir violentamente há… 11.600 anos. Ou seja, 9.600 anos antes de Cristo. É este traço que mostra um aumento “brusco” de temperatura de uns 12 graus. Depois, pesquisa “Younger Dryas”!
Henrique fez uma pausa, à espera de uma reação.
Não dizes nada? — acabou por perguntar.
Tá bem, aqueceu, e daí?
Não é fantástico? Não achas extraordinária esta coincidência de Platão indicar, com tanta precisão, uma data na qual a ciência atual afirma que realmente aconteceu algo dramático, como prova este gráfico — um brutal aumento de temperatura? E, como é lógico, há uma consequência intimamente relacionada com o aumento da temperatura global — o degelo das calotes polares e a subida dos oceanos. Agora, andamos preocupados em travar o aumento global da temperatura no planeta nos 2 graus desde a Revolução Industrial, mas as temperaturas deduzidas de amostras da capa gelada da Gronelândia indicam, para aquela época, uma subida de uns 10 ou 12 graus, em poucos anos, talvez menos de cem. E outros estudos são perentórios de que o nível do mar subiu entre 100 e 140 metros, desde então. Não é fantástico? Essa subida terrível das águas pode ter simplesmente submergido a Atlântida, ou o aumento avassalador e repentino do peso de tanta água pode ter provocado fraturas dos estratos submarinos, com os consequentes terramotos.
Eh, pá! Realmente! Incrível! Isso é muito interessante!
A crosta terrestre é uma casquinha maleável, mas quebradiça. Por essa altura — ouvi eu numa aula —, terão desaparecido um ou dois quilómetros de espessura de gelo na Escandinávia, o que teve como consequência a elevação dessas terras. O peso dos gelos deslocou-se lá de cima para os oceanos, em água. É fácil aceitar que esta basculação de enormes massas pode ter provocado reajustes das placas submarinas, com abatimentos das placas e tsunamis consequentes. Talvez tenha sido essa inundação avassaladora que deu origem às lendas diluvianas que atravessam todas as culturas.
Paulo manteve-se uns momentos calado, a digerir o que ouvira. Depois, reagiu:
Tudo isso até pode ser verdade, mas não prova a existência da Atlântida…
Claro, eu também não afirmo isso, mas temos de concordar que é de uma coincidência perturbadora.
Depois de iscarem os anzóis, os lançarem para bem dentro do rio, e se instalarem nas rochas próximas, prosseguiram a conversa sobre o tema, enquanto esperavam que algum peixe picasse. Como seria o estuário do Tejo, quando o nível do mar estava 100 metros mais baixo? A quantos quilómetros estaria a costa? Seria fácil aos africanos atravessar o Mediterrâneo, para a Europa. Talvez de ilhota em ilhota, com a ajuda de troncos, como Henrique ouvira numa aula sobre a Arte do Paleolítico.
Se calhar, não morriam afogados aos milhares, como nos nossos tempos tão evoluídos… — considerou Paulo, amargo.
E imaginaram o drama de todos os grupos humanos — vivessem na lendária Atlântida ou tão só nas inúmeras costas da Europa Ocidental —, ao verem as águas invadirem em poucos anos as suas áreas de instalação, a cada ano um pouco mais acima. Refletiram em como estaremos em vias de viver tempos com problemas semelhantes — de que a subida das águas é só o mais evidente —, devido ao inquestionável aquecimento global.
Sabes que já se vão apanhando, nas nossas costas, peixes que antes só se encontravam em meios sub-tropicais? — adiantou Henrique. — Li há dias. Pescada do Senegal, sável africano, peixe-porco…
E questionaram a clarividência das respostas de agora, que não parecem muito diferentes das de então.
Nesses tempos, talvez se invocassem as divindades marinhas e se realizassem sacrifícios para que elas se tornassem propícias — conjeturou Paulo. — Agora vemos esforços igualmente inglórios e de aparência mágica, como é tentar travar o avanço do mar lançando para as praias ameaçadas milhares ou milhões de metros cúbicos de areia… Que o mar leva de seguida.
O Homem continua a não ter uma noção clara da sua pequenez, em face de forças desta amplitude. E se os oceanos subissem 100 metros em cinquenta anos? — dramatizou Henrique.
A conversa trouxera à tona da consciência alguma inquietação que habitualmente se mantinha submersa. Numa consulta ao smartphone, Henrique mostrou-se alarmado.
Está a acontecer. Olha para isto!
A notícia ecológica do dia era a separação de um iceberg de 6000 quilómetros quadrados, da placa antártica. Um vídeo aéreo mostrava uma falésia de gelo sobre o oceano, com uma extensão a perder de vista.
Diz aqui que é do tamanho do Algarve e que corresponde a mais de 1.100 quilómetros cúbicos de água — o cenho de Henrique carregou-se.
A conversa cessou. Mantiveram-se calados por muito tempo, olhos postos na água que até então sempre lhes parecera tão hospitaleira. A ténue sensação de estarem a prever o futuro — um futuro ameaçador — dava-lhes um aperto no peito.

Joaquim Bispo

*
Imagem: Nicholas Roerich, A destruição da Atlântida, 1928.

* * *





sábado, 22 de setembro de 2018

O Último Dos Flatos


No mais alto andar da biblioteca o jovem Vanderlei vagava entre alfarrábios, lustres e ilustres à mercê de sua atenção. Era robusto, com dedos gordos e roliços, dir-se-ia um homem só deles, as unhas roídas até a carne, a camisa lisa até a intolerância; vaidoso, assim julgava-se e assim julgavam-no, o brilho da cabeleira a realçar cada um dos fios. Vagava ao léu, nem tanto Vanderlei errando como seu interesse, absorto em afiar as vistas numa lombada chamativa, num título intrigante, de acordo com os humores daquela manhã outonal, quando usaria de marca livro uma das folhas secas caídas lá fora.
E era silencioso, considerando tal atributo fundamental ao correto entendimento de ideias e tomos. Livro nenhum entrega-se a quem não compartilha de seu calar, refletia ele, acariciando o raciocínio na cabeça, mimando-o até, do nada, soltar uma ventosidade. 

Ôa, disse, e tencionou as nádegas. 

Ante o testemunho dos volumes, alastrou-se um odor incômodo e nauseabundo, eflúvio semelhante ao dos antigos faraós em seus túmulos. Nossa mãe, comentou o jovem, fedor horrível, e abanou as mãos com intuito de dispersá-lo. Mas a fedentina resistiu, e dali a cinco minutos Vanderlei concluía que o cheiro não abrandava, estarrecido em descobrir a força de seu intestino e de sua obra; também, indagou-se da ventilação, do ambiente fechado, e acusando a corrente de ar frio ouviu o abrir e fechar de portas. Num dos extremos do salão desconhecidos entravam, gritando e tagarelando. Encontrava-se ele no meio daquele retângulo arquitetônico, distante dos acessos e das conversas mas não dos vocábulos e de sua errônea arguição.

Você peidou, disse alguém.

Não, não, foi você, e riram. Imaginou uma turba de bárbaros ensandecidos, homens e mulheres armados com tochas e forcados, a moral dos cães em seu encalço. Alinhavam-se as estantes entre dois corredores, e vindo eles de um lado Vanderlei foi para o contrário, afastando-se rumo ao fundo da biblioteca, retiro onde almejava se ocultar. Estava ali em jogo seu nome e sua reputação, e assim, conforme avançava a multidão, avançava Vanderlei, o ranço a difundir-se em sentidos internos e externos, a conceber horrores olfativos indescritíveis. Ao alcançar o fundo do salão, esbarrou em duas mesas de estudo, encurralado nem tanto pelos invasores como pelo universo, como por uma insurreição de vocábulos e críticas. Não arriscaria passar por eles, meditou o bom moço, não arriscaria a confissão do crime.

Daonde vem esse fedor de carniça, gente, falou alguém.

Desconsolado, Vanderlei fixou os olhos nas mesas. Para elas se dirigiam, entendeu. Não havia saída, quiçá nunca houve. Erguendo o olhar, viu pelas janelas panorâmicas o sol, entre nuvens e edifícios cristalinos cujo reflexo do céu destinava-se a uma revelação.

***

No velório comentaram de como Vanderlei era alegre, de como nunca externara tendências agressivas ou, em supostas escolhas suicidas, a preferência por saltar de grandes alturas.





quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O LANÇAMENTO


- Hoje tem.
Foi a senha que Clotilde passou para Ofélia, que passou
para Lenyr, que passou para o Sr. Waldênio.
- Naquela na porta no metrô.
Foi a contra senha.
E o quarteto se mobilizou. Clotilde foi ao salão.
Ofélia pintou as unhas. Lenyr subiu no banquinho para
alcançar a caixa de bijuterias. O Sr. Waldênio fez barba,
encharcou-se de Velva, aparou bigode grisalho, escovou
paletó xadrez e levou algum tempo para escolher gravata
mais chamativa.
Encontraram-se na saída do metrô.
- Ofélia, você não tem espelho?
- Quebrou, Lenyr. Dá azar.
- Tá se vendo. Borrou o batom. Parece boca de palhaço cego.
- Não seja indelicada, Clotilde.
- Sr. Waldênio, não se meta. Tenho que zelar para a amiga
não passar ridículo.
Mais não falaram. Entraram os quatro na livraria. Já havia
uma pequena fila em direção ao autor, debruçado sobre a mesa,
mãos felizes e sorriso sincero para todos os presentes.
Não entraram na fila. Não gostam de livros. A intenção sempre
foi única, há mais de 20 anos: frequentar noites de autógrafos,
vernissages, inaugurações de butique. Não perdiam uma.
Assim, garantiriam o jantar e, de bolsas cheias de
salgadinhos, canapés, mini sanduíches e de salsicha com queijo
espetados no palito, talvez, o café da manhã do dia seguinte.
Como sempre, estrategicamente, se separaram. Um em cada ponto
da livraria, mas sem nunca entrar na fila. Ficaram em lugares
chaves, onde os garçons passavam com água, refrigerante e
vinho branco básico.
- Onde estão os canapés?
- E os salgadinhos?
- Não tem coxinha?
- Nem palitinho de salsicha.
Estavam os quatro com o buraco no estômago. Recusaram o vinho
para não dar azia.
Lá pelas tantas, Clotilde ultrapassou a fila um tanto mais
caudalosa, sob a indiferença dos convidados que riam e
confraternizavam. E chegou à mesa do autor. Sem pudores.
- Lançamento mais chinfrim, meu senhor.
O autor levantou os olhos, com semblante perplexo, simpático.
Quis dizer alguma coisa. Não deu tempo.
- Tomara que seu livro seja como esse coquetel. Um fracasso.
E saiu Clotilde acompanhada dos indignados Lenyr, Ofélia e
o Sr. Waldênio pela livraria afora. Todos marchando em silêncio
em direção ao metrô.
- Paciência, Clotilde. Na próxima teremos mais sorte.
- Do jeito que esses intelectuais andam mesquinhos,
só inauguração de farmácia.






segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Os vivos - poema de Maurício Fronzaglia




Os vivos



Os mortos se reconhecem
amam-se
multiplicam-se
invadem
espalham-se
dominam.


Esparramam
ávidos sorrisos
submersos no asfalto.


Do Livro Demônios Azuis, 2010.


















domingo, 16 de setembro de 2018

Em nome


Foi pelo sangue de Cristo. Pelo sangue de Cristo que o sangue dela escorreu. Eles disseram. Em nome do Senhor Jesus! Eles gritaram. Antes de entrar. E ela achou bonito. E respondeu Aruê! Mas eles não ouviram. Eles não queriam ouvir. Mugindo em rebanho de fúria. E falavam numa língua estranha que não vinha do Espírito. Sobre demônios e abominações. Mas Legião eram eles. E repetiam e repetiam e repetiam. Está amarrado em nome de Jesus! A cada altar quebrado. A cada estátua estilhaçada. A cada flor pisada. A cada soco e pontapé que deram na menina mais linda do terreiro. A filha mais querida de Ogum. Mas foi em nome de Jesus. Cada rasgão no seu vestido branco novo. O vestido que a madrinha fez pra ela. Branco como o ojá arrancado da sua cabeça. Em nome de Jesus. As contas arrebentadas da guia azul e branca de Ogum explodindo no chão do terreiro. As pulseiras rapinadas por garras de harpias. Em nome de Jesus. Em nome de Jesus, a cabeça do babalorixá rachada contra a parede. Vermelhos. A parede. A cabeça. O vestido. E os gritos pingando. Encharcados de Jesus. Submissão. Dominação. 
Foi assim que eles chegaram. Porrada e benção. Belzebus procurando por si mesmos em estátuas e flores e altares. Arrastando pelos cabelos fartos a menina do vestido branco-encarnado. Pela rua. Pelas calçadas de cuspes. Pela Via Dolorosa dos olhares estáticos.
A menina mais amada de Ogum. Sangue e vergonha. Sacrifício cruento. Amarrada em nome de Jesus. Do Jesus que quebra e arrebenta. Imagem e semelhança dos homens. 











segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Sitiada


As primeiras folhas secas
crepitavam no fogo baixo

A fumaça, escura e densa
tomava forma de presságios

- o inverno encerrou a trégua -

E as portas tremulam
- reverberam irritadiças
pela iminente violência

Em breve marchará
- o exército do desespero
sobre as ruínas da consciência






sábado, 25 de agosto de 2018

A extinção do Português



Há tempos tive a visão clara da extinção do Português. Um grupo de brasileiros, provavelmente recém-chegado, tentava fazer-se compreender num restaurante de Lisboa. E entender o empregado. Um deles acabou por exclamar: — Não entendi porra nenhuma!
Estará o Português em perigo? A incomunicabilidade entre versões de uma língua é um forte sinal de alarme. Uma língua tem um comportamento semelhante a uma espécie viva: evolui a partir de uma antepassada, ganha massa crítica de indivíduos, autonomiza-se, cria rebentos semelhantes, pode expandir-se, pode ficar isolada, definhar e morrer.
Hoje, existem cerca de seis mil línguas, fora os dialetos, mas todos os anos desaparecem dez, em média. Com elas perdem-se os tesouros culturais que veiculavam. E, tal como as espécies, uma língua, uma vez extinta, não reaparece mais. O limite da sobrevivência situa-se por volta dos cem mil falantes. Na história humana terão já desaparecido mais de vinte mil línguas. Algumas, pelo contrário, sobrevivem há mais de dois mil anos. O segredo do sucesso parece ser o grande número de falantes. Como o número de indivíduos nas espécies, o número de indivíduos que usa uma língua assegura-lhe a continuidade.
Neste ponto, o Português, com os seus 250 milhões de falantes, tem boas condições de sobrevivência e até de expansão. Só o Brasil tem quase 210 milhões. Outros milhões são falantes em grandes países africanos com excelente potencial de crescimento. É uma das nove línguas que, só elas, congregam metade da população mundial. É como uma espécie endémica; o seu êxito é inquestionável. Evoluiu do latim, a partir do regionalismo galaico-duriense, e conseguiu constituir-se como língua autónoma, apesar do convívio contagioso com o castelhano. Mas estes 250 milhões ainda falam uma só língua?
As virtualidades que lhe deram nascimento podem ser também as que a ameaçam. Como os tentilhões de Darwin, cujas populações insulares evoluíram de maneira díspar devido ao isolamento forçado, as diversas populações de falantes do Português, separadas por oceanos e sujeitas à deriva linguística, vão desenvolvendo línguas-filhas, afastadas da origem e entre si. O próprio território imenso do Brasil, com as suas inúmeras paisagens humanas, tem produzido e alimentado muitas, nas suas versões orais. Que vão contaminando a escrita.
Neste aspeto, os acordos ortográficos são, para a unidade da língua, como as seleções de cruzamentos e de ninhadas são para os criadores de animais domésticos: fortalecem, artificialmente, as características de resistência desejadas. Parece, no entanto, que, mais do que acordos, o que fortalece a unidade de uma língua é que os seus falantes, por mais dispersos e distantes que se encontrem, a usem, a oiçam, a leiam numa versão comum que, não sendo homogénea, seja sentida como familiar, como os diversos timbres e modas vocais entre os membros de uma família são entendidos como familiares, e não língua estranha.
Outra estratégia de preservação e expansão é a disseminação. Enquanto as plantas desenvolveram estratégias de dispersão de esporos e sementes, faixas das populações que falam o Português, devido ao fado secular da pobreza, têm sido obrigadas a emigrar, levando consigo a semente linguística. Esta estratégia, embora tenha criado, ao longo dos séculos, bolsas de falantes da língua de Camões, parece ter como resultado não mais do que um enquistamento das primeiras gerações, e uma permanência linguística forçada pela tradição, entre gentes remotas. A imigração, pelo contrário, tem criado populações que se veem contaminadas pela língua de acolhimento.
No económico reside uma grande parte do poder de uma língua no confronto com outras. O sucesso do Inglês reside muito na racionalidade e na simplicidade gramatical dessa língua e na brevidade da maior parte das suas palavras, mas assenta sobretudo no poder económico dos países que a usam. Esse poder impõe-na nos fóruns internacionais, nas agências de notícias e no entretenimento. Há miúdos, pelo mundo fora, a entender o Inglês desde os três ou quatro anos. O cinema introduz anglicismos na linguagem de todos. O Inglês é um macho alfa em exercício. O Mandarim será outro, em breve. Podem usar-se poucas estratégias em presença de um macho dominante. Lutar é uma, mas costuma dar mau resultado; fugir é outra, mas não conduz à procriação. Usar as capacidades intelectuais para superar o adversário, imediatamente ou a prazo, é o que consegue levar os genes a bom porto.
Na seleção natural não há só competição; as simbioses e outras formas de cooperação são modos de organização que podem desencadear os resultados desejados. Por exemplo, conseguir que outros países tratem o Português como segunda língua, e vice-versa, é uma estratégia de cooperação que pode produzir bons frutos.
A força do audiovisual é enorme, chega a públicos imensos. Trocar telenovelas, filmes e outros programas entre espaços do Português permite tomar contacto com outros sotaques e, na prática, homogeneizar a língua. Tornar aliciante e saborosa a palavra de uns perante os outros é uma boa estratégia de sedução de falantes. São “contaminações” positivas, que alargam e tornam coeso o grupo.
De importância menor, mas não negligenciável, está a palavra escrita. Uma literatura pujante em Português, rica em vocabulário e em sonoridades subjacentes, seria a cereja em cima do bolo linguístico. Para que esta bela espécie não se extinga.

Joaquim Bispo
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Esta crónica foi uma das dez finalistas, na sua categoria, do Concurso Literário de 2018 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes, Leopoldina, Minas Gerais, Brasil.

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Imagem: Carlos Alberto Santos, Camões [um dos 124 cromos, a partir de guaches, desta coleção], 4ª edição, [Lisboa], Agência Portuguesa de Revistas, 1966. 


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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O FILHO DO SURDO

Nem o mais puro dos crendeiros poderia perceber que os raios que cruzaram os céus
da floresta significavam algo além de chuva próspera. Raios severos era desgrama,
rezava o senso comum e as matildes maldosas do fim de mundo nos cafundós daquele
pontinho insignificante onde sei lá nem sei. Chuva boa é o que não era.
Diziam que o diabo estava mandando mensagem.

– Maricota pariu um padre!

Gritos foram ouvidos entre trovões e peidos de horror. De fato, uma mulher se
estrebuchava de dor nos quartos, quando se deram os primeiros, segundos e terceiros
trovões de nuvens nenhumas sobre aquela insignificância de vida terrena. Ao quarto
trovão, que clareou o céu noturno, que fez desaparecer a lua e seus luares, que fez
a terra tremer, que fez espocar onda de três metros nas margens plácidas do rio largo,
afluentes e igarapés, que dizimou bichos maus nadadores, que confessou-se o inconfessável
pela iminência do Juízo Final, pariu-se a desgraça em forma de gente e choro, que fez
a parideira falecer no ato e o chão de terra e folha molhada receber de súbito carne
viva e gosmenta, onde lá ficou a berrar, até que um surdo caboclo errante viesse a perceber
que era hora de acudir um inocente.

E assim conta-se sobre o momento em que, enjeitado desde a prenhez, que depois por
circunstâncias do destino comandado por almas incautas, um anjo caído veio ao mundo.
Pois fora um ribeirinho surdo de nascença, que nada ouvia, portanto nada falava, quem
acolheu a posta de carne e berro, enterrou a parideira do jeito que pôde ali mesmo e
seguiu com o menino mata adentro, à procura de quem lhe desse guarida nessa vida de
nada a oferecer. Andou a esmo pela floresta já densa pelos caprichos geográficos,
foi dar com os costados numa aldeia, protegida por cercas vivas de vegetação hostil,
mas com um buraquinho entre galhos e espinhos, capaz de servir de passagem estreita
a um surdo e seu pedaço de ser, até encontrar uma mulher indígena de descendência goyá,
que disse em seu falar esquisito algo que o surdo entendeu, mais ou menos assim:

– Fala, homem. O que traz entre os trapos?

Nada de fala de volta. Talvez um grunhido ao erguer do recém-nascido, acompanhado de uma
expressão que valia mais que mil palavras.

 – Entendi, foi o que supostamente apreendera o surdo do som que se espargiu entre
aqueles beiços cor de urucum.

O surdo também fez que entendeu e levantou os braços, entregando sua oferenda aos desígnios
dos bons deuses daquela gente. Recebeu em troca um colar de dente de jacaré. O que seria
uma das esposas de um murumuxaua de uma suposta tribo extinta pegou nos braços a encomenda
considerada divina, acolheu em seu colo e deu as costas ao surdo, que baixou a cabeça,
fez sinal da cruz, deu meia-volta e sumiu no breu. Mal sabia a silvícola o que portava
nas suas mãos.

O menino ganhou acolhimento numa aldeia de Goyazes primitivos e denominação Membira Capanós, como se filho do surdo fosse. Mas o início da convivência foi tenso. Como a índia apresentou o achado, pensou-se que fosse caça. E decidiram assá-lo. Mas a sabedoria do pajé goyá cuidou de desfazer a intenção.

– Não se come caça filhote, disse ele em seu dialeto. Há que se engordarem suas carnes e tripas,
até que todos possam repartir a refeição mais robusta com justeza, concluiu com a hierarquia
que o tempo havia lhe conferido.





sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Deslocamento Terrestre - I








                Decidi que jamais deixaria vazio meu bilhete de ônibus. Nunca menos que uma passagem, para sempre chegar em casa, ou o mais próximo possível. Um último recurso. Ao virar a chave da porta, tomo banho, como, descanso. Não demoro em repor esse valor. Sempre terei como voltar, não importa aonde vá. Sempre terei como voltar.

















quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Sombras de carne


Lola limpou a boca no lençol, pouco se importando com o olhar magoado do rapaz ao seu lado. Aqueles encontros estavam começando a irritá-la. Rodrigo aparecia mais de uma vez por semana no Mercado Municipal, com um jeito desamparado de cachorro com fome, e ela acabava por ser deixar vencer pela piedade. Os olhos... Eram os olhos de Rodrigo que atraíam, prendiam. Não a boca, nem os gestos que não passavam de uma mão trêmula e gelada, e de um único grito abafado na hora do gozo. Seus olhos, no entanto, cuspiam sofrimento, escondiam algum segredo.
Havia entre os dois um comércio. Nada mais. Lola não gostava da demora do rapaz, do tempo arrastado que levava para gozar. Uma coisa tão simples essa de trepar, mas Rodrigo insistia em fazer de cada vez um ritual de afeto, como se estivessem num encontro. Ela já estivera com outros da idade dele, outros que se apaixonaram pelos seus seios e pelo seu sexo sem pelos, que a tocaram como gatos nervosos, desajeitados, arranhando, mordendo, se esfregando em sua pele lisa. Mas Rodrigo tinha aqueles olhos, só podia ser isso! E ela acabava por se deitar com ele novamente, rendendo-se a preliminares que não permitia a ninguém mais.
— Por que é que você limpou a boca? — o rapaz quis saber.
Sem lhe dar resposta, Lola enfiou o corpo carnudo debaixo do chuveiro. Ela tinha pressa. Sempre tinha. As coisas deveriam estar fervendo no mercado, e Xavier não gostava de ficar sozinho na banca. Reclamava da demora nas entregas e pedia a ela que não se ausentasse por tanto tempo. 
Não que desconfiasse dela. Não, isso nunca. Mas ficava desorientado quando a mulher não estava por perto para atender os fregueses. Embrulhava os queijos e as compotas no papel errado, amassava as frutas, e os fregueses só não iam embora por causa da amizade. Ela e Xavier mantinham a banca desde que tinham se casado, 18 anos antes. 
Dezoito anos atrás Rodrigo tinha três anos, pensou, se esquecendo do marido e do mercado. Mas logo afastou o pensamento e se concentrou no vaivém da toalha com que enxugava as costas.
Desde que Xavier tinha ficado doente, havia algum tempo, nunca mais fora o mesmo. Acabaram-se as brincadeiras prolongadas no colchão, o sexo em pé, atrás da porta, quando a urgência não permitia chegar ao quarto, e as fugas para os fundos da banca, onde se excitavam como adolescentes, escondidos atrás dos caixotes de fruta. Ela se acostumara, ano a ano, a fazer tudo com pressa. Não fosse aceitar aquela rapidez do marido, ficaria sem nada.
Traiu Xavier, pela primeira vez, seis anos antes. 
Um freguês perguntou se faziam entregas em domicílio e ela mesma se encarregou de ir levar as compras. Preferia que o marido ficasse na banca. Por mais desajeitado que fosse, Xavier era melhor do que ela nas contas, e havia ainda os fornecedores, com quem Lola preferia não ter que lidar. Quando chegou ao apartamento sofisticado, foi o próprio freguês quem lhe abriu a porta. Alto, com a pele clara e os cabelos escuros levemente ondulados, recendia a um perfume discreto, mas insinuante. Lola teve vontade, assim que o viu, de passear os dedos naquele peito largo. Deve ser bom deitar em cima dele depois do sexo, se pegou pensando. Depois, as mãos que se roçaram na entrega das compotas, o pacote que caiu, os dois corpos que se abaixaram juntos na tentativa de pegá-lo, e o perfume que se impregnou nos seus sentidos, roubando-lhe o juízo. Por fim, os olhos se provocaram. E os dois se completaram pela fome. Era assim que Lola gostava de se lembrar das coisas.
Fizeram sexo, ela e o homem do perfume suave, por quase um ano. Ele ia até a banca, encomendava os produtos e pedia que fossem entregues em sua casa. E a entrega se fazia no suor dos corpos apressados. Lola lhe fez uma exigência: que comprasse sempre muito. Aplicava, assim, ao amante e a si mesma, um mea culpa. Ambos pagavam, a seu modo, pelo que consumiam. 
Quando o amante parou de procurá-la, Lola percebeu que não sentia falta dele, mas das compras que fazia em abundância. E decidiu que era preciso repor o prejuízo. Da banca e do corpo. Um a um, foram surgindo outros fregueses. No princípio, ocasionais, induzidos pela boca pintada de Lola, que parecia a polpa das frutas que vendia. Mas, em poucos meses, o plantel que a solicitava era constante.
Assim que Xavier quis contratar um ajudante para ajudá-la com as entregas, ela se opôs: Desse jeito, o lucro vai-se embora!, afirmou. Aos 42 anos, Lola se rendia pela primeira vez em sua vida a um vício. Viciou-se não somente no sexo diversificado, mas na urgência, no desejo pelos corpos que aliviavam os seus tremores. Nenhum dos amantes dava trabalho. Nenhum deles fazia do sexo mais do que o prazer das línguas ansiosas, das penetrações que a invadiam com mais ou menos força. Aceitava o aperto nos seios, as bofetadas ocasionais que levava ou dava, a cavalgada e a posse animal. Recusava-se, apenas, a dentes que lhe marcassem o corpo que Xavier veria, cedo ou tarde; e aos beijos na boca, que se empenhava em reservar para o marido. Negava-se, também, a se deitar com menores, e com mais de um amante ao mesmo tempo. Afora essas rejeições, fazia pouco sexo com mulheres, porque sentia falta da penetração e dos fluidos.
O primeiro rapaz com quem fez sexo tinha uns 20 anos. Lembrava-se sempre dele e dos outros, de mesma idade. É impressionante como são desajeitados!, pensava, observando seus gestos durante a trepada. Como muitos deles não tinham dinheiro ou renda, comprometiam-se com a obrigação de levar pais e amigos à banca no mercado. Cumpriam direito o trato, com medo de perder Lola e ter que correr atrás das jovens cheias de espinhas e regras que os afastavam por pudor ou esperteza.
Rodrigo tinha ido à banca, pela primeira vez, num dia frio. Primeiro, ficou olhando para o chão, com timidez, mas no momento em que seu olhar cruzou com o dela, Lola percebeu a inquietação que havia naqueles olhos que fugiam de tudo. Chegando ao pequeno apartamento do rapaz para entregar as frutas e os doces, surpreendeu-se com a arrumação e o bom-gosto do lugar. E surpreendeu-se mais ainda quando Rodrigo lhe disse que morava sozinho. Fizeram um sexo ruim sobre a cama macia e larga, mas Lola não estava interessada nas habilidades de Rodrigo. Impressionava-se era com os gestos relutantes e respeitosos do rapaz. 
— Primeira vez? — perguntou, curiosa.
— Não, com certeza não. Mas, de uma certa maneira, sim.
Apesar de intrigada, Lola decidiu que já tinham conversado demais. Coitado, não bate bem das ideias, pensou enquanto saía do apartamento de Rodrigo, logo depois.
Agora, já eram cinco meses que o rapaz a procurava. Procurava sempre, em excesso. E Lola concordava em se deitar com ele por pena, curiosidade, culpa. Sim, era culpa aquele sentimento que sempre a levava a fazer coisas das quais se arrependia depois. Sentia-se culpada por não conseguir dar a Rodrigo o alívio que vira em outros homens, em outros rapazes como ele. Era o mesmo sentimento que a tomava quando percebia os olhares perdidos de Xavier, o cenho franzido, as mãos apertadas como se fossem dar socos no vazio, ou como se pensamentos absurdos lhe passassem pela cabeça.
Chega!, pensou contrariada, descendo com barulho as escadas do prédio de Rodrigo. Enquanto caminhava de volta ao mercado, decidiu que se livraria dele. Rodrigo não lhe fazia bem ao corpo nem aos pensamentos, que se aceleravam em hipóteses que ela não conseguia entender. 
Que se foda com os seus segredos!, decidiu, pouco antes de chegar à banca. Resolveu que seria aquela noite mesmo que o dispensaria. Xavier estava fora, num dos cursos para comerciantes que vivia fazendo, e ela teria tempo de sair e voltar sem ser vista. O marido não era homem de controlar os seus passos, mas ela preferia não ter que se explicar, para não ter que mentir. Orgulhava-se de pensar que não mentia para Xavier. Eu omito coisas dele, eu o engano, mas não minto para ele, repetia para si mesma quando a consciência teimava em vir à tona.
Aprontou-se rapidamente e borrifou nos pulsos e nas orelhas o perfume que usava diariamente. Em vez do táxi que inicialmente pensou em pedir, preferiu caminhar. A distância não era muita. 
A noite estava um pouco fria e a falta do agasalho fez com que seus mamilos se avolumassem sob o vestido de malha decotado. Prosseguiu a passo rápido, dando-se conta de onde estava apenas quando começou a ouvir algumas cantadas pesadas e assovios que a incomodaram. O atalho pela praia não tinha sido uma boa escolha. Percebeu, tarde demais, que atravessava uma das zonas de prostituição da cidade. Nos muros, as sombras dos corpos que faziam sexo não a assustavam tanto quanto os corpos que enxergava em carne e osso consumindo-se perto dos barcos, na areia, ou nos carros estacionados ao longo do meio-fio. Correu para afastar-se daquelas Lolas multiplicadas em trepadas rápidas, daqueles espelhos incômodos. Nervosa, se encostou nas grades de uma loja fechada e vomitou.
Pouco depois, retomou a caminhada com passos ainda mais rápidos. Virando a última esquina em frente ao porto, suspirou aliviada. Foi quando viu os dois corpos projetados numa parede mais à frente. Pensou em parar, em recuar, mas alguma coisa a atraiu, deixando-a excitada. Com tesão, procurou com pressas os próprios seios, apertando-os com força e sem parar. Devagar, gemendo baixo, aproximou-se mais e mais do muro que se contorcia. Queria ser parte daquele clímax.
Então, seus olhos se cruzaram com outros. Nos de Rodrigo, mais nenhum segredo. Nos de Xavier, o fogo que ela tinha perdido para sempre.