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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Hermenêutica - Poema de Hugo Lima



Hermenêutica




 noite de hotel
 hóspede da Lapa
 ouço risos e talheres
 num samba-canção


      descer
      ou reler Foucault?
      entornar Nietzsche
      nos copos de cerveja


 pagar as despesas
 que a filosofia me deixou
 (até quando?)














quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Beco

Não tenho janela que dê para cena bonita. Nem para um jardim visitado por pássaros bica-latas em frenesi de busca a um banquete de migalhas. Nada de flores sem-vergonha se oferecendo aos olhos como damas da noite. Nenhum parque onde crianças e idosos exponham o inevitável ciclo tese-antítese — irracionalmente injusto e belo — dos começos e fins.
Mas tenho o beco.
Durante anos, me recusei a olhar pelas vidraças. Nem mesmo um debruçar para que as narinas sentissem os cheiros ordinários das histórias urbanas; humanas, inumanas. Limitei minhas percepções ao para cá das cortinas sempre fechadas em todos os cômodos. E me deixei encaixotar por paredes seguras, por um teto limpo, linear, por um chão sem terremotos.
Quando as vozes me subiram da rua até os ouvidos de primeiro andar, dediquei-lhes a leve rotação de cabeça que permito aos incômodos, às coisas insignificantes, a tudo que está fora de lugar. Eram apenas pessoas trazendo alguns tons de plenitude ao meu espaço blindado. Mas as vozes ficaram, desde então. Recorrentes. Nítidas.
Três homens. Um deles denuncia a idade nos conselhos que dá aos outros dois. Em cada frase, a contrapartida de um alerta, de um já aconteceu comigo. É um velho. E os mais jovens se divertem com ele.
Às vezes, um deles não vem. E eu me pergunto o que estará fazendo. Desconforta-me não saber. Uma sensação que só mais tarde identifico como falta. Cada ausência, uma história inacabada. A namorada indecisa entre ceder ou guardar para futura chantagem uma virgindade a ser negociada a casamento. Um sofá em que quase tudo acontece entre as idas e vindas de um pai zeloso à cozinha. E no qual os sonhos de uma moça sem rosto se misturam ao tesão de um rapaz sem intenções. Cada ausência, outra história sem desfecho. O desespero do rapaz de voz grossa. Dívidas e os empréstimos que nunca deveriam ter sido feitos. E novos empréstimos. Um segundo emprego para fazer mais dinheiro. Uma crença perversa nos jogos de loteria.
O velho me irrita. Não gosto dele nem das suas rotas de fuga desgastadas. A bebida revelada no arrastado das frases; a ostentação de uma força inexistente; o óbvio sentenciado como verdade. Não gosto do descaso com que fala da própria mulher e do câncer que a tem levado aos poucos. Detesto gente em negação. Gente que não se quer realidade. Que não aceita sofrer, que olha para o outro lado para não fazer parte das dores, que se entrincheira em salas e quartos confortáveis, seguros, limpos, lineares, sólidos. Gente que cerra cortinas.
Hoje, me desenfreio. A janela aberta liberta meus olhos ávidos. Encostados à porta dos fundos do pequeno restaurante italiano, três homens falam e fumam. E eu vejo as vozes pela primeira vez. 
É apenas outra noite de conversas e conselhos. Uma noite de beco.





quarta-feira, 15 de novembro de 2017

este Novembro deu-se




Nem sei se estou aqui, se ainda estou lá, mas, ainda assim, conto.

Era uma praça. Um espaço amplo. 
Eu tinha lá chegado vinda da cidade e queria  ir adiante.
Ontem, como hoje, era este mês de Novembro. 
Era este mês de Estio quase em Dezembro.
Dava-me em cheio na nuca, um sol muito quente e eu com o pescoço a descoberto do cabelo que costumo ter solto mas trazia atado num desgracioso carrapito.
Eu de pele nua àquele sol de quase Inverno a brilhar com despudor de Julho.
A acrescer, aquela praça mais e mais imensa a cada passo que ía dando.
Comecei a ficar mole, febril, com tonturas e com tremores, e uma dor dispersa irradiou como se fosse de ferida nas tripas ou no peito ou no sangue.
Deu-me azia e, geladas, pingaram-me da testa umas bagas grossas que me escorrerem sobre o rosto, o pescoço e o peito que eu trazia descoberto num decote generoso, neste mês de loucos.
E nem um pensar solto, criativo, que me resolvesse a questão que parecia simples mas que, pastosa, se movia nos meus lábios sem solução.
- Como faço eu para sair deste largo.
E eu nem sequer mais um passo. Eu desistindo, que não havia rua para me levar dali a outro lado, e nem porta de prédio ou janela que eu abrisse para safar-me daquele sítio. Nada de nada, a não ser espaço. Dali ao infinito, nem um muro, nem uma parede, um poial, uma escada, um pedregulho. Um buraco no chão, que fosse.
De um e outro lado, espaço, apenas espaço.
Qualquer que fosse a direcção em que eu olhasse, apenas espaço, e eu a ficar mole, eu com azia, eu com tremores e umas bagas frias a pingarem-me da testa e a escorrerem-me, geladas, sobre os seios, o ventre, os dois dedos grandes, o direito e o esquerdo dos meus pés parados.
Eu sem ter para onde ir e tanto espaço.
- Como faço para sair deste largo?
E ninguém que me respondesse.





quinta-feira, 2 de novembro de 2017

HOMEOPATIA - parte II












Recusa

Ela torcia o nariz para todos os pretendentes que o pai lhe apresentava. Enquanto isso, o vestido de noiva feito pela mãe amarelava no armário.


Dressed to kill

Quando ela punha aquele vestido vermelho, dizia estar “vestida para matar”. A cruel assassina em série foi presa ontem.


Ecumênico

Ele, judeu; ela, muçulmana. Não precisavam de sinagogas ou mesquitas para saber que nem só de ódio vive a Faixa de Gaza.





sábado, 28 de outubro de 2017

REDENÇÃO



Aquino, quanto tempo um homem deve trottoir por São Paulo antes de te encontrar? Jamais pensei que te acharia na São Bento, dentre os alfarrábios da Casa Eclética. O que fazes aqui, afinal? Não me diga que abandonaste a aguardente e as mulheres, pois se me disseres tal heresia, hei de nunca mais falar contigo. Meu velho amigo, bem gostaria eu de contar-te as novidades que trago do Norte em uma mesa de bar, dentre putas e boêmios, mas pretendo debulhar meu rosário aqui mesmo, senão, sofrerei um destes faniquitos que sempre acometem castas moças no ato do defloramento. Anda, Aquino. Larga deste Lérmontov, senta-te ao meu lado e deixa-me vender minha prosa.

No porto do Ceará não se embarcam mais escravos, nobre colega. Sim, eu sabia que seria essa expressão de paspalho que em teu rosto eu vislumbraria assim que tu soubesses das boas novas que trago de Fortaleza. Uma patota liderada pelo João Cordeiro e empenhada no movimento abolicionista desdenhou da opinião do Imperador e libertou seus escravos sem a benção da Coroa. Quanta coragem! Que revolução! José Amaral, o Teodorico da Costa, o Cruz Saldanha, Alfredo Salgado, Manoel Albano, o Teixeira Júnior, enfim, os abolicionistas do Perseverança e Porvir despertaram repulsa dentre os cearenses quanto ao tráfico de negros para os centros cacaueiros e cafeeiros, criando um intenso movimento emancipador. O mulato que conheceste quando estivemos em casa de meu pai e com o qual tiveste uma desavença, aquele mercador de escravos que atende pelo apelido de Chico da Matilde, resolveu que nunca mais embarcaria escravos para o Ceará e ainda bateu o pé, firmando o ultimato de que não permitiria que mais ninguém o fizesse. Tudo isso com o apoio dos jangadeiros, do inspetor da alfândega e do agente da Polícia Militar da Marinha. Até mesmo as senhoras estão vendendo suas joias e promovendo leilões com a finalidade de comprar liberdades, homem de Deus. Escutaste-me, Aquino? O Brasil está prestes a livrar-se da vergonha da escravidão! Tu não imaginas como estão afogueados os humores daquela gente. É de nos fazer verter lágrimas de pura comoção, rapaz. O que estes olhos presenciaram no Norte do país foi algo de uma beleza estonteante, participei de um momento histórico, de uma transformação profunda na sociedade que conhecemos.

Mas há um causo ainda mais peculiar que certamente servir-te-ás de inspiração para a tua ferina prosa poética de escárnio. Há quatro meses, uma vila de nome Acarape alforriou de uma única vez cento e dezesseis cativos. A maioria deles, escravos comprados pela Sociedade Libertadora Cearense. Todavia, um comerciante local de nome João Brasilino libertou seus dez negros por vontade própria, sendo ele ovacionado pelos batutas da abolição. Mas isso não é o mais curioso na história desse mártir cearense, meu bom Aquino. Escuta-me, escuta-me. Tu não fazes a menor ideia do acontecimento escatológico que irei narrar-te agora.

Pois bem. Esse justo sertanejo de nome João Brasilino trata-se de um velho viúvo que carrega na algibeira dignidade e lucidez que raramente habitam um homem analfabeto de pai e mãe. Criou sozinho seus três filhos homens: Francisco Ageu, Antônio Agildo e Raimundo Agobar. Nunca mais quis saber de mulher, manteve-se fiel à esposa morta, sem se deitar com quengas ou amigar-se com viúvas jovens, capazes de esquentar-lhes as costas e descer a vara da educação em seus filhos. Permaneceu ele assim, sozinho, cuidando de seu armazém e criando seus meninos que, curiosamente, cresceram partilhando o mesmo incômodo desvio, o que despertava mexericos por toda a Vila do Acarape. Aquino, o que me dirias tu se eu te confidenciasse que os três moços filhos de João Brasilino, sem tirar nem por, são três meninas? Não faça esta cara, meu amigo. Não atravessei o país para encontrar-te aqui sentado diante de mim a duvidar de minhas palavras. Juro por minha santa avozinha que tanto amei em minha infância que os três rapazes são mais delicados que a nossa querida Luana das Sedas, todos moldados em uma forma da qual só deveria sair donzelas. Vestem-se como homens, muitas vezes deixam a barba por fazer, pegam pesado no trabalho árduo do armazém do pai, mas, quando param para descansar e tomar a fresca, relaxam na macheza e perdem-se em sorrisos e gracejos, trocando ideias sobre os folhetins que leem, olhando indecorosamente para traficantes e escravos, como se não os distinguissem... Como se fossem moças de família com licença para agirem libertinosamente. Sempre afogueados, sôfregos, transgredindo regras sociais com uma indiscreta naturalidade. As pessoas parecem ignorá-los, tão imersas encontram-se no processo abolicionista. Não entendo como em terra de cabra-macho ainda não deram uma sova naqueles três rapazolas. Talvez por respeito ao pai. Não sei, não sei. Tudo que posso dizer, Aquino, é que os filhos aflorzoados de João Brasilino ― Ageu, Agildo e Agobar ― tornaram-se tão familiares e misturados à geografia do Maciço de Baturité quanto os índios Potiguara, Jenipapo, Canindé e Choró. As pessoas riem, fazem um comentário malicioso aqui e acolá, mas ninguém os quer mal. Peguei-me dentre aquele povo quase por completo sem nenhuma instrução e percebi-me não como o homem educado e de trato europeu, mas como um sujeito repleto de preconceitos que, paradoxalmente, clama pela libertação dos negros e ao mesmo tempo desejava em segredo que aqueles três moços fossem corrigidos pela chibata e retornassem ao patamar das coisas tidas masculinas. Acredite-me, Aquino. Os tempos são outros e a liberdade terá que chegar para todos, inclusive para os homens-dama. Anda, filhote. Segura esse queixo, pois o melhor eu deixei para o final. O quê? Não percebes? Sim, Quiquino! Ainda tem mais.

Sete dos negros alforriados de João Brasilino se embrenharam no meio do mato e ninguém nunca mais teve notícia deles, talvez tenham feito isso por temerem que aquela febre de liberdade passasse e novamente fossem arrastados ao pelourinho e aos ferros. Ou seja, fugiram da Vila do Acarape para nunca mais voltar. Fossem os homens públicos abolicionistas ou escravistas, para eles não importava, eram todos brancos. Apenas três negros permaneceram sob a guarda de João Brasilino e continuaram trabalhando por livre e espontânea vontade no armazém do homem que um dia fora seu dono: Talo Grosso, José de Arimatéia e Domingos. Não me pergunte o nome de batismo daquele lá, que não sei, Aquino, e sua graça é o que menos importa a esta prosa. Segura na mão de Deus, companheiro republicano, e prepara-te para o desfecho desta farsa. José de Armateia amigou-se com Agobar, Domingos com Agildo e o destemido do Ageu entregou-se aos afagos pungentes de Talo Grosso. Ah, não ria, meu amigo, que o negócio é dos sérios. E o mais estranho é que não houve escândalo algum e o armazém do João Brasilino vende mais que nunca, talvez pela novidade.

O quê? O velho? Se morreu? Tu nem sonhas, coitadinho. O velho, se morre, é de afeição pelos genros de cor. Abençoou a união de seus três filhos como se estivesse a casar na santa igreja três cocotes. Acontece ali uma revolução de costumes, Aquino. Poder-se-á em um futuro próximo chamar àquele povo de parisienses do Rio Pacoti.

Pois é, rapaz! Quantos giros deu o mundo! José do Patrocínio nomeou o Ceará de Terra da Luz; não pela sua luminosidade tropical, mas por ter abolido a escravatura antes de qualquer outra província do Brasil. Quanto ao Chico da Matilde, não o chamam mais assim, foi cognominado Dragão do Mar. Já a Vila do Acarape, depois dos negros alforriados e dos filhos de João Brasilino que se amancebaram com escravos libertos, não tardou em mudar de nome. Agora se chama Redenção.

Emerson Braga

25/03/2013





quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A mulher que a gente quer ser



A gente que é mulher quer ser um mundo de coisas (astronauta, arqueóloga, estudante, artista, freira, presidente, estrela). A gente sabe que pode e gosta de ser tudo quanto é treco junto. A gente é forte, tem um plus a mais excedente extra multiplicado. A gente é muito, um tudo a gente é.
Então por que tantas vozes, quase o planeta todo, as galáxias inteiras entoam, insistem que a gente só é, só pode querer ser mulher? E por que tantas famílias, feudos, igrejas, nações, árbitros, reinados, gerações, acordos, dinastias, estatutos, tantos universos ficam zombando da gente, diminuindo essa competência, esse poder de ser tanto, muito mais? Virou mania, hábito ruim, vício dos infernos encher o peito, engrossar a voz, apontar o porrete pra gente dizendo que a gente é nada, a gente é só mulher. Que ângulo miúdo, redução descabida, que miséria de interpretação pra gente, meu Deus!
Quase terceira década do século XXI, tanto drone, androide, cada sistema tecnológico sinistro, artifícios, prótese cardíaca, clone, tribuna virtual, a ciência reproduzindo coelhos e informações em nuvens, e a gente ainda sendo desrespeitada, e nossa fala mimimizada. E a gente vem de uma luta do sempre, desde a tetravó, hecatovó, desde que nasceu com vagina (e com clitóris, esse sujeito incompreendido), desde que menstruou, pariu, ganhou ruga — luta que vai continuar depois do nome tinto na lápide. A gente pelejando, com delicadeza ou ira, elencando argumento contra o preconceito, contra a violência doméstica, contra o desgaste da tripla jornada de trabalho, a desigualdade salarial, as cantadas rasteiras, a indiferença, contra o estupro e a culpa que impõem à estuprada, contra a impunidade, a fofoca, contra os padrões estéticos, contra os odiosos manterrupting, bropriating, gaslighting e todas essas violências de gênero até ontem sem nome, mas que se repetem há eras.
Ano 2017 depois de Cristo Jesus (filho de Maria, aquela que foi o sacrário vivo, Mãe de Deus e nossa), e a gente aqui desenhando que as tarefas domésticas precisam ser divididas, os cuidados com os filhos devem ser compartilhados, que a gente tem direito ao lazer, ao estudo e ao trabalho digno, que a gente é dona do próprio corpo e não deve ser apenada por envelhecer. Ah, que canseira! A gente querendo registrar a verdade da gente, mas tendo de escrever tudo ligeiro, porque a gente não pode parar nunca. E a gente pelejando pra ser agente da própria liberdade transformadora, a gente desejando decidir a mulher que a gente quer ser.

Manterrupting: Quando um homem interrompe uma mulher constantemente, de maneira desnecessária, não permitindo que ela consiga concluir sua frase.
Bropriating: Quando um homem se apropria da mesma ideia já expressa por uma mulher, levando os créditos por ela.
Gaslighting: Abuso psicológico que leva a mulher a achar que enlouqueceu ou está equivocada sobre um assunto, sendo que está originalmente certa. É um jeito de fazer a mulher duvidar do seu senso de percepção, raciocínio, memórias e sanidade.

Definições: http://movimentomulher360.com.br/2016/11/mm360-explica-os-termos-gaslighting-mansplaining-bropriating-e-manterrupting/



Maria Amélia Elói, crônica publicada na antologia Mulherio das Letras - Contos & Crônicas, volume 3, Ed. Mariposa Cartonera.







quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Meia dúzia de safanões


«O novo panorama terrorista mundial obriga-nos a gastar muitos recursos e a equacionar outras formas de guerra.» — alertava a caixa introdutória do artigo da revista. O assunto interessava a Patrício Neves. Verificou as outras “gordas”: «Até aonde devemos ir no combate ao terror? De quanta humanidade estamos dispostos a abdicar? Devemos aceitar descer aos níveis de desumanidade dos terroristas, desde que nos salvemos e aos nossos compatriotas?»
Enquanto os colegas analisavam o conteúdo de uma escuta à comunicação de um suspeito, foi lendo o corpo do artigo. De repente, cresceu a agitação à sua volta. Parecia que as semanas de vigilância nas comunicações tinham dado frutos. Hasnain, o intérprete que trabalhava para os serviços secretos, foi perentório:
Bomba! Eles falar em bomba. Falar “Baixa-Chiado”. Passar gravação outra vez!
Não foi possível detetar a origem da chamada, mas o SIS já conhecia a morada do recetor: uma casa decrépita na zona da Mouraria.
Eram sete e meia da manhã quando os agentes entraram na rua do Capelão, já de saídas bloqueadas. O suspeito, um paquistanês de menos de 30 anos, não ofereceu qualquer resistência. Uma busca minuciosa encontrou uma dúzia de telemóveis e uns vinte sacos, de cinco quilos, de farinha. Antes das nove, iniciou-se o interrogatório nas instalações dos Serviços. Ahmid, o suspeito, garantia que não sabia quem lhe tinha telefonado.
Tu não me venhas com tretas! Quem é que te telefonou? Era uma ordem para um atentado? Fala, senão faço-te engolir esses dentes! — irritava-se o agente Moreira.
Eu não sabe. Telefone tocar, Ahmid ouvir.
Parecia sincero, mas com terroristas nunca se sabe.
Mas quem foi e o que queria?
Não sabe. Falar Lisboa, perguntar loja fruta.
Não se passou disto toda a manhã, até que, pelas duas da tarde, os quatro agentes envolvidos na detenção, cansados e irritados, resolveram fazer uma pausa para comer qualquer coisa. Um deles sugeriu uma conhecida adega do Lumiar, ali perto. Àquela hora já devia ter lugares.
Assim que se sentaram, veio o assunto de serviço à baila:
Eh, pá, não podemos ficar nisto, conversa, conversa… e nada — equacionava o Martins.
E uma chapada de vez em quando — brincava o Mendes. — Só para aquecer…
Isto se fosse na América não ficava por aqui. O Trump já disse que os serviços lhe garantiram que a tortura resulta — lançava o Moreira. — «Absolutely!»
Eles lá não são de modas. Vai tudo a waterboarding — concordava o Martins.
Mas eles não tinham proibido isso? O Obama!
Esta cena da verdade alternativa, de que agora se fala muito, já tem muita tradição por aquelas bandas — teorizava Neves, o mais calado. — Eles têm um problema com a verdade. Condenaram a Manning; e vão engavetar o Snowden e o Assange, se os apanharem lá. A verdade está amordaçada e emparedada nas masmorras da Administração.
Eh, lá! Temos poeta — ironizava o Mendes.
Quando atacaram o “borrego no forno”, passaram a falar abertamente da técnica de tortura conhecida como waterboardind ou afogamento simulado, talvez por uma mórbida associação de carnes indefesas.
Dizem que aquilo resulta mesmo. Porque o tipo com o pano encharcado na cara não consegue respirar, porque, se respirar, respira água. Se a água entra na faringe, o tipo engasga-se e a sensação de morte iminente por afogamento é avassaladora — explicava o Martins.
Eh, pá, como é que sabes isso tudo? — perguntava o Mendes. — Andaste a pesquisar... Não me digas que queres aplicar isso ao nosso Ahmid?
Mendes! Porra. Contém-te! — ralhou o Martins, que parecia a voz que congregava as dos outros. — Mas temos da fazer alguma coisa — adiantou em voz baixa, enquanto rastreava o resto da sala.
Eu também acho — apoiava o Moreira. — Até uma gaja como a Meryl Streep disse uma vez que, meditando sobre o assunto, chegou à conclusão que, se a tortura de um suspeito de terrorismo evitar milhares de mortos, então acha a tortura aceitável.
Nem de propósito — atalhou o Neves, enquanto sacava do bolso interior do casaco a revista que estava a ler nessa manhã. — Em 1932, Oliveira Salazar dizia isto: “Os presos maltratados eram sempre, ou quase sempre, temíveis bombistas. Só depois de empregar meios violentos é que eles se decidiam a dizer a verdade. E eu pergunto a mim próprio se a vida de algumas crianças e de algumas pessoas indefesas não justifica, largamente, meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras.” Salazar e Meryl Streep, a mesma luta...
— “Meia dúzia de safanões”… O tipo era um cómico — ironizava o Mendes, refeito.
Eh pá, não vamos misturar — reagia o Moreira. — Esta gaja é lá dos direitos humanos e dessas merdas, que agora até disse, referindo-se ao Trump, que “desrespeito convida ao desrespeito e violência incita à violência”.
Adoro coerências — adiantou o Neves. — O desrespeito do Trump incomoda-a, mas estava disposta a torturar prisioneiros.
Para salvar vidas…
Eh, pá, se a gente cede nos princípios, às tantas estamos a fazer o mesmo que os terroristas — reincidia o Neves.
Nós estamos a defender os nossos concidadãos. Esses terroristas não têm nada que ver com os nossos valores, com a nossa cultura. Se for preciso dar a volta a algum… temos pena.
Os nossos valores... antes ou depois de torturarmos pessoas?
Arre, que é estúpido! — exagerou o Moreira. — Desculpa. Ó Neves, porra!; não somos todos iguais. Eles são outra coisa. E se ainda por cima nos querem matar…
Eu também já li — defendia-se o Neves. — Parece que aquilo é lixado. Mesmo que o tipo desconfie que é simulação, nunca tem a certeza. A aflição é aterradora. O tipo fica traumatizado durante muito tempo. E há tipos que desistem e deixam entrar demasiada água nos pulmões e, se não morrerem, ficam com sequelas graves. Mas o mais ingrato, nesta cena de torturar ou não torturar, é que os resultados não são fiáveis. Um tipo nessas circunstâncias diz qualquer coisa para se livrar do que lhe parece uma morte certa.
É isso que é preciso, que fale, que diga o que nos interessa. Achas que um tipo a afogar-se vai pensar em dizer uma mentira? — racionalizava o Martins.
Se ele não tiver uma verdade para dizer, ou se a verdade que está a dizer não for aceite, ele diz o que lhe vier à cabeça. É o caso dos inocentes.
Sempre me saíste um lírico, ó Neves… Achas que aquele tipo que lá temos está inocente? Achas que não sabe quem lhe estava a telefonar? O Hasnain ouviu bem falar em bomba. Eh, pá, temos que dar este pequeno passo. Para defendermos a vida dos nossos concidadãos, que é a nossa missão sagrada. Ficas de consciência tranquila se falharmos e explodir uma bomba na estação de metro da Baixa-Chiado? Era uma carnificina.
O Mendes tinha-se calado de vez. As piadas não cabiam ali. O Moreira estava intimamente satisfeito com a argumentação do Martins. Concordava a cem por cento. O Neves sentia-se desconfortável, mas tinha dificuldade em arranjar argumentos. Não era fácil contrapor postura humanista, civilizacional, ao perigo de atentado potencial. Como arriscar? Havia uma enorme assimetria de risco envolvido.
Sem autorização de cima, temos de ser muito cautelosos. Não podemos forçar demasiado. Se o tipo não falar às primeiras, paramos, ok?
De regresso aos Serviços, passaram o resto da tarde com perguntas marginais.
Para que queres tanta farinha em casa? É para fazer uma bomba lenta?
Fazer frito, senhor. Ahmid vende na loja.
E os telemóveis?
Ahmid arranja.
Depois de todo o pessoal administrativo ter saído, levaram o suspeito para uma garagem e amarraram-no de costas sobre uma bancada, com a cabeça um pouco mais baixa.
— “It’s now or never”, Ahmid. Ou falas agora ou já não falas mais. Quem é que te telefonou?
O paquistanês apresentava um olhar aterrado. Até ali, tudo tinha sido mais ou menos esperado, mesmo as bofetadas. Agora as movimentações dos quatro homens indicavam que vinha aí violência extrema. Esqueceu-se até de responder. Um dos agentes colocou-lhe um pano sobre a cara, enquanto outro começou a verter água de um jarro sobre a zona entre boca e nariz. Ahmid manteve a boca fechada por uns momentos, sentindo alguma a inundar o nariz e a entrar para a garganta. Aguentou quase meio minuto sem respirar, mas um engasgamento irrefreável tomou conta do seu corpo. Conseguiu expelir alguma água, mas outra entrava e nenhum ar. Tossia água para fora e para dentro. Começou a estrebuchar violentamente. Uma angústia terrível assaltou-o. O coração ribombava. A morte devia ser aquilo. Lançou um último e desordenado pensamento para o seu jovem irmão que ficara no Paquistão.
Quem é que te telefonou? — foi o som que se ordenou um pouco, depois de lhe tirarem o pano da cara. O coração batia freneticamente. Inspirou num urro, tossiu convulsivamente, sentiu o ar a queimar nos pulmões. — Quem, quem? — repetia a voz. Antes que lhe colocassem o pano de novo sobre a cara, Ahmid gritou:
Allahu Akbar!
Eu não disse? — afirmava-se o Moreira, segurando o pano ensopado sobre o rosto de Ahmid. — Dá-lhe mais!
Pessoal, calma! Tínhamos combinado não exagerar — afligia-se o Neves.
Alguns sons sarcásticos dos colegas foram a primeira resposta.
Ó Neves, estamos nisto juntos — ripostou o Martins. — Se não assumes as tuas responsabilidades, sai daqui. Cá estão os colegas para fazer o trabalho que o menino não quer fazer. Sem problema. Vai! Vai lá! Mas já sabes… Não fales disto a ninguém, ok? Ok?
Neves aceitou a sugestão ordenada e humilhante. Meteu-se no carro e foi para casa, profundamente deprimido. Sentia-se incompetente e desenraizado. Começava a questionar seriamente a sua vocação para agente secreto. Parecia ser uma questão de estômago.

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: Fernando Botero, Abu Ghraib (série), 2005.

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(Este conto integra a coletânea Civilização e Barbárie da Revista Gueto, 1º semestre de 2017, edição especial, pp. 63–68.)

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terça-feira, 24 de outubro de 2017

TROVA PREMIADA






domingo, 22 de outubro de 2017

Neivinha do Apito, ou O Diastema (M)Oral



Dela era uma lacuna no sorriso, um vão peculiar, e ao querer suor e paixão do esposo gritava o buraco em assovio alto; caiu a Neiva de boca nele, assim falava a gente dos apartamentos, e mesmo os cães calavam-se nas madrugadas de pele quando eram conquistados por aquele nhi-nhi-nhi. Delícia de sensação, era a crença de todos, pois enquanto ela sorvia o marido o universo revela-se harmônico e bom. Até Luciano, velho resmungão do último andar, acalmava-se ao escutar o silvo, a seus gatos confidenciando,

Essa mama com fé de mártir.

Neiva era jovem e se esvaía em carne branca. Os quadris aumentavam a impressão dos pés e joelhos tortos, e as pernas, grossas, contrastavam com a cintura fina e os seios pequenos. No rosto de olhos curiosos seguia uma expressão meiga, ingênua, posta em descrença quando arregaçava os lábios e mostrava o vão superior – vão que alcançava, além dos ossos, a alma. Bela, recatada e do lar, do silvo não havia segundo, nem menos, para começar: entre calor, entre chuvas, iniciando o assovio de Neiva cessavam sons e rumores e os movimentos abreviavam-se ao mínimo, o infinito exibindo um elo devasso em sua ordem; também o trânsito minguava e fugia longe, como se existissem momentos também estimados pela sorte ou sob sua guarda.

Vencia seis anos o casamento, o noivado, a inocente sobreposição das mãos, mais os males, alegrias e opostos, e provação nenhuma foi isso. Provação foi Neiva ir ao dentista, decidida a colocar um artefato odontológico de molas e borrachas; haveria de fechar o buraco, o vão, e o especialista, homem reto, retilíneo e religioso, reconhecendo a tentação da fissura, aceitou por renovar o sorriso e o pudor de quem previa a perdição. Em casa, vaidosa e segura de eliminar um defeito, sorriu para o marido. Ele nada disse, ficou mudo; quem era para julgar pouco? À noite, sob lençóis onde silhuetas se formavam, onde iriam se formar, Neiva o devorou em silêncio. Gafanhotos soaram acima da sucção, assim como as conversas e batidas nos corredores, e o casal, sentindo isso, a violência sobre o encanto, de certa forma soube que a realidade jorrara ali.

Nos primeiros dias, moradores e animais estranharam o sossego, a renúncia do apito; então aceitaram a ordem recente como a de sempre, verdadeira, afinal aquele guincho sexual constrangia valores e consciências, denunciava vontades obscuras e há muito rejeitadas. Melhor a quietude, conjecturavam, e esqueciam o esôfago de Neiva, instrumento digno das grandes orquestras naturais. Uma semana e já ignoravam suas melodias de outrora, e quanto mais obliteravam as lembranças mais a vida inclinava-se à frente: ruas escureciam no auge da tarde, brisas violavam janelas e arbustos. Entristecidos, a menor sensação crescia com intuito de equilibrar os estímulos ausentes, e logo embates surgiam nas escadarias e estacionamentos subterrâneos. Eram vislumbradas aparições, perfis brancos e luminescentes encaminhando-se ao fosso dos elevadores, risos enigmáticos surgindo na extensão das garagens; ocorreram invasões, assaltos, sentenças jamais ditas e que anunciavam uma rotina ordinária, fora da pacífica ordem criada por Neiva e seu esposo. Os dois também se enfrentavam, dia sim e dia não, e ao final das batalhas reconciliavam-se e choravam juntos, questionando o porquê das ofensas, agressões.

Nessa época ela já se livrara do maquinismo dental; o vão, fechado, era devaneio de ontem. Acostumaram-se a discutir durante o café da manhã e, num desses, cuspindo manteiga e leite, Neiva levantou-se da mesa. Ante um comentário jocoso acerca de suas pernas, ante a irritação do ventre, arremessou uma vasilha contra o marido: furiosa por errar, correu em sua direção, mas resvalou e caiu, com o rosto ofendendo as cadeiras. Passou manhã e tarde nos braços do esposo, falando de acontecidos e supostos, e quando na cama, à noite, beijaram-se eles mesmo do sangue verter. Neivinha desceu e desceu visando à desforra – e ao absorvê-lo maltratava o silêncio, puxava forte, exigia do pescoço; cada ir e vir mesclava êxtase e dor, e agindo assim um dos dentes da frente caiu.

Vendo-o escorrer pela virilha rabiscada em pelos, ela persistiu, negando a educação e as leis criadas por fracos e confusos, e ouvindo acima dos suspiros apaixonados o apito que voltava a soar graças ao sacrifício do osso.


Essa noite, todos dormiram bem.





sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Fatos e Boatos

Fato que Adalgisa andava apaixonada por Jadson Batista. Fato que a família não se agradava do namoro. Fato que Jadson Batista se emplastrava de brilhantina para esconder a carapinha rente e esbranquiçava a pele para entrar na arquibancada do Fluminense, seu time do coração. Boato que Jadson era um Zé Ninguém.

Fato que Jadson Batista acabara de receber o espadim de aspirante da Escola Naval. Boato que pretendia seguir carreira em Marinha e chegar ao almirantado. Fato que a autoconsciência de que sua cor e sua origem tinham tudo para lhe deixar a ver navios no meio do caminho.

Fato que Jadson Batista também andava apaixonado por Adalgisa. Boato que, apesar do desagrado, os pais de Adalgisa - ele escriturário do Banco do Brasil, ela do lar -  proibiam encontros do casal. Fato que eles até sucumbiram ao namorico, desde que Jadson Batista se apresentasse sempre com a farda da Escola Naval. Boato que não passavam do portão, onde alguma intimidade possível era ousada. Fato que desfilavam os dois pela rua, exibindo-se à vizinhança maledicente. Boato que janelas eram fechadas ao passar do casal atrevido improvável. Fato que Marechal, o vira-lata da família, ficava de sentinela no portão. Boato que rosnava ao menor sinal de mãos insidiosas mútuas.

Fato que o namoro esquentou, a ponto de Jadson Batista cogitar pedir a mão de Adalgisa em casamento numa cerimônia simples na casa da iminente noiva, diante da família contrariada. Boato que a mãe de Adalgisa dera um faniquito ao saber da intenção do ritual do noivado. Fato que acabou aceitando a ideia a contragosto, apenas com uma fisgadinha de decepção no peito.  Boato que o pai de Adalgisa expressou que não se sentiria à vontade diante dos pais de Jadson Batista, ele ferroviário, ela costureira no Engenho Velho. Fato que o casal trocou torcer o nariz por engolir sapo.

Boato que o rapaz seria um mestiço insolente a dar um golpe numa branquela bem-nascida. Fato que os pais de Jadson Batista se sacrificaram pela educação do filho único, a ponto de transformar o estudioso menino num dos mais graduados aspirantes da turma de 1951. Boato que se rebelava contra os que lhe chamavam de “pó de arroz”, “beiço gordo” e “telha brilhosa”. Fato que sempre fora um rapaz humilde, resignado e envergonhado de suas origens e seus antepassados.

Boato que os pais de Adalgisa deprimiram por desgosto da filha. Fato que se preocupavam com seu futuro.  Fato que a menina sempre fora uma estudante ordinária, uma normalista preguiçosa e não suportou madrugar num trem para dar aulas nos cafundós de Senador Camará, lugar estranho à sua casa de altos e baixos na Tijuca. Fato que detestava alunos. Boato que tinha sido exonerada pela Diretora da Escola. Fato que largara o magistério para se dedicar ao lar. Fato que restava aos pais rogar à Santo Antônio por um marido provedor que lhe mantivesse vida boa, confortável e estável.

Boato que o estrabismo de Adalgisa enxotava pretendentes. Fato que driblava a confiança dos pais nas domingueiras dançantes e se entregava a qualquer pé de valsa, quando impulsionava suas coxas ao ritmo do bolero aos entre pernas pulsantes dos rapazes. Boato que num muro escuro atrás do clube alguns parceiros de dança sentiam os glúteos rebolantes de Adalgisa, que recebia colossos rijos no único orifício que lhe permitia preservar virtude. Fato que a recorrência se dava era num beco igualmente escuro atrás do Grupo Escolar. Boato que os pais sabiam e faziam vista grossa. Fato que os ares angelicais de Adalgisa efluíam pureza e sonsice. Boato que os rapazes que conheciam seus glúteos rebolantes comentavam a façanha entre si. Fato que juraram segredo sob pena de nunca mais repetirem deliciosa transgressão.

Boato que Adalgisa era decantada à boca pequena como uma desmiolada desfrutável. Fato que depois de conhecer Jadson Batista desistira das domingueiras, dos boleros e do esfregar dos glúteos rebolantes nas pélvis dos pés de valsa, no beco escuro atrás do Grupo Escolar. Boato que, indignados, os saudosos do beco teriam dado com a língua nos dentes, a ponto de fazer Jadson Batista sabedor das travessuras de Adalgisa. Fato que temiam que o aspirante perdesse humildade e estribeiras, e lhes aplicasse uma sova de espadim e golpes de artes marciais aprendidas na Marinha.

Fato que Jadson Batista acreditava na pureza da amada. Boato que ela sonhava rebolar
seus glúteos rente às entrepernas de Jadson Batista. Fato que, por mais que lutasse contra vontades ardentes, não queria expor suas vergonhas antes da hora certa.

Fato que, diante do fiasco no magistério, os pais investiram na dona de casa prestimosa que Adalgisa poderia ser. Fato que a matricularam em cursos de bordados, crochê, corte, costura, pintura de louças, boas maneiras e culinária. Boato que seus fracassos se revelaram absolutos em todas as disciplinas. Fato que, pelo menos na cozinha, Adalgisa habilitou-se em sobremesas, doces, petiscos amanteigados e licores. Fato que para abrilhantar o dia do pedido de casamento resolveu a moça preparar um licor para servir ao iminente noivo e familiares, como prova de sua vocação para mulher prendada.

Boato que os pais a obrigaram a caprichar no licor, para embriagar o rapaz, a ponto de lhe fazer perder a compostura e estragar sua pretensão em desposar filha tão angelical. Fato que sugeriram à filha, que além do licor de teor alcoólico moderado, oferecesse café, limonada, biscoitinhos amendoados e petiscos.

Boato que estariam insones os pais com a possibilidade de desposar a filha com alguém que não frequentava seus sonhos. Fato que haviam se conformado e agradecido a Deus por um oficial de Marinha ter se interessado pela filha de poucos recursos do intelecto, em vias ter seu barco encalhado pelo destino.

Fato que o licor demoraria 10 dias para ficar no ponto. Boato que havia pressa para o momento solene. Fato que Adalgisa colheu a tempo jabuticabas no quintal e as colocou num pote coberto por aguardente. Boato que, dia seguinte, a mistura tinha se transformado num delírio licoroso, daqueles que prendem casais de maneira afrodisíaca, capaz de provocar calores nas intimidades de ambos e ímpetos de se imiscuírem num bolero ritmado intenso e infinito. Fato que dez dias depois, aí sim, a poção licorosa ganhou a propriedade do desejo, confirmado pelas sucessivas colheradas que
Adalgisa enfiava no pote e as levava aos lábios de olhos fechados, sem que não sentisse uma queimação igualmente licorosa que lhe encharcava a calçola. Boato que tenha se deixado levar por dedos inquietos, a ponto de urrar e gemer impudicícias, cujos crescentes áis, áis, áis profundos tenham transposto o muro do quintal da casa ao lado, despertando horrores e inveja na vizinha que esticava lençóis no varal.

Fato que a poucas horas da cerimônia, numa tarde fresca de um sábado, Adalgisa provou o licor e voltou a sentir a queimação subindo pelas anáguas da saia rodada. Boato que tenha recorrido aos dedos salientes para aplacar o fogo e produzir gemidos notáveis à vizinhança.

Fato que à chegada de Jadson Batista e dos pais, o casal anfitrião se portou com protocolar gentileza e encaminhou as visitas à sala de estar, onde um console estilo Luís XV, coberto por um caminho de linho branco e bordados, exibia licoreira, bule, jarro de refresco, cálices, xícaras, copos e pequenas baixelas de biscoitinhos amanteigados de amêndoa e folheados de parmezon.  Boato que a mãe de Adalgisa fitara os convidados da cabeça aos pés, sem esboçar sorrisos ou feições de simpatia, certa
de que oferecia pérolas aos porcos.

Fato que depois das lengalengas iniciais, Jadson Batista proferiu o esperado pedido olhos nos olhos do pai da noiva iminente. Boato que Adalgisa tenha se antecipado ao “sim” do pai e atirado a recém pedida mão entre as pernas de Jadson Batista, quando, movida pela embriaguez licorosa e o desejo despudorado, proferiu um “aqui está a minha mão no nosso espadim, meu amor”.

Fato que o resignado pai da noiva não titubeou e após a afirmação solene sugeriu à filha que servisse o licor. Boato que Adalgisa sentiu sua recôndita caverna em brasa e passeou a língua entre os lábios, ora de olhos fechados, ora de olhos abertos, contemplando sôfrega o homem que ali lhe devolvia o olhar como se prometesse a lua, as estrelas, o diabo.

Fato que, licor servido, os convidados ergueram cálices. Boato que o pai de Adalgisa saudara o licor de jabuticaba como néctar da “fruta negra, cor dos braços que ajudaram a construir o Brasil e que agora até guardiões de nossos mares já são, quem diria? ” Boato que os convidados se indignaram com o sarcasmo e deixaram a casa bufando, espatifando cálices e bibelôs.  Fato que os quatro pais e os noivos brindaram à nova família que ali nascia.

Boato que a data do casamento fora adiantada. Fato que a cerimônia foi povoada de elegâncias e emoções. Boato que a mãe de Adalgisa tenha se debulhado em lágrimas de tristeza. Fato que, se chorou, foi para demonstrar alegria. Boato que tenha levado um beliscão do marido na beira do altar, exigindo-lhe modos de mãe de noiva diante dos convidados.

Fato que a saída dos noivos se deu por um túnel formado de espadas empunhadas por oficiais de Marinha engalanados. Boato que os pés de valsa, saudosos do beco interrompido, ao invés de atirarem arroz aos nubentes, jogaram punhados de feijão preto no rosto do agora marido, que os cuspiu de volta aos agressores, desenbanhando o espadim e iniciando o bafafá na porta da igreja. Boato que a turma atrevida fugiu pela rua aos gritos de: “pó de arroz! ”, “beiço gordo! ” e “telha brilhosa! ”.

Fato que o casal entrou num Cadillac amarelo enlaçado de fitas rosas, em cujo rabo de peixe foram amarradas diversas latas vazias de Toddy e banha de porco.  Boato que Adalgisa segurava o espadim de Jadson como um troféu. Fato que lenços acenavam e mais arroz eram atirados como água  santa
a abençoar os pombinhos.

Boato que seis meses depois nasceu-lhes um menino. Fato que foram pais de Jadinho. Boato que
se maldizia o tempo da gravidez. Fato que entre talcos, alfinetes de fralda e cueiros, havia potes de brilhantina e que na cabeceira do casal nunca faltava licor de jabuticaba.

Fato que os quatro avós exibiam o neto orgulhosos pela vizinhança e em perfeita harmonia.
Boato que passavam pó de arroz nas bochechas do menino antes do passeio. Fato que Marechal
teria surtos de ciúme, mordendo quem se atrevesse fazer festinha ao pequeno.

Assim foi contado um recorte da história de Adalgisa e Jadson Batista. Fato que construído por fatos que viraram boatos e boatos que viraram fatos, aos quereres de quem conta e de quem lê.
O resto é boato. Ou fato.





terça-feira, 17 de outubro de 2017

adentra - poema de Marina Rima

  

adentra

 

tudo que está entre o dito
e o que ainda não se disse
e não foi visto em nenhum filme do woody allen
e ainda precisa de corpo
massa densidade densidura
precisa de um bom vivant
para botar em versos e em reversos
e fazer reverberar
tudo isso, que está escondido
no reino das palavras
onde se entra em silêncio
e se bebe do elixir da mudez
onde se dança com os signos
e se retira os sapatos, para evitar os ruídos
esse lugar,
o caminho do -1 ao 1
onde tudo que é vivo
se perde, para ser só verbete
o reino ensurdecedor dos significantes
insig ni fi ca dos
somos





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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Se

Apagada. A vela sobre o tijolo quebrado agora é cera derretida. De um branco sujo, gosmento. Janela afora, só um pouco de uma luz distante impede a escuridão de ser inteira. Mas não é claridade bastante que ela consiga enxergar da pouca altura do seu corpo que nem alcança um metro ainda. Os pés descalços caminham devagar até a porta sem tranca. No corredor comprido, o escuro é pior. Ela volta, com medo do bicho-papão. Com medo de tudo. Quer a mãe. A mãe que saiu no começo da noite. A mãe que só vai voltar amanhã. 

A mão miúda quase esmurra a madeira vagabunda da porta. A voz quase grita. Ela toda quase enfrenta o corredor escuro para procurar a escada. Ela quase. Mas se lembra da mãe dizendo: Aqui não pode gritar, não pode chorar. Quando a mamãe sair, tem que ficar quietinha. Senão vem um monte de homem mau pegar você. 
Não, ela não pode gritar.
Faz pouco tempo que elas moram ali. Que a mãe entrou escondida nesse prédio grande e escuro. E subiu muitas escadas sujas cheias de um cheiro ruim e de gente esquisita. 
Agora, nossa casa é aqui, disse. 
Faz pouco tempo que elas começaram a passar o dia na rua, pedindo dinheiro no sinal, comida nos restaurantes. Sem conseguir muita coisa. 
As pessoas não ajudam mais. Vou ter que me virar. Foi assim que a mãe falou. 
Agora, a mãe sai todas as noites. Sem ela. Vai se virar. E lá fora não tem ninguém para escutar o choro dela fungado de medo. Para ouvir ela dizer baixinho Mamãe, mamãe, volta mamãe! Para ela avisar que a vela apagou. Só os homens esquisitos que ficam nas escadas.
Se ela ficar quietinha no canto do colchão sem forro encostado na parede, se fechar os olhos para não ver o escuro, se for uma menina boa que não chora, se esquecer o estômago que é só falta, se não sentir o frio que ultrapassa o pano fino e furado enrolado no corpo, se tampar aquela boca de dentro que conta para a sua cabeça uma história que ela não quer ouvir: 

Cadê a mamãe? 

Mamãe foi trabalhar. 

Eu acho que ela foi embora. Deixou você sozinha.

Não foi, não! Ela me deixou com os anjinhos. Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador... Mamãe, mamãe, eu não sei o resto! Volta, mamãe! Vem me buscar! Cadê os anjinhos, mamãe?

Se ela conseguir sair dali sem passar pelos homens esquisitos na escada. Se ela conseguir fugir da história ruim que está ecoando dentro dela: A mamãe não vai voltar… A mamãe não vai voltar. Se ela conseguir subir no caixote que está bem embaixo da janela da cozinha. Se conseguir abrir a janela. Se conseguir subir no parapeito. Se conseguir voar. Como os anjinhos. 








domingo, 15 de outubro de 2017

esmola


Os primeiros passos atrapalharam-se-lhe no roto das alpargatas e num pedaço de nastro imundo que lhe sobrou do interior dos trapos que lhe serviam de calças.
Dormira ali mesmo, e já não fazia tempo para dormir, assim, tendo por tecto, não as estrelas e o céu muito negro e alto, como semelhavam os céus de Estio, mas este céu de chumbo a querer desabar.
Desramelou-se com dois dedos da mãe esquerda que, com a outra mão, ele colocou ao ombro o bornal que lhe servira de travesseiro, e foi seguindo pelo caminho de terra e pedras soltas que levava ao povoado. O corpo seco, muito erecto, parecia buscar uma antiga dignidade, uma perdida juventude. Levou a mão ao bolso do casaco que ele mesmo remendara: pontarelos negros a segurarem restos de uma sarja que já fora azul. Tome, diziam-lhe, e ele agradecia e nem reparava se era o seu tamanho. Desagradecido, dir-lhe-iam se recusava. As criadas, sobretudo elas, eram altivas e cruas. Ele aceitava tudo de olhos baixos. Hoje, teria sorte de encontrar quem lhe desse um naco de pão e umas azeitonas. Tirou do bolso o que seria de comer pois que meteu à boca. Era um courato ressequido que saberia a ranço e com ele foi entretendo o estômago. Na esquina caiada de um muro de quinta, buscou a porta de serviço. Aguardou uns instantes. Não tocou. Raramente o fazia. Antes aguardava que alguém da casa entrasse ou saísse. E ali estava. Remexida na saia que roçava a soca de madeira, surgiu na azinhaga uma rapariga. O toucado e o avental diziam que era serviçal e ele estendeu a mão, os olhos por terra e, quando a rapariga estava a dois passos da entrada, balbuciou, sempre de olhos baixos: um niquinho de broa pelo descanso de todos os da casa. A rapariga desviou-se dele e, murmurando, um salve-o Deus, abriu a porta e passou para dentro o corpo roliço e mais a cesta que trazia no dobrar do braço. E fechou a porta e o fechar-se da porta deixou no ar um ruído seco.
Ele ficou ali, de pé, hirto numa espera que desejava pródiga em esmola, e foi mirando, distraído de si e daquele ficar ali esmolando, os pormenores da pedra rosada que contornava a porta, cantaria talhada por mãos de artista. Demorou os olhos na corda esculpida: tão parecida que semelhava, embora fosse pedra. Estava nisso, quando a mesma rapariga apareceu ao postigo. Notou-a gaiata. Espreitando na janelinha estendia-lhe um pequenino embrulho: papel gorduroso que ele recebeu nas mãos em concha, balbuciando que Deus abençoe a todos nesta casa, e já a rapariga se recolhia fechando a portinhola sem ruído.
Espreitou o papel amassado de ter servido outros embrulhos e sorriu-se a olhar o pedaço generoso de pão de centeio e os ossos ainda salpicados de peles de borrego. Percebeu que era borrego pelo cheiro, e o estômago pediu-lhe um pedaço. Aquietou-o aspirando fundo aquele odor de comida e tirou um pedacinho de miolo do pão que colocou na língua a chupar-lhe o doce. Comeria o resto mais logo. Comeria quando percebesse se aquele lhe devia servir de almoço ou se seria mais sensato deixá-lo para a ceia. E meteu o embrulho no bornal esburacado que trazia ao ombro. A aquietar aquele alvoroço do corpo a tentá-lo, buscaria água na fonte que havia antes de despontar o casario do povoado; e colheria fruta nalgum galho dependurado num valado. Ameixas que ainda as haveria nas árvores. E foi seguindo caminho, vagaroso, a cismar nos figos que nem sobrariam, pecos, nas figueiras. Colheria de bom grado, uns quantos. 
imagem Mendigo de Mihaela Mihailovici 2013





quinta-feira, 5 de outubro de 2017

pranto


chora o céu de setembro
pelos trabalhadores desempregados
pelo massacre dos porongos 
há tanto tempo comemorado
pelos índios exterminados 
por atrapalhar o agronegócio
por todo o lixo depositado
embaixo dos tapetes de luxo

chora o céu de setembro 
pelos moradores de rua 
pelo poeta abandonado 
que morreu nos braços da chuva 
pela devastação da amazônia 
pela censura à manifestação artística
pela fome que voltará ao subúrbio
por todo ódio que interrompe a vida

chora, oh céu de setembro