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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Álbum

Eu sempre guardei feriado
como quem crê um milagre:
um beijo no carnaval, as luzes de novo ano, o banho de mar nas férias, recato na sexta santa, argola de namorado

A vida contada em recessos — pois fatos do todo dia acabam perdendo o viço

Meu livro é de festa das mães proclamação da alegria caça-ovos tiradentes bom velhinho corpus christi

Não fica de fora o finados:
chuvinha precisa e insistente, família de abraço cingido, gostoso zelar de memórias

Por muito e querido tempo, velávamos mortos distantes
cravados em outras instâncias: parentes de décimo grau, amigos de década antiga

Doía um nada na alma
saudade polida fazendo cosquinha

Mas ela chegou resoluta pra se apoderar dos retratos
ceifou meus avós alguns primos
rondou toda a vizinhança

Sem nem embaraço ou socorro
senhora de si e dos meus
laçou os chegados mais rentes.

Tocou até mesmo o meu pai!

Agora no 2 de novembro tormenta vem muito robusta
saudade que ofende o pra sempre


O que celebrar no suspenso – pra caber no hoje outra vez o tempo em que éramos juntos?

Maria Amélia Elói





quinta-feira, 25 de maio de 2017

O asceta arrependido


Almoçar num restaurante de um centro urbano é quase sempre uma trabalhosa operação de transferência de comida do prato para o estômago, e um penoso exercício de flagelação auditiva, tudo sob a pressão do pouco tempo do intervalo para almoço. O barulho cansou-nos, a pesada digestão dá-nos sono, o raciocínio embota-se. Como fariam os sábios de antigamente?
A História das religiões está cheia de ascetas, jejuantes, eremitas a alimentar-se de gafanhotos, procurando uma verdade essencial no silêncio e na frugalidade. Alguns juntam-lhes a imobilidade e a “ausência de si”, parecendo aproximar-se da vida vegetal, atenta, no entanto aos processos de conhecimento transmentais.
Viver em harmonia com o Mundo e com os outros sempre foi umas das grandes aspirações do Homem. Muitos grandes homens se dedicaram a pensar a vida, as suas harmonias e os seus contrassensos. A que iluminações chegaram esses grandes contemplativos? Qual foi o seu percurso? Escolhamos um dos mais conhecidos, Sidarta Gautama, o Buda?
Sidarta, um príncipe indiano que viveu no século VI antes de Cristo, sempre foi muito protegido pelo pai e viveu os doces prazeres da corte até muito tarde, sem ter grande consciência dos dramas sociais que se desenrolavam fora do palácio. Casou aos 19 anos com uma prima, não tendo filhos até aos 29. Então, nasceu Rahula, o que parece ter sido o que determinou a rutura brutal com a vida que levava até aí. Há mulheres que renegam os filhos que parem, talvez pelas dores que estes lhes provocaram para nascer. Há homens que ficam aterrorizados com o significado intrínseco do nascimento de uma vergôntea sua, que, fatalmente, lhes surge como o seu substituto. Terá sido o que sucedeu a Sidarta? Abandonou a mulher e a criança e foi refugiar-se entre os ascetas de umas serras perto de Rajgir.
Qualquer pessoa comum verá nesse abandono uma fuga, uma cobardia. Dirá que o homem não suportou o peso das responsabilidades futuras, quer da paternidade, quer da liderança de um reino. E que a culpa terá sido do pai, que o manteve afastado das realidades da vida.
Sidarta era um jovem meditativo e ficava chocado com as coisas mais triviais do dia-a-dia: a vista de um velho fragilizado pela idade, ou de um leproso, perturbavam-no como a uma criança de poucos anos. Jovem mimado e rodeado de conforto, não entendia por que existiam tantos sofrimentos no mundo. Como uma criança, ficou deslumbrado com a visão do porte sereno e sábio de um desses ascetas maltrapilhos que vagueavam pelas aldeias mendigando algo para comer. Deve ter entrevisto nessa vida sem compromissos a solução para fugir às pressões cada vez maiores que a sua vida de nobre enfrentava. Ele nunca soube o que era a pressão da luta pela vida, talvez por isso se tenha assustado.
Dizem que, após atingir, pela meditação, os estádios do “domínio do nada” e do “domínio além do pensamento” se manteve insatisfeito e se reuniu aos ascetas Sadus da floresta de Uruvela.
Existia, na Índia, a ideia enraizada de que, para se atingir o saber e o poder sobre as realidades profundas da vida, havia que fazer jejuns, vigílias e outras penitências e mortificações. Com cinco companheiros jejuou e mortificou o corpo durante seis anos, até que pressentiu que debilitar o organismo lhe diminuía a capacidade de meditar, pelo que concluiu que não seria essa a via do conhecimento, e quebrou o jejum, para grande repúdio dos companheiros. Só mais tarde, quando ele lhes revelou as suas iluminações, obtidas em estado de longa e solitária meditação, o reconheceram como Buda, isto é, Desperto, e se tornaram seus discípulos.
Que verdades profundas eram essas, que ele atingiu apenas pela meditação? Coisas elementares, que a maioria das pessoas simples usa com frequência, mas que ele sistematizou em oito princípios, a que chamou «Caminho Ariano dos Oito Passos»: ideias, aspirações, linguagem, conduta, meio de vida, atenção e meditação corretos, além de esforço eficaz. Cada um destes passos foi objeto de esclarecedores desenvolvimentos, sujeitos a um princípio geral de Impermanência: tudo é impermanente; todas as coisas estão interligadas e interdependentes, por isso mudam; nada permanece para sempre. Se as pessoas se apegarem demais às coisas, vão sofrer com essa mudança. A causa do sofrimento é o apego, seja a um objeto, a uma ideia, ou a uma condição social. Libertando-se do apego, o ser humano alcança a libertação que procura. Ou seja, nada de mortificações, nada de apego excessivo às coisas do mundo, vida frugal em todas as suas facetas.
Este caminho de aperfeiçoamento não é uma religião, nem Sidarta — o primeiro Buda — dedicou grande atenção à religião. Talvez por isso os Brâmanes não o vissem com bons olhos. É uma espécie de manual de autoajuda para que o ser humano, através de esforço e método, alcance a iluminação nesta vida — um bem-estar espiritual a que se chama Nirvana.
Também este humilde cronista já, em tempos, procurou o Nirvana, sem muito empenho, nem grande êxito. Após calcorrear algumas veredas da vida e reconhecendo virtudes na autoanálise, considerou, no entanto, que se aprende mais da vida em contacto com os membros da sua família e da sua comunidade, e observando os membros das outras comunidades, seja de que país forem, do que de olhos fechados a meditar. Achava admiráveis os grandes pensadores, mas sentiu que são tanto ou mais importantes os homens que não ficam parados e usam a vida em atividades úteis para todos os semelhantes: os cuidadores, os artífices, com especial atenção para os que produzem os alimentos. Sem estes, o mundo estaria cheio de meditativos jejuantes a descobrir verdades profundas da vida, com o estômago a roncar.
Reconhece, no entanto, que, sem grandes e mobilizadores pensadores, como Sidarta, os homens estariam condenados a arrastar vidas sem aquela esperança de redenção que possuir uma verdade fundamental confere. Na verdade, cada um tenta percorrer o caminho que procurou, que encontrou, que escolheu, segundo a sua aspiração íntima, e procura torná-lo útil, satisfatório, empolgante.

Uma vez por outra, talvez uma sandes, comida num banco de jardim a sós consigo, possa ser a experiência espiritual necessária para reinicializar o trajeto decidido.

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: Representação de Buda em estilo Gandara [greco-budista], século I–II a. C., Museu Nacional de Tóquio.

* * *





quarta-feira, 24 de maio de 2017

TROVAS DE EDWEINE LOUREIRO






sábado, 20 de maio de 2017

Pequenos Cuidados


Eu sempre gostei de cortar a unha do Nildinho. A unha do pé, do dedão do pé. 
Só eu cortava a unha dele. 

A gente começou a namorar cedo, eu era de menor, mas ele não me respeitou não. 
Um dia foi logo levantando a minha saia e eu senti uma coisa enorme entrando 
dentro de mim. Eu gostei. Senti uma dorzinha gostosa, e depois daquele dia no 
muro escuro atrás de igreja, fiquei com vontade de Nildinho entrando dentro de mim. 
Não tinha dor mais não, mas tinha um gostoso que ficava cada vez mais gostoso. 

Umas três vezes por semana a gente se encontrava à noite no muro atrás da igreja. 
Até que alguém viu, acho que foi o padre, e contou para meu pai. Ele virou o diabo. 
Disse que dava coça em Nildinho se ele não casasse comigo. 

Nildinho era bom coração, trabalhava no mercado, levando e trazendo caixa. 
Merecia um trabalho melhor, porque era muito inteligente. Nildinho acho que gostava 
de mim. Não precisou levar coça do meu pai e casamos na mesma igreja onde tinha o 
muro da gostosura, como nós mesmos apelidamos o muro. 

Meu pai tinha um dinheirinho guardado e fez festa bonita. Com bandeirinha, bolo, 
pastel, leitoa assada, cerveja e sanfona. E ainda sobrou troco pra gente passar 
dois dias na praia na raiz da serra. Foram os melhores dois dias da minha vida. 
A gente não fazia mais gostosura em pé, escorada no muro, mas tinha uma cama de 
lençol que a gente se deitava e passava o dia todo na saliência. Nem saímos para 
a praia. Aquela coisa gostosa do Nildinho entrava por todos os meus buracos e eu 
me senti a mulher mais feliz do mundo. 

Numa dessas vezes em que a gente virava o corpo em cima do outro, passando a língua 
em tudo quanto é canto, eu notei que a unha do pé do Nildinho estava muito grande. 
Era uma unha meio virada para cima, que me arranhava as canelas que nem cachorro quando 
a gente chega em casa. Eu falei: “Corta essa unha, Nilsinho”.  
Ele disse: “Para de falar e se concentra”. 

Depois que a gostosura foi lá em cima e jogou a gente cansado pro lado, eu voltei 
ao assunto: “Nilsinho, corta essa unha do dedão. ” Ele falou que nem menino sestroso: 
“Não sei cortar unha não, filha. ” Eu falei: “Então eu corto”. 

O homem da pensão me emprestou uma tesourinha e eu cortei unha do Nildinho. 
Ele fechou os olhos e sorriu. Parecia que estava sentindo gostosura. Enquanto eu cortava, 
ele passava a mão no meu cabelo fazendo carinho. 

A gente foi morar num puxadinho na casa do meu pai e da minha mãe. Minhas irmãs menores 
me ajudavam na casa, enquanto Nildinho trabalhava entregando caixa do mercado. De noite, 
com mais precisão, toda noite, Nildinho e eu fazíamos gostosura. Ô homem bom, ô coisa boa. 

Acho que de tanto levantar e levar caixa de coisa da venda ele ficou um mulatão forte e 
cheio de vontade de fazer gostosura. E como sempre, pelo menos uma vez por semana, 
eu cortava a unha do dedão do pé dele. E ele se enroscava quem nem gato, só faltava 
miar de felicidade. 

A vida foi passando e nada foi mudando, até que embarriguei. Veio uma menina linda. 
E não podia ser diferente: filha de tanta gostosura só podia ser linda. Demos o nome de 
Rosynilda. Rosy porque eu era Rosy e Nilda porque ele era Nildo. 

A vida foi melhorando. Nildinho virou balconista e a gente aumentou o puxadinho. 

Até que veio tragédia. Estava muito bom para ser tão bom. Meus pais morreram no 
ônibus que capotou na romaria para Nossa Senhora de Aparecida. Chorei muito. 
Saí carregada do enterro, perguntei a Deus “por que ele tinha feito isso comigo?” 
e perdi um sapato. 

A gente ficou com Rosynilda e minha irmãs para criar.  Foi para mais de mês sem 
gostosura e a unha do pé do Nildinho crescendo. Mas depois do luto, o tempo fez carinho 
na gente. Fomos morar na casa do pai e da mãe, e Nildinho até ganhou aumento de tanto 
que vendia na venda. Ele era inteligente e de boa prosa. Logo depois, diminuindo o trauma, 
a gente voltou para as gostosuras. E veio nosso menino: Nildo Junior. Um fofo e sorridente 
igual ao pai. E de tanto fazer coisa gostosa no meio do resguardo, menos de um ano, pimba: 
Rosynilda 2, que para não ficar igual à irmã, batizamos de Rosynilda Maria, que era o nome 
da minha mãe. Meu falecido pai Geraldo ficou sem neto para receber homenagem porque fiz 
ligadura no Posto de Saúde. 

Eu já estava ficando meio cansada para cuidar de tanta criança, mesmo que minhas irmãs 
já fossem mocinhas. E boas mocinhas. Estudiosas e ainda ajudavam na casa. Nildinho gostava 
delas. A única preocupação que eu tinha era com o muro atrás da igreja. Mesmo sem queixa 
da vida eu não queria que elas conhecessem gostosura antes do tempo. Não é toda mulher que 
tinha a sorte de ter um Nildinho. Tem muito homem safado por aí. Nildinho era bom marido e 
muito carinhoso comigo, principalmente quando eu cortava a unha dele. Ele dizia: 
“Filha, chegou a hora daquele carinho. O dedão tá furando a meia”. Na mesinha de cabeceira, 
eu guardava a tesourinha que o homem da pensão emprestou pra mim e nunca devolvi. 

Já se passaram tantos anos e aquele momento depois da gostosura de sexta feira já tinha 
virado agrado obrigatório. Eu gostava muito de satisfazer o homem que me fazia gostosura 
e ele gostava do jeito que segurava seu dedão e ia plec plec passando a tesourinha com 
muito cuidado. A gente não se falava, mas sentia que um agradecia ao outro por estar junto 
tanto tempo. Ele até fechava os olhos, baixava a cabeça, segurava as mãos. 
Parecia que estava na missa.

Um fim de tarde eu estava no tanque torcendo roupa, quando o ajudante do padre apareceu 
no lusco fusco. Avisou: “Dona Rosy, vai lá no muro da igreja." Não entendi bem, mas alguma 
coisa empurrou minhas canelas pra correr pra lá. Fui descalça, de pano na cabeça. 
Quando fui me aproximando, já estava escuro e minhas pernas bambearam. Parecia assombração 
se mexendo encostada no muro. Fiz o sinal da cruz e mais uma vez uma força do diabo me 
empurrou pra mais perto. Dei um grito. Nildinho estava fazendo gostosura com 
minha irmã mais velha.

Hoje, depois de mais de dois anos, acho que já estou refeita. Ainda me lembro que na hora 
arranquei um pau de cerca para bater nos dois, mas o padre apareceu e disse para eu não 
fazer isso, menina, e que Deus iria castigar os pecadores. Castigou nada. Nildinho falou 
na minha cara que estava apaixonado pela minha irmã e ela confirmou que estava 
apaixonada também. Fiquei estonteada. Só sei que naquela mesma noite os dois 
arrumaram as trouxas e fugiram. 

Nildinho largou a venda, minha irmã largou a escola e as coisas dela lá em casa, 
e ainda me deixaram os dois com uma irmã e três filhos para criar. Sumiram. 
O dono da venda ficou com pena de mim e arrumou de eu ser balconista. Fiquei muito 
magoada e mais uma vez senti que Deus faltou comigo.

Fui levando a vida com dor danada dentro do peito, mas com uma força endiabrada nas 
canelas para fazer coisas e criar minha irmã e meus filhos. Sozinha, nem com Deus eu 
contava mais. As crianças foram crescendo e ajudando na casa. Nunca mais souberam do cunhado, 
da tia, da irmã e do pai. A Comadre Damaris era a única companhia que eu tinha. Dia sim, 
dia não, ia lá em casa para saber seu eu estava precisada de alguma necessidade e eu sempre 
agradecia e dizia que amizade dela era de bom valor. Ela me servia chá que carqueja, quando 
via que eu estava magra e triste além da conta. E repetia: “Já faz tanto tempo, Comadre Rosy. 
Ninguém merece a sua tristeza. ”

Dia desses deixei os filhos em casa e desci a raiz da serra até a praia. Eu não queria ir, 
porque nem queria saber se ainda existia aquela pensão que pela primeira vez eu e Nildinho 
fizemos gostosura deitado, mas a comadre insistiu, disse que mesmo triste eu era jovem, 
e precisava conhecer novos ares e me distrair. Assim que descemos do ônibus, senti aquele cheiro 
de churrasquinho e cerveja derramada na calçada. De longe, ouvi um pagode. 
Damaris me animou: “Vamos, Comadre Rosy, deixa a vida te levar...”

Aí eu fui, né? Fui com meus próprios pés, a Comadre Damaris nem precisou me puxar. 
E fui requebrando, porque de um pagode até que gostava quando era feliz. E quando 
fui chegando na rodinha, vi minha irmã mais velha, já carcomida, bunda grande e aquelas 
bolotinhas na coxa que as pessoas chamam de celilite, requebrando no meio dos homens. 
Que vergonha, tão desfrutável virou a minha irmã. Mas meus olhos foram teimosos. 
De tocaia, parei para ver aquela cena toda com dor no coração. E fui olhando quem estava 
em volta. E sabe quem estava no pandeiro, todo bobo com aquele requebro? Isso mesmo. 
Nildinho. Barrigudo, cara de encachaçado e sem dente na frente. Segurei a mão da Comadre 
Damaris e ela, quando viu a besteira que fez em me levar para praia, perguntou se eu queria 
ir embora. Eu disse: “Não." 

Olhei Nildinho de cima para baixo. Ele não me viu. Mas eu vi. 
Na chinela velha, vi suas unhas. As do dedão estavam enormes e coscorentas. 
Acho que minha irmã não sabe cuidar dele.  







quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vênus Vulcânica - Poema de Anna Apolinário




Vênus Vulcânica


Estilhaça a tua própria medida
(Hilda Hilst)





medusa enforcada o espelho estilhaçado pelo
eterno retorno de Saturno Atena e Aracne rasgam abismos sanguíneos
em meus abismos afiam demônios meu batom vermelho
batizado com belladonna pulsos seios púbis perfume de endorfinas ofídicas pupilas dilatadas por
metanfetaminas hálito de tequila e haxixe nefelibata, calço os
coturnos de Hilda visto seu casaco rosso e macero cicutas com meu
amante frente ao fantasma
asfixiado de Sylvia Plath



(Poema do livro Zarabatana - Editora Patuá, 2016)






terça-feira, 16 de maio de 2017

Helena

Um segundo olhar. Mais do que isso até. É preciso muitos olhares para saber Helena. Para ultrapassar o exterior desfavorável e ir além dos cabelos lisos abaixo dos ombros, ralos, mal penteados. Além da pele manchada e seca, ferida por espinhas que não deveriam mais estar lá. E dos olhos miúdos, claros, assustados como os de um animal perseguido. E dos ombros abaixados como se sobre eles houvesse carga permanente. 
É preciso furar a casca rude de Helena. Esquecer as distrações que a desmerecem. Distrações que poderiam definir outras mulheres, mas não ela. Helena não é superfície. 
A voz baixa, quase um cochicho, nunca se altera. Mas é bom prestar atenção à sua boca. Pequenos repuxados no canto esquerdo alertam sobre seus humores. Quando surgem, são sinais de que ela vai travar com alguém, em algum lugar, a qualquer momento, uma batalha. Ou já está travando. E Helena não perde batalhas. 
Faz anos que ela traz para mim, aqui no hospital, mulheres que tentam abortar sozinhas ou pelas mãos de fazedores de anjos inexperientes. Mulheres sem recurso, sem apoio, sem saída. Vítimas de um processo doloroso, sangrento, primitivo. E mortal. Traz também meninas engravidadas por pais, tios, irmãos. Estupradas por vários silêncios. Ou seduzidas por meninos tão bobos quanto elas. E me convence a atendê-las sob argumentos que não aceitam réplica. Sem registros médicos ou ocorrências policiais. 
Sim, eu sei. Mas este não é um relato sobre ética, nem sobre leis, nem sobre crenças, nem sobre escolhas. Nem sobre mim. Esta história é sobre Helena.
Helena. De mãos pequenas e grossas. Que acompanha mulheres e meninas. Que abraça cada uma delas no choro de uma maternidade solitária ou nas dores de um aborto. Que as leva embora assim que podem ir. Amparadas. Afastadas dos companheiros bêbados e das mães apocalípticas que discursam sobre pecados e castigos. Até que estejam prontas para recomeçar. A vida ou os erros.
Helena é respeito. É história para se ouvir aos poucos. Boatos, pedaços de conversa, informações reticentes. Que falam da mulher que se levanta de madrugada para limpar bêbado, para acalmar drogado, para encontrar filhos e cachorros fugidos, para apartar briga de casal, para cuidar de idoso sem forças, para dar notícia de morte por acidente, por bala, por faca, por overdose. Que contam da mulher que pede roupas para a caridade sem nunca tirar para si e para a sua própria carestia uma peça que seja. E que faz sapatinhos de crochê para os bebês da miséria, ainda que seu útero seco tenha se recusado a dar cria. 
Helena não é voz de acusação. É mulher de perdões. Mulher para um segundo olhar. Mais do que isso até. 






sexta-feira, 5 de maio de 2017

ensaio para ser só


o peso das horas
o frio que penetra
por baixo da porta
a cara do outono
o vento que arrasta
as folhas e os pontos.. .
o corpo acamado
a cabeça no fundo
de um plano fechado

e o mundo egoísta... girando





terça-feira, 2 de maio de 2017

ORIGAMI


Em qualquer papel que se dobra,
A vida surge em dobro:
Na imagem desdobrada,
Na palavra do avesso.

E em cada avesso do verso,
A nova forma se abre:
Um diamante agarrado
No solitário-papel.

E assim a joia-obra
Em palavras se desdobra,
No estojo de tantas rimas
Onde o poeta as guarda.

É um artesão renitente
O poeta do origami:
A cada nova rasura,
Surge outra dobradura.

Fundem-se, então, os ofícios:
Ourives poeta artesão
Colhendo rascunhos, ranhuras,
Trazendo-os na palma da mão.






segunda-feira, 1 de maio de 2017

quase febre

o dia cansacento tropeça no lusco-fusco. cai afeito ao não-seguir. com ele os templos que se isolam nas mentiras aveludadas. vendo-me ao fatídico. no sentido em que me chicoteio até que alguém impeça a efetividade. o quando num porém. invisto na ida desencasquetado com o retorno. ninguém me procura. é aceitável irradiar um rosto que não permanece? escurece nas retinas. carpe tenebrum. a inspiração que me sustenta na rutilância do despenhadeiro é a vulnerabilidade. aglomerados de embriões umbralinos impedem a minha religação ao santuário do verbo. lá onde a penitência não cessa. zero hora onde a fixação é por diversas vezes. cruz alguma me deifica. onde está o cão para secar minha tóxica irrelevância? deus-me-acuda. apropriam-se de mim as dispensáveis alusões. não mais almejo o paradoxal trono dos que destroem o hábito de ruir. é um filete de gracejo que me restou na intuição. minhas degradadas pupilas retêm um cadavérico dragão acabrunhado. peço colo à ponta da lança. empalo-me no salmo do vale sombrio. um abrigo que me arde na intransponível certeza do exílio. desamparo rogado aos cativos da agressão. não me aceito no ímpeto. patética idolatria. desacato a resiliência que me calcula. os pormenores não constam na minha formulação. inominável polifonia. realoco-me na desconstrução da paisagem. amar é um comovente desleixo.





terça-feira, 25 de abril de 2017

O Cordeiro do Sacrifício


Como acontecia frequentemente, o conselheiro Luís Galhardo almoçava nessa quarta-feira no restaurante Valadares, em Lisboa, com o seu amigo Vasco Corvelo, administrador principal do Banco Nacional de Investimentos. Falavam de negócios e saboreavam um carpaccio de lagosta, antes da chegada do linguado au meunier.
Se o Governo se decidir, finalmente, pela privatização da Caixa, é fundamental que eu possa subscrever, pelo menos, setenta milhões de ações — enfatizava Galhardo. Aparentava uns cinquenta e tal anos enxutos, o olhar decidido, as sobrancelhas negras fazendo contraste com o cabelo um pouco grisalho. — Quem entrar em força no capital do banco do Estado, fica com uma posição excecional no mercado. E um fluxo de dividendos inigualável. Nem a petrolífera é tão apetecível.
Eu sei, Luís. É um dos últimos baluartes que o Estado mantém. Todos os funcionários públicos lá têm conta. São valores baixos, mas são milhões de contas. — Corvelo tinha um perfil físico mais arredondado, o rosto rosado, um lábio inferior carnudo. — O teu problema é o aval.
Se o Estado alienar vinte e cinco por cento, convinha-me atingir uma quota de três por cento, o que deve rondar os setecentos milhões de euros.
Pode ser que aliene só dez ou quinze… — avançava Corvelo, cuja preocupação parecia ser a segurança dos empréstimos.
Hmm!, creio que irá bem acima. Repara que a dívida já é maior que o PIB. Só para os juros precisam de uns oito mil milhões.
Também dependerá da cotação por ação, na oferta pública — ponderava Corvelo, enquanto bebericava mais um pouco de alvarinho.
Elas devem valer uns dez, dez e meio — racionalizava Galhardo —, mas o Governo vai fixar um preço mais baixo, com certeza, para que a operação seja um êxito. E será tanto mais baixo quanto mais incerta for a procura previsível, claro. Convinha que o mercado desse a entender que não tem um interesse por aí além, para que o preço não suba acima dos dez.
Mesmo assim, Luís, como é que queres atirar-te para setecentos milhões? Que aval é que podes garantir?
As ações, Vasco! Só as da petrolífera estão a valer cento e oitenta milhões. Todas juntas valem mais de trezentos milhões. Não é uma garantia a cem por cento, mas, na prática, chega bem.
Valem trezentos milhões, mas em que dia e em que conjuntura? É um valor virtual, Luís. Ações não são garantia segura e os bancos evitam fazer grandes empréstimos sobre carteiras de ações, como sabes. Preferem valores menos voláteis.
Também isso da garantia é uma exigência de segurança excessiva. Achas que as ações da Caixa algum dia vão cair abaixo dos cinco euros? Trezentos milhões é mais do que suficiente.
É chato! Vou ter um trabalhão para convencer os outros administradores.
Mas, não és tu que mandas? — gracejou Galhardo.
Não é bem assim; só valho um voto. Tenho é alguma influência... Mas preciso preparar bem a argumentação. Vou ter de apresentar uns gráficos com o teu crescimento económico, e outros com os ativos que já geraste para o banco.
Vá lá! Tu és capaz. — incitava Galhardo. — E já pensaste quanto é que este negócio vai render para o teu banco, se o empréstimo vier do vosso lado?
E também tenho de contar uma treta qualquer à comissão de fiscalização da Bolsa!
A comissão quer é não ter chatices!
Às vezes, ainda me vêm uns pruridos, ainda acho tudo isto muito pouco ético — confessou Corvelo, enquanto dava mais uma garfada no linguado.
Ética… A ética não produz dividendos. A nossa missão é ganhar dinheiro para nós e para os nossos — para a nossa família, para os nossos amigos, para os grupos que fazem andar a sociedade. No teu caso, para os acionistas. E nem sempre é barato ganhar dinheiro. Não te digo quanto é que transferi para uma conta da sogra de um secretário de estado. Eu tenho para mim, desde muito novo, que a gorjeta dá-se antes do serviço e tenho-me dado bem com o sistema. Fui sempre bem servido. Tu não queres ganhar dinheiro?
Eu quero, vou fazer os possíveis para que ambos ganhemos, mas não vais sem resposta; há quem parece que não quer. Tenho um cunhado, que encontrei há dias… É gestor de uma baiuca qualquer, na indústria. Aquele homem deve viver só do trabalho dele, é impressionante. Se visses com que carro ele anda!
Por que é que não o puxas lá para o banco?
E tentei! Propus-lhe um lugar de consultor. Nem precisava de lá ir. Não quis. E ainda bem. O tipo é um bocado esquisito. Ainda me criava lá algum problema, alguma contestação, alguma fuga de informações, sei lá? Nem ele se sentia feliz a trabalhar para uma empresa que tem o investimento de risco — a especulação, como ele prefere dizer — como princípio produtor de riqueza. Há pessoas que são felizes assim, o que é que tu queres?!
Mais razão me dás! A propósito — Galhardo baixou a voz —, foste convocado para logo à noite?
É secreto… Não, não fui. Aliás, não sou um dos grandes interessados diretos; tu, sim, queres atirar-te de cabeça.
Não sei quem vai lá estar. Aliás, é indiferente. Só espero que resulte.
Tu acreditas que aquilo tem alguma influência positiva nos negócios?
Olha, eu sei é que os que lá vão obtêm graças. É curioso, é como dar gorjeta adiantada.
Era preciso que Deus, ou lá que entidade é, se deixasse subornar com sacrifícios.
Na Bíblia, dizem que sim. Deus gosta do cheiro de carne na brasa. Foi por isso que o Caim matou o Abel.
Como assim, não foi uma briga?
Ciúme! O problema é que Deus deleitou-se com o sacrifício do borrego assado do Abel; para as frutas e legumes do Caim, nem olhou. A propósito, queres sobremesa?
Corvelo olhou em volta, disfarçadamente, até descortinar o carrinho de sobremesas.
Noisettes de morango com Porto; é isso. E tu?
Galhardo soltou-se em riso.
Desculpa, lembrei-me duma coisa. Como será uma sobremesa de carne? — riu-se de novo ao gesto lúbrico de Corvelo. — Não, falo a sério. Uma empada de borrego? Um creme de cabidela? Deus bem podia ter honrado alguma fruta do Caim para a sobremesa!
Após uma pausa para mandarem vir sobremesas, voltou à conversa anterior:
Para mim, aquilo é importante, sobretudo, pela força que criamos em nós, por sentirmos que estamos certos e que Deus está do nosso lado; e por nos sabermos rodeados por amigos empenhados nos mesmos objetivos, mesmo não lhes vendo a cara, não achas? A Ação ajuda os seus filhos, como nós a ajudamos. Os membros da Ação são como irmãos, não é… irmão? Olha, venham almoçar lá à minha quinta de Sintra, no domingo, está bem? A Matilde está farta de me dizer para vos voltar a convidar. Venham, que damos uma volta pela serra. Nesta altura está toda florida e o cheiro das acácias é sublime.

Conforme ditava a convocação cifrada, Galhardo chegou às onze e meia da noite à Quinta da Dedaleira, ele próprio ao volante de um carro pequeno. Envergava um albornoz negro com uma cruz de Cristo no peito. Recolheu-se uns minutos a interiorizar o ambiente e o espírito adequados à cerimónia em que iria participar. Antes de sair do carro, colocou o capuz bicudo, também negro, onde só duas aberturas ao nível dos olhos permitiam interação com o exterior.
Percorreu uma alameda sinuosa em declive ascendente, iluminada pela lua, ouvindo apenas os próprios passos, e entrou num túnel, disfarçado por detrás da cantaria de uma fonte. Parou a adaptar a retina à escuridão. Em vão. Resolveu ligar a lanterna do telemóvel. Não havia motivo para se arriscar a tropeçar e cair. Pouco depois, ao dobrar o cotovelo existente no túnel, vislumbrou uma luz ténue vinda do poço vertical escavado na encosta e apagou a lanterna.
Desembocou num ponto intermédio da escadaria espiral embutida na parede interna do poço iniciático. Olhou para cima. A uns doze metros, via-se parte da parede do poço iluminada pela lua cheia, enquadrando o círculo de azul profundo do céu. Para baixo, escuridão. Ouviu passos que desciam da parte superior. Estava na hora. Desceu, com cuidado, os sessenta degraus que o separavam do fundo. Aí, o diâmetro do círculo de chão marmóreo não ultrapassava os três metros. Na sombra, percebeu cinco vultos silenciosos, de que só se percebia o símbolo vermelho no peito, dispostos em semicírculo junto à parede. Ocupou o seu lugar e aguardou.
Pouco depois, chegou o irmão de quem ouvira os passos e outro companheiro que surgiu da sua direita, da galeria que dava para o lago. Em breve, os seus olhos estavam adaptados à escuridão e pôde perceber uma banqueta almofadada e uma grande cruz em aspa encostada e fixada quase verticalmente à parede curva. Ali, ocorreria o ritual que — acreditava-se — desencadearia o mistério da ajuda divina para os que a invocavam. Ele tinha algumas dúvidas, algumas reticências íntimas, mas não podia dar-se à ousadia de as deixar emergir demasiado. Não tinha bem a certeza de quem controlava o quê. Havia demasiados mistérios na vida, apesar dos muitos mecanismos de domínio e manipulação que já conhecia.
No alto do poço, surgiu um halo de luz que se deslocava ao longo da escadaria, fazendo as sombras das colunas desta viajar na parede oposta. Era o cordeiro do sacrifício que chegava. Reparou que todos os irmãos olhavam na direção da luz e percebeu uma certa ansiedade. Um irmão, quase à sua frente, começou a cantar, muito baixo e grave, quase em surdina, o Agnus Dei. Galhardo não teve dúvidas de que se tratava de monsenhor Benedito, o responsável pelas aplicações financeiras do santuário. Todos responderam, nas partes “aleluia” e “digno é o cordeiro”. Pareceu-lhe reconhecer as vozes do presidente do Banco Central de Negócios e do rival e vizinho, o milionário Ricardo Van Keizer. Quando já se via que a luz provinha de um grande círio empunhado por um irmão, começou a revelar-se a forma alva que o seguia. Era uma jovem de branco, com um manto que lhe cobria o cabelo. Galhardo pensou reconhecer, no irmão guia e ofertante, o passo oscilante do ministro das finanças. Fazia sentido.
Chegados junto da assembleia, este colocou o círio num suporte elevado da parede e conduziu a jovem até à banqueta, na qual ela se ajoelhou, de mãos postas e cabeça baixa. Monsenhor, seguido por todos, foi baixando o volume da entoação do cântico até se fazer silêncio. O ofertante puxou para trás o manto da rapariga, descobrindo-lhe a cabeça e revelando uma longa cabeleira escura. Envolvendo a cabeça, uma faixa púrpura com o logótipo da Caixa Geral de Depósitos bordado ao nível da testa. Olhando para todos os companheiros encobertos, através das aberturas do seu capuz, o ofertante anunciou:
Corpo do meu corpo, sangue do meu sangue: eis aqui a escrava do Senhor!
Avé, Maria, cheia de graça! — saudou monsenhor, postado à frente da donzela. — Glorioso será o fruto do teu ventre, que gerarás para nós, para a glória de Deus.
Faça-se em mim, segundo o vosso desejo! — acedeu a inocente.
Monsenhor colocou, então, a mão direita sob o queixo da jovem, introduziu a ponta do polegar na boca dela e anunciou baixinho:
O Senhor entrará a ti e tu produzirás os frutos da tua fertilidade e saciaremos a sede no teu úbere.
O ofertante ajudou a jovem a levantar-se, conduziu-a com doçura e encostou-a à cruz em forma de X. Fez descer a faixa púrpura, de modo a cobrir-lhe os olhos e olhou, de novo, para todos os circunstantes. Num gesto suave, puxou um laço que prendia a longa túnica na zona do pescoço, soltando-a. Esta caiu ao chão, revelando o corpo nu da rapariga. Era uma mulher jovem; “da idade da minha filha” — calculou Galhardo. Os seios eram fartos e estava rapada na zona púbica. Cada um dos dois irmãos que ladeavam a cruz pegou num braço da jovem, amarrou-lhe o pulso com uma fita também púrpura e ergueu-o até ao respetivo braço superior da cruz. Os seios da jovem subiram um pouco e afastaram-se um do outro. Com meia dúzia de pancadas que ecoaram pelo espaço cilíndrico do poço, os dois confrades pregaram as pontas da fita ao madeiro. A seguir, fizeram o mesmo às pernas: afastando-as, prendendo os tornozelos com fitas e pregando estas aos braços inferiores da cruz.
A jovem mulher mostrava-se dócil e submissa. Ofereceu, em voz suave:
Tomai e comei; este é o meu corpo!
Monsenhor aproximou-se de punhal em riste. Parou junto ao cordeiro da imolação, contemplando o seu corpo indefeso. Ergueu o punhal apontando-o ao pescoço, enquanto a mão esquerda segurava o queixo virado para fora, e susteve-se. Galhardo pensou reconhecer a mesma posição em que já vira representado Abraão sacrificando o seu filho Isaac, no momento em que um anjo interveio e evitou o sacrifício. Parecia que monsenhor estava a dar tempo ao anjo para intervir. A jovem inclinou mais a cabeça para a sua direita, oferecendo o pescoço branco.
Galhardo conhecia a jovem, das suas ligações mecenáticas à arte. Era artista de performance e já trabalhara várias vezes para a Ação. Ela e o marido cobravam uns poucos milhares de euros por uma sessão destas, sigilo incluído. Monsenhor encostou o punhal ao pescoço da jovem. Sob a lâmina surgiu um fio de sangue. Monsenhor fê-la deslizar em torno do pescoço nu, pressionando o botão que expulsava do recipiente do cabo sangue de galinha. Grossos veios vermelhos escorreram do pretenso golpe no pescoço unindo-o ao baixo-ventre e escorrendo pela face interior da perna direita, qual gargantilha de múltiplos pendentes longos e sangrentos. O sacrifício estava consumado. A jovem, em voz baixa, voltou a sussurrar:
Este é o meu sangue. Tomai e bebei!
Seguiu-se a fecundação ritual, por cada um dos oito comensais. Monsenhor aproximou-se, abriu o albornoz, agarrou os pulsos do cordeiro e encostou o corpo nu ao da vítima. Fez um movimento para a frente com a pélvis, exclamando:
Abundante seja o fruto do teu ventre!
Galhardo foi o penúltimo. Sentiu a tensão suave do peito da jovem a ceder ao peso do seu, sentiu os sexos encostados, viu à frente dos seus olhos o símbolo de três letras do corpo financeiro desejado. Um início de ereção manifestou-se. Fez o movimento ritual.
Abundante seja o fruto do teu ventre! — completou monsenhor.
Pouco depois, descia a figura arcangélica, pela escadaria. Era alto, de cabelos louros ondeados. Envergava um longo manto de brocado em tons de amarelo e vermelho. Na mão direita, um cetro da Ação, no ombro esquerdo, uma pomba de rabo de leque branca. Aproximou-se da mulher; a pomba voou para a cabeça da escolhida. O delegado da Ação soltou o manto, revelando o corpo nu, musculado e ginasticado. Adotou a mesma posição que os irmãos, havia pouco, executando suaves enleios das ancas. Monsenhor começou a cantar “Forte, forte é o Senhor”, acompanhado por todos. Pouco depois, o enviado penetrava o corpo exposto da eleita, manifestando ritmadas e enérgicas contrações dos glúteos. A assembleia em semicírculo, arrebatada, mantinha uma atenção intensa. O ato não durou mais de minuto e meio. O corpo cansado quedou-se em comunhão física com o corpo do desejo, o rosto tombado no seu ombro. Monsenhor retirou um círio aceso e, ainda cantando, dirigiu-se para o exterior, pela caverna do lago, seguido pelos outros irmãos, em fila cerimonial.

No dia seguinte, Galhardo tomava o pequeno-almoço no alpendre quando recebeu uma chamada do seu amigo Corvelo:
O Governo anunciou agora que vai privatizar vinte e cinco por cento da Caixa ao preço de oito e meio cada ação. Parabéns! Sempre vais conseguir levar a tua avante!
Hurra! — rejubilou Galhardo. — Não vejo a hora de pôr as mãos naquele banco! Agora só dependo de ti para conseguir o empréstimo.
Fica descansado; já comecei a tratar de tudo. Penso que para a semana já tenho notícias para ti. Boas, com certeza!
Ótimo! Outra coisa, já falaste com a tua mulher por causa do almoço de domingo?
Sim, sim! Ficou muito agradada com o convite. No domingo, lá estaremos para o almoço, com todo o gosto. Cumprimentos à Matilde.
O almoço constituiu um ensejo de maior aproximação dos amigos e também das suas esposas. Tantos interesses comuns elas encontraram que combinaram um salto de uma semana a Nova Iorque, para ver umas peças na Broadway, e para compras, claro.

Conforme tinha prometido, Corvelo tinha um empréstimo de setecentos milhões aprovado pela direção do Banco em menos de uma semana. A assinatura do contrato fez-se na sexta-feira, de manhã, na sede do banco de Corvelo, desculpando-se este com a insuficiência da garantia para a taxa de juro ser um ponto mais alta que o esperado pelo amigo. Galhardo compreendeu e aceitou, admitindo para si que até daria mais, desde que isso lhe permitisse aceder a uma fatia da Caixa. Em privado, revelou a Corvelo:
Quero agradecer-te por este empréstimo e pelo esforço que fizeste para o conseguir. Para te mostrar quanto estou reconhecido, quero convidar-te para uma sessão especial de que vais gostar, tenho a certeza. Eu depois confirmo as datas. Não marques nada para aqueles dias em que a Matilde e a Zizi estiverem para fora!

Na tarde do dia seguinte, um dia quente de princípio de primavera, Galhardo ligou para a rapariga da performance no poço iniciático:
Como está, menina Paula? Não me conhece, ou antes, nunca nos falámos, mas eu sei que faz performances especiais, para grupos muito selecionados. Foi uma pessoa altamente colocada que me deu o seu número. Estou a ligar-lhe, exatamente, para saber se está disponível para uma performance temática, desde sábado a oito dias, numa quinta em Sintra.

A primavera passou lenta e majestosa pela quinta de Galhardo e por toda a serra de Sintra. Impercetivelmente, os mantos amarelos das acácias deram lugar a matizados de castanho e verde profundo e as brisas de odores adocicados trazem agora cheiros sensuais de feno e madeira.
Correu bem a escapada a Nova Iorque de Matilde e da nova amiga. Voltaram radiantes e dispostas a outras aventuras por outras capitais de compras. Correu bem a escapadela de Galhardo e do amigo na recriação do episódio bíblico de Susana e os Velhos. Ficaram com vontade de aprofundar o estudo da Bíblia e selecionar outros episódios inspiradores.
Correu bem a privatização parcial da Caixa. O Estado encaixou quase seis mil milhões, o que permitia ao Governo aliviar por algum tempo o garrote inexorável da dívida. Correu bem a Galhardo a aquisição de ações da Caixa, apesar do receio de que os investidores estrangeiros, nomeadamente os fundos de pensões americanos, entrassem em força na operação, mas o Governo reservou dois terços do alienado para os investidores nacionais. Galhardo, sozinho, subscreveu e obteve os setenta milhões de ações que pretendia, pelos quais pagou seiscentos milhões. Nos primeiros quinze dias, o preço por ação manteve-se a subir, confirmando os palpites otimistas de Galhardo que aproveitou para acumular, aplicando os restantes cem milhões do empréstimo que ainda não tinha usado.
A partir daí, não correu tão bem a investida acionista de Galhardo. Devido a investimentos ruinosos do banco que suportava o seu rival Van Keizer, tornou-se claro, ao longo da primavera, que esse banco corria o risco de falência. Dizia-se que os administradores eram apenas homens de mão de Van Keizer para esvaziar o banco, desapossando liminarmente os depositantes. Acontece que alguns dos maiores depositantes eram organismos do Estado, atraídos por juros muito tentadores e pelo prestígio de sucesso de Van Keizer. Assim sendo, o Estado, na posição desconfortável de perder milhares de milhões se o banco falisse, resolveu nacionalizá-lo, assumindo os prejuízos, mas tomando em mãos a gestão do banco para não perder tudo o que lá tinha metido por interpostos organismos. Argumentou com o perigo de uma derrocada geral do sistema financeiro do país, mas Galhardo pensou que o facto de Van Keizer pertencer à Ação também teria pesado na decisão do Governo, embora nada mais pudesse fazer que conjeturar.
As perdas do banco nacionalizado eram bem maiores do que a princípio se pensou e, aos poucos, todo o encaixe que o Estado tinha realizado com a privatização de parte da Caixa foi metido no banco de Van Keizer. Na verdade, as perdas repercutiram-se nos outros bancos, o que fez cair as cotações das ações de todos. As da Caixa não foram exceção, caindo em três meses para menos de seis euros. Dadas as dificuldades gerais e da Caixa em particular, esta decidiu não distribuir os dividendos previstos para esse ano. O que tinha custado a Galhardo setecentos milhões valia agora menos duzentos e cinquenta, sem qualquer retorno. A sua garantia de trezentos milhões, que tinha parecido ser mais que suficiente, levou um rombo, quando também as ações da petrolífera caíram, devido à instalação próxima, no Alentejo, de uma fábrica de produção em massa de carros elétricos.

Desta vez foi Corvelo que convidou Galhardo para almoçar. Ainda antes de chegar o rosbife à hortelã, Corvelo encetou o assunto quente:
A tua posição é insustentável, tens de reconhecer. Acho que desta vez arriscaste de mais. Estou a ser pressionado por toda a administração e não há outra volta a dar, senão executar a tua garantia, para cobrir as perdas.
Eu sei que a coisa está feia, mas não achas que a Ação me podia dar uma mão, como deu ao Van Keizer?
É também por isso que tinha de falar contigo. O principal diz que tem de haver sacrificados, alguém que possa ser apontado como culpado. Usou especificamente o termo “cordeiro”. Ele acha que deves ser tu, por jogares um bocado fora do grupo.
Cordeiro!” Galhardo sentiu-se encurralado. O ímpeto predador de há poucos meses estava agora transformado em docilidade impotente.

No dia seguinte, compareceu à reunião convocada pelo banco de Corvelo. Uma dúzia de olhos severos anunciou-lhe que iam executar a garantia e tomar posse das ações da Caixa, que Galhardo subscrevera, dado que, tudo junto, mal dava para cobrir o empréstimo, sem falar nos juros. Que era só assinar um molho de papéis que lhe puseram à frente.
A sala de reuniões do nono andar era grande e estava desagradavelmente fria, devido ao ar condicionado. “Lá fora, o ar está morno”, pensou. Vistas de cima, as árvores do parque fronteiro pareciam colchões, fofos e penugentos. Juntou o maço de papéis que os abutres tinham posto à sua frente, bateu-os, alisou-os, avaliou a sua leveza, o seu volume e dividiu-os em dois molhos iguais, um em cada mão. Estava a poucos metros da janela; podia tornar-se um Ícaro dos tempos modernos, se quisesse. Queria? Teria coragem?
O toque de um telemóvel distraiu-o momentaneamente dos seus pensamentos. Corvelo atendeu, ouviu durante uns segundos e deixou escapar:
Forte é o Senhor!

Quinze dias depois, na sua quinta de Sintra, Galhardo reconhecido e já recuperado dos momentos tensos que tinha vivido, oferecia ao ministro uma performance temática — O rapto de Perséfone. A mitologia grega também era interessante.

Joaquim Bispo

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Imagem: George Grosz, Tempo der Strasse [O Ritmo da Rua], 1918.

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(Este conto obteve o 7º lugar no Concurso Literário Osório Alves de Castro, da UFOB — Universidade Federal do Oeste da Bahia, Brasil, em 2016.)

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