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domingo, 26 de junho de 2016

Pena

Estava decidido: tinha de acabar e tinha de ser logo e tinha de morrer se matando. Era tão boa pessoa que não merecia sofrer delongas. Planejou cada detalhe para o honrado e certeiro fim. Comprou remédio, corda, canivete, explosivo — kit ruína infalível. Rendeu-se ao planejamento para a morte não ceder.

Então pensou na carta extrema, explicativa, que seria o derradeiro suspiro, despedida testemunhal. Sempre soube que suicídio pede epístola de peso e carimbo de sangue.

Só que a proximidade da morte trouxe tanta inspiração! O texto foi se movendo simpático, poético, deslizante: a amizade com Zezinho; a guerra com o bolo de aniversário no piquenique chuvoso; o primeiro beijo na boca, roubado pela Flor; o incentivo do pai durante o torneio de pingue-pongue; a ciranda da Lia no último Carnaval; o pé de jabuticaba da Vó Neusa florindo; a jaqueta jeans riscada pela Leonora e os dois nus e ensaboados enquanto a peça de roupa secava no varal...

Acabou a coragem. Lembrou histórias lindas e traçou sonho de amanhã. Reconheceu gratidão e amor por muita gente. Viajou para outras vidas, sorriu leve, respirou denso. As dores foram cessando com o gozo estimulante daquela carta bendita. Perdoou-se. Havia, enfim, achado sua droga ideal. Não havia mais dolo. Só o desejo de continuar escrevendo e assassinando outros personagens, como o dó e a covardia. “Deixa chegar a morte morrida, e que ela demore. Agora não faz o menor sentido”.

Não houve funeral.


Maria Amélia Elói





sábado, 25 de junho de 2016

A talentosa professora Camila


A anterior confiança de Alcides vacilava. Acreditara que, apesar de toda a conjuntura desfavorável, seria possível a um engenheiro civil de 23 anos encontrar trabalho na terra da Merkel. Infelizmente, faltava-lhe uma disciplina para terminar o curso. A professora de Patologias dos Materiais ameaçava não lhe dar nota para passar.
É certo que tinha feito um ano com muito namoro e muita cerveja, pelo que ambos os testes deram negativa. Até maio, no entanto, confiava que o seu charme e alguma melhoria no trabalho escrito alterassem o rumo negativo. Quando saiu a fraca nota do trabalho, foi falar com a professora, uma morena de uns quarenta e poucos anos, de cabelo curto e seios cheios, que ele costumava comer com os olhos nas aulas, explicando-lhe que o seu futuro estava dependente apenas daquela disciplina e pedindo-lhe, insinuante, que não o fizesse voltar no ano seguinte. Ela avaliou a importância do problema com um olhar simpático, quase cúmplice.
Alcides, eu não quero chumbar ninguém, mas você está com uma nota muito baixa. E estamos em meados de junho, as aulas já acabaram; já não há tempo para uma improvável recuperação. O que acha que eu posso fazer?
No momento, Alcides estava disposto a fazer qualquer coisa para salvar o ano e tudo lhe parecia possível.
Professora, dê-me uma semana. Depois pode fazer-me a prova que quiser.
Foi uma semana arrasadora. Levantava-se pelas sete e lia tudo o que encontrava da bibliografia até perto da meia-noite, só com intervalos para comer. Andava com os olhos como os dos cachuchos, de tanto queimar as pestanas.
Na tarde do sábado seguinte, Alcides compareceu na morada indicada, uma pequena vivenda da encosta de Pedrouços. Um jardinzito separava a porta, da rua.
A professora Camila recebeu-o cordialmente, convidando-o de imediato para lanchar. Vestia-se de maneira informal: um polo amarelo de decote em bico, que lhe realçava o peito, e umas calças leves pelo meio da canela. Camila encaminhou-o para a cozinha, para não o deixar sozinho enquanto preparava o chá.
Estudou muito, Alcides? — lançou sorridente.
Sei tudo na ponta da língua, professora. Vai ver! — respondeu ele, sincero.
Instalaram-se na pequena mesa da cozinha, à frente de um bule de chá e duas torradas.
O seu marido não lancha connosco? — quis saber Alcides.
Não; ele afinal saiu ontem para um congresso e só volta amanhã à noite. Somos só os dois — adiantou, com um sorriso talvez neutro, talvez não.
Alcides, como bom entendedor, ficou alerta para quaisquer indícios propiciadores daquela oportunidade potencial. Talvez por isso lhe tenha parecido que Camila espalhava a manteiga na torrada de maneira um pouco lasciva. E bebericava o chá pegando na chávena com ambas as mãos e fazendo um biquinho com os lábios. Estar a sós com a professora que tantas vezes desejara, em ambiente não de intimidade, mas ainda assim de privacidade, espicaçava-lhe os instintos. «Será que vou ter sorte?», divagava furtivamente.
Então, vamos começar? — inquiriu Camila, convidando o aluno para a sala.
Um pouco nervoso, mas confiante, Alcides instalou-se num maple, enquanto a professora se sentou no sofá em frente.
Como combinámos, Alcides, é preciso que eu fique com a certeza de que você está bem seguro da matéria, para conseguirmos reverter a situação. Está calmo e concentrado?
Ao aceno afirmativo de Alcides, pensou numa pergunta básica e lançou:
O que são rochas?
Alcides baixou os olhos procurando a concentração que se esbatera quando Camila, ao pensar na pergunta, baixara a cabeça e o tronco, expondo um pouco mais de pele, no decote.
São sistemas químicos inorgânicos. Formaram-se num determinado ambiente geológico e refletem o equilíbrio termodinâmico atingido na fase de formação. (…) Têm composição química razoavelmente bem definida, mas em proporções variáveis, pelo que não há duas rochas iguais.
Quais as tipologias mais frequentes? — continuou Camila, após a mesma flexão de tronco.
Alcides, embora atento à pergunta, não conseguiu evitar que os olhos se abandonassem ao vislumbre daquela alvura láctea. Demorou um pouco a iniciar a resposta.
Sabe a resposta ou passamos a outra? — condescendeu Camila, após uns segundos.
Não, não! — reagiu Alcides. — Em peso, a quarta parte da crusta terrestre é composta por silício e metade por oxigénio. Os minerais mais abundantes são os silicatos, nas ígneas (granitos e basaltos), sedimentares (argilas, xistos e grés) e metamórficas (gnaisses e micaxistos), seguidos de longe pelos carbonatos, nas sedimentares (calcários) e metamórficas (mármores).
Muito bem! Que rochas predominam nos monumentos portugueses?
A concentração de Alcides baqueava. Aquelas rotundidades anunciadas estavam prestes a condená-lo. Baixou os olhos a tentar recompor-se, mas entrara numa batalha interior, como um computador bloqueado por excesso de tarefas.
Alcides, você prometeu-me que ia preparar-se! O que se passa?
O jovem, encurralado, resolveu abrir o jogo.
Professora, desculpe, mas não consigo concentrar-me — declarou, apontando com os olhos para a origem da perturbação.
Camila olhou para o próprio decote.
Oh, desculpe. De qualquer modo, na vida profissional temos de saber ultrapassar certas pequenas distrações. Quer que me tape? — perguntou, sincera, puxando o decote para cima. Após a hesitação de Alcides, perguntou com um sorriso irónico: — Ou quer que me destape?
Alcides leu a pergunta como uma das tais oportunidades que podem render benefícios sensuais, se não forem desperdiçadas.
Posso escolher? — arriscou, com um sorriso cúmplice e um olhar brilhante.
Camila ficou uns segundos calada a avaliá-lo. Depois levantou-se e foi ao bengaleiro buscar um cachecol.
Acho que o melhor é tapar-lhe os olhos, para não se distrair — anunciou, enquanto lhe enrolava o pano em torno da cabeça, atando-o atrás.
Ok, professora — concedeu Alcides, desistindo de expectativas mais ambiciosas que tinham chegado a dominá-lo nos últimos momentos. — Já vi que não tenho sorte…
Alcides, você é danado! A sorte não cai do céu; constrói-se todos os dias. Se calhar foi um ano com brincadeira a mais — ralhou docemente. — Mas eu não acho mal, se o estudo não for de menos. O importante é atingir o objetivo. — Meditou um pouco. — Sabe qual é o meu objetivo, neste momento? Conseguir que você acerte as perguntas que lhe quero fazer. Mas eu também gosto de jogos — disse a rir. — Vamos aumentar a parada: por cada resposta certa, eu tiro uma peça de roupa, serve?
Maravilha, professora! Já me agrada mais. E eu?
Se você quiser tirar também, esteja à vontade. Uma coisa lhe prometo: se você acertar as respostas todas, ganha uma prenda no fim…
Bora lá, professora! — rejubilou Alcides, a abarrotar de entusiasmo por baixo do cachecol.
Vamos lá, então. Que mármores coloridos da península de Lisboa conhece?
O encarnadão de Pêro Pinheiro, o amarelo de Negrais, o azul de Sintra e o negro de Mem Martins.
Boa! Lã vão as sabrinas. O que é a meteorização?
Ao ouvir o som das sandálias a cair, Alcides lembrou-se de tirar também os ténis, antes de responder:
Quando a rocha é arrancada à pedreira e colocada sob o ataque de agentes externos, como o ar, as diferenças de temperatura, a água — com as consequentes oxidações, expansões e dissoluções —, as redes cristalinas da rocha são destruídas ou rearranjadas. É a essa tentativa de reequilíbrio que chamamos meteorização. A desagregação é o equilíbrio final que a rocha de um edifício atinge.
Boa! Essa bem merece a camisola. Fora! Fale-me da corrosão.
Ainda mal pressentira que Camila despia o polo e já Alcides tirava a sua t-shirt. Cheio de confiança, não hesitou:
A corrosão avança nos pontos vulneráveis do sistema cristalino. Os cristais reais não são perfeitos; podem conter dezenas de milhões de defeitos por centímetro cúbico: deslocações, lacunas, impurezas. Tais defeitos representam outros tantos constrangimentos físicos. Ao nível do grão, uma rocha é tanto mais resistente quanto mais fino for o seu grão.
Muito bem! — incitou Camila, sem dar a entender que o seu olhar, à solta, se alongara no desfrute do tronco robusto e algo peludo do aluno. — Calças fora. O que são crostas negras?
Alcides, de coração acelerado, tirou as calças de ganga. Estava num estado de alguma agitação, visualizando a professora com o belo peito a sobressair do sutiã e em calcinhas.
São zonas enegrecidas nas superfícies das pedras, constituídas por depósitos de sais e de partículas da poluição da atmosfera, as quais produzem gesso a partir do dióxido de enxofre e do ácido sulfúrico destas, na sua interação com os substratos siliciosos e carbonatados.
Certo! Falta uma. Qual a origem dos oxalatos de cálcio nas superfícies dos edifícios?
Alcides ouviu o bater dos fechos do sutiã sobre a mesinha de apoio. A informação química desencadeada percorreu o seu corpo a alta velocidade, levando ordens aos corpos cavernosos. Alguma coisa em si passou a forcejar para se libertar. Alcides ofegava. Era demasiado bom o que lhe estava a acontecer. E sabia a resposta seguinte.
Os oxalatos, visíveis como formações relevadas, não têm origem em deposições externas sobre a pedra, mas na transformação dela. Devem ser associados à segregação de ácido oxálico pelas raízes de fungos, algas e líquenes, na sua atividade bioquímica sobre as rochas carbonatadas.
Muito bem, Alcides, muito bem! Pode tirar o pano dos olhos.
Yes! — gritou o felizardo, saltando e arrancando de repelão o cachecol, desejoso de passar à prometida fase seguinte. Inexplicavelmente, a professora continuava vestida. Perante o rosto de surpresa e desapontamento do aluno, Camila sorriu, quase maternal, escondendo alguma perturbação.
Ainda bem que o cachecol permitiu que não se distraísse mais. Correu bem, não acha? Está satisfeito?
Satisfeito é dizer pouco. É evidente que estou muito… mesmo muito contente — abandalhou Alcides, ainda confiante, exibindo os bóxeres tensos. — Mas a festa vem agora, não foi o que prometeu, professora?
Prometi-lhe uma prenda, sim. Quere-a já? — indagou, um pouco matreira.
Ó professora, é o que eu mais quero — inflamou-se Alcides. — Sempre a desejei!
Está bem! Eu também acho que é a coisa mais importante para si, agora. Aqui tem. — E estendeu a Alcides uma folhinha com a nota final da disciplina: 11. — Tudo de bom para si, lá na Alemanha!

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: Escultura de Francisco Simões.

(Este conto integra a coletânea Bad Girl — Contos Eróticos, Silkskin Editora, Lisboa, 2015.)

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sexta-feira, 24 de junho de 2016

TROVA VENCEDORA DOS LVII JOGOS FLORAIS DE NOVA FRIBURGO






quarta-feira, 22 de junho de 2016

Quatro Breves Relatos de Morte

 

I

Por lá falavam sobre como quem sonha estar sonhando já morreu; então um dia ele despertou de sonhos onde sonhava estar sonhando, e, triste, levantando-se da esteira, aceitou a morte. Deve ser porque dormi na terra e as serpentes me atacaram, disse para o céu, amaldiçoando a insignificância da fumaça e dos ungentos; dos espíritos não ousou falar mal, pois agora era um e precisaria de outros, e relembrando o folclore, o como deveria viver a morte e encontrá-la e fugir com ela, esquivou-se até o grande rio. Tudo era o mesmo, viu ele, todos os caminhos, a trilha de chão batido, as duas caçarolas deixadas na manhã anterior; toda a visão era a mesma, clara, como se a visão dos vivos. Viver morto até quando, viver essa vida falsa, ilusória, a qual um dia fui incitado a imaginar como interessante, perguntou. Depois, foi levado pelas águas.

II

Quero morrer dormindo. E não saber que se morre, perguntou ela. E desde quando se sabe, retrucou ele, e não aceitou tréplica. Isto conversaram há anos, quando a barba era cerrada e refletia a noite, criava no rosto a silhueta de um eclipse. A partir dali, manifesto e firme o seu intento, preparou corpo e mente, preparou o espírito visando tal destino: morrer dormindo. Imaginava-a com os cabelos trançados até o infinito, com uma rosa vermelha e frágil, cultivada por lágrimas, na cabeça, e imaginava a foice como prova cortante de amor; a mão, lisa e branca, o levaria dali. Mas temia, era vivo, e além de temer, duvidava; morreria assim? Visitou então a cartomante, a de cabelos trançados e finitos, com uma rosa vermelha e viva na cabeça e o baralho cigano como prova de interesse passageiro. Perguntou, morrerei como, morrerei dormindo? Ora, mas você já morreu, respondeu ela.

III

Devesse o fogo assustar, não o assustaria. Se por carência de imaginação, se por carência de amanhãs, os alunos indagavam sobre sua força logo ao vê-lo no uniforme marcial. Por carência de experiência ou memória, asseguro, não é, falava, e lembrava-se dos homens queimados, mulheres, crianças, o cheiro adocicado e constante de carne. Há muito entre nós e nós, menos entre nós e o fogo; mas quem dera o escutassem. Como aceitar o churrasco depois desse viver, perguntou a professora, e ele, fechando um dos punhos, disse das fragrâncias como vaidade nossa; quem dera o escutassem. Então, para melhor explicar, relembrou os incêndios, as brasas, dos passos entre os passos, o levar da fagulha e seu começo, relembrou o pó preto, queimado, os lençóis de labaredas, e relembrando ardeu em chamas e morreu ali, tronco de carvão, na frente das crianças.

IV

Começou e terminou morta. Jogou-se da altura, despencou, acidentou-se, foram muitos os verbos e teorias, mas a verdade coube a quem disse: ela caminhou da sacada para o precipício, e ficou lá, no ar, por segundos infinitesimais. Ficou lá. Disse quem viu, disse vê-la como anjo, flutuando, esperando, e suas asas eram nuvens de chuva; assim viu a testemunha, e sentiu a terra e o universo, querendo salvá-la. moverem-se para alcançá-la e, com o movimento, atingirem-na, ferirem a pequena criança de morte; e morta, era menor que viva. Sismógrafos, detectores de interferências gravitacionais, fios de cabelos oscilaram durante a movimentação simultânea de astros e ordens. Ela morreu, acredito, por conseguir voar, disse, e terminou de falar.





terça-feira, 21 de junho de 2016

O Centauro de Saramago

Conheceu a Nélida no salão de cabeleireiro. Fora fazer um corte a máquina e a gerente, uma felliniana de quase 100 quilos, a convocou para executar o serviço. Sentado na cadeira, observando-a através do espelho, Ignácio sentiu o célebre desconforto machista em ser atendido por um travesti. Suas mãos eram pesadas, mãos de homem, a despeito da  tentativa de figura feminina que Nélida se esforçava em representar. Não fosse o leve azular da barba e a voz  artificialmente colocada, por mulher passaria. Ele voltou para casa incomodado, mas reconhecendo que Nélida havia caprichado no corte.
Na segunda vez, já estavam um pouco mais íntimos e o desconforto diluíra. “Trabalha em quê?”, perguntou Nélida enquanto manejava com maestria a máquina. “Professor de matemática”, foi a lacônica resposta. Como estávamos na Quarta-feira de Cinzas, Ignácio ouviu, atento e assombrado, o relato de Nélida para as outras cabeleireiras sobre suas aventuras no Baile Gay fantasiada de Coelhinha da Playboy. Voltou para casa curioso, imaginando Nélida dentro dos seus trajes carnavalescos.
Na terceira ida ao salão, encontrou um negro forte sentado onde já considerava o seu lugar. A felliniana chamou outra cabeleireira para dar um trato em sua cabeça semi- raspada e Ignácio, disfarçando a contrariedade, ficou bisbilhotando os movimentos de Nélida que, num frenesi entusiástico, esculpia na nuca do Apolo de Ébano a palavra “Mengo”. Voltou para casa platonicamente enciumado.
Em sua quarta visita ao salão, durante ritual do corte, Ignácio pediu Nélida em namoro. Foram juntos para a casa do professor terem sua primeira noite de amor.
Passaram a dividir um quitinete em Botafogo em companhia de um gato angorá chamado Oscar que interpretava o papel de filho que nunca teriam. Viviam como marido e mulher, pois Ignácio não a desejava como homem e tão pouco Nélida prestava-se ao papel ativo. Só um detalhe atrapalhava a paz conjugal: os flácidos 13 centímetros de Nélida. Ignácio tinha verdadeira ojeriza ao falo da amada, mal conseguia encará-lo. Passaram muitas madrugadas de carinhos no escuro, com o membro de Nélida ocultado pelo negrume do quarto enquanto o travesti recebia Ignácio de bruços, escondendo a parte de sua anatomia embaraçosa ao seu amor.
Um dia, pousou nas mãos de Nélida um livro de contos de José Saramago (1). Não era dada a leituras, mas interessou-se pela história de um centauro caçado impiedosamente por um grupo de humanos. Narrava Saramago que a criatura mitológica sempre tivera o desejo de dormir deitado de costas, o que sua constituição, meio homem, meio equino, o impedia de realizar. Encurralado, o centauro queda-se por um desfiladeiro e tem seu corpo violentamente cortado ao meio por efeito de uma pedra pontiaguda. Em seus últimos momentos de vida, a porção humana do centauro caído de costas experimenta o prazer de sentir solo acariciando seus omoplatas. Emocionada, Nélida cerrou o livro e tomou uma decisão.
Foram quase dois anos de espera, mais seis meses de recuperação após a cirurgia. Dr. Euclides Pessoa, conhecido nos meios cirúrgico-científicos como “O Pitanguy das Xoxotas”, fizera um trabalho digno de figurar em qualquer galeria de arte, dada a perfeição em que construíra a vagina de Nélida. Então, tal qual o Centauro de Saramago, o agora ex-travesti provou da emoção única de, omoplatas roçando os lençóis, receber um homem, seu homem, de frente pela primeira vez na vida e ambos, unidos e extasiados, gozarem os prazeres que um prosaico papai-e-mamãe só àquele casal poderia proporcionar.


(1)   Objecto Quase, de José Saramago. Editora Companhia das Letras, Ano: 1994.





segunda-feira, 20 de junho de 2016

A TRAVESSIA

Josefa sentiu a ponta da garrucha no lado esquerdo do rosto, ali onde acaba a sobrancelha.
Sonhou sonho, mas não: era jeito que despertava para a vida. Todo dia, antes do galo.

-  Levanta essa camisola e desce a calçola.

Zé João abriu-lhe as pernas sonolentas, dedilhou seus pelos como se espanasse alguma felpa
de roupa, separou os lábios inferiores rendidos, abrindo caminho úmido suficiente para entrar inteiro na terceira tentativa, sem que a mulher dissesse ái. Estava acostumada. Em cinco ou seis
movimentos crescentes, ele soltou um urro e desabou o corpanzil ofegante sobre a alma frágil
e resignada de Josefa. Não tardou, repetiu o que repetia todo amanhecer,
todo dia, antes do galo.

- Já fiz minha parte. Vê se trabalha direito e me dá menino macho. 

Doze meses se passaram, doze regras desceram.  Zé João acordou Josefa
com ponta da garrucha de sempre, ali onde acaba a sobrancelha. Dessa vez cansou de
lambança. E decretou.

- Vou te devolver pra velha da sua mãe. Não sou homem de pau de vento. 
Arruma suas trouxas.

Antes do galo, puxou a mulher fora do casebre e seguiu com ela até a margem do rio.
O sol fazia que nascia entre fiapos de nuvens, salpicando as águas escuras de
riscos prateados que mudavam de lugar a cada instante. Era só o que Josefa olhava.
Era só o que Josefa pensava: como o sol desenhava bonito no espelho do rio.
Zé João descalçou as botinas, enfiou os pés no brejo e buscou a canoa. Mandou a
mulher sentar na proa, que acomodou a trouxa entre as pernas vestidas de uma chita longa.
Abraçou a si mesma e cobriu-se como pode com a panaria. O vento ainda não soprava quentura
do sol que nascia e Josefa sentiu o gostoso balançar da canoa. Fechou olhos e ouvidos.

- Diz pra tal da velha que você não presta. Café ralo, carreteiro gosmento, 
chão empoeirado, panela encardida, boceta sem serventia. 

Durante a travessia, Josefa sonhou vida nova. As águas batendo no casco, o barulho das
remadas, o silêncio pantaneiro salpicado pelo canto longe das jaçanãs. Tudo piava esperança.
Muito nova -  pensava ela - para viver na tamanha tristeza. Não que voltar para a choça
da mãe tivesse lugar nos seus sonhos. Seria mais pesadelo de olho aberto.
Mas algo de novo, desconhecido, não largava dos miolos e coração. Só faltava um
tantinho de coragem.

- Vê se não atravessa o rio de volta. Mulher nova que não serve para parir, 
não serve pro meu viver.

Josefa fingiu que não ouviu. Só fingiu. Porque foi o sinal que a coragem mandou.
E de súbito, levantou-se na canoa, fazendo mexer os prumos de Zé João.

- Tá doida? Quer virar a canoa?
- Não. Quero virar a vida.

E pulou de trouxa e tudo no fundo da correnteza. Zé João se levantou de susto e
não fosse cabra bom de travessia teria caído também. Mas não. Ficou de pé, vasculhando
o rio.

- Diacho. Onde foi parar essa desgrama?

Nunca mais soube de Josefa. Nunca mais se soube de Josefa.
Diz o povaréu ribeirinho que ela vive nas profundezas, amasiada com a boiuna.
Diz que teve ninhada de serpentes, que até hoje atormentam os sonos de Zé João.
Diz que antes do galo o cabra acorda suado com uma delas enroscada no pescoço.
Diz que corre esbaforido, atormentado - e já encachaçado - para beira do brejo.
Diz que se ajeita na canoa varrendo o que a vista alcança a procura de nem sabe o quê.
Mas o rio jurou silêncio.










sábado, 18 de junho de 2016

Deserto de águas e trevas

("Le Mont Sainte-Victoire", Cézanne)


Lígia tinha vinte anos e uma vontade imensa de mudar o mundo. Tinha lido há pouco Reflexos do baile, do Callado, e sonhava ser como Amália, Dirceu, Vítor, Juliana. Guerrilheira. Queria botar pra quebrar, sair por aí atirando e matando, mudar, transformar pra valer. Verdade que sentia certo incômodo e mesmo um pouco de medo com a ideia de tirar a vida de alguém. Mas com o tempo, certeza que passaria tudo e ficaria craque.

Tinha acabado de falar do livro para Tomás e procurava se concentrar que era isso o que havia ocorrido. Acima de tudo uma conversa normal, todo o resto era apenas o azarssorte de terem se cruzado no exato momento em que a luz apagou e a universidade ficou às escuras. Depois descobriram que não era só lá, era a cidade, o estado, praticamente o país todo, e a ideia de uma nação no escuro era uma delícia, podia ter algum grupo por trás disso, de repente iam sabotar vários órgãos governamentais, ou estariam inclusive sequestrando o governador, o presidente, vai saber.

Era bom descobrir essas coisas junto com Tomás, fumando ao lado dele e dando goles na cachacinha de bolso que parecia sempre lhe fazer companhia. João talvez encrencasse o bafo, mas isso era o de menos, nada de pensar agora, beber com Tomás era divertido. Lígia se pôs a falar da revolução do livro, os guerrilheiros retomando um plano que era dos republicanos que iam derrubar o Império: inundar a cidade e deixá-la às escuras durante o baile da Ilha Fiscal que, no tempo dos guerrilheiros, seria uma festa dos embaixadores. Tomás ouvia com atenção, mas logo colocou os limites dizendo que em nosso país, Lígia, hoje, só se fosse o crime organizado, a revolução é apenas um sonho de uma minoria muito minoria mesmo. É certo que disso sabiam os dois, mas gostavam de sonhar e ela se maravilhava em contar pra ele mais coisas dos planos dos guerrilheiros do romance. Ah, a raiva que sentia de toda a exuberância, os gastos inúteis, o absurdo que persistia ante a miséria que, ainda, e quantos anos passados, castigava o país.

Eleição em centro acadêmico não mudava nada, nem voto mudava. Tinha que se começar tudo de novo e os guerrilheiros dos anos 60 e 70 ao menos tentaram, com amor, alma, vida, ela dizia. Gostava daquela coisa grandiosa: uma cidade às escuras, em meio ao fausto absurdo da pompa, os guerrilheiros agindo na surdina e sequestrando os diplomatas em seu baile de vaidades, botando em xeque toda a estrutura podre.

Tomás passava-lhe a garrafa e era bom beber o líquido dourado e ordinário. Enquanto falava e o ouvia expressar a necessidade de, sem brincadeira, pensarem mesmo em fazer algo grande aqui, na universidade, temos que fazer e em breve, Lígia tinha um beijo das mãos entre eles. Tomás também tinha. Ele tinha Paula, longe. Lígia tinha João, não tão longe assim.

Conversavam num daqueles montes que ainda hoje existem espalhados na praça que só serve como corta-caminho, tão inóspita que é. Ela tinha saído um pouco antes do término da aula, ainda com luz no campus, e o encontrou atravessando a praça em sentido contrário. Não ficou sabendo onde ia, no fim. Logo ao se encontrarem a luz apagou e, com o rádio de pilha que Tomás levava pra todo lado, em pouco descobriram que era até o Paraguai que estava sem luz. A suspeita era alguma falha na estação de Bauru.

Nada de grupo revolucionário, apesar do desejo tanto. Mas já empolgava, rompia a rotina que existe mesmo em uma moradia estudantil. Ficariam acordados até ver a luz voltar. E dessa vez não era uma reprimenda ridícula da reitoria às manifestações dos alunos, como no dia em que saíram em passeata pelo campus e, a cada lugar a que chegavam, a luz era cortada.

Não, era algo bem maior, embora fosse apenas um acidente. Mas um blecaute parece sempre trazer a noção de que tudo pode ser revirado, a ordem é quebrada, rompida, e coisas pequenas, como furtos, podem acontecer.

Procurava pensar nisso para explicar o que sentia diante de Tomás e para fugir das coxas já quentes e da vontade de se lançar. Era só euforia da escuridão derrubando os limites, as censuras. A natureza animal de todos, claro, era só mais um chavão inocente, mas eles eram humanos e saberiam suplantar tudo com a racionalidade que tem de ser. João lhe esperava, ainda que ela não quisesse mais. Tomás era amigo de João, e ainda havia Paula nessa história, que gostava de Lígia. A equação nitidamente dava o resultado límpido: negativo.

Mas o beijo das mãos, há pouco mais de uma semana, tão inopinado quanto prazeroso, tinha acendido o desejo e feito ver o que ela não imaginava. Sim, Lígia podia ser desejada. Sim, não estava condenada a João. Sim, era uma mulher.

Tomás era bonito demais em seus cabelos curtinhos e encaracolados, pretos bem pretinhos, os lábios grossos, os olhos úmidos de euforia. O toque das suas mãos, naquele dia, antes, tinha assustado Lígia, o medo tanto que fugiu. Recolheu o material do trabalho que escrevia na mesa da cozinha coletiva e voltou ao apartamento, suportando que João desovasse nela sua baba indesejada. 

Agora Tomás falava de ações possíveis, Lígia voltava ao baile das águas dos guerrilheiros que inundariam o Rio de Janeiro e se inundava.

Quando ele pegou, com as suas duas largas mãos, a mão direita dela, Lígia não fugiu. Irrompeu, com lábios e língua, na boca dele, até se jogarem nos pedregulhos, o radinho repetindo notícias sobre o apagão e Tomás fecundando as águas de Lígia.

Depois, ao subir as escadas repletas de gente do seu bloco da moradia, foi trombando com vários rostos conhecidos, cumprimentando-os. As pessoas pareciam extasiadas pela falta de luz. Falavam alto, riam, bebiam e pareciam sentir que nunca mais nada voltaria ao normal, era uma grande transformação se iniciando.

Ainda que um tanto distante delas, Lígia irmanava-se. Era certo que aquele apagão tinha iniciado algo novo. 





sexta-feira, 17 de junho de 2016

Dois poemas de Bruna Kalil Othero







Paleativa


Você é rebelde só da cintura para baixo

1984, George Orwell



busco prazer sendo profana
para que o físico compense
o descompasso
do meu interior tão triste
e tão mole. fujo
dos sentimentos
justamente por ter a plena consciência
de que sou sentimental dem-
ais.
Tenho medo, pavor, fobia
de apaixonar-me outra
vez, dói muito. o amor
corroeu minha alma,
fez dela um terreno caduco,
descrente.
então, eu fecho os olhos,
passo o batom vermelho
e abro minhas pernas,
tentando esquecer que sou humana:
vou morrer.






Pintura de Mulher


Saí do banho,
ainda molhada,
e encarei-me no frio espelho.
Descalça,
descabelada,
queimada de sol,
úmida,
nua.

Nua em pelo,
despida de todos os adornos sociais, políticos, culturais, econômicos.

Me senti mulher:
perfeitamente bela, na minha nudez animal.




Do livro Poétiquase - Editora Letramento





quinta-feira, 16 de junho de 2016

Um dia seremos tudo isso


Um dia faremos silêncio. Seremos pausa. Como as coisas gêmeas colocadas sobre as mesas de centro, sobre as estantes altas em salas nobres e intocadas. Pares perfeitos, banhados pelo sol que escapa pela fresta da persiana elegante. Seremos, para sempre, mudos, inertes. Parelhos e empoeirados como as matrioskas, os elefantes, os macacos, os candelabros de prata. Teremos esquecido como é amar, esse praticar de infinitos em pequenos gestos. E não saberemos dizer qual foi o instante em que cessaram riso, abraço, murmúrio. Ou o toque das nossas mãos entre as cobertas felpudas, ou os códigos trocados por nossos olhos treinados em acender vontades. Teremos rasgado cartas e escondido fotos amarelecidas no fundo das gavetas de uma cômoda velha e derramado na pia os nossos vidros de perfume prediletos e empurrado goela abaixo a cumplicidade de uma vodca gelada. Seremos choro e choro. O que escorre sem controle. O que molha só a alma.
Um dia seremos tudo isso.






quarta-feira, 15 de junho de 2016

viúva

Gertrudes Patrício costuma dizer: enviuvei de dois maridos. Mas ela sabe que, com bênção da igreja, assim mesmo casados, foi apenas com Juvenal, o pai da mais nova.

Tinham combinado dar o nó mal terminassem as ceifas, e seria boda com o senhor Prior abençoando e as alianças e o véu rojando a pedra vermelha do chão da capela da Senhora das Dores.
Mas o destino tem linhas que a gente treslê e, nesse entretanto, ao rapaz deu-lhe um mal de peito. Uma coisa de repente e ainda assim tão grave, que o médico achou por bem enviá-lo para o sanatório. Que o rapaz se tratasse. Que tomasse os ares da serra e depois de curado voltasse.
Ficou Gertrudes Patrício, nem casada, mas presa de um descuido ao despedirem-se. Saber-se-ia prenha, já Matias andava por terras de frios e de gelos, e haviam de casar pelo registo por via de uma procuração que Gertrudes pediu. Cartas demoradas na ida e na vinda, mas ficaram casados.
E no entretanto de já serem mulher e marido, vieram, entremeadas, outras cartas. Escrevia-as Matias numa caligrafia perra, que a escola dele tinha sido a cuidar dos rebanhos, e o mais fora o senhor padre Honório aos domingos à tarde, a seguir à catequese.
Dizia ele, em caracteres a cheirarem a remédio: isto aqui é o inferno. E pedia, numa letra tremida: manda-me umas meias, pela tua saúde, que por estas bandas faz um frio do demo. Gertrudes Patrício teceu-lhas, no esmero das cinco agulhas, de um fio de lã de ter desfeito um casaco que lhe tinha minguado. Junto, havia de enviar-lhe uns figos secos. Nunca os roeria o pai da criança que lhe crescia no ventre, e nem nunca meteria os pés naquelas meias, que quando chegou a encomenda, já os senhores da secretaria tinham dado ao Senhor Director um papel escrito e que o assinasse. No envelope, que seria lacrado, alguém escreveria o nome da aldeia e o nome dela, e colocaria dentro a carta onde o Senhor Director rabiscasse uma assinatura. A carta que Gertrudes receberia uma semana depois, demorada de vir de lá tão longe.
Um envelope a cheirar cheiros que não eram dali e nem dos arredores, percebeu o moço que distribuía o correio, e pasmou-se na porta de Gertrudes Patrício, mas ela demorou a abrir o subscrito, e Felisberto pisgou-se que tinha ainda correio na sacola. Teria andado o que valesse a duas moradias, e já ele ouvia o alarido que era Gertrudes clamando. Tinha decerto rasgado o envelope e lá dentro estariam más notícias. Mas Felisberto apressou o passo a sentir assim uma espécie de culpa e nem sabendo que, num papel muito lisinho e muito bem escrito, Gertrudes Patrício tinha lido: faleceu às presumíveis seis horas e trinta e cinco minutos do dia vinte e cinco de Outubro. E ainda mal ela lia o nome completo de Matias e mais o número de inscrição que lhe tinham atribuído no sanatório, e já aquele urro imenso lhe saía, assim como que num alívio que ela fizesse ao peito que lhe tinha ficado num aperto mal lera o remetente.
Não acorreu Felisberto, mas acorreu meio mundo aos gritos de Gertrudes.
Pobrezinha! Viúva sem quase ter sido esposa, comentavam, de umas às outras, as mulheres.
Mas Gertrudes Patrício, ainda que gritando, nem sentia assim uma tristeza desmedida. O que ela clamava era o receio, aquele como que fosse mal que caísse sobre a menina por ter sido a morte de Matias no preciso dia, e na mesma hora, em que, há uns escassos dias, a clamar mais alto que o latir dos cães, pusera Iracema neste mundo.
Coisas do acaso que ela dava como coisas do demónio, e Gertrudes Patrício soluçava disso, muito mais do que ela chorava a morte do Matias.
E no entanto, logo na tarde desse dia, carregou-se de um negro completo até no lenço que colocou sobre o castanho claro dos cabelos. Um tecido opaco e liso que lhe descaia sobre a testa e lhe ensombrava o rosto.
Tinha dezoito anos e sentia o sangue a pulsar-lhe intenso a cada vinte e quatro dias, o período certo e ela, despudorada daqueles vermelhos que se espalhavam no corpo e a afogueavam, carregava-se do negro das mulheres sem marido.
E passou um inverno chuvoso, e veio Abril. E passaria ainda aquele Agosto de inferno e chegaria outro dia vinte e cinco de Outubro. Nesse dia de a sua menina completar um ano, Gertrudes Patrício levou Iracema a baptizar.
De uso, Gertrudes usava o cabelo atado numa trança que deixava dependurada sobre a nuca e, a cobria-la, por inteiro, a ponta estiraçada do lenço negro.
Mas, naquele domingo, ela mudou-se.
E nem o fez no propósito de aliviar o luto.
Sentou-se em frente do espelho e apeteceu-lhe.
E foi assim, num descuido, que ela prendeu a trança no alto da cabeça como nem era seu costume e, por cima daquele chinó quase loiro de ser o cabelo dela de um castanho tão claro, deitou um véu rendado: um tule negro e muito fino onde resmalhavam, bordadas num tecido aveludado, umas florinhas miúdas, elas também negríssimas. Do transparente do véu, soltava-se o branco muito alvo que era a sua pele no arqueado elegante do pescoço, e desvendavam-se-lhe as orelhas que ela tinha, maneirinhas, um tudo nada salientes; nelas dependurou, vagarosa, umas arrecadas  pequenas em oiro de lei.
Gertrudes Patrício, que apenas na alvura da roupa debaixo se livrava do negrume daquele luto de viúva, ia baptizar a sua filha e não sabia que entraria quase nua na igreja.  
Os homens cumprimentaram-na no adro: muito bom dia Senhora Dona Gertrudes. E descobriam as cabeças do chapéu ou da boina, mas era como a viam: Gertrudes Patrício a entrar descomposta na igreja.
Assim a viam eles e assim também a viam as mulheres. As que ficavam ao fundo da Igreja, e as senhoras de lugar cativo na fila da frente. Umas e outras cochichavam entre si disfarçando as falas como se dissessem mais um Padre-Nosso ou uma Ave-Maria: que vergonha! E benziam-se como que a exorcizarem um mal do demo.
Gertrudes Patrício despida da sua condição de viúva por via daquele chinó que trazia no alto da cabeça, descobertas as orelhas, desnudado o alvo do pescoço no transparente daquele véu.
Assim a terá visto Juvenal a servir-se de água para o sinal da cruz na pia da entrada: Gertrudes Patrício mais nua que vestida. 
Ele a poisar os olhos no tom leitoso do seu pescoço e Gertrudes Patrício a rodar o corpo no banco em que se sentava. 
Um gesto sem remédio, dirá ela a recordar o cruzar de olhos que fizeram na Igreja onde estava para baptizar Iracema, a filha do Matias.










sexta-feira, 10 de junho de 2016

A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick



Nos séculos XVIII e XIX, os automata foram uma febre na Europa e nos EUA, construídos com uma precisão milimétrica, com complexas engrenagens, e, de certo modo, foram os avós dos nossos robôs. Estas maravilhas mecânicas, muitas vezes com forma humana, realizavam certas atividades, como tocar um instrumento, escrever, ou jogar xadrez, como no caso famoso do automaton conhecido como "O Turco", que até chegou a derrotar jogadores competentes. "O Turco" foi imortalizado em um ensaio de Edgar Allan Poe, no qual ele tentava desmascarar este incrível automaton, como se não passasse de um mero truque de mágica. O fato é que hoje se reconhece que "O Turco" não era um automaton de verdade, mas que era controlado, de algum modo misterioso, por alguém.

Aliás, automata, mistério e mágica tem tudo a ver com o livro sobre o qual eu gostaria de falar hoje: A Invenção de Hugo Cabret de Brian Selznick.
Antes de tudo, a própria estrutura do livro já é bastante intrigante. Metade romance, metade livro ilustrado, é impossível definir exatamente onde ele se encaixa. Assim como "O Turco", metade automaton, metade truque de mágica, Hugo Cabret se situa num limiar.
Logo descobrimos que o personagem principal, o jovem Hugo, nada tem de convencional. Ele vive dentro da estação de trens de Montparnasse, e quando digo dentro é literalmente dentro. Dentro de suas paredes.
Como ele vai parar lá é apresentado ao longo da narrativa, mas tudo que sabemos à princípio é que Hugo é o responsável por dar corda e ajustar os relógios da estação. No entanto, ele tem uma missão ainda maior do que esta. No pequeno quartinho onde ele vive, ele guarda um automaton quebrado, que ele tenta restaurar com os diagramas feitos por seu pai relojoeiro (que já está morto) em um caderno de notas.
Esta é apenas a trama de fundo de A Invenção de Hugo Cabret, pois a história de fato, e é neste ponto que vários mistérios começam a se acumular um sobre o outro, é quando ele, ao tentar roubar peças de brinquedos de uma lojinha dentro da estação, é apanhado pelo dono dela, um sujeito amargo chamado Georges Méliès, que parece reconhecer aqueles diagramas no caderninho de Hugo.

Qual é a relação entre Mèlies e o automaton, isto é, a invenção de Hugo Cabret?

Para ajudar Hugo a desvendar este mistério, Isabelle, uma garota que é criada por Méliès, resolve ajudá-lo e, juntos, eles acabam não apenas desvendando o segredo guardado dentro do mecanismo do automaton, o que ele tem para desenhar, bem como o incrível passado de Mèlies.

Se você gosta de cinema, talvez tenha associado este nome com alguém... mas não vou relevar o fim da história.
O livro é curto, embora pareça ser imenso nesta edição minha. Há muitas ilustrações, portanto, é uma leitura rápida. Acho que não chegou a me tomar 2 horas de leitura.

Em 2011, este livro foi adaptado ao cinema e o filme se chama simplesmente "Hugo", dirigido por Martin Scorcese. Devo dizer que é um filme um pouco estranho para a filmografia deste diretor, mais conhecido por seus filmes violentos, com gangsters, policiais e desajustados em geral. "Hugo" é uma história fofinha demais para o perfil do Scorcese.
Não é uma adaptação ruim, embora se esforce demais para criar uma atmosfera idílica, mais ou menos ao estilo de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain.

Eu não sei, mas quando levamos mais tempo para ver um filme do que para ler um livro, acho que há algo errado aí. Em quase três horas de filme, foi preciso incluir algumas subtramas para reforçar a presença de certos personagens secundários, como o inspetor da estação, interpretado por Sasha Baron Cohen, que em boa parte do livro é quase uma ameaça invisível, a possibilidade de que Hugo seja descoberto e apanhado, enquanto que no filme incluíram um breve romancezinho entre ele e a vendedora de flores que sequer há no livro.
Além disto, houve uma tendência para atenuar certos atos de Hugo e Isabelle, que em algumas partes do livro acabam roubando objetos ou mentindo, enquanto que, no filme, isto foi quase totalmente suprimido, talvez para deixar bastante claro os limites entre o certo e errado para o público juvenil.
Mas, para mim, sem dúvida o mais fascinante no livro são as ilustrações e como elas facilmente são capazes de suplantar o texto.

Ao pensarmos na relação entre homem e máquina, representada pelo automaton, a mensagem de Hugo Cabret não poderia ser mais clara: de que todos nós, mesmo que não possamos perceber, fazemos parte de um gigantesco mecanismo e temos nossa razão de ser, temos algum propósito, temos alguma missão. Ao longo deste livro, acompanhamos como Hugo desvenda sua própria missão pessoal e, neste processo, auxilia outros personagens neste caminho, inclusive até fazendo com que Georges Méliès redescubra quem ele realmente era.





sábado, 4 de junho de 2016

A alfândega austríaca - um conto de Jaroslav Hasek

Resultado de imagem para jaroslav hasek short storiesSim, o autor do Bom soldado Svejk escreveu centenas de contos, em geral muito curtos, divertidos e debochados. Aqui, uma amostra:



  Estava em Dresden e, um dia, perambulando pelos arredores da cidade, fui atropelado por um trem expresso. Fiquei tão retalhado que foi necessário um ano e meio para me juntarem novamente. Eu planejava retornar a Praga em quatro dias, mas fiquei em Dresden por mais de dezoito meses.

  Estamos todos nas mãos de Deus, é claro, mas eu também estive nas mãos dos médicos.

  Eu era uma figura medonha. Até hoje, não sei o quanto de mim é realmente meu. Tudo o que sei é que eu fui artificialmente reconstruído por dezoito médicos e cinquenta e dois assistentes. E que eles fizeram um excelente trabalho. Recebi um atestado detalhando minhas partes reconstituídas, de modo que eu me qualificaria para apoio como inválido, e esse atestado tinha quatorze páginas. 

  Os únicos pedaços que permaneceram comigo foram uma parte do cérebro, uma do estômago, aproximadamente quinze quilos de minha própria carne e meio litro do meu sangue. Todo o resto era estrangeiro, exceto uma parte do coração costurada com o de um boi. Eu sou um triunfo da ciência médica.

  Externamente, sou totalmente artificial, como o atestado deixa claro. Sou um exemplo sublime do poder miraculoso da medicina de construir um novo homem a partir de uma variedade de pedaços, como uma criança construindo um castelo com bloquinhos.

  Quando sai do hospital, fui até o Cemitério Central para visitar o local de descanso eterno dos meus restos na seção para onde eles mandam as partes humanas do hospital para serem enterradas, e fiz então meu trajeto para a estação de trem para sair de Praga, sabendo que eu tenha tido mais de minha visita a Dresden do que qualquer outro turista que tenha visitado essa bela cidade.

  Em Decin, tive de passar pela fiscalização pela alfândega austríaca. Depois que eles arrastaram e vasculhado minha mala, um dos oficiais da alfândega pousou os olhos sobre mim. A visão de um homem artificialmente montado passou ao oficial a impressão de que alguém estava tentando passar com sacarina pela alfândega. Eu realmente parecia um contrabandista casca grossa.

- Vamos por sua bagagem aqui - disse o homem - venha comigo para o escritório. Lá eles abriram minha mala, e procuraram mas não acharam nada suspeito, até perceberem entre meus papeis o atestado feito pelo hospital em Dresden assinado por dezoito médicos e cinquenta e dois assistentes.

- Céus! - disseram depois de lerem o atestado. - O senhor terá de ir ao chefe. O senhor não pode entrar na Áustria nesse estado.

  O chefe da alfândega é um modelo de retidão, um homem ciente de suas responsabilidades. Depois de examinar o atestado, disse: - Antes de tudo, de acordo com o atestado, o senhor tem um prato de prata no lugar da sua nuca. Essa prata não é registrada, o que significa que o senhor deve pagar uma multa de doze coroas. Há, ainda, cento e vinte gramas de prata e, de acordo com as seções VI e VIII (b) do parágrafo 946 do Regulamento Aduaneiro (sabidamente tentando contrabandear prata não registrada) a multa é o triplo. Três vezes doze, dá trinta e seis coroas.

- Depois, a obrigação sobre cento e vinte gramas de prata (seções (f)/(g) da Tabela da Convenção Internacional de 1902) é de dez centavos por grama, logo cento e vinte gramas equivalem a doze coroas. E então o senhor tem um osso de cavalo no lugar do seu fêmur esquerdo. Nós temos que classificar como uma importação de um osso não declarado. E isso, meu amigo, é uma faca nas costas da indústria de ossos de animais da Áustria;

Por qual razão o senhor está andando com um osso de cavalo estrangeiro. Para que o senhor possa andar? Certo, vamos considerar como emprego de osso de cavalo com objetivo de comércio. Vamos descobrir a verdade, meu caro amigo!

Desenvolvimento do comércio, tudo bem, mas não vai levar a lugar algum porque nós temos uma tarifa pesada por não declaração de ossos de animais importados da Áustria. Isso irá lhe custar vinte coroas.

E há uma nota dizendo que você tem três costelas  substituídas por arames de platina. Cruz-credo, homem! O senhor está transportando platina da Áustria? O senhor sabe o que isso significa? Trezentas vezes uma multa comum. Vejamos, agora: se esses três pedaços de arame pesassem vinte gramas, isso dá 1.605 coroas. 

Mas o que é isso que vejo?

Aqui diz que uma parte do seu rim, o esquerdo para ser exato, foi substituída por um rim de porco.

Meu caro! A importação de porcos para a Áustria está proibida. E isso se aplica às partes do porco, também. Logo, se você quiser entrar na Boêmia, seu rim tem de permanecer na Alemanha.

  E, como não poderia concordar, estou aqui, esperado pelo Partido Agrário (sou um eleitor Agrário) para permitir a importação de porcos pela Áustria. E então eu retornarei para minha terra natal.

Tradução a partir da versão em inglês