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sexta-feira, 17 de maio de 2013
















                 Admiro o pé de bambu. Tudo aquilo, sai de um lugar só.
   





quinta-feira, 16 de maio de 2013

Pele de cordeiro, bafo de lobo



"Se os fatos são contra mim, pior para os fatos".
 [Nelson Rodrigues] 
Domingo. O senhor Romualdo esperava numa poltrona confortável que o carro do neto estacionasse na porta da frente. Iria à missa matinal, sentaria no banco da frente, de cara para o celebrante, levantaria o corpo minguado para as orações e se recostaria no banco de madeira para a preleção, como os demais fiéis, sem se importar com as pessoas piedosas que lhe diziam para não fazer tanto esforço. Aos 82 anos, ainda tinha vigor.
Na igreja, olharia com orgulho para o neto ao seu lado. O filho, Alberto, nunca gostara de missa nem de religião, mas o neto, Lucas, havia puxado a ele, que era carola desde menino. E sentir-se-ia feliz quando o rapaz o amparasse para não deixá-lo cambalear. Que paciência tem este meu neto! Sempre cuidando de mim, repetiria um pensamento.  Em seguida, se concentraria para saborear a rotina da missa até que, ao final da cerimônia, o padre se aproximaria do seu banco e lhe daria a comunhão antes dos demais, numa deferência à sua idade avançada.  
O velho Romualdo era mesmo um homem de igreja. Aos sete anos, idade exigida na sua época, tomou-se de tal fervor para receber a primeira eucaristia sem nenhuma mancha de pecado que decidiu, por vontade própria, suspender o futebol e os passeios que o pai lhe concedia aos fins de semana. Nada de distrações até o dia especial.
— Preciso estar puro, mamãe, puro para receber o corpo de Cristo — dizia ele, mãozinhas postas e olhos no céu.
— Mas Rominho — ponderava ela, orgulhosa — desse jeito teremos um sacerdote na família!
O menino, porém, continuava a recusar-se às idas ao jardim zoológico, à cachoeira, ou a qualquer outro lugar em que a intenção fosse divertimento. E no dia da primeira comunhão, vestido de branco, terço entre os dedos e cabelo fixado por gomalina, Romualdo abriu a boca ao consumo da hóstia como as virgens se entregam ao primeiro beijo.
Quando conheceu sua primeira esposa, Idalina, Romualdo já tinha 28 anos e os pais lhe cobravam, havia algum tempo, esposa e netos. Apaixonou-se mais pela beatitude da moça que por seus dotes de quituteira, bordadeira e pianista. "Posso saciar o estômago, os olhos e os ouvidos com alimentos mundanos, mas é a consistência da alma que me sacia os sentidos", disse à dona Ester, mãe daquela jovem de 18 anos que se encantou de imediato por ele. Desde então, tornou-se o pretendente ideal para Idalina, com todas as bênçãos da sogra. Firmaram compromisso e casaram-se três anos depois.
Dona Ester, aos 35 anos, era de uma beleza madura. Já o sogro, que aproximava-se dos 60 anos, não era nem mesmo simpático. Romualdo, no entanto, identificara-se desde o início da vida marital com aquele homem sisudo, evitando de forma quase indelicada a mãe de sua esposa, de quem dizia não gostar sem explicar por quê. Aos amigos, vira e mexe confessava não entender como Idalina, “quase uma santinha”, pudera ter nascido de uma mãe como aquela. E calava-se, atiçando a curiosidade de todos. Por isso, o espanto foi imenso quando, por ocasião da viuvez da sogra, acontecida logo após o casamento dos dois jovens, Rominho a convidou para morar com eles. E insistiu.
Idalina irradiava alegria com a presença da mãe, a quem amava e respeitava como boa filha, e passou a cobrir Rominho com mais mimos ainda, em agradecimento.
— Agora, meus dias são mais curtos até a hora em que você volta do escritório, meu bem — dizia-lhe constantemente, olhos brilhantes — Mamãe me faz companhia, me ajuda a costurar, a fazer compras, a preparar o seu jantar.
E assim foi. Até que Idalina morreu de parto prematuro, deixando vivo o pequeno Alberto. Primogênito e filho único, o menino entrou em casa no colo de dona Ester, ladeada por um Rominho entristecido e pensativo. Atrás deles, com ar de tédio, uma enfermeira vestida de branco esperava sem saber o que fazer.
— Quer segurar seu filho?
— Não, dona Ester. Não quero pôr as mãos na criatura que me tirou Idalina! — respondeu com um soluço.
— Mas a criança é inocente — ela retrucou.
— E por acaso eu tenho culpa de ter ficado sem a minha mulher?
A enfermeira, olhos virados para o lado, fingia não ouvir o diálogo entre eles, mas o excesso de desinteresse a traía, demonstrando que seus ouvidos engoliam as palavras trocadas ali para fazê-las jorrar, mais tarde, nas rodas de mexericos do bairro onde morava.
— Chamou o filho de assassino! — diria.
— Coitadinho! — se apiedariam os vizinhos.
Encerrando o curto diálogo com a sogra, Rominho deixou-se cair na chaise longue onde Idalina costumava tirar pequenos cochilos ou ler revistas para senhoras, e dona Ester retirou-se com a enfermeira e o bebê para o andar de cima. 
A campainha da porta tocou. Dois policiais procuravam “pelo senhor Romualdo Diniz”, como informou a empregada a Rominho, que se levantou lentamente para atendê-los.
— O que os traz aqui? — perguntou, com cara de poucos amigos.
— Uma denúncia — respondeu o mais velho — uma denúncia do hospital-maternidade.
Sobressaltado, Rominho buscou o apoio da mesa.
— Do que se trata? — quis saber, cauteloso.
— Maus-tratos seguidos de morte.
— Como?!
— Dona Idalina Diniz veio a óbito em razão de espancamento. O obstetra que a atendeu nos informou que o parto foi prematuro porque ela já apresentava um quadro recente e agudo de hemorragia interna — explicou o mais calmo dos dois.
— Espancamento? Como? Os senhores estão dizendo que...
— Senhor Romualdo, nós precisamos que o senhor nos acompanhe até a delegacia para algumas declarações — cortou-o o outro policial.
Idalina havia mesmo morrido em virtude de violência. Empurrões, sacudidelas, pancadas com objeto arredondado — leu o promotor, durante o julgamento. Mas nada foi provado contra Rominho, que se safou de qualquer responsabilidade pelas mãos de um advogado experiente. Os amigos, os empregados, os sócios do escritório calaram-se. Alguns por desacreditarem mesmo que ele pudesse cometer tal barbárie. Outros porque lhe deviam favores ou dinheiro e não queriam aborrecê-lo. Porém, o que mais os impelia a confiar na inocência de Rominho era que dona Ester o apoiara durante todo o julgamento e, ainda por cima, continuava a morar com ele e o pequeno Alberto.
Dois anos depois de enviuvar, Rominho conheceu Marialva, uma cópia moral da falecida. Igualmente recatada e mansa, a moça possuía, ainda, um grande predicado: era rica, muito rica. Casaram-se. E Marialva seguiu feliz em sua rotina de dona de casa apaixonada, até que um médico lhe tirou de vez a esperança de ser mãe: era estéril. Desse exato dia em diante, perdeu o juízo e desligou-se da realidade. Deixou de cuidar do pequeno Alberto, passou a agredir dona Ester, a espiar as empregadas atrás das portas, a rasgar as roupas de Rominho e a repetir para os vizinhos e transeuntes, aos berros, da sacada de seu quarto: "Eles querem me matar! Eles querem o meu dinheiro". O próprio pai internou-a, condoído pelo estado lastimável da moça. E no dia seguinte, para relaxar, como aconselhou Rominho, partiu com o genro para uma pescaria prolongada, onde os dois se consolaram e prometeram fazer de tudo para ajudar Marialva a melhorar. Isso nunca aconteceu.
Com os anos, o menino Alberto, que brincava e ria e cantava para o pai e para avó perdeu seu viço, tornando-se subitamente um homem amargo e desconfiado. Saiu de casa e só voltou para apresentar ao pai sua esposa e o pequeno Lucas, desaparecendo de novo, em seguida, por muito tempo. Aos 18 anos, Lucas procurou o avô e pediu para morar com ele. Desentendia-se com a rudeza do pai. Desde então, avô e neto tornaram-se unha e carne. E o rapaz era a alegria de Rominho. 
A missa terminou. Avô e neto partiram sem pressa para outro ritual dominical: visitar dona Ester no asilo elegante para doentes mentais. A visita seria de meia-hora, seguida de um farto almoço, cujo cardápio era sempre escolhido por Rominho. Naquele domingo, porém, encontraram a idosa arquejante.
— Não completo os 90 anos, Rominho! — disse ela, voz fraca, ao genro.
— Que bobagem bisa! — atalhou-a Lucas — A senhora ainda vai pegar no colo um filho meu!
Olhos esbranquiçados pelo tempo, trêmula, dona Ester pediu ao bisneto que pegasse uma pequena bolsa sobre a mesinha de cabeceira ao lado da cama. Com a respiração entrecortada, disse ao rapaz:
— O que está aí dentro lhe pertence. 
Perdeu a consciência de imediato e nem o médico de plantão, nem os equipamentos modernos daquele asilo de luxo a puderam salvar. Rominho, estranhamente calmo, parecia aliviado pela morte da sogra com quem dividira, por anos, o mesmo teto.
Em casa, naquela noite, Lucas lembrou-se da bolsa que jogara sobre a cama ao chegar em casa. Dentro, folhas de papel amareladas e dobradas, que ele colocou esticadas sobre a escrivaninha. Reconheceu de imediato a letra irregular da bisavó materna:                
Lucas,
 Quando você ler esta carta, já estarei morta. Escrevo para lhe contar algumas coisas sobre o seu tão amado avô Romualdo. Não acredito que ele tenha coragem de lhe dizer que fui eu quem matou a minha filha, sua avó Idalina. Mas tenho medo de que ele o engane com meias verdades e siga sendo essa criatura que o mundo julga inocente e honesta. Ofereço a você a verdade inteira.
Idalina morreu em consequência da surra que eu lhe dei. Foram socos, pontapés e muitas pancadas com a escova de cabelo. Eu não tinha intenção de matar a minha filha. Mas matei. Não contava com a hemorragia. Seu avô se salvou por milagre das acusações que quase o incriminaram como assassino. E você deve estar agora horrorizado, perguntando-se por que foi que eu fiz isso.
Rominho e eu nos tornamos amantes desde o primeiro dia em que nos vimos, antes mesmo de ele se casar com Idalina. No dia em que ela nos pegou fazendo sexo, de madrugada, avançou sobre mim, desesperada. Eu apenas revidei. Disse a ela que Rominho era meu, só meu! Mas ela avançou de novo sobre mim. Então, eu lhe dei uma surra. Idalina passou mal, foi levada às pressas para o hospital, seu pai nasceu e ela morreu de hemorragia interna. A polícia fechou o inquérito como “inconcluso”. Segundo eles, não havia provas suficientes para condenar seu avô. Rominho calou-se, com medo que eu contasse que ele era meu amante. Covarde! Seguimos morando juntos, sogra e genro. Seguimos amantes. Cúmplices. Até que aquela outra mulherzinha se meteu entre nós, e eu tive que me livrar dela também.
No mesmo dia em que Marialva soube pelo médico que era estéril, eu contei a ela esta mesma história que lhe conto agora. Disse a ela que Rominho e eu iríamos nos livrar dela como havíamos nos livrado de Idalina. Aquela idiota correu e perguntou ao seu avô se era verdade. Ele não negou. Apenas calou-se, como sempre, medroso. Ela começou, então, a enlouquecer, dia após dia, antevendo que teria o mesmo fim que Idalina. Patética! Depressão, disseram os médicos. Mas não é o que eles sempre dizem? 
Quando seu pai descobriu, foi diferente. Não era para ele saber de nada, mas nos pegou juntos na cama e avançou sobre nós, como a mãe dele fizera anos antes. Pensei que teria que acabar com ele, mas não foi preciso. Ele recuou e, depois disso, fechou-se em si mesmo e tornou-se uma criatura silenciosa; até que um dia partiu. E eu soube que Rominho e eu nunca estivéramos em perigo. Seu pai era tão covarde quanto o seu avô.
Há poucos anos, com a desculpa da minha doença, Rominho me internou aqui, nesta prisão de luxo. Pena que eu já estava debilitada e não tive forças para matá-lo. 
Estes são os fatos. Não escrevo para pedir perdão. Não me arrependo de nada. Fiz o que queria fazer e sou feliz por isso. Mas quero que você saiba de tudo. Porque Rominho, agora, não está mais em minhas mãos. Está nas suas.

Ester






quarta-feira, 15 de maio de 2013

o terceiro dia





          Cristiano tinha aquela ovelha e não tinha outra. Naquele dia a ovelha adoeceu, revirou os olhos, caiu de lado em frente ao meloal e, ali mesmo, Cristiano a considerou morta. E ali a deixou ao sol.
Cristiano semeava o meloal. Nunca o deixava por fazer, um ano após outro ano. Prometera ao pai. Vendia os melões na berma da estrada. Vivia disso, era o que diziam.
A ovelha morta ficou carcaça e encheu-se de moscas e de larvas e de odores pestilentos. Cristiano nem deu uma cavadela a enterrá-la, nem lhe jogou por cima uma pá de terra, e o que tinha sido bicho apodreceria.

****

Naquele dia, a preta tinha posto.
A preta era uma galinha. Cristiano tinha um galinheiro com um galo e umas quantas galinhas, mas poedeira e preta era só aquela.
Estaria o ovo algures pelas redondezas, que Cristiano ouvira o cacarejo da galinha anunciando.
O ovo estaria em qualquer sítio e daria um jantar e tanto, mas Cristiano não se mexeu a ir procurá-lo.
Atirou um pedaço de pau, e o Galego correu. O cachorro trouxe o pau nos dentes, e colocou-o aos pés de Cristiano que lhe deu o esperado afago e tornou a atirar.
A preta tinha posto.
Cristiano não irá procurar o ovo, que lhe custa muito ir por esse terreno abaixo, que ele nem sabe onde a preta faz ninho.
Que a galinha pusesse esse, e mais uns tantos, e um dia destes sairiam pintainhos. Cristiano havia de vê-la chocar e ficaria sabendo o que agora não sabe.
E Cristiano tornou a afagar o Galego que tinha ido buscar o pau e o colocava de novo ali ao lado.
O sol estava quase a rasar o horizonte.
Cristiano levantou-se, uma mão no chão e a outra no gargalo do poço onde estava encostado, e lá colocou na vertical o corpo escanzelado, quase só pele e osso. Ali ao lado dobravam-se, prenhes de frutos, uns pés de fava, que as senhoras tinham vindo ajudá-lo este ano a fazer o faval.
– Cristiano, a terra deste quintal é um encanto. Se tratasse dela tinha aqui de tudo.
– Além do meloal podia ter muito mais.
Eram assim as falas da Dona Ermelinda e das senhoras do Projecto designado assim tal e qual: “Dá-lhe uma enxada e ensina-o a pescar”. As senhoras que tinham vindo em dois dias: uma manhã e uma tarde em dias separados, e tinham-lhe dado sementes, e tinham deixado o terreno limpo. E na casa tinham também dado um belo arrumo.
Agora, as favas estavam cheias e haveria já por ali ervilhas e a salsa alastrara pelo canteiro por baixo da laranjeira.
Cristiano ficou de pé ao lado do poço. Tinha muito mais que metro e meio. É uma trave, diziam-lhe, ainda a mãe dele era viva. E Cristiano que não, que não lhe apetecia ir com eles jogar basquetebol. E os eles todos que o chamavam, a pouco e pouco, tinham desistido. Não falhava uma única bola, e era difícil negar-lhe um jeito inato para detectar uma avaria, fosse motor de mota ou de carro, ou o trator que o pai usava para revolver a terra depois de levantar o meloal.
Mas, se o chamavam, Cristiano dizia que não, que logo ia, que amanhã, que depois, e nunca arranjava nem que fosse uma avaria simples, e na oficina onde o pai tinha pedido: “o meu Cristiano tem jeitinho, é só ensiná-lo” tinham desistido.
Que é uma pena, mas a preguiça dá cabo do rapaz, diziam uns e outros.
Um dia o senhor padre disse-lhe, sem rodeios:
– Tu sabes, Cristiano que é pecado muito grave o que tu fazes. A subsistires nesse rumo, vais um dia arder nas chamas do inferno.
Mas Cristiano apenas quando está com fome se lembra desse dito que o padre deitou em cima dele. Apenas quando aparece o bicho que lhe rata uma parte interior do corpo. É só então Cristiano se dispõe a fazer alguma coisa que não seja passar os dias a atirar o pau ao cachorro ou andar pelas redondezas, sem rumo nem destino, uma palavra a um, uma palavra a outro, ou nem isso, apenas andar andando.
É assim Cristiano que nunca foi parvo.
Na escola a professora dizia: “o seu filho é inteligente, mas muito preguiçoso”.
Às vezes pensa se esta sua falta de vontade, esta preguiça imensa, será mesmo pecado. Se não será antes defeito com que ele tenha sido concebido, mal formação vinda nos genes. Coisa de um avô muito antigo. Herança que podia ter-se-lhe dado em zumbido nos ouvidos, ou mal formação no funcionamento de um dos rins, e que a ele tinha dado naquele anulamento com o que quer que fosse que necessitasse esforço.
Cristiano sem vontade de apanhar umas favas, tirar-lhes a casca e colocá-las num tacho com água. Água apenas, que sal não haveria, que ele nem foi comprar depois de ter gasto o que trouxeram as senhoras. Não aquelas do Projecto, mas as outras que vêm mensalmente. Trazem o leite que muitas vezes azedava. Cristiano não gosta de leite frio e aborrece-lhe fazer lume e o leite ali fica, e estraga-se. Cria uma crosta amarelada de tanto que o deixa na vasilha. E se o quisesse nem que fosse morno, não haveria gás. A garrafa acaba-se e é uma trabalheira ir buscar outra, cerro acima, cerro abaixo, que o depósito de reabastecimento fica, lá, no cucurito da Vila.
Cristiano nem gasta o dinheiro da venda dos melões, ou de uma ou outra galinha e de alguns ovos que encontre por acaso debaixo do nariz. Paga a luz e a água, mas nem arranja a casa que foi dos pais e está a cair de velha. Nem telhas novas, nem uma pintura.
Compra pacotes de ração para o cachorro e milho para as galinhas, e pouco mais gasta.
– Parece mentira, Cristiano! Com um terreno destes e nem milho aqui cresce para alimentar os animais.
Ainda anda por ali a ovelha.
As senhoras do Projecto também disseram:
– Mas deixe lá, daqui em diante vai tudo mudar, não é Cristiano?
Eram muito simpáticas, a Dona Ermelinda e as outras pessoas que tinham vindo com ela. E as favas tinham até crescido. E as ervilhas, e a salsa que parecia erva.
Mas Cristiano não colhe.
Preguiçoso. Mandrião.
Dizem assim uns e outros. Ou já nem dizem senão as velhas, aquelas senhoras que sabem todos os pecados. Os mortais e os outros.
Que ele um dia terá o pago, murmuram elas na falta de mais em que se ocupem. Que um dia Cristiano terá o castigo merecido por estar assim, a vida inteira, em pecado grave. E a dizerem deste modo, benzem-se e rezam-lhe pela salvação da alma.

****

Quando a ovelha morrer, Cristiano deixará que o bicho vá apodrecendo tal e qual deixa tudo.
O que ele faz em cada ano é o campo de melões.
Isso, ele tinha prometido e cumpre. E colhe-os e vende-os no mercado.
Mas não vai em busca dum ninho de galinha nem mesmo que seja a preta, e não arranja uma telha ou uma torneira. Nem apanha as favas, nem acende o lume a aquecer um leite, e frio nem vê-lo.
Hoje deitou-se com um ninho de ratos a mordê-lo por dentro.
Cristiano hoje abusou da sorte.
E terá sido este o terceiro dia de Cristiano. Que é ao terceiro dia que Deus toma decisões. Deus que é Nosso Senhor que está no Céu e alumia tudo, e escurece a noite, e envia a luz da lua. Esse mesmo que decretou que a preguiça fosse pecado mortal, decide sempre ao terceiro dia, dizem assim os livros.
E viria já Nosso Senhor matutando seriamente, de tal modo que o perfazer do terceiro dia terá calhado na madrugada do próprio dia em que a galinha preta colocou um ovo sabe-se lá onde. Precisamente dois dias depois de ter morrido o borrego. E no dia seguinte a Cristiano nem ter colhido sequer um pé de favas.
E Nosso Senhor lá do firmamento terá também notado aquela tineta de Cristiano em não aquecer o leite e deixar que azedasse. E terá dado pela falta de gás, e pela sujidade.
Terá sido de tudo isso que Deus decidiu, ao raiar do sol deste mês em que o meloal está quase, quase, e num tempo tal que, se as senhoras que tinham vindo em outros dias, as do Projecto e as outras, tivessem vindo assim tão cedo teriam visto o resultado da decisão d’Ele, que era Cristiano tão imensamente preguiçoso, que nem o cão a trazer-lhe o graveto, nem o sol a bater-lhe em cheio no rosto, nem o pingo-pingo da torneira do lavatório, nem o odor fétido do leite apodrecendo.
Ao terceiro dia, quando Deus decidiu, nada naquela casa tinha retirado Cristiano daquele seu viver para toda a eternidade em pecado mortal.

E eu que escrevo e conto, ainda assim me interrogo se Deus terá decidido do melhor modo. Se não seria precisamente esta a madrugada do dia em que um outro ser celeste, um outro ser igualmente poderoso e igualmente amante dos homens, urdisse o milagre de fazer de Cristiano um homem diligente. Que fosse esse o dia em que ele até cozinhasse uma perdiz trazida pelo Galego, ou fizesse lume para aquecer um leite, ou finalmente procurasse o ovo da galinha e arranjasse a torneira e desse um fim àquele pingo-pingo.










domingo, 12 de maio de 2013

O Amor nos Tempos do Fo(r)dismo



Engatei a quarta marcha num free lance. É, um lance livre. Até que ele era divertido. Me comia sete vezes por semana e no fim de semana minha semana sequer tinha mais fim. Era uma sucessão de recomeços intensos e destrutivos. Um produto de validade vencida que consumia a validade de sua requerente vencida. Ai, minha validade, já não consigo enxergá-la neste pacote tão desgastado. Justo eu, fabricada com tanto amor e carinho, e que na tenra idade desenvolveu a síndrome do intercurso monogâmico e da maternidade. Pisei no freio, estacionei – mal, pra variar. Vaga dos deficientes. Lá veio um sujeito de sorriso mórbido que me convenceu para um café. Esse filho de uma mãe doutorada leu a página de Economia na minha frente e ainda teve a coragem de comentar que as bolsas de Nova York subiram. Manobra, à direita. Meu cartão de crédito navalhou todas as bolsas que eu de fato conhecia, meu bem. O espírito hedonista encarna em meu ser quando piso num Shopping Center. Desilusões amorosas quem são vocês?
Esquerda, volver. Atropelei um anjo. Não, era um vendedor de galinhas brancas. A galinha depenada agonizava, como isso aconteceu? O vendedor enchia os meus ouvidos de bra, bra, bras, uma gramática completamente inadequada para a ocasião. Mas havia algo nos olhos dele. Algo de encantador. Paguei a galinha de penas angelicais com uma trepada vespertina. O meu congelador lotado de nuggets me causou repulsa na hora do jantar. Eu não comeria nada que fosse derivado do animal que eu assassinei e que teve sua alma “depenada” encarnada em mim. Seria como devorar a própria espécie. Engatei a primeira marcha. Ladeira íngreme. Exaustão, preguiça, tédio. Provas para corrigir, vida para corrigir. E uma pizza para matar a fome. E um entregador de pizza para chamar de “homem da minha vida”. Conversas pelo telefone, e a segunda marcha engatada. Balada sábado à noite, terceira marcha. Minha cama, quarta marcha... O carro morreu. A brochada foi imperdoável. Seis meses sem ingerir pizza. Passei a freqüentar o yoga, como sugestão de uma amiga nipônica. O professor era interessante demais para eu conseguir alcançar o meu nirvana. Cara de japonês, jeito de brasileiro e pinto de americano. Tive múltiplos nirvanas durante as duas ou três primeiras semanas. Até que a sentada em lótus era excitante. Abandonei os Yogas Sutras de repente, assistindo a um comercial da Johnson & Johnson com mais bebês do que num orfanato. Quis ser mãe, estava decidido. Dei uma marcha ré e retomei aquele desejo juvenil inveterado. Não queria meu filho de olho puxado. Queria uma menina, doce e obediente. Sempre desejamos para os nossos filhos o que não fomos. Uma bailarina! Passei dias pesquisando nomes de bebês e, claro, perfis de homens em sites como Helloamore. Homem truculento nem pensar. Na bengala, me conduzi até um bailarino que aspirava um papel no Quebra Nozes. Não, ele não era gay. Mas era infértil. Aquela maldita calça apertada sufocou todos os seus espermatozóides. Cansei da procura, o combustível estava pelas pontas. Estacionei-me na garagem da minha casa e me senti a personificação da solidão. Antes fosse uma jovem guitarrista ensaiando com sua banda rocks em sua garagem. Percorrer tanta estrada, parar em tanta blitz, ser multada trocentas vezes por excesso de uso do próprio corpo. Havia em mim arranhões. Esse motor de muitos homens rodados precisava de um mecânico... Claro, como não pensei nisso antes? Nada que um bom mecânico não possa dar solução. Eles têm as ferramentas certas para o meu conserto. Enchi o tanque, engatei a quinta marcha e lá vou eu, sem vergonha, nesta lataria de faróis incandescentes.







sábado, 11 de maio de 2013

Enigmático





Beijo amor
Outro

Quem é você?
olha, eu realmente não sei

Chove
James está com uma capa de chuva
apreensivo

Jeremias sai do bar em direção ao carro
forte tempestade

Lydia entra no carro

Num bar, Francisco bate em Dora
Dois irmãos gêmeos se beijam

Um vaso de cristal cai da mesa
um gato é atropelado
um vestido de organza cai de uma janela

Muita algazarra na mesa do lado
todos bebem e falam alto.

um esquilinho é estuprado por um motoqueiro punk

duas mulheres dançam de rosto colado
taças de vinho colorem o espaço com fumaça

Ninguém consegue ouvir quase nada
Henry ou June?

É Marlene
Dietrich ou Souza?

Não sei.


The End





sexta-feira, 10 de maio de 2013

Entrevista com Mainak Dhar, o autor indiano independente que se tornou um dos mais vendidos da Amazon

Entrevista e tradução: Henry Alfred Bugalho

Mainak Dhar trabalha num escritório durante o dia e é escritor pela noite. Seu primeiro trabalho "publicado" foi uma coleção grampeada de respostas de matemática e poemas que ele vendeu para seus colegas de sétima série, que ele torrou em sorvete e quadrinhos. Mainak foi um autor best-seller na Índia com títulos publicados por grandes casas editoriais, como Penguin e Random House, sendo que um de seus romances (Herogiri) foi adaptado para o cinema. No começo de 2011, ele começou a usar a Amazon para alcançar, com seus ebooks, leitores internacionais e se tornou um dos proeminentes autores independentes do mundo, com mais de 100 mil livros vendidos no primeiro ano. Mainak é um dos autores mais vendidos de Terror na Amazon e, em março de 2013, se tornou o número 1, temporariamente ultrapassando Stephen King neste posto. Escreveu treze livros, incluindo a série "Alice no País dos Mortos".
Saiba mais sobre ele e contate-o em
mainakdhar.com 

1 - Conte-nos um pouco sobre sua carreira como escritor, Mainak. Como você começou e quais eram suas influências?

Stephen King tenha talvez sido a mais importante influência para que eu desse os primeiros passos para tornar-me um escritor. É isto que faz com que o meu marco de ultrapassá-lo momentaneamente em março de 2013, tornando-me o número 1 dentre os escritores de terror na Amazon, tão especial. Escrevo desde que eu possa me lembrar, e ainda criança eu tinha uma porção de poemas que escrevi guardada na minha gaveta. Lembro-me de ter lido uma entrevista com Stephen King, na qual ele dizia algo como que "no momento que alguém paga um centavo por sua escrita, você é um escritor profissional". Então, na sétima série, quando eu estava vivendo no Canadá, solucionei os exercícios de matemática do período seguinte e grampeei as respostas junto com meus poemas (imaginando, talvez corretamente, que ninguém pagaria somente por meus poemas), e as vendi para meus colegas. Ganhei 12,50 dólares, que rapidamente gastei em sorvete e quadrinhos. Naquele dia, voltei para casa e anunciei para minha mãe que eu tinha me tornado um escritor profissional. Infelizmente, não tenho mais aqueles poemas (nem as respostas de matemática) que iniciaram minha jornada como escritor.

2 - Você se tornou um dos autores mais vendidos da Amazon ao autopublicar o livro "Alice no País dos Mortos" (Alice in Deadland), um romance juvenil sobre uma caçadora de zumbis chamada Alice. Terror é um gênero popular na Índia, ou você tinha um público mais vasto em mente?

Terror é ainda um gênero muito incipiente na Índia, e eu não comecei a escrever neste gênero tendo especificamente os leitores indianos em mente. Minha primeira incursão no gênero foi o romance "Zumbistão" (Zombiestan). Sempre adorei ficção pós-apocalíptica, com clássicos como "A Dança da Morte" (The Stand) e "Lucifer's Hammer" entre meus livros favoritos. Um dia, comecei a pensar que tipo de mundo pós-apocalíptico eu gostaria de criar e dar vida para personagens e enredos. Como o usual, eu estava fazendo um brainstorm de uma pessoa só, e a palavra Zumbistão pipocou em minha mente. Uma coisa levou à outra e, como se diz, o resto é História. Uma vez que Zumbistão começou a ter boas críticas e leitores na Amazon, decidi explorar o gênero ainda mais, e a ideia de uma versão distópica de Alice nasceu - e isto se tornou um dos pontos de virada de minha carreira.

3 - No mercado de livro atual, alguns experts comparam o caminho da autopublicação a uma "corrida do ouro", quando autores estão tentando garantir seu quinhão antes que esta via se esgote. Como foi a experiência de autopublicar nos EUA? Você divulgou seu livro, ou o sucesso foi devido ao boca a boca? Você recomendaria a autopublicação para autores estrangeiros tentando inserir-se no mercado norte-americano?

Autopublicação, especialmente com Amazon e ebooks, pode mudar o jogo em se tratando de alcançar os leitores. Meu único alerta para qualquer escritor é que não existe uma mina de ouro pronta. Os princípios básicos da publicação continuam os mesmos: escreva o melhor livro que puder, faça uma edição profissional, faça uma ótima capa e se apresente aos leitores. Muitos escritores pensam que isto é um atalho para o sucesso; mas não há tal atalho. Auto-publicação é trabalho duro; muito mais duro que a publicação tradicional, pois, além de você ser o autor, você terá de ser o editor/empresário, gerente de marketing, etc. Certifique-se que você compreende tudo isto antes de pensar que é um atalho e mergulhar de cabeça. Eu havia sido amplamente publicado na Índia por grandes editoras como Random House e Penguin antes de começar a veicular meu catálogo de livros para o alcance de leitores internacionais na Amazon. Meus resultados iniciais foram modestos - 118 ebooks vendidos no primeiro mês, mas quando o boca a boca entrou em ação, as coisas deslancharam e, em seis meses, eu estava vendendo mais de 5 mil ebooks ao mês. Logo, comecei a escrever livros e pô-lo diretamente na Amazon, como ocorreu com Zumbistão e, depois, com a série "Alice no País dos Mortos".

4 - Como você interaje com seus leitores? E, depois de tal sucesso, como você lida com a inevitável crítica?

Há muita interação um a um. Recebo pelo menos uma centena de e-mails de leitores por mês. Como um escritor, isto é imensamente gratificante e eu trago para casa a verdadeira magia dos livros - conectar pessoas, às vezes milhares de milhas distantes, através de palavras e ideias. Eu também tenho um grupo muito ativo e maravilhoso no Facebook para o "Alice no País dos Mortos", onde eu interajo com leitores todos os dias, compartilho ideias, recebo feedback e, na verdade, crio coperativamente meu trabalho. Estes leitores se tornaram mais amigos do que somente leitores.

5 - Você escreve seus livros diretamente em inglês? Quem é o seu primeiro leitor, aquela pessoa na qual você confia e que sempre será sincera com você?

Escrevo em inglês e minha maior fonte para conselhos imparciais e meu mais precioso retorno é minha esposa, Puja.

6 - Seu sucesso na Amazon despertou a atenção de agentes ou editores americanos? Você considera a possibilidade de acomodar-se num contrato tradicional de publicação, ou preferiria a liberdade e os barrancos da auto-publicação? E a pergunta de um milhão de dólares: você consegue viver somente da escrita, ou ainda mantém seu trabalho (por enquanto)?

Eu fechei com uma grande agência (Ponta) para explorar os direitos internacionais e de tradução, e estou bastante aberto para ofertas de traduções para alcançar leitores de outros idiomas, mas, para ser honesto, a oferta de 70% de direitos autorais de auto-publicação da Amazon e o tipo de vendas que tenho significam que o contrato de publicação tradicional teria de ser tremendamente atrativo para eu pensar sobre isto. Eu ainda mantenho meu trabalho - por que não fazê-lo, se você pode? Eu floresço na multi-tarefa (normalmente, leio pelo menos dois livros ao mesmo tempo, por exemplo) e a complexidade e adrenalina de equilibrar ao mesmo tempo tudo é o que me mantém estimulado.

7 - Voltando ao gênero apocalipse zombie: até onde percebo, histórias de zumbis não são apenas sobre matar, decapitar e mutilar os mortos-vivos. Normalmente, há uma mensagem mais profunda nelas. Qual é sua visão sobre isto?

Penso que as pessoas hoje em dia estão bastante conscientes de como estamos ferrando com nosso mundo - poluição, superpopulação, ingerência econômica, e assim por diante. Como resultado, penso que as pessoas são fascinadas com o que poderia ocorrer se a sociedade, que consideramos como certa, colapsasse - daí o fascínio pela ficção distópica. Zumbis são uma manifestação disto, um inimigo aparentemente imbatível determinado a pôr um fim à civilização humana como nós a conhecemos. Eu também uso os zumbis como uma metáfora para como nós mesmos somos a maior ameaça para nosso mundo. Em "Alice no País dos Mortos" e em "Zumbistão", os zumbis (ou mordedores, como eu os chamo) são o resultado direto do que as pessoas fazem em suas buscas pelo poder.

8 - Quais são seus conselhos para um escritor iniciante? O que você aprendeu sobre o ofício e também sobre o negócio editorial?

Escrever um livro não requer criatividade somente, mas a disciplina para ver através dela. Então, se você deseja escrever, esteja pronto para comprometer-se com esta disciplina e trabalhar duro. Também você precisa ter uma casca dura e persistência para prosseguir, porque inevitavelmente enfrentará rejeição e obstáculos. Não quero dissuadi-lo, mas siga com os olhos bem abertos. Construir uma carreira literária não se trata de ter uma ideia legal e sonhar em escrever um livro. Converter isto para realiadde é trabalho duro, e você precisa fazer um esforço consciente para tornar a escrita uma parte importante de sua vida e de sua rotina.

 9 - Você está trabalhando em traduções de seus livros? Podemos esperar uma tradução para português em breve?

"Alice no País dos Mortos" foi traduzido para turco, outro romance (Line of Control) foi traduzido para francês e meus livros sobre negócios foram traduzidos para japonês e vietnamita. Tenho uma maravilhosa agência europeia (Pontas) me representando para trazer meu trabalho para leitores em outras línguas, então não tenho dúvida que atingirei leitores de outros idiomas. Sobre português, tudo dependerá dos editores locais interessados em meu trabalho.

Muito obrigado por seu tempo, Mainak, e estaremos sempre torcendo por seus sucesso.

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Original interview

Mainak Dhar is a cubicle dweller by day and author by night. His first `published' work was a stapled collection of Maths solutions and poems (he figured nobody would pay for his poems alone) he sold to his classmates in Grade 7, and spent the proceeds on ice cream and comics. Mainak was a bestselling author in India with titles published by major houses like Penguin and Random House and with one of his novels (Herogiri) being made into a major motion picture. In early 2011, he began to use Amazon to reach international readers through his ebooks and became one of the leading independent authors in the world with more than 100,000 books sold in his first year. Mainak is one of the top selling horror authors on Amazon worldwide and in March 2013, became the #1 bestselling Horror author on Amazon, momentarily unseating Stephen King. He has thirteen books to his credit including the bestselling Alice in Deadland series. Learn more about him and contact him at mainakdhar.com 

1 - Tell us a little about your writing career, Mainak. How did you start, and who were your influences?

Stephen King was perhaps the single most important influence in me taking my first step towards becoming a writer. That's what makes my milestone of momentarily overtaking him in March 2013 to become the #1 horror writer on Amazon so very special. I've been writing for as long as I remember and as a kid had a bunch of poems I had written stashed away in my cupboard. I remember reading an interview with Stephen King where he said something to the effect that the moment someone paid you a penny for your writing, you were a professional writer. So, in Class VII, when we were living in Canada, I solved the Maths textbook for the next term and stapled the solutions together with my poems (figuring, perhaps correctly, that nobody would pay me for my poems alone), and sold them to my classmates. I earned $12.50, which was promptly spent on ice cream and comics. That day, I came home and announced to my Mother that I had become a professional writer. Unfortunately, I have no records of those poems (or those maths solutions) that started my journey as a writer

2 - You've became an Amazon best-seller author by self-publishing the book "Alice in Deadland", a YA novel about a zombie hunter called Alice. Is horror a popular genre in India, or did you have a broader audience in mind? 

Horror is still a very nascent genre in India, and I didn't start writing in the genre with Indian readers specifically in mind. My first entry in the genre was my novel Zombiestan. I've always loved post-apocalyptic fiction with classics like The Stand and Lucifer's Hammer being among my favorite books. One day, I started thinking of what kind of post apocalyptic world I'd like to create and give life to characters and stories in. As usual, I was having a one man brainstorm, and the word Zombiestan popped into my head. One thing led to another and as they say, the rest is history. Once Zombiestan started getting good reviews and readership on Amazon, I decided to explore the genre further, and the idea of a dytopian version of Alice was born- and that has become one of the turning points of my writing career.

3 - In today's book market, some experts are comparing the self-publishing route to "a gold rush", when authors are trying to garantee their lot before this venue dries up. How was the experience of self-publishing in the US? Did you promote your book, or its success was due to word-of-mouth? Would you recomend self-publishing to foreign writers trying to break into the American market? 

Self publishing, especially with Amazon and ebooks can be a game changer in reaching readers. My only word of caution to any writer is that there is no real ready-made gold mine. The basics of publishing remain the same- write the best book you can, get it professionally edited, get a great cover and then present yourself to readers. Many writers think it's a short cut to success- but there is no such short cut. Self publishing is actually hard work- much harder than traditional publishing, since in addition to being an author, you have to be a publisher/entrepreneur- managing marketing, editing etc. Make sure you understand all that before you think it's a short cut and take the plunge. I had been widely published in India  by major publishers like Random House and Penguin before I started putting up my backlist to reach international readers through Amazon. My initial results were modest- 118 ebooks sold in my first month, but then as word of mouth picked up, things took off and in six months, I was selling more than 5000 ebooks a month. Soon, I started writing books and putting them up directly on Amazon, as happened with Zombiestan and then the Alice in Deadland series.

4 - How do you interact with your readers? And, after such a success, how do you cope with the inevitable criticism? 

There is a lot of one on one interaction- I get at least a hundred reader emails a month. As a writer, that is immensely gratifying and drives home the real magic of books- connecting people, sometimes thousands of miles apart, through words and ideas. I also have a very active and wonderful Facebook group for Alice in Deadland where I interact with readers every day, share ideas, get feedback and in fact, co-create my work. Those readers have become more friends than just readers.

5 - Do you write your books directly in English? And who is your beta reader, that person of your trust who will always be sincere to you?
I write in English and my biggest source of impartial advice and my most precious sounding board is my wife, Puja.

6 - Did your success in Amazon draw attention of US agents and publishers? Do you consider the possibility of settling for a traditional book contract, or would you prefer the freedom and the pitfalls of self-publishing? And the one million dollar question: can you live solely on writing, or are you still keeping your day job (for now)? 

I have signed up with a major agency (Pontas) to explore language rights and international rights, and I am very open to translation deals to reach readers in other languages but to be honest the financials of self-publishing with the 70% royalty Amazon offers and the kind of sales I have mean that I would need to get a bloody attractive traditional book contract to even consider it. I do still maintain my day job- why not do it all if you can? I thrive on multi-tasking (normally, I read at least two books at a time for example) and that complexity and adrenaline rush of juggling things is what keeps me stimulated.

7 - Back to the apocalipse zombie genre: as far as I understand, zombies stories aren't just about killing, beheading and chopping the undead. Usually, there's a deeper message to it. What's your view about it? 

I think people are nowadays acutely aware of how we are screwing up our world- with pollution, overpopulation, economic mismanagement and so on. As a result, I think people are fascinated with what may happen if society as we take for granted breaks down- hence the fascination with dystopian fiction. Zombies are a manifestation of that, a seemingly unbeatable foe determined to end human civilization as we know it. I also use zombies as a metaphor for how we ourselves are the biggest threat to our world. In Alice in Deadland and Zombeistan, the zombies (or Biters, as I call them) are the direct result of what people do in their quest for power.

8 - What are your advices to a novice writer? What have you learned about the craft and also about the publishing business? 

Writing a book requires not just creativity, but the discipline to see it through. So if you want to write, be ready to commit to that discipline and hard work. Also, you need a very thick skin and doggedness to keep going because you will inevitably face rejection and setbacks. I don't mean to dissuade you, but just go in with eyes wide open. Building a writing career is not just about having a cool idea and dreaming of writing a book. Converting that to reality is hard work, and you need to make a conscious effort to make writing an important part of your life and routine

9 - Are you working in translating your books? Can we expect a Portuguese translation soon? 

Alice in Deadland has been translated into Turkish, another novel (Line of Control) was translated into French and my business books have been translated into Japanese and Vietnamese. I have a wonderful European agency (Pontas) representing me on bringing it to readers in other languages, so I have no doubt it will reach readers in other languages. As for Portuguese, it all depends on local publishers being interested in my work.

Thank you so much for your time, Mainak, and we are always cheering for your success. 





quarta-feira, 8 de maio de 2013

as regras para conservar a saúde




a assepsia nos dá boas razões para continuar vivendo 
ora vejam
tudo é potencialmente doentizável
logo
para tudo há um remédio

a alegria está em entregar-se avidamente aos prazeres da pesquisa médica 
compreender todas as etapas do processo
e dar nomes a cada uma delas entendendo como cada partícula da existência é afetada em que período do ciclo e por que agente causador de tais males abstrusos

a administração parenteral das defesas 
permite-nos abrir um sorriso largo nas injeções de uma liberdade docemente hipócrita
para o que nos faz tão incorruptíveis
e imunes a quase tudo

ah, belo é o estado da arte dessa coisa higiênica que se tornou a vida 











uma ideia de lugar


não é uma queixa minha dizer que a vida é vazia de significado 
a vida é vazia de significado 
por isso é fácil ser poeta 
encontrar dentro do nada que somos direção alguma 
fazer desse tudo deserto um edifício de coisas inventadas 
e das partes ainda mais ilusórias areia nos vãos entre as pedras 

também é coisa ordinária 
quase quotidiana 
refazer essas emendas 
em pouca fala 
já que se pode fazer isso no silêncio 
damos a esse lugar inexistente o nome que bem queremos 
e à rua que se lhe desdobra defronte 
qualquer endereço  

é ainda uma tarefa simples trazer ao mundo primitivo nosso passado 
ninguém questiona o que pusermos nos livros 
e com eles atulharmos as estantes 
vamos lê-los e redizer o que dizem a nosso modo 
e escrevermos mais mentiras 
sobre as mentiras 
sobre as mentiras  

é muito bom ser poeta no vácuo 
quase uma dádiva 
não fosse tão precário