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domingo, 20 de setembro de 2020

A LÁGRIMA E O SÊMEN



“Narciso em férias”, o documentário do Caetano Veloso, ainda ecoava dentro de mim, quando lembrei do meu primeiro namorado: Rubens. Foi o primeiro amor, a primeira vez que um homem -  um menino afobado, atrapalhado e muito intenso - conhecia minhas entranhas em profundidade. Diferente da estreia das minhas amigas, foi bom, muito bom, bom demais. 

Por que Rubens sai do fundo do baú e encontra Caetano flanando pelas minhas veias? Estranho. Logo ele, o garoto bonito, que se esvaiu pelos destinos que o tempo e a vida cuidaram de dispersar.


 “Narciso em férias” me arrebatou, não com a inocência da minha primeira paixão pós adolescente, mas com maturidade de refletir sobre a vida. Durante um tempo que me soou eterno, as palavras de Caetano, seus silêncios, seus olhares, suas lágrimas e a clareza da sua fala baiana mansa e feroz me provocaram a assistir cenas reais. Nem precisei fechar os olhos. Bastou olhar bem para sua eloquência terna para ver o jantar do general torturante, o soldadinho incauto que lhe espetava o fuzil nas costas caminhando pelas alamedas pseudo bucólicas de um quartel, a imundície da solitária, as frases do jornal amarelo, o sargento que burlou o oficial do dia e permitiu que sua mulher Dedé passasse um tempo de amor e sexo com um prisioneiro que não sabia por que estava lá, a estupidez do relatório de tosca redação, o primeiro olhar para a foto da Terra tão distante daquela masmorra, o riso nervoso incontido, a lágrima transbordante, o sêmen jorrado. 

Tanta coisa a mexer comigo, tanta história bruta imaginada revelada tardia, tanta poesia, tanta tristeza, tanta ternura nos olhos de quem tanto sofreu sem mais nem porquê, porra, fui logo lembrar do Rubens.

No momento em que Caetano filosofa sobre a similaridade da lágrima e do sêmen, o choro e a ejaculação como duas explosões sinceras e expressivas do espírito que nos habita, o avesso do vazio a que ele fora submetido, lembrei que quando gozei logo na primeira vez, quando senti Rubens escorrendo para a fora de mim, melando meus pelos (afobado, não carecia tal precaução. Eu já andava com a pílula na bolsa), senti exatamente um incontido manifesto das entranhas imateriais, o chamado orgasmo compartilhado com um suposto grande amor. E cai em prantos na hora.

Hoje sinto que foi menos pelo Rubens, o menino bonito, estabanado e gostoso, meu troféu disputado pelas colegas da faculdade, e mais pelo divisor de águas que a vida tinha me apresentado.

Hoje acordei com saudade curiosa do Rubens. Tanto tempo. Tantas vidas se sobrepuseram sobre aquelas horas no motel. Mas eis que sou persistente. Eis que existe Facebook. Eis que uma avó cinquentona espera o marido e o filho que ainda mora em casa dormirem, para mergulhar no computador.

Rubens. De quê? Carvalho? Cardoso? Cordeiro? Cordeiro! Está aqui. Fartos cabelos prateados, fortão, malhadão, barba rente grisalha, rei leão afrodisíaco, cercado da mulher alourada, um casal e três crianças, netos, supus. Não me detive em detalhes, pedi para ser meu amigo. Ele topou na hora e, não demorou muito, apareceu no Messenger acenando com aquela mãozinha.

- Oi, Lucia!

- Lucinha, eu mesma.

- Tanto tempo!

- É, Rubens. A vida voa.

- Lu. Lulunática. Você me chamava de Bim.

- Isso. Bim. Bimbim.

- Lu, me diga. Por que de repente? A essa hora?

- Insônia.

- Também sofro disso.

- Como está você, Bim?

- Caramba! Mais de 30 anos. Não sei por onde começar.

- Tempo da faculdade.

-  Impressionante, Lulunática, estou sentindo uma coisa.

- Também estou sentindo a mesma coisa.

- O que?

- Uma volta no relógio. Uma vontade de sei lá o quê.

- Gozado. Parece que o tempo não passou.

- Onde foi que paramos mesmo, Bim?

- Sei lá. Acho que quando fui estudar em Boston.

- Me lembro. Choramos no aeroporto. Muito boba eu.

- Acabei ficando por lá. 

- Não tinha internet para achar os sumidos.

- Que pena. 

- Seguiu na Engenharia?

 - Não. Economia. Voltei pro Rio, abri um banco e vendi o banco.

- Tá rico.

- Modestamente. E você?

 - Jornalista.

- Você sempre escreveu bem.

- Modestamente.

 - Kkkkkkk.

 - Kkkkkkk.

- E agora?

- Ah, avó, escritora, professora, metida a cozinhar.

- O agora que eu disse foi sobre nós. Já que você me achou, quando a gente se encontra?

- Hummm... assim você me desconcerta.

- Muitas histórias deixamos passar. O que perdemos, o que ganhamos...

- Um balanço?

- Por aí. Mas, por que lembrou de mim?

- Ah, bobagem...

- Diz, Lulunática!

 - Acabei de ver “Narciso em Férias”. Tem uma passagem que me lembrou nossa primeira vez no motel.

- Nossa! Você é direta!

- Como direta? Foi só um flash, sem intenção de flashback. Só para arrumar as fotos

no baú.

 - Sei....

- Juro.

- Jura mesmo?

- Kkkk ... mais ou menos.

- Então... o que mesmo que você viu e lembrou da gente?

- “Narciso em Férias”. O documentário sobre Caetano Veloso preso pela ditadura...

- Caetano Veloso? Você vê aquele baiano viado subversivo comunista e lembra logo

de mim???

Não respondi. Bloqueei o sujeito e chorei de novo. Sou uma velha boba.





sábado, 19 de setembro de 2020

A dor entranhada

 


Vociferei, com todos os ares do pulmão, a quem quisesse ouvir: “Chega! Acabou a palhaçada! Vocês terão o que merecem!”. Quis dizer mais, mas a educação me traiu. A atmosfera, sempre confusa, caótica, fechou mais sobre mim.

Não queira saber a cara de espanto da megera Carmina, declarando o descomunal ultraje; mas, atadas às convenções sociais, tentou logo colocar panos quentes e abafar o princípio de incêndio. O todo poderoso Demóstenes, um homem carrancudo, arrogante, com o qual troquei ligeiras e precisas palavras, não contou pipoca e questionou a minha sobriedade, fazendo pouco caso: “Esse daí virou a cabeça de vez; maluco beleza…”. E o detalhe: falava sem olhar para mim, confirmando o fascínio pelo escárnio.

***

Para que possa entender, a cena se desenrolou numa manhã de sábado, com o alvoroço de gente que não parava de entrar: primos, tias, avós, todos com os seus respectivos companheiros e, pasmem, amigos de amigos, sucessivamente, em plena pandemia. A situação, como se pode perceber pela explosão que sucedeu, era comum, em quaisquer momentos, manhã, tarde, noite e madrugada. E, convencidos de que eu não teria direito de sequer reclamar, acochavam-me contra as paredes da casa; espremiam-me ao extremo, a ponto de perder facilmente o fôlego.

Natália, à parte de se portar como boa namorada, procedia segundo os ditames disformes da casa, ao deus-dará; jamais se preocuparia comigo; ou não teria forças para lutar contra os acontecimentos. De certa forma, tentava entender, porque, por mais complicada que fosse a zona, era o ambiente possível, no qual estava acostumada a viver; não sabia, nem se esforçava para saber, de outra vida.

Eu, claro, era uma mosca que ocupava, temporariamente, como frisou seu pai, o ambiente sagrado. Desde que saí de Itatinga, da casa de meus pais, para estudar e trabalhar, para dar cabo de minha vida, com a esperança de ser independente, não seria capaz de supor a desordem que se avizinhava. Não abria a boca para formular uma frase, pois que era constantemente interrompido pelo irmão ciumento, o Daniel, que me testava não só a paciência, mas também os conhecimentos, colocando-se num pedestal, como sendo o aluno mais brilhante que havia em toda a história da grande cidade. Exageração barata, egocentrismo, que me enojava. Repetia os passos do pai, que não parava de se gabar a quem chegava; que havia trabalhado como alto funcionário da Vale, desvinculando-se, óbvio, dos fatos recentes, “da época em que havia gente séria…”.

A grande questão, o que a leitora já pode inferir, é que o ambiente era hostil para um ser interiorano, acostumado à calmaria – algo que não ajuizei enfrentar, assim, de cara – e lidar, também, com as oscilações de humor de todos os entes que coabitavam o recinto. Ademais, a leitora pode me achar um sujeito ingrato. Falo de coração que me culpei desde o primeiro dia ali instalado; que seria problema meu; que deveria ser dócil, paciente; que estavam me fazendo uma grande bondade. Mas, não, posso confirmar, há áudios que gravei para não sair, no momento devido, como o ruim, mau, propriamente mal-agradecido.

Logo no primeiro dia, Natália, que conheci pela internet e que me ajudou a passar no vestibular para Medicina, na USP  – na verdade, a ajuda resultou mútua –, me alocou no quarto destinado a um funcionário que estava de férias, contando que, dentro de um mês, no máximo, eu procurasse o meu lugar; esse era o decreto: “Pois é, Gustavo, não somos acostumados a visitas demoradas… namoramos há pouco tempo, e o papai não compactua muito com essa ideia de namorado em casa”.

Como cheguei no começo da tarde, esperava, ansioso, o almoço, ou o que tinha sobrado deste; nunca tive besteira em comer comida requentada. Carmina, mãe de Natália, mal tendo acomodado minhas coisas no quarto, me alertou que o almoço era rigorosamente às 12h30min; que estava deveras atrasado; e que não havia mais tempo de preparar algo, sobretudo porque preparava o almoço “contado”, para não haver desperdício. Até então entendi, com um pé atrás, porque poderia, se quisesse fazer uma gentileza, preparar um ovo mexido, um sanduíche, etc. e tal. Contudo, sem cerimônias, despachou-me com poucas palavras e fui, por isso, cansado e esfarrapado da noite mal dormida, obrigado a buscar qualquer coisa no bairro; e me custou andar cerca de dois quilômetros para encontrar um posto de conveniência com preços acessíveis.

No segundo dia, também descobri que o café da manhã se dava, “rigorosamente”, às 6h30min, visto que se habituaram com os horários do chefe de família; então, mais uma vez, passei por debaixo da mesa, como diz a expressão. Comi duas bananas que Natália me deu, escondida, pelo visto, pois que aparentava bastante nervosismo, como se me passasse um contrabando.

No quarto emporcalhado, entre cupins e mofos, me deitei e comecei a ler um livro chamado A estepe, de Anton Tchekhov, para vagar pelos campos infinitos, imaginar a natureza e conjecturar algum ar – quando fui surpreendido pelas batidas do chefe, como era chamado pelos seus, declarando que eu não passasse muito tempo trancado; que, aliás, não permitia as portas trancadas, sob o risco de confiscar a chave.

Abri a porta atordoado com o atropelo, às oito da manhã, como se estivesse num quartel, com horas bem definidas, sem qualquer critério para tal. Lembrei-me imediatamente de minha casa, na qual estudava por horas a fio, só, sem ser perturbado por meus pais, que entendiam e apoiavam os meus desejos. O chefe se sentou na cama, ou o que se pode deduzir que seja, e declarou, pausadamente, forçando cada sílaba, que eu não me atrevesse a fazer besteira com sua filha, muito bem educada; que, se algo acontecesse, antes de me pôr para fora, deixaria profundas marcas em meu corpo.

A insinuação veio como uma bomba, especialmente porque Natália me provocava, sem perder o olhar inocente, para parecer boa moça; como se quisesse, sórdida, incitar os meus instintos. Inteligente que era, não mandou nenhuma mensagem mais quente pelo celular, o que seria proveitoso para mim, caso seu pai insistisse na perseguição. Ao contrário, pegava-me, em algum momento de distração e apertava meu corpo, sem constrangimento; dedilhava a porta do quarto, na madrugada – sentia os seus intentos macabros. Um frio indescritível percorria a minha espinha, com o medo de ser confundido; como se eu estivesse “dando em cima” da menininha inocente.

O primeiro almoço foi um suplício. Todos, inclusive Natália, olhavam-me fixamente, de cima a baixo, com desdém. O chefe deu início a um interminável questionário: de que família era; o que meus pais faziam; o que pretendia para a vida e com a sua filha; quais seriam as minhas notas, etc., etc., etc., sem deixar de me rebaixar, com linguajar torpe, declarando, sem meias palavras, que a vida em São Paulo era difícil para gente mixuruca; que o mercado da medicina – algo que nunca tinha ouvido: “mercado da medicina”; pensava em cuidar de pessoas, unicamente – era bastante competitivo; e, para fechar, que não via em mim a marca do sucesso. Engoli a comida para não ser indelicado, controlando os ímpetos, sendo afrontado com risos nervosos, inclusive de Natália, de quem menos esperava; a moça de voz mansa, e, ao que parecia de início, calma.

No mesmo dia, o segundo, não consegui jantar. Também, não houve qualquer contato da família nesse sentido. Experimentei, de certa forma, o alívio. Planejava sair pela manhã, comer o que conseguisse na rua, ajeitar a minha matrícula na universidade e procurar um canto para ficar.

Levantei-me às sete, quando não existia farelo de comida sobre a mesa. Fui até a porta nas pontas dos pés, para não ter de falar com ninguém, e Natália surgiu de não sei onde. Os planos ruíram, já que ela insistia em me acompanhar, alegando que precisava me ajudar; que eu não conhecia a cidade e poderia me perder.

Rodamos a cidade, em passos lentos. Natália estava pronta para me atacar. Tentou me prender num parque, sob o pretexto de a faculdade estar o dia todo aberta; que não precisávamos de aperreio. Caí, como um patinho, na lábia experiente, treinada. Apesar disso, me socorreu uma sensação de terror, pensando que o chefe poderia estar à espreita, caçando um motivo para me pegar. Larguei-a e pedi que me acompanhasse em paz, razão que a fez ferver na rua movimentada e despejar em mim as piores palavras, as quais nunca teria ouvido; que era frouxo, mentiroso, aproveitador, preguiçoso e feio. Não entendi o preguiçoso e feio, visto que pensei que estava comigo justamente pelo contrário.

Ela, por si mesma, chamou uma amiga e resolveu seguir o seu rumo, sem mim. Agradeci a Deus e suplicava por uma solução rápida; não aguentaria mais um dia.

Infelizmente, tive de aguentar. Na faculdade me avisaram que a matrícula deveria ser feita pela internet. Viagem perdida. Minhas expectativas foram frustradas e, além do mais, estava arrasado com o engodo em que havia me metido.

Passei o maior tempo possível nas ruas. Consegui concluir a matrícula através de um computador instalado num prédio público. Voltei a casa às 19h, sendo recepcionado pelo olhar severo do Daniel, que nem sequer respondeu ao meu “boa-noite”. Não foi um problema não me encontrar com Natália. A mãe irrompeu o tempo, antes que entrasse no quarto, para dizer que Natália estava indisposta, com dor de cabeça; que não a perturbasse.

Conferi o celular no quarto, depois do banho, estando mais relaxado; e vi duas longas mensagens de Natália, assumindo o erro de ter aceitado o namoro; que queria conversar seriamente, porque a família não me suportava; que o chefe já havia decretado que resolvesse a situação, pois não admitiria viver com alguém tão feio e preguiçoso.

Mais uma vez, liguei o alerta. Mas como, se eles não sabiam de minha luta, estudando e trabalhando desde novo, sem nunca tirar um dia de férias? O feio era a designação que não acreditava; não me conformava. Como falavam assim de mim abertamente? Fui ao espelho e a única diferença visível, para os que estavam ali, seria a cor. Sim, a cor mestiça, cabocla, da qual tenho tanto orgulho.

Foi a primeira vez que percebi o desprezo: o brutal racismo. Acordei cedo, no dia 29 de agosto de 2020, esperei que todos estivessem ao redor da mesa para soltar parte do que havia em meu coração.

De lá, parti para a delegacia. Entreguei todos os áudios, mensagens, inclusive vídeos que fiz à socapa, dois, com as caras bem expostas de nojo à minha figura. O inquérito foi aberto. Mas, destruído, não quis acompanhar de perto; voltei à minha cidade e esperei os nervos acalmarem para tocar a vida, de novo, na grande cidade.






quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Ponto de Honra - um conto de Monahyr Campos



- Acordei de madrugada com o sistema nervoso, pregado na intuição: o Travoso, comandante da ala ia me pedir antes da visita, daqui a dois dias! Acabou que eu tava mordido, na fissura de ficar bicudaço, mas careta que tava, num parava num pensamento. Mil fita na cabeça, mil treta. Todo o falatório por causa de uma brizola miúda, mó merreca, e agora, os perdigão aprontando a bicuda e eu no fim do carretel.

- Precisando dar um pino, precisando dar um pino, psôr. Tá ligado? Eu jurado só porque num entrei na fita e deu zica. Aí, do nada aparece uns passarinho e assopra meu nome. Aê, psor, o senhor tem que por um pano! O senhor tem deus no coração, num vai quebrar a perna!

Eu sentindo toda aquela aflição, sabia que tinha que me manter a uma distância segura. Por outro lado, como ignorar um pedido de alguém naquela condição?

- Eu não posso entrar na frente, entende? Se der pra conversar, lógico que eu faço um corre, mas não dá pra garantir. Cê tá ligado que se eu firmar contigo, viro adubo na mesma lampiana que você. Quando eu for lá no xis eu dou a letra. Segura a onda, aí.

Dois anos e dois meses de trabalho aqui na penitenciária e já estou quase insensível a essas confusões. A princípio, era pra ser apenas seis meses de trabalho forçado, mas fui me meter a besta de dar minha contrapartida social, de fazer a minha parte. Agora sou refém de mim mesmo, dentro de um episódio do Hannibal, visto com desconfiança pelos presos; com desdém pelos funcionários; como louco por meus colegas de profissão; e nunca mais fui visto de forma nenhuma por minha mulher, nem meu filho... A mulher é ex, mas o filho é pra sempre.

No começo eu ficava desesperado, achava que tinha obrigação de ajudar esses coitados. Só aos poucos fui me dando conta de que, se bobear, muitos deles nem sabem o que é esse sentimento de empatia – apelam por minha intersecção justamente por saberem que eu prezo por meu sentimento de humanidade, que eu os vejo a todos como meus iguais, mas eles sabem porque estão aqui – eu não.

Hoje é o Carqueja. Semana passada, foi o coitado do Apendicite. Antes, o Buti. Teve também o caso do Timba, do Sprite. A lista é infinita... Tudo história mal contada, diz-que-me-disse; um, porque dizem que talaricou a feinha do outro; aquele porque era jacaré... Pessoas com problemas seríssimos em lidar com autoridade e, de repente, condenadas a viver sob um regramento extremamente rígido.

Aqui a vida é no limite o tempo todo. É no limiar do julgamento que o mais forte organiza a convivência, verbalizando as regras, que são invariavelmente aceitas por consenso. Não faria sentido questionar qualquer lei, simplesmente porque cada norma num ambiente primitivo é a consagração de um modo de viver, é sempre ponto de honra!

As paralelas encontram-se no infinito. Na teoria funciona muito bem essa afirmação, mas aqui, vivo diariamente a experiência de estar numa realidade paralela, beirando o absurdo pelo lado de dentro. Qual a vantagem de poder sair, se a sensação de desconforto levo comigo: a minha e a deles? “Aqui a vida é no limite o tempo todo”. O refrão do MC Louva-a-Deus não me dá descanso, vinte e quatro horas por dia martelando a britadeira nos neurônios.

Lembro de ter lido, há um bom tempo, num livro bastante badalado, que para se constatar se uma pessoa está viva, o meio mais fácil é colocar um espelho em suas narinas e observar: enquanto estiver respirando, a superfície ficará embaçada, sempre. Se a imagem refletida permanecer límpida, é porque não há mais vida. Sabedoria dos antigos que eu tive que aprender nos livros.

Feliz de quem vive “pregado na intuição”, como diria o Carqueja, mas eu, preciso de livros pra aprender até o que a vida ensina. E eu sei que estou vivo, eu existo, porque em minha vida, sempre vejo tudo embaçado. Visão límpida, só quando a gente encara a morte de perto, no susto, no choque! Quando a pancada te arranca do confortável e te empurra pro precipício, você enxerga longe, o fundo do poço fica cristalino, mesmo se a água for turva.

E eu sobrevivendo neste inferno, como se existir me bastasse, como se a satisfação fosse duradoura cada vez que tenho notícias de algum ex-interno recuperado. Como se a gratidão fosse uma qualidade que se possa esperar de quem teve sua humanidade arrancada junto com a placenta, como se...

- Tá morgando, fessor?! O senhor é o maior responsa, mas num dá brecha. O Carqueja vai cair e é hoje! O presidente já deu a letra, aqui mancoso num tem vez. O senhor num sabe de nada, né não? Fica pianinho que a gente dá a letra quando for chacoalhar o colégio. Lembra quando o ganso falou pro senhor faltar? Ninguém avisou o otário do nervosinho... agora ele tá o maior groselha.

Eles me avisaram quando teve rebelião. Simplesmente faltei. O Alemão não teve a mesma sorte, agora não é nem de longe o arrogante de tempos atrás. Tiraram toda a petulância dele aos berros. Passou mais de duas horas, pendurado, de ponta-cabeça, no telhado do presídio, sendo ameaçado, correndo o risco de escapar das mãos daquela gente ensandecida, completamente animalizada.

Infelizmente o Carqueja vai ser triturado. Perdeu.

A cada vez que tentava dormir, me vinha a imagem daqueles olhos estatelados feito jaca madura, caindo no terreno baldio de minha insônia, me pedindo socorro. Coitado. Eu era sua derradeira esperança. Eu, de mãos completamente imobilizadas, totalmente impotente. Disposto a resgatar algumas individualidades através do conhecimento, percebi que nem mesmo o meu melhor, nem minha dedicação ao máximo grau pode interferir na dinâmica daquele lugar.

Qualquer texto, poema ou discurso que lhes apresento, sempre vai transitar na possibilidade de se tornar uma extrema unção. “Pra morrer, basta estar vivo”, nunca minha mãe teve tanta razão! E quem me garante que a qualquer hora, não vai aparecer um “passarinho” para assoprar o meu nome?








quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Fomes




A fome não é exigente: basta contentá-la, 
como, não importa. 
(Sêneca)

No primeiro tombo, ralou os joelhos no assoalho duro. Ganhou consolo, colo, chupeta. Viu o piso inanimado de madeira ser chamado de bobo e feio pela mãe, e receber do pai tapas insanos. Não achou graça. E chorou aos gritos, nariz escorrendo, punhos tão cerrados que arrebentou a pulseira de ouro de chapinha na qual o nome dela estava gravado em letra bordada. Esperneou, corcoveou, puxou os próprios cabelos e os da mãe, que a sujigava nos braços para que ela não caísse. Então, o pirulito. Grande, multicolorido. Entregue pelo pai como um troféu melado. E não houve mais choro ou ranger de dentes. Que gracinha! Menina linda da mamãe! Amorzinho do papai! Que belezinha!
Passou a infância entre doces, sorvetes, choros e elogios. Chocolates pretos, brancos, crocantes, recheados. Recebidos em momentos de dor, de aflição, de insegurança, de carência. Na adolescência, descobriu os sanduíches de dois andares, os refrigerantes, os achocolatados misturados com granulados, as casquinhas de biscoito que enfeitavam os milk-shakes e que depois passaram a ser comidas sem os milk-shakes. E como a ansiedade não passava, e como os meninos já eram ridiculamente fiéis às formas esquálidas, e como as dela eram redondas e macias como as almofadas do sofá, deixou que toda aquela fome, constante e imensa, fosse aplacada por novos sabores. Incluiu na dieta um baseado por noite e cinco dias de álcool por semana. Vodca. Retirada sem aviso do estoque do pai. A Stolichnaya era tomada em copo de plástico branco. Em casa. No quarto. Caso alguém entrasse sem bater, não daria muita atenção a um copinho descartável. Na rua, fazia vaquinha com os amigos; compravam gelo.
Mas a fome não passou. Não passava nunca. Além do apetite causado pela larica e pela ressaca, havia mais. E ela queria esse mais. Da primeira vez que fez sexo, sentiu-se saciada, relaxada. O banco de trás do carro era apertado para o seu corpo gordo, mas aquele aperto todo tinha excitado o parceiro. Mais atrito, mais encaixe, mais penetração, ele explicou assim que a trepada terminou. Naquela noite, ela se esqueceu do baseado e do copo de vodca, que dormiu metade cheio embaixo da cama.
Viciou-se naquele alívio que a fez esquecer os doces, os refrigerantes, as pizzas, o álcool. E descobriu que o que lhe dava mais prazer no sexo era enfiar na boca o membro ainda mole e senti-lo crescer ao comando da sua língua nervosa. Em pouco tempo, ganhou fama de ser a melhor na prática do sexo oral. Ela diria pênis e boquete, mas ainda não estava pronta para essas palavras tão íntimas.
Namorados, amantes, ficantes. Ela escolhia. Marcava e desmarcava dia e hora. E decidia quanto tempo duravam. Desejava, implicava, atraía, rejeitava. Passou a trocar o almoço por transa. O jantar, os lanches de fim de semana. Trocou de idade várias vezes, virou mulher. Gostosa, safada, experiente, esperta. Magra na medida certa. Cheia nos lugares certos. Até que cismou que precisava entender aquela fome maior do que ela. Procurou psicólogo, padre, benzedeira, astrólogo. Comprou livros que falavam de obsessão, de compulsão, de possessão, de fugas, de vícios, de complexos, de negação, de distúrbios. Nada. 
Então, leu sobre o controle e sobre a dominação. E teve fome de algemas, chicotes, correntes. Fome de poder. Esse pirulito grande, multicolorido.








terça-feira, 8 de setembro de 2020

Livre, finalmente!


Senti desde muito novo uma grande preocupação pela liberdade de ação, a minha, claro está. Ainda mal andava e já me incomodava ouvir proibições ou, pior ainda, orientações para o que podia ou devia fazer. Era até quase certo fazer exatamente o oposto do que me pediam que fizesse, apesar de as consequências serem geralmente más.
Recordo ainda claramente a primeira vez que exerci o meu direito de decidir por mim. A minha mãe tinha-me sentado no balcão da cozinha, a uma distância considerável do fogão, claro, dizendo-me claramente que não saísse dali e que não tocasse em nada. Palavras fatais! Mal virou costas gatinhei logo balcão fora a todo o gás para tocar na panela que começara a ferver. Escusado será dizer que o resultado não foi nada bom para mim!
Durante a infância e boa parte da adolescência a situação manteve-se assim, recusa total em aceitar conselhos ou ordens e, paralelamente, fazer exatamente o contrário do que me tentavam proibir. Tornara-se até uma espécie de obsessão, não me limitava a reagir aos acontecimentos, procurava ativamente que me dessem orientações e proibições pelo puro prazer de as ignorar e transgredir. Foi o período mais feliz da minha vida, sentia-me totalmente livre, talvez até a única pessoa livre do mundo.
Os problemas começaram quando entrei para a universidade. Como familiares e amigos me tinham aconselhado — a meu pedido, claro — um curso mais prático e com boas saídas profissionais, como informática ou medicina, escolhi filosofia por me parecer a opção mais oposta entre as que me eram oferecidas, nem prático nem útil em termos de carreira futura, uma vez que não tinha a menor intenção de me dedicar ao ensino.
Mas as coisas começaram a correr mal logo nos primeiros dias. Por muito que tentasse — e acreditem, esforcei-me ao máximo, a ponto de me chamarem o Sr. Intervenções! — nunca conseguia que professores ou colegas se comprometessem com uma opinião para poder então escolher a oposta. Nunca havia factos, se alguém citava uma fonte, logo meia dúzia de vozes se erguiam a citar outras diferentes ou opostas. Um verdadeiro pesadelo!
Nem sei como consegui sobreviver ao primeiro ano letivo, penso que não tive um único momento de felicidade exceto nos poucos dias de férias de Natal e Páscoa que decidi passar em casa para poder voltar à minha rotina. O verão chegou mesmo na altura certa, não sei se resistiria a mais uma semana daquele ambiente profundamente perturbador para alguém como eu. Nem imaginam o prazer que foi voltar à companhia de familiares e conhecidos, todos muito opinativos e que me proporcionavam dezenas de ocasiões diárias para exercer a minha liberdade de dizer e fazer o contrário.
Só voltei para o segundo ano da faculdade porque todos esperavam que não o fizesse. E por uma vez na vida, devia tê-los escutado.
Nem de propósito, um dos primeiros assuntos a vir à baila no início do ano letivo foi o tema da liberdade. Já não recordo o que foi dito, mas houve uma pergunta de um colega — amaldiçoado seja para sempre! — que me marcou profundamente. Foi simplesmente esta:
“Ao fazermos o que nos é proibido não estaremos a deixar-nos controlar por quem fez a proibição?”
Na altura, a pergunta até passou despercebida, como muitas outras, aliás, naquelas aulas de discussão livre. Infelizmente, eu tinha-a ouvido e nos dias que se seguiram não conseguia pensar noutra coisa. Afetou-me tipo sismo de grau 9 na escala Richter ou como aquele tsunami do dia após o Natal. Toda a minha existência, todo o meu conceito de liberdade tinham como pedra angular o critério de fazer o oposto do que me diziam. Mas quanto mais pensava no assunto, mais via que aquele colega maldito tinha razão, eu fora sempre controlado pelos outros e a minha tão gabada liberdade resumia-se a uma mão cheia de nada.
Profundamente deprimido, deixei de ir às aulas, fechava-me no quarto alugado saindo apenas de vez em quando para arranjar alguns mantimentos que fazia durar o mais possível. Quando a bolsa me foi retirada por incumprimento escolar e o dinheiro acabou, comecei a fazer pequenos roubos para me sustentar uma vez que a ideia de voltar para casa naquele estado me enchia de pavor, o pavor de não saber como reagir ou que dizer quando surgissem os inevitáveis conselhos e sugestões sobre o que fazer a seguir. Acabei inevitavelmente por ser preso e condenado.
Os primeiros dias na cadeia devolveram-me um pequeno grau de felicidade, com poucas opções não se punha muitas vezes o dilema de fazer o que me mandavam — coartando assim a minha liberdade — ou de fazer o oposto, com o mesmo resultado de acordo com o tal colega. Mas isso pouco durou, era uma cadeia de baixa segurança e entre presos e guardas enfrentava diariamente vários atentados à minha liberdade.
Mesmo assim, sempre era melhor que a vida lá fora. Infelizmente, o meu crime não fora grave e a pena curta a que fora condenado em breve terminaria, lançando-me de novo nas agruras de uma vida repleta de decisões. Voltou a depressão, que nunca tinha desaparecido totalmente, e só não passava os dias enfiado na cama porque não podia. Sabia ao segundo o tempo que me restava naquele santuário, imperfeito, é certo, mas bem melhor do que a alternativa.
Até que tive uma ideia brilhante. Ataquei ferozmente dois guardas e num novo julgamento fui condenado a uma pena bem mais severa e enviado para uma prisão de alta segurança e com regras bem mais rígidas. Durante uns tempos as coisas melhoraram, mas o peso da meia dúzia de decisões que tinha de tomar diariamente começou a ser esmagador. Repeti pois a dose, atacando desta vez um dos outros presos.
Estou agora em solitária, ou o que passa por ela neste país de brandos costumes. Fico simplesmente fechado na cela a maior parte do tempo, com apenas uma hora diária de passeio solitário no pátio e uma ida ao banho. Vejo apenas os guardas que me acompanham nessas saídas e os que me trazem o indispensável à cela e não falo com ninguém. A comida é-me simplesmente trazida, sem opções, e sei que se não a comer, azar, passo fome até à refeição seguinte. Não há horas certas para dormir ou fazer seja o que for e como estou proibido de ter visitas nem sequer tenho de decidir se as quero ou não ver, Enfim, passo dias a fio sem enfrentar um único dilema, acatar ou ser contra.
Estou livre, finalmente!

Luísa Lopes
Imagem de Tumisu por Pixabay





sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Campónios e Extraterrestres

 


O sol principiava grandiosamente a aparecer no topo das montanhas a leste. Raios de fogo projetavam-se em todas as direções, anunciando a chegada do astro-rei e o início de um novo dia.

Caminhando no trilho calcado que seguia entre as árvores, o homem conhecido por Tone Canhoto, bufava com as costas carregadas por um grande saco de lona. Trazia um chapéu surrado e envergava um casaco demasiado grande. À cinta, no pedaço de couro que lhe segurava as calças, que não chegavam às botas cansadas, uma faca e a coronha decorada de uma pistola de fecho de pederneira espreitavam.

Repentinamente, apercebeu-se que não seguia ninguém atrás dele e pousou o saco no chão, olhando em volta, confundido.

— Xico…? — Chamou quase a medo. — Zé?

Ninguém respondia e não havia meio de aparecer alguém, nos cerca de cinquenta metros de caminho que conseguia ver até à curva.

— Raios partam… — Gemeu baixinho. — Onde demónios se encafuaram aqueles dois?

Com esforço, tornou a carregar o saco nas costas e avançou em sentido contrário, a procurar os companheiros.

— Vais morrer!!! — Uma voz forte gritou de entre as árvores, enquanto dois vultos lhe saltam ao caminho.

— Credo, em Cruz, mãe de Deus! — O Canhoto arregalou os olhos de susto e soltou um grito estrangulado, antes de reconhecer os amigos, que riam do terror que lhe haviam infligido. — Seus gandulos, artajeiros! Quase que me esfoiro todo de susto!

— Só queria que visses a tua fuça! — O mais magro do trio, chorava a rir encostado a uma árvore.

— Mijaste-te, maninho? — Também o mais forte, a quem chamavam de Xico Zangão, tinha lágrimas de tanto gargalhar.

— Ah, vão à merda. Isto não se faz. — O Canhoto ainda tinha as pernas a tremer.

— Coitadinho… — O mais magro, conhecido por Zé Patranhas, fez menção de o acarinhar, mas foi prontamente sacudido.

— Sai-te daqui! Pincha-Grilos de um raio! Andas sempre à turra e à maça com o meu irmão, mas me fazerem galdrumeiras, já se ajuntam!

— Então, Tone. — Tornou o Xico. — Não sejas assim! Borraste as ceroulas foi? — Soltou nova gargalhada em uníssono com o Zé.

— Raio que vos pele! — Amuou Tone, alombando novamente o saco e virando-lhes as costas, retomando o caminho.

Os outros dois, ainda a rir, correram a buscar os seus sacos, que esconderam no mato e tornaram para junto do companheiro, para o atazanar mais um pouco.

— Valeu a pena assaltar a casa do velho Menezes ou não valeu? — O Patranhas queria reconhecimento. — O Badocha deu-nos uma boa dica.

— Até gostava de voltar lá… — Riu o Canhoto. — A criadita era bem engraçada.

— Mesmo a mulher do Menezes… Vejam lá aquele velho asqueroso com uma lasca daquelas! — Acrescentou o Zangão. — E sorria-se toda para mim, parecia até que gostava de ser assaltada.

— E gostava! — Gargalhou o Patranhas. — Estava toda consolada, que eu estava a apalpar-lhe as cascas!

— Mentiroso! — Xico enfureceu-se. — Pantominas de um raio…

— Vá, calem-se lá. Já vão começar novamente? — Interveio Tone, conciliador. — Temos aqui um bom saque para dividir e ir vender ao Galego de Chaves. Ou só se juntam contra mim?

Ai, é verdade! — Xico soltou uma sonora gargalhada. — Precisavas mesmo ver as tuas ventas de cagaço!

Enquanto estavam nestas brincadeiras, um enorme objeto voador, fortemente iluminado, passou a baixa altitude, quase roçando as copas das arvores e levantando uma nuvem de poeira, folhas e ramos soltos. Logo de seguida, o silvo grave que perseguia o objeto, ensurdeceu-os por segundos, até tudo se quedar num silêncio pesado. Uma enorme árvore seca caiu mais à frente.

— Que demónios foi isto? — Perguntou o Patranhas assustadíssimo.

— Vinha a voar, com muita luz! Era um anjo! — Exclamou o Canhoto.

— Com aquele barulho dos infernos?!? — Discordou o Zangão. — Era na certa obra do mafarrico!

— Vamos embora, depressa. — O Zé não tirava os olhos da direção tomada pelo estranho objeto.

— Acho que está ali, por trás daquelas árvores. Vêm-se as luzes. — Apontou Tone. — Deve estar naquela clareira que há ali abaixo.

— Vou lá espreitar. — Anunciou o Zangão.

— É melhor não… — O Patranhas tremia visivelmente. — Anjo ou demónio, pode não gostar de ser visto.

— Sim, acho que seja lá o que for, devemos deixá-lo em paz… — Concordou o Canhoto, para as costas do irmão, que abandonara o saco no chão e já se pusera a caminho.

— Oh, raios me partam, lá vai ele meter-nos em sarilhos! — A voz do Zé também tremia. — Com homens grandes ou mal-encarados eu cá me entendo, mas com estas coisas, não gosto nada de estar por perto.

Como o companheiro os ignorasse e, de varapau na mão, descesse o carreiro na direção da clareira, os outros dois olharam um para o outro, indecisos.

— É meu irmão… — Desculpou-se o Canhoto, empunhando a sua pistola.

Sozinho no caminho, o Patranhas olhou em volta, para as árvores ainda envolvidas nas sombras da madrugada. Ficar ali, enquanto eles iam, também não lhe parecia grande ideia. Num resmungar choramingado, ocultou na vegetação os sacos abandonados no caminho e correu atrás dos companheiros. Tirou a pistola do cinto e armou-a. Eles já estavam escondidos na vegetação, fora da estrada e fizeram-lhe o gesto para que se aproximasse em silêncio.

Para além das giestas e ramos onde se acoitavam, existia uma enorme clareira de mato rasteiro, onde se arrastava um pequeno ribeiro, que se tornava um colosso com as chuvas invernais. Eles chamavam-lhe a praça dos recos bravos, pois, normalmente, viam-se imensos por ali. Grande parte da clareira estava ocupada pelo que parecia ser uma imensa, luminosa e fumegante casa sem janelas. Havia forte emanação de calor a partir da inusitada construção.

Quando o Patranhas ia manifestar o seu espanto, o Zangão voltou a gesticular para que fizesse silêncio e apontou para o lado direito, onde estavam quatro pequenas pessoas, vestindo o que parecia ser uma roupa cinzenta, que os cobria da cabeça aos pés.

Os elementos do pequeno e estranho grupo gesticulavam entre eles, apontando o céu e emitindo assobios e estalidos. Com o que parecia um pequeno graveto luminoso, um deles começou a escrevinhar em pleno ar; o extraordinário, é que os gatafunhos apareciam e ficavam estáticos na frente dele. Um outro, apagava alguns símbolos e substituía-os, numa aparente correção, enquanto tagarelavam animadamente.

— Aquela porcaria pode valer uma pipa de moedas! — Sussurrou o Canhoto, olhando espantado para os outros dois.

— Vamos botar-nos a eles. — Sentenciou o Zangão. — Aparecemos-lhes de três lados diferentes. Eu quero uma caneta daquelas, como não sei escrever, pode ser que com ela não seja preciso.

— Mas… já viste? — Observou o Patranhas, pouco animado. — Eles são tão estranhos… que tipo de bicho ou coisa são eles?

— São de fora, que queres? Não podem usar os paramentos que quiserem? — Simplificou o Zangão, sussurrando. — Por mim, podiam vestir a albarda do cavalo, ou a sotaina do prior. — E continuou como quem fala com crianças. — Aparecemos; tu e o meu irmão apontam-lhes as pistolas, eu dou uma barduada ou duas, se for necessário, pegamos o que queremos e chispamos daqui para fora. Agora vamos!

— Xico. — Também Tone estava preocupado. — Aquilo parece mesmo bruxaria…

Enquanto estão neste debate, um dos estranhos pega num pequeno retângulo e começa, como que olhando através dele, efetuando um semicírculo em volta da sua localização. Quando fica alinhado com a posição em que se encontravam os nossos assaltantes, pára e chama o companheiro com um gesto. Os dois olham pelo retângulo e depois sem ele. Os três amigos perceberam que tinham, de alguma maneira, sido detetados.

— Tem de ser agora, já! — Ordenou Xico erguendo-se e caminhando temerariamente na direção dos estranhos, de varapau em punho.

— Maldição! — Exclamou o Canhoto, erguendo-se também, mas engatilhando a pistola.

— Lá vamos nós arranjar problemas por causa deste torgueiro! — Gemeu Zé, seguindo os companheiros.

— Santa manhã, amigos! — Exclamou o Zangão para os quatro surpreendidos estranhos. — Tendes aí uma casa muito bonita.

— E também umas coisas interessantes. — Complementou Tone. — Vamos aliviar-vos do peso delas.

Os símbolos flutuantes desapareceram e os estrangeiros cinzentos começaram a gesticular e a emitir os assobios e estalidos entre eles, apontando os recém-chegados.

Percebendo a ameaça, o que estivera a escrever no ar, fez um pequeno gesto com a "caneta" e as pistolas dos dois assaltantes saltaram-lhes das mãos e colaram-se ao chão milagrosamente. O mesmo caminho seguiu o punhal do Canhoto que, no trajeto, cortou o pedaço de couro que lhes servia de cinto, deixando-o literalmente com as calças na mão. Não aconteceu o mesmo ao Patranhas, porque o cinturão era mais resistente e ele conseguiu livrar-se da faca irresistivelmente atraída para o solo. O Zangão viu-se de repente o único com uma arma e carregou sobre eles soltando um chorrilho de palavrões.

Outro dos cinzentos conseguiu, do que parecia uma mão vazia, atirar uma rede de fios finíssimos, que crescia à medida que voava na direção do atacante. A teia caiu sobre o assaltante e colou-se fortemente aos braços e às pernas fazendo-o cair.

Com o elemento mais forte imobilizado, o Patranhas e o Canhoto perceberam que precisavam de uma nova estratégia. Após uma fração de segundo de hesitação, fugiram para o mato.

O cinzento que atirara a teia, obviamente o chefe, fez um gesto aos restantes, que saíram a correr atrás dos fugitivos.

— Solta-me desta merda, espantalho! — Gritava o Zangão debatendo-se.

O chefe ignorava-o. Olhava para o pequeno retângulo com que os localizara e emitia os ruídos da sua fala, dando instruções aos companheiros.

— Quando me soltar desta bosta, vai levar tantas… — Insistia o Zangão.

O cinzento dignou-se a deitar-lhe um olhar do seu rosto inexpressivo, que quase não tinha nariz entre os enormes olhos negros e cuja boca era pouco mais do que uma fissura sem lábios. Apontou-lhe a palma da mão e saiu outra das teias de aranha, mais pequena, que se colou na cara do furioso Xico. Com a mão esquelética de quatro dedos, compôs a cola sobre a boca do prisioneiro, de forma a reduzir os seus gritos a irados grunhidos. Após isso, ergueu elegantemente a mão atravessada sobre a sua própria boca, numa caricatura do sinal de silêncio. Depois regressou ao acompanhamento da caçada.

Não tardou que os três cinzentos regressassem com os dois aterrorizados amigos, o Canhoto ainda a segurar as calças. Mas é nesse momento que se dá a reviravolta; o furioso Zangão está a conseguir soltar-se das teias que o prendiam. Os incrédulos cinzentos olham para o homem a cortar os fios com uma faca.

— Vocês estão tão, mas tão f**! — Exclamou Xico empunhando a arma. — Isto! — Exibiu triunfalmente. — É uma lâmina de osso, não de metal!

Mas mesmo assim, orgulhosamente, colocou a arma no cinto e pegou no bordão.

— Agora vou mostrar-vos com quantos paus se faz uma canoa! — Gritou Zangão começando a perseguir os apavorados cinzentos, que emitiam assobios aflitos.

Depois de uma curta, mas intensa perseguição, onde eles conseguiram furtar-se por pouco aos golpes de varapau, os quatro estranhos conseguiram reunir-se junto da estrutura e uma luz azul envolveu-os.

As pauladas de Xico estouravam ruidosamente sobre a luz azul, mas não conseguiam atingir os cinzentos, que mesmo assim se encolhiam de medo.

Tone e Quim, finalmente se recuperavam do medo e, vendo as criaturas encurraladas, atiravam-lhes com o que podiam, embora tudo fosse repulso pelo halo azul. O chefe das criaturas parecia escrever febrilmente no retângulo que já antes usara.

Por fim, abriu-se uma porta atrás dos cinzentos, de onde provinha uma fortíssima luz branca e eles correram de imediato para ela. Assim que a porta se fechou, o azul que os envolvia desapareceu e o Zangão conseguiu aproximar-se estrutura. Estranhou não ser metal nem madeira, nem nada que reconhecesse, mas era sólido o suficiente para o seu bordão e ele usou-o por várias vezes.

— Saiam daí, seus vassouros, venham cá para fora! — Gritava Xico. — Covardes!

Repentinamente, toda a estrutura ficou envolvida pela luz azul e os três amigos foram projetados para trás com violência. De seguida levantou voo silenciosamente e desapareceu em segundos no céu azul.

— Eu não disse que era bruxaria? — Gemeu o Canhoto sentado no chão. — Escapamos de boa.

— Escapamos? — O Zangão olhou para o irmão. — Eles é que nem sabem do que se safaram! Estiveram por um pelo de levar um chuveiro de barduadas, que tão cedo não esqueceriam!

— Este raivoso do catano! — Exclamou o Patranhas. — Está sempre a meter-nos em alhadas!

— Raivoso? — O Zangão ergueu-se com o varapau em riste. — Seu aldrúbias canastrão! Olha que eu…

— Lá estão eles outra vez! — O canhoto levantou-se e virou costas aos dois amigos que discutiam acaloradamente.

 

 

(Nota do autor: Este acontecimento deu-se algures no século XIX, mas acredito que, por causa dele, são pouco vulgares em Portugal os fenómenos envolvendo extraterrestres ou OVNIs)

Manuel Amaro Mendonça






quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Abacaxis

            

A 6ª C virou meu xodó. Não sei bem por quê. Era mais atrasada e mais difícil que a A e a B. Mas os alunos se afeiçoaram a mim, e eu a eles. Esta professora inexperiente foi se aproximando da turma ao longo do ano. Eleita conselheira, me tornei, pouco a pouco, confidente, psicóloga, madrinha, amiga. O bem-querer era recíproco.

            — Tem remédio pra cólica na sua bolsa, professora? Me empresta? Minha mãe não quer comprar pra mim.

Diploma fresco, não mais estagiária nem contrato temporário, mas servidora devidamente empossada, lotada numa escola pública de primeiro grau de Ceilândia, cidade periférica de Brasília.

Quando o ano letivo começou pra valer, me pesavam o medo, a insegurança e a preocupação da responsabilidade. E as expectativas foram logo dissolvidas por assombros novos.

— Me ajuda aqui, professora. A Marina tá tendo um desmaio.

— A pressão deve ter caído. O teto de zinco desta sala cozinha os miolos de qualquer um.

Interessante como, depois de tanto tempo, ainda me lembro de alguns rostos, nomes, fatos, surpresas boas e sobressaltos da estreia.

— Professora, acode aqui. Seus alunos estão se matando.

— Socorro! Polícia! Alguém chama a polícia. O André tá com uma faca no pescoço do Pedro. Parem essa briga agora, soltem, senão vão expulsos.

Assumi três turmas de Língua Portuguesa. — Por que vocês insistem em acentuar melancia, substantivo e abacaxi? Que coisa! Essas palavras não levam acento.

Tirei de letra a gestão da matéria, a elaboração das provas, a correção das tarefas, o preenchimento dos malditos diários.

— Puxa. Revisamos a matéria tantas vezes, e as notas foram tão baixas...

Mas descobri, rapidinho, que minhas cordas vocais não valiam muito, que minha voz era impotente e que as doses de pó de giz magoavam a pele e o sistema respiratório. Meus braços doíam, moídos de tanto preencher o quadro-negro.

Eu descascava abacaxis em exercícios do livro didático: vocábulo polissílabo oxítono; classe gramatical substantivo masculino plural; sintaticamente núcleo do sujeito simples, blá-blá-blá... Assim, aprendi também que não bastava ficar repetindo gramática, redação e literatura para aqueles adolescentes de problemas tão maduros. Na verdade as regras do Português eram o de menos.

— Professora, o pai chegou bêbado em casa e bateu feio na minha mãe, mas ela diz que não vai denunciar.

— Não quiseram atender minha irmã. Ela rodou a cidade inteira atrás de hospital. Aí, quando finalmente resolveram atender ela, em Taguatinga, a coitada estava tão exausta, que morreu no parto. Vou cuidar do meu sobrinho. Vou virar mãe dele.

Não eram muito assíduos, mas se alegravam e pelo menos nunca faltavam às quintas-feiras, quando o lanche era galinhada. Eu servia seus pratos dentro de sala, dosando a concha, repartindo irmãmente entre eles o arroz e o frango, e não sobrava nada no caldeirão.

— Na sua casa tem panela cheia todo dia, professora?

— Tá precisando de diarista? A patroa dispensou minha mãe.

Dentro de sala, eu procurava respeitá-los e apresentar-lhes qualquer fantasia, qualquer ficção que me parecesse mais bonita que suas vidas reais. Fora de sala, porém, as coisas de gente sofrida continuavam dominando.

— Pegaram meu irmão. Mas tenho certeza que ele é inocente. Quem tá traficando é o meu cunhado, professora. Aquilo não vale um jiló podre.

Era o reinado da falta de carinho, da falta de víveres, da inexistência de pequenos luxos. O predomínio do excesso do alcance da morte (por doença, falta de opção, vício, negligência da família e do Estado)... Eu tinha 20 e poucos; eles, entre 12 e 16 anos. Algumas violências que eu desconhecia foram eles que me apresentaram.

— Minha prima tá grávida. Ela é da minha idade. Só tem 13 anos, professora. Parece que é do marido da minha tia, mas minha tia não acredita na palavra da própria filha. Não quer perder o macho.

— Faz três anos que meu pai não aparece nem deposita pensão. Será que ele esqueceu a gente? Será que ainda tá vivo?

Essa nossa proximidade facilitava algumas coisas e dificultava outras. Como sabiam desse meu dengo especial por eles, muitas vezes não me levavam tão a sério quanto eu gostaria. Quando eu queria dar uma bronca amarga, por conta das notas baixas ou das tarefas mal feitas, alguns alunos ignoravam, outros tomavam como afago. Quando a conversaiada virava descontrole, eles me chamavam para dentro da rodinha, contavam intimidades ou me pediam conselhos:

— Minha mãe falou que, se meu pai descobrir que tem filho gay, manda o infeliz pro inferno.

— Será que eu beijo o garçom, professora? Ele tá doidinho por mim. Diz que já tá quase separando da mulher.

— Sorte tem o meu vizinho, que tomou comprimido e morreu dormindo.

Não havia monotonia na 6ª C. Quando entrei na sala para a última aula de sexta-feira, eles já estavam lá, em volta da minha mesa. Eu não sabia, mas estavam preparando uma surpresa para o meu aniversário.

Devem ter arrecadado os ingredientes numa vaquinha. Arrumaram forro branco, balinhas de coco enroladas em papel colorido, vaso com rosas vermelhas subtraídas de algum jardim. Pegaram pratinhos e garfos na cantina, com a bela e gentil Dona Clarice (— Ela devia se chamar Dona Escurice — costumavam dizer), trouxeram refresco e o bolo de dois andares. Aquilo era um acontecimento. Bolo confeitado, cobertura de glacê cor-de-rosa e cerejas. Convidaram a diretora e mais alguns professores da turma. Nunca os vi tão felizes.

Entregaram-me um cartãozinho ilustrado pela desenhista da turma, além de pequenas frases carinhosas escritas à mão, cheias de erros de grafia e sem pontuação, assinado por todos. Bateram o parabém, o com quem será e se acotovelaram, numa fila torta, para receber um pedaço do bolo.

— É de abacaxi, professora. Foi minha mãe que fez — disse a representante.

Quando parti a primeira fatia, no entanto, senti um cheiro bem ruim. Po-dre – adjetivo singular dissílabo paroxítono... O recheio do bolo tinha azedado.

Maria Amélia Elói





terça-feira, 25 de agosto de 2020

Uma nova casa para o Homem


A comunidade era constituída por doze vizinhos. Habitavam uma encosta suave e viviam de vegetais e de alguma criação. A água era a grande riqueza de que todos careciam. Em estações húmidas, uma única nascente alimentava a várzea. Escorria para uma charca a céu aberto e represava, enquanto a escuridão era vagamente atenuada pela luminosidade espetral que se escapava da imensa bola do planeta vizinho. Em tempos secos, era preciso pôr bestas potentes a puxá-la da fundura do poço adjacente à presa. Quando o Sol se fazia ver, a temperatura subia um pouco e era tempo de libertar a água retida. Seguia por uma levada ao longo de sete ou oito nek, onde se bifurcava. Como se bifurcava em cada um destes ramais secundários e nos seguintes, até atingir as doze leiras dos moradores.
A água era pouca, era sempre pouca. Nunca passou pela cabeça de ninguém um sistema de rega automática — um fluxo contínuo de água para todos ao mesmo tempo. Havia que compartilhá-la à vez. Um único vizinho recebia toda a água que a represa vertia e conduzia-a para a sua plantação. Durante uma lonk completa. Não eram precisos mecanismos complicados para medir o tempo; uma rocha a pique com doze furos fazia a medição com o rigor desejado. Cada vizinho sabia que, quando a luz solar batesse no fundo do seu buraco, era tempo de cortar a água ao vizinho anterior e conduzi-la para o seu campo. Quando a sua vez estava próxima, postava-se a vigiar a pedra da rega. Depois, partia em corrida até ao ponto de corte. Cada gota perdida para o vizinho constituía uma perda para as suas plantas.
Goji andava desconfiado. As tufae de Andi cresciam mais e com mais vigor que as suas. Goji suspeitava que o vizinho trapaceava o sistema. Talvez abrisse a água para si, em período de defeso comum. É certo que, mesmo que não houvesse sol, quando o olho vermelho do grande planeta Zois se mostrava, havia luminosidade suficiente para trabalhar no campo. Embora esse fosse um interdito aceite por todos. Mas há sempre pecadores. Eram conhecidos casos antigos de vizinhos que tinham violado a proibição e tinham sido violentamente sancionados. Talvez houvesse novo pecador na comunidade.
No período carmim seguinte, Goji saiu para os campos. A várzea de Andi estava deserta, mas esplêndida de viço, naquele lusco-fusco rosado. E que bem organizada estava! Talvez a rega nem precisasse de acompanhamento. Goji calculou que aquelas tufae teriam quase o dobro de altura das suas. Admiráveis. Lindas. Pareciam ter sido regadas há poucas lonk. Dirigiu-se para a distante pedra da rega ao longo da vala que abastecia Andi. Umas passadas dadas, percebeu que o rego parecia bem mais seco que a várzea. Voltou atrás e, aguçando o olhar, pôs-se a sondar todo o perímetro do campo de Andi. Nessa altura, uma sombra escureceu por momentos o solo. Voltou-se e avistou uma massa escura e arredondada que cruzava lentamente o céu em frente do olho de Zois, mas que desapareceu daí a pouco. Goji não conseguiu dizer-se o que seria. Sentiu um arrepio. Tinha as suas superstições. Mas o empenho em descobrir o que se passava com a várzea de Andi era mais forte. Pouco depois, descobriu um indício prometedor: um estreito buraco no chão, no limite do campo. Podia chegar água por ali. Mas de onde vinha? E quando?
Daí a várias lonk voltou o sol. Goji batucou fortemente o pote sonante — uma enorme talha de barro seco —, a pedir reunião da comunidade. Iniciada a assembleia, expôs as suas suspeitas e as razões para elas. Começou por ver censuradas as suspeitas e foi acusado de má vizinhança. Convencido dos seus motivos, reafirmou e enfatizou a questão. O grupo acedeu por fim a visitar a várzea de Andi e a verificar o buraco suspeito. O caso revelou-se grave. Depois de sondagens e escavações, ficou a perceber-se qual o esquema fraudulento de Andi: um tubo captava furtivamente um diminuto fio de água no início da levada, de cada vez que a represa abria, e era armazenado numa cisterna subterrânea. Quando se iniciava o período de escuridão e ninguém andava pelos campos, Andi abria essa cisterna para a sua várzea, que estava preparada para uma distribuição uniforme automática.
A descoberta gerou uma violenta resposta do grupo defraudado. O visado ficou lívido ao perceber que tinha sido exposto e as consequências que daí adviriam. Logo ali lhe tolheram os membros e arrastaram-o para a pedra da rega. Um julgamento sumário ditou ser a ela amarrado e açoitado com doze vergastadas de cada um.

A expedição a Europa não era a primeira. Várias outras tinham explorado os satélites de Júpiter, com especial atenção para os que apresentavam água. A de 1989 tinha sido especialmente fértil em dados geológicos, mas agora — 2022 — as preocupações eram de outro tipo: avaliar as condições de habitabilidade, quer de Europa, quer de Io, Ganimedes e Calisto, e iniciar a instalação da primeira colónia terrestre. Os outros satélites não pareciam ter dimensão nem características propícias para uma colonização em massa.
Seis cientistas rumaram a Júpiter — viagem dura, nunca tentada por missões tripuladas. Cinco anos durou a viagem, com rotação de períodos de semi-hibernação induzida. Por fim, à aproximação ao gigante gasoso, todos assumiram a vigília. Depois de umas semanas de órbitas a Júpiter, quatro partiram num módulo intermédio para orbitar Europa e só depois três fizeram a descida numa sonda independente. Todo o cuidado era pouco.
Pousaram a sonda numa zona predefinida, cujos registos indicavam presença de água. Havia esperança que essa provável água tivesse criado condições para o aparecimento de vida, ainda que apenas vegetal ou pré-vegetal. A zona situava-se na face sempre voltada para o planeta gigante, mas que naquela altura não estava iluminada pelo sol. Em coordenação com o membro que ficara em órbita do satélite, os cientistas iniciaram medições e registos. As condições apresentavam-se prometedoras: alguma água, sim, temperaturas baixas, mas não impeditivas de vida, algum oxigénio não biológico. Uns dias jovianos depois, decidiram a primeira saída.
Um casal de cientistas saiu, rodeado de cautelas. A gravidade é baixa, exigiu alguma adaptação. Durante uns dias, fizeram pequenas explorações locais, limitadas em tempo e extensão. Parecia possível a existência de vida. Redobraram cuidados, para perturbarem ao mínimo o que quer que pudessem encontrar. Aos poucos, alargaram a extensão da área explorada. Então, certa vez, ao atingirem o limiar de um vale, confirmaram emocionados o que constituía o objetivo daquela viagem: a existência de vida em Europa. Pequenas áreas planas mostravam-se cobertas do que parecia uma viçosa penugem vegetal. Claramente com acesso a água. Naquele momento de aperto na garganta, só os olhares brilharam, no isolamento relativo dos estanques fatos de exploração. Como conseguiram, comunicaram o achado à cientista, que, na sonda, atenta a uma miríade de pequenos ecrãs, já tinha intuído o que os companheiros tinham encontrado. Logo depois — quase os pisaram —, acreditaram estar perante uma incipiente forma de vida animal: uma dúzia do que pareciam minúsculos pulgões movimentava-se em volta de um grão de areia pontiagudo, ao qual um deles parecia amarrado. Cautelosamente, efetuaram registos visuais, bioquímicos e físicos preliminares, cientes do momento histórico que viviam. Umas horas depois, já a bordo da sonda, lançaram, solenes e orgulhosos, a novidade em direção ao Sol.
Hoje é um grande dia para a Humanidade! — proclamou a bióloga Jennifer, enfaticamente. Depois de uma pausa adequada ao momento, continuou: — Europa possui vestígios de água e revela-se propício à vida. Não devemos esperar encontrar formas de vida inteligente, mas registámos formas vegetais e animais, claramente, elementares... — nova pausa. — A colonização está ao nosso alcance! Um pequeno satélite nos confins do Sistema Solar, uma nova casa para o Homem!
A resposta da Terra, a mais de setecentos milhões de quilómetros, chegou hora e meia depois: um grito em uníssono da enorme equipa em rede protegida por máscaras. Em direto para todos os meios de comunicação mundiais. A ecoar em todos os lares em confinamento social. Um mesmo sentimento de comunhão fraterna e de esperança unia todos os homens. Não havia tempo a perder.

Joaquim Bispo

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Este conto foi um dos 22 selecionados para compor a coletânea “O Espantoso Mundo da Antecipação” da Elemental Editoração, Brasil, 2020.

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Imagem: Henri Matisse, O ramalhete, 1953.
Museu Hammer (Universidade da Califórnia), Los Angeles.

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