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domingo, 19 de janeiro de 2020

Estigmas



Talvez não devesse ter suscitado isso. Tenho consciência da desordem que provoquei. Mesmo que entalado por anos, não podia ter partido para a irresponsabilidade – assim como ele sempre o fez. Fiz um propósito, de não me misturar com a laia dos Borges. Não sou desse sangue sujo. Renego, veementemente. Lutei toda a minha vida para sair do estigma de ser filho de quem sou; e ser um igual. Agora, me sinto como um coco seco boiando em um rio caudaloso. Não sei se bem ou mal.
O coração é um poço de desejos, de contrações irresistíveis, à procura de luz. Fui me esgueirando, para sobreviver, desde quando mãe morreu. Silvia. Silvia Brandão. Uma mulher que veio e partiu do nada. Sem admitir, claro, o velho ficou em pé de guerra com a consciência; um querer-dominação velado, doentio, criminoso. Mas, antes disso, fez mãe sofrer demasiado. Quem sabe, e é esse instinto que me atormenta, não foi ele quem a matou de desgosto? Simplesmente a desprezou. Era a criada. Não, burro de carga mesmo. Sem voz nem vez. Foi angariando a dor; avultando em seu peito, a ponto de arfar a morte, pouco a pouco.
Jerônimo mexia com “acertos”; assim qualificava. Mãe já se afobava por isso, palavras de tia Luzia. Eu, muito pequeno, ainda assim sentia esse rarear de vida. Abafava-me, contorcia-me. Éramos dois. Jerônimo, do mundo; dos Borges. Foi num desses acertos que armou a tocaia. Resolveu apagar um antigo parceiro, o Dionísio, com um tiro seco na nuca, dentro de nossa casa. Falava para quem quisesse ouvir que mãe era puta, safada; que seria a próxima; que não olhasse para o lado, se quisesse estar viva. Condenava-a por ter gerado aquele mal-estar. Para Jerônimo, mãe tinha um caso com Dionísio. Talvez soubesse que não tinham nada; mas, como desejava suprimir a concorrência nos serviços, e para deixar vivo o aviso à mãe, decidiu eliminar o sujeito.
Frágil como um beija-flor – aliás, cheirava a rosas; leite de rosas, mais especificamente –, mãe amofinava com o tormento e com a violência da chegada de Jerônimo. Entrava, porta adentro, para dizer, aos gritos, que um dia ia pegá-la de surpresa; que se preparasse, que o coro ia comer; que a esfolaria viva e deixaria a carniça para os urubus comerem. Nas investidas, dava-lhe golpes fortíssimos, com o que aparecesse pela frente, panelas, cadeiras e mesas; que também infligiam a mim, eu com cinco ou seis anos.
Vi mãe se despregar da vida, literalmente. Não tendo acesso a médico, ou a qualquer tipo de assistência, prisioneira que era, sem conseguir respirar, por seguidas gripes, problemas de respiração, e uma progressiva e severa tuberculose, confirmada depois pelo laudo cadavérico; sem poder ver sequer um raio do sol, respirar ar puro, agonizou nos meus braços, enquanto lhe dava água com bolacha, pensando eu, ingênuo, que padecia de fome ou fraqueza.
Dia 12.05.2008 mãe morreu. E Jerônimo sentiu por não ter pegado ela no flagra. Vociferou que ela fugia, arredia, “de suas obrigações”. Chamou-a de covarde, ingrata. Enquanto eu ouvia as barbaridades, me penitenciava por não ter feito mais, sem entender. O velho ainda tentou me seduzir para o poder dos Borges; que eu seria famoso e respeitado; seguiria a sina dos grandes homens da região; que era um tratado que eu deveria respeitar; que não iria me forçar, mas que tinha um prazo, quinze anos, idade em que saberia empunhar faca, revólver, espingarda. Veio tia Luzia e me resgatou, escondido numa mala, do destino assombroso que se desenhava. Fomos embora para São Paulo.
O velho hoje é evangélico. Disse que pediu perdão a Deus, “que é Pai misericordioso”. Que eu, humano, devia perdoar. Que eu não devia guardar rancor de um homem maluco, criado no meio dos Borges; sem alternativa, teve de ganhar a vida na justiçagem. Que eu o perdoasse para ter paz. E aí, justo nesse ponto, quando quis usar de suas artimanhas para me amarrar, sentir remorso, estourei o horror que era ser seu filho; ter seu sangue. Que ele havia matado minha mãe de desgosto; de seguidas moléstias, físicas e da alma. Que nos tratou como animais, enquanto ficamos sob seu jugo. Que ele merecia morrer da morte mais penosa. Que eu não teria nada a ver com isso. Saí, e o velho continuou falando; resmungando baixo, cara de coitado, soturno.
Poucos dias depois, a notícia: Jerônimo foi tragado para as profundezas do inferno. Viveu e não deu conta de nada. Nunca foi penalizado pelos seus crimes, imensos. Houve a condescendência de um Estado falho; que nunca chegou àquele lugar, no interior do interior do Ceará. Abandonou-nos à sorte. Todos sabiam, mas ninguém se metia. Tinham medo, talvez. Mais provável que não estivessem nem aí. Admitiam uma suposta profissão de “justiceiro”. Seguro, o tinhoso levantava ares de poder, provocava respeito. Nem padre, nem delegado, nem prefeito, nem nada. Todos aos seus pés.
Falei tudo e talvez não devesse ter falado. Mas não me penalizo mais. Pelo menos me esvaziei. De tudo, restou o cheiro de rosas, que hoje me guia pelos caminhos incertos da vida; longe, muito longe dos estigmas do passado.





sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A foto embaixo do armário








           Achei embaixo do armário uma pequena foto. Eu estava muito novo. Olhar essa foto me fez triste pelas flores que deixei de apreciar e pelos pores-do-sol que deixei de ver. Ainda assim, guardo a mesma inocência de gostar de flores e a ausência de ver o crepúsculo que ilumina o jovem que não sou.





Do livro A Estante Deslocada









quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Acalanto de passagem


Escultura: Johnson Tsang


A profissão, escolheu cedo. Nenhum acaso, nenhuma hesitação. Apenas um desejo de estar lá. De estar lá inteira, com mãos de afagos, lágrimas honestas. E um dó imenso daquele silêncio obrigado, daquela hora repleta de ninguém, do frio permanente. Quis ser o que era. Tinha de ser. Foi feita para a despedida, para o momento em que os remorsos e a saudade e todos os duelos tramados entre razão e emoção se tornam inúteis.
Quem mais entenderia o nada como ela? Ela que sempre foi nada. Um cisco escondido atrás das portas. Tão leve que sob o seu corpo se recusavam a ranger as tábuas velhas do soalho. Ela e sua presença ignorada. Sem chamados, sem vozes de afeto, sem abraços de carinho, sem direito a querer, doer, gritar. Quem mais enxergaria o nada? Esse não ser que ainda assim se desconforma. Esse não ter que ainda assim cobiça. 
Por isso se entregava a eles. Para lhes dar o impensado: atenção. Uma ou duas carícias leves no rosto frio, na cabeça fria, nas mãos postas em entrelaçamento de oração. Tivessem ou não fé. Para lhes recitar um monólogo curto de acalanto. Um acalanto de passagem. 
Ela escolheu. Em cada ida ao quarto apertado e sem janelas da avó doente, esquecida sobre a cama suja. Em cada poço escuro que viu no fundo dos olhos da mãe traída, abandonada. Escolheu que morrer devia ser sem solidão. 
Quando começou na profissão de preparar os mortos, ninguém ligou. Não houve desprezo, nojo, deboche. Ela não valia opinião. Não rangia tábuas. Então, ficou sozinha com o primeiro corpo. Depois com outro, e mais outro, e mais tantos que os anos trouxeram. Iguais em sua última presença visível. Nus. Marcados. Solitários. 
Imaginava-os em medo, angústia, ansiedade. Espíritos, energias, matérias, o que quer que fossem. Presos ainda à tensão da vida. Procurando por um rosto conhecido na sala impessoal com cheiro de substâncias fortes. Buscando suas gentes de afeto. Não havia. Ali, só mesmo ela. Para limpá-los, vesti-los, pôr-lhes um terço entre os dedos, pentear-lhes os cabelos. Para fazê-los se sentir um pouco mais que inquilinos em vias de despejo. 
Ela escolheu.







quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Laços Inquebráveis



        
A noite estava fria e tempestuosa. O vento agitava fortemente os ramos das árvores, que dançavam vigorosamente e se vergavam quase até se quebrarem. As nuvens corriam velozmente pelo céu, ora ocultando a Lua ora libertando-a, o que dava origem a um grotesco e fantasmagórico jogo de sombras sobre o solo. As inúmeras folhas caídas que juncavam os passeios e os relvados rodopiavam em espirais fantásticas, num frenesim contínuo e sem sentido, parecendo, por momentos, quase vivas. Sentia-se que a chuva não podia andar longe e que, quando começasse a cair, seria um autêntico dilúvio. No horizonte distante um raio riscava por vezes o céu tenebroso, refletindo-se nas escuras e ameaçadoras nuvens, mas silenciosamente, como se achasse que a noite já era demasiado ruidosa com o assobio avassalador do vento.
         Escudada por detrás dos espessos e pesados cortinados de veludo vermelho escuro, ligeiramente entreabertos, Sílvia perscrutava fixamente a escuridão que envolvia o enorme jardim e os campos circundantes, com uma atenção concentrada e sem interrupções. Já há horas que observava a aproximação da tempestade. Esperava de instante a instante assistir ao desabar da chuva, presenciar o relampejar dos relâmpagos, escutar o estrépito dos trovões. Mas só o vento se apresentara, forte, em rajadas repentinas e violentas seguidas de acalmias momentâneas.
         Toda a sua atitude era de expectativa, como se aguardasse a qualquer momento a chegada de alguém, que tardava. O seu corpo, tenso, mantinha-se ereto e rígido, com o braço direito ligeiramente erguido e a mão crispada sobre o cortinado. O vestido, longo, negro, de corpo justo e saia caindo em pregas moles, acentuava ainda mais a esbelteza esguia do seu corpo, contribuindo fortemente para lhe conferir aspeto hierático de uma estátua antiga. Na face imóvel e pálida só os grandes olhos cinzentos se moviam, relanceando sem parar de um lado para o outro, como se receassem perder algum pormenor da cena exterior.
         Por detrás dela a sala estava bastante escura, apenas iluminada por um pequeno candeeiro de mesa, coberto com uma pala escura, e pelo fogo quase apagado a um canto da grande lareira de pedra lavrada. Era um compartimento quase quadrado, amplo, de paredes escuras e móveis pesados e ricamente decorados. Os numerosos objectos delicados, dispostos pelas várias mesas espalhadas pela sala, o tapete espesso e macio que cobria a quase totalidade do soalho e os inúmeros quadros nas paredes denotavam uma certa opulência, embora um pouco gasta e antiquada. O aspeto geral era um tanto ou quanto claustrofóbico, devido às cores escuras e ao facto de as janelas estarem totalmente tapadas com cortinados, que chegavam até ao chão, e a porta fechada.
         Lá fora o vento aumentava cada vez mais de intensidade, soprando agora de modo contínuo, embora com grandes flutuações de direcção e ruído. A temperatura na sala baixara imenso, em parte devido ao apagar progressivo do fogo, prestes a extinguir-se, mas também por influência das condições exteriores. As janelas mal vedadas e a enorme chaminé deixavam penetrar o frio crescente de tão desagradável noite.
         De repente Sílvia estremeceu, parecendo acordar de um longo transe. Largou a cortina, voltou-se e pareceu, finalmente, aperceber-se da alteração sofrida pelo ambiente da sala. Com movimentos bruscos, mas decididos, aproximou-se rapidamente da lareira e acrescentou-lhe um pouco da lenha armazenada ao lado, remexendo as brasas com um belo atiçador em ferro muito bem trabalhado. Quando tudo ficou a seu contento dirigiu-se para um cadeirão em couro negro, muito gasto, colocado a um dos lados da lareira, e sentou-se, apoiando a cabeça numa das mãos. Parecia meia adormecida, completamente imóvel e de olhos semicerrados.
         O relógio bateu as horas, onze lentas e sonoras badaladas, que ecoavam na sala quase deserta. Ao extinguir-se o som da última um ruído novo vindo do exterior sobrepôs-se ao assobiar agudo do vento. Eram passos lentos, comedidos e pesados, que se aproximavam da casa ao longo do caminho em saibro. Sílvia ergueu bruscamente a cabeça mas deixou-se ficar onde estava. Parecia saber o que este novo som significava e ter decidido aguardar o desenrolar dos acontecimentos confortavelmente instalada. Quem a visse neste momento nunca poderia imaginar a atitude expectante e ansiosa que apresentara até há bem pouco tempo, nem as horas que passara espiando esse mesmo caminho por entre os cortinados. Limitou-se a levar por momentos a mão direita ao cabelo, como para se certificar de que tudo estava em ordem, voltando depois à imobilidade anterior.
         Os passos deixaram de se ouvir mas passados alguns minutos a maçaneta da porta da sala rodou sem ruído. A porta abriu-se devagar e com uma certa dificuldade. Sílvia levantou-se, então, com um salto brusco e como que surpreendido, precipitando-se para a personagem que acabara de entrar. Era um homem alto e encorpado, de ombros um tanto ou quanto curvados. Estava envolvido num grosso casacão, de gola levantada para lhe proteger as orelhas, e tinha um espesso gorro de pele de raposa enfiado na cabeça. Mesmo assim trazia consigo uma intensa sensação de frio, como se a tempestade que reinava no exterior tivesse aproveitado aquela oportunidade para penetrar à vontade na sala que lhe fora até então vedada.
         Sílvia abraçou-se-lhe ao pescoço com uma sofreguidão exigente e ávida. Parecia tentar extinguir em segundos longas semanas, quiçá meses, de ausência e de saudade. Quando finalmente se soltou, ajudou-o desajeitadamente a retirar os pesados agasalhos que trazia, atirando-os descuidadamente para cima da cadeira mais próxima, que estremeceu com o peso desacostumado.
         Pode-se então ver que o visitante já não era novo, havendo entre ele e Sílvia muitos anos a separá-los. Tinha os cabelos bastante grisalhos, um pouco longos sobre o pescoço, e um pequeno bigode cuidadosamente aparado. Apesar das pequenas rugas que lhe sulcavam a testa e as faces o seu aspeto denotava vigor e energia. Os olhos, contudo, tinham uma expressão de cansaço e sofrimento, como se esta visita tardia fosse para ele um motivo de preocupação e desgosto em vez da ocasião feliz que a atitude da mulher denotava.
         Aproximaram-se os dois da lareira e o homem começou a aquecer metodicamente as mãos enregeladas. De pé a seu lado, Sílvia devorava-lhe os traços com os olhos, parecendo comparar mentalmente o que via com algo meio esquecido que trazia de há muito na memória. Passado algum tempo foram sentar-se num pequeno sofá de dois lugares, colocado mesmo em frente do fogo que agora crepitava com fulgor. Instalados lado a lado, muito juntos e de mãos dadas, assim permaneceram durante longo tempo, sem falarem e sem se olharem, como se o que existia entre ambos estivesse muito para além de simples gestos ou palavras.
         Tinham-se conhecido muito jovens ainda. Ela era a única descendente de uma antiga e prestigiada família um tanto ou quanto arruinada e que vivia isolada na sua bela propriedade. Quase não tinham contactos com os restantes habitantes da região, bastando-se totalmente a si próprios não tanto por soberba mas mais por costume ancestral e acanhamento. Durante gerações a família fora tão numerosa que não havia necessidade de procurar companhia e convívio fora dela. Quando os seus números se reduziram por causa de uma série de tragédias e desgraças era tarde de mais. Tinham perdido o hábito de estabelecer contactos com desconhecidos.
Sílvia era, por isso, uma criança solitária e estranha, que passava os dias dando longos passeios pelo imenso parque um pouco selvagem que rodeava totalmente a casa familiar, mergulhada em sonhos e fantasias inspirados pelos poucos livros de contos e romances que fora autorizada a ler. Vivendo num mundo de adultos com ideias bastante antiquadas sobre a educação adequada para uma rapariga, tudo ignorava do mundo que existia para lá dos muros da propriedade, mundo esse que aliás nunca vira. O pouco que ouvia dizer sobre ele também não era de molde a despertar-lhe a curiosidade ou o desejo de o explorar, pelo que vivia para ali encerrada sem mesmo disso ter consciência.
Ele pertencia a uma das novas famílias recém-chegadas à região por causa das indústrias ali instaladas após a construção da linha de caminho de ferro. Desde muito pequeno frequentara creches e escolas, convivendo com todo o tipo de crianças e adultos. De uma inteligência muito viva e possuidor de uma curiosidade insaciável, encorajado e incentivado pelos adultos que o rodeavam, o seu maior prazer consistia em partir à descoberta de coisas novas e desconhecidas. Fossem pessoas, livros ou locais, perante algo que descobria ou via pela primeira vez a sua satisfação era igualmente delirante.
Um dia de Verão em que, como de costume, partira à descoberta do mundo, decidiu percorrer até ao fim o caminho que seguia ao longo do muro da propriedade da família de Sílvia, circundando-a por completo e separando-a de modo efetivo dos campos de cultivo que a rodeavam. Já o tentara de outras vezes, mas por pouco tempo, pois o muro era tão alto que de fora apenas se avistavam os topos de algumas árvores, o que tornava o passeio muito pouco interessante. Desta vez, porém, decidiu persistir até acabar de o explorar. As férias iam a mais de meio e já esgotara os locais a explorar, as experiências a fazer, as pessoas a visitar, os livros a ler ou reler. Embora sem grande interesse sempre seria um passeio novo. E havia, ainda, a hipótese remota de conseguir avistar um dos misteriosos habitantes daquele lugar proibido, o que valeria, só por si, o cansaço e o aborrecimento da longa caminhada. As muitas histórias que circulavam sobre tão estranha família tinham despertado nele uma imensa vontade de os ver e estudar, quase como se fossem animais ou plantas exóticos e desconhecidos.
Durante uma boa hora caminhou sempre a passos largos, sem nada encontrar que lhe pudesse despertar o mínimo interesse. De um lado tinha o muro, que era totalmente liso e estava em muito bom estado, coberto aqui e ali de trepadeiras densas e antigas. Do outro, simples campos lavrados, planos e sem nada de diferente dos muitos outros campos daquela região. Já estava arrependido de ter iniciado tal projeto e a tentação de voltar para trás crescia a cada momento que passava. Só não o fez porque a ideia de largar uma exploração a meio e sem nada ter descoberto o enchia de desgosto e relutância. Mas sentia-se cada vez mais cansado e cheio de calor e de sede.
Tinha decidido parar no primeiro sítio propício para um bem merecido descanso quando deparou com um pequeno ribeiro que cruzava o caminho que vinha percorrendo. Este subia um pouco e a água passava-lhe por baixo, espartilhada por um cano largo que atravessava o muro e desaparecia para dentro da propriedade. Encantado com esta descoberta, saciou a sua sede e sentou-se apoiando as costas no tão detestado muro, mesmo junto ao ponto em que este era atravessado pelo cano.
Durante alguns minutos limitou-se a descansar, deleitando-se com a vista dos campos à sua frente e com o voo preguiçoso de uma ou outra ave cruzando os céus mesmo à sua frente. Mas a sua inquietação natural não lhe permitia ficar totalmente quieto durante muito tempo. Olhando em redor em busca de algo que o distraísse enquanto se recompunha do esforço despendido na longa caminhada apercebeu-se de que um pouco mais adiante havia uma falha no muro. Era um buraco de bom tamanho, situado rente ao solo, mas tão tapado por plantas silvestres que se não se tivesse sentado naquela posição nunca se teria apercebido da sua existência.
Cheio de curiosidade levantou-se para explorar melhor o seu achado. Tendo o máximo cuidado para não se arranhar afastou algumas das plantas e verificou que o buraco, de contornos irregulares, atravessava o muro de lado a lado. Através dele conseguia ver uma zona de árvores, bem afastadas umas das outras, e, para além delas, os muros brancos de uma grande casa. Era o tão desejado interior da propriedade, até aí vedado aos seus olhares curiosos.
Ficou parado durante alguns momentos, hesitando sobre o que havia de fazer. Entrar ou prosseguir o seu caminho? Lembrando-se, no entanto, de que sempre ouvira dizer que naquela imensa propriedade viviam muito poucas pessoas decidiu arriscar-se. Se fosse apanhado, tanto pior! A sua família era bem conhecida e respeitada na região, assim como a sua curiosidade e mania das explorações. Deste modo não poderia haver dúvidas quanto às suas intenções se fosse apanhado em propriedade alheia. Para dizer a verdade, o saber que iria fazer algo de proibido e, quem sabe, de perigoso, apenas serviu para lhe aguçar a vontade de examinar mais de perto aquele local, o único que não conhecia em toda uma vasta região.
Afastando cuidadosamente as plantas que lhe vedavam o caminho, rastejou através de tão providencial abertura, mas mais por espírito de precaução do que por necessidade: um adulto passaria à vontade, embora dobrado em dois. Uma vez do outro lado endireitou-se e olhou com intensa curiosidade para o espetáculo que se lhe deparava. O parque era muito belo, semeado de árvores frondosas e de flores de todos os tipos. Estava um pouco abandonado, com ervas a cresceram por todos os lados, o que só lhe aumentava o encanto um pouco selvagem, pelo menos aos olhos de um rapazito que não percebia o interesse que poderiam ter lugares demasiadamente arranjados e ordenados. O local por onde entrara ficava em frente de uma das alas laterais da casa, pelo que apenas se via, ao longe, uma parede lisa, cortada periodicamente por janelas pequenas e retangulares. Quanto a pessoas, não se avistava nem uma.
Um tanto ou quanto a medo decidiu afastar-se do muro e explorar um pouco mais aquele novo e maravilhoso local. Mas havia tantas coisas belas para ver que em breve se esqueceu da posição equívoca em que se encontrava. Correu, pulou, tocou em árvores, arbustos e flores com um enorme prazer e total descontração. Esquecera-se completamente de que não fora convidado para aquele local e que o melhor era não se demorar e não se distanciar muito do muro e do buraco por onde entrara.
Por isso assustou-se imenso quando viu um pequeno vulto surgir repentinamente à sua frente. Era Sílvia, que já há um bom bocado observava as manobras daquele estranho rapaz que tão inesperada e ruidosamente invadira os seus domínios, habitualmente tão desertos e silenciosos, e que decidira ser altura de lhe falar. A sua primeira reação foi fugir o mais depressa possível, mas não o fez de imediato, talvez por curiosidade em estudar um pouco a primeira pessoa que ali encontrava e que tanto desejara ver. Mas estava pronto a fazê-lo de um momento para o outro, sentindo a segurança íntima de saber que seria decerto capaz de correr muito mais depressa do que aquela criança que o defrontava. Sílvia era bem mais nova do que ele e tinha muito menos experiência de contactos humanos mas tinha a vantagem de se saber em sua casa e, portanto, dentro da razão. Conseguiu, pois, intimidar o rapaz durante o tempo suficiente para travarem conhecimento.
Ao fim de alguns momentos de conversa já se sentiam como velhos amigos. O rapaz estava habituado a falar com quem encontrava nos seus longos passeios, quer fossem conhecidos ou estranhos, embora fosse a primeira vez que invadia propriedade alheia o que não deixava de lhe causar uma certa insegurança nas maneiras e no falar. Quanto a Sílvia, embora receosa por natureza a novidade não lhe desagradava totalmente, pois vinha quebrar a monotonia das tardes sempre iguais e solitárias e da ausência total de outras crianças da sua idade com quem pudesse brincar ou trocar impressões ou ideias. Embora fossem muito diferentes no feitio e nos gostos em breve descobriram que gostavam de falar um com o outro. Ou seja, ele falou, contando-lhe mil pormenores dos seus passeios, família e amigos. Ela limitou-se a ouvi-lo com grande atenção fazendo uma ou outra pergunta ou comentário, mas sem nada dizer sobre a sua vida ou interesses. O que agradou a ambos.
Passado algum tempo de ameno convívio o rapaz lembrou-se que era mais do que tempo de regressar a casa, uma vez que ainda tinha um longo caminho a percorrer e aproximava-se a hora do jantar. Antes de partir, porém, combinaram encontrar-se de novo no dia seguinte, a meio da tarde. O rapaz preferiria um convite a sério que lhe permitisse entrar pelo portão principal, abertamente e sem embustes, mas Sílvia tinha a certeza de que a família nunca lhe permitiria o convívio com um intruso recém-chegado à região e que ainda por cima invadira a até então inviolável propriedade da família. Convenceu-o, por isso, de que seria bem mais fácil e conveniente continuar a utilizar o buraco do muro e que, uma vez que tinham a autorização dela, as suas idas e vindas passavam a ter o selo da legitimidade. E assim passou a ser.
Durante o resto daquele Verão viram-se quase todos os dias, passando tardes inteiras na companhia um do outro, mas sem nunca saírem dos limites do parque. O rapaz bem tentou convencê-la a ir com ele visitar os seus sítios favoritos, ou, pelo menos, a dar alguns passos no caminho que circundava o muro, mas Sílvia recusou sempre. Já se sentia muito feliz por parte do mundo exterior ter vindo ter com ela, trazendo-lhe novas histórias e diversões. Não via qualquer necessidade de sair para ver por si própria coisas que, suspeitava-o fortemente, eram bem mais interessantes quando experimentadas por interposta pessoa, sem perigos ou incómodos de qualquer espécie.
Quando recomeçaram as aulas deixaram de se ver tão amiudadamente, uma vez que Sílvia estudava em casa com a ajuda de uma tia idosa que lhe ensinava o pouco que achava correto para a educação de uma rapariga de boas famílias. Só um dia por outro é que ele conseguia escapar às suas pesadas obrigações durante algumas horas, correndo de imediato para junto da amiga que encontrava vagueando pelo parque, como se o esperasse desde sempre. Sentiam saudades um do outro, mas ela bem mais do que ele pois na sua ausência nada tinha que a distraísse. Enquanto que o rapaz tinha novos estudos e novos colegas para explorar, Sílvia tinha de se contentar com as recordações do tempo passado em conjunto e do muito que ele lhe tinha contado.
Mal as férias começaram imediatamente voltaram ao seu já velho hábito de passarem juntos todas as tardes, fizesse sol ou chuva. Se o tempo estava bom, passeavam pelo parque ou sentavam-se muito simplesmente à sombra de uma das inúmeras árvores frondosas ali existentes. Se o tempo estava desagradável ou chuvoso, refugiavam-se num pavilhão meio arruinado existente a um canto do jardim, outrora local privilegiado de encontros e chás e onde agora ninguém entrava. Mas mantinham-se sempre bem longe da casa da família de Sílvia de modo a evitarem o perigo de serem vistos por uma das janelas, embora entre eles continuassem a manter a ficção de que os seus encontros nada tinham de clandestino ou furtivo.
E assim se estabeleceu o padrão dos anos que se seguiram. O rapaz continuava a descobrir o mundo e os seus mistérios, transmitindo depois tudo o que vira, vivera ou pensara à companheira que o aguardava no jardim murado, sempre paciente e igual a si mesmo, como que parado no tempo. Quanto a Sílvia, guardava cuidadosamente na memória tudo o que ele lhe contava, quer o entendesse ou não, para lhe servir de alimento e consolo durante as longas horas em que se não viam. Nunca sentiram a mínima necessidade de inventar jogos ou histórias que os ajudassem a passar o tempo de que dispunham para estar juntos. A vida dele chegava bem para ocupar ambos.
E durante todo esse tempo nunca o rapaz conheceu ou sequer avistou qualquer dos parentes de Sílvia ou os pais dele souberam da estranha amizade de férias que o filho arranjara. Viviam realmente num mundo só deles, alheios a tudo o que os rodeava.
Os anos passaram e o rapaz teve de partir para uma outra cidade a fim prosseguir os seus estudos. As separações eram agora mais longas, chegando a durar meses de cada vez, mas a sua relação permanecia igual ao que sempre fora. Sílvia continuava a viver totalmente isolada do mundo exterior, e a sua solidão aumentava cada vez mais à medida que os parentes mais idosos iam morrendo. Por fim, ficou a viver sózinha com uma velha tia e com meia dúzia de criados, já bastante idosos e sem quaisquer relações exteriores. Quanto ao rapaz, embora no seu novo meio conhecesse muita gente interessante e muitas raparigas bonitas e fascinantes, o seu espírito tinha sempre presente a estranha rapariguinha que um dia conhecera ao invadir propriedade alheia e que tão grande lugar adquirira na sua vida.
Acabados os estudos, regressou finalmente a casa a fim de se integrar na empresa paterna que um dia esperava vir a dirigir. Sílvia era já uma mulher, bela, calma, encantadora e muito mais fascinante do que qualquer das raparigas que conhecera durante os longos e frutuosos anos da sua ausência. Vestia sempre de escuro, quer por gosto quer por necessidade provocada pelos numerosos lutos que sofrera e os longos vestidos um tanto ou quanto antiquados que usava faziam realçar ainda mais a sua estranha e pálida beleza e o ar um pouco distante que lhe era habitual. Caminhava com uma elegância suave e calma, quase como se pertencesse a uma outra realidade, mais leve e etérea do que o barulhento mundo que se espraiava para lá dos altos muros do parque. Mas continuava a escutá-lo com a mesma atenção fixa e apaixonada dos seus tempos de criança, parecendo estar sempre disponível para o receber e nunca se queixando das ausências e demoras a que as suas obrigações o obrigavam. A única alteração nos seus hábitos era o terem agora livre acesso à mansão que durante tantos anos apenas pudera admirar por fora.
O rapaz descobriu, então, que a simples amizade dos seus tempos de infância e juventude se transformara em algo muito diferente, mais profundo e exigente. Estava verdadeiramente apaixonado por ela e mal conseguia suportar a ideia de um dia a vida os poder separar. Por sua vontade passariam juntos todos os momentos do dia, e era com enorme relutância que a deixava a fim de cumprir os seus deveres profissionais, sociais ou familiares. Decidiu-se, finalmente, a falar com os pais que, embora espantados, nada tinham a opor aos desejos do filho, apesar de não conhecerem ainda a rapariga que o conquistara de forma tão completa. O mais difícil foi convencer Sílvia, a quem a perspetiva de qualquer mudança enchia de pavor, da validade dos seus planos para um futuro em conjunto. Teve de lhe prometer que ficariam a viver na grande propriedade murada, não tendo ela qualquer necessidade de sair para o exterior, nem mesmo para a cerimónia do casamento.
Só à custa destas garantias conseguiu, por fim, a anuência, embora relutante, de Sílvia. Não por esta não lhe ter amor ou uma grande vontade de estar com ele, mas muito simplesmente porque, devido às muitas perdas que sofrera, tinha receio de tudo o que pudesse alterar o mundo artificialmente perfeito que criara no seu espírito para ambos. Ficaram finalmente noivos numa tarde de meados de Dezembro, mal iluminada por um pobre sol muito pálido e frio. Para selar a sua promessa deu-lhe um pesado anel antigo que descobrira num antiquário, com um belo rubi rodeado de três pequenos diamantes, tudo engastado num aro de ouro velho, muito bem trabalhado com arabescos estranhos e complicados e que lhe pareceu ser o complemento perfeito para a figura delicada e um pouco gótica da sua noiva. O seu desenho antigo e barroco agradou sobremaneira a Sílvia, pois fazia-lhe recordar os contos fantasticamente românticos que adorava ler enquanto aguardava a sua chegada. No seu espírito atribuiu-lhe de imediato um passado fabuloso e, até, certos poderes mágicos. O casamento seria no fim da Primavera, altura em que os pais do rapaz conheceriam finalmente a noiva do filho. Deixaram-se já o sol se punha, depois de se terem despedido repetidas vezes e de outras tantas terem voltado atrás para trocarem mais um olhar ou um comentário apaixonado.
A tragédia deu-se nessa mesma noite, quando já todos dormiam na povoação vizinha, tornando-se impossível descobrir a sequência exata dos factos uma vez que ninguém sobreviveu. Era, contudo, opinião geral que a velha tia, sentindo frio naquela desagradável noite de início de Inverno, atiçara demasiado o fogo na lareira do seu quarto, provocando o incêndio devastador que consumira toda a casa e os seus poucos habitantes. A destruição foi total. Paredes, telhado, móveis, objetos, tudo ruiu e foi consumido pela terrível deflagração. Os ossos carbonizados que se encontraram tiveram de ser enterrados em campas assinaladas de um modo um tanto ou quanto arbitrário, pois foi impossível obter uma identificação positiva de quem quer que fosse. A única peça encontrada intacta, como que por milagre, foi o anel de noivado de Sílvia, descoberto casualmente meio enterrado debaixo de uma pedra totalmente enegrecida pelas chamas.
O rapaz ficou inconsolável e quase louco de desgosto. Durante meses e meses passou todo o seu tempo livre vagueando pelos restos do parque, rondando em torno das ruínas da casa, afastando pedras e restos carbonizados de todos os géneros à procura nem mesmo ele sabia bem de quê. Afastou-se por completo do convívio dos amigos e da sociedade, tornando-se um verdadeiro recluso que mal dizia meia dúzia de palavras em todo o dia. O seu interesse pelo mundo e pelos acontecimentos que nele ocorriam desapareceu por completo e era só com grande dificuldade que conseguia abandonar a sua obsessão durante o tempo suficiente para gerir o negócio que um dia herdaria.
Mandou alargar o anel que dera a Sílvia naquele dia fatídico, de modo a poder usá-lo no dedo mínimo da mão esquerda. Não era de modo algum o tipo de anel próprio para um homem, mas trazia-o sempre consigo embora não lhe desse qualquer conforto. Muito pelo contrário, só servia para lhe recordar continuamente a perda tremenda que sofrera, trazendo-lhe à mente o aspeto encantador de Sílvia no momento em que lho colocara no dedo, a sua emoção transbordante e os projetos de futuro que então pareciam prestes a cumprir-se. Adquiriu a propriedade murada que frequentara às escondidas durante tantos anos mas recusou-se a efetuar quaisquer obras ou trabalhos de recuperação. Nem mesmo permitiu que de vez em quando limpassem o parque, de modo a evitar que fosse totalmente invadido pelas ervas daninhas.
Uma noite em que, como de costume, vagueava sem rumo pelo parque agora abandonado pareceu-lhe ver uma luz que brilhava por entre as árvores na direção onde ficava a antiga casa. Ao investigar mais de perto ficou espantado ao ver o edifício intacto em todo o seu esplendor de outrora. Um tanto ou quanto aterrorizado e cada vez mais confuso, subiu os dois degraus largos do patamar, abriu a porta da frente e penetrou no que lhe pareceu ser uma sólida casa, mobilada tal como a conhecera antigamente. E ali estava Sílvia, a sua Sílvia tão apaixonadamente amada, bem viva e de boa saúde, com o aspeto exato de quando a vira pela última vez. Sentiu-se de tal modo atordoado com o desenrolar inesperado dos acontecimentos que nem pensou em protestar quando ela lhe pegou na mão, levando-o para a sala onde tantas vezes tinham tomado chá após o seu regresso definitivo a casa. Passaram a noite a conversar e a rir como costumavam fazer, sem nunca aludir à terrível catástrofe que lhe parecia agora não ter passado de um estranho e incompreensível pesadelo.
Ao deixá-la, já o sol nascia, prometeu voltar mal ficasse livre das  obrigações profissionais que o obrigavam agora a partir bem contra os seus desejos. Ao regressar ao fim da tarde já não encontrou a casa, apenas os escombros a que já se habituara e de que conhecia cada recanto, cada pedra enegrecida, cada pedaço carbonizado. Ficou desesperado, sem saber o que pensar. Depois de muitas horas em que pensou enlouquecer ocorreu-lhe, de repente, que na véspera fizera um ano exato sobre o seu noivado e a morte de Sílvia. Não percebia a relação da data com a sua alucinação da noite anterior, mas o facto de se ter lembrado dessa conexão acalmou-o um pouco.
Talvez houvesse algo na data que lhe permitira rever o passado com aquele realismo verdadeiramente espantoso. Ou quem sabe se a intensidade do seu amor e do seu desespero possibilitara o regresso de Sílvia ao mundo dos vivos durante uns breves momentos. Se assim fosse, que fazer para repetir a experiência? Como gostaria de voltar a viver essas poucas horas todas as noites! Mesmo que tudo não passasse de uma alucinação do seu pobre cérebro sobrecarregado de tristeza e desgosto preferia endoidecer por completo a continuar a viver sem a sua Sílvia.
Mas por mais que tentasse, as ruínas permaneceram apenas ruínas, noite após noite, tal como tinham ficado desde o incêndio, e ninguém apareceu a povoá-las até se ter passado de novo um ano sobre a data do noivado. Nessa noite, mais uma vez a casa surgiu a seus olhos tal como a vira daquela última vez, tendo lá dentro uma Sílvia intacta e maravilhosa, que ostentava no seu fino dedo o pesado anel que ele agora usava continuamente. De novo conversaram e riram toda a noite, sem qualquer alusão à tragédia que destroçara as suas vidas ou à impossibilidade do momento presente.
E o mesmo aconteceu ano após ano. Na noite do aniversário do trágico acontecimento que lhe destruíra a vida era-lhe dado reviver com toda a clareza tanto a casa como a noiva que perdera. Uma noiva sempre bela e que não envelhecia, permanecendo parada no tempo enquanto que a ele começavam a pesar os anos, enchendo-o de rugas e de cabelos brancos, curvando-lhe os ombros e dificultando-lhe os movimentos. Vivia agora no receio de que vendo-o assim, tão velho e acabado, Sílvia deixasse de o amar, preferindo à realidade as recordações do homem que um dia fora.
Mas nunca se atreveu a permanecer junto dela após o nascer do sol, por receio do que pudesse acontecer quando tudo voltasse ao seu aspeto real. Só esperava que um dia a morte o rejuvenescesse e o levasse permanentemente para dentro daquela casa, onde poderia passar a eternidade ao lado de Sílvia, a única mulher que alguma vez amara.





segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Como Lidar com Fanáticos: Teoria e Prática



           O caso foi que, na cidade de Jundiaí, no estado de São Paulo, a Companhia Teatral Palhaços de Atenas quis encenar uma adaptação do romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago, financiada com recursos oriundos da Lei Rouanet, aquela lei que permite que empresas entreguem 4% do que pagariam em imposto de renda para projetos culturais, podendo, inclusive, beneficiar-se com isso, tendo seu nome entre os apoiadores do projeto. A captação até não foi difícil: livrarias, restaurantes, hotéis e até um grande banco quiseram vincular seus nomes a um espetáculo que popularizaria a obra de um Nobel de Literatura – popularizaria sim, porque, uma vez por mês, os artistas fariam apresentações exclusivas para alunos do Ensino Médio da rede pública.
            Qual não foi a surpresa da equipe quando, finda a primeira semana, veio contra eles a liminar de um juiz que, incitado por líderes religiosos, proibia a encenação.
            A vontade do diretor foi ir aos jornais mandar o meritíssimo juiz enfiar a liminar na bunda, pois o artigo 5º, IX da Constituição Federal garante plena liberdade para os artistas. Foi isso mesmo que lhe disse a atriz que interpretava Maria de Magdala, amante de Jesus, estudante de Direito cujos rompantes verbais punham em sobressalto sua família quando imaginava suas futuras atuações nos tribunais.
            Mas o diretor era um gentleman e imediatamente expôs o plano B, bem mais eficiente. Fora, incógnito, a uma igreja e conseguira doações de bíblias para todo o elenco. Juntos leriam uma história do livro sagrado e, reaproveitando todo o material da peça censurada, encenariam de improviso uma página das Escrituras Sagradas.
            Um exército de jornalistas esperava as palavras do diretor e eis que ele lhes disse simplesmente isso:
 – Reconhecemos nosso erro e, em sinal de paz, convidamos o meritíssimo juiz e os líderes religiosos que moveram contra nossa condenável peça essa piedosa ação para assistirem, no sábado, à montagem que faremos de histórias bíblicas, obedecendo estritamente o livro sagrado.
E, no dia seguinte, os jornalistas, juntamente com o juiz e os líderes religiosos, viram as filhas de Ló embriagando o pai e fornicando com ele, Jefté sacrificar a própria filha em holocausto ao Senhor, o festival de estupros promovido pela tribo de Benjamin, o príncipe Amnon violentando a própria irmã e Jesus Cristo açoitando vendilhões do templo que apregoavam os produtos vendidos pelos missionários da TV.
Finda a representação, o diretor foi ao proscênio e disse:
 – Agora desafio os senhores a proibirem a Bíblia Sagrada.
(18 de setembro de 2017)





domingo, 29 de dezembro de 2019

Depois do Paraíso



Olhei, desalentado e incrédulo para o terreno semeado e lavrado há pouco tempo. Todos os sulcos de terra, feitos com tanto esforço, estavam destruídos pelo bando de corvos que, como uma onda de carvão, faziam um festim com as sementes, numa algazarra inacreditável.
Atirei-lhes um pau, com pouca convicção, que caiu no meio das aves. Estas, porém, pouco ou nada se importaram. Mesmo aquela que foi atingida pelo míssil, limitou-se a um pequeno salto e a grasnar-me um insulto qualquer, indignada, antes de mudar de poiso.
Deixei-me ficar a assistir ao banquete.
De facto, sofro de uma falta de sorte impressionante. Os meus pais fartam-se de falar de um tempo em que estavam numa terra muito boa, onde as árvores davam tudo o que precisássemos, sem ter de cultivar…, mas foram expulsos de lá, por uma injustiça, ou um mal-entendido qualquer, do qual eu nunca me importara em saber pormenores. Agora, havia que trabalhar duramente, para arrancar alimentos desta terra paupérrima e ingrata… e dá-los aos canalhas dos corvos. 
— Os corvos fazem uma festa. — A vozinha sibilante fez-me olhar para o maciço de ervas, de onde espreitava a enorme serpente dourada que lá morava.
— Pareces feliz! — Exclamei, amargurado.
— Nem feliz, nem infeliz. — Mas a expressão da serpente parecia contradizê-la. — Simplesmente não é natural, teres de ferir a terra para produzir alimento… no fim, quem se consola são os corvos e os gafanhotos. Assim, encontram tudo o que precisam para encher a barriga, no mesmo sítio. Estão-te agradecidos, os bichinhos.
— Ah, cala-te! — Exigi, revoltado. — Qual é a alternativa?
— Podias voltar para a terra de onde os teus pais foram expulsos. Lá era tudo mais fácil. — A serpente concluiu, erguendo-se sobre o seu corpo, quase à minha altura. — Foi uma injustiça o que lhes fizeram.
— Eles dizem que têm lá guardas terríveis, que nos matam, se nos aproximarmos.
— Então… — Continuou o réptil. — Podias tornar-te pastor, como o teu irmão.
— Se ele já faz isso… — Desprezei o conselho. — Vamos comer só cordeiro? E o pão, as couves, os tomates…?
— Foi só uma sugestão… — Tenho a certeza de que a serpente encolheria os ombros se os tivesse. — Podias convencer o teu irmão a ser ele o lavrador.
— Ele não quer. Está muito contente com o seu trabalho, a passear os bichos pelas pastagens. — Retorqui, amargurado. — E só lhe acontecem coisas boas! Ainda outro dia, apareceu o senhor destas terras, que costuma levar alguns dos nossos produtos e não quis nada do que eu tinha! Mas o cordeirinho do meu irmão, não só gostou, como fez uma fogueira, para que o assassem e comessem ambos!
— Uma injustiça! — Apoiou a minha sibilante companheira.
— É mesmo! — Continuou. — Veio ali, com a sua túnica branca como a neve, lá de onde não falta nada, desprezar o meu trabalho, regado com o suor do rosto.
— Que sabe ele do trabalho duro do campo? — Interrogou uma conhecida voz suave, feminina. 
Voltei-me, para ver a antiga mulher de meu pai, segundo ela dizia, avançar na nossa direção. Ao chegar, chutou um alvo crânio de burro, que rolou até aos meus pés.
— Estavas a ouvir? — Perguntei desconfiado. — Será que a minha má sorte não estará relacionada contigo?
— Ouço mais coisas do que podes imaginar! — Afirmou ela, com um sorriso conhecedor. — Também não suporto injustiças, mas esse teu irmão, é quem está no caminho do teu reconhecimento. Eu não tenho nada a ver com isso. Pedi que não dissesses a ninguém que me conheceste, porque o teu pai não iria gostar.
— Sim o teu irmão podia, ao menos, ajudar-te no teu trabalho, em vez de ficar a tocar flauta, enquanto o rebanho pasta. — Acrescentou a cobra.
— Em tempos, — Disse eu melancolicamente, chutando o crânio descarnado. —, tive este burro, que me ajudava a lavrar e a transportar as cargas, mas depois morreu.
— Se calhar, devias alimentá-lo melhor… — Censurou a mulher com um risinho.
— Ou não lhe bater tanto! — A serpente também me recriminava.
— Era um descarado! — Enfureci-me. — Não queria trabalhar e quando lhe batia, para que o fizesse, ainda me ameaçava, dizendo que iria ser a causa da minha desgraça!
— O Criador saberá o que um simples burro queria dizer! — Estava ali a mulher, a criar o dogma da sabedoria dos jumentos, imagine-se.
— Era o que mais me faltava! — Exasperei-me. — Aqui a discutir a filosofia dos asnos com uma cobra e uma desconhecida.
— Não é filosofia! — Contrapôs o réptil. — Trata-se mesmo de tratar bem, quem nos ajuda! E eu não sou uma cobra, sou uma serpente!
— E eu não sou uma desconhecida! — Insurgiu-se a mulher. — Sabes o meu nome, chamo-me Lilith e, quase podemos dizer que sou tua tia! Afinal, também vivi com o teu pai.
— Chega de conversa! — Enervei-me. — Desapareçam e deixem-me só com a minha desgraça!
Ressentidos, mas obedientes, desapareceram assim que lhes virei as costas. Ao mesmo tempo, o número de corvos parecia reduzir; estava-se a acabar o suprimento de sementes.
— Irmão! — Ouvi a voz nas minhas costas.
— Só me faltava este! — Resmunguei baixinho.
— Vi um bando de corvos a vir nesta direção e desconfiei logo do que se passava! — A voz acriançada, que tanto me irritava, continuou. — Não posso acreditar, lá se foi a sementeira.
— Muito te preocupa! — Enfrentei-o. — Vai lá, limpar o traseiro às tuas ovelhinhas!
— Porque falas assim comigo? — Lá estava aquele ar de incompreendido, exatamente igual ao meu pai, que tanto me irritava. — Estou aqui em solidariedade contigo…
— Solidariedade?!? — Sentia-me cada vez mais furioso. — Sabes onde podes meter a tua solidariedade? Precisava é que me ajudasses a lavrar os campos!
— Tinhas um burrito a ajudar-te. — Passou ele da defesa, ao ataque, num instante. — Maltrataste-o e deste-lhe fome. Agora morreu e os outros, nem abeiram por aqui. Inclusivamente, são cada vez mais os animais que deixaram de nos falar, por causa dos teus atos.
— Também tu?!? — Enfureci-me. — Que querias? Que andasse com ele às costas como fazes com os cordeiros?!? Ele era preguiçoso e não queria puxar o arado. Era melhor se o meu trabalho fosse como o teu, de papo para o ar, à espera que as ovelhas cresçam!
— De papo para o ar?!? — Foi a vez dele se revoltar, enquanto que os corvos, sentindo os nossos gritos e a nossa raiva, crocitavam ainda mais alto e esvoaçavam mais furiosamente. —Também tu não gostas de trabalhar e escolheste a agricultura porque, do trabalho que o pai faz, só vias o descanso nos dias de chuva. Eras cego às jornas de sol a sol, a escavar e a lavrar as terras. Por isso te revoltas, só queres a parte boa dos ofícios. O pai, está triste com o teu desempenho e o Senhor também está desagradado. Começam a questionar se serás um bom herdeiro, ou se terão de repensar o assunto.
— Ah, traidor, que andas a armar-me uma cilada! — Exclamei, cheio de raiva, percebendo a extensão da trama e atirando-me ao pescoço dele.
Rolamos no chão, dando socos e puxando cabelos, insultando-nos mutuamente. As palavras doíam quase tanto como as pancadas. Até que me apercebi do crânio do burro, junto a mim. Parti-lho, com toda a força, na cabeça, pois estava queimado pelo sol. Aproveitando a confusão momentânea, agarrei na queixada e espetei-o no peito e no pescoço, enquanto a minha raiva não se esgotou.
Levantei-me a chorar de frustração e fitei, estarrecido, o corpo ensanguentado do meu irmão. Olhos esbugalhados, numa acusação muda. Estava morto!
Entrei em pânico e abanei-o, sem sucesso, enquanto me interrogava, desesperado. “Que iria fazer? Como fora capaz de tal crime? Que iriam dizer o pai e a mãe?”
Olhei em volta, para ver se havia alguém por perto e arrastei o corpo para as ervas mais altas. Escavei como um doido, até conseguir cobri-lo com grandes tufos de verdura. Os corvos haviam desaparecido como que por magia, porém, o vento acusava num sussurro: “Assassino, assassino”.
Larguei numa corrida, em busca de refúgio e proteção. Não diria a ninguém o que se passou, apenas que não via o meu irmão desde ontem. Armado com este alibi, atravessei a mata, sem reparar na mulher e na serpente, que assistiram a toda a cena, com ar de satisfação.
Ao sair da floresta, quase choquei com o dono das terras, na sua túnica alva, de cabelos e as barbas brancas a oscilar ao vento que soprava cada vez mais forte. Estaquei, aterrorizado, sem conseguir soltar palavra.
— Caim. — Trovejou ele. — Onde está o teu irmão, Abel?





quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Fugas




O velho repisa, uma a uma, as escadas exteriores do lar de idosos, agarrado ao corrimão e, em passos miudinhos e hesitantes, avança pelo passeio afora. Vejo-o da minha janela, onde costumo postar-me para ter uma ilusão de contacto com o mundo. Não é uma visão invulgar, mas geralmente os velhos vêm em grupo acompanhados por duas ou três funcionárias. Vêm apanhar um pouco de ar e de sol na pequena praceta ajardinada onde a autarquia instalou dois bancos de jardim. Creio mesmo que o lar se instalou naquele prédio por causa do esboço de jardim. Bem vejo que a diretora o mostra, quando uma nova família chega à procura de um lugar onde largar o familiar. Constatar que o lar até dispõe de um jardim sempre deve evitar alguns pruridos de consciência.

«Não sei. Parece a nossa rua, mas não tenho a certeza. Ela é que deve saber. Tenho de a encontrar. Não sei se disse que ia à mercearia. Talvez esteja ali à frente.»

Ver um velho a abandonar o lar sozinho espicaçou-me a pouca curiosidade que ainda tenho. Estaria a fugir? Ou só a espairecer? Tinha ar de mais de oitenta anos, estava de pijama, com um certo volume na zona da bacia, provavelmente uma fralda de adulto. Pesada, pelo aspeto. No seu passinho miúdo, já percorrera uns cinquenta metros, sem ninguém o travar. Olhava decididamente para o início da rua, como se levasse um destino consciente.

«Era ali. Era ali a mercearia. Mas agora não está lá. Como é que isto aconteceu? Se calhar é mais à frente.»

Vejo-o parar e olhar em volta. Andará à procura de alguma coisa? Não andamos todos? Afasto-me da vidraça, para ele não me ver. Pouco depois recomeça a andar. A sua figura um pouco curvada de riscas azuis e cinzentas verticais não suscita a atenção de ninguém. Não passam carros, não há mais pessoas na rua.

«Deve ter ido ao pão. Se lá for antes de almoço, talvez a ti Quitéria ainda tenha. Pão de verdade, de quilo, bem firme. Senão, traz papo-secos...»

Bem faz o velho — pirar-se dali. Imagino que tenha sido bancário, ou empregado de balcão. Há nele qualquer coisa de solicitude. Imagino como se deve sentir desfasado do mundo. Cá fora, todos com os olhos metidos no telemóvel, sem respeitar nada, nem ninguém. Lá dentro, só velhos de olhar parado, afundados em recordações. E funcionárias ríspidas e mandonas. Pirar-se, ir por aí afora, encontrar um pouco de coerência no mundo, um pouco de compaixão. Se calhar era o que eu devia fazer também. Estou aqui a fazer o quê? A espreitar a rua, a olhar para as árvores, para os automóveis que não passam.

«Não encontro a mercearia. Acho que vou já para casa. Ela já lá deve estar. Vou-lhe pedir pão com azeitonas — pão de côdea escura, azeitonas grossas retalhadas, a saber a sal.»

Uma funcionária já veio à janela espreitar. Tinha um ar apreensivo. Se calhar já deram pela falta do velho. Como a rua encurva ligeiramente, não conseguiu vê-lo, que já vai lá à frente. Voltou para dentro. Hei-de avisá-las ou deixo o velho escapar? A minha solidariedade vai para o velho. Talvez consiga alcançar o que deseja. Ele que goze uma réstia de ilusão de liberdade! E eu?

«É já ali a nossa casa. Parece, mas não sei bem; está esquisita. Está tudo diferente. Gostava que ela já lá estivesse. Ah, se me tivesse arranjado um pratinho de requeijão morno, com açúcar… Parece que já não o como há tanto tempo.»

E se fazem mal ao velho? É perigoso andar por aí. Não deve ter nada para roubar, mas nunca fiando. Há por aí muita malandragem. Maltratam só pelo prazer de ver sofrer. Se calhar ele ficava mais seguro no lar. Aonde é que ele vai, nesta idade? Agora foi abordado por dois tipos. Espero que não… Não; parece que estão só a conversar. A esta distância, não consigo perceber o que dizem.

O senhor precisa de ajuda? — pergunta um dos rapazes, estranhando as roupas e o ar atarantado do velho.
Simão Cordeiro dá pelo jovem, os seus olhos castanhos orlados de cinzento completam um rosto de desorientação e angústia. A voz sai-lhe sumida:
Quero a minha mãe!

Joaquim Bispo
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Este texto obteve o 1º lugar na modalidade Prosa em âmbito Internacional, no concurso Professor Mário Clímaco / 2019, da ALEPON — Academia de Letras, Ciências e Artes de Ponte Nova — Brasil.
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Imagem: Fernando Namora, Árvores, 1964.
Coleção Casa-Museu Fernando Namora, Condeixa-a-Nova.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O ESTRANHO VISITANTE


                                     



A cada enxadada, fincando o chão seco, duro e praguejado, o suor escorrendo pelas costas abaixo, sob um sol impiedoso, Gregório, involuntariamente, matuta. Se ao menos essas lembranças o abandonassem um pouco, a força dos braços seria mais viva. Qual o quê! Ferem seu corpo como espinhos, ficam como acordes de tristeza a lhe tocarem a alma. Pensamentos teimosos! Por que não se vão, feito a chuva?!
Gregório para um pouco... Tira o chapéu. Os cabelos grudados à testa, o suor caindo-lhe sobre as pálpebras enrugadas. Sente-se um caco! Olha a sua volta, demoradamente, depois ergue seus olhos para o céu. Nada de nuvens! O céu infinitamente azul, e o sol, majestoso, reinando tirano. Tem sede... Olha para a moita de arbustos lá adiante, e sente-se desanimado calculando a distância que o separa da sua moringa. O jeito é arranjar forças pra chegar até lá. Sem água nem é possível pensar, quanto mais continuar! Descansa a enxada sobre o torrão de terra que acabou de revirar e segue em direção dos arbustos.
Farto, saciado com a água fresca da moringa de barro, pensa num cigarrinho... Afinal, pressa num dia como hoje é bobagem! O corpo não suporta aquele calor infernal! Tem consciência de que hoje o trabalho rende pela metade.
Passa a botina pelo capim seco como se limpasse o chão, e solta o corpo num sentar extenuado. Passa a mão no embornal e dele retira um pedaço de fumo, o canivete, a palha de milho. A mão esquerda em forma de concha protege os fiapos de fumo que ele vai picando. Cheiro forte e bom! Não resiste... Coloca um naco na boca.
Cinco anos já se passaram desde que sua mulher se foi... Cinco anos doídos, arrastados, vazios. Doença maldita! Tudo tão rápido que não teve nem tempo para se acostumar com a ideia. Teve de se acostumar, precisou se arranjar mergulhado na dor. Ficou muito difícil, tanto que até hoje não se resignou.
Nessa época do ano ainda é pior! Dezembro lhe dá um desconsolo, um desamparo... A solidão é tamanha que parece transpirar pelos poros. Bom seria se não existisse este pedaço do ano!
Amanhã é Natal. Diacho de dia mais bobo! Ainda bem que já se preveniu... A garrafa de pinga o aguarda! É sempre assim. Começa a beber à noitinha e vara as outras vinte e quatro horas numa carraspana sem fim! Duro mesmo é o outro dia! Um vazio no estômago, enjoo, tremura no corpo, suadeira fria e um desânimo de dar pena! Pelo menos durante algumas horas não pensa. Apenas dorme. Se nos intervalos, entre um gole e outro, aquela saraivada de pensamentos teimosamente tenta chegar, Gregório não vacila. Sorve goles rápidos e constantes até que adormece. É assim o seu Natal. Nem abre as portas da casa! Pra quê? Não carece.
Mas agora, ali sentado, dando tragadas longas e repetidas no seu cigarro de palha, sóbrio, não tem como afugentar suas ideias. Se ao menos um filho viesse! Que nada! Isso só aconteceu no primeiro ano. Depois, foi tudo só. Ele e a vida...
Tem dia que fala sozinho, ou mesmo com seu pangaré. Fala pra ouvir o som da própria voz. Naquele fim de mundo, não arranja nem companheiro pra dar uma prosa! Às vezes, fica pensando se ainda sabe falar. Passa dias e dias, semanas inteiras sem dizer palavra. Fica feliz quando vê, pela poeira da estrada, uma boiada a caminho. Sabe que ali vai um peão e que vai lhe sobrar um dedo de prosa. A conversa é sempre a mesma. A saudação, o calor, a falta de chuva ou uma doença que apareceu em alguma rês. Ele se empolga tanto nestas proseadas que, às vezes, chega a acompanhar o peão, beirando a estrada, por um bom trecho do caminho! Só para ter o gostinho da companhia.
Na vila não se anima muito a ir. Só vai mesmo quando a necessidade manda. É muito distante e seu pangaré anda muito judiado pela seca. Se forçar muito pode ser desastroso! Imagina perder seu companheiro! Só lhe restará falar sozinho!
O seu cachorro também se foi. Velho, já com o focinho branco, cego feito tamanduá... Foi definhando, ficou encaramujado e, numa manhã, Gregório o encontrou estirado. Dia triste!
Agora lhe resta o pangaré. Está um traste velho, mas ainda lhe serve de companhia! É só a chuva chegar e ele estará mais forte. A idade não tem jeito, mas o capim gordo lhe trará novas carnes. A chuva não tarda. O dia dos Santos Reis está por aí, e na vinda sempre traz chuva!
Gregório ergue o chapéu, reverenciando os Santos. É assim. Mesmo quando pensa, quando invoca os santos de sua devoção, não deixa de reverenciá-los com seu chapéu. Santa veneração!
Joga o cigarro e, com a botina, o pisoteia várias vezes até se certificar de que realmente não há risco nenhum da brasa queimar o capim seco. Tem pavor de queimadas! Já viu tantas, mas não consegue se acostumar a elas. Fogo é bicho que teme!
Hora de recomeçar a lida. Se bem que a vontade é nenhuma, mas a praga tem que ser vencida agora, nesse tempo. É na terra seca que a raiz morre. É bem verdade que a sementeira fica na terra, mas até a chuva chegar, ela não germina. Dá tempo de recuperar o ânimo e preparar a nova roça. Nem sabe quantas vezes já capinou este mesmo trecho! Nem é bom pensar... Desanima!
E lá está Gregório novamente. Só se ouve o resvalo da lâmina na terra seca. Dezenas e dezenas de braçadas para capinar um pequeno trecho. A cada quarto de hora, ergue o corpo, espicha a coluna para trás colocando as mãos nas cadeiras. Serviço bruto! Pior ainda com aquele sol a lhe castigar o lombo!
Suspira fundo e volta à capina. O assa-peixe este ano está de matar! Há touceiras tão imensas que chegam a desanimar. Gregório procura nem olhar o que está por fazer. Prende os olhos no trecho em que labuta. Que adianta olhar? Nem desanimar adianta. De quando em quando lá está ele, parado. As mãos servindo de encosto do queixo no cabo da enxada. Fica tempo olhando, perdido, nem sabe onde! Sente pavor do escurecer! De noite, a solidão é mais triste. Muito mais...
Olha para o céu. O sol já está indo, baixo. No horizonte, um vermelhão só. Sinal de que a seca continua. Santo Deus, até quando?!
Gregório acelera o ritmo. Parece não querer parar. Quer prolongar o dia. Ah! Se pudesse... Já está bem escuro. Quase não consegue distinguir o trecho já pronto e bate várias vezes a enxada em torrões já revirados. Não adianta. É noite. Véspera de Natal!
Com a enxada nos ombros, o embornal de lado, a moringa na mão, pega o trilho de casa. Nem assobia. Está com o corpo aniquilado, seus passos são curtos, pausados. Quer demorar ainda mais a chegar.
Apesar do cansaço do corpo, andaria a noite toda se isso lhe tirasse da cabeça todas aquelas lembranças. Daria tudo e faria qualquer coisa para não estar sozinho. Se ao menos tivesse alguém, uma única viva alma pra prosear!
Bobagem! Ali só está ele. Ele e Deus, como costuma pensar. Pena hoje Deus não se tornar homem e passar o Natal ali, com ele! Poderiam conversar, comemorar, beber juntos. Arre, cada pensamento!
Gregório chega em sua casa. Nem tem vontade de acender a lamparina. Banho então, nem pensar! Pra quê? Daqui a pouco se encharca de pinga e aí é uma água só! Antes, porém, precisa comer alguma coisa. Ainda bem que deixou uma panela de arroz sobre o fogão de lenha, e tem linguiça dependurada na despensa. É o suficiente.
Enquanto acende a lamparina, faz uma oração para o Menino Jesus. Afinal, é o Seu dia! Tem que rezar agora porque, depois não vai lembrar nem do seu nome, quanto mais de oração!
Junta ao arroz uns pedaços de linguiça, atiça as brasas do fogão, coloca umas palhas de milho para aumentar o fogo e aquece a comida. O cheiro é divino! Chega a lhe dar água na boca!
Arranca as botinas, tira a camisa, passa as mãos pelos cabelos e puxa o banco para perto da mesa. Ia enfiando a primeira colherada de comida boca adentro, quando ouve uma voz:
- Ô, de casa!
Gregório estremece de susto. Quem poderia ser a essa hora da noite? Pela voz, imagina ser uma pessoa idosa. Voz rouca, trêmula mesmo!
- Ô, de fora! Já tô indo!
Ainda sem se refazer do susto, sai rapidamente pela porta da cozinha, levando a lamparina nas mãos. Assusta-se ainda mais diante do que vê. Meu Deus, que trapo humano! Um homem, as roupas em farrapos, pés descalços, cabelos ensebados, barbas enormes, corpo magro, arqueado, rosto bem-feito, mas incrivelmente abatido. Olheiras escuras e profundas. A magreza excessiva deixa-lhe os ossos da face saltados, salientes. À primeira vista, uma visão chocante, aterradora! Aos poucos, vai se aproximando e a chama da lamparina vai delineando mais seus traços. Olhos serenos, incrivelmente serenos!
­- Boa noite! O que o traz aqui?
- Boa noite! Estou apenas à procura de um prato de comida. Espero que tenha sobrado alguma coisa por aqui. Estou faminto! Há vários dias que não sei o que é comer de verdade...
Gregório pensa na comida que acabou de esquentar e que estava prestes a devorar. É tudo que tem, mas não tem importância. Afinal, já almoçou hoje e não irá sucumbir se não comer agora. Rapidamente, gira o corpo sobre o calcanhar e entra pela cozinha. Passa a mão no prato de comida sobre a mesa, volta e o entrega ao estranho visitante.
O homem ávido por alimento, num instante abraça o prato e, com colheradas rápidas e incessantes, vai pondo fim a sua fome. Gregório fica espantado com a voracidade, com a rapidez com que o visitante esvazia o prato. Coitado! A que situação chegou!
Gregório está aturdido. Tanto que só agora percebe que não convidou o homem para se sentar! Meu Deus, ele devorou tudo aquilo de pé?! Que distração!
- Desculpe a pergunta, mas qual é sua graça?
- Mariano, meu bom homem. Mariano, seu criado!
- Vamos chegar, Seu Mariano!
Ao ser convidado a entrar, o homem vira-se para o lado, abaixa o corpo e pega um pacote que estava no chão.
Já dentro da cozinha, Gregório diz:
- Puxa a cadeira e senta um pouco...
- Vou aceitar, Seu...
- Gregório, isso... Meu nome é Gregório.
Mariano vai entrando. É realmente alto, tem que se curvar, baixar a cabeça para passar pelo batente da porta. Senta-se na cadeira de palha e encosta um cotovelo sobre a mesa. Gregório senta-se no banco, do outro lado, de frente para ele.
- Então, Seu Mariano, agora que já comeu, amansou o estômago, conta aqui pra esse velho, o que faz por estas bandas?
- Nada, não faço nada, Seu Gregório! Eu sou assim mesmo! Ando sempre, sem parada. Passo as noites ao relento, e vou comendo aqui, acolá, onde me dão um prato de comida... Hoje é diferente! É véspera de Natal! Não queria ficar sozinho pela estrada. É uma noite muito bonita pra guardar só comigo! Lá da estrada vi a luz da lamparina, e pensei que bom seria juntar a minha alegria desta noite com a de mais alguém, ou até mesmo dividi-la. Espero não estar atrapalhando!
- De maneira alguma, Seu Mariano! Eu tava até meio encabulado de ficar aqui sozinho hoje. Já fiz até minha oração porque... pensava em dormir cedo, não tinha nada que fazer!
Gregório sente vergonha de dizer que havia rezado antes porque planejara tomar um porre e cair pelas tabelas. Fica quieto. Apenas se cala, não vai mudar nada!
- Sabe, Seu Gregório, quando começou a escurecer, eu estava passando diante da sua porteira. O senhor estava na lida e parei pra observar. Vi que o senhor estava ansioso, querendo capinar mais e mais... A noite já havia caído e a enxada ainda zunia na escuridão. Deu-me a impressão de que não queria voltar pra casa. Estou enganado?
Gregório fica meio sem jeito de saber que foi observado, pensa um pouco e resolve falar.
- Não, Seu Mariano. É isso mesmo! Não queria voltar porque a noite é muito triste, principalmente a de hoje. Sem família, sem ninguém pra conversar. Juro mesmo, minha vontade era de...
- Beber até cair, não é Seu Gregório?
- Isso mesmo! Queria beber, beber até perder o tino e descansar esta velha cabeça que não para nunca. O senhor sabe o que é viver neste fim de mundo, sem escutar uma voz, tendo na cabeça as lembranças dos dias passados?! Fechando os olhos e vendo as crianças correrem de um lado pro outro, a patroa indo e vindo, cuidando da lida da casa... Abrindo os olhos e vendo o vazio, o silêncio, só isso, silêncio e solidão. É um fim de vida muito triste, Seu Mariano! Nunca pensei chegar a isso!
- Não acontece só com o senhor, Seu Gregório! Quantos solitários há por esse mundo de Deus?! Nem por isso a vida acaba! É preciso saber trabalhar essa solidão, esse silêncio! Pensamentos amargos e lembranças que machucam não ajudam em nada! Temos que aprender a enriquecer a nossa fé. É no silêncio que alimentamos nossos mais nobres sentimentos! O silêncio não é inexistência de palavras. Elas soam e falam para a nossa consciência. É a maneira mais pura, mais verdadeira de conversar. Se todos ouvissem essa conversa silenciosa a que me refiro, todos seriam mais felizes, mais completos, mais íntegros! É preciso ouvir, ouvir muito.
Gregório presta muita atenção em tudo que o visitante diz. Se entendeu direito, ele fala que ficar sozinho e em silêncio não é de todo ruim. Passa a mão pela cabeça, como se com isso ajeitasse os pensamentos e guardasse cada palavra dita pelo visitante. Afinal, a fala dele é um presente para os ouvidos! Há quanto tempo não proseia tão demoradamente com um amigo?! Ele, ali, hoje, só pode ser um presente do céu!
Gregório fica como que embevecido com a conversa do visitante. Nem se lembra da pinga, da aflição da tarde, para dizer a verdade, nem fome sente! É como se as palavras do amigo lhe tivessem abastecido o estômago, a alma. Só uma coisa lhe intriga! O pacote que o visitante trouxe à mão e que, cuidadosamente, protege durante todo o tempo. Que será que tem dentro?
Conversam muito, até altas horas da noite. Na verdade, nem sabem que horas são, mas o sono vem chegando. O andarilho, cansado da caminhada, e Gregório, extenuado pelo trabalho da capina. Percebendo o sono do amigo, adianta-se em arrumar uma cama no chão, ao lado da sua. Logo os dois estão deitados. Gregório tem vontade de continuar a prosa, até tenta, mas o cansaço é tamanho que nem consegue completar o pensamento. Dorme. Sonha sem parar... Sonhos bons!
É madrugada ainda quando Gregório acorda. No escuro, fica um tempo meio confuso. Os sonhos, o dia anterior, o anoitecer, a noite, o visitante... O visitante!
- Seu Mariano!
No escuro, ele chama pelo amigo. Ninguém responde.
- Seu Mariano!
Intrigado por não ouvir resposta, Gregório se levanta e acende a lamparina. Ninguém mais no quarto... A cama, estendida como na noite anterior. Ele havia se deitado! Deve estar na cozinha! Corre a casa toda. Nada! O visitante não está em canto algum. A casa continua toda trancada por dentro. O que teria acontecido?!
Os olhos de Gregório começam a percorrer tudo novamente. Aos poucos, sua cabeça vai compreendendo tudo o que aconteceu ali. Olha a cozinha, demoradamente. Fixa o olhar na mesa, onde conversaram. O pacote está lá, bem no centro. Fica curioso. Que será que traz? Por que será que o amigo deixou o embrulho sobre a mesa?
Indeciso, Gregório começa a rasgar o papel. Fica receoso, mas sente que é um presente para ele. Finalmente, a embalagem toda lacerada mostra o presente. Que encanto de presente! Um rádio!
Sorri, satisfeito. Liga-o, gira o botão sofregamente e, numa sintonia ruidosa, quase inaudível, entrecortada, acha uma emissora. Está começando a oração da manhã. A voz é rouca, doce, pausada, fala com o coração. Gregório apura os ouvidos... Conhece essa voz! Soa como a voz do visitante.
Não fica impressionado, nada o assusta. Afugenta as interrogações, não quer quebrar o encanto... Apenas entende. E reforça a sua fé.

                                                   Regina Ruth Rincon Caires