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domingo, 26 de abril de 2015

SLU no Diário de uma PhD

Era pra ser um mero estudo de caso. Corriqueiro. Pesquisa socioantropológica de praxe. Embasaria meu próximo artigo em publicação nacional, quiçá inglesa. Paperzinho extra no meu currículo Lattes. Metodologia adequada. Exata delimitação do corpus. Prazo determinado.

Mas sabe que os estudos desandam, né? De repente, a vida desrespeita a ciência — se é que já houve, de fato, obediência e respeito mútuos entre essas duas obstinadas senhoras.

Confesso que me envolvi. Desacertei. Quem nunca? Respirava teoria há décadas. Anos a fio encaminhando aluno de Mestrado, participando de banca de Doutorado... A ABNT não consegue impor regra à paixão humana! Acabei topando com a realidade e me desorientando.

O nome dele é Altamiro Gomes. Gari do Serviço de Limpeza Urbana (SLU). Lixeiro de pai e mãe. Irmão de caça-recicláveis cooperados. Ex-marido de catadora de piolho. Pai de filhotes piolhentos. Figurino? O laranjão do dia a dia.

Nossa primeira entrevista foi proveitosa. Altamiro não se afastou da vassoura, atraído pelos papeizinhos de bala no chão. A pá, concentrada no saneamento universitário, deslizava ágil e fominha, catando até as poeirinhas miúdas. Intimidado diante do gravador, contou sobre o ofício com alguma reserva. Foi se soltando aos poucos. “É o lixo que me sustenta” — repetia, tentando consolar-se a si mesmo. Disse odiar o uniforme que usava há oito anos, mas que a profissão valia a pena, porque agora ele não passava fome mais. “Meus filhos vão pra escola, comem biscoito recheado, usam tênis de loja. Tenho até moto”.

Falava de forma pausada, com voz grave e rouca. “Parece que os detritos pequenos grudam na goela” — explicou pigarreante. Altamiro tem o Ensino Médio completo e, segundo declarou, admira gente culta como eu. Sabe fazer contas, gosta de história e poesia. “Tenho uns versos guardados, que nunca mostrei pra ninguém. Quem ia ler escrito de gari? Tudo que eu faço, o pessoal associa com sujeira”.
Contou que era bom aluno, mas teve de parar os estudos para entrar na vida adulta. Foi pai aos dezessete anos. O casamento durou seis anos e rendeu mais duas filhas, uma com síndrome fatal. “Com o tempo, a mulher tomou raiva, desgostou pra valer. Parece que a paixão virou nojo. Deve ser assim em todo relacionamento de gari” — sentenciou. Quando falou da filhinha morta, segurou o choro. “Enquanto ela viveu, tentei ser bom pai”.

Foram várias entrevistas técnicas, devidamente registradas. Conversamos de um tudo, principalmente sobre a invisibilidade de sua classe social. “Mas um dia ainda vão me enxergar como gente, doutora. Vão me cumprimentar e me estender a mão”. A fala me comoveu. Fui incitada a lhe fazer o convite: “Altamiro, queria que você fosse à minha casa”.

Ele ficou meio sem jeito, emocionado: “Desentupo caixa de gordura, corto grama, limpo piscina. Vai me contratar como diarista?”. “Não. Você é meu convidado, Altamiro. Quero que tome um chá comigo, ou uma cerveja, se preferir”.

O rapaz pediu uns minutinhos, tomou um banho num chuveiro da universidade mesmo, vestiu-se como gente e veio ao meu encontro. “Pronto, doutora”.

Fomos no meu carro: ele, encolhido no banco do passageiro; eu, dirigindo mal como sempre. Um homem jovem, mas maduro, de poucas e sábias palavras. Nenhum pingo de machismo. No trajeto até minha casa, Altamiro contou histórias divertidas de objetos que havia encontrado no lixo, e algumas macabras, de restos de corpo misturados aos detritos. “Foi uma sensação horrível mexer em parte morta de gente que eu nem conheci”.

Ficou bem à vontade lá na minha quitinete. Deixou os sapatos do lado de fora, arregaçou as mangas da camisa e pediu pra lavar as mãos. “Sei cozinhar. Quer que eu prepare alguma coisa?” Deixei: “Tudo bem. A cozinha é pequena. Quase não uso o fogão. Almoço fora e preparo os lanches no micro-ondas”. Pediu para abrir a geladeira e encontrou alguns ingredientes. “Com tomate, cebola, orégano, ovo de codorna e pimenta, tudo fica bom”. Aquilo virou uma omelete dos deuses!

O primeiro beijo foi na cozinha americana, logo na primeira visita: ele do lado de lá da bancada, vestido com o avental, e eu de cá, completamente acesa, depois de muito me insinuar. Confesso que o ataque foi meu. A doutora pegou o gari!

Depois dos aperitivos, liguei a vitrola. Era um bolero antigo. Pra minha surpresa, ele adorou o som do vinil. Um gari pé de valsa era demais pra minha cabeça! Guiou-me com leveza e elegância: firme, delicado, resolvido! Um lixeiro irresistível, admirável, delicioso — principalmente na minha cama, onde vimos nos encontrando há meses, sempre depois das aulas de Antropologia Comparada.

O cheiro dele nunca foi mau. Miro vai me encontrar asseado, até perfumoso. Vez ou outra, prepara carne de panela, arroz de forno, legumes recheados. Meu apetite só aumenta. Ele cozinha bem, e nos comemos maravilhosamente, sem títulos, sem preconceito, sem regras — como nunca tive a oportunidade, nem enquanto jovem, em nenhuma relação com aluno, engomadinho ou acadêmico.
O lixeiro anônimo e invisível que eu procurava como amostra se tornou o melhor amante.

Até ontem, estava tudo perfeito. Eu viveria assim pra sempre, me encontrando com Miro às escondidas. Porém, ele veio com uma história que cheira mal à beça: disse ter encontrado um par de alianças de ouro no lixo. Insistiu em colocar a mais fina no meu anelar esquerdo e a outra no seu-vizinho canhoto dele. A argola amarela me serviu direitinho, e isso me assombrou. Depois daquela presepada, ele me mostrou os versos que fez “pra doutora mais linda do universo”. Estava confiante que só. O texto era algo que rimava “gari” com “abacaxi”, “lixo” com “bicho”, “professora” com “doutora” e “amor” com “calor”. Um desastre!

Assim que Miro saiu lá de casa, escondi o aro do compromisso dentro de um livro velho na prateleira mais alta da biblioteca. Voltei a ser inalcançável. E que esse gari se mantenha invisível como antes. Não tenho nojo dele. Tenho mesmo é vergonha.

Maria Amélia Elói





sábado, 25 de abril de 2015

Monumento ao 25 de Abril ... O




Perante uma obra de arte, cada observador faz dela uma leitura diferente, o que atesta a multiplicidade de sentidos que as obras de arte, geralmente, têm, mas que também reflete a diversidade de cultura, de aspirações e de conceção do mundo dos observadores.
Perante o monumento de João Cutileiro implantado no alto do Parque Eduardo VII, muita coisa já se disse. Muitas observações esboçam um sorriso condescendente pela marotice que a escultura parece representar, outras mostram revolta pela ordinarice que lá leem, ou pela boçalização dum acontecimento com a pureza que é atribuída ao 25 de abril de 74.

O que o artista quis transmitir não sei. O que eu vejo, como observador formatado pelas culturas que a minha vida atravessou, é uma crítica violenta e desencantada ao processo começado em 25 de abril.
Todos falam do pénis, do pirilau, do falo. Eu também vejo um membro masculino, mas tão frouxo, tão impotente, tão pequeno, que mais se deve falar em pilinha. Não vejo um pujante e túrgido símbolo masculino no momento de lançar um jorro de sémen fertilizador. Vejo uma ereção diminuta, que mal sai do escroto, sustentada artificialmente por espeques, escorrendo uma aguadilha. (Numa associação óbvia, pode-se falar de xixi, o que podia configurar a leitura extrema, mas direta para as massas, de que o 25 de abril não passou de «tesão do mijo».) Esta tímida escorrência é o que lhe dá a leitura de pénis, mas o nanismo genital, em vez da esperada magnificência de obelisco, transforma-o em repuxo de jardim.

Falta-lhe escala. Colocado na colina talvez mais alta de Lisboa, tinha de ter uma dimensão bem mais avantajada, dada a sua vocação totémica, e lançar um jacto potente de vários metros de altura. Por outro lado, a opção por uma escala diminuta também pode apontar para outra falta de arrojo, a dos encomendadores, que ficariam desconfortáveis com um vergalho monumental no mais alto da sua cidade.

Em posição fronteira e subjacente está um cravo estilizado. É difícil de identificar de imediato, mas é um cravo, sem dúvida: tem um cálice verde e pétalas. Mas são pétalas que parecem ter sido amarrotadas a partir de cima: o cravo foi esmagado pelos poderes cimeiros.
A localização e a forma aplanada podem sugerir uma ara, um altar de sacrifícios, a que não falta a cor vermelha do sangue que foi cravo.

A enquadrar o altar/cravo, duas colunas com pretensões de elegância, mas ainda assim com um tratamento plástico e iconográfico característico do escultor, mais da área do maravilhoso que do realista e consentâneo com o tema “revolução”. Podem conferir solenidade ao conjunto, como colunas de templo ou dois círios a enquadrar o local restrito do culto. Neste caso, o culto a um lingam, um pilar cósmico em forma fálica.

O monumento implantou-se junto ao local onde existia um pedestal destinado a uma futura estátua equestre do Santo Condestável. O pedestal foi semidesmoronado para ilustrar a velha ordem que o 25 de abril queria derrubar. Dado o tratamento plástico e as opções formais tomadas, todo o monumento se lê como “escombros”. Pode querer ilustrar a nova ordem do 25 de abril que, ao irromper, os provocou, mas também pode querer dizer que este não teve tempo para construir um harmónico edifício nacional, não teve pujança erétil para levar a revolução mais longe. O cravo (o povo?) foi esmagado e sacrificado pelos poderes dominantes. De antigo, só se derrubou um pequeno pedestal. Sobranceiros, lá se mantêm intactos os majestosos pilares do Estado Novo, poderosos, eternos!

Joaquim Bispo
* * *
Ilustração de Rodolfo Bispo: https://www.facebook.com/rodolfo.bispo.77







sexta-feira, 24 de abril de 2015

TROVA DE EDWEINE LOUREIRO _ TEMA: CEREJEIRA



Embora breve, uma flor
num galho da cerejeira
ensina lições de amor
que valem a vida inteira.

(Edweine Loureiro
Saitama – Japão)





terça-feira, 21 de abril de 2015

Via Láctea

Viajou dentro da constelação de sardas que banhava o colo nu vialactante da amada, aterrissando no canyon de seus seios cujas aréolas rosáceas destacavam-se à luz artificial feito Fobos e Deimos no horizonte marciano. Pós-cópula, continuaram assim, juntinhos, orgulhoso primeiro casal de astronautas a se amarem no espaço infinito.





segunda-feira, 20 de abril de 2015

A moça que errou de porta

                                                                           José Guilherme Vereza


Mudanças são detestáveis. Em menos de 4 anos, por três ocasiões, Alexandrino praguejou o
destino e a má vontade geral dos senhorios, atravancado entre caixas e mais caixas por
todos os cantos do quarto e sala recém empossado. Xingou também os indolentes da empresa
de mudanças, sujeitos infernais, despejam móveis, tralhas, bugigangas, livros,
trecos e vinis, e o cliente que se foda para arrumar tudo.

Alexandrino passou a esmiuçar seus pertences inúteis, produtos de neuróticos apegos
sem mais nem por quê, coçando o cocuruto, aquele gesto clichê de quem não sabe por onde
começar qualquer coisa. Precisava encontrar seu companheiro de solidão na multidão
de quinquilharias, o que o fez com alguma sofreguidão, já que não se lembrava onde teria
despachado o amigo de observação e delírios.
Lembrava apenas que tinha usado meias e cuecas para proteger a peça de solavancos e mãos
pouco cuidadosas, mas horas depois, teve a surpresa de achá-lo no meio de utensílios de cozinha,
dentro de uma peneira, com duas colheres de pau amarradas em xis.
Não pergunte a razão de estranha proteção.
O importante é que já poderia dar vazão à sua ansiedade.
Enfim, o binóculo.

Apesar de enfurnado no meio de uma reserva de Mata Atlântica, o novo apartamento de
Alexandrino oferecia algumas tentações à curiosidade obsessiva.

O jardim nos fundos de um sanatório à esquerda da varanda foi logo batizado
de “Recanto dos Pulmões”, onde novos vizinhos despertavam com uma orquestra de
tosses e pigarros, pela qual executavam a sinfonia
também batizada de “O alvorecer dos tísicos”.

Em frente à varanda, árvores de copas frondosas, quando agitadas pelo vento,
descortinavam o azul de uma piscina aparentemente em forma de feijãozinho.
Dependendo da fúria da natureza, a piscina aparecia com menos ou mais pudores.
Disse o corretor que uma madame costumava tomar sol de peitos de fora em dia de calor forte,
ousando tirar a parte debaixo quando se sentia observada por olhos babões.
Prato cheio para Alexandrino.

Ligeiramente à direita, estava uma das curvas da ladeira de paralelepípedo que ligava
o edifício à parte mais urbana do bairro, com um ponto de ônibus, um jornaleiro e um quitandeiro
ambulante, todos cobertos pela luz tênue de um poste solitário ao chegar do anoitecer.
Um pouco mais à direita ainda, lado oposto ao sanatório, um edifício de quatro andares
e janelões deixaram Alexandrino saltitando guloso, passando a língua pelos lábios.
Alguns nus ligeiros, toalhas descortinadas, muitas indiscrições.

Mas nada tão atraente quanto à varanda debaixo, à direita ao seu apartamento.
Dava medo de olhar. E assim, Alexandrino nem percebeu que bem nas barbas do seu voyeurismo,
na primeira tarde-noite do primeiro sábado, uma festa estava se organizando.
Ouvia sem atenção o tilintar dos copos, pratos e talheres, o burburinho
apressado de palavras indecifráveis, mas certamente cheias de frisson e
gargalhadas - e a vitrola que já arrastava uma Bossa Nova, algo diferente das canções
que se acostumou ouvir. Alexandrino remexia caixas e mais caixas, empilhava livros,
guardava roupas, já estava exausto.
Mal percebeu a campainha.

- Oi, desculpe, acho que errei de porta.
- Acho que sim. E infelizmente. A festa é no andar de baixo.
- Desculpe mais uma vez. Não quis atrapalhar o senhor.
- Não se preocupe.  E não repare a bagunça. Acabei de me mudar. E não me chama de senhor.
- Então... 
- Então??
- Até ... boa noite
- Pra você também. E erre sempre...

Alexandrino fechou a porta e os olhos.  Reviu uma mulher de vinte e tantos anos, moreninha do sol carioca, vestido tubinho lilás pastel, joelhos à mostra, cabelos curtos roçando os maxilares e um sorriso devastador. Trazia na mão direita um presente e na esquerda algo como uma garrafa embrulhada em papel celofane. Falava olhos nos olhos. Tinha a firmeza da sinceridade e a fragilidade de quem acabou de cometer uma gafe.

Alexandrino não estava acostumado com isso. Nunca o destino tinha entregue em seu domicilio
uma inspiração tão violenta. Chegou à taquicardia.

Apesar de seus quase 38 anos, tinha um medo de mulher que se pelava. Mulher, não: amor.
Sempre dispôs de belas amantes à sua volta e na sua vida, mas nada de amadoras, fabricantes
contumazes de desgostos, segundo o que dizia a partir de alguns traumas inesquecíveis.
Preferia as profissionais, a quem reservava uma boa parte do seu orçamento mensal e nenhum
pedaço do seu coração. Volta e meia acordava com uma contratada, e diante do corpo ao seu
lado, pedia que se vestisse e tomasse o rumo da vida. Sem constrangimentos de parte a parte.
A hora de ir embora, sempre calada, era expressa através de um gentil canudinho de notas
colocado entre um seio e outro, preso ao sutiã. Às vezes, instalava o mimo pela da frente da
calcinha, numa alusão à qualidade do serviço.

E assim partia cada um para o seu canto. As moças cambaleavam seus saltos porta afora e
Alexandrino virava-se para um último cochilo, justo e saciado. Desse jeito Alexandrino
seguia a vida, protegendo-se de tremores como o que acabara de sentir com a moça equivocada,
que mesmo errando a porta, acertara em cheio seus medos mais tenebrosos, sentimentos nada paralisantes, muito pelo contrário: empurrado por uma força incomum rastejou até a varanda,
onde ficou como um pracinha na trincheira, binóculo na mão, olhos fixos nos movimentos
que vinham do apartamento debaixo.
Era um olhar de viés, numa posição de cima para baixo, onde só se alcançava, na maior parte,
chão e assoalho, mas o bastante para descobrir a dona das pernas bem torneadas
que escapavam do tubinho lilás.

Era ela. Que gingava no ritmo de algo parecido com “Era uma vez um Lobo Mau...”. 
Que encontrara o caminho da festa e destilava seu charme venenoso deixando escapar ao
binóculo potente coxas morenas de pelinhos dourados.
Que por inocência ou maldade exibia seu balanço cada vez mais próximo do ponto onde
a varanda pertencia aos abelhudos. E depois do Lobo Mau, vieram Bolinha de Sabão, 
Diz que Fui por Aí, toda sorte de sucessos emergentes, até que Alexandrino sucumbiu.
Perdeu as forças na lajota fria, deixando o tempo para trás.

Voltou aos sentidos no primeiro raio de sol, e percebeu que o sonho era persistente:
a moça permanecia no mesmo lugar, no seu balanço estonteante, agora, embalado de um
Rock and Roll pélvico, coxas mais à mostra do que nunca e, a mais cruel das tentações:
descalça. Completamente descalça, expondo a nudez mal intencionada de pezinhos
esculpidos pelos deuses em dia de diabo.

O que se via naquele momento emanava cheiro de festa e desejo. Cerveja fermentada,
cigarro, uísque, rum, Coca-Cola, vitrola, palmas, risos, gritinhos. Em pouco tempo,
o vozerio já não era tão intenso, tudo foi se dissipando. Mas a moça ainda resolveu
cometer o último ato de perversidade: como certa de que havia testemunha do seu gingado,
chegou o mais que pode no parapeito da varanda. Olhou para cima à esquerda e fulminou
com um sorriso afiado um Alexandrino encabulado, indisfarçável, pego em flagrante,
atrás de seu binóculo. E ainda teve a impiedade de levantar
um copo e lhe mandar entre os lábios um “Já acordou ou nem dormiu? ” 

É possível que Alexandrino tenha respondido. Mas ele não se lembraria.
Estava por demais perturbado para se lembrar de qualquer outra coisa naquela noite,
naquela madrugada, naquele dia que raiava.

Já passava de duas da tarde. Sobre o colchão malvestido de lençóis, ninho improvisado
direto no taco do quarto desajeitado, Alexandrino acordou lentamente ao lado de uma
moreninha nua que ressonava sem pudores nas profundezas a que foi atirada por tantos
êxtases e prazeres diversos e recorrentes.
Alexandrino reparou seu rosto escondido entre os cabelos pretos e um travesseiro sem fronha.
Conferiu orgulhoso o dourado dos pelinhos das coxas por onde se lambuzara minutos atrás.
Fitou sua estatura na medida da sua fantasia, seus pés maldosos semi envoltos num edredom amassado, sua pélvis posta em sossego, tal como seu triângulo bem aparado repousando feliz,
depois de tanta atenção e carinhos a ele dedicados horas a fio.

Embeveceu-se, enterneceu-se, estranhou-se. E olhou em volta:
o tubinho lilás pastel, a calcinha, o sutiã, as sandálias de salto alto, cada pedaço atirado
a léguas um do outro. As caixas, os livros, os vinis, os trecos, tudo que se via pela porta
entreaberta do quarto bagunçado ao caos da sala, tudo fora do lugar.

Voltou os olhos a ela. Como era mesmo seu nome? Sônia, acho que ela disse em algum
momento, um momento qualquer sem ponteiro e sem relógio, que se eternizava a cada instante silencioso e contemplativo. Sônia. Que sorria como se sonhasse, que sonhava como se
sorrisse. Será que ela gostaria de um café na cama? Onde está o pó de café?
Tem manteiga? Pão de forma? Geléia? Queijo fresco? Uma flor na bandeja?
Em que caixa de papelão ficou a torradeira?

Uma semana depois o apartamento estava arrumado.
Com capricho, toques de vida e traços de civilização amorosa.

E lá nos cafundós da entrada de serviço, dois serventes do prédio,
que ainda recolhiam os restos da mudança, quebravam a cabeça
para consertar um binóculo partido.





sábado, 18 de abril de 2015

Fragmentos de areia


         
        
      Uma concha às vezes aparece, mas geralmente caminho sozinha sobre minhas farpas e me perco. Me acho, depois me desacho e penso não vou me suportar. Então vêm as ondas e me recobrem, afogam – eu que sei quase nada de caminhos, sede, calor. Eu que sei tão pouco dos meus grãos finos, ligeiros e arrependidos, distorcidos a tal maneira que nem sei se consigo um dia fazer deles um punhado, em minhas mãos, e deste punhado um corpo, objeto, ser.
O vento me desfez muitas vezes, mas sigo. É doce mudar de direção, despertar, abrir-me ao mundo e com ele me encontrar. Vagar sem ser onda, sendo só grãos de areia que procuram um corpo, o meu, o seu, e que não querem apenas se dissipar. Querem ferver, fritar, fissurar.
Atrito. A areia se cola a meus pés e pernas e arde. Dói, irrita, quero tirá-la, mas a cada vez que vou lavar-me, preciso regressar e ela se gruda novamente. É pegajosa, sinto vontade de rolar, me recobrir toda, e olho para você, que ri de mim e se diverte. Vejo, me acha tresloucada, daí te puxo para mim.
Com minhas mãos arenosas aperto teu pau e te provoco, quero sentir tua língua lambendo minha areia. Jogo um punhado dela, areia, nos pelos do teu peito e te faço rolar comigo. Podemos fazer o que quisermos, não há testemunhas. Até comer areia, e eu passo alguns grãos na minha língua, só um pouquinho, e dou para você provar. Beijo tua boca e esfrego areia no teus ombros. O vento bate e desorienta meus cabelos, sei que nossa areia não ficará gravada. Depois nos lavaremos, e no banho nossos corpos não serão os mesmos. Agora os quero sujos.

Teu pau arenoso roça em mim e cava uma abertura triturante, os grãos vêm junto. Eles me ferem por dentro, mas eu gosto e peço que enfie fundo. Solto o biquíni, espalho areia em meus seios. Percebo querer muitos seios, e já não sei se sonho, se é a areia que vem e mistura tudo, mas dou alguns seios para você. E teu corpo, mãos e pés grandes, arredondados, macios, a nuca forte e larga. Ah, teu corpo está tão repleto que gozo de te ver, a boca no mamilo salgado, e caio para trás, estertorada e gemente.





Habemus manifesto


Pai, olha mais um novo manifesto.
A febre está em 39 graus. Não adianta um termômetro.
O remédio não serve e leva uma multidão indignada para as ruas do país.
Diferente do teu tempo, né? Lá em 68 a marcha era interrompida. O estampido não era de um fuzil, mas de um forte raio que caia sobre a cabeça de tanta gente.
15 de março
12 de abril
Condição febril de muita gente, grande parte com plano de saúde, mal atendido e escutando o jornal sobre a situação de um hospital público, enquanto o almoço acontece e a corrupção anoitece o país.
Esse feito continuará até a hora que parar, por que meu pai?
- O Brasil este senhor a quatro dias de completar 515 anos
sair para manifestar é opção comum
direito eu diria
- Pois é, pai;
ao manifestar tenha mais perguntas que respostas
são fortes armas e argumentos de lamento e incompreensão

Quão bom seria mais manifestos escutados e menos camisas da seleção brasileira de futebol e o onipotente brasão da CBF.
O Brasil é uma nação, não apenas um bando de torcedor em close para um selfie.






sexta-feira, 17 de abril de 2015

Quando acabei de acordar





                   

                     Pernilongo, não venha morder pela manhã, quando acabei de acordar...
















quinta-feira, 16 de abril de 2015

O menino

São os olhos dele que não me deixam dormir. Os olhos opacos, estáticos, engessados, pousados na ausência. Eles não pedem, esses olhos. Não se movem em buscas. Sabem que seja nos arredores, seja no imensurável do longe, o que há é o nada. Não, não é. Antes fosse o nada. Esse vazio que não acalenta, mas que também não dói. O que cerca esses olhos vazios é o tudo. O inalcançável e esfuziante colorido do tudo. Que não lhe pertence. 
Ele apenas desistiu. Sabe que os vidros das vitrines foram feitos para promover o apartheid do pão. Ele sabe — aprendeu nas aulas de cotidiano — que lugar de menino pobre e preto é no sinal dos cruzamentos, nos montes de lixo, nos becos do morro, no papelão das caixas desmembradas em camas, na porta dos cafés pedindo um trocado e ganhando deboche. E limpa com cuspe o sangue do dedo que machucou na véspera. E cheira um pouco de thinner pra matar a fome que nem é de véspera. E não volta para o barraco pobre onde vive com a mãe porque lá agora tem um homem que faz a sua mãe de pasto, e que faz os filhos da sua mãe de pasto. 
Ele não quer olhar mais nada. Não quer ver o que não pode ter. Nem quer ver o que incomoda. Como a piedade nos olhos da mulher que lhe trouxe comida. Foi ontem? Ou anteontem? Ela passou as mãos nos seus cabelos sujos e emaranhados e sorriu e perguntou o nome dele e sorriu de novo. Depois lhe deu a marmita embrulhada num saco de plástico branco. E ele não aguentou. Sentiu o corpo esquentando, tremendo, se preparando para um abraço que não existiria. Mas existiu. Existiu, sim. E aí ela foi embora. Tinha mesmo que ir. Todos vão. 
Por isso ele não quer mais ver. Não ia suportar outro sorriso. Não para depois ter que olhar novamente para a feiura das calçadas cheias de escarros. Ter que olhar para a lata de cola, para os pés descalços, para o dedo sujo de sangue que ele vai limpar mais uma vez com a saliva grossa. Ele não quer mais ver o sol que é amarelo como o dos desenhos dos meninos que ele viu no mural do pátio da escolinha. Viu pela grade. E achou bonito. E quis ter lápis de cor de ponta afiada para desenhar um sol para si mesmo. Para guardar no bolso do short surrado e iluminar o breu do medo.
Ele não quer mais ver o que é bonito. Nem o céu cheio de estrelas, nem as nuvens gordas e brancas, nem os desenhos dos meninos, nem o sorriso da moça que acarinha os seus cabelos. Ver é sofrimento. Desejo de mais. E ele não quer, não pode. 
São os olhos dele que me mordem os sentidos. Até ontem, opacos, apáticos, tão cheios de renúncia. Hoje, dois buracos fundos de onde escorre o sangue ainda vivo que ele limpa com saliva. Dizem que furou com um lápis de cor. Para desenhar um sol por dentro.
Ele agora quase sorri. Eu sigo adiante. Com os meus olhos culpados.






quarta-feira, 15 de abril de 2015

Que Deus o guarde



Ela trazia-o na algibeira da saia, um bolso estreito e fundo que se desprendia a partir da cintura como se fosse alforge.
Um dia mostrou-mo.
Nesse dia, fiquei sabendo do relógio e fiquei sabendo que aquele bolso podia conter tesouros. De vez em quando, raramente, ela segurava a minha mão e guiava-me até eu encontrar o que lá me tinha colocado: um berlinde novo, um par de meias que tecera nas cinco agulhas, um naco de folar doce embrulhado em guardanapo, as primeiras nêsperas num pacotinho de cartão. E, num Natal, lá estavam, embrulhadas em papel celofane, duas notas de réis: foi quando assentei praça, e já tinha sido quando fui chamado para as sortes.
O bolso ficava dependurado entre a saia de cima e a saia de baixo, e balançava ao ritmo dos seus passos. Disso, que, por vezes, tilintasse, e era se havia pedrinha ou dedal ou outra peça que ela tivesse, para ali, jogado. Coisa miúda que bulia com o relógio que era redondo: um mostrador encrustado em prata gravada com risquinhos, raminhos de planta de uma qualquer espécie que também decoravam a tampa que protegia um vidro límpido, vagamente convexo, através do qual os algarismos pareciam arredondar-se.
Mostrou-me o relógio uma vez apenas e eu fiquei maravilhado.
Depois disso, só voltaria a vê-lo ao tirar-lho do bolso, estavam as mulheres a preparar-lhe o corpo para o enterro.
Minha tia-avó de nome Mariana Brites.
O relógio tinha pertencido a um seu bisavô que andaria com ele no bolso do colete preso por uma corrente que se terá perdido, ou terá sido empenhada ou vendida, ou minha tia-avó a terá ofertado pelo casamento de alguma afilhada muito querida.
Esse bisavô de Mariana Brites havia de trazê-lo naquele domingo de Páscoa, quando, no regresso de ter assistido à missa com a bisneta, foi acometido do que nem terá sido doloroso mas tão intenso, que ele nem subiu os dois degraus da casa onde, um dia, eu havia de nascer. Morreu ali mesmo e, por perto, apenas minha tia-avó que um dia ficaria senhora do relógio, esse que ela usava no resguardo de uma saia de cima e outra saia de baixo. E que ninguém lho referisse. Que ninguém nunca lhe perguntasse: que horas são, menina Mariana? que ela responderia: e eu lá sei de horas, criatura de Deus.
E não sabia.
Que minha tia Mariana Brites guiou-se sempre pelas badaladas do relógio da torre e nem terá aberto a caixinha de prata muito mais vezes do que aquela em que decidiu mostrar-me o seu tesouro.
Terá sido, pois, pelo relógio da Igreja que ela soube a hora certa de eu ter vindo ao mundo.
Nasceste às dez em ponto, disse-me, e repetiu-me.
Dez pancadas batidas, uma a uma, na torre da Igreja, e ela contando.
Estaria o meu pé esquerdo a sair para este mundo um pouco depois do meu pé direito, quando Mariana Brites contou a derradeira badalada e, enquanto isso, no bolso da saia, fazia tic-tac o relógio que herdara.
E os deuses que me perdoem se é heresia, mas foi o que fui ouvindo: que ao soar da décima pancada, minha mãe ouviu, não o tic-tac compassado do relógio ressoando de entre cada uma das saias que Mariana Brites, nesse dia, trazia cobertas com um avental muito alvo, mas uma voz que dizia, repetindo: que Deus o guarde, que Deus o guarde. Minha mãe escutando essa voz cava, voz de homem com catarro, ela que, até aí, estivera debulhada em ais e em orações que enviava aos deuses e a São Clemente, santinho da sua devoção. Minha mãe a saborear o milagre de me ter trazido ao mundo, terá escutado a voz que repetia: que Deus o guarde.
Eu ouvi contar e nem foi minha mãe que mo contou.
Terei escutado das mulheres; das conversas que elas permitiam que escorressem pelas frinchas das portas: palavras soltas que me chegavam embaralhadas em medidas de peito e de cintura e linhas e alinhavos e tesouras, nas tardes diligentes da costura.
Terá sido desse modo que fiquei sabendo que minha mãe tinha ouvido uma voz ciciada a quebrar o silêncio imenso e improvável que se dera naquele intervalo entre ela estar gozando um merecido alívio, e eu ainda não ter sido sacudido pelo choro incontido que eram os meus pulmões a aprenderem como.
Ao lado de minha mãe, a ampará-la no acto de eu ter nascido, incansável, pequenina, muito magra, Mariana Brites que nunca confirmou nem desdisse, e também não mostraria pasmo quando, já homem feito, lhe perguntasse: a minha mãe ouviu a voz dizendo que Deus o guarde? ela ouviu mesmo, ti Mariana?
Ficou a olhar-me com aquele seu olhar cinzento muito claro e muito brilhante, e disse, simplesmente: chamava-se Bento, menino; esse seu trisavô era Bento de seu nome.
Que Deus o guarde, terá minha mãe ouvido, e só depois foi o meu primeiro choro, e só depois se deu o largar das fressuras, doendo como se ela de novo me parisse; e, auxiliando, Mariana Brites, minha tia-avó, solteira e donzela como ela mesma se vangloriava ruborescendo, ao de leve, nas maçãs do rosto e no pescoço.
Ia Abril a meio quando vim ao mundo. Eram dez em ponto no relógio da torre e seriam outras tantas no relógio que a tia Mariana Brites trazia no bolso.
No Abril seguinte, sugada por doença indeterminada pelos físicos, minha mãe morreu.
Talvez, entretanto, ela tenha contado: quando me nasceu o menino, ouvi a voz do avô Bento.
Ou nem ela o terá feito, receosa dos deuses, e terá sido a tia Mariana Brites quem tenha dito: no dia que lhe nasceu o filho, o meu bisavô encomendou o menino a Deus.
Terá sido de um modo ou de outro, ou eu não teria ouvido as mulheres segredando: quando lhe nasceu o filho, ouviram a voz dum avô antigo.
E benziam-se, que eu sei que elas se benziam sempre.
E nem terão dito, seja o que seja, acerca do relógio que a minha tia Mariana Brites trazia no bolso.
Talvez nunca nenhuma delas o tenha referido.
Talvez tenha sido eu que imaginei a voz desse avô Bento a surgir de dentro daquele mecanismo escondido na caixinha de prata trabalhada, onde o vidro se mantém límpido e onde ainda se ouve o tic-tac a cada minuto.







sábado, 11 de abril de 2015

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Meu canto de amor é como um gemido do blues
rasgado
sofrido
melodioso
perdido
como os apelos desencantados da vida...





sexta-feira, 10 de abril de 2015

Notas desde o Fim do Mundo (excerto)

Notas desde o Fim do Mundo
Texto e tradução: Henry Alfred Bugalho

http://www.wattpad.com/story/29132793-notes-from-the-end-of-the-world

Manuscrito recuperado em um sotão em New Lexington, OH (EUA)
Robert Campbell, Jr.

Porque escrevo

Eu escrevo.

Por quê?

Porque não há nada mais para se fazer. Porque não há mais ninguém com quem conversar. Porque é uma afirmação existencial de que eu ainda existo.

Escrevo, logo existo.

Encontrei esta velha máquina de escrever Remington no meu porão. Coisas velhas do meu avô. Ela sempre esteve lá. Bem, pelo menos desde que ele morreu vinte anos atrás. Só decidi dar uma olhada naquelas caixas depois que o mundo acabou; então desci, procurando por alguma razão que justificasse o fato de estar vivo; por algum motivo para me manter persistindo, mesmo não havendo um sentido superior ou transcendental para a vida. Se havia Deus ou deuses ou santos, todos eles morreram junto com o restante da humanidade. Encontrei muitas e muitas fotos, e uma infinidade de cartas. Meu avô havia lutado na Segunda Guerra Mundial. Aqui e ali eu podia ver uma foto dele em seu uniforme, trajando um sorriso de orgulho, provavelmente contente por estar lutando contra os nazistas em algum rincão da Europa. Um salvador do mundo contra as forças malignas do Eixo. Que bela vida ele deve ter tido nesta época! Depois, ele se casou com a minha vó, tiveram cinco filhos, acomodaram-se nesta casa e o resto é história.

Meu pai cresceu nesta casa, e juro que, de vez em quando, posso ver o fantasma dele vagando por estes corredores e quartos à noite. Talvez seja apenas a minha imaginação, ou talvez eu também esteja adoecendo e morrerei em uma semana ou duas. Delírio... Este é um dos sintomas da doença que extinguiu o homo sapiens sapiens da Terra.

Minha família se mudou para cá depois que meu avô morreu. Eu era um adolescente neste período e, para mim, parecia mais uma punição; deixar todos os meus amigos em Manhattan para vir para este subúrbio sem vida e tedioso. Logo que eu tive uma oportunidade, retornei a Nova York para estudar, conheci minha esposa e não retornei mais para este lugar por alguns longos anos. Por que eu viria para cá? Por que eu deixaria as luzes da cidade e as intermináveis aventuras da Big Apple para voltar para isto?

Entretanto, quando tudo começou, quando todos começaram a morrer, e a voltarem à vida novamente como cruéis e imbecis animais, não consegui pensar em melhor lugar para me esconder.

O mundo acabou seis meses atrás (eu acho, porque não tenho computado precisamente o tempo; tudo que sei é que era verão durante a epidemia, e que estava nevando pesadamente lá fora hoje de manhã), e durante este período eu levantei muitas centenas de indagações. Mas uma recorrente, que me assombra a cada santo dia, que ainda estou tentando responder é:

Por que eu sobrevivi? Por que sou o único que restou?


Trecho do work-in-progress Notes from the End of the World, disponível para leitura em inglês no WriteOn e no Wattpad





quinta-feira, 9 de abril de 2015


Pequeno excerto de Páscoa

Fernanda Fatureto

Em 5/4: É Páscoa e escrevo. A chuva cai delicadamente sobre as plantas. A cidade cinza começa a acender suas luzes e o vento frio corta a pele. Há muito a Páscoa ressoa como um mito cristão distante que nos obrigada ao confessário para relembrar o quanto somos bons conosco e cruéis com os outros. A páscoa nos impele para o paladar doce – um conforto útil para nossas almas (palavra gasta pelo evangélio): ainda acreditamos que a alma existe?
Ao retomar o trajeto para casa, vejo meninos nos faróis e penso no menino Jesus. Todas as vidas deveriam valer o mesmo. 
A publicidade dos painéis da cidade mostram ovos de chocolate e logo esquecemos de Jesus. Como esqueceremos que todas as vidas devem ter o mesmo valor. Uma páscoa esquecida. 





Carta ao filho

Samuel,

Não tenho muito a dizer. Apenas o necessário que até hoje não obtive de sua atenção.

Você me acusa, sempre. Sobre os mais variados problemas, com os mais discrepantes argumentos – se é que se pode chamar de argumento as frases curtas, desconexas de sentido em sua concepção, apinhadas de gírias que você aprendeu com seu bando em alguma boca de fumo por aí.

Sou o motivo de tudo de errado que acontece em sua vida, e a razão de seu conflito com o mundo, segundo o pouco que decifrei de suas palavras. Mas que mundo tão cruel é esse em que você vive? O mundo do seu lar, onde você tem um quarto pra dormir, roupa pra vestir, comida à mesa nas refeições e tudo que desejar? Ou um mundo imaginado, pintado em tons obscuros, fruto de companhias erráticas e errantes, as quais você resolveu se unir só pra me afrontar?

Você aponta o dedo pra mim, brada aos berros, e eu tenho de aguentar tudo calado, pacientemente, em consideração a sua mãe, que tem a saúde frágil desde o seu nascimento – você sabia disso, não? - e não quer que a situação se deteriore mais. Isso é um peso enorme pra mim. Logo eu que fui criado debaixo de cabresto dentro de casa e fora dela, em colégio militar, e depois formei família, pela lei natural da vida, sem nunca levantar a voz aos meus pais, por respeito e por medo – mais por medo, é verdade. Ainda assim, havia hierarquia.

Suas atitudes o levaram ao lugar onde você está agora, não sua filiação. Se você tivesse uma parte do meu caráter, e se espelhasse em mim como exemplo, certamente sua juventude teria sido bem diferente. Mas você é assim, inconsequente, incoerente, despreza tudo que lhe traga o mínimo de dignidade. Gosta da sujeira social, do lixo cultural. Se contenta com as migalhas do que tem, sem pensar no por vir.

Você me despreza, e mesmo não sendo sua intenção, pela forte ligação com sua mãe – que me é uma incógnita –, você a leva junto para o mesmo poço fundo onde me atirou. E isso não é justo. Você pode supor que estou querendo colocar um contra o outro, e, no meu íntimo, há até esse desejo perverso, mas o que estou querendo dizer é que, me condenando ao limbo de sua vida, você a faz sofrer duplamente. Claro que você ainda não tinha se dado conta disso, arrogante que está.

Confesso que te amo, mas pra você isso não quer dizer muito mais que simples palavras enxertadas no meio de um “acerto de contas”. Digo assim, entre aspas, porque não há uma discussão bilateral. Nem nesta carta nem quando você proferia seus gritos contra mim, sem me dar chance de resposta. Mas é pelo amor que ainda tento essa reaproximação – a última? –, com aquele que um dia já me admirou e me chamou de ´meu herói`. Em que ponto deixei de ser essa figura mítica, me pergunto, sem conseguir encontrar uma data, um fato, uma interpretação equivocada ou palavra mal colocada de minha parte que pudesse consubstanciar seu abominável comportamento.

Você quer criar sua própria identidade, é natural, e o apoiaria nesse sentido, não fosse sua infindável dedicação à autodestruição a partir do personagem que forjou para si. A psicologia é capaz de explicar seus desatinos, isso eu já pesquisei, mas são tantas as possibilidades diagnósticas que nunca cheguei a uma conclusão irrevogável. Seria preciso recorrer a um profissional do ramo, mas logo descartei essa ideia, sabendo que não estaríamos em condições de entrar em acordo sobre isso. Por ironia do destino, agora você é obrigado, mas soube que se cala nas sessões.

Se um dia você aceitasse ao menos um conselho meu, que fosse este: converse com a psicóloga. Exponha seus sentimentos. Fale de mim – preencha sessões e mais sessões com sua predileção por me atacar, mas ao menos fale. Você está perdido, por mais que não admita ou não tenha se dado conta de seus medos por trás dessa máscara de transgressor que você se revestiu. Reveja sua vida, ouça o que ela tem a dizer. Depois disso, escolha entre continuar a ter atitudes infantis ou se tornar um adulto responsável daqui a pouquíssimo tempo.

Não tenho muito mais a dizer, até porque ficamos tanto tempo sem nos falarmos, e já pensei e repensei tantas questões, e por tanto tempo, que não vejo sentido em me estender. Também acredito que me esforço a escrever estas palavras mais por obrigação moral do que por ter esperança de que sejam lidas por você.

Olhe a sua volta, e tente calcular o quanto está perdendo de tempo neste lugar.

Com estima,

Seu Pai.


Foto: Until we think in the opposite way we can't take the full essence of reality, de Vincepal.
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