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sábado, 17 de agosto de 2019

Minha casa, sem móveis, sem nada



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               Minha casa, sem móveis, sem nada, desprovida de tudo, perdeu suas divisões. Não há mais quarto, sala, cozinha, o apartamento é um só. Me alimento em qualquer lugar, durmo em qualquer lugar. Sempre que abro os olhos estou olhando para algo diferente. Fecho os olhos olhando para o céu, em diferentes posições. Já acordei com a cabeça encostada na porta. Dormi aquecido pelo fogão. Perdi qualquer distinção. A liberdade, a minha liberdade acontece assim. Tudo se unifica sem diferença, sem nome; posso me encostar e aqui ficar quando sentir cansaço. Em qualquer lugar. Em todos os lugares. Em nenhum lugar.

















sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Aposentadoria


A casa grande, com quatro quartos e quintal e varanda. Jardim e horta em comunhão sem hóstia. No chão, o brilho-fruto de todos os panos esfregados diariamente pelos braços de veias saltadas. A vida inteira limpando para os outros. Para a mulher de salto alto, para o homem de sapatos de cadarço, para o rapaz de tênis, para a menina de botas. Pisadas grandes, pequenas, tortas, transformando em barro as poças de sabão que ela mal termina de esparramar pelo piso. Um bom-dia esquálido. Três, quatro indiferenças despercebendo a sua presença acima da superfície do assoalho sempre sujo, da cozinha sempre suja, dos banheiros sempre sujos. Dia 1, dia 2, dia todos. Até hoje, dia de acabou. De ir embora sem olhar pra trás. Que ela não é boba como a esposa de Ló. Olhar pra quê? Pra quem? É para frente que ela olha e busca. O gozo se antecipando na cabeça. A imagem da casa comprada pelos filhos. Com cama de rainha e chuveiro quente. Redondo e largo como um prato branco. Com geladeira de dois andares. Tudo em 12 vezes no Magazine Luiza. Com jardim na frente. Em cores mais bonitas que as cores das aquarelas penduradas nas paredes da casa dos patrões — e que ela nem sabe que se chamam aquarelas. Pinturas, quadros. Gostou deles a vida toda assim, com esses nomes mais simples. Mas o jardim dela é mais lindo. E vai ficar ainda mais, agora que ela pode cuidar de tudo sem pressa. Pra que pressa? O sonho na cabeça, tão bom que já nem é mais pra frente que ela olha e busca: é pra dentro. A dor no peito, tão forte que ela não acha mais ar. A mão suja de sangue pressionando o estômago que a bala perdida estraçalhou. A cortina dos olhos se fechando a contragosto. Apagando todas as aquarelas. 





terça-feira, 30 de julho de 2019

COLUNA SOCIAL


“Deixai que os mortos sepultem os seus mortos”.
(S. Lucas IX: 60)

“O homem morto ainda é, de certo modo, homem social.”
(FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos. 10ª edição. Rio de Janeiro e São Paulo: Record, 1998, pág. LIX)

Naquele dia, a página dos obituários estampava um anúncio como há muito não se via. Ocupava três quintos da página e anunciava o falecimento de um senador da República, descendente de senhores de engenho, irmão gêmeo do cardeal, acionista majoritário do maior banco privado do estado, empresário da indústria têxtil, cunhado do prefeito, pai de uma top model, enfim, um homem que, mais do que pertencer à nata da sociedade, sentia como se fosse ela que a ele pertencesse como a nata do leite de sua melhor vaca cujo nome só o ordenhador saberia, se tivesse se dado ao trabalho de nomeá-la. Decretou-se no estado luto oficial por três dias e o carro de bombeiros que levava o ataúde ao cemitério foi seguido por um verdadeiro cortejo de limusines que transportavam pela avenida principal não só os Três Poderes em peso mas quase todos os colunáveis da região. Um exército de jornalistas tudo documentava.
Diante do grande mausoléu onde o corpo seria guardado até o final dos tempos ou da nossa civilização (o que viesse primeiro), as lentes da imprensa salivavam. Enfim, após nove longos anos de espera, aquelas portas se abririam para o gozo dos leitores das colunas sociais e glória dos artistas locais. Aquela enorme construção na área nobre do cemitério, com sua austera fachada toda em mármore, ornamentada com motivos vegetais em estuque (bem ao estilo art-nouveau, como era moda na época do Segundo Império) e vitrais que só poderiam ser vistos em todo o seu esplendor do lado de dentro, despertava a curiosidade de quem passasse por aquelas aléias. Os fotógrafos veteranos ainda se lembravam do grande acontecimento que foi a abertura daquelas portas para os periódicos locais nove anos antes, quando do falecimento da esposa do agora sepultando: os velhos exemplares da revista, cuidadosamente guardados nos arquivos dos editores e disputadíssimos entre os amantes das artes, registravam em cores o brilho dos grandes vitrais: na parede leste, banhados pelo sol: à esquerda, o vaivém dos anjos na escada sonhada por Jacó; à direita, Lázaro saindo de seu túmulo ao ouvir o chamado do Nazareno; na parede Oeste, o pobre Cristo sendo deposto no túmulo do rico Arimatéia, e um outro, com o Filho de Maria novamente vivo, mostrando suas feridas a S. Tomé, obras não muito anteriores à República, segundo especialistas. Na parede Norte, estrategicamente localizado para ser banhado ora pelas luzes coloridas dos vitrais que saúdam o sol nascente, ora pelas cores dos que se despedem dos dias passados que se acumulam sobre a memória dos mortos, um pesado altar de jacarandá do século XVIII, encimado por castiçais de prata, para lembrar a necessidade de algumas preces entre luxos e lágrimas, à direita do busto de mármore que cobre, no centro da parede, o jazigo do ministro do Segundo Império que ordenou a construção daquela suntuosidade. No teto, um afresco datado de 1928, retratando, como anjos prediletos da Virgem Santíssima, três membros da família mortos na mais tenra infância: uma menina morta em 1870 pelo sarampo; um menino picado por uma serpente, hóspede indesejada do latifúndio familiar, em 1900; um outro que se afogara no lago da fazenda em 1927, sobrinho-neto daquela vítima do sarampo. Tanto sucesso fez essa foto que uma gráfica pediu autorização para reproduzir aquelas figuras como se fossem românticos cupidos para ilustrar cartões para o dia dos namorados, no que concordaram os proprietários da obra, desde que se registrasse no verso ter sido a concessão cortesia da família, que cedia os seus direitos para uma instituição de caridade, limpando, assim, sua consciência da culpa da profanação e assegurando aos consumidores os seus mais pios sentimentos. O que ainda não se vira, e era o motivo da apreensão daqueles profissionais, era o comentadíssimo e inédito mosaico que, sabia-se, o senador encomendara a um renomado artista da cidade, retratando sua defunta esposa no Céu, aprendendo música com Santa Cecília.
Terminados os discursos, qual não foi a surpresa de todos quando a top model em prantos, depois de posar para as lentes com a chave na fechadura, percebeu que ela não era necessária, que alguém soubera violar aquele templo da saudade serrando a tranca que fechava a porta dupla. O susto a fez esquecer a solenidade do momento e atirar-se bruscamente para dentro do santuário familiar.
Não se ouviu mais que o ruído ininterrupto das máquinas fotográficas quando as portas foram escancaradas e os flashes iluminaram a figura esfarrapada de um mendigo dormindo sobre a sepultura de um antigo prefeito, primo do sepultando. E, junto à parede do comentado e inédito mosaico, sobre o jazigo da virtuosa dama que esperava juntar-se ao consorte, coçava-se um vira-lata, companheiro único do indesejado inquilino. Espalhados pelo chão, alguidares de barro e garrafas de aguardente que deveriam ter contido oferendas e despachos feitos à noite no cemitério e pareciam ser o alimento principal daquele indigente.
Irritado pelos flashes, o cão pôs-se a latir e acabou por despertar o seu dono que, primeiro, abriu os olhos, logo agredidos pelas luzes dos flashes que nunca vira e do Sol que aprendera a evitar. Expulso do mundo dos sonhos, demorou a erguer-se e pareceu fazer um enorme esforço para compreender o que estava acontecendo. Lentamente pôs-se de pé e, visivelmente alcoolizado, precisou apoiar-se no altar de jacarandá para equilibrar-se.
Ao homem, cujo rosto mal se distinguia coberto por longos cabelos revoltos e pela barba vasta e hirsuta, não se podia atribuir outra idade que a da solidão sem data, nem outra linguagem que a da insociabilidade imemoriável. A sua pele coberta por uma crosta cinzenta de poeira assentada sobre a argamassa do suor e o sexo que emergia de suas calças rotas eram toda a sua biografia. O vento que levava para dentro o perfume das coroas de flores era o único eufemismo na epístola de sua condição.
Os olhos negros do marginal fixaram-se na íris azulada da herdeira e, por alguns instantes, ambos tentaram entender como eram possíveis suas diversas existências. Cada um recuou para o seu lado um passo e o cortejo fúnebre avançou dois. Os lábios dela se abriram, o braço direito ergueu-se tentando apontar para fora; os dedos encardidos dele empunharam um castiçal. Quando a palavra por ela fosse dita, o arremesso por ele seria feito. Tranqüilo, o morto esperava. Os carregadores estavam impacientes.
Ela notou que os braços da aparição eram finos como os do senador quando o câncer, paciente,o roía e, após cada noite de insônia no hospital, o olhar com que a recebia era o mesmo daquele zumbi. A solidão é irmã da morte.
Olhou para o intruso à sua frente: o rosto dele afirmava; olhou para o pai no esquife: o rosto dele negava; olhou para os carregadores: os seus rostos exigiam; imaginou seu próprio rosto: ela própria temia. E em meio a tanta gente, todos eles estavam sós, presos às suas fisionomias. A solidão nos une.
Pela boca batonizada saiu uma leve corrente de ar, prenúncio de um fonema constritivo, acredito que um / f /. Os lábios se conizando como uma flor ou um beijo não completaram o sopro, que deveria ser seguido por uma vogal: ó... A sílaba foi abortada porque que utilidade haveria em pronunciar aquele “fo”, que teria de ser seguido por um “ra”, igualmente inútil? Compor-se-ia a palavra e, se com palavras Deus criara o mundo em seis dias, as palavras ali ditas em nada mudariam aquele mal-estar-no-mundo. A solidão é o silêncio imperativo.
Atrás dela, um segurança de um deputado contraiu a impaciência dos carregadores (A solidão é ansiosa. A ansiedade contagia) e adiantou-se vinte passos em direção aos antagonistas, tomando o único partido que um homem acompanhado de sua gravata poderia tomar naquele momento: oferecer, lancelótico, sua força à rica órfã. Junto a ela se postou. Eram mais dois olhos interrogando o intruso. A solidão é interrogativa.
O segurança era muralha protetora, mas, diferente daquela de Tróia, não se posicionava em torno da protegida, tanto não podia o seu corpo, que não era extenso como o de uma jibóia, apenas desta tinha as cores: o negro-solenidade, combinando com os óculos escuros daquela tonalidade não-me-encare; o colarinho branco-oligarcófilo, os punhos branco-impunidade. A muralha de Tróia foi erguida por Possido, como sabem todos os que amam Homero. Aquela muralha de músculos ali fora postada por uma entidade que não ousa dizer seu nome, cujo poder emana do povo, em seu nome é exercido mas dela o povo pouco sabe. A muralha de Tróia contentava-se em defender. As muralhas homens, jagunços da pós-modernidade, também ameaçam. As muralhas não falam. A solidão está sentada sobre elas e as acrescenta: ela é a muralha involuntária.
A sombra do homem-muralha projetou-se no chão e a mulher pôde ver, com a clarividência das Sibilas, que uma solidão aproximara-se da sua e somara-se a ela mais um peso a pressionar a solidão andrajosa a fitá-la. Seu braço estendeu-se e tocou a muralha. Fez fronteira, pois a muralha estava disposta a avançar. A solidão é ímpeto, avanço e recuo.
A solidão é o arché, o Gênesis indescritível. A solidão do útero prepara-nos para as solidões da vida, solidão adiada que procria. Aquele sujo sexo procriava? O sexo lembrou-lhe outro sexo, e outro, e outro, e outro, e outro, e outro, e outro e palavras de amor, e sensações de gozo, solidão ereta a invadir, sedenta, a solidão úmida, solidão ejaculante, solidão líquida, fecundante, solidão negada, companhia indesejada, companhia abortada, solidão culpada, solidão defendida, solidão necessária, solidão antimaterna, o sorriso debaixo do bigode derretendo a solidão, sorriso de dentes perfeitos, o intruso tinha dentes?, ou sorria pelo sexo?. Teve nojo daquele sexo, tão sujo, parecido com aquele outro, tão limpo. Meu Deus, como eram parecidos! É a sujeira que distingue? Teve nojo dos homens. A solidão é promíscua e casta. E o arché que não se cumpre? O feto solitário na lixeira. A miséria é o maior dos abortos. Que vontade de vomitar-se! Na muralha amparou-se.  A solidão fragiliza sem permitir eufemismos, apocalipse.
A plácida solidão do defunto insultava, sutil, as solidões dos vivos. A ansiedade é o sétimo sentido dos vivos, sentimento do tempo que nos consome enquanto o consumimos. O sangue nas veias não quer parar, corre por todo o corpo em busca da alma que busca, sufocada, outras almas. A solidão é vida e asfixia.
O segurança há muito decidira-se e esperava dela uma decisão. O tempo os empurrava na mesma velocidade da translação da Terra. Meu Deus, por que aquele esqueleto tinha de viver ali, entre os seus mortos? E quando ela morresse teria também de conviver com ele? Será que nem na morte se pode estar só? Que morrer é isso: estar só, cegada e sossegada. Mas como, se o mausoléu fora invadido por um morto que insistia em viver? A morte ali nunca mais seria a mesma.
 A morte interroga a vida. Até então vivera só cegada. Agora a morte dava-lhe em vida os olhos que nega aos mortos e obrigava-a a ver.
Homem-solidão, noite ambulante, tristeza com barbas, lágrima sólida, cadáver que anda, vergonha da Pátria, órfão da Receita, idem da Bandeira, inverno humano, bípede angústia, desengano mudo, jornal sem papel, estômago nu, língua aposentada, nome indizível, saudade do sim, niilismo andante, fé posta em dúvida, Direito em xeque, Estado rachado, setembro sem sete, outubro sem doze, dezembro sem crédito, por que tu existes?, pergunta sem fala, tu sem eu nem nós.
O pária nada tem a declarar exceto no olhar a perplexão de invadido ver o ocupado vácuo que preenchera, solitário vivo-morto entre mortos revividos pelas ruas e praças batizadas com os nomes que tais ossadas foram. Vítima acuada da invasão, minoria esmagada pelo enorme peso dos olhos e das câmeras intrusas, à parede encosta-se e segue, braços erguidos, rumo à luz triste do Sol que denuncia sua miséria para os olhos cegos da cidade, mais só que o Nazareno coroado de espinhos, de inimigos e de fiéis, no alto do madeiro, circundado.
Todos, silenciosos, voltaram-se para ver, aliviados, aquele vulto desgracioso e desgraçado desaparecer na extrema curva do caminho extremo. Estavam salvas família, tradição e propriedade.
O esquife foi depositado no jazigo enfim aberto como o baú de um tesouro pirata numa ilha deserta. E o que era aquele edifício senão um outeiro a mais numa ilha de morte cercada de vida por todos os lados? Sendo que muitas vidas não podiam ser tão belas quanto aqueles depósitos de ossos. A dela própria, será que valeria mais que aquelas flores de estuque que adornavam a fachada, ou, quando para lá fosse recolhida, precisaria daquelas flores pétreas para adornar a sua memória esmaecente? Encostada a um anjo, dialogava com o silêncio.
Um a um foram saindo os colunáveis, junto com eles a maioria dos repórteres. Um fotógrafo ainda voltou-se e tirou uma fotografia sua, daquele jeito sentada, abraçando os joelhos, como já a tinham visto anunciando o jeans de uma famosa grife. A pose era a mesma, diversos só o cenário e a expressão de seu rosto, mas a pose ficou bem natural, essa e outras eram seu hábito. O fotógrafo foi se afastando, mas na porta demorou-se mais um pouco. Por certo, queria registrar uma lágrima. Ela já tinha perdido o hábito de chorar, mas, para não prendê-lo mais ali (devia ter mulher e filhos à sua espera), esforçou-se e fez rolar uma para agradá-lo. Ele a clicou, satisfeito, e se foi. Não era-lhe difícil agradar fotógrafos. Enfim, comprara sua privacidade. Finalmente, estava só.
Sentada num jazigo próximo ao do pai, um sem-número de flores aos seus pés, pôde enfim ouvir aquele estranho som da solidão: aquele som das distâncias: um carro que freia lá longe, muito longe, para além do portão do cemitério, o motorista xingando a mãe do pedestre descuidado que quase atropelara, depois um carro de som fazendo o anúncio de uma imobiliária e, perto, bem perto, o vento acariciando os flamboyants em flor que ornamentavam a alameda principal da necrópole. Os olhos fechados, procurou imaginar o ruído que cada uma daquelas pétalas faria ao chocar-se com os troncos das árvores, o mármore das sepulturas, as roupas dos coveiros que abriam, lá longe – ela  o vira momentos antes – uma cova na ala dos indigentes. Esses ruídos os insetos devem conhecer. Mas era o seu desejo ficar ali, longe daquele grande mundo dos humanos, colar o ouvido à terra até ouvir o marchar das tropas de formigas, prontas para atacar com igual fúria e apetite o indigente cuja cova se abria e a musa de um certo poeta que a cidade aplaudia. Talvez, ouvindo os insetos, pudesse descobrir os caminhos mais estreitos da geral existência, aqueles que todos um dia terão de trilhar.
Mas o caminho dela, no momento, era voltar para a limusine, chorar calada no banco de trás e deixar que o motorista a levasse de volta para a mansão, dizer às empregadas que não estava para ninguém, trancar-se em prantos no seu velho quarto de menina rica e deixar que elas agradecessem em seu nome todas as ligações de pêsames. Mas não tinha vontade de regressar. Nem telefones, nem e-mails ou telegramas. A solidão é a melhor companhia para o luto. Mesmo quando se ama. A cabeça que chora reclinada no ombro de alguém é uma cabeça solitária porque a dor é indivisível. Isso seria seu quarto, mesmo se tivesse um ombro onde chorar: uma ilha cercada de telefonemas. E seu lugar não era mais entre telefonemas de condolências.
Os diamantes líquidos que cortavam a maquiagem de seu rosto caíam duros numa faixa de pêsames, assinada por um partido aliado. Ela agora queria verdadeiros aliados. Assim saberia estar demarcado seu lugar entre os vivos. Pois o silêncio que, devagar, a acalmava, depressa a lembrava que não podia ficar entre os mortos. E ela teve dúvida se aqueles mortos ainda eram seus. Por isso, ao sair, não fechou a porta.
A chuva já caía copiosa quando ela chegou ao carro.
_ Até que enfim, patroa. Eu já estava preocupado. Vai para casa?
_ Não, Jarbas. Para uma igreja. Preciso rezar. E você tome este dinheiro, compre uma vela grande, de mel, de vinte e um dias. Acenda-a perto do anjo que tem nas mãos o texto do profeta Oséias: “Onde está, ó morte, teu aguilhão?” [1] Mais tarde, ele sentirá o perfume, verá a luz e voltará.
_ O senhor seu pai?
_ Ele também, Jarbas. E não feche a porta, para que não separe o homem o que Deus juntou.

(Iniciado em 4 de agosto e concluído em 11 de setembro de 2005, tendo o segundo parágrafo sido escrito em 2 de dezembro de 2005, na tentativa de uma segunda versão abortada pelo autor: salvou-se esse parágrafo substituindo o segundo da primeira versão; citação de Gilberto Freyre inserida em 14 de dezembro de 2006; versão final em 12 de julho de 2007, na cidade de São Gonçalo, RJ.)
Em tempo: é preciso repudiar o atentado contra os índios Waiapi no Norte do Brasil. O Estado brasileiro é cúmplice por ação ou por omissão no genocídio contra os povos originários.



[1] Oséias XIII: 14.





quinta-feira, 25 de julho de 2019

A realidade



A minha mãe é alegria. E sabor. Ela junta açúcar num pratinho com requeijão ainda quente que o meu pai acabou de trazer. Delícia! Colhemos figos amarelos a escorrer um pingo de doçura dourada. Regalo! Vamos à fonte buscar água. Fresca! Eu corro à frente. A correr, ninguém ganha à Flecha, a cadela. Corro com ela, feliz. Correr é bom! E andar descalço pelos campos. E nas areias frescas da ribeira. Pela sombra dos amieiros. E estar deitado no meio da erva. Ouvindo os muitos pequenos sons do campo. E sentindo os muitos aromas das plantas. O cheiro a fumo da erva cortada de fresco…

Fumo? Pedro acorda.
Está no escritório. Sentado e com os cotovelos apoiados no tampo da secretária, tinha adormecido por momentos. No cinzeiro, um cigarro queimado até ao filtro. Olha o relógio. Já passa das seis. Arruma alguns papéis que estavam dispersos pela secretária, veste o casaco e sai. Ainda é cedo para ir para casa. Resolve passar pela tabacaria, para comprar o jornal, antes de se sentar na esplanada do fundo da rua.
Nada mais repousante num fim de tarde: uma cadeira, um jornal e um café.
Na tabacaria, olha os cabeçalhos de jornais e revistas e decide-se por uma de nome a branco sobre vermelho.
A Pesquisa, se faz favor!
Paga-a e sai observando a capa. Apresenta o desenho de um cérebro sob um título que promete revelar tudo sobre a fase REM do sono. Cruza maquinalmente o passeio e começa a atravessar a rua sem despegar os olhos da revista. Logo um guinchar estridente lhe assola os ouvidos e o seu olhar já lhe desvenda a origem. A poucos metros, vem um carro de rojo, agarrando-se desesperadamente ao alcatrão. Os olhos do condutor fitam-no aterrorizados, como que a pedirem-lhe o milagre de se desviar, a tempo, da trajetória do carro. O sol refletido nos cromados fere os olhos. Os travões gemendo desfazem-se em chispas de fogo. As pessoas detêm-se de olhos fixos no horror que se desenrola mesmo ali. Sabem que um homem vai ser atropelado e nada fazem. Algo as mantém presas. Há movimentos apenas esboçados. Parece que tudo decorre em grande lentidão. Lentidão apenas aparente. Àquela velocidade, o carro vai esmagar o homem.

Pedro dá um pulo na cama.
À sua frente desenrola-se um acidente do qual ele próprio é o atropelado iminente. Em escassos momentos, porém, o carro que vem ao seu encontro desvanece-se e desaparece, deixando em seu lugar apenas os ferros graciosamente enrolados da sua acolhedora cama.
Pedro pestaneja, olha em volta, e finalmente fecha a boca, que possivelmente gritara. Passam-se os segundos, mas na sua memória as imagens são nítidas. O carro parece estar ali. O carro, o chiar dos travões, o cheiro dos pneus, mesmo a cara do condutor que ele não conhece.
É difícil acordar de um pesadelo, mas no fim é um alívio. Pedro respira fundo, enquanto passa a mão pela testa. Da rua chegam-lhe ruídos de discussão. Levanta-se e vai à janela. Lá em baixo, no alcatrão, dois homens discutem. Um carro está atravessado na rua e outro em posição de ter surgido da lateral. Os rastos da travagem daquele atingem mais de dez metros. Aí está a explicação do aparecimento e do conteúdo do seu sonho.
Pedro volta para dentro, calça os chinelos, alisa o cabelo, e passa do quarto, onde dormira a sesta habitual dos sábados, à sala onde o seu filho se entretém com um automóvel de brinquedo e a sua mulher o recebe com um sorriso.
O quê? Já acabaste a sesta?
Ele beija-a e senta-se. Sabem-lhe bem os sofás macios, confortáveis. A sala acolhedora fá-lo sentir o contraste com a vivência de há momentos.
Nem queiras saber o pesadelo que tive... Ia sendo atropelado.
No sonho!
Sei lá se foi só no sonho. Era tão real! Eu ia a atravessar uma rua e de repente, sem esperar, aparece-me um carro a toda a velocidade.
Eu, às vezes, também tenho sonhos horríveis.
Mas as coisas estavam tão nítidas, tão coerentes, que eu chego a duvidar se era só sonho. Ainda me lembro da cara do tipo que conduzia. E das pessoas que assistiam. Sabes que a coerência interna das situações é o único indício que costumo tomar como certeza de que estou acordado.
Pela mente de Pedro, desfilam novamente as peripécias do sonho. Todos os pormenores permanecem vivos na sua memória: o rodado dos pneus, o aspeto da rua, o rosto da empregada da tabacaria, a revista...
E a revista era a Pesquisa. O engraçado é que é uma revista que já não compro há uns meses. Anunciava nesse número, em grandes letras, “Sono REM — o organizador da realidade”. Lembro-me bem.
Não sei que organização é essa, porque, para mim, isso de sonhos está cheio de incoerências.
Talvez não só incoerências! Repara que, na maior parte das vezes, o sonho reflete as peripécias do dia de quem sonha, ainda que sob uma capa surrealista. Posso sonhar que atravesso a vau um pântano onde outras pessoas chafurdam e não acho isso estranho. Quando acordo, se me lembrar do sonho e fizer um esforço de o relacionar com episódios do dia anterior, talvez me lembre de ter atravessado um relvado acabado de regar a caminho do trabalho. O terreno empapado está lá; o resto talvez seja um sentimento inconsciente do que penso do local de trabalho e de quem por lá se arrasta.
Hm, sim! Mas não seria mais lógico sonhares com o local de trabalho, mesmo, e não com o relvado?
Talvez, mas é a maneira como o nosso cérebro funciona. Aliás, os sonhos incongruentes perturbam-me menos do que aqueles que não distingo da realidade… Como é que eles acontecem? Sou eu, que estou a dormir, que consigo imaginar histórias, que nunca vivi, cheias de pormenores como na vida real? Chegam a ser tão coerentes e semelhantes à realidade que eu já me tenho perguntado o que é afinal real: o que vemos aqui, ou o que vemos nos sonhos? Ou ambos? Deixa-me cá beliscar… Ah! Outra curiosidade. Antes deste sonho, tive outro com recordações de infância. Esse era uma grande baralhada e já não me lembro bem.
Eu chego a ter quatro e cinco sonhos só numa noite...
Sim, mas sabes o que me aconteceu? É que passei de um sonho para outro, como se passasse de um sonho para a realidade. Acordei, pensava eu. Mas era outro sonho, percebes? E olha que estava mesmo convencido que estava acordado.
Pedro fica calado a pensar. Depois adianta:
Quem me diz a mim que isto tudo não é outro sonho igual ao do acidente?
Entreolham-se. Pedro belisca-se novamente. A mulher finge que se zanga:
Então e eu sou o quê?
Tens razão, querida. Tu és mesmo real. E ainda bem.
Passa-lhe a mão pelos cabelos e pela face macia, olha-a no azul dos olhos e beija-a no quente dos lábios, longamente. O miúdo, que brincava com o carrinho, mas sem perder pitada do ambiente, vem a correr meter-se entre eles, para não ficar de fora na distribuição de carícias. Os três estão abraçados e a rir com a brincadeira, quando soa uma campainha. Ele pega no telefone, mas ninguém responde.
Deve ser a porta.
Ela vai abrir, mas volta logo.
Não está ninguém à porta...
Ele desliga o televisor, mas a campainha continua a tocar sem interrupção. Entreolham-se todos, com olhares um pouco assustados, sem trocarem palavra. O miúdo corre a abrigar-se nos braços da mãe. Olham para todos os cantos da sala, para o teto... O som da campainha continua, mete-se pelos ouvidos adentro, parecendo vir de todos os lados ao mesmo tempo.

Pedro começa a tomar consciência das cores escuras e pesadas. Depois as formas aparecem-lhe com mais nitidez. Os seus olhos abrem-se definitivamente e com eles percorre o aposento: roupa amarrotada numa cadeira; um poster de revista na parede; uma mesa com um prato sujo em cima; do outro lado da cama, um banco com um cinzeiro e um despertador.
O barulho do despertador é já insuportável. Pedro trava-o com um murro. Fica a olhar para ele e para tudo o que ele significa: trabalho, submissão a horários, salário de miséria...
Seis e meia. Merda de vida!
Senta-se na cama, encostado à parede. O leito é um colchão de espuma com um saco-cama em vez de lençóis. Acende um cigarro. Acodem-lhe ao pensamento imagens do sonho que acaba de viver. Detém-se nos sofás confortáveis, na estante cheia de livros, nos quadros, no menino adorável, na mulher linda e deliciosa…
Não querias mais nada: boa casa, um bom emprego e uma mulher boa!
Um sorriso amargo aflora-lhe a boca. Acaricia a ponta do travesseiro, sonhador, pensativo.
Sonhos!
Os seus olhos percorrem o local onde poderia estar deitada uma mulher. «É difícil viver sem mulher.» Mais difícil e amargo ainda lhe foi viver com uma mulher em desarmonia. «Que fazer?» Volta a olhar a miséria monótona do quarto. Não é preciso beliscar-se. Esta realidade conhece ele bem.
Ou não? Afinal, que crédito pode dar ao que, de todas as vezes, lhe pareceu realidade? Por que aceitar esta, se ela parece tão desagradável? «Não quero esta merda!», decide. «Qualquer das outras é preferível.» Acabado o cigarro, estende-se outra vez, relaxado.
Que se lixe!
Umas três horas depois, sonha que voa por cima do parque da cidade. Controla tão bem o seu corpo que bastam poucos movimentos dos pés para se elevar, e pequenas inclinações do tronco para orientar a trajetória. Acaba por poisar num enorme relvado junto a uma mata. Desta sai um urso que se prepara para o atacar. Pedro pega num pau e bate com ele fortemente na cabeça da besta. O animal tem a cara do seu patrão, que lhe aponta o indicador:
Estás despedido!

Pedro salta da cama com um forte sentimento de angústia. Está outra vez atrasado. Muito. Lava os olhos à pressa, veste-se num ápice e sai do quarto a correr. Lá fora, a realidade parece saída de um quadro de Bosch.

Joaquim Bispo

*
Este conto — escrito em 1976 e reescrito em 2016 — foi um dos 15 selecionados para integrar a 5ª edição da Fluxo — Revista de Criação Literária (páginas 36 a 41):
*

Imagem: Henry Fuseli, O Pesadelo, 1781.
Instituto de Artes de Detroit.
* * *






quarta-feira, 17 de julho de 2019

Poema de Breno para Fernanda, de Camila Ferrazzano






POEMA DE BRENO PARA FERNANDA





a paixão lesionou-me as pernas
tornou ralo os cabelos
fuzilou o amor próprio
escamoteou vocábulos como
não-quero
não-posso
queria-mas-minha-mãe-disse-que-não-será-o-melhor-para-mim
a paixão tem olhos de vidro e dança como mulher
envolve a cintura no meio da cidade de concreto e diz com seu hálito doce que adoraria um café antes de partir.
para onde?
buenos aires.
a paixão soprou gelado nos joelhos e quis gritar de ódio
(muito embora não diga nada, porque na bula de são paulo, escreveu-se;
tu serás indiferente.
tu serás indiferente.
tu não irás até corinthians itaquera. cometas haraquiri mental mas não deixes que saibam)
nessa cidade não se fala na segunda pessoa do singular.
saiu de moda.
nessa cidade não se fala nada além de passa no crédito.
acabou o débito.
nessa cidade não se fala eu gosto de você.
é letal e contempla os caretas.
e aqui
todo mundo
é
muito
maneiro.


 

Do livro Orações subordinadas, Editora Patuá.





terça-feira, 16 de julho de 2019

João e Maria

Fotografia: Lee Jeffries

Eu me acostumei a ver os dois sentados no chão, lado a lado, encostados na parede da padaria. Eu descia do carro apressada, retornando do trabalho, para comprar dois ou três pães, um leite, um queijo. E lá estavam eles, no mesmo lugar, todos os dias, como se tivessem sido posicionados ali para uma dessas fotografias intermináveis de estúdio que repetem e repetem uma mesma pose, à exaustão. Ou para uma pintura. Óleo sobre tela. Indigência sobre tela.
João e Maria. A princípio pensei que eram apenas apelidos. Esse jeito leviano de inventarmos nomes comuns para os que queremos manter à distância ou para os que não nos importam de verdade. Mas depois fiquei sabendo que esses eram, realmente, seus nomes. João Eustáquio dos Santos, um seu criado, ele se apresentou a mim num fim de tarde, enquanto me ajudava a colocar no carro a compra feita no varejão da esquina. O senhor aceita que eu lhe compre uns pães e leite?, perguntei sem jeito, pensando se não seria melhor dar algum dinheiro (o velho hábito cristão da caridade medida em bens ou moedas). Ele riu e aceitou os pães e o leite. Agradeceu. Eu entrei na padaria para a compra. Ele me esperou do lado de fora, único lugar considerado adequado aos pobres pelos donos de comércio. Conversamos. Ele me contou que nem sempre morou na rua. Que teve família e casa e uma mulher que tinha morrido daquela doença ruim e cinco filhos que estavam pelo mundo e netos que ele só viu bem pequenos. Estudou um pouco. Mas não gostava das letrinhas miúdas. Números, ah!, isso sim. A sua vocação. Foi motorista. Fichado. Despedido do emprego já quase com 50 anos. Virou camelô. Vendia guarda-chuva, brinquedo, batom. De um tudo, ele afirmou orgulhoso. Mas ficou doente e perdeu o ponto. Eu sou doente das juntas, me contou.  Mancava muito, joelhos tomados pelo reumatismo. As mãos doíam. Doía tudo. Sem conseguir correr, não tinha como fugir do rapa. Os homens chegavam e quebravam tudo com o cassetete. E ele não tinha como repor a mercadoria, diz com os olhos perdidos em uma memória de dor. Perdeu a casa por causa das prestações atrasadas. Não tinha parentes: a mulher já havia morrido, os filhos estavam esparramados pelo mundo afora. Ninguém o acolheu. Foi parar na rua. E começou a beber. Bebeu de cair, de vomitar e de se urinar dormindo. Até conhecer a Maria. 
A conversa acabou. Ele pediu desculpas porque falava demais. Eu gosto muito de conversar, mas a Maria não gosta, disse apontando o queixo para a companheira. Maria Aparecida da Silva, a Maria Muda, como era conhecida pelos comerciantes e lavadores de carro. Trazia nos olhos as palavras que faltavam à boca. 
Com o tempo, descobri que aquela cena se repetia muitas vezes ao longo do dia. João ajudava as pessoas em troca de algum dinheiro ou comida, e de muita conversa. O casal dormia embaixo de uma marquise e sobrevivia de caridade: roupas, cobertas, alimentos e alguns trocados — realidade que faz tempo se banalizou e se tornou invisível para os nossos sentidos cotidianos. 
Tinham, pela aparência, uns 75 anos. Mas as ruas costumam vincar mais cedo as peles. De qualquer maneira, eram idosos. De qualquer maneira, dormiam em cima de um papelão gasto e fino. De qualquer maneira tinham que pedir, que implorar, essa brutalização da dignidade que aos poucos vai quebrando o indivíduo. Comer. Beber. Morar. Coisas simples que não deveriam depender de favores. Não, não deveriam.
Mas hoje não é a barbárie da indiferença social que me preocupa. É alguma coisa mais evidente, mais urgente. Uma falta. Uma ausência. Hoje, não tem João. Nem Maria. 
Tem tragédia. 
Dois bêbados brigaram por causa de um cobertor que algum morador das redondezas deixou para eles. Um deles puxou uma faca. João tentou impedir. E virou alvo da faca embriagada que buscava qualquer corpo. Várias vezes. Maria, desesperada, pulou sobre o agressor. E foi a sua vez de sentir nas carnes magras a lâmina cega e suja do sangue do companheiro. 
Agonizaram um sobre o outro. Sem ambulância. Sem hospital. Sem palavra. Apenas uns panos colocados sobre as feridas por alguém que correu para tentar ajudar. E umas lágrimas desse alguém que os enxergou pelo menos na morte. Mães tampando o rosto dos filhos. Idosas passando mal. Curiosos filmando os mortos. Comerciantes praguejando contra a falta de policiamento nas ruas, para impedir a aproximação “dessa gente” que só arruma confusão. 
Um dia como outro qualquer. Como hoje. Em que a ausência dos dois já faz parte da rotina da rua. Caminhões descarregando mercadorias. Carros parados em fila dupla na porta das lojas, do varejão, da padaria. Carrinhos de bebê circulando nas calçadas que ligam os prédios ao parquinho. Lavadores de carro preocupados em não perder o ponto. Cachorros passeando em coleiras incômodas, farejando o sangue mal lavado no chão de concreto. E eu. Leite e pão na sacola ecológica que me descreve como pessoa evoluída.
O pensamento está em João e  Maria. Na estupidez da vida. Na rapidez da morte. Na crueldade da miséria. Que irmana assassinos e vítimas num mesmo script perverso.
Olho para o chão vazio onde os dois dormiam e me pergunto se eu poderia ter feito alguma coisa. Talvez. E me agarro a esse talvez com a complacência dos que sempre fogem. Entro no carro apressada. Pensando na briga que acabou matando os dois. Uma briga que nem era deles.
Não sei quem ficou com o cobertor.





sábado, 29 de junho de 2019

Elogio do Amaranto


“mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou o joio no meio do trigo e retirou-se” Mateus 13: 24


            Vá um pesquisador estrangeiro buscar informações sobre o Mato Grosso do Sul na Internet e logo descobrirá que a área desse estado é maior que a Alemanha inteira, que foi desmembrado do Mato Grosso no dia 11 de outubro de 1977 e elevado à categoria de estado em 1º de janeiro de 1979. Isso depois de ter tentado emancipar-se de Mato Grosso durante a Revolução Constitucionalista de 1932, quando, entre julho e outubro, seus próceres criaram o efêmero estado de Maracaju. Caso ele queira ler as páginas dedicadas à Economia nos grandes jornais do país e nas revistas especializadas, aprenderá que o estado é um grande produtor de soja, e que essa produção é uma grande fonte de divisas para o nosso país, toneladas e toneladas que fazem grande diferença no equilíbrio e no saldo positivo da balança comercial brasileira. Mas se o tal pesquisador buscasse ouvir Gabriel Kaiowá, obteria dele informações nada ufanistas.
            Gabriel Kaiowá mora na comunidade do Pequizeiro que, há alguns anos atrás, era chamada de favela – quase nada mudou além do nome, porque ficou decidido que “favela” é um termo que pode ofender a autoestima dos moradores da área assim designada, e, logo, tantos os estudiosos das universidades quanto os jornalistas e os governantes aboliram o termo e o substituíram pela expressão “comunidade”, esquecendo-se que “comunidade” serve para designar também o conjunto de moradores de uma área nobre ou os praticantes de uma mesma fé que semanalmente se reúnem no mesmo templo. É essa, aliás, a grande utilidade dos eufemismos: disfarçar o que não queremos admitir, pois a chegada de uma nova designação para a área não veio acompanhada de água encanada, rede de esgoto, creches, postos de saúde, escolas, coleta de lixo e tantas outras intervenções do poder público necessárias à qualidade de vida de seus habitantes. A preocupação do Estado com a autoestima dos moradores do Pequizeiro não foi além da inauguração de um eufemismo.
            Mas, voltando a Gabriel Kaiowá, ele diria ao pesquisador que, onde hoje é a comunidade, que ninguém pode mais chamar de favela porque o Leviatã já permite ações por danos morais contra quem assim o fizer, havia uma aldeia habitada pela nação Guarani-Kaiowá, povo esse que tinha o pequi, fruta típica do Cerrado, como a base da sua alimentação. Contou-lhe seu avô, o pajé, que mora no mesmo barraco que ele, que, quando uma criança nascia, seu pai e seus avós plantavam cinquenta sementes de pequi, que cresceriam para se tornar árvores e garantir o sustento do recém-nascido. Ele mesmo plantara centenas de pequizeiros para sustentar os seus filhos, mas já não havia onde plantar quando nasceram Gabriel e seus outros netos, pois o homem branco já tinha se apossado das terras da tribo. As árvores plantadas em honra ao nascimento do pajé ainda estariam vivas e frutificando se o homem branco não as tivesse cortado para plantar soja para exportação. E se tivesse restado ao seu pai terras para plantar pequis para sustentar a ele e aos seus irmãos, Gabriel não teria que trabalhar tanto.
            O ano que passara fora bom para Gabriel, pois com o pouco de plantas nativas que ainda se encontram junto aos barracos da comunidade, conseguira produzir colares de sementes para vender aos peregrinos que, a caminho do Rio de Janeiro, para prestigiar a visita do recém-eleito papa Francisco, passavam pela cidade: não só gente do Paraguai e da Bolívia, mas até canadenses e japoneses em romaria se encantavam com seu artesanato. Na época da Jornada Mundial da Juventude – esse era o nome do evento do papa –, conseguira trabalhar menos, descansar e estudar mais e assim terminara com louvor o Ensino Médio.
            Depois da visita do papa, quando se foram os últimos peregrinos, voltara à rotina: acordar cedo para ir a pé até a escola, almoçar lá – não comer em casa é uma grande economia para a família – e procurar como arranjar dinheiro: engraxava sapatos, catava latinhas, vendia colares, pintava paredes, fazia todo tipo de trabalho braçal que encontrasse na cidade e, ao anoitecer, andava de volta até a comunidade. Foi nessa época que despontou seu carisma de líder: conseguiu persuadir quantos trabalhavam na comunidade para contribuírem para um fundo comum a fim de que se cavasse um poço artesiano para terem mais fácil acesso à agua. Depois, ensinou às mulheres a colocarem toda a água de que precisariam no dia seguinte em garrafas PET em cima de lonas pretas ao Sol: deixando assim o dia inteiro, o calor fazia a água ferver e matar quantas bactérias nocivas ali houvesse.
            No ano de 2014, ano eleitoral, Gabriel conseguiu um outro subemprego: cabo eleitoral. Passava todo o dia panfletando a candidatura de Naamã Felício a deputado federal e à noite dizia à comunidade para não votar em nenhum dos candidatos que pagavam aos jovens por seus serviços: os nababos que os assalariavam eram os mesmos que ocupavam as terras que antes tinham sido da tribo. Naamã prometia aos jovens que de tudo faria para gerar empregos na região e integrá-los ao mercado de trabalho, mas ele mesmo não fora prefeito sem nada fazer em prol dos indígenas? E se não houvesse tantos jovens desempregados, como exército de reserva, onde ele conseguiria quem aceitasse dinheiro para divulgar sua candidatura? Não, as ótimas notas de Gabriel nas aulas de Sociologia não lhe permitiam acreditar em Naamã ou em qualquer outro fazendeiro. As lembranças dessas aulas sempre o desafiavam a encontrar uma maneira de enfrentá-los, conjuntamente com os jovens da tribo. Mas, como, diante dos armamentos dos fazendeiros? – perguntava ele aos colegas, e as discussões terminavam com a turma cantando “Koangagua”, dos rappers indígenas da banda Brô MC’s, unânime referência na preservação da língua ancestral.
            A resposta para suas indagações veio uma tarde, quando ele e seus ex-colegas de escola, desempregados, conversavam na entrada da comunidade: um “gato” – capataz de fazendeiros, encarregado de procurar mão de obra barata para serviços esporádicos – propôs levá-los à fazenda de Naamã. O riquíssimo deputado, que valia-se de máquinas para semear e colher a soja em suas fazendas, gerando pouquíssimos empregos, agora precisava de muitas mãos para que adentrassem nas plantações e arrancassem, um a um, os pés de amaranto que ameaçavam a lavoura. O dinheiro oferecido era pouco mas a necessidade era maior, e assim Gabriel e os outros garotos da tribo aceitaram a oferta. O “gato” viria buscá-los num caminhão quando o Sol nascesse.
            A caminho da fazenda, Gabriel combinava com os amigos, em língua guarani:
 – Ouvi no rádio uma reportagem sobre essa planta invasora. Os fazendeiros creem que as primeiras sementes tenham chegado ao Brasil em máquinas de segunda mão que alguém comprou dos Estados Unidos. Essa planta é forte e resiste aos venenos que os fazendeiros usam contra outras plantas indesejáveis. No Tennessee, houve casos de fazendeiros que perderam toda a safra de soja porque a planta se alastrou, cresceu mais que os pés de soja e sugou a água e os nutrientes necessários à lavoura. Por isso, eles estão com medo que ela se espalhe pelo Brasil. Então, nós vamos lá arrancar essas plantas como eles mandaram, mas vamos esconder sementes delas nos nossos bolsos. E deixar cair algumas delas pelo caminho.
 – Por quê, Gabriel?
 – Josué, você lembra quando o professor de Sociologia exibia para a gente os filmes de Charles Chaplin?
 – Sim, a gente ria muito.
 – Lembra do filme “O Garoto”? Carlitos resolveu cuidar de um menino órfão. E para terem o que comer, o garoto jogava pedras nas vidraças e Carlitos chegava depois com os vidros para substituí-las. Do mesmo modo, não podemos deixar que o amaranto seja eliminado. Enquanto houver amaranto, eles terão que contratar gente para arrancá-lo das plantações, pois seus tratores e colheitadeiras não podem fazer isso sem destruir a soja. Enquanto houver amaranto, teremos trabalho a fazer.
De volta do trabalho, de posse das subversivas sementes, Gabriel decidiu que, no dia seguinte, iria à cidade pesquisar sobre a planta invasora. Todos os jovens passaram o dia esperando as novidades que ele lhes traria.
Ao cair da noite, Gabriel voltou e lhe deu as esperadas notícias:
 – Alvíssaras! O amaranto não é uma planta nociva nem venenosa. Aliás, é um alimento nutritivo. Era a base da alimentação dos incas. É como o caruru, aquela planta que os nordestinos usam na salada. Mas o agronegócio é burro demais para pensar nisso. Vamos plantar essas sementes junto aos nossos barracos, em nossa comunidade, e vamos usar suas folhas e seus grãos na nossa alimentação. E, de vez em quando, jogaremos sementes nas estradas, no pouco de mata que ainda resta. Nós não podemos invadir as fazendas para tomar de volta as terras que os fazendeiros roubaram do nosso povo, porque eles nos matariam com suas armas ou nos jogariam na cadeia. Mas onde nós não podemos entrar, o vento pode. Não há matador algum que atire no vento nem policial algum espancará as tempestades. O vento será nosso vingador. Quando o amaranto expulsar os fazendeiros daqui, entraremos lá e nos apossaremos das terras onde viveram nossos antepassados e novamente faremos grandes aldeias, e plantaremos cinquenta pequizeiros para cada criança que nascer.

(15 e 16 de janeiro de 2017)





terça-feira, 25 de junho de 2019

Na Praia do Osso da Baleia



Naquela altura, praticávamos geocaching, para tornar o exercício ciclista mais motivador. Ir à procura das caixinhas escondidas em locais aprazíveis, ou só curiosos, através da sua localização GPS, obrigava-nos a pedalar para chegar aos locais indicados no respetivo site da Internet, mas sem a carga de exercício físico obrigatório que o andar de bicicleta tinha tido até então. Isto, porque pedalávamos, quase diariamente, uma dezena de quilómetros, não tanto pelo gosto, mas para manter alguma forma física, aconselhável a um casal sexagenário.
Naqueles dias de férias, a nossa base era a Praia de Vieira de Leiria, uma localidade muito animada, em época de veraneio, mas que naquele meado de um setembro invulgarmente nebuloso, mesmo para aquelas paragens litorais, perdera parte do bulício habitual. No primeiro dia, fomos à procura de uma cache escondida junto ao parque de campismo da Praia de Pedrogão. Era um pequeno tupperware com um boneco pokemon e um caderninho minúsculo — coisa de miúdos. Assinámos: “Rolling biker 56” — o meu nickname — e “Fiftie Agnes” — o da minha companheira Inês.
No dia seguinte, fomos para sul, para encontrar, junto ao farol de São Pedro de Moel, num buraco da falésia em que pescadores amadores se empoleiram para lançar as linhas ao mar, uma caixa de VHS com três florinhas secas e um pequeno texto: «Este farol chamado “do Penedo da Saudade” foi construído no promontório onde, segundo a lenda, a duquesa D. Juliana Máxima de Faro, dona destas terras, vinha, através destas flores chamadas “Saudades” e que só aqui crescem, relembrar o marido, mandado executar pelo rei D. João IV, no século XVII.» Assinámos também o registo, conforme a norma.
No terceiro dia, rumámos a norte, para a zona da Lagoa da Ervedeira — zona bonita e ainda arborizada, felizmente poupada aos grandes incêndios de 2017. Não foi fácil encontrar a cache escondida num pinhal, uns quilómetros depois. Até aonde a vista alcançava, a paisagem, que acompanhava a ondulação arenosa do solo, era um mar lúgubre de pinheiros queimados, com os seus braços negros e nus pedindo clemência. Com eles, ardeu, provavelmente, a caixinha que procurávamos. Decidimos que só podia ser um resíduo plástico calcinado que encontrámos no local que as coordenadas GPS indicavam, junto a um tronco queimado. Como passava pouco das três da tarde, resolvemos continuar para uma cache escondida na Praia do Osso da Baleia, a uns doze quilómetros, segundo indicava o GPS.
Pedalar com um objetivo definido é bem mais fácil do que fazê-lo para cumprir um número de quilómetros definido. Como, além disso, as autarquias dotaram toda aquela zona costeira de ciclovias ao longo das estradas principais, o nosso exercício podia ser um passeio aprazível, apesar do céu nublado; infelizmente, o aspeto desolador da paisagem acabrunhava-nos. Os pinheiros, já de si retorcidos por ação dos ventos marítimos, assim reduzidos a troncos negros sugeriam formas espectrais inquietantes. Pedalávamos calados, de olhos no ecrã de GPS, lançando olhares apreensivos à multidão tétrica e torturada que nos envolvia.
Entretanto, lembrámo-nos do crime horrendo que aconteceu naquela mesma praia há uns trinta anos, em que um tipo, aparentemente normal e integrado, matou a mulher, a filha e mais cinco amigos com quem estava a confraternizar na praia. O que fará alguém enlouquecer de um momento para o outro? Que transtorno mental invadirá o cérebro de uma pessoa e a fará não reconhecer os seus próximos, ou, reconhecendo-os, odiá-los ao ponto de os matar à machadada? Ainda que incomodados com a evocação, decidimos que não havia, atualmente, nenhum motivo para evitar aquela praia e falhar o nosso objetivo.
A Praia do Osso da Baleia não tem uma povoação associada, não tem um restaurante nem um bar, nada. Pelos vistos, não passa daquela enorme extensão de areia, na altura, nevoenta, apoiada por um pequeno parque de estacionamento, então, deserto. O GPS fez-nos subir a duna baixa que nos separava da praia e caminhar uns trezentos metros para sul, mas nada havia ali, além de areia, naquela base de duna a cem metros da água. No entanto, o localizador por satélite era claro: «Chegou ao seu destino!».
Depois de uma inspeção mais atenta, descobri uma pequena ponta negra a emergir da areia. Ali comecei a escavar com o canivete suíço, que anda sempre comigo. Não tardou que embatesse em algo rígido, que retiniu. Parecia um antigo frasco de compota ou de azeitonas e estava enterrado no que poderiam ter sido os restos de uma fogueira. Olhámo-nos sem dizer nada, a apreensão no olhar.
O interior era visível e mostrava apenas o que parecia uma pequena placa óssea. Abrimos o frasco e percebemos que a placa estava esgrafitada. Consegui ler: «Nós que aqui estamos», de um lado e «por vós esperamos», do outro.
O choque destas palavras tão simples, mas tão simbólicas, que aparecem escritas em cemitérios e “alminhas” um pouco por todo o país, foi brutal. Naquele momento, por coincidência, correu uma brisa fria e pareceu-nos que o nevoeiro se adensou. A Inês recuou dois ou três passos, o olhar em pânico. Eu larguei aqueles objetos, como se queimassem, a tentar racionalizar. «Que raio! Quem teria feito uma maldade destas? Brincadeira estúpida!»
— Quero ir-me embora — articulou, por fim, Inês.
— Estúpidos! — resmunguei eu, enquanto pegava no braço dela e nos encaminhávamos para a estrada.
Na parte norte da praia, avistámos a vaga imagem de um grupo de seis ou sete pessoas, que pareciam sentadas e reunidas em círculo, talvez à volta do início de uma fogueira. Não as tínhamos visto ao chegar, mas aquela visão de normalidade reconfortou-nos. Ver membros da nossa espécie num local inóspito transmite-nos um sentimento de segurança, de solidariedade potencial. Passou-me pela cabeça, momentaneamente, a ideia de nos aquecermos um pouco, antes de partirmos, porque a temperatura tinha caído fortemente. Uns metros andados, pareceu-nos que olhavam para nós. Para quebrar o desconforto, acenei-lhes. Não responderam.
— Quero-me ir embora! — acentuou Inês.
— Tem calma!; está tudo bem — tentei eu sossegá-la, mas pouco convencido.
Nesse momento, levantaram-se dois ou três vultos e começaram a dirigir-se para nós.
— Calma! Não dês a entender que tens medo — disse eu, para travar a minha parceira que apressara muito o passo.
Entretanto, calculava distâncias, apesar do nevoeiro cada vez mais cerrado. Nós estaríamos a duzentos metros da passagem da duna, mais cinquenta até às bicicletas. Eles estariam a uns trezentos metros da passagem da duna. Com passo ligeiro chegaríamos antes deles, sem problema. Além disso, não tínhamos razões para temer ameaças vindas daquelas silhuetas, embora escuras. Era só uma questão de prudência. O homem pode ser a salvação de outro homem, mas também pode ser a sua perdição. E, em locais ermos, uma pequena diferença de força ou de número pode transformar os homens em predadores brutais. Impregnados de “selva”.
Nessa altura, levantou-se vento vindo de norte. Empurrava-os a eles e travava-nos a nós. Procurei conter o pânico, mas Inês já tentava correr, sem grande êxito. Chegámos à passagem, quando os três desconhecidos, com os outros mais atrás, já pareciam demasiado próximos, mas sem conseguirmos distinguir-lhes as feições. Então, já gesticulavam e gritavam. Ou assim parecia, por causa do vento.
Corremos para as bicicletas e arrancámos, desvairados, Inês à frente e eu, sem olhar para trás, concentrado na pedalada. Durante aqueles metros iniciais de inércia da bicicleta, ouvi distintamente as pancadas dos pés deles, em corrida, mesmo atrás de mim.
— Acelera, Inês — gritei, apavorado. — Se me apanharem, foge tu!
Eu sabia que lhe apetecia gritar e chorar, mas aguentou uma pedalada vigorosa, durante centenas de metros, demonstrando um sangue-frio notável. Aos poucos, para minha grande surpresa, as passadas pesadas dos nossos perseguidores deixaram de se notar. Ouvia-se só o som soprado do vento nos troncos calcinados, a abafar o ruído rastejante dos pneus no asfalto vermelho. Olhei, enfim, para trás, mas só discerni o trilho deserto da ciclovia. Talvez uma hora depois, estávamos no quarto do hotel.
Raramente voltámos a falar daquele anoitecer na Praia do Osso da Baleia. Não sabemos o que vimos ou o que pensámos que vimos. Não faço ideia do que veria, mas tenho para mim, que, se naqueles momentos iniciais da fuga me tivesse distraído um momento a olhar para trás, não estaria aqui para contar.

Joaquim Bispo

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Por seleção em concurso literário, este conto integra (páginas 112 a 114) a coletânea MIRAGE — Miscelânea de Narrativas Irreais, do projeto “Delírios” do coletivo editor Coverge, Curitiba, Brasil:


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Imagem: Iberê Camargo, Ciclistas, 1989.
Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, Brasil.

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