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domingo, 19 de maio de 2019

Triz

Gosto muito da palavra triz. Pela forma gostosa de pronunciar.
Trisss para a turma de São Paulo e Gerais, triezz para gauchada
e trish para cariocada. Não me ocorre como seja em outras regiões
do Brasil. Mas não importa como se diz, mas porque se diz.

A origem é discutível, mas fico com a tese de que ela vem do grego thriks,
que significa fio de cabelo. Faz todo sentido, quando precedida pela
preposição Por e pelo artigo indefinido Um. Pronto. Por um triz.
Por um fio de cabelo uma coisa deixa de acontecer ou acontece.
Metáfora perfeita, pois não há limite mais frágil do que aquele
determinado por um instante capilar.

Outro ponto que me encanta é que quando as pessoas expressam um
autêntico, oportuno e legítimo Por um triz, elas discreta ou indiscretamente
arregalam os olhos e dão à expressão adverbial uma expressão facial
que complementa a dramaticidade dos fatos.

Há quem atribua a divindades superiores o comando dos nossos destinos.
Respeito, compreendo e já tentei inúmeras vezes comprar tal ideia.
Mas, na altura do meu campeonato, confesso que ainda não encontrei
identificação com deuses ou demônios, capazes de tirar dos seus caderninhos
os comandos que regem vidas. Resisto a crer no estava escrito, ou foi 
a vontade de Deus ou isso é coisa do diabo. 

Quantas coisas acontecem ou desacontecem por um triz, ficam no quase,
no por pouco ou por um fio. Assim penso que é, sem justificativas
que vêm do Além.

O desesperado Romeu em busca de um encontro definitivo com sua Julieta,
por um triz não encontra o mensageiro que cruza na estrada levando o
recado que o veneno que a moça tomara era de mentirinha,
tudo combinado para ela despertar e os dois fugirem. A mensagem que
não chega a Romeu, poderia ter mudado o rumo da prosa.
Shakespeare, o criador da situação, operou o simples por um triz 
no lugar de um final feliz banal. 

Na fatídica Copa de 82, o goleiro italiano Zoff, já nos acréscimos,
toma uma bola no pé da trave. Ela volta nas suas mãos e por um triz
não cai na ponta da chuteira do Sócrates (ou do Zico???) que estava
na pequena área, pronto para mudar o desfecho da história trágica
daquela noite no Sarriá na Espanha.

Dos olhos dos amantes do bom futebol, brota um filete lacrimal só
de imaginar que o destino do futebol-arte se deu por um triz,
o mesmo triz que fez o viajante perder o avião da Air France que
sumiu no mar, ou o sonhador endividado marcar os números
10 25 31 32 44 50 na megassena quando de fato, deu
o 10 25 31 32 44 49.

E assim caminha a humanidade colecionando por um triz na História.
No plano individual, cada um tem lá sua coleção particular de episódios
exemplares na memória.

Por um triz John Lennon deve ter pensando em ser antipático com aquele
fã maluco que lhe chamou para um autógrafo. Por um triz, a vértebra de
uma pessoa que amo não quebrou para dentro da medula óssea, mas para
fora da coluna. Felizmente.

Escrevo tudo isso ainda embalado pelo triz que recentemente se aboletou
no meu banco de carona. No fim da manhã da última sexta feira, ao sair
do trabalho na Barra em direção da Gávea, pressenti um engarrafamento
tedioso e resolvi ir ao banheiro antes, quando me despedi apressado
de alguns colegas professores, pois tinha hora para chegar. Foram os
cinco minutos que me deixaram a uns oito carros da viga que desabou
sobre um ônibus no fim do túnel. Por um triz, eu poderia não estar
escrevendo sobre por um triz. 

O que seria uma injustiça. Por um triz merece todas as minhas homenagens.
Se por um lado o triz é capaz de evitar ou operar tragédias produzidas
pela estupidez humana ou pela natureza, penso que o triz é o começo da vida.
Aquele espermatozoide esforçado do seu pai ficou em segundo lugar na
determinante corrida. Por um triz, o mais ágil chegou primeiro.





sexta-feira, 17 de maio de 2019

Enterrando gatos - conto de Rafaela Tavares Kawasaki


Enterrando gatos





    Onde quer que Leona pouse a vista há uma criança. Alguns meninos têm a mesma altura de Cadu. Nenhum é ele. O peso dos ossos peitorais de Leona parece ter dobrado. Ela é dominada pelo cansaço de carregá-los. A respiração encontra obstáculos ao percorrer a traqueia.
   Palpitações criam uma atividade sísmica no território que se estende do pescoço ao coração. A umidade deixa as palmas de Leona escorregadias, mas ela não solta as mãos da filha que a encara assustada com o pescoço esticado para enxergar sua expressão.
    Notas de uma mesma música enjoativa escapam do Bicho da Seda e formam um ciclone de sons ao redor da cabeça de Leona. É como se seu corpo esticasse e se comprimisse, tornando variável a distância entre seus olhos e o chão. Leona e Lolô andaram um quilômetro em círculos, sempre sob os gritos que escapavam da montanha-russa.
  A fila em torno do Barco Viking parece ter sempre a mesma extensão, ainda que os rostos despreocupados na espera mudassem cada vez que as duas a examinavam. Cadu nunca estava entre eles.
   Leona se sente um pingo no meio a um horizonte sem fim de brinquedos, barracas e pessoas. Como seria então para o filho de nove anos, sozinho? Os guardas talvez ajudassem se ela pedisse ajuda.
Se as caixas de som anunciassem o desaparecimento de uma criança, os outros visitantes afiariam o olhar. Ela encontraria Cadu mais rápido.
   Mas por que a indecisão paralisa seus músculos quando ela passa pelos funcionários do parque? Seu único desejo não era afundar o rosto nos cabelos do filho até deixar o cheiro de xampu infantil impregnar em suas narinas? Não seria bom sentir a fragilidade dos ossos que ela conhecia tão bem e jurar protegê-lo do mundo? Seria?
   A viagem ao parque foi planejada há dois anos. As crianças o visitavam em fantasias desde que viram as fotos em uma reportagem de revista. Leona, Armando, Cadu e Lolô alimentavam com cédulas de papel gasto o estômago de uma velha lata de biscoitos finos da marca Piraquê, já sardenta com a ferrugem. Era da avó das crianças. Um pé crescia demais, um dente precisava de obturação, uma tosse dava alerta para a necessidade de remédios e eles se viam obrigados a fazer retiradas.
   A lata só engordou mesmo naquele novembro, quando Armando deixou uma soma generosa para o aniversário do filho porque uma viagem a trabalho o impediria estar na festa. O dinheiro, fonte de uma recente promoção, era um pedido disfarçado de desculpas.
   A ideia de ir ao parque já deixava um gosto amargo preso à boca de Leona naquela época. Os filhos comemoravam a perspectiva de ida. Cadu se gabava para conhecidos e desconhecidos sempre que podia, mesmo que a mãe o pedisse para ser discreto.
   – E por quê? - ele sempre questionava, derramando sobre a mãe um olhar de ler mentes.
Armando insistia que ela cumprisse a promessa, quando ela considerava pretexto para adiar a viagem. Mas que graça teria irmos só eu e as crianças, sem o você? E como os filhos confiariam neles novamente, caso se sentissem traídos? Cadu tinha boas notas, não trazia reclamações da escola para casa, até recolhia garrafas de bebidas usadas para deixar no mercadinho do bairro em troca de moedas. O moleque merece, não merece? Fácil para Armando falar, ela pensava, por mais que a decisão de poupar o marido sobre a história dos gatos fosse decisão dela.
   Ao avistar o parque se revelar distante na paisagem da marginal, Cadu demonstrou uma alegria que Leona não via desde que o corpo do filho era uma miniaturiazinha de quatro anos. A culpa dava pontadas no estômago da mãe.
   Ela resgatava lembranças de quando percebeu os músculos faciais do filho caírem em dormência. Nos últimos anos, o rosto havia ganhado uma máscara de um adulto cansado, apático demais para uma criança saudável.
  Era incômodo ser alvo de seu olhar fixo por mais de cinco segundos. Cadu nunca piscava as pálpebras até Leona desviar os olhos. As pupilas dele abriam um caminho até o tálamo da mãe. Porém, quando os três puseram os pés no parque ele se transformou de novo no menino de nove anos que deveria ser, como se tocado por uma Fada Azul das histórias que o filho já rejeitava por estar grande demais para essas coisas. O medo de Leona recuava.
   Cadu procurou o rosto de Leona com um sorriso convidativo quando subiram juntos no teleférico do Castelo dos Horrores. A mãe o respondia com a exposição de uma dentição muito parecida com a do garoto.
 Ele disfarçava mal a curiosidade quando os três caminharam pela mina dos anões. Não dá pra perder tempo aqui. É brinquedo pra criancinha, igual à Lolô. Cadu indicava com a cabeça a irmã de seis anos, que desejava ser a própria Branca de Neve ao espiar o trabalho dos anões. Apesar da diferença de idade, a felicidade no rosto das duas crianças era idêntica.
  Os três se divertiram. Atacaram o carrinho um do outro no tromba-tromba até as barrigas ficarem cansadas com o movimento das risadas, dividiram um Dip n’Link comparando as caretas que faziam ao sentir as explosões na garganta. Leona até permitiu que os filhos tomassem não um, mas dois sacos de tubaína para afastar sede e calor.
   A nuvem de temor de Leona se dissipou. O tempo só voltou a se acinzentar quando os olhos dela esbarraram nas marcas de hematomas no pescoço de Lolô.
   – Foi o Cadu, mamãe. Ele disse que ia me enforcar se eu não ficasse quieta no carro quando você desceu no posto. Eu só queria ir atrás.
   – Quem mente a língua cai, não é não, mãe?
   Lolô lançava um ensaio de choro para a mãe, seu modo de pedir socorro. Leona não a olhava. Ela estava ocupada em vasculhar sinais de culpa em Cadu, mas ele estava isento de remorso, como um inocente.
   – Diga a verdade, Cadu. Você machucou sua irmã? - Leona se segurava para não desviar a face, embora a pupila do filho já perfurasse seu crânio.
    – Eu não tô mentindo.
    – Você sabe que não gosto de falsidade. Pior que fazer é esconder.
   O filho franziu a testa e exprimiu os lábios. Leona assistia a respiração do menino acelerar. Dos lábios de Cadu escapou um som. Era um miado quase imperceptível. Leona estremeceu. As mãos dela engoliam os dedos de Lolô.
   Os três caminharam com as bocas cerradas e assim continuaram por minutos. Uma mistura disforme de vozes e canções das caixas de som os invadia. O ar foi cortado por um grito animal que escapava de uma casa.
    – A mulher que vira macaco! - Cadu exclamou. - Vamos ver, mãe? Você prometeu!
    – Mamãããe, eu não queeeero.
    – Larga de ser manhosa, Lolo. Ninguém engole gente manhosa.
    – Eu não sou manhosa, só tô com medo.
    – Se vocês não pararem de brigar, nós vamos é para casa agora mesmo.
    Cadu procurou as mãos da mãe. Ele que odiava andar de mãos dadas porque já estava crescidinho.
  Talvez sentisse medo da promessa de ir embora ou a multidão que descia de um brinquedo o deixasse com tontura. Talvez ele quisesse sentir nos poros as vibrações da pele de Leona, enquanto a atacava com um olhar de ler mentes.
   – Você teria coragem mesmo de cumprir quando ameaçava ir embora do parque?
  – Está bem. Mas você vai sozinho. Não vou deixar a Lolô aqui. Vá e se comporte, você já é um homenzinho, não é?
   – Homem, mãe, homem. Sem essa de “inho”.
  Um fantasma da mão de Cadu agarrava a palma de Leona enquanto ele se distanciava. Quando a figura do filho atravessou a porta da casa da mulher-macaco, as pernas de Leona começaram a caminhar. O intervalo entre as batidas do scarpin contra o asfalto diminuía a cada passo.
 A gola do vestido a sufocava. Ela puxava uma Lolô cheia de perguntas. Não fale nada, Lolô, por favor! Ao se ver no estacionamento, Leona correu até o Chevette. A chave demorava a encaixar, porque ela tremia. Depois de apertar o cinto da filha, Leona se sentou no banco de motorista. As batidas de seu coração se transportavam para os tímpanos.
   – Mas e o Cadu, mamãe?
   Cada ruído da caminhada até o carro foi uma martelada leve contra um vidro grosso do aquário onde imergia sua decisão. O primeiro golpe só arranhou a superfície. O ritmo das batidas aumentava. Bleng. Bleng Bleng. BLENG. Era difícil ignorar. A pergunta de Lolô foi a última martelada. Perfurou o vidro que protegia a determinação de Leona. O vão é pequeno, o que não impede o desespero de escorrer, vazar como a água de um aquário rachado. O choro escapou até Leona engasgar.
   Cadu era mesmo capaz? Foi o que Leona se perguntou quando encontrou a primeira gata escondida na caixa de brinquedos do filho. A pergunta se instalou como um visitante indesejado que desconhece a hora de ir embora. Era um pensamento obsceno do qual Leona se despedia, mas que não se desprendia do cérebro.
   Era uma persa de pelagem toda cinza, quase azulada. Apesar da cor, seu nome era Mel. Os vizinhos perguntaram se Leona havia visto a gata alguns dias antes. Mel às vezes pulava o muro e fazia companhia para Leona enquanto ela esfregava as roupas no tanque. Seus pelos, antes macios, estavam secos e ásperos. As patas ágeis e o rabo endureceram. Parecia uma estátua com pescoço quebrado.
  Cadu brincava na sala com soldadinhos verdes e minúsculos. Imitava os barulhos de uma guerra com os lábios. Tinha sete anos. Leona reparou nos arranhões nos braços do filho. Ele logo largou os brinquedos para assisti-la. Os dois se encaravam, imóveis. Era possível ouvir mocinho e a mocinha da novela terminarem um relacionamento chorosos no televisor.
A cena da atriz chorando lágrimas cinzas era substituída por um coadjuvante dirigindo um carro que seria azul-marinho fora do mundo monocromático da televisão sem que Leona e Cadu pronunciassem uma palavra. As perguntas da mãe eram engolidas. O filho a cercava com o olhar de ler mentes.
   – Ela já estava assim quando a encontrei no jardim. - ele finalmente rompeu o silêncio, com os olhos grudados nos soldadinhos.
   – E por que a guardou? - Leona perguntou, em vez do “Foi você quem a matou?” em gestação na sua garganta.
   – Não sei. Eu só quis.
   Duas lágrimas gêmeas escorreram nas bochechas da mãe e do filho. Leona não conseguia interrogar Cadu. O que dera nela? Só era capaz de abraçar o filho e desejar que ele diminuísse até voltar a ser o bebê que ela carregava no colo.
   Leona saiu de madrugada com o Chevette. Rezava para que os faróis ou o motor não acordassem ninguém, principalmente Armando. Ela saiu à caça de um terreno baldio pela pequena cidade onde moravam. Cavar exigia mais força do que ela parecia ter. Porém, Leona abriu uma pequena cova e se despediu de Mel.
   O segundo gato era gordo e rajado. Era um animal andarilho que às vezes circulava um boteco da rua de trás. Estavam em uma gaveta, debaixo das roupas do filho, que ainda conservavam o cheiro do amaciante.
   Leona o enterrou torcendo para que fosse o último gato enforcado, mas não foi. Houve um terceiro, um quarto e um quinto. Ela desmontava e remontava a casa todos os dias ao voltar do trabalho no escritório a procura de um novo corpo. Tentava ser rápida para realizar os enterros antes de o marido chegar. Às vezes, perdia o sono e andava pela casa para vigiar as crianças.
  Cadu sempre dizia que os encontrava mortos e os trazia para casa. Leona ameaçava contar para Armando, mas fraquejava. O marido estava sempre tão cansado e passava tão pouco tempo com as crianças. Os momentos em que os pai e filho brincavam com trens em miniatura ou em que Armando ensinava Cadu a imitar jogadores da seleção tricampeã que o menino nem havia assistido, mas idolatrava porque o pai idolatrava, não podiam ser maculados.
   Quando chegaram ao parque, o pensamento de medo pareceu morrer. Ou desmaiar, pelo menos. Os três iriam apenas se divertir. E ficaram alegres, como as famílias das propagandas que viam na televisão. Davam risadas no tromba-tromba como se quisessem afrontar o mundo. Tudo parecia bem e agora ela se vê ligando o motor do Chevette, com o rosto ensopado de lágrimas enquanto se prepara para abandonar filho em um grande parque.
   Leona sente a vergonha incendiar a pele de seu rosto enquanto se olha no retrovisor. As lágrimas caem tingidas pelo preto da maquiagem borrada. Ela limpa o rosto com força. Queria se machucar, queria que doesse. Leona crava as unhas no rosto e se arranha até as marcas ficarem nítidas. Os cabelos cortados no estilo Farrah Fawcett estão um caos.
   Abandonar Cadu era inclusive um plano ridículo. Armando se desesperaria com o sumiço do filho, para começar. A polícia teria de ser avisada e Cadu seria procurado até ser encontrado. Esclareceriam o crime de abandono. Mas a cidade onde eles moravam ficava tão longe do parque e era tão pequena, tão esquecida pelo mundo. Só que Cadu sabia onde morava e pediria ajuda. Não só era idiota demais pensar nisso, era cruel demais.
   Como o mundo trataria Cadu? Ela era a mãe, sempre ouviu que deveria amar e proteger o filho a qualquer custo. Devia? É o que chamavam de papel de mãe, de amor incondicional. Mas era tão difícil enterrar gatos. E se partisse para algo maior? Ela tremia ao observá-lo ao lado da irmã, ao almoçar e jantar na mesma mesa que ele, ao conversar com o menino sem conseguir fazer as perguntas que importavam.
   Lolô sofre com a confusão. Chora baixinho com as pupilas pregadas na mãe.
   – Não, meu anjo, não precisa chorar. Já passou. Vem. Está tudo bem. Nós vamos buscar Cadu e ir embora. Que tal? Podemos tomar sorvete no caminho como você queria. Vem.
  As duas voltam ao local onde o deixaram. Cadu não está na saída da casa da mulher que vira macaco, nem nos brinquedos mais próximos ou nas barracas nos arredores. Onde quer que Leona pouse a vista há meninos. Nenhum deles é o filho. Leona o procura até o sangue se concentrar nos dedos apertados dentro do scarpin velho, comprado em 1979.
   A vontade de fugir para sempre aumentava na mesma proporção do medo de nunca mais ver o filho, nunca mais pentear seus cabelos cacheados, nunca medir seu tamanho até perceber que ele estava um centímetro mais próximo da altura da própria Leona e de Armando. E nunca mais sentir aquele olhar de ler mentes. Nunca mais encontrar gatos. Nunca mais sentir medo por Lolô.
   Porém, se o filho é que se tornasse uma criança morta seria culpa dela. Ela sentia ratos subirem por suas roupas. Ela era um animal sujo, um animal ruim. O filho herdou isso dela.
  Leona volta a chorar sem perceber. Ela aperta forte a mão da filha, até que Lolô começa a choramingar que está com dor. No mesmo segundo, uma mulher com sorriso forçado surge na frente das duas.
  – Você está procurando um menininho com essa altura? Ele estava ali parado, atrás das barracas. Parecia perdido. Disse que a mãe foi embora.
  O dedo da mulher indica o caminho. Até o último instante, Leona sente dúvidas sobre seguir as direções ou não. Ela tenta esgarçar a gola que a esganava. E então corre, arrastando Lolô como se a filha fosse uma mala pesada.
  Estava pronta para abraçar Cadu. A atmosfera fria em volta dele a desmonta. Os dois estão frente a frente e evitam se olhar. Ela não sabe dizer desculpas, como nunca soube perguntar em voz alta quem o filho realmente era.
  Cadu mantém uma espécie de voto de silêncio. A certeza está estampada no rosto do garoto. Ele sabe ler com exatidão os gestos, a respiração da mãe, o cheiro acre de seu medo. Os dois dão as mãos. Ao apertar a palma macia do filho entre seus dedos, Leona sente que aquele dia no parque seria um gato que ela e Cadu enterrariam juntos.





quinta-feira, 16 de maio de 2019

Bípedes



Ilustração : Clara Lieu


A torneira da pia está pingando. Desde. Preciso mandar consertar. Não é pelo desperdício. Quero que se foda o desperdício. Minha cabeça não aguenta mais é o barulhinho das gotas. Minha cabeça que parece um oco de ecos. Desde. Janis e Jimmy estão latindo faz horas. Um inferno. Já devem ter afugentado o carteiro, as crianças na rua, o encanador que jurou que vinha hoje cedo. Preciso prender os dois. Mas não quero. Eles são a minha trincheira. Ninguém passa, ninguém passa. Desde. Gosto dessa sensação de impedimento que eles estabelecem entre mim e os bípedes. Estou inalcançável. Blindada pelos caninos de 3 cm que se arreganham para o mundo do lado de fora de mim. Preciso lembrar é se dei comida a eles. Antes que me ataquem com a fúria justificada dos famintos. Eu não suportaria. As mordidas, sim. Seriam apenas sangue e dor. Mas não quero fabricar para eles um destino cruel. Sacrificados. Incriminados sem tribunal. Acusados de ser as feras que não são. Eles que não sabem nada de culpas. Só de fome. Da fome que cega o instinto. Não, my beloved, eu não entregaria vocês a um destino desses. Não vai acontecer. As vasilhas no quintal ainda têm um dedo de ração. Não serei estraçalhada. Pelo menos no que me externa. De resto já não existe mesmo nada inteiro. Só este gosto de dor amargando que eu não consigo degustar. Desde. Um instante de trégua. Janis se encontra comigo na porta da cozinha. Lambe minhas mãos com uma delicadeza desconcertante para um bicho do seu porte. As fêmeas sempre percebem primeiro que alguma coisa está errada. Bobagem. A mordida leve que ela me dá para me obrigar a fazer um carinho na sua cabeça me lembra do outro lado da nossa equação feminina. Impiedade. Jimmy continua deitado rosnando para o portão. Com breves pausas para lamber o saco e as patas. Adoro esse despudor alienado dos bichos. Adoro tudo que me resgata do correto. Faz tempo que eu não venho aqui fora olhar os cães. Desde. Desculpem se eu estive ausente por um tempo, digo a eles com remorso tardio. Os dois focinhos se voltam para mim. Não entendem o que eu digo, mas farejam meu cheiro de fraqueza. Estão alertas. É assim quando eu choro. Eles se inquietam comigo. Melhor me abaixar e sentar no chão da cozinha antes que um dos dois pule para lamber meu rosto. Eu sempre achei que os cães só queriam o gosto salgado das lágrimas. Até o dia em que você foi embora, G. Foi quando a casa vazia deixou de me caber. Eu desabei. E tampei o rosto encharcado com o travesseiro enorme. Jimmy lutou comigo por uns instantes, tentando passar a língua naquela água toda, cavando o travesseiro para colher os meus soluços. E eu agarrada às bordas da fronha, os dedos vermelhos pela força. Quando eu venci, virei de bruços, exausta, rosto afundado na cama, pernas esticadas, braços suspensos em volta da cabeça. Então, Jimmy subiu nas minhas costas. Tão leve que não parecia um gigante. E foi se ajeitando, deitando sobre mim, me cobrindo com aquele corpo enorme, até que me abraçou por inteiro do seu jeito cão, formando um casulo protetor. Como um bicho faz sobre outro que morreu. E eu relaxei naquela morte de afeto. Quando acordei, ele ainda estava lá. Esquentando as minhas costas. Babando as minhas costas. Tomando conta de mim. Janis dormia ao meu lado, com a cabeça naquele seu travesseiro arrogante de penas,  G., a pata comprida pousada sobre o meu ombro. E eu tive a certeza de que você não ia voltar. Ela nunca tinha subido na nossa cama antes. Os cães não ocupam territórios de outros cães. Só se for por comida. Ou por água. Água. A torneira do inferno continua pingando. Preciso fechar o registro. O encanador agora não atende a droga do celular. Merda. Deve ter vindo e corrido dos cachorros. Não sei. Não sei de mais nada. Desde. Desde que você me sentou na varanda (aquela faixa estreita e acanhada de cerâmica vermelha que alguém construiu na frente da casa e batizou assim, num delírio de grandeza) e segurou as minhas mãos para impedir que elas se mexessem. Elas me distraem; parecem pássaros bêbados, você dizia sempre. E eu ria. Mesmo quando não achava mais graça na sua piada velha. Ria de hábito. Como ria das histórias do trabalho, que você contava quatro, cinco vezes. E ria quando você ficava em cima de mim, tentando me fazer gozar do seu jeito, nunca do meu. Você nunca trepou bem, G. Sempre egoísta. Esfregando o meu clitóris com os seus dedos de bucha. Passando uma ponta de língua incompetente e tímida no meu sexo faminto. Com pressa. Com desinteresse. Com nojo. Enfiando de uma vez o seu pau duro dentro de mim. Sem antes me deixar molhada. Sem antes me sentir entrega. Um pau grande demais. Desses que toda mulher diz que gosta. Mas que só fazem é machucar a gente se não souberem brincar no caminho.  E você não sabia brincar. Mas eu ria. Agora, não rio mais. Desde. Desde que você imobilizou as minhas mãos-pássaros-bêbados e me disse que a gente não tinha mais nada a ver. Que você não gostava mais de mim. Assim, sem rodeios. Que a nossa relação estava desgastada. Que a culpa era sua. Que você queria outra coisa na vida. Que nem na cama a gente se dava mais bem — aquele “a gente” sobrando, como se algum dia o prazer tivesse sido plural. E outra meia dúzia de clichês idiotas que os homens repetem quando as malas já estão do lado de fora. Por que é que vocês mentem? Por que é que vocês acham que nós precisamos de desculpas? Por que é que vocês não vão embora em silêncio? 
A torneira da pia está pingando. E eu nunca me lembro se me lembrei da comida de Janis e Jimmy. Preciso prender os dois. Tenho de ir à rua. Hoje, G., eu começo o passo n° 2 do luto: beber e foder. Com qualquer um. Qualquer bípede que possa consertar o vazamento, alimentar os animais e se enfiar dentro de mim sem pressa, dedos, língua, pica. Até me fazer gozar. Essa coisa que não tenho feito. Desde. 





quinta-feira, 25 de abril de 2019

Um crime suburbano



Não é um feito de que me orgulhe, mas tenho de confessar: eu apanho coisas no lixo. De vez em quando, percebo que uma peça interessante está poisada junto a algum dos grupos de caixotes que estão distribuídos um pouco por todo o bairro. Já trouxe para casa uma pequena mesa de apoio de sofá, uma prateleira para frascos de especiarias, uma moldura de madeira trabalhada e pintada de castanho, mas, geralmente só apanho livros. Apesar de poucas pessoas os comprarem, vão aparecendo livros, geralmente escolares, junto aos caixotes.
Esta história começa há uns quatro meses, em uma das minhas voltas de caminhada e exploração, que, invariavelmente, tentam percorrer itinerários menos habituais, quando encontrei uma caixa de cartão com livros, junto a uns caixotes de lixo no “bairro dos sinistrados”. Tinham todos capa preta e eram da mesma coleção de especulação paracientífica, área que agora me interessa pouco, mas que fez sucesso nas décadas de 70 e 80. Percorrendo os títulos, acabei por me agradar de “Os arquivos do insólito”. No meio deles, uma agenda de 2007, de tamanho próximo do dos livros — menor que o A4 —, que aparentemente tinha sido usada como diário. Movido por uma curiosidade voyeurista, acabei por a trazer para casa, também.
Era uma dessas agendas com umas quantas folhas iniciais de informações supostamente úteis, como a conversão entre as medidas inglesas e as do sistema métrico, as distâncias quilométricas entre cidades europeias, os feriados municipais de dezenas de concelhos portugueses, os cálculos de volumes de sólidos simples, e outras irrelevâncias de uso incerto. O resto apresentava três dias por página e estava parcialmente manuscrito. Havia muitos dias em branco, mas o espaço de outros estava aproveitado até às margens, em letra tanto mais pequena quanto o autor percebia que tinha mais para dizer do que o espaço disponível. Havia mesmo dias que invadiam o espaço dos seguintes.
A letra era relativamente bem desenhada e fui lendo as observações do quotidiano de alguém que, aparentemente, vivia de apanhar e vender metal, além de explorar uma horta urbana clandestina. Nada de especialmente movimentado ou excitante, mas, a certa altura, o relato terminava abruptamente e percebia-se que a folha seguinte tinha sido rasgada pela base. Caramba! Este pormenor acicatou-me mais a curiosidade do que o facto de ter encontrado a agenda. Teria a folha sido rasgada por conter alguma peripécia comprometedora ou o autor do diário tinha simplesmente precisado dela para escrever um recado? A curiosidade era grande, mas nada podia fazer.
Nada podia fazer em estado de vigília, mas, quando acordei na manhã seguinte, o trabalho do meu espírito, enquanto dormia, deu frutos. Lembrei-me de ter visto num filme, talvez policial, uma situação semelhante em que o protagonista tinha conseguido reconstituir o que tinha sido escrito, pela análise laboriosa dos sulcos produzidos nas folhas adjacentes pela pressão da ponta da esferográfica na folha arrancada. Inclinando a página seguinte, percebi a existência desses sulcos. O principal estava provado; a técnica para conseguir ler os ditos sulcos fui buscá-la à Internet. Após uma semana de trabalho paciente e meticuloso — polvilhamento com pó de café, meia-linha a meia-linha, aplicação de luz rasante, fotografia de alto contraste —, consegui reconstituir todo o texto desaparecido, que tinha ocupado as duas faces da folha. Aplicar a técnica à folha anterior e já escrita foi mais delicado e moroso, mas no fim consegui ler tudo.
Fiquei alarmado. Realmente, havia razões muito fortes para o autor do diário tentar esconder o que tinha acontecido naquele dia. Tão grave era a situação que a primeira coisa que me ocorreu foi ir à Polícia denunciar o autor, fosse ele quem fosse. Algo, no entanto, me levou a enveredar por uma investigação pessoal: talvez o medo de me expor como testemunha; talvez a necessidade de ocupar os dias de uma reforma monótona. Primeiro, havia que caracterizar o autor do diário e eventual criminoso, pela análise ponderada dos seus escritos. Acompanhem-me nessa análise e avaliem também que tipo de pessoa é esta.

23 de março
Gosto do cheiro das manhãs, da luz limpa e verdadeira do sol nascente. De manhã sou mais eu, mais o jovem que dormia de janela aberta para receber os primeiros raios refletidos no Mar da Palha. Fumava um cigarro a contemplar os alvores rubros em luta contra a neblina do rio, o fumo do meu cigarro a evolar-se pachorrento, como os indolentes vapores da fábrica da farinha que ronronava todo o dia e onde eu trabalhei dez anos. Se fosse dia de folga, voltava a deitar-me para mais umas horas de sono. Uma manhã — maldita seja —, o rubro não era o do astro da vida, era o do génio da morte. A minha fábrica, o meu ganha-pão, era uma garra de fumo negro a esganar o meu futuro e o dos outros operários. Por detrás, o diabo em cabriolas de chamas por entre as máquinas, a cortar tapetes de transporte de grão, a derreter alcatruzes e roldanas, a comer o pão de todos. No momento, ainda suspeitei dos homens de negro de cuja existência os meus livros me avisavam, o que me pareceu que era corroborado pelas luzes estranhas que por vezes via pairar sobre o mouchão, mas não descortinei as suas sinistras silhuetas a assegurarem-se que o mal feito se cumpria na totalidade. Nunca mais lá voltei.
Hoje, o céu estava assim vermelho, potente. Ao pé da escola de baixo estava uma máquina de roupa. Arranquei-lhe o tambor e umas seis peças que consegui cortar, com a mesma raiva de há vinte anos.

2 de abril
Marteladas, o raio que os parta! Quem é que eles pensam que são? Têm a mania que são aristocratas, por afocinharem no gargalo da mini ao fim da tarde na esplanada do café do Sr. Manel. Estes tipos veem-me andar ao cobre, ao latão e ao alumínio e pensam que sou um tipo qualquer, que me podem tratar de qualquer maneira. Não sabem nada de mim, em que ofícios trabalhei, como me realizo, o que sou. Não lhes passa pela cabeça as coisas que eu sei. Nunca viram a minha estante de livros… Devem pensar que Heisenberg é um corredor de automóveis. Não sabem quem é, muito menos o que disse.
«Ó, Marteladas, bebe aqui uma mini, que pago eu.» — grasnou um, de olhinhos apertados pelo prazer do deboche, a querer mais caçoar do que oferecer.
«Marteladas deve ser aquilo que tu já não dás há muito tempo» — foi a minha resposta pronta. Tenho pouca vontade de servir de chacota aos outros, muito menos de tipos que não merecem respeito.
Veio para mim com ar agastado: «Mas, ouve lá, é assim que agradeces? Tu não te enxergas.» Dei-lhe um empurrão que o fez estatelar no chão de mármore, a garrafa a escaqueirar-se e o líquido a espalhar-se. «Quem não se enxerga és tu, que deves estar bêbado desde ontem. Vai mas é beijar o rabo ao teu patrão.» Levantou-se de um salto, os olhos muito abertos a correr para mim, mas eu só levantei o martelo. Hesitou, a ver a questão de outra perspetiva, a olhar para os parceiros a ver se tinha apoio. Só grunhiram uns resmungos de apaziguamento. Já todos me conhecem… Se fosse preciso, tinha a navalha.

8 de abril
Entrou um rato na horta. Não foi nenhum cão, não foi uma rabanada de vento. Foi alguém que entrou lá deliberadamente para roubar. Destorceu o arame que tenho na porta, andou a cheirar e arrancou duas couves. Podia simplesmente tirar umas folhas, mas não. Esta gente não sabe nada de nada. Veem as couves inteiras no supermercado e acham que é assim que se colhem. Estúpidos.

10 de abril
Foi um dia para esquecer. Dei voltas e voltas, cheguei a ir aos Pombais, mas só encontrei umas calhas de estore. Tive de fazer uma saída à noite. A mulher na telenovela a querer saber aonde ia. Por acaso eu chateio-a por ela estar sempre a ver televisão? Felizmente, tenho os meus livros e o escritório. À noite são as novelas, de manhã são aqueles vendedores de rifas. Interessa-lhes lá a música de qualidade ou a formação de cidadania; só querem que se telefone para os sorteios deles, pagando, claro. Deve haver umas centenas de milhares de estúpidos que telefonam todos os dias e não fazem as contas ao que gastam. Se calhar, já ultrapassa o prémio. Creem na sorte e não nas probabilidades. Uma hipótese em duzentas ou quinhentas mil? Parvos.
Só achei mais umas caçarolas e um escadote partido. Não gosto de sair à noite, porque não se pode estar a fazer barulho com o martelo.

13 de abril
Este ano vou plantar morangueiros e espinafres. Aos poucos, vou tendo de tudo. É incrível como um espaço de uns 40 metros quadrados dá tanta coisa: batatas, couves, alfaces, tomates, cenouras, cebolas, alhos, favas, beringelas, feijão grande. Fica caro comprar as ferramentas, as sementes, o adubo — quando encontro, prefiro comprar estrume; é mais natural. Se fôssemos contabilizar o trabalho, então… Mas sei o que como. Parece que me sabe melhor. As batatas têm um sabor que não tem nada a ver com as do super. E passar ali umas horas a tratar das plantas não tem preço. São tão generosas. Se as pessoas tivessem metade da generosidade das plantas…
A primeira horta que arranjei era lá em baixo, ao pé da ribeira. Já lá vão uns anos valentes. O espaço estava baldio e eu precisava de ganhar alguma coisa. Ou, pelo menos, de não gastar. E de ocupar o tempo. Nessa altura estava com subsídio de desemprego e tive de me desenrascar. Pareceu-me que poupar nas compras era uma espécie de complemento do subsídio. E era. Cheguei a ter três macieiras, uma pereira, um pessegueiro, uma ameixieira. Para nós dava. Ou tinha de dar. Passei a ir ao super só para comprar arroz e massa. E alguns enlatados. Mas depois quiseram melhorar o trânsito e fizeram para ali uns viadutos e umas rotundas e usaram o terreno à vontade deles. Enfiaram um pilar mesmo no meio da horta. Tive de procurar outro local. Aqui ao pé de mim tinham andado a mexer na ribeira, quando rasgaram uma rotunda, e deixaram uns espaços que davam umas leiras estreitas e inclinadas. Vedei uma tira com canas, aos poucos endireitei o terreno e criei um ponto firme na berma da ribeira para tirar água. Desloquei para lá uma arca congeladora velha, para fazer de tanque, e uns bidões de plástico. Quando tenho mais tempo, encho tudo. E rego quando é preciso. É quase como se tivesse água canalizada.
O que eu sinto é que aquilo dá-me trabalho, mas tiro de lá compensação mais do que suficiente. De víveres e de serenidade. Quando posso tirar. Porque esta noite o rato voltou e levou as beringelas todas: umas cinco ou seis. Andava a olhar para elas, à espera de ficarem maduras, para fritar às rodelas… Fiquei fulo. Que tipo de pessoa se vem aproveitar do trabalho de outro em seu proveito? Bem, qualquer um. Vivemos numa sociedade podre. Se apanho o ratinho…

16 de abril
Dia de entrega de material. O fulano de Torres Novas apareceu logo às 8 e meia. Só queria dar 50 cêntimos, o quilo, pelo alumínio, 2 euros pelo latão e 3 pelo cobre. Ferro, nem vê-lo. Isto cada vez está pior. Argumentava que as poucas coisas que eu juntei mal davam para a deslocação, porque tinha de pagar o gasóleo, os pórticos e as portagens.
Pouca coisa, para ele, que a mim bem me custou catar peça a peça. E cortá-las aos bocados, de modo a caberem nos bidões. Tinha quatro de ferro, dois de alumínio e meio com coisas de latão e de cobre. Acabou por subir um bocadinho e levou também o ferro. Tudo junto, pouco passou dos 150 euros. Enfim. Podia ser melhor, mas bom jeito dá. Com o que poupo com a horta, vai ajudando a esticar as reformas. E mortinhos que os do Governo andam para lhes meterem a unha.
Ninguém imagina a economia que representa a reciclagem de metal puro, em vez de ser extraído do minério. Ninguém suspeita que se economiza mais de 90% da energia elétrica que seria utilizada na produção do metal a partir da bauxita, li num artigo. Se fizessem as contas à energia que o país poupa ao reciclar os metais que nós, os coletores de sucatas, fornecemos, talvez nos dessem mais valor. É preciso é acabar com os que geram mais prejuízos que poupanças, esses que vão pelos campos de zonas pouco habitadas e desmontam centenas ou quilómetros de cabos de cobre — o “bife do lombo” dos metais —, quer da rede telefónica, quer da de distribuição de energia elétrica. E que roubam tudo o que aparece, desde floreiras e estátuas nos cemitérios, até esculturas, em praças ou rotundas, algumas com centenas de quilos. Vendem por umas dezenas de euros o que pode ter custado milhares. Não tenho nenhum respeito por essa gente. Olham para os trocos no bolso deles, não olham para o mal que fazem. O património artístico não lhes diz nada. Vivem para quê? Em dias fracos, quantas vezes olhei para os puxadores de cobre de algumas portas, mas seria preciso eu estar muito desvairado. Não, comigo não.

Aqui terminavam as páginas escritas. Só transcrevi as que me pareceu que melhor caracterizavam o autor, ao qual podemos chamar Marteladas, à falta de um nome. O que se segue é o texto recuperado, o tal que, aparentemente, o nosso homem quis esconder.

28 de abril
Se calhar, não devia escrever isto, mas preciso de desabafar. Nos últimos dias, houve três assaltos à minha horta. Ontem, depois de a ver patinhada, destruído um alfobre de alfaces e roubadas mais três couves e umas duas dúzias de cenouras, decidi-me. Quem rouba tais quantidades não é para comer, deve ser para vender. Arranjei um banquinho e um cobertor escuro e, à noite, instalei-me na horta, num nicho de canas que improvisei. Pelas duas da manhã, já estava arrependido. Achei que precisava de saber primeiro se o rato vinha à noite ou de manhãzinha. Estava quase a decidir regressar a casa e acolher-me ao quentinho da cama, quando ouvi um restolhar na vereda que dá acesso à horta. O meu coração partiu para uma prova de velocidade. Até tive medo que o barulho que fazia denunciasse a minha presença. Então, vi a sombra de um homem que, cautelosamente, destorceu o arame da porta e entrou quase sem ruído. Pela silhueta, parecia o tipo a quem eu dera um empurrão na esplanada do Sr. Manel. Sacana! Não era por fome, era por vingança. Senti um afrontamento no pescoço. Tentei dominar a raiva. Peguei, silenciosamente, no sacho que tinha posto à mão, disposto a dar uma coça no intruso. Na minha horta não entrava um ratoneiro impunemente. O ratinho olhou, a orientar-se no escuro e, fiado na vedação de canas, acendeu uma lanterna de bolso, mas não consegui divisar-lhe as feições. Momentos depois, já tinha cortado uma couve com uma navalha de bolso. Antes que cortasse outra, saí de trás das canas a gritar. O tipo assustou-se, mas depois cresceu para mim, com a navalha e a lanterna a encandear-me. Estava a ver o caso mal parado. Felizmente, o cabo do sacho era muito mais comprido do que o da navalha dele. Puxei-o de trás de mim, numa rotação lateral acelerada em direção à luz. Ouvi um som abafado e senti que o movimento foi travado por alguma coisa pouco rija e, imediatamente, apenas o escuro, a lanterna no meio das canas, o vulto do malandro a esmagar o canteiro das cebolas. Totalmente aturdido com a rapidez dos acontecimentos, mantive-me em pé, alerta não sei para quê. Passado um tempo que me pareceu infindo, tomei finalmente consciência plena do que acontecera. E da situação melindrosa em que me colocara. Baixei-me a apalpar o vulto caído, mas, pela brecha na cabeça, logo percebi que o irremediável estava feito. O calor de pouco antes deu lugar a um frio intenso. Perigo era o que sentia. Era preciso atuar rapidamente. Desfazer-me do corpo. Atirá-lo à ribeira, escondê-lo, desmanchá-lo. Na escuridão, percebi as manchas claras dos bidões e da arca congeladora. Esta era quase do tamanho do corpo. Não tentei provar a mim mesmo que era a melhor solução. Era uma solução.
As duas horas seguintes foram de trabalho esforçado. Afastei a arca e cavei uma cova suficiente para o corpo. Não a afundei mais que uns 60 centímetros, porque depois havia rocha. Para já, chegava. Arrastei para lá o corpo, tapei-o bem e arrastei a arca para o sítio dela, por cima do corpo. A terra que sobrou espalhei-a nas zonas pisoteadas e aumentei o cômoro das couves.
Voltei para casa, mas não consegui dormir. Nem ontem, nem hoje. São quatro da manhã e estou tão desperto como se tivesse dormido oito horas. Oiço um melro que não para com a cantoria. E só imagino coisas. Lembrei-me outra vez dos homens de negro. A cor negra do pássaro não é por acaso. Deve ser um sinal deles. Será que eles viram tudo? Não sei o que fazer.
*
Caramba! Tinha pensado em inúmeras situações que podiam ter obrigado o Marteladas a desfazer-se de uma folha do diário, desde roubos inconfessáveis, até maroteiras lúbricas, mas nunca suspeitei que ia encontrar um crime de sangue. Era disso que se tratava, sem dúvida. E tudo indicava que, apesar de alguns aspetos delirantes, o Marteladas era um indivíduo imputável. Tinha de ir à Polícia. Estava certo que, apesar de não dispor da folha de diário original, facilmente conseguiria que a Polícia se interessasse pelo provável homicídio perpetrado por ele.
Chamem-me a mim delirante, se quiserem, mas, por um momento, tive medo de uma improvável construção ficcional do Marteladas. Um lampejo fez-me temer que aquela mente desvairada tivesse arquitetado um episódio excitante na monotonia da sua vida. Recobrei rapidamente o bom senso e afastei a apreensão de um possível ridículo ao perceber que, nesta hipótese, fazia pouco sentido a folha arrancada. Ainda assim, antes de ir à Polícia, resolvi obter maiores certezas. Sabia da existência de algumas referências — o “bairro dos sinistrados”, as hortas junto à rotunda, o café do Sr. Manel —, e foi por este que comecei: se conhecia alguém com a alcunha de Marteladas e se se lembrava de um recontro dele com outros clientes, uns anos atrás.
Oh, esse já está engavetado há muito tempo. Então o senhor não se lembra? O tipo matou um desgraçado que ia à horta dele apanhar qualquer coisa para comer, em vez de andar aos caixotes. Coitado!
Inesperada, é o que posso dizer desta revelação. Andava eu com tantos pruridos, com tantas cautelas e, afinal, já estava tudo resolvido.
Ah, sim? Sabe, eu moro aqui há poucos anos. E como é que o apanharam?
Parece que foi ele que se entregou. Eu não sei bem a história, mas acho que foi isso que veio nos jornais.
Isto também não me pareceu normal. Todos os criminosos tentam esconder o crime para salvarem a pele e este entregou-se? Pelo Sr. Manel soube onde era a casa do Marteladas — que, vim a saber, se chamava Francisco Gomes —, onde a mulher continua a viver e para lá me dirigi, um pouco sem pensar.
A mulher recebeu-me com a típica farda das donas de casa — uma bata às florinhas miúdas. Sem nunca referir a questão do diário, apresentei-me como um conhecido do marido, dizendo que nos encontrávamos por aí, quando também eu andava ao metal, mas que tinha estado fora uns anos e que só agora tinha sabido da prisão dele.
Ele nunca lhe falou no Esteves?
Fez que não. Se desconfiou, não o manifestou. Mandou-me entrar, “para as vizinhas não darem fé”, e, às minhas perguntas orientadas, foi informando que o marido, depois de ter morto o homem, andava alterado.
E eu sem saber porquê. Não dormia, estava sempre irritado, achava que andava a ser vigiado. O que, pelos vistos, era verdade.
Ah, sim? — incitei.
Pois! A certa altura, recebeu uma carta anónima com insinuações sobre algo que essa pessoa sabia. O meu marido ficou desvairado. Tudo o que ele suspeitava se confirmava. Ficou muito tempo a pensar, tão impaciente que eu não lhe podia dizer nada. Andou a remexer nos papéis dele, a rasgar coisas. Depois foi à horta, mas não se demorou. Dias depois, outra carta. Era a confirmação da chantagem. Exigia cinco mil euros, senão denunciava-o à Polícia, sem nunca explicar o que sabia.
E, então, pagou? — perguntei genuinamente curioso.
O meu marido tinha lá cinco mil euros para dar assim! Se calhar, até arranjava, se pedisse uns adiantamentos, sei lá! Mas resolveu não pagar. Sabe, ele era muito reto. Isto que lhe estavam a fazer era tudo o que representava podridão para ele. Então, resolveu ir à Polícia com as cartas do chantagista, sem eu saber que era para se entregar. Não quis que a barafunda fosse aqui em casa.
Esta revelação não me apanhou completamente desprevenido. Pelo que tinha lido no diário, pareceu-me que ele tinha uma espécie de ética pessoal.
Em que prisão é que ele está?
Está em Pinheiro da Cruz. Mas acho que não fica lá muito tempo. Ele apanhou oito anos; já vê, a coisa não foi premeditada, aconteceu, e teve a atenuante de se ter entregado. Quando foi preso, foi um grande choque para mim, que não sabia de nada. Pensei que ia lá ficar para sempre, digamos assim. Até dei uma limpeza a fundo ali no escritório dele.
Posso ver? — apontei com o queixo para a direção que ela tinha indicado. — Só para saber se ele ainda gosta de livros esquisitos — sorri, atenuando a impertinência do pedido.
Gostar, gostava, mas deitei tudo fora. Aquelas palermices só lhe faziam mal. Qualquer dia está aí e, se calhar, ainda se vai zangar comigo por ter deitado aquilo fora.
Entrámos. Era uma marquise fechada com uma escrivaninha minúscula e uma cadeira. A parede tinha estantes de cima a baixo, organizadas em prateleiras temáticas. Ao nível dos olhos era a secção de divulgação científica: Sagan, Asimov, Gould, Dawkins, Clarke, e outros nomes menos conhecidos. À direita, ficção científica e policiais. À esquerda, seria a secção “arrumada” pela mulher: restavam uns títulos “esquisitos”, relacionados com religião e marianismo. As prateleiras cimeiras deviam corresponder a ciência, propriamente dita, onde identifiquei nomes como Galileu, Crick, Darwin, Freud, Jung. Surpreendi-me de ver História e Política a partilhar uma prateleira e de uma inteira com livros sobre Arte e outra com Poesia. Este Marteladas — não é fácil adaptar-me a Francisco Gomes, depois de o ter tratado tanto tempo pela alcunha — é um indivíduo surpreendente, pensei.
E o morto? Sempre era um que tinha tido uma rixa com ele, além no café? Contaram-me… — disse eu, cautelosamente, com medo de denunciar o pormenor do diário.
Não, veja lá! Era o vizinho aqui da cave. Então, se nós soubéssemos a miséria em que ele vivia não lhe tínhamos dado as hortaliças que quisesse? É a pobreza escondida. Olhe, tenho feito um esforço para tomar atenção a algum caso parecido que haja por aí. E já tenho dado aos vizinhos. Agora, sou eu que trato da horta, sabe? Temos que nos desenrascar, não é?
E o chantagista, apanharam-no?
Acho que não, mas preferia não falar muito disso. Nunca se sabe. O meu marido suspeitava de alguém que tem uma janela que dá lá para a horta. Mas ainda fica desviada. Não sei.
Despedi-me e prometi visitar o marido na prisão. Não só precisava de manter a coerência da minha história, como fiquei verdadeiramente curioso por conhecê-lo.
No dia seguinte, fui a Pinheiro da Cruz, armado de bloco de notas e minicâmara. E o último livro do João Magueijo, como prenda. O Marteladas tinha uma tez levemente sanguínea, nariz um pouco abatatado, era alto e bem constituído, aparentando menos idade do que os 63 anos declarados. Estranhou a minha visita, por não me conhecer, mas eu disse-lhe que era um jornalista do Correio da Manhã e que estava a organizar uma reportagem que reabilitasse a imagem de presos que tinham matado por acidente. Contou-me tudo o que eu já sabia mas, quando lhe falei no chantagista, baixou a cabeça a sorrir.
Só falo disso se for off the record — exigiu.
Anuí, claro. Do meu lado era tudo off the record.
Sabe, eu vi-me muito apertado com a pressão dos remorsos, que vinha somar-se à vida atarefada e de pouca qualidade que eu levava. Estava farto. E cansado. Só queria sossego e descanso, mas o que me tinha acontecido não me permitia nenhuma serenidade. Fui eu que escrevi as cartas. Eu queria vir para a prisão, queria cumprir pena, para me livrar dos remorsos. Queria deixar de calcorrear as ruas à procura de metal. Queria deixar de ouvir novelas. Queria entregar-me, mas queria deixar a minha mulher a pensar que eu não tinha outra saída. Então escrevi as cartas, só para ela ler. Nem as mostrei à Polícia. E tive sorte, muita sorte. Aqui, Pinheiro da Cruz, é uma colónia penal agrícola. Os campos anexos da prisão são um paraíso para alguém que gosta de trabalhos do campo, como eu. Estou bem.
A minha capacidade de adaptação não me permitia mais surpresas. Despedi-me. A última visão que tive dele foi a de um rosto em grande serenidade. Antes assim!

Joaquim Bispo
*
Imagem: António Dacosta, Episódio com um cão, 1941.
MNAC (Museu do Chiado)

* * *






sábado, 20 de abril de 2019

Desmorrer

Estou morto.
Morto de desalento.
Morto de medo.
Morto por um pé de vento.
Morto de saudade.
Morto de vergonha.
Morto de mediocridade.
Morto pelos acontecimentos.
Morto pelo que não acontece.
Morto pela enxurrada.
Morto sem tempo de prece.
Morto pelo destino.
Morto por uma viga.
Morto por uma vaga.
Morto por desatino.
Morto por um sniper.
Morto com 80 tiros.
Morto por "incidente".
Morto indigente.
Morto que ninguém suspeite.
Morto por manga com leite.
Morto na sala de espera.
Morto na multidão.
Morto pelo acaso.
Morto pelo descaso.
Morto com raiva na mão.
Morto pela burrice.
Morto pela malvadeza.
Morto pela avareza.
Morto por neuronicídio.
Morto por anestesia.               
Morto federal.
Morto estadual,
Morto municipal.
Morto global.
Merecidamente morto.
Injustamente morto.
Indefinidamente morto.
Meramente morto.
Fui morto em doses homeopáticas.
Fui morto de supetão.
Morto quando me vi no espelho.
Morto quando não me vi mais não.
Morto de tédio.
Morto de excesso.
Morto na encosta
que morreu sem remédio.
Morto pelo vazio.
Morto pela profusão.
Morto pelo escárnio.
Morto sem educação.
Morto pela língua que matam.
Morto pela língua que mata.
Morto sem interpretação.
Morto pela devoção.
Morto como um passarinho.
Que se debate por ressurreição,
a sentir pelo sopro da fresta que resta,
um desejo, um sonho, uma utopia
de um dia, tomara que esteja por vir,
que a gente quando morrer
só possa é morrer de rir.





quarta-feira, 17 de abril de 2019

À sombra da jabuticabeira - Texto de Vera Saad

À sombra da jabuticabeira 






     Filipa ainda sentia o gosto da jabuticaba que pegava do pé. O que disse a Angel ao descrever a casa onde cresceu, na Vila Mariana.
     Quando nasceu, já moravam na casa grande. Grande para uma família pequena, que, tijolo por tijolo, aos poucos se construía. Com a chegada da irmã, improvisaram um quarto de bebê no escritório. Quatro anos depois, nascia o irmão. O quarto de Filipa Maria recebeu-o com seu nome pintado em verde-claro na parede. Titia apegava-se à nova função. Dava as mãos aos dois com o zelo de mãe deitado em corpo de irmã mais velha.
     A casa ganhava gente. Duas janelas com a luz sempre acesa, e um cheiro gostoso da cozinha, sempre pronta a receber alguém. Era um sobrado com um quintal na frente e um jardim nos fundos, enfeitado por flores, duas gaiolas vazias e uma jabuticabeira. Nunca conseguiram prender um pássaro na gaiola. Meu tio soltava-os todos, que morriam desacostumados à própria natureza. 
    A porta da casa permanecia aberta. Titia crescera com a entrada e saída de vizinhos, parentes, amigos e até mendigos, que tocavam a campainha por uns trocados. Vovô compadecia-se dos que surgiam na casa, sujos, estômago vazio, rosto coberto de tristeza e pó. Abria a porta, oferecia toalhas, sabão e alguma dignidade em roupas limpas. Depois pedia à minha avó que preparasse um prato de comida. 
    Filipa Maria já chegou a ver um mendigo em seu quarto, quase nu. Usava a toalha rosa bordada à mão por minha avó e vestia as roupas do irmão de meu avô, que falecera por aqueles dias. 
     — O coração grande de papai. E ai de quem desobedecesse a esse coração grande e irascível. 
     Vovô sempre deixava um quarto vago aos parentes e amigos que chegassem de outras cidades. A casa grande da Vila Mariana era parada obrigatória a quem passasse por São Paulo. Ajudava os familiares em aperto.
     Minha tia lembrou-se de quando um primo distante, com fama de preguiçoso, passou a morar com eles. Vovô arrumou-lhe um cargo como contínuo, além de uma cama limpa na casa grande. 
    Com a roupa social emprestada de meu tio-avô — sua morte vestira muita gente —, o agregado saía de casa cedo e voltava à noite. Para algum lugar partia. Todos os dias. Algum canto abafado chamado trabalho, acreditavam.
     Até que um dia foi denunciado. Viram o primo deitado no banco de uma praça. Não era hora de almoço ou fim de expediente. O folgado fingia que ia para a empresa quando, na verdade, perambulava por São Paulo de manhã até o fim da tarde. Vovô ficou vermelho até as orelhas quando soube, esmurrou a mesa e expulsou o novo hóspede.
     A casa parecia sorrir com as explosões e a bondade repentinas de vovô. Aos domingos, todos se juntavam para ouvir minha tia tocar piano. Momento em que cantavam e brigavam juntos, quando melhor delineavam um verdadeiro retrato de família.
    Com a morte dos meus avós, os filhos permaneceram na casa por muito tempo, à sombra da jabuticabeira, como se minha mãe e meus tios tivessem crescido dentro de uma gaiola de portas abertas. Livres e, ao mesmo tempo, desacostumados a voar.
      Meus pais deixaram a casa para morar bem perto, em um apartamento quase vizinho.
     Com cerveja no corpo, titia tentou narrar a Angel a despedida da casa grande, mas a voz quase não saiu. Uma lembrança difícil.
      Seu cunhado, meu pai, fora demitido, e precisávamos todos de dinheiro.
     A irmã, minha mãe, sugeriu à minha tia que se mudassem. “Vai ser bom pros dois”, o que disse, sem se preocupar com as limitações de meu tio.
      Já as primeiras palavras ofenderam titia, preparada para a briga.
     Ao se desentender com a irmã, mamãe não viu outra saída que não a justiça. A briga arrastou-se por anos, com mandados judiciais, advogados, além do silêncio funesto entre irmãs.
     Tempos depois, quando já não precisávamos, eu havia me mudado, e papai ganhava estabilidade em outro emprego, a casa foi finalmente vendida e o dinheiro repartido em três.
    Titia largou o copo e pediu um cigarro a Angel. Tossiu nas primeiras tragadas. Com as tosses, soltou junto a fumaça do que se tornou a casa grande.
    — Passei lá dia desses. Uma imobiliária conseguiu demolir a casa. Mas a jabuticabeira continua de pé. É onde quero ser enterrada. À sombra daquela jabuticabeira.





     Autora dos romances Dança sueca (Patuá, 2019) e Telefone sem fio (Patuá, 2014) e do livro de contos Mind the gap (Patuá, 2011), Vera Saad é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutora em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Ministrou no Espaço Revista Cult curso sobre Jornalismo Literário em 2012. Tem participações na Revista Cult, Revista Língua Portuguesa, Revista Metáfora, Portal Cronópios e Revista Zunái. Vencedora do concurso de contos Sesc On-line 1997, avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, foi finalista, com o romance Estamos todos bem, do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Seu romance Dança sueca foi selecionado pela Casa das Rosas para o projeto Tutoria, ministrado pela escritora Veronica Stigger.





terça-feira, 16 de abril de 2019

Garrafas no jardim



Afundadas na terra. Plantadas entre avencas e coqueirinhos e samambaias. O vício escondido pelas folhas dos vasos. Tudo tão bem disfarçado que eu me pergunto como é que o braço paralisado de papai consegue dar conta de cavucar e enterrar cada garrafa. E são muitas. Um cemitério delas.
Mamãe acredita — com sua fé nos santos e nas rezas — que ele não bebe mais. E nem as frequentes idas ao jardim nem o cheiro permanente das pastilhas de hortelã a fazem pensar diferente. Ela não quer enxergar. Não aguenta mais saber.  E mente. Para que a gente possa respeitá-lo. Respeito? Raiva. De escutar ela repetindo que a força do Espírito Santo o curou. De testemunhar a impotência dessa negação passiva, dessa responsabilidade repassada ao divino. Como todos os que se recusam a ver, mamãe dá nomes diferentes à própria fraqueza. Abnegação. Companheirismo. Amor. Mas tudo o que eu vejo é uma mulher perdida que se alimenta da crença em promessas convenientes. E um simulacro de homem que promete qualquer coisa para estimular a ingenuidade dessa crença. Cúmplices. A que finge; o que esconde.
Há anos, ouço desculpas. Coerentes, incoerentes, inúteis. É assim que ele relaxa; Ele está comemorando; Com esse calor, quem é que aguenta? 
Aniversário Natal formatura dos filhos férias nascimento dos netos aposentadoria o time dele ganhou o campeonato ele está sem dinheiro um amigo dele morreu. E as quedas, os esquecimentos, a magreza excessiva, os olhos congestionados, o andar em ziguezague, os vômitos, os banhos frios. Tudo escondido dos filhos. Ou nem tanto.
Mamãe não se dá conta, mas faz tempo que somos parte da mentira. De tantas. De todas. Um cardápio:

  1. Ele exagera, mas aguenta. 
  2. Se ele fosse viciado, já tinha morrido. 
  3. Quem não toma seus porres na vida? 
  4. Alcoólatra é uma palavra muito forte. 
  5. Todo o mundo bate o carro uma vez ou outra. 
  6. Caiu porque o chão estava molhado. 
  7. Ele para de beber a hora que quiser. 
  8. Ele bebe pra se divertir. 
  9. Ele até que diminuiu. 
  10. Deixa ele em paz.

Daqui a um ano, papai vai morrer. De cirrose. Nós ainda não sabemos, mas estaremos lá quando acontecer. Mudos. Coniventes. Preocupados. Temos nossas próprias garrafas no jardim.