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quinta-feira, 26 de março de 2015

Roda-gigante

Acabara de vender uma cobertura. A negociação lhe rendeu comissão bem gorda, melhor que a soma dos rendimentos dos últimos oito meses. Os compradores, grávidos de gêmeos e ávidos por lar espaçoso e aconchegante, saíram do cartório satisfeitos. Parabenizaram o profissionalismo de Geraldo Corretor. Ensimesmados na própria euforia, nem perceberam a sem-gracice do agente comercial.
“Grande tolo! Como é que fui deixar a Renata casar com esse advogado meia-boca? Sou um bocó incorrigível”.
Status: solteirão aos 47. É a terceira vez que Geraldo intermedeia a venda de imóvel pra uma ex-namorada. Terrível defeito de continuar mantendo contato amistoso com as mulheres com quem se relacionou! Empacado na vida sentimental, ele amarga de despeito e remorso, enquanto nenhum relacionamento vinga. Só vive de namoricos pipocados de piruás indigestos.
Não é verdade que Geraldo continue amando alguma das ex-companheiras. Renata, Valéria, Nice... Nunca foi realmente apaixonado por elas. Mas é que vê-las casadas dói.
Mora sozinho, de aluguel. Resolve que é hora de comprar o primeiro imóvel. “Mas só entro no financiamento quando tiver uma noiva”.
Não sente mais prazer em viajar sem mulher. Quer uma família tradicional e feliz. “Parece tão fácil para os outros”. A solidão o incomoda, principalmente à noite. É cada vez mais penoso voltar do trabalho. Precisa dum travesseiro de orelha, de anca e coração.


E é por isso que a Providência colocou um pé de coelho na porta de entrada da imobiliária. Geraldo vai guardá-lo sem que ninguém veja e vai interpretar o achado como sorte no amor. E é por conta do amuleto que sua vida vai receber sopro de sol. Tudo vai ser melhor pro nosso amigo.
Quando estiver de volta pra casa, no metrô, miraculosamente encontrará um assento vago ao lado de uma linda morena de sapato baixo e flor nos cabelos. Ao descobrir que ela trabalha de maquinista no parque de diversões, Gegê vai contar à moça seu último sonho: ele girava numa roda-gigante sem fim, sorria, entrava no arco-íris e ganhava o abraço de uma mulher inesquecível. Os dois iniciavam ali um círculo de sensações rodopiantes.
Geraldo vai namorar Raíssa por longos cinco meses. Marcarão o casório para o ano que vem, quando o banco, enfim, liberar o crédito imobiliário. Terão filhos sãos e alegres, parecidos com Raíssa, que adorarão os carrinhos bate-bate, frequentarão a montanha-russa e terão carteirinha de sócios no parque. Geraldo e Raíssa comemorarão todos os aniversários de namoro, noivado e casamento na mesma divertida alegria e continuarão sentindo pra sempre o mesmo frio na barriga, cada vez mais fiéis ao viciante looping do amor.


Amanhã Geraldo acorda tonto, labirintítico de girar. Não consegue se levantar da cama. Não vai ao trabalho. Quem encontra o amuleto é o dono da imobiliária, que já tem casa própria, esposa, filhos e uma bela criação de coelhos.


Maria Amélia Elói






quarta-feira, 25 de março de 2015

Os passos




Naquela noite, quando Zidanta ouviu os passos, soube que era o Grande Ceifeiro que já o procurava. Sempre acreditara que viria assim, furtivo e impiedoso; só não sabia quando.

Zidanta, o Grande Rei dos Hititas, o favorito do deus Tarhun, estava velho. Já não podia encabeçar o temível exército de carros e ir ao Sul submeter um príncipe sírio ou fazer recuar os Hurritas no Médio Eufrates. Já raramente visitava alguma das suas rainhas. Mantinha-se no seu palácio de Hattusa, recebia comissões de comerciantes assírios, que queriam negociar no seu reino, ou embaixadas de alguma pequena corte, a reiterar submissão e a pedir proteção contra inimigos regionais. Nesses dias, sentava-se junto a uma janela, assistia à entrada das comitivas pela colossal Porta dos Leões e, depois, assumindo uma postura grave e reservada, esperava-as na sala do trono, ladeado pelo Grande Escriba e seus funcionários.

Os passos, já! O velho guerreiro estava reclinado na sua câmara de dormir, amodorrado, mas de ouvido alerta, quando os ouviu. Eram suaves e furtivos. Mesmo pouco audíveis, Zidanta percebeu-os, por entre os outros ruídos de passos da Guarda, que, pausadamente, fazia a ronda noturna à volta dos aposentos reais. Só um inimigo se deslocaria assim.

Num relance, recordou a curta história do seu reino, onde os soberanos acabavam, muitas vezes, por sucumbir a revoltas, traições e golpes palacianos, que não poupavam sequer o resto da família. Fora assim com o rei Mursili, seu tio, massacrado por si e pelo próprio cunhado Hantili, seu sogro, o qual também veio a ter a mesma sorte: após vários anos de reinado, morreu às suas mãos, juntamente com o filho, netos e todos os que podiam ter pretensões ao trono.

Teria chegado a sua vez? Apurou o ouvido; os passos eram um roçagar ténue, de origem incerta, escassos e dissimulados. Pareciam os de um só homem. Estaria dentro da câmara? Manteve-se imóvel, mas de olhos semicerrados, tentando enxergar alguma sombra que se movesse na obscuridade do aposento. Pareceu-lhe notar uma alteração de luminosidade numa coluna junto ao altar do Deus da Tempestade. Dirigiu um apelo mudo à divindade para que o livrasse desta provação, como o tinha salvado de tantos outros perigos que vencera ao longo dos anos.

Não queria mover-se, para manter o agressor na ilusão de o poder apanhar desprevenido. Gritar pela Guarda podia não lhe trazer uma ajuda tão rápida como precisava para salvar a vida; decidiu que se defenderia sozinho. Zidanta tinha sempre uma acha de bronze à mão. Quando o atacante se aproximasse, iria ter uma surpresa. Começou a fazer deslizar o braço direito sob os panos, lenta e impercetivelmente, na direção do tamborete junto ao leito, enquanto tentava adivinhar quem seria o agressor.

Conhecia bem o seu povo e os membros da sua corte. Qual poderia querê-lo morto? Talvez o seu cunhado, Huzziya, sempre cheio de mesuras, mas que não conseguia esconder uma certa perfídia no olhar. Criticava veladamente o atual estado do país, onde os Gasgas das montanhas junto ao Mar Negro se estendiam para Sul e ocupavam florestas e pastagens, e os Hurritas, a Sudeste, já se permitiam fazer incursões no país e tomar cidades.

Talvez Zuru, o chefe da Guarda, esse guerreiro do país de Mitani, que procurara refúgio entre os Hititas. Aparentemente leal, tornara-se um militar imune às querelas internas do exército hitita, por não ter ligações de raça com os outros oficiais. Nunca hesitava perante uma ordem, mas o estado de inquietude do exército, devido à ausência de campanhas, talvez o tornasse vulnerável a intrigas. Ultimamente, vislumbrara-lhe uma ou outra crispação no rosto barbudo.

Seria Neferhotep, a egípcia rainha segunda, que nunca aceitara a posição secundária do seu filho na linha de sucessão? Se assim fosse, iria eliminar também os dois filhos da rainha primeira.

Os passos macios aproximavam-se. Sentiu-os mais perto. Agora, estava certo de que alguém se introduzira na câmara real. Era tempo de agir. A sua mão alcançou o tamborete, tateou, mas nada encontrou. A lâmina de duplo gume não estava onde a tinha posto. Uma onda gelada percorreu-lhe o corpo. O seu coração acelerou e batia ruidosamente, abafando o som dos passos. Teve de fazer um esforço de disciplina para não ofegar, nem se agitar, o que poderia desencadear o ataque do intruso. Percebeu uma sombra acocorada no chão, a uns três passos de distância. Soube então de onde vinha a ameaça. Tinha de aproveitar essa pequena vantagem.

Num só movimento de animal acossado, rodou o corpo para a esquerda, meteu a mão sob a almofada, empunhou a adaga, que sempre o acompanhava e, de um salto, abateu-se sobre o vulto, cravando-lhe a ponta da lâmina com quanta força tinha. Bradou então pela Guarda. Dez homens entraram de rompante na câmara real. À luz dos archotes que alguns empunhavam, os guardas depararam com um rei lívido a olhar incrédulo para a tartaruga do palácio, que exibia uma adaga espetada no alto da carapaça.

Na noite seguinte, cansado e humilhado, Zidanta deitou-se cedo. Prestes a adormecer, ainda vislumbrou um brilho fugaz na lâmina do machado, empunhado pelo seu filho Ammuna, quando se abateu sobre si a zunir e o decapitou. No meio da névoa de dor e assombro que o envolveu, num último lampejo de consciência, admirou-se de não ter ouvido passo algum.

Joaquim Bispo
* * *

Ilustração de Rodolfo Bispo: https://www.facebook.com/rodolfo.bispo.77


* * *

(Este conto, sob o título O Intruso, foi publicado no número 33 da revista virtual Samizdat, de maio de 2012)





terça-feira, 24 de março de 2015

HAICAI DE EDWEINE LOUREIRO



Ouço um bem-te-vi,
cujo canto espanta o frio
dos ventos do Norte.


Terceiro lugar no Desafio da Revista Olaria (Fevereiro/ 2015).





domingo, 22 de março de 2015

O Nonagésimo Andar





Na Empresa, há muitas formas de um homem ficar parado.

Ele pode cruzar os braços, com as pernas afastadas em largura de ombro, depois empinar o queixo para cima. Ele pode encher os pulmões e colocar os punhos nas costas, seguindo a posição militar; ou deixá-los na frente, uma das mãos segurando o pulso do braço oposto.

Isso para aqueles em pé.

Ao sentar, aconselha-se as posturas mais relaxadas, as pernas abertas, o maior domínio do espaço; um dos braços em cima da almofada, quando em sofás. Cada uma dessas aparências é interpretada de acordo com as leis da linguagem corporal, cada uma possui significado próprio.

Na Empresa, a comunicação não-verbal é tão ou mais importante do que a comunicação verbal. O corpo, o olhar, as expressões faciais conscientes e inconscientes, os sinais de concordância ou discordância, devem ser considerados para que o fim, a meta, seja um resultado absoluto. 'Aqui não se admitem vírgulas', lê-se num mural em frente às garrafas de café. Dos seus funcionários se espera apenas isso, e mesmo para quem observa de longe a dinânica das salas a perfeição deve ser uma possibilidade real, senão uma obrigação.
 
                                                                                ***

A diferença entre Irineu e seus colegas abrangia algo além da postura.

Irineu caminhava curvado para frente, combatendo o ar gelado e seco dos arcondicionados; conhecia o número de lages quadriculadas que havia do cubículo ao banheiro, sua linha do horizonte limitada a uma fraqueza. Dele os colegas indagavam a razão de andar assim, se por carregar sonhos demais ou procurar pelos sonhos perdidos. As mãos esquecia no bolso, acanhadas mãos de nervos, com pelos negros e veias salientes, azuladas; a camisa definia-se na montanha russa das vértebras, e as calças de linho eram largas, com espaço para a existência dos ossos e curvaturas anômalas.

Em oposição aos colegas, ele considerava o seu ofício na Empresa uma provação. Para Irineu, aquilo que se extende ao infinito é um castigo, ainda que belo e bem condicionado, ornado em números. Além disso, não confiava em escolhas; confiava em seguir a metodologia da Empresa e permanecer ali, ou seguir o coração - e permanecer ali.

Durante as manhãs, na inocência das primeiras sombras, acomodado em sua poltrona de couro, ele derrama o café; observa as manchas na camisa, analisando presságios sobre qual caminho seguir, se cruzar os braços, cruzar as pernas, se cruzar a janela do nonagésimo andar.





No pasto

Ergo os olhos e vejo à frente o verde tapete estendido até bem longe, lá onde sua linha borda encosta no azul painel que ora se estampa em algodão branco e sol, ora é cinza úmido, pesado e prestes a cair sobre meu lombo. Respiro e sei que o ar que entra é meu por direito e que quando sai se renova para voltar em outro momento para dentro de mim, novo, limpo. Mastigo, no meu tempo, o suficiente para que o alimento vire uma papa encharcada de saliva e então sei que devo cuspir, olhar, recolher com a boca todo o expelido, tornar a mastigar e depois engolir.

A maior parte dos dias passo andando ao redor, observando o movimento dos homens e das coisas, esperando, ruminando futuros debaixo de sombras de figueiras antigas. Tem ocasiões em que fico apartada das demais, então me tocam por baixo e me espremem até que eu jorre branco. Há dias, no entanto, que me deixam mais eufórica, não sei se é o calor, se são as presenças, os cheiros, eles. Sempre tem um ele para muitas de nós e quando este cansa colocam outro no lugar. Em conjunto temos nossos ciclos, mas sinto que tenho ciclos que são unicamente meus, embora ninguém repare. 

De repente, pode ser manhã tarde ou noite – não depende de mim, ele está dentro. E fica dentro e fora dentro e fora dentro e fora e fim. Após certo tempo, algo em mim – talvez tenha sido esquecido por ele em meu interior – parece inchar minha barriga e me fazer pesar até que um dia finalmente me abandona e sai, na grama, gosmento e quente. Já aprendi que cada porção dessas que expulso me repete em parte. Esperam que eu a cuide e me reconheça nela, mas não sei fazer. Consigo limpar a superfície da pele de minha fração com a língua, e isso é só. É tudo o que tenho condições de ser. Em seguida levanto e saio sem olhar para trás, a me buscar outra vez, antes que o ciclo recomece.

Ontem veio um homem com algo dourado e comprido nas mãos. Aquilo tinha buracos nas pontas, um largo e outro estreito, ligados por um corpo brilhante e retorcido ao modo de serpente, da onde saíam três tetas de bicos brancos, em que cabiam as pontas dos dedos do homem. Ele, o homem, parou diante de mim: levou o buraco menor à boca, inflou suas bochechas e soprou. Eu vi sair do buraco maior um barulho parecido com o que faço se quero chamar as outras, ou reclamar, ou apenas falar com o vazio e ouvir a minha voz retumbante. Era um som. O mais bonito.

Não demorou, as outras se aproximaram. Enfileiradas, todas colaram seus olhos no som que o homem fazia. Ele deu três passos para trás enquanto o som se espalhava. Andamos na direção dele. O homem fazia o barulho quando deu mais passos, desta vez à direita: fomos com ele. À esquerda, fomos ainda. Eu, meio que hipnotizada, só queria esticar o ruído, tê-lo comigo mais e mais, iria com ele para cima para baixo para o Uruguai, se fosse o caso. Então o homem retirou a boca do buraco menor e rompeu o som. Os olhos dele eram nos meus. Mas ele virou de costas e correu para casa. Elas fugiram para longe. Menos eu, que sigo aqui querendo saber para que sirvo.






sábado, 21 de março de 2015

Os Traidores

Foto de  Amber Inhim (Flickr)
O ambiente apresentava um clima de montanha em virtude da brisa gélida que o ar-condicionado cuspia. A temperatura agradável do quarto não impedia porém que o Doutor Paranhos suasse em abundância. “Doutor!” Rosnou mentalmente Sueli. “Só se for em safadeza. Todo patrão, mesmo semi-alfabetizado e a quilômetros de um diploma, vira Doutor para os subalternos explorados”, filosofava a secretária,  nua, por debaixo do balofo Paranhos que a esmagava com o peso do seu corpo e da sua luxúria.
A cama do motel barato sacolejava ao ritmo dos bruscos movimentos sexuais do Doutor Paranhos que, no decorrer do ato, emitiu alguns grunhidos de prazer, revirou os olhos, trincou os dentes e desabou pesadamente sobre Sueli. A secretária esforçou-se para virá-lo de lado e, após livrar-se do peso que quase a sufocara, respirou fortemente em busca do oxigênio salvador para em seguida constatar que o Doutor Paranhos morrera. O homem não resistira. Os prazeres da cama o haviam liquidado.
Sueli andou desvairada ao redor do quarto, tentando por os nervos no lugar. Contemplando o cadáver, imaginou-se acusada de assassinato, protagonista de um escândalo. Todos descobririam o seu caso com o patrão. E como encarar Dona Laurinda, esposa do Doutor Paranhos, aquela genuína lady? Procurou em sua bolsa um comprimido de calmante, ingerindo-o com uma sobra de cerveja que ficara numa latinha consumida pelo finado. A seguir, ligou para a fábrica, atrás do Almeida.
— Almeida? Sueli. Aconteceu uma tragédia!
— O que houve? Onde você está?
— Em um motel do Centro. Doutor Paranhos morreu, parece coração.
Breve pausa do outro lado da linha.
 — Se acalme e me passa o endereço que eu to indo pra aí. Temos que tirá-lo deste lugar e preservar Dona Laurinda que tem o Doutor na conta de santo.
Almeida trabalhava no setor administrativo da fábrica. Adepto da filosofia do puxa-saquismo e da ciência da adulação, tornara-se em poucos anos o homem de confiança do Paranhos, conhecedor de todas as suas falcatruas nos negócios, acobertador de suas estripulias sexuais com as operárias. Chorou sinceramente alguns minutos a morte do patrão, por quem nutria um subserviente apreço e decidiu que, pela boa imagem da empresa, ele teria um fim digno, longe dos mexericos que um falecimento na cama de um motel de terceira categoria em companhia da secretária de quinta certamente provocaria.
Chegou ao motel trazendo a reboque outro funcionário, famoso por sua discrição. Sueli os recebeu chorosa, vestida. “Uma pena”, lamentou Almeida, desejoso em conhecer como seriam os peitinhos da Sueli que no ambiente da fábrica não passavam de um mero relevo, insinuante, escondido por debaixo das blusas. Doutor Paranhos curiosamente também se encontrava vestido, estendido na cama.
— Sempre ouvi falar que o morto quando esfria fica duro feito pedra, parecendo um bonequinho de chumbo e que é o maior sufoco botar uma roupa no sujeito. Então, eu vesti o Doutor para evitar que ele passasse a vergonha de sair nu no rabecão – Desculpou-se a constrangida secretária.
Almeida foi a beirada da cama e encarou o defunto. O Doutor aparentava sorrir. “Pela cara de sacana percebe-se que o senhor aproveitou muito bem os seus últimos momentos de vida” – pensou.
Os dois homens, ajudados por Sueli, pegaram Paranhos pelos braços e o carregaram até o carro. Aos funcionários do motel, explicaram que o empresário estava vivo, mas passando muito mal e que o levariam para uma emergência, o que fizeram de fato. Doutor Paranhos deu entrada no hospital morto. Falecera no caminho de volta para o trabalho, após passar mal em um restaurante onde almoçava com os três empregados. Esta foi a versão oficial dada à viúva e ao pessoal da empresa.
Velório de primeira, caixão luxuoso rodeado por incontáveis coroas de flores, capela apinhada de gente para dar o último adeus ao agora saudoso Paranhos. O esquife seria carregado até o jazigo da família por membros da Irmandade da Ordem Terceira do Carmo, da qual o defunto fora colaborador. Dona Laurinda, trajando preto, carpia seu querido esposo. Muitos elogiaram as vestes da viúva, pois o luto fechado não era comum nos dias de hoje. Postado ao lado da enviuvada, Almeida recebia os cumprimentos pelo bom gosto na organização do fúnebre evento.
Três jovens mulheres aproximaram-se do caixão e iniciaram em conjunto um pranto descontrolado, provocando comentários ligeiramente indignados por parte dos familiares do Paranhos. Choravam copiosamente em trinca, como que se um querido pai, estimado avô, ou um tio predileto houvessem perdido.
Dona Laurinda discretamente cutucou o Almeida.
 — Qual das três é a tal de Sueli?
 — A do meio, de vestido sóbrio.
 — E as outras duas? Também dormiam com o safado do Paranhos?
— Sim senhora. A de decote escandaloso e perfume barato é Dona Clotilde, do setor de compras, a com cara de Madalena arrependida é a Maria de Fátima, uma das operárias.
Dona Laurinda armou-se de um olhar de profunda repulsa, contudo, tencionando manter as aparências e ser superior as suas ex-rivais, represou o ódio.
— Sou grata por sua dedicação Almeida. A propósito, faça-me a gentileza de passar amanhã em minha residência. Precisamos conversar sobre o futuro da fábrica.
“Rei morto, Rainha posta” – comemorou o bajulador.
No dia seguinte ao enterro, Almeida foi à casa da viúva conforme o combinado. Inesperadamente, encontrou uma mulher sensualmente metida dentro de um decotado vestido florido. A princípio, tal ousadia lhe pareceu uma afronta à memória do Doutor Paranhos, mas ao prestar atenção no corpo carnudo de Laurinda, cinqüentenário mas ainda possuidor de boas formas e relembrando o quanto o falecido a traíra nestes últimos anos, Almeida relaxou nos escrúpulos.
Conversaram sobre os problemas da fábrica, abriram uma garrafa de vinho, falaram mal do morto e fizeram amor por horas a fio no chão da sala de estar. O desempenho sexual da viúva surpreendeu Almeida. Com uma mulher fogosa como aquela dentro de casa, o que o Doutor Paranhos procurava em suas amantes?
Enquanto se vestiam, ainda ofegantes em razão da volúpia, Laurinda lhe ordenou:
— Amanhã, demita a tal de Sueli. Pague os direitos da vagabunda.
Transcorrida uma semana do erótico encontro, Almeida recebeu no trabalho novo telefonema de Dona Laurinda, mandando que ele fosse imediatamente a sua casa. Desligou eufórico. O que acontecera depois do enterro não fora um momento fortuito. A viúva o queria como homem. O telefonema era a prova incontestável. Quem sabe os dois se casariam e, ou invés de uma simples gerência como ambicionava, ele não se tornaria dono daquela fábrica? E Laurinda, apesar da idade, possuía ainda alguns atributos estéticos: “Uma boa meia-sola e ela agüenta mais uns dois anos”,  gracejou, radiante pela sorte que havia pousado em sua vida.
Mal tocou a campainha, foi recebido pela dona da fábrica trajando apenas um conjunto de calcinha e sutiã negros, como convinha a uma enlutada. A viúva, sedenta, praticamente  o violentou no chão da sala. Ao final da cópula, Laurinda mandou:
— Amanhã, demita a tal da Clotilde. E pague os direitos da vagabunda.
Intervalo de mais uma semana e Almeida foi novamente requisitado a casa da viúva. Neste dia, nem roupas ela se deu ao trabalho de vestir. Recebeu o amante nua, em sua sala de estar. Fizeram amor com selvageria e depois do gozo o próprio Almeida se adiantou.
 — Despeço a Maria de Fátima?
 — Sim, e pague os direitos daquela vagabunda com cara de Madalena arrependida.
O novo chamamento de Dona Laurinda desta vez não demorou mais do que dois dias. Almeida chegou a casa da amante cantarolando, com a cabeça recheada de idéias e planos gerenciais. Tencionava mudar tudo na fábrica, fazer as coisas funcionarem a sua maneira. Ia dobrar o capital daquela empresa. Mas antes, convenceria a viúva da necessidade de fazerem um cruzeiro pelo Mar do Caribe, a título de lua-de-mel, pois ele precisaria de um descanso antes de assumir os negócios.
Laurinda o recepcionou friamente. Vestia luto fechado. Estranhando o fato, Almeida, respeitoso, sentou-se no sofá cruzando a perna esquerda de modo que não exibisse a sola do sapato. A viúva acomodou-se de maneira elegante em uma poltrona a sua frente e falou:
— Senhor Almeida. Em respeito aos longos anos de dedicação a minha empresa, eu o chamei aqui para evitar o constrangimento de despedi-lo na frente de todo o pessoal da fábrica. Assim, sugiro que o senhor peça demissão, sem direitos, e evite cenas desagradáveis.
Impactado pela notícia, Almeida somente conseguiu, em meio a balbucios, perguntar o porquê de estar indo para o olho da rua. Laurinda, vitoriosa, cortante feito uma navalha, esclareceu  serenamente.
— É impossível manter em nossos quadros alguém que, conhecendo os segredos do seu patrão, o trai revelando suas torpezas sem que a criatura ainda nem tenha baixado a sepultura. Depois, trai as próprias colegas de trabalho, dedurando-as. E ainda trai pela segunda vez o seu patrão, dormindo com a sua viúva na vil intenção de obter vantagens em sua carreira. A traição impregna o seu caráter senhor Almeida. Como confiar no senhor? Mais tarde serei eu a traída. Passe muito bem!
No dia seguinte, os funcionários da fábrica foram surpreendidos pela carta de demissão do Almeida. Mais admirados ficaram ao descobrirem que o ele renunciara aos seus direitos trabalhistas.






sexta-feira, 20 de março de 2015

O SANTO MISSIONÁRIO

- Serração baixa é sol que racha.

Olho o céu e lembro da minha Vó Rosa proferindo sentenças imortais.
Incorrigível otimista, pós graduada, mestra e doutora em saber viver.
Para ela não se criava tempo ruim. Durou pouco: 96 anos.
Nunca baqueou. Nunca sofreu desdita que não transformasse em energia.
Nunca choveu no seu pique nique.

Desde que moro na serra, não há um dia em que não sinto sua voz cochichando
para mim de algum lugar que nem sei onde.  Talvez venha do jardim, do alto das
montanhas que me acolhem, na copa daquelas árvores, do riacho que canta entre
as pedras, sabe-se lá. Não sou médium, nem ateu, muito pelo contrário.
É Vó Rosa que me dá conselhos e carraspanas, que sopra nuvens para o sol entrar.
É Vó Rosa de lás e acolás, que me exala pensamentos nem sempre perfumados.

- Fazer churrasco praqueles chatos? Que merda, hein, Gilzinho?

Quase na hora de acender o carvão, o sol se esconde entre as nuvens densas.
Vai chover. Não vai chover. Vai. Não vai. Vai vindo.
Os chuviscos começam de viés pelo lado aberto da grelha. Molham os espetos, diabo!
Molham meu rosto e o avental com uma estampa saliente: “tem picanha na chuleta”.
Socorro, Vó Rosa.

- Essa cobertura na churrasqueira foi mal construída. Posso fazer nada.

Venta de lado, venta de cima, venta por baixo, chove fino, chove grosso.
Venta que venta, chove que chove. E agora, Vó?

- Protege essa carne, cobre o carvão com plástico. Tá furado mais dá pro gasto.

Chegaram.
Minha sogra, meu sogro. Dona Belinha e Seu Ademar, a ispilicute fuinha e o Ze Colmeia
fanfarrão. Como tão antagônicos de corpo e alma podem arrastar um casamento? Podem.
Tanto podem que buzinam no portão com cara de casal feliz, que revê a filha depois
de longo cruzeiro gira mundo. Trazem um arco iris no céu querendo azular e um sol
querendo se chegar. Foi Vó Rosa. Que foi, foi.

Se Silvinha tivesse rabo, corria abanando o dito ao portão, comboiando o carro
até estacionar. Ela o rodeia saltitante, não sabe que porta abre primeiro.
E fala querendo festa e fuçando novidade.

- Mamãe, papai! Que saudade! Fizeram boa viagem? Me contem tudo.
Gilbrando até pensou que vocês não viessem mais. Olha só a cara dele.

Do alto do platô, um aceno sem graça. Eu. Avental sujo de carvão embaçando
a indecência da estampa. Unhas entranhadas de sangue e sal grosso,
recém saídas de um besuntar na picanha. O espetáculo promete.
Teremos também, senhores: lombinho, costelinha, linguiça, tiras de
fraldinha, ponta de maminha e um par de peitinhos de frango sem tempero
e insosso para velha hipertensa. Pelo menos Seu Ademar é Seu Ademar.

- Chega mais, sogrão! Já tem a maldita te esperando no copinho!

Levanto a mão direita, saúdo o sogro salivando pelo trago inicial.

- Segura essa maldita aí, Gilbrando! Belinha tem presente para casa.

Desço até a varanda. Da bolsa da sogra sai um santo. Estilo barroco esculpido
em sândalo, tamanho de uma garrafa de Coca-Cola, que Silvinha apalpa contrita.

- Que coisa linda mamãe... Ái, até sinto arrepio gostoso só de tocar...

Ela fecha os olhos e acaricia rosto e têmporas, como se recebesse carícias divinas.
A mãe junta as mãos num Namastê e emenda com sinal da cruz.

- É para abençoar a casa, minha filha, perfumar a alma e espantar os maus bofes.
Por que ela conclui a frase olhando para mim? Disparo um sorriso cínico.

- Tudo bem, minha sogra?
- Remando como Deus quer.

Falar em Deus com cara amarrada sem olhos nos olhos é típico da megera que implicou
comigo desde o dia em que Silvinha me apresentou à família.
Quando conheci a santa inquisição.

- Muito bem, o que o rapaz faz da vida?
- Namoro a sua filha.
- Debochado.

E nunca mais me dirigiu a palavra. Nem no altar quando Seu Ademar me entregou a filha,
abraçando forte e bafejando no meu ouvido.

- Muito cuidado com Silvinha.
- Fique certo, Seu Ademar, sua filha é uma princesa.
- Não é por isso, seu bocó. O namorado anterior tomou um porre e me agradeceu pela filha.
Disse que na cama era um tufão de dar canseira e olheira. Dei um murro na cara dele,
nunca mais apareceu. E você, já foi lá? Foi? Sentiu o furor da menina?

Fui sufocado pelo abraço, pelo bafo de uísque ordináfrio e pela situação.
E salvo pela sogra, quem diria?

- Ademar, larga o traste, Ademar. O padre está esperando.

Meu sogro, minha sogra. O bom, a má e a feia em duas pessoas.
Quando vejo os dois juntos, penso no filme e me entra a música.
Ta nan ta nan nan, taaaaaaan.... Uáun Uáunnn...

Agora estão aqui, na nossa casa na serra, produto de uma bolada no mercado financeiro,
daquelas que fosse eu um argentário compulsivo jogava para ganhar mais, mais e mais,
ou perder tudo de vez. Silvinha me convenceu em parar com a vida louca e rouca
da Bolsa de Valores.

- A tecnologia faz dinheiro para você nos sites de investimento.
- Uma casa na serra, pode ser?

Um sonho. De quem não pode ter filhos – lamentos passados, vida que segue -,
mas rosas, geraniáceas e hortênsias para cuidar e criar. Perfeito para Silvinha,
bióloga formada que descambou para a jardinagem. O sítio não é luxuoso,
mas tem o nosso jeito. A casa de três quartos, salão com lareira, varandão
em volta, e um platô bem escorado logo acima, que se alcança por um caminho de
pedras sobre a grama rentinha, parece tapete. Lá no alto, o quiosque aberto
com churrasqueira, fogão de lenha, um armário rústico com coleção de cachaça
e alguns vinhos médios deitados em sossego.
Pena que a cobertura não é lá essas coisas.

- Seu Ademar, enquanto as duas estão lá embaixo, experimenta essa aqui.
E me conta das moças de Amsterdam.
- Nem te conto, Gil. Amsterdam, Londres, Paris, Munique, Estocolmo.
As melhores putas do mundo. Só filé de ótimo custo-benefício.
Gastei euros e mais euros, e pra lá de três caixas de Viagra.
- E dona Belinha?
- Museu. Museu. Museu. Acho que ela deveria morar num museu.

Seu Ademar era dos meus. Falava o que eu pensava. Bebia o que eu bebia.
Sempre contei com ele nas surdinas da vida.

- Só não pode uma coisa, rapaz: trair minha filha. Nem em punheta, combinado?

Isso foi na festa do casamento. Dez anos depois, enquanto abano o carvão,
a sabedoria:

-  Agora punheta já pode. Vai, fecha os olhos e faz o que eu não consigo.
Não vou gastar o comprimido azulzinho com isso.
- Que é isso, Seu Ademar... só tenho pensamentos para sua filha.
- Quem é mentireiro não acende braseiro.
- Essa eu não conhecia, Seu Ademar.
- Nem eu. Alguém me soprou não sei de onde.

Seu Ademar olhou em volta. O arvoredo, as montanhas, o gigante de pedra arqueozóica
estriada pelas cascatas, o céu querendo ficar azul, a despeito das nuvens que passam
como chantilis. Seria o silêncio absoluto, não fossem mãe e filha matraqueando na varanda,
e o choro desesperado da ventarola sobre o carvão que não pega.
Na varanda, rasgam solenes o embrulho enfeitado.

- Minha filha, essa obra é uma réplica dos santos das missões jesuítas,
esculpida em sândalo. Olha o que fui encontrar num brechó balinês em Londres.
Uma arte barroca cristã. Veja só.
- Vai que foi um budista que esculpiu.
- Foi o que pensei. Por isso achei tão rara e peculiar.
Disse o vendedor oriental que ele traz bons ventos,
além do cheiro de paz que emana.
- Papai sabe disso?
- O ateu excomungado? O pragmático materialista? Nem tomou conhecimento.
Estava por outras ruelas de Londres, diz que fingindo se Sherlock Holmes,
investigando canto por canto. Assim foi a viagem toda, cidade por cidade.
Deixa ele. Tantos anos que aturo suas invencionices.
- Quantos anos?
- Acho que 43, 44, 45, 46... perdi a conta. E você com o traste?
- Não começa a falar do Gil, mamãe. Se é para me chatear, assim não vai ter churrasco.
- Olha só, pelo jeito que aqueles dois abanam acho melhor fritar um ovo.

Decidiram por uma incursão à cozinha. Reviver tempos e faíscas de mãe e filha.

- Vou fazer uma pastinha, minha filha. Tem sopa de cebola e creme de leite?
- Que tem, tem. Mas que coisa mais antiga, mãe!

Belinha fareja a dispensa.

- Pela dinheirama que seu marido ganhou não sei como, essa dispensa podia estar mais farta.
- Bolsa de Valores, mãe. Sabe o que é Bolsa de Valores? Sabe o que é internet?
- Rhun, rhum... sei, sei.
- Para de muxoxo! Caralho! Essa sua picuinha com o Gil me torra o saco, toda vez é isso,
aliás, sempre foi assim. Que merda! Quer fuder com meu casamento?!
Quer fuder com a porra do churrasco?!

Belinha paralisou com creme de leite e pacote de sopa de cebola, cada um em cada mão.
Silenciosos segundos depois, fuzilou Silvinha com o olhar e aflautou a voz.

- Minha filhinha, você aprendeu esse português com esse seu marido?

Silvinha contou até 10, 20, 30.

- Desculpe, não vamos estragar o fim de semana.

Seu Ademar e eu revezávamos na abanação. A umidade era mais forte que o frágil calor.
As brasas se assanhavam, mas logo adormeciam. De repente, ouço Vó Rosa.

- Eu não acredito que vocês vão fazer isso.

Percebi que Seu Ademar olhava para mim com um sorriso travesso.
Parecia que também tinha ouvido a voz não sei de onde. E eu não acreditei
quando ele foi e fez.

- O presente, Seu Ademar?!
- Cala a boca, infeliz. Elas estão na cozinha. Vai que ouvem.

Instantes depois, a combustão ligeira no sândalo se alastrou entre as brasas,
como se um fogo milagroso viesse nos salvar.

Todos em volta da mesa de tora crua, toalha xadrez e algumas travessas rústicas
de acompanhamentos tradicionais: arroz, farofa, batata frita, essas coisas.
Dona Belinha nem me agradeceu quando servi no seu prato o peito de frango grelhado,
tatuado pelas tiras da grelha. Estava dourado e listrado, como os que aparecem
nas revistas de gastronomia.

- Arroz, mamãe?
- Não, minha filha. Quero degustar esse franguinho puro para não macular o sabor.
Tem um gostinho perfumado, diferente, parece um aroma que deixa a gente... sei lá...
um cheirinho especial, me lembra, me lembra... não me lembro...
enfim, parabéns, meu genro!

Havia uma ternura inédita flutuando entre nós. Trocamos olhares cúmplices e
cínicos, eu e Seu Ademar. Todos desfrutávamos de uma sensação inebriante contagiante.
As carnes fatiadas foram servidas com um tempero inesperado na casquinha.
Assim seguiram a linguiça, a fraldinha, as costelas, o lombinho.
Tudo assado e defumado como se algo divino tivesse abençoado aquela tarde.
Deu-se um silêncio respeitoso e prazeroso de quem degustava a paz.
Vi quando Seu Ademar saboreava o repasto contemplando a montanha e a natureza,
com um leve sorriso de menino travesso no rosto de um velho encachaçado.
Vi Silvinha e a mãe trocando sorrisos e arrulhos indecifráveis.
Vi um olhar agradecido de Dona Belinha - eu juro que vi - me abraçando de longe.
Mas só eu – e isso dou como certo - só eu ouvi a voz inconfundível e
imortal que vinha sei lá de onde:

- Você e esse seu sogro não prestam. Nem santo respeitam mais.





quarta-feira, 18 de março de 2015

Proseando Cecília, ou

Menino, não morras porque a lua cheia vai se levantando do mar...

E convida à vida doce, à vida que vem e vai, o mar que é para te deitares, para boiar e não para morrer.

Não vás para o fundo, menino. Não vês as placas vermelhas? São os salva-vidas que as colocaram, há perigo nesse mar, há correnteza e fúria.

Não morras, menino, porque espero tanto de ti. Espero que venhas e me tires deste medo menina, o medo do mar, de ser.

Não morras, menino, porque às vezes o sol vem pousar em nossas costas. Há noites sem lua, mas há estrelas, conchas na areia, resquícios do que já foi vida.

Os salva-vidas colocaram as placas. Há as fitas amarelas e pretas, o perigo é grande. Eu vi um afogado no mar, menino.

A onda subia, corpulenta, a cabeça do homem um ponto diminuto, aparecia e desaparecia, até que chamaram o salva-vidas.

Eu vi o rosto exaurido do salva-vidas, a dor, o tormento. Não faças isso, menino, não deixes alguém arrastar por toda a vida uma culpa tamanha.

Não vás, menino, volta para a areia, está aqui aquele vira-lata que a gente gosta de brincar. O mar está escuro, não te vejo direito.

Vem, morrer afogado é muito triste. A lua está linda, não vês? Quer abraçar teu cansaço, salvar tua vida, te curar.

Me ouves, menino? Estou com frio, não quero entrar nesse mar avermelhado cheio de espuma.

Vem, minhas pernas estão se molhando, estou gelada, volta, o Cruzeiro do Sul está visível, vem, vem... 






O fantasma do meu pai

Você deveria se comportar como um homem com mais de cinquenta anos – foi a pedinte frase que escutei sentando no Café de Copacabana naquela tarde.

A primeira impressão é que ela tinha invadido as minhas ideias no dia do meu aniversário.

— O senhor costuma vir aqui?

— Não. Rispidamente respondi.

Acendi um cigarro e encarei seus olhos. Ela balançou positivamente a cabeça e virou as costas para a mesa. Sozinho nos meus pensamentos fingia viver. Sou um desses homens com poucas horas e que consomem cigarros a revelia sem imaginar o amanhã.

Os meus maiores fantasmas carrego na ponta dos dedos ásperos, herança da infância sem a companhia dos meus irmãos.

— Venha aqui. Berrando meu pai dizia – hoje você vai trabalhar sozinho. Ele é apenas um menino, retrucava a mãe.

— Cala a boca. Ele vai aprender desde cedo a ser homem. Cabra macho igual ao pai dizia.

A interpelação franciscana da minha mãe rasga as minhas lembranças e debruça nas costas dos fantasmas que trago da infância.

— Filho, feche os olhos sempre diante de um infortúnio. Eu poderia espremer os olhos no escuro, mas não podia me limitar a não escutar os palavrões e tilintares do piso de madeira que chegavam do quarto.

O primeiro fantasma real que trago da vida foi criado na minha própria infância no interior do Espírito Santo. Ainda com os joelhos ralados pelos jogos de bolinha de gude no campinho da Asaz Vera Cruz - desconfiava que o pulha do meu pai surrava a minha mãe. Em casa ao olhar para o seu rosto eu via nos seus olhos a resposta – o mundo não é tão bom quanto seus olhos de menino querem ver.

Hoje recluso em estar com as pernas esparramadas neste café, permito ao tempo passar com seus vestígios. Nos dedos ásperos, alianças não entram, nem mesmo quando minto que sou casado para alguma menina da “gare” em noite de samba na Lapa, meu mais novo reduto. Fumo enquanto a olho caminhando pelo café – mas não posso ser aquilo que nunca deixei de ser.





terça-feira, 17 de março de 2015

A poesia de Ana Moraes






Gênesis

então ele criou o homem
cansado e lascivo,
não satisfeito
arrancou-lhe uma costela

mas, ainda insaciável
tocou-a, molestou o sangue,
as carnes e os ossos
e assim fez o seu melhor
erro

seu melhor efeito
catártico
que estaria por vir,
quando esta acordasse
e sentisse a sabia
sede
perigosa da
curiosidade
oferecida pela serpente.



Habitando o desapego 2

"eu me apaixono por "bom dia"
me apaixono por pegadas nas ruas
e por esbarrões na calçada
me apaixono por barbas desconhecidas
que desfilam livremente pela praça
me apaixono por estranhos que compram bombons 
na segunda feira
me apaixono por feirantes vendendo peixes
...
me apaixono por cuidadores de cães
por adestradores de ornitorrincos
e por lançadores de fogo
eu assim tão infame
tão indecente
e tão imoral
me apaixono a cada minuto
e nem sei bem o porquê
mas me apaixono".



Buceta     

Não é só os olhos diante do espelho
que cai
não é só os seio de bicos rosadas
que endurecem
não é só a coxa roliça
...
Que se dilui
 (não)
nunca é só o corpo que 
dilata
não é só o sangue
que escorre
não é só a lágrima
que lateja
não
definitivamente não
nunca é apenas
3 dias no casulo
é quase uma vida
 de clausura
dentro do útero
cada luto mensal
que insiste em nascer.


                                          
E ser...

e se o amor for
aquela película aguada
que dilui e dilata
as pupilas do cego

e se ele for um arrebate
um afoito insólito
um grito ao pé do ouvido

se for um ponteiro
... indiscreto
titubeando meus pulsos
dilatados pela fria
forma de entender
as facetas falsas
da dor

e se ele for por si só
um ato
intervalo do prelúdio
e assim
ser
solidão.



eu...

corro para não ter que perder
o sono com as alucinações
desta alma tão tranquila
e tão pequena
dentro deste coração
... tão sorrateiramente
apertado
sem frestas
e sem tempo.



sólido

Dilata corpo
estranho
dilata olho estranho
dilata amor
dilata tuas entranhas
... frias
no alto inóspito

do meu calcanhar.





segunda-feira, 16 de março de 2015

Uma conta que não fecha


O sangue. Esse delator maldito que navega arrogante por veias e artérias. É o sangue que vai lhe contar o que ele não quer saber. Quem ele não é; quem ele nunca foi. Que não é o primogênito de seus pais. Nem o irmão de seus irmãos. As sobrancelhas grossas como as do pai, o nariz alongado da mãe, o sinal sobre o ombro esquerdo: coincidências fabricadas à força do afeto. E ele não será o filho de mais ninguém. Somente um nada sem raízes próprias. Um pastiche.
O sangue vai mostrar que ele não serve, que não é compatível. Que num minuto é o provável doador para o seu pai e, no outro, apenas um desconhecido, uma conta que não fecha. E ele, que nunca se afasta dos fatos, não saberá o que fazer com os fatos: se confrontará a mãe ainda ali, no hospital precário, roubando para si uma cena que não é sua; se exigirá com urgência os detalhes da sua história desviada; se apenas perguntará por quê. 
Ele ainda não sabe que um estopim será aceso. No instante em que a mãe e os irmãos lhe pedirem que compreenda. Compreender é tudo o que ele não conseguirá. Ao contrário, será tomado por um deboche furioso. Uma vontade insana de chutar as portas frágeis da UTI onde o pai está deitado sem saber de nada. E de sacudir aquele homem que o enganou por tanto tempo. O pai paciente e amigo que o ensinou a assinar seu nome e sobrenome. E lhe mostrou as letras, os números, os mapas, os elementos, as constelações. O pai que lhe mostrou a vida por meio de uma prática respeitosa de atos sem voz. O pai que o levou para nadar, para andar a cavalo, para navegar no mar que ambos tanto amam. A quem entregou seus boletins escolares, suas dúvidas, suas discussões adolescentes, suas broncas com Deus, seus diplomas, suas paixões, seus argumentos. O homem que, ele ainda não sabe, será, brevemente, um estranho.
Ninguém devia saber assim, como ele saberá, que foi rejeitado. Por uma mulher quem nunca chamou de mãe. Que o jogou fora ou o entregou sob um pretexto qualquer; talvez, por dinheiro. Por um homem a quem nunca chamou de pai. Que sequer o conheceu ou que provavelmente nem tenha sabido que o fez existir. Ninguém devia se deparar com a própria história de repente. Não para descobrir que é uma história oca. Nem desse jeito, por acaso, por causa de um acidente de carro estúpido. O pai lançado de cabeça no asfalto; a falta de recursos da cidade pequena; a necessidade de uma transfusão; ele se oferecendo para doar, apesar da insistência estranha da mãe em lhe dizer que não precisa, que não precisa... Ele lendo na ficha do pai: sangue tipo A+. E se lembrando de que o sangue da mãe é O+, e de que o sangue dele é B-. Tudo isso antes que a voz apressada da enfermeira sentencie que o doador tem que ser da família ou alguém compatível. 
Um homem não devia ser lançado assim ao inferno. Cara ou coroa?, perguntam-lhe as atitudes. Desnorteio; e ele se reconduz, feto, ao útero de uma narrativa não escrita. Pertencimento; e ele volta, inteiro, à UTI onde há muito mais que sangue a ser doado. Porque sangue é uma conta que não fecha.



Ilustração: O Nascimento do Mundo, Salvador Dalí





domingo, 15 de março de 2015

paninho alvo



O senhor Torres não é meu pai nem pai da Bia, e adora os mimos de gordura que a mãe da gente traz da serra onde ele nunca vai pela artrite que o mói desde muito novo.
Entre eles tudo começou com os lençóis.
O senhor Torres um dia terá dito:
– Nunca me deito em lençóis de cores.
Ao que a mãe da gente lhe terá ripostado que o corpo necessita, em cada noite, de paisagem em que se acolha, cor com que rejubile na castidade ou na luxuria.
A mãe da gente convencida de que é por dormir a vida toda em lençóis alvos que o corpo padece: um alto aqui, uma dor mais além.
E quando o senhor Torres lhe voltou a falar em lençóis imaculados como se fosse virtude que depusesse diante da sua viuvez recente, a mãe da gente jurou que lhe havia de tirar esse modo estranho de dormir enleado em panos brancos.
E, no entretanto de esperar que o senhor Torres tornasse aqui onde moramos, lugar onde vinha de modo irregular por causa dumas partilhas enredadas, a mãe da gente foi contando a vizinhas e amigas: nem ao menos uma renda com joaninhas ou borboletas, um entremeio de malmequeres. Lençóis lisos e alvos até na dobra que vira sobre as mantas. Lençóis a federem a lixívia, e nem sinal do que tenha acontecido dentro deles.
Como pode alguém descansar de modo tão uniforme, interrogava-se.
E, na próxima vinda, apressou-se a mostrar ao senhor Torres os benefícios que têm, para o corpo e para a alma, os lençóis estampados ou as forras de edredão, que são tudo modos de aninhar os desmandos da vida e também os sonhos.
E a mãe da gente fê-lo com perícias e desvelos.
Primeiro, deitou-o em camas forradas de amarelo claro ou azul de céu.
Não se atreveu, de início, com cores fortes e nem sequer usou o cor-de-rosa, nem degradés ou esfumados. Apenas lençóis lisos e cores discretas para ir aclimatando o corpo do senhor Torres.
Só depois, e já segura de que ele perdera o hábito de, a cada noite, inspecionar o lençol de cima e o lençol de baixo a ver de manchas, restos de humores, só depois, ela avançou para os quadradinhos e as pintinhas miúdas.
Levou nisso o tempo necessário.
Quando vinha, o senhor Torres chegava pela manhã e partia ao fim da tarde, até ao dia em que a mãe da gente arriscou deitá-lo num tecido espampanante: bolas da cor do fogo sobre um fundo negro. Bolas enormes salpicadas de outras mais pequenas num festim de intensidades de vermelhos.
A mãe da gente deitou-o e enfrentou o receio de estar abusando.
E foi nesse dia, a Bia há-de lembrar-se como eu me lembro, que o senhor Torres ficou para o pequeno-almoço.
O homem tinha-se habituado a dormir em lençóis de cores.
Mas foi só com os tecidos de ramagens, que a mãe da gente disse, muito séria: o senhor Torres vem viver cá para casa.
Era o início do Inverno e nas forras do edredão eram os verdes de grandes ramos de hera em fundo azul-escuro.
E seria a cor do sol-posto salpicada de florinhas violeta e vermelhas e cor de erva azeda, e seriam as cores de canela e os cinzentos pincelados com tons fortes e desenhos variados.
A mãe da gente acomodou o senhor Torres nesses panos e em tantos outros até o homem jurar nunca ter dormido em leitos forrados de branco.
Que o senhor Torres esqueceu os seus dormires de antes tanto quanto nunca esquecerá o sabor das migas de toicinho no jantar de logo à noite.
A mãe da gente acabou de chegar da serra e ali está com a cabeça mergulhada na informidade de sacos e outra tralha, erguendo na mão esquerda uma caixa de plástico, transparente, cheia do que parece uma papa amarelada.
– Opou – grita, a olhar-nos como que a pedir-nos contas do que nem sabemos, enquanto desenha no ar um gesto teatral com o braço meio tapado pela ponta dum pano, um alinhado aos quadrados vermelhos que veio agarrado à caixa.
Lá na serra tinham-na avisado: leva isso, assim, e chega lá azedo.
Irá contar-nos de aqui a pouco, e há-de apertar o seu próprio nariz a imitar o senhor Inácio que é quem mata o porco:
– Eu, por mim, levava, isso num tachinho de barro e nem tapava.
E também imitará a voz esganiçada da mulher do senhor Inácio que é quem trata das carnes e dos enchidos e do resto:
– Um paninho por cima e chegam lá como se fossem acabadas de fazer.
E a mãe da gente a dizer como eles, irá parodiar-lhes os gestos.
Será daqui a pouco.
Contará o que o senhor Inácio e a mulher lhe teriam dito se lhes tivesse dado ouvidos: que a comida não respira dentro do plástico, que o ar fica encerrado e com a ajuda dum calorzinho que sempre acontece apesar de ser inverno, tudo vai ferventando e, como ainda é muita hora de viagem, quando chega, fede.
– Assim diriam eles – afirmará a mãe da gente que, ainda mal chegada, ergue um cantinho da tampa da caixa e, sem que ainda nos conte, a Bia e eu adivinhamos: azedaram as migas de toicinho que tem por costume trazer para o senhor Torres.
Azedaram, ou criaram sabores novos, que ao jantar a mãe da gente irá gabar o sabor intenso com que este ano ficaram as migas de toicinho.
Ou se terá sido de as ter trazido num tachinho de barro, tapadas com um pano.
– Um paninho alvo, dirá a mãe da gente servindo mais um prato de migas ao senhor Torres.