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sábado, 22 de novembro de 2014

O Pornógrafo Sagrado



Das negras meias de linho fugia o branco de uma pele virginal, e logo no primeiro e mais delicado pulo, falseou; passava aquela madrugada no carrossel das horas e areias, e ao cair rodando quebrou o maxilar e os caninos, o braço esquerdo rasgado em gordura amarela e osso branco, a margem da pele delineada em finas linhas vermelhas. De hora quis defender a face rosada, redonda e flácida, porém livre de rugas; não era de se orgulhar como se fosse bela, mas era a cara adequada; falhou. Ao chegar no final da escada, inchavam-se as bochechas, o queixo, o olho pendendo para longe. Já caíra nos meses e anos passados, sempre fora de escorregar, de perder a direção por um acaso, e agora, no chão frio e liso de madeira polida, compreendia a gravidade das feridas e não se assustava; amedrontava-o, isso sim, adivinhar o coração quebrando-se em corações menores, explodindo, forçando caminho pela goela.

A dor, apesar de firme, era previsível; não previra, isso sim, o assombro para com o fim, para com o verdadeiro definhar da carne. Quis levantar, mas ao erguer a cabeça mal via além de uma sombra no meio, a visão cegando em negrume esquivo, concedendo apenas a impressão do algo que era o mundo e suas formas. E o corpo, o corpo amolecia, as vísceras folgavam em sua função, e logo o ar minguava ignorando o sofrimento dos músculos.

Daí baixou as pálpebras, para morrer sem ver o fim.

Deus meu, me receba, disse ele, cuspindo um fiapo grosso de sangue e saliva que se negou a romper e ficou balançando ao lado do queixo, badalando a orelha como um sino.

Mal os segundos saíram, abriu-os.

Nisso não surgiram os seus olhos, e sim as labaredas de um início primeiro. Com o braço ileso se forçou, o esquerdo dependurado em fiapos de pele onde os músculos pareciam cercados por um nada negro, e decidido começou a subir os degraus, mesmo que pouco respirasse, que as veias se duplicassem na grossura de um arroxeado escandaloso; engatinhou, os pés e os joelhos resbalando no próprio sangue, desenhando linhas que remetiam aos horrores primordiais do homem.

Cada gemido de amargura ecoava, buscando na desgraça do espaço a permanência de seu poder; eram gemidos sem a culpa das vogais, sem o desespero das consoantes. E cada impulso das pernas, num caminhar de lagarto, girava-lhe a consciência a partir do estômago, que roçava o chão e a sua minúscula ordem. Demorou duas horas, duas horas de sofrimento purificador para chegar na cadeira do computador como um homem de retalhos, a quem as necessidades do corpo já não serviam.

Respirou fundo, com um ruído de cascalhos e a cara deformada em músculos definidos por uma nova geografia de humilhação. Um dos olhos negava o abrir, piscava incessantemente. Da cadeira o braço esquerdo pendurado quase alcançava o chão, balançando sem forma; com o direito deu um, dois cliques no mouse, demorando para firmar as oscilações do pulso; apagou o histórico, os arquivos; depois desligou a máquina e morreu calmo e leve antes dela escurecer, sem escorregar, sem deixar de memória os músculos rijos.

Amanhã ninguém saberia que ele, o Bispo da Igreja, acessava uma página pornô pouco antes de morrer.





sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Números

Esporro, esporro, esporro. Calou-se uma década aos esporros patronais. Quatro filhos para criar.
Hoje, vida nova se descortinava. De propósito, atrasou-se duas horas.
— Com mil demônios, seu verme irresponsável! – vociferou o chefe.
— Vá para a puta que lhe pariu cem vezes! – respondeu com inusitada alegria. Diante do patrão surpreendido, fez um bundalelê. Três bufas barulhentas.

Zero oito, dezoito, vinte e quatro, vinte e sete, trinta e três e cinquenta e nove. Santo bilhete premiado da Mega-sena dormitando em seu bolso. Vingado, rumou para a Caixa Econômica cantarolando o Trem das Onze.





quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O CRIADO

Nua de bruços, pernas abertas sobre uma maca, a mercê da rispidez das ceras depilatórias não é circunstância propícia à leitura. Mas dou um jeito de fixar mãos, queixo e olhos hipnotizados diante de "O Criado Indiano”, um bálsamo entorpecente que me pegou na veia.
Sei que sou presa fácil para literatura erótica, mas que diabo baixou nesse autor, Liam. G. McRonan, um irlandês de 22 anos, vivo, cara de ricota de óculos, expressão inocente de quem nunca se imiscuiu pelas cavernas de uma mulher?
Danadinho o menino. Escreve delicioso as primeiras e progressivas incursões amorosas de Rose e Mary, duas jovens primas londrinas que se encontravam nas férias de verão na imensa propriedade da família em Northamptonshire, no ocaso do século XIX.
Sob os rigores da moral vitoriana, a descoberta da sexualidade das duas moçoilas é apimentada por Hardik, um jovem criado indiano que foi importado pelo lorde avô para servir como cavalariço. Segundo McRonan, era chique e imperial a aristocracia dar um toque exótico aos seus domínios, recrutando jovens colonizados. Um aborígene cuidava dos cachorros de caça, um egípcio dos carneiros e um zulu abanava a tias menopáusicas, mas isso para mim é encher linguiça na história: não merece a menor importância na trama que me seduz.
As meninas se enrabicharam mesmo foi   pelo amorenado de Khajuraho, berço do erotismo hindu, que se dizia sacerdote secreto do sexo tântrico ao cair da noite.
O serviçal de sorriso iluminado, como descreve o irlandês, aproveitava a placidez dos cavalos para transformar baias afofadas em espaços de lições de libidinagem a três, com foco em preliminares, massagens em genitálias e arredores, e delírios do sexo oral saboreado com gosto. Tudo decantado em ricos detalhes que produzem situações que me encharcam até sob a ameaça da cera depilatória.
E arde o livro.
Urram as moças, sem que a virgindade fosse maculada todo entardecer, até que a farra é descoberta pelo mordomo puxa saco, que, claro, delata os três prevaricantes ao patriarca. As meninas desonradas são embarcadas de volta a Londres, deserdadas da família, temerosa que se tornassem vulgares cortesãs, apreciadoras da carne e dos prazeres do diabo.  Dá-se início a uma perseguição óbvia ao mais fraco do trio. Passa o indiano a viver entre os bosques, tal um animal ferido, mas sempre arranja um jeito de surgir no alojamento da criadagem, quando copeiras e cozinheiras fartavam-se com suas técnicas de dedos e línguas enlouquecedoras.
Passa o tempo e as palavras atiçam minhas malícias.
O cavalariço exótico sobrevive e aparece em Londres disfarçado de operário e protestante convertido. Consegue trabalho no alojamento de uma fábrica de graxa, onde um belo dia descobre Rose e Mary em vestes imundas de adolescentes escravizadas pela selvageria industrial que emergia. A fudelança recomeça, não mais no entardecer das baias fofas - e não mais virginais -, mas nas madrugadas dos becos lúgubres de Londres.
Sedutor incorrigível e próspero trambiqueiro, Hardik resgata a dignidade de Rose e Mary, oferecendo às duas moradia limpa, sustento, respeito, amor e carinho. Começam vida nova longe das cinzas das fábricas, mas não tão distante das tabernas onde renasce o sacerdote tântrico, capaz de produzir filas imensas de moçoilas de vida difícil, ávidas por aprender novos truques e prosperar pelas camas com os burgueses emergentes abastados.
O trato está estabelecido.
O indiano enche a burra de dinheiro, lecionando às fêmeas excluídas das fábricas a lascívia muito bem treinada em casa com Rose e Mary. Mas jamais permite que as duas priminhas de Northamptonshire, reconduzidas à condição de madames, levem uma vida ordinária. O tríplice casamento segue uma loucura, uma transgressão excitante no limite da pureza, do amor bandido e do suspense. Acho que uma delas vai escapulir. 
Estou nas últimas páginas e vou ralentar a leitura, temendo a abstinência psicossexual a que serei irremediavelmente condenada ao término da leitura. Sofro disso.
O fim de um bom livro é um tédio pós coito, é a volta solitária do aeroporto depois de embarcar uma paixão relâmpago, é um vazio interior, uma lacuna doída de personagens que entram na nossa rotina afetiva e se instalam sem cerimônia nosso imaginário. Esse triângulo despudorado inspirador só não vai me matar de saudade, porque já comecei a colocar em prática as delícias ensinadas por Hardik.
Agora mesmo, não vejo a hora de encerrar o ritual do sacrifício dos pelos indesejáveis, pular fora dessa maca, entrar na sauna do spa, trocar suores por energia e pele cheirosa, e depois de uma hidro massagem mal intencionada, correr para Renato, que, a esta hora deve estar em casa me esperando.
É longa a distância entre o spa e nossa alcova do outro lado da cidade. O que basta para represar o desejo de me entregar às delícias deliberadas pelo meu marido. Meu amorenado de sorriso iluminado, meu criado de uso próprio e real. 
E viva a literatura, o sexo e a imaginação.





quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A lembrança igual a um filme cheio de luzes e narrador em off ou A muralha da memória é um fio de cabelo



O cabelo no ralo. Uma desconfiança que a matemática das despesas não resolve. A cerveja na noite anterior. A voz perdida na velocidade do pensamento.  





terça-feira, 18 de novembro de 2014

Aquele jardim

Começo hoje a escrever na SAMIZDAT e inicio com um texto que fala sobre volta. Não é um contrassenso. Ao menos assim vislumbro.

Sinto este espaço como o de uma constante volta a um jardim de delícias, aquele jardim que nos abastece e alimenta a alma. Jardim de palavras e de amor. De comer e beber palavras. Aquele jardim. Vamos? 

Aquele jardim





Voltei àquele jardim para ouvir. Não apenas a voz do vento, não apenas a voz das árvores, cujas folhas balançavam. Mas para ouvir teus olhos. E meus pés indo e vindo no balanço, a respiração procurando de novo criar um ritmo próprio.

Voltei àquele jardim porque foi nele que tudo começou. Alice em meio ao País das Maravilhas, lá estava eu desejando não mais correr atrás de nenhum coelho branco.
E ficar de um só tamanho, o meu.

Voltei àquele jardim porque tuas fadas me chamaram. Lá as feras são calmas e conversam com a gente, desenhando nuvens no gramado que eu não fiz. Não plantei nenhuma daquelas plantas e nem mesmo sei como se chamam. Não conheço seus donos. Apenas agradeço me deixarem em paz.

Voltei àquele jardim para ouvir minha mãe, que disseram andar por lá. Mas não a vi. O sol fala na minha pele e eu ouço os antúrios, que são sempre sábios e disseram eu tivesse paciência. Só não especificaram em quê.

Voltei àquele jardim para te perder e não me achar. E te achar e me perder e talvez um dia me achar por aí em outro jardim parecido. Ou no telhado de alguma casa, a cidade desconhecida e eu abrindo um livro verde, o livro da tua história, que encontrei e concluí.


Voltei àquele jardim para de lá nunca mais regressar. A cidade sumiu e só ele restou, jardim rotatório onde tu és criança e eu velha. Onde adentra meu ventre recolhido, com a doçura que nunca pude tocar. Com o amor de quem veio de longe, e ficará. 





segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Jantar de Silêncio - Poema de Davi Kinski





Jantar de Silêncio


Dilate o silêncio do meu corpo.
Um momento de surdez que quebra a noite.
Morda o meu lábio à desatino.
Embale a alma leve na jornada
Enquanto eu entrego o meu pranto.
Você delira risadas no meu lírio.
Eterna noite para sempre fustigada.
Cristal branco em cima da bancada
Santidade minha esquecida
De eterna vida, eterna entrega...
Já na sua perna eu prego, mordo, arranho.
Faço ferida em tua vida, em tua vida...
Paz de anestesia em qualquer canto.
Jantar de lábios, beiços e partida...
E quando eu ando, ando suicida...
É de mentira que faço o meu teatro.
Pelado, mostrando a minha ira.
Eu faço vida, em qualquer canto...
De maquiagem foi feita à viagem.
E de prazer fui morrer na sua pele.
Que te repele, mas gosta tanto.
Amor eu quero mais que Carnaval.
Percebe a rosa, do meu punhal?
Quando acabar, se afaste do lugar.
Meu pranto mancha a sua serpentina.
Já na saída do seu caminhar.
Em teu olhar, em seu olhar...


Do livro Corpo Partido - Editora Patuá.





domingo, 16 de novembro de 2014

Empatia

Jesuína não para de me olhar. Ela vigia os meus passos, marca território. O quintal é dela. Cada palmo de terra aplainada, cada minhoca que ela enxerga e come; é tudo dela. É um olhar ruim, sempre ruim. Não demora ela arrepia as penas e bate as asas vigorosamente, tentando me enxotar daqui. Uma criatura irritadiça e antipática. Dessas que são assim e pronto, não mudam.
Agora, ela está de perfil. Para quem não a conhece, parece apenas um desprezo ensaiado, uma sondagem de esguelha. Não é. O que ela está fazendo é se exibir, me mostrando o bico adunco. Para que eu saiba quanta dor ela é capaz de me causar. Para me dizer que não prossiga.
Preciso vencer o medo e cruzar o quintal até o galinheiro. Ignorar o movimento agressivo. A bípede levanta cada perna no ar com lentidão e depois a mantém suspensa no ar por alguns segundos, antes de tocar o solo. Como um soldado marchando num desfile. É o que ela é: um soldado do mal. Desses que cometem atrocidades por prazer, e não por obediência ou disciplina. 
E Jesuína tem adeptos. Se eu não me apressar, ela logo convocará Geralda, Cícera, Teresa, e outras tantas recrutadas no caminho. Prontas a segui-la e a brigar por ela com a estupidez das turbas que se enfurecem por qualquer motivo que lhes determine o líder. Atrás delas, excitado pelas bundas de plumas empinadas, Julião, o galo velho que já faz tempo não acorda o dia. Bobo como qualquer macho na presença de um traseiro.
Faltam alguns passos. Poucos. E a porta do galinheiro me protegerá da tropa bicuda, das garras cheias de micróbios. Não tenho coragem de enxotá-las. Tenho dó. Um dó que se mistura ao medo, é verdade, mas que não deixa de ser dó. Viver ao ar livre, sob sol e chuva, ou empoleirada num pau; comer milho cru e minhocas; ter asas que não voam para longe. Pior que isso: ser morte certa em panelas fumegantes. 
Quem não seria como Jesuína? Mas ter motivo não é ter 
razão. E não vai ser em mim que ela e suas seguidoras vão descontar a raiva e a frustração e a impotência de serem galinhas. 
Eu tenho que me controlar. Até por quê, o meu pavor tem nome. Remorso. Porque eu sei o que vou fazer no galinheiro. Elas sabem o que eu vou fazer no galinheiro. Não é mesmo possível nenhuma simpatia entre nós. A cesta no meu braço condena as minhas intenções. Elas sabem que vou sequestrar seus filhos, que vou encher a cesta com muitos ovos. Sabem que foram expulsas do galinheiro para que eu possa ladroar à vontade. E que voltarão para um ninho vazio. 
Eu sou o inimigo. Contra mim, toda a artilharia. A fúria com que bicam meus pés e minhas pernas até me causar dor intensa. Dor que, em seguida, sou eu quem lhes causa mais intensamente.
Não é uma troca justa. Nenhuma troca é. Mas, apesar da raiva, e da razão que eu sempre penso ter, acabo deixando que machuquem as minhas carnes. Eu também preciso sofrer. Sentir remorso. Essa coisa que aceita castigo, mas não recua da intenção. Jesuína é meu castigo. Ela me sangra além da pele.






sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Schadenfreude

– Óptimo, óptimo …  
As palavras enrolam-se-lhe, pastosas, sob o efeito do antidepressivo que tomou empurrado por um gole de vodka com sumo de laranja.
– Óptimo! – ainda repete.
Maria Teresa tinha acabado de dizer-lhe, e ele tem necessidade de expfressar contentamento mesmo sabendo que mente, mesmo perante ela que sabe. Ainda assim, afirma, a compor melhor o quadro:
– Estou tão contente, tão feliz por eles.
E despede-se.
Frederico Esteves a baloiçar o corpo magro de um lado ao outro da sala imensa que é o estúdio onde vive. O meu tugúrio, como diz, por graça.
Maria Teresa tinha sido directa. Nem boa tarde, nem olá xuxu como ela gosta de tratá-lo. Atirou certeira: é apenas para te dizer que acabei de casá-los. Assim, sem mais delongas, e ele naquele: óptimo, óptimo, tão amaricado que, mesmo pela voz, mesmo ao telefone, se juraria dos seus gostos em matéria de género. E no entanto, ele diz de si mesmo num maneirismo repleto de trejeitos: eu não me assumo bicha, que querem... E jura que gosta é de mulheres. E a dizer assim, ri como só ele sabe, a cabeça ligeiramente descaída para trás sobre o ombro esquerdo, e a mão do mesmo lado a tapar-lhe a boca que propositadamente escancara em demasia.
Com que então, José Pedro tinha mesmo casado.
Frederico Esteves a remoer no que acaba de saber, senta-se no sofá, as pernas esticadas em cima da caixa que um dia encontrou num contentor de lixo. Trouxe-a para casa numa noite de copos. Recuperou-a ele mesmo. Nela guarda as bebidas além do stock da dispensa. Hoje, faltou suco de laranja, mas é raro, e Frederico Esteves despeja no copo o que resta na garrafa.
– Pois que sejam felizes – diz assim em voz que outros ouviriam se ali estivessem, e simula um brinde erguendo o copo no braço esticado para o ar da sala.
Que aquele consórcio lhe seja fonte de penas sem medida, pensa Frederico Esteves, como praga que rogasse, mas afasta de si esse sentimento, e emborca o copo de um só gole, e volta a enchê-lo com Vodka ardente.

 ***

Maria Teresa fez o que ele tinha pedido: quando os casares, por favor, avisa-me. E ela telefonou-lhe.
Tinha sido numa outra noite, e tinham jantado. Frederico Esteves chorara-lhe as mágoas daquela paixão, e ela tinha-o aconselhado. Que não dramatizasse, dissera-lhe a notária do alto de uns sapatos muito altos e muito encarnados. Era o seu aniversário e, não estando reduzida à amizade de Frederico Esteves, não lhe tinha apetecido senão ele para comemorar. Gostava daquele seu modo de ser abichanado. Dava-lhe gozo percebe-lo sofrendo pelo lado errado. E com ela Frederico Esteves sofria todo o seu sofrimento sem ensaios nem segredos, que Maria Teresa tinha aquele modo especial de o fazer ficar cada vez mais sofrido, cada vez mais um homem sem rumo e sem sentido, pequenino, perdido de si mesmo, angustiado, e ela deleitava-se a ouvi-lo, e consolava-o exacerbando-lhe os desgostos.
Tinham-lhe dito que era sadismo, mas ela achava que era mais a raiva de não ter o pénis dele, de não poder usá-lo. E detestava-o. Que ele sofresse fazia-a sentir-se num quase orgasmo.
Fora assim na noite dos seus quarenta e cinco anos. Frederico Esteves sofrendo pelo amor imenso que José Pedro nutria por aquela criatura esquelética e inculta, assim dizia ele da que seria muito em breve a esposa do seu idolatrado. Maria Teresa apressara-se a dizer-lhe: vai casar, está confirmado. E ele chorara de baba e de ranho.
Maria Teresa apressara-se a contar-lhe, como se apressou, ainda há nada, a dizer-lhe que os tinha casado.

****

– Nunca perceberei tanto gastar de tinta, tanta discussão a interpretar o que só poderia ter sido de um modo.
É Frederico Esteves remoendo o artigo que acaba de ler numa página do jornal que tem desdobrado sobre a mesa.
Está sentado na esplanada do cafezinho onde, por um costume de anos, passa as manhãs de domingo. Uma esplanada arrumadinha que se debruça, lá de cima, sobre o rio. Frederico Esteves gosta de gracejar dizendo que fica ali na hora em que os amigos, os de infância e muitos dos que ainda lhe restam, ouvem missa em alguma igreja. E acrescenta, impertinente: eu faço a minha consagração com um café bem quente e torradas que lambuzo em doce de cereja. Mas não diz que esse é o seu local de leitura dos jornais semanais, que ele não lê outros, e quase só lê a secção literária. No resto, passa os olhos nos títulos, ou saltita-os pelas linhas de uma notícia ou outra.
– Mais um a insistir na versão do Bentinho traído – tartamudeia Frederico Esteves olhando o rio que o sol pintalga de reflexos inquietos.
Os articulistas e os estudiosos da obra de Machado, preferem que a culpa tenha sido de Capitolina. Preferem isso, a darem um sentido novo à trama urdida pelo matreirice de mestre Assis.
Frederico Esteves sorri-se a imaginar como poderia ter sido com Bentinho e Escobar, e vem-lhe à memória a notícia que Maria Teresa lhe deu nem há dois dias. E nisto vai virando as páginas dos jornais, a ler apenas as mais gordas.
E surgem-lhe letras diferentes. Cegam-no, aquelas letras enormes, muito negras. Saltam da folha a dizerem-lhe: acidente mata jornalista e sua jovem esposa. E os olhos de Frederico Esteves cegam-se de lágrimas que eles já se desviaram para a linha debaixo onde as letras gritam acima do ensurdecer que é o silêncio da esplanada: José Pedro Reis e sua esposa mortos num brutal acidente.
Frederico Esteves não lê os detalhes ou as pequeninas lhe diriam que o casal ia em viagem de núpcias.
Morto seu amantíssimo José Pedro, e no entanto, não é um soluço, e nem um  choro o que lhe está acontecendo. É sim um riso, uma gargalhada sem pejo e sem remorso. Um rir genuíno que condiz com um imenso bem estar, enquanto as lágrimas lhe correm cara abaixo.
Morreram os dois.
Não lhe resta a quem tenha que dizer, insincero e cínico: que sejam felizes, e aquele ardor no peito, e aquele despeito, e aquele horror de não ter sido com ele.
Gargalhadas sonoras tremeluzem-lhe o peito e a garganta, saem-lhe pela boca, e o senhor da mesa ao fundo volta-se perturbado e curioso do rapaz tão despudoradamente hilariante.
– Boas notícias?! – atira-lhe o homenzinho a tentar apaziguar tanta euforia.
Frederico Esteves pede desculpas embrulhadas em gestos mudos, e decide ir embora. Afasta a cadeira evitando o ruído que seria o metal a rojar na tijoleira da esplanada: quadrados verdes e brancos, nota ele a arrumar os pertences que tem espalhados pela mesa. Ri ainda, mas apenas no silêncio prudente do modo como coloca os olhos e a boca, e no modo como se desloca, que parece ele que nem sente os pés fazendo pressão para que ande, primeiro na esplanada que atravessa de uma ponta à outra, e alguns olham, de dentro da sua pasmaceira de domingo, aquele homem tão contente: terá tido uma boa notícia, parece que pensam. 
Frederico Esteves a tentar desfazer o desarranjo que possa ter causado na quietude que é suposta numa esplanada debruçada sobre o rio numa manhã de domingo. Atravessa o salão diminuto que é o cafezinho, e sai para a rua, os pés sempre naquele desatino de o fazerem ir voando, e o peito num indecoroso sentir-se com o coração leve.
Frederico Esteves num bem-estar que não podia ter previsto ao ler a notícia da morte de José Pedro. E aceita aquele sentimento como dádiva de algum céu que ele nem sequer venera. Nunca mais ter que os ver. Nunca mais ter que os cumprimentar. Não ter que repetir o ardor imenso do ciúme, ou a dor incisiva da inveja que o sufocava de cada vez que os via, de cada vez que os visse: José Pedro e a esposa no restaurante, no cinema, em casa dos amigos que ambos frequentariam.
E liga para Maria Teresa.
Palavras de desgosto, é o que dizem um ao outro, e que Maria Teresa lhe encomende uma coroa linda, pede Frederico Esteves. Que está destroçado, ia dizer-lhe, mas contem-se, e ela jura que serão as flores mais bonitas no cemitério, e que não desespere, que se precisar dela, a chame em qualquer momento.









quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Desejo





Numa de suas brincadeiras de criança, o filho perguntou qual palavra achava mais bonita. Iria escrevê-la com seus cubos de madeira estampados por letras.
Nem precisou pensar:
− “Desejo” − respondeu. − “Desejo” é a palavra mais bonita.
É no desejo que tudo começa, pensou. É no desejo sexual, corporal e compartilhado, que começamos todos nós. Desejo de dois, de dois que nos fazem.
− Desejo é com “s”? – perguntou o filho.
− Isso, com “s” − respondeu.
Com s de seguindo. Seguindo, formando e reformando por conta de outros tantos desejos.
O desejo de brincar, de buscar carinho, colo. Aquele querer, querer, querer... Querer infantil, como se tudo existisse só para si, como se fossemos únicos no mundo.
Então o desejo de se espelhar, de ser como o pai, de ser como a mãe. De ser o super-homem da revista, a mulher-maravilha da televisão.
Com o tempo, o oposto: o desejo de firmar-se e então matar pai e mãe, rir dos super-heróis, desejar ser independente.
Em um dado momento, desejo de ter o que o outro tem, de ser visto, de ser tão bom quanto, de ser o melhor. 
Depois,  o desejo de ser apenas você, de encontrar alguém como você, de encontrar o seu lugar.
− “J” ou “g”? − quis saber.
− “J”, senão fica “desego”.
− E o que rima com desejo?
− Humm... ensejo, revejo, percevejo... – Fez cara de quem não sabia mais o que dizer.
− Não, mãe, sério...
− Sério, não sei mais o que rima com desejo.
Mentiu, sabia sim, mas o filho não entenderia ainda. Desejo rima também com mudança. Muda muito ao longo da vida. Muda a vida.
Era movida a desejos. Em toda sua abrangência. Desejava sempre, constantemente. Não sabia não desejar. Eram os desejos que a empurravam para a frente, que a faziam seguir, continuar vivendo, desejando.
Um baque repentino: a caixa de madeira cai no chão, espalhando os blocos para todos os lados.
Abaixou e ajudou o filho a recolhê-los. De relance, viu sua frase pronta, montada no parapeito da janela:

DESEJO  SAIR

− Aonde quer ir? – perguntou curiosa.
− Ah, sei lá, quero sair, não quero mais ficar em casa.
Nem eu, pensou.
− Me leva ao parquinho?
− Levo. Vamos lá.

Colocou os blocos de madeira sobre a mesa, ficariam ali, as letras vermelhas viradas para cima, à espera de mais desejos. 





quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Zap Zap Vapt Vupt

(por Lohan Lage Pignone)

Pelo whatsapp:

“Mae to gravida”

Sete minutos depois...

“Porra mae eu vi que vc viu a msg tem 2 minutos ñ vai dzer nda? Foi tão hard pra mim revelar isso e vc nem aí! 2 min! Se foce a vovo ainda vai ela demora 5 min pra digitar uma msg mas vc ñ vc é moderninha tem até tumblr sai até pra balada com as coleguinhas piriguetes do seu trab sabe printar e o kct responde logoooo! Aí 3 min já passou pqp mae eu to aflita como vo contar isso pro papai to aqui chorano no vazo da rodoviaria com a porra do teste na mao sorte q tem wifi nessa imundice q ainda tive q paga 1 dilma pra entra to sem credito mae eu juro por vc q eu não trepei eu jurooo!! deus do ceu como isso foi actecer mae! quer dzer eu trepei sim ñ tem como mentir pq botei isso no twitter mas mae foi com camisinha eu jurooo do jeito q vc me encinou. mae passou 4 min para de pensar e me responde!!! sera q foi na banheira suja do motel mae tem pirigo? mae e se eu peguei aids mae meu filho nasce com aids? kralhooo vo morrer! mae olha soh sera q foi algum trosso q comi mae sei la tipo mes passado comprei um pao integral com porra pq dizem q é bom p pele q ñ tinha risco e tal olha sera q foi isso mae:


Mae me ajuda prometo q vou me converter vo no culto toda semana ñ vo da mole pro pastor gato prometoo mas me dá um help o q fasso mae tenho q estuda q arranja emprego ñ qro virar faxineira q nem a nossa diarista mae papai vai me expulsa de ksa to fudida mae soh vc pode me ajudar!!! mae tenho q inventa uma disculpa pro papai sei la oq falo? Q ateh Jesus teve filho ou q eu podia ser uma sapata e nunk da neto pra vcs... mae vc já deu visu mó tempaum kd vc? pqp mae é foda mermo!

“Minha filha, não fala assim. Tua mãe acaba de falecer. Ela tentou ser foda, mas fracassou. Numa avenida, sem cinto, digitando uma msg às pressas pelo whatsapp... Bateu na traseira de um caminhão. Essa merda de zap zap agora exige que responda o cara com rapidez, é foda. Fico puta com meu marido quando faz isso, mas entendo. Prefiro ele se divertindo com as putas dele do que com a cabeça esmagada, que nem tua mãe agora. Coitada, ia ser avó... Isso que dá, olha aí, com a cabeça toda escaralhada agora... Aqui quem fala é a paramédica. Lamento. Ah!, se for menina, ponha o nome da tua mãe. Seria uma bela homenagem.”






terça-feira, 11 de novembro de 2014

Pazes com a criança



um homem chora inesperadamente
a alma mobiliza todos os tormentos
às vezes somos tão indefesos...
a doença nos transforma em crianças
visito meu sótão interno
tudo é tão insalubre, imperfeito
vivemos enjaulados
sujo minhas fraldas e volto para o meu universo desaparelhado


the end






segunda-feira, 10 de novembro de 2014

4 razões por que todo escritor deveria ir à Feira do Livro de Frankfurt pelo menos uma vez na vida


Lembro-me de ter lido um artigo em The Guardian no qual o autor recomendava que nenhum autor jamais deveria ir à Feira de Frankfurt, pois lá os livros/escritores eram vendidos como “bucho de porco” em um açougue (1).
Era nisto que eu pensava assim que desembarquei do S-Bahn na estação Messe, que sai dentro do gigantesco complexo da feira: um imenso abatedouro...
Entretanto, pensar na escrita (somente) como Arte é de uma ingenuidade tremenda. Poucos escrevem para enriquecerem, porém o mercado está presente na essência do produto-livro.
A partir do momento em que uma editora decide investir em um livro, parte-se da lógica que: 1 — quer reaver o investimento, e 2 — quer obter lucro.
Mesmo que este aspecto comercial não esteja presente nos projetos literários de muitos escritores, há uma relação direta entre ser lido e ser comercializado. Via de regra, no mercado tradicional de livros, é preciso vender para que as pessoas leiam, mesmo que esta compra seja feita pelos governos.

Escrever => Publicar => Vender => Ser Lido

Esta me parece ser a cadeia mais natural da economia do livro e nenhum escritor pode desprezá-la. Reconheço que o século XXI veio para abalar toda esta estrutura e redefinir não apenas o mercado editorial, mas toda a produção cultural, ou seja, pode ser que este modelo se transforme bastante no futuro próximo. Teremos de aguardar para constatarmos isto.
De qualquer modo, aos trancos e barrancos, a economia do livro ainda é vigorosa e tem crescido em muitos países.
Apesar de toda a quebra de confiança que a revolução da autopublicação tem causado entre leitores e editores, cortando intermediários, tirando do jogo muitos profissionais que não conseguiram se renovar, forçando fusões de grandes corporações editoriais, falindo com livrarias, revelando talentos inesperados, demolindo nomes tradicionais, tocando fogo a velhos ídolos e imolando vacas sagradas, a publicação comercial ainda é o primeiro grande funil no mundo literário.
Ser publicado por uma editora comercial tem muito a ver com credibilidade, um carimbo de legitimação de que o autor tem qualidade ou pelo menos o potencial de vender muito.
Publicar obras de qualidade dá reputação a uma editora. No entanto, é através da publicação de obras que vendam, de preferência que vendam muito, que o negócio se torna viável.
Já para as corporações editoriais, tudo que importa é o lucro, posto que qualidade não sustenta quase ninguém.
Compreender a engrenagem do mercado deveria ser uma obrigação para qualquer autor que tenha alguma pretensão de vender/ser lido.
Por isto, enumero 4 razões por que um escritor deveria ir, pelo menos uma vez na vida, à Feira do Livro de Frankfurt.

1 — Um Mercado Gigantesco
O articulista de The Guardian comparou a feira a um açougue, eu já prefiro a comparação com uma feira livre.
Editores, agentes literários, livreiros e inúmeros outros profissionais do livro estão ali para socarem seus produtos goela abaixo dos outros.
Muitos querem vender, muitos querem comprar. Contudo, como usualmente ocorre com o mercado cultural, a venda e a compra costumam orbitar alguns poucos títulos e autores.
Os americanos e britânicos vendem muitos direitos de tradução para outros idiomas, mas compram pouquíssimo; eles são os principais feirantes, coagindo, pela potência de seus mercados internos, o mundo a consumir seus produtos culturais. E é assim em todas as áreas: na música, no cinema, na TV, e também na literatura.
A grande briga é para ver quem paga mais pelo livro dourado do ano, aquele que fará rios de dinheiro e estará na boca de todos.
Ninguém sabe ao certo qual é este livro, mas estão todos tentando descobri-lo.
Ir à feira é compreender, ou ter um vislumbre, da dimensão deste mercado.

2 — Substituíveis
Os escritores têm geralmente egos muito delicados. Necessitam de carinho, atenção e vários elogios. Adoram se sentir o centro do mundo e estofam o peito quando alguém afirma que eles são os melhores escritores que já leu.
A Feira de Frankfurt é uma dura lição de humildade.
Ali estão várias centenas de milhares de livros lutando por um lugar ao sol.
Sem dúvida que há muita coisa ruim, que jamais deveria sequer ter sido publicada; todavia, há também trabalhos de gênios, que muitos de nós jamais teriam a competência de escrever algo parecido.
Não é necessário viajar a Frankfurt para obter esta constatação; qualquer boa biblioteca, com seus incontáveis mestres pretéritos, já deveria ser um banho de humildade, porém, nesta feira, mais do que o reconhecimento de nossa pequenez, há também a exposição interminável de nossa insignificância, de nossa substituibilidade.
A maioria dos best-sellers é passageira; em um ou dois anos, poucos deles serão lembrados.
Se os que vendem muito já têm uma vida brevíssima nas prateleiras das livrarias e na memória dos leitores, quão mais efêmeros não são os que vendem pouco ou nada?

3 — Expressão de Poder
A Literatura, mas também a Arte em todos os âmbitos, é muito mais do que a mera expressão da genialidade individual. É também um reflexo de um contexto que propiciou o advento e a ascensão de mestres em suas respectivas áreas.
É evidente que é possível florescer mesmo no terreno mais inóspito, mas quando as condições favoráveis são fornecidas, o sucesso é muito mais rápido e garantido.
A Feira do Livro de Frankfurt é um espelho também do valor que cada país concede aos seus criadores, e também a percepção de cada mercado particular sobre a importância do livro.
É de cair o queixo o tamanho dos estandes e a suntuosidade dos pavilhões norte-americanos, britânicos, alemães, italianos, franceses, holandeses, e como, em comparação, chega a ser deprimente o de países com populações imensas, mas que dão pouco ou nenhum valor aos seus produtores culturais.
Uma das grandes críticas à participação do Brasil em 2013, quando foi o país de honra na feira, foi a falta de cor, de tropicalidade, de brilho em nossos estandes.
Se isto era verdade antes, quando o governo havia investido uma boa grana para promover os nossos autores, muito pior agora, com um estande sem vida e sem nenhum atrativo. Bastava dar uma volta no pavilhão dos editores internacionais para perceber que até países com produção editorial muito menor ou menos relevante haviam se esforçado bem mais para chamar a atenção.
A propaganda é a alma de qualquer negócio; neste quesito, o Brasil está na lanterna do mercado, um país onde fazer sucesso é um demérito, e livro bom é aquele lido por poucos.

Visitar o estande do Brasil em Frankfurt transmite uma importante mensagem a qualquer escritor brasileiro: “não conte conosco para promover o seu livro no exterior. Não nos importamos com você, portanto não espere que os outros se importem também.”

Assim fica simples entendermos por que o mundo lê clássicos e sucessos norte-americanos e europeus e quase nada do que se escreve abaixo da linha do equador.

4 — Fazer Contatos
Talvez o mais interessante de ir à Feira de Frankfurt seja o tal do networking, isto é, criar uma rede de contatos que possa servir para alguma coisa no futuro.
Entretanto, nesta feira o autor é um figurante. Quem mexe os pauzinhos são os agentes literários e os editores, deixando o escritor, aquele que está na base do mercado editorial, num segundo-plano.
Há tentativas para reverter este cenário, dando um pouco mais de visibilidade aos escritores na Feira. Ocasionalmente, há palestras com escritores famosos e, neste ano, foi criada uma área somente para nós na feira, mas a presença dos autores ainda é muito limitada.
Se você já for um autor publicado comercialmente, é o melhor lugar para lograr a venda de seus direitos estrangeiros.
Se você tiver um agente literário, ele provavelmente estará lá para representá-lo.
Se você ainda não houver sido publicado, a presença de soluções para o mercado da autopublicação está crescendo cada vez mais, ou seja, mesmo assim você não se sentirá muito um peixe fora d’água.
Vá, conheça pessoas, troque ideias, caminhe muito pela feira. Descubra o que está sendo publicado e o que faz sucesso. Deslumbre-se com a magnitude do mercado. Veja os livros sendo vendidos como bucho de porco no açougue.
Talvez isto o deprima. Talvez isto o estimule.
De qualquer modo, estes são os bastidores do universo ao qual você pertence sendo um escritor. Pode não ser belo ou inspirador, pode não ser muito poético, mas é o mecanismo oculto que move o mundo literário.

Fonte:
‘It’s carnage ...’ Inside the genteel world of books (The Guardian)
http://www.theguardian.com/books/2007/oct/14/features.reviewhttp://www.theguardian.com/books/2007/oct/14/features.review





domingo, 9 de novembro de 2014

PAIXÃO



Tanto tempo se passou desde a última vez que nos vimos, e por todos esses anos você ficou tão presente em meu imaginário, que agora, ao te ver assim, de perto, a coisa flui superficial, sem emoção. E o que sinto – ou o que não sinto – diante da sua presença me angustia.

E você, como se sente agora que tem notícias novamente sobre mim?

Deixa pra lá, melhor não dizer nada.

Mas eu, sim, tenho muita coisa pra te dizer... Pois é, as palavras não ditas, os gestos que se perderam no ar, sentimentos que ficaram rondando meus dias, a angústia de te desejar e não te ter, nem ao menos saber onde você estava.

A vida prega peças, não é?

Ah, por favor, não diga que não sabe do que estou falando.

Não, não acho que éramos imaturas para sabermos o que queríamos. Éramos duas adolescentes, na verdade, e tudo que nos interessava eram as descobertas – sobre o mundo, a vida, o amor... Aquela tarde me marcou para sempre; nos marcou.

Quais eram nossas chances?

Acho que a pergunta mais correta seria: o que iríamos perder?

Nossa amizade seria desfeita de qualquer forma, e você só tornou aquele instante, e aquelas lembranças, mais pesadas e dolorosas. Claro que nos conhecíamos desde muito pequenas, mas não dava pra fingir que um sentimento como aquele fosse...

Falo apenas por mim?

Pode ser, mas não posso ignorar aquilo que senti dentro daquele ambiente; dentro de mim.

Percebo seu mal-estar em abordar esse assunto, mas não podemos deixar que o passado fique mal entendido; eu já não posso mais.

Ficava remoendo aquelas memórias, até que um dia resolvi anotá-las num papel; depois, as transcrevi para um arquivo de computador. Percebi, então, a cada vez que acessava aquele documento, que aquela história se modificava, ganhava novos contornos. Eu mudava uma palavra, alterava o sentido de uma frase, acrescentava e tirava detalhes. Aquela narrativa nunca ficou fechada em si, talvez porque a cada nova experiência de vida, e a cada ano que passava, eu estivesse tendo minha visão de mundo alterada, e via aquela lembrança com olhos mais maduros.

Se é uma obsessão?

Talvez. Mas já percebeu que tudo aquilo que não resolvemos é o que mais persiste?

Porém, acho que pra você aquele momento não significou tanto. Mas algum sentimento, por mais ínfimo que seja, deve ter restado dentro de ti...

Por que insinuo isso?

Não é uma insinuação, porque já não tenho mais esperanças sobre você.

O que me move, neste instante, é a tentativa de tentar sobrepor essa parte da minha vida que nunca se afastou devidamente, que nunca se transformou completamente em uma parte do meu passado, como as lembranças devem ser.

Você continua muito bonita. Seu rosto permanece tão marcante como da última vez que te vi. Os traços se acentuaram, te tornaram mais mulher, mas ainda mantém o frescor da juventude.

Durante todos esses anos eu olhava para sua foto, para aquela nossa foto que tiramos na polaroide dois ou três dias antes de você partir, e passava horas tentando te imaginar mais velha. Por mais que me esforçasse, nunca consegui. Pra mim, você seria sempre aquela adolescente.

E sabe o que eu fiz uma vez? Levei essa foto – levei, não, porque tinha medo que a perdessem. Tirei uma cópia, colorida, e contratei o serviço de um artista plástico que fazia retratos a partir de fotos, propondo à ele um desafio: que ele te desenhasse como se tivesse uns trinta anos. Ele falou que não era muito a dele, mas depois topou. E você precisa ver, é um belo trabalho. Faz um tempo que não olho aquele desenho, mas, pelo que lembro, os traços tem muito a ver com você agora.

Doentio?

Se amar alguém do jeito como te amei é doentio, então você pode incluir essa definição no teu vocabulário.

Não te cobro nada. Peço apenas sua atenção, só isso.

Tenho tantas dúvidas sobre aquele momento, aquela tarde, sobre a tua forma de agir, que é bem possível nunca chegarmos a um consenso sobre aqueles poucos minutos em que estivemos juntas naquele quarto.

Quando subimos as escadas e entramos no quarto – havia algo de importante antes para ser rememorado? –, logo percebi que ali, aquela ocasião, seria o momento certo para expor de uma vez o que sentia por você já havia algum tempo.

Fechei a porta, como sempre fazia quando estávamos juntas – mas, desta vez, tranquei-a com a chave, ante a urgência do momento – e, ao me virar, te vi deitada sobre minha cama, brincando com uma maçã que você tinha trazido da geladeira. Ao invés de cravar-lhe os dentes – era sua fruta preferida desde bem pequena, tenho certeza –, você, maliciosamente, dava leves estalinhos na casca rija.

Eu era mera espectadora daquele ritual até você voltar os olhos pra mim, sensuais – sim, você já sabia ser sensual, o que pude comprovar quando te vi alguns dias atrás –, e pressionar os lábios com força na fruta, beijando-a com gosto – o que me pergunto, desde então, é se você realmente me desejava naquele momento ou estava apenas brincando com meus sentimentos.

Lembro uma vez, alguns anos antes, quando ainda éramos muito meninas e extremamente puras, que brincamos com ameixas para aprendermos a beijar(!) os meninos da nossa classe. Éramos inocentes, não?

Então fui até a cama com o coração disparado, sentidos em alerta, alegria quase incontida diante dos sinais de reciprocidade do amor até então oculto. Deitei devagar, sem saber se era sonho ou realidade. Você se ajeitou pra mais perto de mim e me ofereceu a outra parte da maçã – o que você pensava naquele momento?

Via seus olhos tão de perto, e eles me fitavam com tal insistência, que tive de fechar os meus, e, nesse instante, entrei quase que em uma sintonia astral. Não havia mais nada a minha volta – a nossas voltas. Todas as sensações, os sentidos, a vida, enfim, se resumia unicamente àquele quarto... àquela cama... a nós.

Sem saber ao certo como aconteceu, a maçã escorregou da tua mão – suponho. Foi isso mesmo? – e nossas bocas se encostaram, num ato rápido e sutil. Naqueles segundos, o calor tomou conta do meu corpo, e de repente parecia que eu sabia tudo que tinha de fazer. Sem pensar, encostei minha mão num dos teus seios – pequeno, ainda –, e só então você reagiu. Saltou para o lado da cama – quando abri os olhos – e correu em direção a porta trancada. Mesmo com a chave na fechadura, você parecia desesperada, como se estivesse em perigo iminente – o que você pensou de mim?

Observei aquela cena com perplexidade, sem saber o que fazer. Você fugiu daquele quarto, enfim, e seus passos na escada de madeira ecoavam como verdadeiras marteladas ferindo minha consciência. Poderia descrever aqui tudo que pensei e fiz depois de alguns minutos – ou horas? – após o choque que tive com o teu comportamento, porém acredito que isso não tenha interesse pra você – tem?

No dia seguinte, quando me recuperei um pouco do baque, e havia chegado a conclusão de que eu fora a culpada pelo que aconteceu, resolvi ir até a tua casa pedir perdão. Foi aí que me vi entrando em uma espiral direito para um poço fundo e escuro. Você não vivia mais lá, havia se mudado com a família ainda pela manhã, quando eu estava deitada na minha cama pensando em como resolver a nossa situação – você pode imaginar como me senti?

Por um tempo vivi culpada todos os dias da minha vida, imaginando que eu era a causadora do teu desaparecimento do lugar onde nascera. Por ironia do destino fiquei sabendo – não me lembro quem me contou – que teu pai era perseguido político, e pude concluir que a tua fuga – a segunda em menos de um dia – não se devia ao que aconteceu naquele quarto. Quando digo aquele quarto, e não meu quarto, é porque, depois da tua rejeição naquele local, ele deixou de fazer parte de mim, e eu, dele. No pouco tempo que ainda o utilizei antes da minha família também se mudar, nada me fazia sentido – mas isso lhe interessa?


Prefiro tuas negações ao silêncio.


Teu beijo acaba de me dar a resposta que precisava.

Tenho de ir. Meu marido e meus filhos estão me esperando.





sábado, 8 de novembro de 2014

a concepção






publicado originalmente em Dicionário Giratório