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terça-feira, 3 de março de 2015

Especulação em torno da dor feminina

Especulação em torno da dor feminina


Acredito que a dor do ser mulher
não se resume à decantada dor do parto,
nem ao vazio do abandono, na cela-quarto.

A dor de ser mulher não deve ser
somente a dor da despedida, os tristes ais,
do lenço branco do amado a acenar do cais.

A dor do ser mulher é ainda maior
que a da humilhação dos tapas no rosto
por aquele que do escolhido ocupa o posto.

A dor de ser mulher é mais que triste,
nem se confunde com encanto de sereia.
É angústia de mãe pelo rebento na cadeia.

A dor do ser mulher vai muito além
de sofrer pelo marido enfermo e insone,
ou ainda ver a prole padecer de fome.

A dor de ser mulher, de tão intensa,
transcende mesmo o febril desconforto
de arrumar o quarto de um filho morto.

A dor do ser mulher, inevitável,
paralisa o corpo, desnorteia a mente,
por sentir-se presa sabendo-se inocente.

A dor de ser mulher, absoluta,
corrói, silenciosa – incurável câncer –,
no diuturno esforço de fazer-se SER.

A dor do ser mulher é tudo isso
e muito mais: é cruel, atroz, inominada.
É querer mudar tudo, e poder quase nada.

A dor de ser mulher, provavelmente,
é tão só o sintoma de um pesar profundo:
ver o macho da espécie arruinar o mundo. 



Edelson Nagues








segunda-feira, 2 de março de 2015

GATO POR LEBRE





– Mas aí acabou sendo uma mão na roda, porque...
– Como assim, que roda?! Você estava de carro? – ela interrompeu-o, curiosa.
– Hã? Ah, tá, mão na roda. É só uma expressão. Uma metáfora, entende? Quer dizer que aconteceu alguma coisa que foi de grande ajuda para a pessoa. Várias das nossas gírias vêm de metáforas. – Zé explicava, paciente.
– Ahnnnn. Tudo bem. É que eu não conhecia essa.
– Pois então, é como eu ‘tava dizendo: aí tudo ia de vento em popa, quando ele ficou sem o braço direito lá na clínica.
– O quê? Ele perdeu o braço? Popa? Foi acidente de barco? – perguntou a moça, assustada.
– Deus do céu, Carol, em que mundo você vive? É maneira de dizer... Sentido figurado.
– Ah, claro, a tal da metáfora... Dá pra explicar esses dois, pelo menos?
– Claro! Tudo ia muito bem na clínica, mas ele perdeu o principal funcionário. Abaixo dele, era quem resolvia tudo por lá.
– Ahnnn... Entendi. Nada a ver com vento ou braço de verdade – murmurou, contrariada.
– Mas o pior de tudo veio quando ele tentou matar dois coelhos com uma cajadada.
– Para com isso, Zé! Você sabe que eu odeio violência com animais.
– Que violência, Carol?! Eu ‘tô falando de atingir dois objetivos de uma só tacada, digo, de uma só vez.
– Dá pra falar Português, poxa? Tá difícil de te entender assim...
– Isso é Português, Carol. A nata. Aquilo que só nós, que falamos Português, entendemos. Ou pelo menos deveríamos, né? Bom, mas eu não vou discutir com você. ‘Tô metendo o pé, porque ‘tô muito atrasado e quero tirar o meu da reta. Vou lá. Te ligo à noite.
– Meter o pé? Seu o quê? Mas você... – a mensagem de Carol ficou sem resposta, pois Zé embarcou quase imediatamente no ônibus parado no sinal.
Carol seguia pela rua, ainda contrariada com sua incapacidade de perceber metáforas. Por que as pessoas tinham de usar sentido figurado, em vez de falar claramente?
Suas divagações linguísticas foram interrompidas pela discussão de um casal que caminhava à sua frente.
– Vou abrir meu coração com você, Luiza: cansei de engolir sapos. E olha que sou boa praça. – o rapaz parecia realmente aborrecido.
– Você me deixou plantada naquele restaurante. E ainda dei com a cara na porta quando fui à sua casa. Fala a verdade: não é pra ficar ressabiada?
– Você devia agarrar com unhas e dentes a chance de ter alguém como eu, mas seu ciúme doentio não deixa. Ficar me seguindo e dando incerta é um pouco demais. Fica procurando cabelo em casca de ovo.
– Você me deixou com a pulga atrás da orelha, poxa! Custava ter dito a verdade?
– Que verdade, Luiza?! Eu não menti. Você tem que dar o braço a torcer. Foi paranoia sua.
Quando o rapaz falou em torcer o braço da moça, Carol não conteve o murmúrio de espanto, denunciando a sua indiscrição. O casal olhou pra trás, furioso pela intromissão da estranha que vinha atrás deles. Carol, que estava prestes a defender a moça, afastou-se, envergonhada.
Constrangida com o acontecido, atravessou a rua intempestivamente, sem olhar para os lados.
No hospital, duas horas mais tarde, Zé entra no quarto e encontra a amiga toda engessada.
– Como é que você sai atravessando daquele jeito, Carol? Enlouqueceu?! O casal que te trouxe disse que você atravessou sem olhar.
– Eu não sei. Foi tudo muito rápido. Fiquei pensando na briga do casal, naquela história de “torcer o braço” e acho que me distraí e não vi o carro.
– Mas, Carol! Tem que se ligar...– Zé não acreditava no olhar indagador da moça. – Olha o que eu trouxe pra você. – ele estendeu um embrulho em sua direção.
– Puxa! Um Dicionário de expressões idiomáticas. – a moça parecia desapontada. – Nem sabia que isso existia. Valeu, Zé. – disse a moça, tentando parecer educada, mas deixando o livro de lado.
– Agora você vai ter uns diazinhos de molho aqui, e pode passar o tempo lendo isso. – o rapaz sorriu.
– Pois é. Ah, Zé, esse aqui é Dr. Victor, o médico que me atendeu. – a moça estendeu o braço na direção do médico que entrava.
– Vitoca, é você, camarada?! Quanto tempo! – Zé abriu um imenso sorriso ao reconhecer o amigo de adolescência. – Virou médico, rapá? A vida dá voltas... Mó 171 no colégio. Adorava cantar de galo. Mas tenho que tirar o chapéu pra você. Parou bem pra caramba. – disse ele, fazendo uma reverência.
– Aqui eu sou o Doutor Victor, Zé! – brincou o médico, abraçando o amigo. – E aí? Sua namorada arrumou sarna pra se coçar. Vai ficar um tempinho por aqui. Mas o hospital é ótimo: sem querer puxar a brasa pra minha sardinha, posso garantir que ela está em boas mãos.
– A Carol? Não é minha namorada, não. É uma amigaça, né, Carol? Fala pelos cotovelos. Mas, quando eu preciso afogar as mágoas, é ela quem me ouve.  Mas me diz: vamos botar alguma coisa pra dentro? ‘Tô cheio de fome. Carolzinha, você vai ter que ficar a ver navios.
– Tudo bem, Zé. Eu me distraio aqui com o livro... – a moça parecia desanimada ao folhear o dicionário.
Ao retornarem, Zé e o médico conversavam alegremente.
– E aí, Vitoca, ela tá ou não nas últimas? – Zé não perdia a oportunidade de debochar da amiga.
– Está por um fio. – brincou o médico, sorrindo para a moça.
– Podem tirar o cavalinho da chuva, que eu não vou ficar aqui por muito tempo, não: além de não estar com o pé na cova, vou dar a volta por cima, porque não sou de fazer tempestade em copo d’água. – a moça piscou de forma maliciosa, lançando um olhar ao livro e depois aos rapazes, antes de acrescentar: Andei estudando.





domingo, 1 de março de 2015

15:02

não me rejeite com a abstinência
que se deforma na minha estranheza
desacolhida antes de chegar ao seu
arrimo onde a única verdade prevalecida
é a maçã enrugada que abocanho no
confessionário fescenino da sua
bucólica boceta feito uma mórbida
sedução enfezada por detrás
da mudez afligida no dengo 
disposto perante essa torrencial
dimensão incrédula à terra intricada
que me cede ao astro de colibris
ensandecidos numa incendiária metagênese
por ser um engenhoso canalha
disposto a chupar sua selvageria
sem questionar a escanifrada silhueta
dum passado intempestivo.

[Lía G. Corpus - Land Xii]





sábado, 28 de fevereiro de 2015

EPITÁFIO




         Puxado por um carro de boi, abria caminho diante do cortejo o ataúde de seu Tomás Fuleiro. O vento quente e poeirento das tardes de agosto levantava as saias das carpideiras e arrancava os chapéus dos homens que seguiam ao lado da pobre carroça. Cantigas lamuriosas, intercaladas por orações cristãs, enfezavam ainda mais as crianças que iam sem vontade ao lado de suas mães sonolentas e ocupadas na enfadonha tarefa de espantar moscas. Dois urubus e uma matilha de cães vadios escoltavam a multidão como se buscassem entender o propósito daquele passeio de sonâmbulos, sob o molestador sol das onze horas de um domingo sem riso.

         Guardado por um esquife de madeira bruta, que sequer fora lixado ou vira mão de verniz, descansava o corpo do velho que só vivera para fazer troça de qualquer circunstância ou cidadão. Pouco importava ao caçoísta se perderia amizades ou arranjaria declarados inimigos. Vivia somente para contar piadas e atribuir alcunhas, mesmo diante da pior das secas ou da mais dolorosa desgraça.

Por tratar-se de figura quase folclórica na região, a notícia da morte de Tomás Fuleiro confundiu as emoções daqueles que o conheciam, pois não sabiam discernir se o acontecimento fúnebre era razão para tristeza ou alívio. Independente do sentimento que os movia naquele arrastar-se lutuoso, todos se fizeram presentes, até mesmo aqueles que mais lhe rogaram terríveis pragas e, por toda a vida, desejaram ao falecido a pior das mortes: Chica Macarrão, Paulo Tetinha, Liduína Galope, Lalá Boqueira, Brito Pinguelo e até o Afrânio Mãozinha, que havia prometido ao povo de Banabuiú que, se eleito fosse, expulsaria seu Tomás do Sertão Central. A simpatia popular pela folgazona promessa de campanha rendeu-lhe o cargo que ainda hoje ocupa no principal assento da prefeitura.

         Após algumas palavras do padre Carmo Papudinho; Rubem Gilete e Osmar Tremelique depositaram cuidadosamente o caixão dentro da cova aberta na terra seca. A primeira pá de areia foi jogada para dentro da sepultura por Zico Pereba, acompanhada de uma delicada papoula que uma chorosa Jandira Pau Quente arremessou.

         Houve consternação. Todavia, uma vez diante do epitáfio inscrito na humilde lápide, a dor de toda a gente dissipou-se. O povaréu não encontrou recursos capazes de represar a própria inflamação, quando Dorival Calango irrompeu em uma gargalhada, enquanto lia o enunciado gravado no túmulo:


         “Aqui jaz um homem sério”. 


Emerson Braga





sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Colcha de Retalhos #6

Seguem alguns breves textos da coluna Colcha de Retalhos, homônima do livro que está disponível gratuitamente AQUI:


CONTRA O TEMPO

Explicou ao filho as coisas da vida e do tempo. Para facilitar, usou o relógio de exemplo:
- Aquele é o tempo, passando.
- Ele fica dando voltas?
- Nem sempre, às vezes passa correndo e nunca mais volta, por isso precisamos correr atrás do tempo.
No dia seguinte, após observar o relógio por horas enquanto o pai corria de um lado para o outro, o garoto retrucou:
- Você disse que a gente tem que correr atrás do tempo porque o tempo corre. Mas, ele tem uma perna bem maior que a outra, nem consegue correr. A gente é que tem que andar com mais calma, para não deixar ele para trás.




INSATISFEITO

Nasceu para ser
Viveu para ter
E morreu, sem nem ver




INJUSTO

Vivem vidas de condenados
Os que dormem o sono dos inocentes




DOMADOR DE DEMÔNIOS

Deito em minha cama e milhares de pequenos demônios infestam-me as idéias, o travesseiro e o canto escuro do quarto.
Ando cautelosamente até o som, ligo-o e volto para a cama.
Com a música, pelo menos, eles dançam.






quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Sem cabimento

Era um amor que ofendia.

Incomum, genuíno, esdrúxulo, amoroso demais. Insultava porque ninguém, até então, pudera vivenciá-lo. Nem houvera quem sonhasse experimentar algo assim.

Quem acreditaria num amor daquele jeito, que aceitava carinho amizade conversa carícia atenção cumplicidade respeito amor bem-querer harmonia alegria esperança, sem traição, ruptura, nem desejo de fim? Quem creria naquele absurdo de amor?

Só podia ser farsa! Tal espécie de sentimento — se existisse mesmo — não moraria naquelas redondezas. Não ali, bairro de desamados, órfãos, viúvos, analfabetos desmatriculados na escola do gostar. Não ali, onde os pares não combinavam. Não ali, onde namoro, noivado, casamento e divórcio eram desencanto e só tendiam a ofensa, miséria, negligência, fracasso, desgraça. Não ali, onde as famílias se desmanchavam num estalo, sem nunca haverem de fato se constituído. Não ali, onde as mulheres apanhavam dia a dia, às claras, e sempre serviam aos homens; e esses machos, também mal-amados, alimentavam-se de seu próprio prazer egoísta que nunca saciava. Não ali, onde as crianças nasciam da violação e, sobreviventes, iam se nutrindo da falta de zelo, dos maus-tratos humanos e da misericórdia divina.

Mas era um amor que teimava.

João, 32, e Aline, 34, simplesmente decidiram apostar na loucura. Um homem e uma mulher que resolveram se despojar da realidade que conheciam para fundar um amor destemido, sem cobrança de resultados. Caminheiros de mãos embaraçadas, comparsas nas tarefas domésticas, beijavam-se nas despedidas e reencontros diários, olhavam-se, reparavam um no outro, abraçavam-se em público, namoravam com profundidade.

João aceitou o enteado como filho e lhe dedicou caridade. Perdoou Aline pelo passado infeliz do qual ela fora vítima. Afastou-se das mulheres todas com quem se deitara, até mesmo das ex-esposas. Aline acolheu sogra e marido da sogra, ajudou no tratamento da esclerose e do Alzheimer senis, suportou a falta de dinheiro, o lazer quase nulo, o transporte coletivo de cada dia, confiou na palavra de João.
Foram solidários nos desempregos e abortos espontâneos, nos despejos residenciais, nas derrotas esportivas, enchentes, incêndios, batidas policiais, falta d’água, apagões e silêncios. Juntos, livraram-se da cana e da coca. Esforçaram-se pelo interesse mútuo, pelo diálogo e harmonia familiar. Ajoelharam várias vezes, em oração contrita. Adotaram três crianças e se empenharam em educá-las com atenção e amor. Formaram um lar em que eram felizes, em que a individualidade era estimada, assim como o bem comum. E não deixaram vizinhança nem familiares interferirem na engrenagem de seu amor. Usaram até mesmo o tempo em seu benefício. Envelheceram juntos e — mais que fiéis — leais à história que construíram. Inauguraram uma nova era, vencendo o desamor que imperava. Sem humilhações nem lisonjas.

Tendo assombrado no começo, aquele amor — estranho, de tão verdadeiro — passou a contagiar. Ano a ano, década a década, foi inspirando vários relacionamentos. Pretendentes a namorados se propunham, esperançosos: “Vamos amar como João e Aline?”. Muitos ousaram acreditar e fazer bonito em suas relações sentimentais.

Era um amor que arrastava.

Quando João se foi, de infarto, neste fevereiro, aos 73 anos, a comunidade se uniu para chorar com Aline. Ninguém acreditava que um amor assim, tão poderosamente revolucionário e transformador, pudesse chegar ao fim.

Mas é um amor que não morre.

No velório, Aline acarinhou o rosto do companheiro como sempre fizera e segurou as mãos dele com a mesma certeza de que se reencontrariam em breve. Guardou seu próximo beijo para a eternidade.

Maria Amélia Elói





quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Querida mãezinha!




Embora compreenda quem se lamenta da sua triste sina e não para de tecer teorias da conspiração sobre a própria sogra, eu não tenho razões de queixa. Mal vejo a minha.
É claro que antes sofri muito. Nos primeiros meses de casado, perdi dez quilos. Dormia mal, tinha pesadelos em que era atacado por matronas rotundas armadas de panelões de feijoada, que tocavam à porta às seis da manhã e me lambuzavam a cara de batom encarnado. Fiz terapia, voltei a frequentar a igreja, mas só o estudo me salvou — um mestrado em Estudos Militares.
Uma das disciplinas parecia delineada especialmente para o meu caso: “Como evitar dar o flanco e recuperar a iniciativa”. Textos obrigatórios: os de Maquiavel e “A Arte da Guerra” de Sun Tzu. Percebi rapidamente que qualquer dos autores transmite ensinamentos muito úteis para a sobrevivência de um genro, bastando substituir, em qualquer dos aforismos, a palavra “inimigo” por “sogra”. Acho que a atual versão militar de Sun Tzu é um aproveitamento de um tratado que, inicialmente, ele terá escrito, após convencer-se de que conseguia sobreviver à própria sogra. Vejamos alguns exemplos:
“O guerreiro superior ataca enquanto o inimigo está projetando os seus planos.” Isto é, quando perceberes que a tua sogra está a pensar ir lá a casa mostrar os álbuns de fotografias das férias, deves ligar-lhe anunciando quão pesaroso ficas por não poderes recebê-la, porque vais em serviço para a Austrália.
“Sê completamente misterioso e confidencial, até ao ponto de seres silencioso.” Isto é, não dês qualquer pista à tua sogra sobre os teus passos, os teus trabalhos, os teus horários. Se fores encurralado, finge que perdeste a voz ou transmite informações falsas, de modo que “o adversário não pode combater contigo porque lhe dás uma falsa pista.”
“Faz algo por ele, para lhe captares a atenção, de maneira que possas atraí-lo, descobrir os seus hábitos de comportamento, de ataque e de defesa.” Isto é, se quiseres viver em paz, procura conhecer a tua sogra, como costuma atacar, o que pode desencorajar esses ataques; faz com que ela confie em ti, e mantém-na constantemente sob vigilância.
Um dos grandes problemas das sogras é sentirem-se isoladas e inúteis. Arranja-lhe atividades que a entretenham: apresenta-a a um grupo de canasta; matricula-a em aulas de hidroginástica; convence-a a ser escritora e a enviar textos para concursos literários. Se, mesmo assim, lhe sobrar tempo para azucrinar a tua vida, interessa-a em projetos relevantes de grande fôlego, daqueles que ocupam uma vida inteira: acabar com a fome no mundo, descobrir a cura da estupidez; encontrar um sistema político sem governantes corruptos. É praticamente impossível? Eu sei — é essa a ideia.
Eu, felizmente, após muitas diligências pouco frutuosas, encontrei a solução, o que me trouxe, outra vez, calma e esperança no futuro: inscrevi-a em vários sites de corações solitários, com o nome “Gostosa carente”. Quando eu já desesperava e acreditava que o coração dela estava irremediavelmente empedernido, apaixonou-se por um idoso folgazão, e já não quer saber da filha nem do genro para nada. Anda alegre como um passarinho.
Agora, fiquem bem, que tenho uma genuína gostosa à minha espera, para uma batalha sem quartel, sem medo de sermos interrompidos por invasões de panelões de feijoada.

Joaquim Bispo

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Ilustração de Rodolfo Bispo: https://www.facebook.com/rodolfo.bispo.77


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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

TROVA - EDWEINE LOUREIRO

Amigos, a partir deste mês, publico uma série de trovas. Começo com o tema “Vento”. E o responsável por esta linda concepção visual  é meu querido e talentoso poeta-amigo Geraldo Trombin. Espero que curtam a leitura e até o próximo mês!

Abraços poéticos.

Edweine Loureiro








domingo, 22 de fevereiro de 2015

Casquinha de bebê

Mãe de segunda viagem, a Mariana sabia exatamente o que era parir, mas estava apreensiva com a filha mais velha, nascida cinco anos e três meses antes. A caçula chegaria em alguns dias, bolsa do bebê organizada e o quarto amarelo pronto para o retorno da maternidade. Não sabia ainda quem cuidaria da Roberta durante a maratona do hospital. Queria sua mãe do lado, do pronto socorro à observação, do marido fazia questão, com o pai e os sogros, falecidos, só poderia contar mentalmente. Sem parentes próximos, antes de recorrer à amiga do peito e a babás o cunhado precisava ser opção.

Um cara muito legal, o Luis. Finalmente permaneceu em um trabalho decente e há bom tempo largou as noitadas de segunda a segunda, e dizia andar calmo com a mulherada. Queria se ajeitar e fazer família, como manda o figurino. Antes de conhecer o marido a Mariana se encantou pelo Luis num barzinho. Quando lembra disso, ela sabe que convém manter uma distância formal do cunhado, aquele querido. Pois o Luis tinha uma folga longa para tirar e seria um prazer ficar com a Roberta enquanto o resto da família esperava, in loco, a Clarissa vir à luz. Fica sossegada, cunhada. Robertinha e eu nos damos muito bem. Tem iogurte na geladeira, folhas em branco e lápis de cor, devedê da Galinha Pintadinha. Vai dar tudo certo. Mariana aliviada.

Contrações e estrelas de dor. Mariana chegou ao hospital quase meio-dia de uma quinta-feira e saiu no fim da tarde de terça. Previa parto normal, recuperação rápida, e as filhas juntinhas em dois tempos. Destino atravessado, o bebê veio de cesariana depois de quase um dia de força feita pelos corredores. Veio. Rosada e cheia de cabelos. Ainda bem. Já em casa, as máximas em 30 graus na região, dizia a moça da previsão do tempo, a mãe preparava o banho da pequena com a ajuda da Roberta. Filha, olha bem a maninha, não deixa que ela role na cama, vou buscar a toalha e já volto, tá? Tá. O bebê remexia as pernas no ar e tinha ainda no corpo resquícios da camada esbranquiçada e gordurosa dos que acabam de nascer.

Custou a acreditar no que viu quando voltou ao quarto. Roberta, estás beliscando a tua irmã? Eu não, mãe. Tô tirando a casquinha. Como assim, filha? Isso é da pele da maninha, não se tira, porque dói. Some sozinho, com o passar dos dias, conforme o bebê vai crescendo e tomando banho. Tira, sim. O tio Luis explicou que é carinho. Mas acho que ele tava fazendo errado. Intrigada, Mariana quis saber. Como assim, Rô? É, assim, mãe. Ele me ensinou essa brincadeira, de tirar casquinha, mas eu não tinha casquinha nenhuma, então ele me esfregava e me ensinava a fazer esse carinho diferente. Depois era a minha vez de tirar a casquinha dele, só que ele também não tinha casquinha. Daí eu fazia igual: esfregava. Dá calor, mãe. É bom. Tu já brincou de casquinha? Pasma, Mariana buscou detalhes. E ele te esfregava onde, Rô? Como? Assim, mãe, aqui ó, mostrava a filha apontando o fundilho das calças. Vou ensinar o tio Luis a fazer direito, mãe. Da maninha ele vai conseguir tirar a casquinha.





sábado, 21 de fevereiro de 2015

Somos Todos Capadócios

— Boa tarde, delegado.
— Boa…
— Sabe o que me traz a sua honrada delegacia?
— Certamente, doutor advogado. Veio ver o assassino.
— Preferia chamá-lo de injustamente acusado.
— Como quiser.
— Delegado, não há dúvida que o meu cliente é inocente.
O delegado espantou-se com a notícia.
— Seu cliente?
— Exatamente. A Cúria contratou os meus serviços.
— Era só o que faltava! Doutor, sejamos sensatos!
— Sensatos, delegado? Chama isto de sensatez?
Alojado em frente a sua mesa já carcomida pelos anos de uso, o delegado direcionou o olhar para a única e apertada cela daquela cadeia do interior. Evitou cruzar vistas com o assassino ou, como preferia o advogado, o injustamente acusado. Percebia-se no semblante o desconforto diante da situação.
— Doutor advogado, acredita que somos todos iguais perante a lei?
— Mas é claro. Tal afirmativa é a base da justiça.
— Contudo, alguns são mais iguais que os outros…
— Isto é uma balela, delegado!
— O que o senhor sabe a respeito do caso?
— Que se trata de um lamentável acidente. Todo o povo que assistia a procissão é testemunha.
— Para o povo, foi assassinato, doutor advogado.
O suspiro do delegado poderia ser ouvido até do lado de fora da delegacia, tão minúsculo era o prédio que a abrigava. Recomposto, encarou o advogado.
— Lutero, nós somos amigos de longa data, jogamos truco toda semana no bar do Fulgêncio e você me deu a honra de batizar seu filho. Tenho assim você em alta estima e consideração. Fico constrangido com tudo isso, mas encontro-me de mãos atadas. O que posso fazer?
O advogado levantou-se da cadeira e circulou em volta do limitado espaço que compunha a delegacia. Também não teve coragem de encarar o prisioneiro por detrás das grades enferrujadas. Parecia escolher as palavras para continuar o diálogo com o seu compadre.
— Juventino, meu amigo. Conte-me exatamente o ocorrido, sem esconder detalhes. Juntos, talvez, encontremos uma saída para este caso.
Sabendo poder confiar de olhos fechados no amigo, o delegado pitou seu cigarro de palha e começou a desfiar a verdadeira história.
— Bom, Lutero. Você conhecia a vítima?
— O Geninho? E quem não o conhecia por estas bandas, compadre? Bom menino, estudioso, temente a Deus até as entranhas…
— Pois é compadre, pois é…
— E o que o nosso amigo ali engaiolado tem a ver com isso? Foi vontade de Deus, por acaso? Continuo botando na conta de um infeliz acidente.
Juventino desembuchou os fatos.
— Geninho era tudo isso que você disse e algo mais, compadre. Ótimo filho, trabalhador, prestativo, caridoso. Já foi até anjinho em outras procissões, mas todo mundo tem um fraco nessa vida e o do Geninho foi uma mulher.
— Difícil acreditar, compadre. Ele era tão tímido e católico. Nunca o vi nos braços das meninas lá na casa de diversões de dona Eudóxia.
— Eu não disse mulheres no plural, compadre e sim uma em especial. O menino meteu-se com uma senhora casada aqui mesmo da cidade. Dizem que foi ela que o tentou, afinal, o rapaz tinha lá os seus atrativos e a dita senhora um furor por debaixo das saias. Tanto perseguiu o Geninho que ele caiu nos seus encantos. Provou dos chamegos da dona e gostou. Pois bem, o caso foi levado em segredo por alguns meses até que o marido chegou mais cedo do trabalho, só não pegando o casalzinho em pleno ato porque o pobre finado conseguiu fugir pela janela do quarto sem ser identificado. O marido pôde distinguir apenas um vulto vestindo calças laranja correndo desembestado pelo seu quintal.
— Mas, afinal, Juventino, quem era o galhudo?
O delegado respondeu de modo quase inaudível.
— Doutor Haroldo Fontes.
Lutero por pouco não caiu da cadeira.
— O prefeito?
— E existe outro Haroldo Fontes na cidade, Lutero?
O espanto do advogado não cabia dentro da pequena delegacia.
— Agora, eu entendo tudo.
— Pois é, compadre. Doutor Haroldo Fontes deixou a vingança adormecida por umas semanas para fazer com que ela despertasse justo no dia da procissão do padroeiro. Mas o prefeito me garantiu não ter sido vingança tramada e comida pelas beiradas. Ele disse que até já havia perdoado a primeira-dama pela escapada, afinal, ninguém soubera do acontecido e ele precisava manter as aparências. Acontece que Geninho caiu na besteira de ir à procissão com a mesma calça laranja que usava no dia do quase flagrante.
— Menino burro esse Geninho.
— Também acho, mas como ele poderia imaginar que o prefeito tivesse guardado o detalhe da vestimenta do seu rival?
— Se ainda fosse uma calça azul, ou preta, compadre, vá lá. Todo homem tem uma calça nestas cores, mas laranja? Foi muita bandeira.
— O resto da história você já sabe, Lutero. Vinha o prefeito todo compenetrado na procissão, ombro esquerdo sustentando a parte dianteira do andor quando deu de cara com Geninho dentro da sua calça laranja. A cena deve ter despertado os miolos traídos do homem e deu no que deu. Ele deixou escorregar o andor de seu ombro e a imagem de São Jorge caiu justamente em cima do pobre menino. A lança atravessou o coração do garoto que morreu na hora. O que parecia um mero acidente, como até tu, meu caro, acreditava, foi o despertar de uma vingança adormecida. O próprio Doutor Haroldo Fontes me confirmou em seu gabinete na prefeitura.
Lutero sacou do bolso um lenço e enxugou a testa gotejada de suores causados pela surpreendente revelação de Juventino.
— Por que cargas d’água o prefeito confessou, compadre?
— Remorsos, meu amigo, remorsos. Não pelo Geninho, mas pelo prisioneiro que eu e a brigada fomos obrigados a recolher ao xadrez. Você viu como o povo ficou revoltado com o acontecido, exigindo justiça. Por isso tive que tomar esta decisão para preservar sua integridade.
Os dois olharam em sintonia para o prisioneiro. O delegado acendeu novo cigarro enquanto dizia:
— Nunca imaginei que o Geninho fosse tão venerado na cidade. Quase um santo. Se o povo soubesse a verdade…
— Preferiram um santo de mentirinha ao de verdade, compadre.
— É, amigo Lutero, o povo nunca tem razão. E os poderosos sempre escapam justamente por serem poderosos. Por estas e outras é que não vou acusar o prefeito. Quanto ao seu cliente, não se preocupe. Com o tempo o povo se acalma, esquece o Geninho e eu o libero. Na procissão do próximo ano ninguém vai lembrar de nada e a Cúria fica satisfeita. Estamos acordados, Lutero?
Dentro da cela, a imagem de madeira maciça em tamanho natural de São Jorge montado em seu cavalo parecia lamentar o acordo espúrio firmado entre o delegado e o advogado cujo cínico aperto de mãos ele era única testemunha. Juventino ainda pitou pela derradeira vez o seu cigarro de palha antes de filosofar:
— Na verdade, compadre, somos todos uns capadócios, sem exceção.
O advogado assentiu, fle





sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O nó de Marieta

Marieta fazia de nossas manhãs um ritual quase litúrgico.
Digo "quase" porque a celebração era íntima e desprovida de devoções a santos,
orixás, entidades, veneráveis virtuosos ou encarnações do tinhoso.
E digo "litúrgico", porque o ciúme de Marieta era uma fé religiosamente cultivada,
algo transcendental que conduzia nossa vida matrimonial com desígnios, dogmas,
superstições e atitudes que beiravam a beatice fundamentalista.

Marieta carregava como uma cruz a crença de que eu, Eleutério Moreira,
alto funcionário público, pai de três filhos, avô de dois netos e 34 anos de um
casamento imaculado, seria um patife vespertino, prevaricador contumaz, um sonso cafajeste.
Sim, sonso, cínico, já que à noite, toda noite, trocava minha fatiota de funcionário exemplar
pelo pijamão com monograma e pantufas restauradoras.

Para blindar o marido - para ela, um safado dissimulado -  aproveitava-se de uma fraqueza
secreta e vexatória, que carrego com rubores na face: eu não sabia dar nó de gravata.
Nunca soube, nem tenho idade e paciência para aprender.

Ardilosa Marieta. A cada desjejum, ao terminar a média com pão em canoinhas
na manteiga e metade de um caqui ou uma banana prata amassada com aveia,
era conduzido por ela ao armário do nosso quarto, onde dezenas de gravatas
perfilavam-se dependuradas na parte interior da porta. Marieta tinha o cuidado
de retirar aquela que combinasse com o dia lá fora. Cada cor, cada padronagem,
cada tom e cada textura não eram escolhidas ao acaso.
Dependiam da lua, das nuvens, da climatologia, do horóscopo,
dos perrengues da menopausa, de seus próprios impulsos hormonais, dos comandos
do seu ciúme patológico, suponho, pois o tempo gasto para eleger a tal gravata me fazia
um enfastiado a imaginar por que diabo tanto cuidado com a harmonização de um pedaço
de pano com sei lá o quê, já que a camisa era sempre branca e o terno um cinza soturno?

E dava-se início à cerimônia.
Com meu pescoço entregue como um condenado ao patíbulo, cruzava ela a parte larga
da gravata sobre a parte estreita. Seguia o cruzamento numa cambalhota de dedos como se desenhasse arabescos, formando um nó frouxo, por onde mergulhava e descia espremida
a parte larga, até encontrar a centímetros do cinto lá embaixo, a ponta mais fina.
Com as mãos firmes, subia o nó triangular até o botão que fechava o colarinho
- sempre engomado e rijo -, deixando equidistante as duas metades, a larga e a estreita,
centralizando pelos limites das costelas direita e esquerda, sobrepostas por uma camisa
da mais fina cambraia.
Ela ainda operava a última conferida, contemplando, apertando e segurando com orgulho
de um Leonardo da Vinci, sua obra máster: seu nó de criação própria - nenhum marinheiro
de várias viagens ou escoteiro das melhores ações seriam capazes de reconhecê-lo em
manuais, muito menos desatá-lo.
Um alfinete perolado era espetado no ponto central da gravata, como uma cereja no chantilly,
como um lacre de uma masmorra.

Não encerrava aí.
Marieta surgia com uma fita métrica para assegurar que as medidas estariam dentro dos
padrões da elegância de um alto funcionário público de uma repartição do Distrito Federal.
Conversa fiada. Ela media tudo para se certificar que os centímetros da manhã
seriam rigorosamente os mesmos do entardecer, quando chagasse do trabalho, confirmando,
assim, que eu não teria tirado a gravata no afã de me embrenhar por alguma amante.

Eu não tinha amante coisa nenhuma.
Mas também não suportava ser santo. Andava atormentado pelo cárcere sexual em que
fui metido. Marieta já não emanava desejos nem futucava os meus. Mesmo que eu quisesse
fantasiar muito, imaginando a avó balzaquiana autoritária sensualizando os quadris,
vestida de odalisca, véu e abundancias desnudas.

Um dia, tomei coragem, seria o que Deus quisesse, ousei trocar a hora do almoço por uma
hora relaxante na casa de Tia Aurita, domadora das mais belas e ferozes fêmeas do amor
contratado, travestidas de meigas namoradinhas, daquelas que, não fossem de vida insuspeita,
seriam pequenas de se levar ao cinema e tomar sorvete na leiteria.
Foi um quase desastre.

- Venha, tio garboso...
- Não me puxe a gravata, minha filha...
- Como não? Quero lhe fazer de meu cachorrinho na coleira, doido para me cheirar e me lamber todinha...
- Largue a gravata, minha filha...
- Mas como fazer a coleira de meu Totó?
- Largue a coleira, então, minha filha. Deixa como está. Seu cachorrinho obedece os comandos
da bela dona, sem que se toque na gravata, por favor, digo, na coleira.

E assim nos entregamos a lambeções diversas, esfregas infinitas e imersão em corpos quase nus.
Digo "quase", porque por prudência, não despi a camisa, muito menos arrisquei desatar a gravata,
fazendo as delícias de um amor transgressor, com o decoro de um alto funcionário público
e uma ondulante progressiva bunda de fora.

O desastre quase se deu, quando tentando fazer a moça parar de rir depois das funções,
tive ímpetos de mandar lhe uma bofeteada. Cheguei a levantar a mão, a moça gritou e a zelosa
Tia Aurita adentrou à alcova com a chave mestra. Perplexa, nada pode fazer, a não ser impedir
com o olhar meu gesto insano e compartilhar com sua funcionária um ataque de riso nervoso.

As gargalhadas foram contagiantes. Sorrindo frouxo e amarelo, ajeitando a glostora do
topete diante do espelho, confessei às duas meu problema doméstico, certificando que a
gravata e seu nó continuavam intactos. Compreensivas, lançaram olhares de compaixão
e afeto, ofereceram ombros amigos e carinhosos, ainda ajudaram a me vestir e tirar
mínimos vestígios de uma gravata - e uma tarde -  fora do lugar.
Resultado: dobrei o maço de notas combinado, depositado gentilmente na penteadeira.

À volta para casa, a hora tensa da revista da fita métrica. Prendi a respiração. Fui submetido
à conferência padrão. O corpo em posição de sentido, nariz ao alto, olhos atraídos pelo lustre,
o gogó tremelicando como o de um frango às vésperas do molho pardo.
Um arroio de suor me brotava atrás da orelha. Marieta me apalpava e me examinava
com seus óculos rigorosos.
As distâncias, o nó, a pérola, o buraco do cinto, tudo foi checado. E tudo estava como antes
e como sempre. Nenhum cheiro estrangeiro no seu território, nenhum amassado na cambraia,
nenhum fio de cabelo de glostora fora de posição.

Marieta me deu um beijo e disse que havia preparado macarronada para o jantar.
Suspirei, suspirei fundo, sorri por dentro e me senti mais que aliviado: feliz como nunca.

Meu casamento estava a salvo.
E Tia Aurita ganhava seu cliente mais assíduo e generoso.









Pelos fundilhos do leitor

Na última onomatopeia, meus dedos travaram. Não sei explicar direito, talvez, ou ainda, de alguma maneira, altivo, vi com os velhos olhos acometidos pelos anos, a presença que agora as minhas retinas infantis presenciam.
O convívio com os anos se tornou uma prática que venho diariamente encontrando nas caminhadas pela orla. Tão diferentes daquelas mesmas pernas brancas embutidas no bonde, vejo um desfiladeiro de Botafogo, Tijuca, Centro, Ipanema e Paquetá. Isto é o Rio de Janeiro, nem precisa da rima com primeiro mês do ano.
Outro dia, ouvi meu nome, não foi um anjo torto, mas a voz de um amigo deformada pelas oscilações dos paredões rochosos dos condomínios fechados. Raimundo me chamou para ver o ornamentado jardim de flores que organizou no quintal de casa. Em todos estes anos na cidade maravilhosa, não deixei desaparecer o sotaque mineiro. No inicio alguns esqueceram as críticas no meio do caminho, para me dizer que não demoraria mais que o amanhecer da entrega do leite e meu sotaque fechadim desapareceria. Já passaram mais de meio século de homens partidos e continuo itabirano com o suor da parteira preso nos tornozelos.
Olhando as flores em silêncio, escutava Raimundo em uma sinfonia de falas e menções sobre o tempo que foi e não é mais. Os ombros suportam o mundo, mas eu ainda tenho esperança de um dia ver o mundo suportar os ombros. Acostumei enxergar o inverso das coisas, passados tantos poemas, tenho a terrível inquietude de ver a lata de lixo ser considerada a melhor amiga do poeta. Posso revoltar-me, mas as conversas de Raimundo são prosaicas demais, isso me rememora os homens de chapéu e cantigas em tons menores durante as obras da reforma do Colégio Arnaldo, que tiravam a atenção para crescimento de Belo Horizonte. Há sempre uma resposta que não gostaríamos de ter.
Em todos estes anos de poeta, tenho perambulado muito pelo Rio, principalmente pelas proximidades dos colégios. Tão antigos em suas construções e em suas classes de português . Nas conversas na saída de aula, ouvi certa vez, alguns estudantes secundaristas discutindo que Lili foi a única com um destino feliz. Nunca tinha me perturbado com tal afirmativa, nem as noites passadas em frente o datilografo traduzindo Balzac, Proust, Lorca, escrevendo crônicas para o Correio da Manhã tiveram um peso tão imenso sobre minha poética. Sem necessitar da identidade, estrada ou bonde, voltei aos bancos escolares do Colégio Anchieta e principalmente para a aula de gramática. Percebo a minha primeira briga com a linguagem acadêmica, valendo a minha expulsão. Insubordinação, palavra que me persegue por largas décadas. Somente o meu nascimento em Itabira tem um aspecto mais remoto.
A poesia, uma insubordinação, perante a existência dos homens, que chega sem avisos prévios, exigindo apenas o dedilhar dos dedos cansados, nem sempre formando onomatopeias, ficando apenas com os versos. Me pergunto, e agora? Tantos Joses na cidade, qual deles é a essência do retrato? Nas vezes que encontro pela janela do sólido edifício o mar, ele não responde da forma como imaginei quando menino lá em Itabira. Depoisem Belo Horizonte, despertava para outros interesses e o mar continuava a ser uma linha de imensidão que ecoava em meus pensamentos, sem as águas tranquilas com marinheiros fiéis.
A verdade nasceu com a pena tinteira que herdei do meu avô materno, para anos depois ser usada nas assinaturas dos prontuários farmacêuticos, que se afastou definitivamente da minha mão antes mesmo do buço endurecer.
Nesta natureza involuntária da vida, Carlos de Paulo Andrade e Julieta Augusta Drummond, que aprendi ao longo da timidez itabirana a chamar de pais. Depois Pedro Nava, Milton Campos, Oswald e Mário de Andrade, Manuel Bandeira, ajudaram a formar gerúndios faltantes, ardendo em fagulhas quando me deparo com suas obras em prateleiras empoeiradas de livrarias. Ultimamente até mesmo as correspondências arquivei, mas nenhum arquivo é pior que os passos lentos dos meus oitenta anos.
Quem bater na porta do 701 do edifício da Conselheiro Lafayette número 60, não vai encontrar o sorriso mais recluso de Copacabana, mas quem sabe o mais gauche. Elas se estivessem aqui, diriam mais poético. Dolores e Maria Angélica, duas mulheres que a vida se responsabilizou em fazer o vão não ser mais que palavra, e amor, mais que qualquer definição. Herdei delas esse jeito, nenhum poema, nem mesmo em todas as antologias que coloquei o Carlos rompendo definitivamente com o eu lírico, conseguiu valer o verso – mais vasto é meu coração.
Sempre no meu sempre a mesma ausência, caro leitor, podes estranhar, essas voltas e idas, mas acostumei-me a viver assim.
Desta vez desconfio que não escrevi um poema.






quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Histórias de sonhos

Para Diva

Eu a conheci num lançamento de livro. A música que tocava era diferente de quase tudo que estamos habituados. Música contemporânea experimental, creio que era este o nome. Enquanto muitos pareciam estranhar, ela demonstrava prazer e alegria. Logo soube que tinha a ver com seu neto, que foi morar nos Estados Unidos justamente para estudar esse tipo de música. 
Da música e do neto passamos a falar de outros assuntos, e ela começou a contar episódios de sua vida. A neta bailarina e estudante de Jornalismo, que sofreu por ficar em segundo lugar num processo seletivo de uma companhia francesa de balé. Suas comunicações com o neto via Skype, que pede conselhos a ela, não aos pais.
Até que falou de sua recente viuvez, surpreendendo-me. Até então, era toda risos e brilho nos olhos, inclusive no esquerdo que, cego, nada azulando à deriva em seu globo. Perdeu o marido há onze meses. Estava tudo preparado para a comemoração, era o aniversário dele, 18 de março. Salgados, doces, doces dietéticos, refrigerantes, sucos, cerveja. Todos estavam chegando quando uma das noras, médica, reconheceu algo estranho no rosto de Jorginho (era chamado assim desde criança). Pediu licença à sogra para levá-lo ao pronto-socorro, coisa breve, só pra dar uma garantida de que estava tudo certo. Não estava. O que era para ser uma ida rápida foi consumindo o tempo até a festa ser desmontada, a comida e a bebida doadas para um asilo vizinho. Ninguém queria mais comer, seu Jorginho fora internado. A diabetes, que o acompanhava há quarenta anos, complicara.
Seu Jorginho não saiu mais do hospital. A mulher o visitava diariamente, sem sentir a densidade do real que surgia sem gentilezas. Uma sobrinha, psiquiatra, orientou os filhos a administrarem ansiolíticos em meio aos remédios muitos que ela também tomava. Não percebia que o marido morria.
Sem que o casal desconfiasse, os filhos os filmaram caminhando pelos corredores do hospital, captando, eternizando a doçura com que aquelas mãos se tocavam, o sorriso no rosto dele, que lhe dizia Você é tão linda, meu amor, e eu te amo tanto, tanto. E ela então respondia Eu também, eu também. E os dois riam, porque era assim há sessenta anos.
Depois de dez dias Jorginho morreu. De início levaram-na para os filhos, ficou uns meses longe de sua própria casa, viajou bastante, mas estava de volta.
Onze meses para ter o primeiro sonho com o marido. Deitara-se pouco depois das onze, uma amiga fazendo companhia. A voz foi vindo de muito longe. Te amo, meu amor, te amo, te amo. Falando, falando, até ela acordar assustada – enternecida, mas assustada, devia ter dormido muito, ele a chamava, os remédios, ela tinha que tomar o antibiótico às sete. Sentou-se na cama para enxergar o rádio-relógio, apenas uma da manhã.
Quando finalmente amanheceu contou o sonho para a amiga, que opinou fosse algo que Jorginho ainda lhe precisasse reforçar. Nessa parte da história minha amiga tem os olhos transbordando, ainda mais azuis. Porém logo sorri e diz que eu não poderia imaginar, mas uma das netas, a mais namoradeira, completou pela primeira vez um ano ininterrupto de namoro e veio falar que gostaria de lhe apresentar o rapaz, só pedia que não se assustasse. Pensou em tudo: tatuagens, piercings, até drogas.
Nada disso, o moço parece bonzinho que só. Tem o mesmo nome e apelido do avô, Jorginho. Minha amiga esclarece que é muito católica, não acredita em reencarnação nem nada parecido, mas a coincidência a divertiu. Ela que só conheceu Jorginho, ambos com catorze anos, fala, sorridente e de novo serena, que nunca foi namoradeira, mas o marido sim. Adorava dançar e namorou várias, mas sempre lhe dizia É com você que quero casar. E casou. Ela não gostava de bailes, ele parou de ir. Ele gostava de falar de futebol e política, ela não. Eram bem diferentes nessas coisas, por isso ela sorri ainda mais e me joga a pergunta Não dizem que os opostos se atraem? Então, é verdade, responde a própria indagação de imediato. Nessa hora a música para e levantamos, é hora de comprar o livro, pegar autógrafos, tirar fotos.






terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Você pode ser um leitor-nada - poema de Leonardo Mathias






“– você pode ser um leitor-nada e,
se realmente não acreditar em nada,
ainda pode ler um livro sobre isso:

você pode ser mulher,
e isso não é nada,
como nada é ser homem, afinal,
você terá de raspar os pelos
e isso também não faz diferença:

– a vida está cheia de nada
e, ainda assim,
tensiona as coisas –

e por isso seguimos insistindo, mesmo
[por nada]”



do livro (...) ou reticênciasentreparênteses, Editora Patuá.