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sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

TEXTO AO FILHO HIPOTÉTICO

 

            Um filho hipotético nasceu de mim como um resíduo. Um destes fragmentos que incorporo à minha verdade diária de construir uma vida autêntica diretamente proporcional ao espaço concedido/conquistado. Um resíduo, não muito, daquilo que em mim é o mais permanente. Uma parte que ainda se resguarda e que a sociedade não corrompeu, por ser imune a tudo.

            Não lhe dou um nome pois ele não carece de um signo que o faça distinguível entre os seus. Todo o espaço que ele ocupa está cá dentro e não existe senão aqui, onde o sinto e ouço. Uma substância não de todo discernível, alguma coisa como que matéria neutra dotada de impulso vital que lhe forneço em nível de emoções diversas.

            E diante da possibilidade de este filho nunca se constituir como um ser real, de existência visível e concreta como esses seres de braços pernas cabelos e dentes, a quem chamamos homens e que circulam pelas ruas identificáveis por um nome, é que lhe conto. Para que ele saia de mim e se concretize em palavras.

            Ou então seria preciso que alguém me ajudasse a completar o esboço que na solidão chamei de filho. Mas é tarde e decerto ninguém viria até mim sabendo que o meu filho já nasceu do nada e existe sem existir e que, além disso, eu não quero tirar sua existência de anjo para trazê-lo ao palco de nossa cotidiana tragédia.

            Chamo-o de filho sem saber de seu sexo. Aliás eu o sinto e criei assexuado e hermafrodita ao mesmo tempo e com ele converso em sonhos. Diálogos de sonhos que não transcrevo pois os sonhos não se transcrevem e sinto que se fossem transcritos perderiam a sua substância de sonho, além de não terem importância para os outros por serem específicos.

            Certo dia, conversando com meu protótipo de filho, ele (contrariando minhas determinações de criador e se libertando da esfera mínima em que o permito autônomo) perguntou-me o que eu achava de mim e dos motivos pelos quais o criei. Se minha vida não bastava a mim mesmo a ponto de o chamar a coexistir comigo num espaço unicamente meu. Se a vida humana era mesmo esse desconhecimento primário da vida, com tudo o que ela tem de implicações intrínsecas.

            Atingido assim em um ponto tão vulnerável e crucial, respondi, contrafeito, que não sabia de nada e que também não queria pensar demasiadamente sobre isso. Mesmo porque eu não tinha meios para tal avaliação. Apenas me foi dado viver e conseqüentemente eu habitava esse verbo sem nenhuma estrutura lógica ou transcendente.

            Depois disso, eu e meu estereotipado filho entramos assim numa espécie de comunhão silenciosa, onde as perguntas não eram feitas e nem respondidas. Mas nem por isso deixavam de ser formuladas no íntimo secreto de mim para mim, através dele. E daquela sintonia inicial de quando o criei, fez-se o estranhamento inevitável entre o criador e o objeto criado. Daí para o divórcio total não demorou muito.

            Nosso afastamento não foi uma ruptura inesperada e muito menos unilateral. Veio de uma sequência de desencontros em que sabíamos levar ao aniquilamento total em termos de comunicação. Foi assim e sempre será assim entre os homens e talvez justamente por causa disso que eu o tenha criado, na ilusão de que ele, não sendo um ser real, pudesse manter um diálogo fraterno para comigo que me achava só e único em minhas ideias que eram, no isolamento, concebidas exclusivamente para mim mesmo.

            Aconteceu, porém, fato inesperado, que meu filho foi-se libertando de mim e de meus conceitos, criando para si próprio uma nova escala de valores que naturalmente divergia da minha sob alguns aspectos. E eu não contava com isso. Na verdade, somos todos despreparados para uma possível vida, tal como imaginamos e que não nos basta quando se concretiza.

            Assim, a cada dia, fomos percebendo que nossa convivência estava se tornando impossível. Estabeleceu-se um abismo e nele nos perdemos em nossa ânsia de tanto querer e que só nos afastava ainda mais do outro enquanto objeto de desejo. Eu e meu filho hipotético, no qual eu vislumbrava um desdobramento de mim e que, uma vez concretizado, era estranho a mim. Não nos entendíamos mais.

            Então eu o expulsei de mim trazendo-o a mim, de onde ele afinal tinha vindo. E ele em mim e eu nele absorvemo-nos num único ser que era o resultado de duas partes que naquele momento voltava à unidade aparente de um todo que já não mais se questionava. Não havia mais desavenças e passamos a nos entender muito bem no ser insípido que surgiu de nós dessa fusão e que, sem constrangimentos, contemplava a fumaça do cigarro em espirais de sono.

 

            

 





domingo, 28 de novembro de 2021

O Sonho

 
 
 

Dormia calmamente quando senti o toque fresco da tua mão no meu rosto em total contraste com o calor que fazia no quarto.
Abri os olhos e vi-te de pé, frente a mim, sorrindo como só tu sabes sorrir. Teu cabelo solto criava uma aura na contraluz da luminosidade que se escoava pela janela atrás de ti.
Tocaste com o indicador nos meus lábios para impor silêncio. Fechei os olhos por segundos e quando os abri novamente tinhas desaparecido.
As cortinas da porta do terraço acenavam-me languidamente, ao sabor da brisa noturna.
Ergui-me e caminhei para a porta. A frescura da noite chegou ao meu corpo despido e envolveu-me lentamente.
E ali estavas de novo, de pé no meio do terraço, qual Eva renascida trazendo contigo o Pecado Original.
Sentaste-te e deitaste-te graciosamente enquanto eu me aproximava, de corpo tenso, ereto, em homenagem à tua beleza.
Ajoelhei junto ao Altar do teu corpo, sacerdote de uma qualquer religião esquecida adoradora de Vénus. Extasiado e reverente, perante tão radiosa aparição.
O veludo negro do céu e os diamantes que o ponteavam, eram as únicas testemunhas de tão irreal acontecimento, de tão imortal encontro.
Os Deuses, algures no Olimpo, congeminaram esta nossa união que tem tanto de sagrado como de herético. Divertem-se durante vidas inteiras aproximando-nos e afastando-nos a seu bel-prazer mas esta noite deram-nos tréguas.
Os meus lábios tocaram os teus e repousei o meu corpo suavemente sobre o teu. Fomos um abraço sem tempo, uma união única de corpos e mentes de sintonia total como só acontece uma vez em cada milhão de anos.
Vibramos silenciosamente, rodando, penetrando e sugando loucamente por uma eternidade. Explorei cada ponto da tua geografia, vagueei pelas tuas colinas, acariciei cada contorno das tuas planícies, deixei-me perder no teu mato aveludado e doce, convidativo e húmido.
O tempo deixou de existir e o cenário noturno esbateu-se lentamente até toda a realidade se projetar numa explosão de cores e sentidos desordenados, terminada numa lassidão cheia de doçura e saciedade.
Quando tornei a abrir os olhos, os primeiros laivos da madrugada rompiam sobre os telhados das casas e eu estava deitado no terraço, frio e sozinho.
Foi um sonho?
Eu acho que não.

Manuel Amaro Mendonça

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quinta-feira, 25 de novembro de 2021

A grande ereção

 

ou

A educação de José Alcaravão


Geralmente, o queijeiro fazia a ronda das quintas sozinho, mas, depois do tiro que um peixeiro levara para lhe roubarem a bicicleta a motor, passou a levar o filho ou a mulher na carroça. Sempre eram mais dois olhos atentos a qualquer perigo.

Naquele dia de início de primavera, depois de ter carregado as caixas dos queijos da Tapada das Naves, deve ter achado que a carga podia resultar em atolamento, se voltasse pelo mesmo caminho, e perguntou ao agricultor por uma alternativa.

Vomecê vai por este caminho, passa além ao pé daquele pinhal, depois vira para a direita, sobe uma barreira e logo a seguir encontra o caminho do Sobral. Ó Zé, vai aqui com o ti Alfredo para lhe ensinares o caminho pró Sobral.

Zé, moço de uns catorze anos, filho do pastor, já ia dando ajuda no que fosse preciso, geralmente com o gado. Subiu para a carroça e sentou-se ao lado da mulher do queijeiro. Não havia que enganar, mas estava contente por poder ajudar.

Já no fim do trajeto junto ao pinhal, ouviram-se relinchos vivos da égua do patrão, que pastava no lameiro próximo, presa por uma corda longa, ao contrário das peias habituais. O cavalo respondeu com igual vigor. O queijeiro incitava o cavalo, para que avançasse e ultrapassasse aquele ponto crítico, mas mais altos interesses se levantavam. A égua, que devia estar no cio, começou a correr às voltas até aonde a corda permitia, mas num puxão arrancou a espia que prendia a corda e partiu a galope para junto do cavalo, arrastando a corda.

Ali chegada, os animais cumprimentaram-se com relinchos e toques de focinhos, para grande preocupação do queijeiro que já previa sarilhos. Saltou da carroça e tentou afastar a égua, mas ela só tinha um intento. Rodou e virou a traseira para o cavalo que não se fez rogado. Cheirando-a, redobrou o desvario de entusiasmo. Mesmo preso à carroça, empinou-se para montar a égua recetiva. Ao queijeiro não devia interessar a situação, porque passou a bater com o cabo do chicote no cavalo, mas em vão. O cavalo, que já apresentava uma ereção de mais de meio metro, tateava, em tentativas de cópula, que não demorou. Perante o constrangimento da mulher do queijeiro, que ria para esconder o mal-estar, e do rapaz, também intimidado pela presença da mulher, o cavalo não tardou a acertar e a completar a cobrição, em sucessivos empolgamentos enérgicos. Desmontou, enfim, enquanto uma cascata de esperma se despenhava da égua e se esparramava no chão.

Todos devem ter pensado que, finalmente, terminara aquele desacato, enquanto o queijeiro tentava enxotar a égua, mas ela não arredava casco. O cavalo, que não devia saber o que era período refratário, voltou a alçar-se e a tentar penetrar a égua, mas o queijeiro puxava-lhe o membro para o lado, grosso como um braço, teso como um tronco, frustrando o encaixe. Então, todos assistiram, atónitos, à ejaculação torrencial do cavalo para o chão. Golfadas consecutivas de esperma. Parecia o cano da bomba manual do poço da quinta.

Isto é que vai aqui uma pouca vergonha! — ria-se a mulher, tentando quebrar ou esbater o embaraço.

O moço não tinha nada adequado para dizer naquela situação e fazia um sorriso comprometido, mas os sentimentos eram de assombro e talvez de alguma inveja inconfessada.

Novamente o cavalo desmontava e novamente remontava, o que causava sobressalto nos dois ocupantes da carroça, que dava súbitos solavancos e parecia que ia tombar para trás, de cada vez que o animal se animava. À ordem do homem, ambos desceram, aliviados. Mas a égua não se dava por satisfeita e o cavalo não deixava de corresponder. Apesar dos esforços vãos do queijeiro, puxando com quanta força tinha o membro do cavalo para fora da égua, sucediam-se os jorros, quer fora, para o chão, quer dentro, que depois vazava também para o chão. Parecia que tinha sido ali entornado um caldeiro de leite. Mesmo vivendo no campo, José nunca tinha assistido à cobrição de uma égua e não suspeitava que um cavalo pudesse ser tão fecundo. Nem esperava que uma fêmea pudesse ter desejos sexuais tão veementes e manifestá-los a ponto de tomar a iniciativa. A sua experiência de vida ainda era pouca.

Finalmente, a égua afastou-se, e o cavalo também já ia dando sinais de cansaço.

Daí a pouco, a carroça partiu, puxada por um cavalo cabisbaixo, regressado à rotina de servidão, depois de um episódio exaltante e irreverente. Certamente que tinha sido um dia excecional, mas agora só lhe restava conformar-se e esperar por outra prenda da sorte. O rapazote foi reprender a égua, agora sossegada a comer erva.

Chegado ao pé do patrão, contou-lhe o que tinha acontecido. Este não se mostrou zangado, nem preocupado, como estava o queijeiro, e até se interessou por tentar perceber se a égua teria ficado coberta. Ao fim e ao cabo, uma cobrição implicava levar a égua a quatro léguas de distância. E pagar vinte escudos, o que, em princípios de 60, não era nada pouco.

Para José, o episódio fora marcante. O entusiasmo da égua, a pujança do cavalo e aqueles inacreditáveis jorros de esperma foram relembrados várias vezes ao longo do dia. O seu desabrochar juvenil era pródigo em autogratificações, mas, mesmo no auge dos maiores desvarios, em que chegava a passar-lhe pela cabeça experimentar um buraco na terra quente, uma melancia madura, uma ovelha, o resultado era sempre assaz modesto. Tal como nessa tarde, entre giestas, beijado pelo sol e exposto ao universo.

Pouco antes da alvorada seguinte, na sua enxerga de palha, José começou a emergir da nebulosa do sono, naquele estado em que os níveis de consciência do mundo envolvente passam por uma fase muito incipiente e o estado do próprio corpo ocupa preponderância global. A vascular ereção matinal transmitia de si ao orgulhoso semiadormecido — de barriga para cima e pernas abertas — a sensação de massas e volumes grandiosos, imensos. Naquele nível de consciência ilusório, sentia que possuía magnitude para encher qualquer espaço, ainda que descomunal, ainda que de proporção sobre-humana. Qual cavalo, qual elefante? Nenhum menir, obelisco ou outra metáfora arquitetónica da virilidade podiam comparar-se com aquela magnificência gloriosa, cósmica. Partia de si como que o basilar eixo do mundo que, penetrando nas profundezas do espaço, semeava vias lácteas por todo o firmamento, em espasmos de êxtase. O contentamento e o orgulho que tais desmedidas lhe transmitiam eram igualmente incomensuráveis, de plenitude mística. Aleluia! Glória a Deus nas alturas!

Durante um tempo suspenso, que não quer que acabe, José desfruta o estado de graça. Mas, aos poucos, o nível de consciência do mundo que o rodeia aumenta e ele pressente que se aproxima alguém. Lembra-se que pode ser a mulher do queijeiro. Como é que vai explicar tamanho despudor? Não consegue esconder a atrapalhação. A experiência de beatitude omnipotente esvai-se e ele apercebe-se de que, afinal, cabe facilmente nas próprias ceroulas.

Abre os olhos; é a mãe:

Zé, filho, acorda! Está a nascer o sol. Vá, que o teu pai já está à espera para irem ordenhar as ovelhas!

Levanta-se ainda ensonado, veste-se às apalpadelas, sai para o lusco-fusco, alumiado pela lembrança boa dos últimos minutos do sono, um archote aceso para todo o dia.


Joaquim Bispo

*


Imagem:

Almada Negreiros, Centauros, (tapeçaria), 1959.

Hotel Ritz Four Seasons, Lisboa. 

* * *






terça-feira, 23 de novembro de 2021

ETERNO PESAR

 

 


 

 



 

No silêncio da madrugada, da outra casa, parede-meia, eu conseguia ouvir desaforos sussurrados, choro abafado, gemidos de dor. E isso acontecia amiúde. No claro do dia, eu via um casal normal, afora o olhar esquivo da mulher. Reticente, evitei a aproximação. Era o comportamento costumeiro, não cabia invasão da privacidade. O relacionamento, unidade blindada, pertencia apenas aos envolvidos. E, da crueldade velada, da violência reiterada, nunca ouvi pedido de socorro. Apenas o estampido.  

 

 Regina Ruth Rincon Caires






segunda-feira, 22 de novembro de 2021

A Lei da Conservação da Tragédia

 


Uns declaram o universo como se feito e efeito do nada, outros acreditam-no o corolário de relações ocultas e desconhecidas, ou obra de seres divinos, ou, mais então, resultado de transformações a nós inescrutáveis e inomináveis. Mistério semelhante dá-se com a atividade artística e seus ânimos criativos, e se muitos a presumem mero, e fortuito, acontecimento, entre os arautos desta convicção não figurava Diones. Pois a arte tem sua origem na destruição, declarava ele, e até os casuais esboços ou linhas hão de reivindicar, para existir, a extinção de entes e objetos, de formas e essências associadas ou não às obras concebidas. Tal elo destrutivo é personificado, de modo evidente, na figura do artista vitimado por seus próprios excessos, o artista cujo sacrifício resulta em perspectivas inéditas e obras grandiosas, e todavia as mesmas leis de aniquilação e gênese regem a vida dos criadores e criadoras harmoniosos e saudáveis, dos homens e mulheres exemplares – em comum às duas classes, e aos muitos outros artífices de sonhos, o desconhecimento quanto a esse nefasto mecanismo.

Assim refletia Diones e, com suas palavras, anotava os raciocínios e observações num caderninho de couro. Paisagista renomado, contrariava a sensibilidade de seu intelecto a constituição taurina, as mãos grossas e calejadas e o maxilar definido, e malgrado agora, após muito meditar acerca da arte, não mais ignorasse as condições para a concepção de suas obras, desconhecia os elementos específicos que foram, eram e seriam sacrificados ao conceber um quadro ou tela.

Pertencente à classe dos regrados e ordenados, antes de levantar-se calçou os chinelos, e ao avivar o lume da lareira sobrevinham-lhe pensamentos relativos não só ao reconhecimento de padrões mas, também, às medidas e limites desta faculdade; e almejava, como o fogo de certa forma almeja o céu, descobrir as especificidades do sistema de pesos e contrapesos a si imposto pelas musas. Estagnado frente ao obstáculo de um enigma metafísico, aprisionado por muralhas insensíveis às suas virtudes, a saber, a imaginação e a invenção, Diones postou-se em frente ao cavalete e, antes de iniciar a próxima pintura, antes da primeira pincelada, suplicou às suas outras versões, e aos seus outros e silenciosos eus suplicou uma revelação.

Assim fez, assim foi.

E terminou a paisagem em quatro meses.

Suas reflexões eram, então, distintas, e sentado no sofá, ao abrir o jornal como há tempos não abria, leu acerca de dois infantes falecidos em um acidente. A notícia atingiu-o no espírito. Soube, como só se sabem as verdades, não através de argumentos, números ou palavras, mas mediante certezas interiores, dir-se-ia a inefável linguagem da alma, que ambas foram sacrificadas em benefício de sua última tela, e já de pé e caminhando, nem tanto se culpando, para certificar-se da relação decidiu por iniciar outro painel.

Foram mais três, quatro meses, e concluiu-o. Ao fim do quadro, e do seguinte, tomou conhecimento de mais acidentes com crianças, todos eles fatais: a primeira, decapitada por um trem de carga; a segunda, atropelada pelo triciclo de um palhaço de circo. Suando frio, mordendo os lábios, enfim deslindara-se o macabro mecanismo de seu criar, e para além do fato de esta descoberta demandar um número insignificante de acontecimentos, ou de provas, abismava-o a circunstância de como certos eventos, quando esclarecidos, afiguravam-se tão simples, tão simples e tão terríveis, a ele não apresentando-se alternativa senão a de abandonar a arte, deixar de viver e deixar-se ficar. Fiel à resolução, ordenou os pincéis e vasilhas, espátulas e paletas e, pelo período de dois meses, aposentou-se – e só tornou a pintar quando uma criança malcriada lhe chutou a canela.






sábado, 20 de novembro de 2021

DESNUDEZ

 





Dois adolescentes chegam do colégio. Um amigo na casa do outro.

- Porra, caiu minha lente de contato. Me ajuda aqui.

- Ajudo nada. Olha lá. A vizinha do prédio em frente chegou.

- Pede para ela esperar.

- Tá maluco? Se eu gritar ela descobre e se esconde.

- Peraí, não encontro a porra da lente. Não tô vendo nada.


A vizinha acaba de abrir a porta do apartamento. 

Enquanto um amigo se desespera passando a mão pelo 

carpete do quarto, o outro pega o binóculo no armário.

- Entrou na sala!

- Sacanagem, não vou ver nada! 

- Colocou a bolsa no sofá, tirou as sandália e jogou longe.

- Como ela tá vestida?

- Um vestido justo, estampado, colado no corpo.


O amigo sem lente se aproxima da janela. O dono do 

binóculo reage feroz.

- Sai pra lá. Já que não enxerga nada, não me atrapalha.

- Então, me diz.

- Foi pra outra janela. No quarto. Descalça, soltou os cabelos.

- E? 

- Abriu o armário, se olhou no espelho.

- Diz, diz...

- Tirou o vestido de baixo pra cima.

- Sem sutiã?

- Com sutiã. 

- Porra, essa lente... cadê essa lente?

- Fica quieto, senão ela me vê.


O amigo do binóculo fecha a cortina. Só deixa uma fresta para 

não ser descoberto. O que perdeu a lente perde também qualquer 

possibilidade de assistir ao espetáculo. 

- E aí, fala, fala...

- Acho que ligou o som do celular. Botou o fone de ouvido. 

Tá dançando de frente pro espelho.

- Conta, conta...

- Tirou o sutiã. Tá rebolando devagarinho e rodopiando o sutiã.

- Ela tá provocando. Será que ela viu você?

- De binóculo, na tocaia? É ruim, hein? 

- E aí, e aí...

- Cara, é agora!

- O quê? O quê!

- Que rosto mais lindo! Narizinho arrebitado! 

Que boca maravilhosa, que sorriso foda!  

- Porra, cadê minha lente?

- Que lábios!  

- Que foi? Tirou a calcinha? 

- Que calcinha, cara? Muito melhor. Tirou a máscara. 






sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Absolvição

 



Chegou o momento de dizer a verdade. Estou prestes a me tornar um espantalho mutilado, com o calor carcomendo as fibras todas. Era manhã de uma segunda azul, em 2009, no mês de março. Antes que me fujam as ideias, vomito logo o essencial: matei Tolentino. Pronto, falei. Matei e mataria de novo. Sem conversinha de arrependimento. Eu tinha e tenho os meus motivos. Tolentino, por vontade própria, arrumou de ser o vigia da rua. Dona Clarisse, uma velhinha xexelenta, encrenqueira, fazia as vezes de gestora e apurava uma cota, toda semana, para comprar o alimento do pobre coitado. Eu me recusei; não pedi para ninguém ficar de guarda na minha porta. Andira, sem disfarçar, tirava dinheiro do nosso mísero sustento para alimentar o desgraçado. “Olha, o pobrezinho precisa da gente, ele não tem onde ficar. E é tão bonzinho…”. Foda-se, caralho. Parece que quanto mais o odiava, mais ele se mostrava sereno e afável. Um bosta de um fingido. Tinha as manhas de se fazer de coitado. Ainda mais, aquela velha apurava uma dinheirama para fazer sabe-se lá Deus o quê. Por que não o levava pra casa? Quando percebi, já havia cama, café da manhã, almoço, jantar e outras regalias, muito bem alojado na calçada, perto de nossa casa. Era um desplante, uma agressão à minha inteligência. Dar comidinha de mão beijada é coisa de comunista safado. Tem de ensinar a pescar e não dar o peixe, como diz o sábio ditado. Nesse belíssimo dia, estando de folga do serviço, com atestado frio, mais saudável que burro no campo, levantei às cinco, fiz o café e fui dar uma volta no bairro para averiguação. Não havia ninguém, só uns dois ou três gatos pingados, que passavam lá embaixo, na Avenida Central, para pegar o busão. O boteco do Jonas estava aberto, mas o cabra é meu camarada e não ia dar com a língua nos dentes. Ah, no dia anterior tinha preparado uma comidinha com capricho, um monte de carne moída com chumbinho. Levei o preparo no bolso. Sentindo uma tranquilidade mórbida e um êxtase sobrenatural, chamei-o para o canto, do lado do terreno baldio, e entreguei o petisco matinal. Caiu como um patinho, ou como um bobo Tolentino. Nunca me livrei de algo tão facilmente. Quando o bicho começou a se estrebuchar, fui para o boteco do Jonas e pedi uma cerveja gelada. Jonas perguntou a razão de minha felicidade. Respondi que havia ganhado o dia e que precisava comemorar. Jonas, dessa vez, quis me acompanhar, mas ficou meio aturdido com a vista do camarote. “Jonas, larga de besteira! O cachorrinho está velho demais, uma hora ou outra ia morrer. Viveu bem, comeu do bom e do melhor. Chega mais, aqui. Vamos brindar a santa passagem do infeliz!”. Ele me olhou com olhos de suprema condenação.






quarta-feira, 17 de novembro de 2021

"Não cantarei derrotas..." poema de Andreza Andrade




Não cantarei derrotas de uma vida frustrada,
Não lamentarei os filhos que não tive,
O testamento que não fiz,
Nem os gatos que criei.
Não olharei para o passado com perdão,
Nem deixarei calar a voz que diz.
Não serei a hipocrisia que chora o silêncio e a casa vazia,
Se a abracei por vontade.
Não há expectativas nem pressão,
Nem imagina a paz que me atormenta.




Do livro Um tanto mais que hoje, Editora Libertinagem.







sábado, 13 de novembro de 2021

 

O Sonho do Poeta

 

O Poeta vagueava pensativo junto à rebentação, sentindo o doce perfume a maresia e o gostoso sabor a noite fresca e salgada. Ia perdido de ideias e buscava, no mar batido pela lua cheia, a palavra certa para aquele poema que andava a desenhar havia tempo. O mar cansado não lhe deu a palavra certa, antes vomitou para a praia muitas coisas sem préstimo. O vómito jorrou uma perfeita inutilidade que tinha sido lançada em tempos idos ao mar e agora era devolvida por uma forte vaga. Tombada na areia molhada, a inútil coisa quedou-se por ali, fria como a morte. Era uma bicicleta desconjuntada, sem selim, com raios partidos, que vinha sem um pedal, com as rodas tortas, sem pneus e com o farol partido.

Sob a luz da lua aquele espécime espelhava, apesar das graves mazelas, uma dignidade própria dum exemplar que em tempos fez o furor entre os amantes da velocipedia.

O Poeta acercou-se da desconchavada maquineta, passeou carinhosamente as mãos pelos restos da maltratada máquina e sonhou. Ainda sonhando, poisou os olhos na lua que brilhantemente branca contrastava com a imensidão negra do espaço e sentiu as lágrimas a saberem-lhe a saudade.

Lembrou-se de uma história que a mãe lhe tinha embalado ao adormecer. Contava ela, para o encantar, que nas noites de luar via-se um homem na lua a pedalar em cima duma bicicleta.

O menino, filho de sua mãe, então sonhou que entrou pela lua dentro viajando em cima daquela desengonçada duas rodas e que cá em baixo na sua aldeia, junto ao largo principal, a sua mãe e todos os meninos olhavam a lua e diziam em alegre coro: lá anda ele a passear na lua em cima de uma bicicleta.

E os meninos também sonharam que andavam na lua pedalando, fazendo corridas e piruetas, enquanto cá em baixo na terra os pais e amigos e até os desconhecidos riam de satisfação com tantos malabarismos. 

O Poeta sabe que as letras dão vida às histórias e que estas são feitas dos sonhos que dão asas às bicicletas, que constroem barcos navegando por longínquos mares, que dão vida a aventureiros comandantes solitários de barcos à vela, que lançam satélites por sobre as nuvens e que desembarcam em foguetão num qualquer mar da tranquilidade. O Poeta também sabe que é pelos sonhos que se pode viajar pelo espaço, em direcção a Vénus, a Mercúrio ou até outro planeta, percorrendo a Via Láctea, cruzando outras galáxias e saltando para lá dos limites da imaginação.

 

 

 

 

 

 

 





segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O Filho Pródigo


 

Limpou as lágrimas à pressa quando ouviu parar o carro, grata por a gripe que a atacara nos últimos dias servir de desculpa, mesmo esfarrapada, para os seus olhos avermelhados. Não que receasse uma sua reação adversa ou que a criticasse, mas por saber que se sentiria certamente magoado ao vê-la assim triste e suspeitar da causa da sua mágoa.

Era um bom filho, sempre o fora desde criança, atencioso, prestável, sem ele estaria provavelmente morta de carência, de solidão e abandono há muitos anos. Amava-o, claro, mas era mais por dever de mãe do que por gostar verdadeiramente dele. Sim, pode-se amar uma pessoa e não gostar dela, chegara há muito a essa conclusão.

Era uma boa pessoa, todos o diziam, muito trabalhador, honestíssimo, sempre afável e pronto a ajudar, sem sequer esperar que lho pedissem, mas brando, apagado, pouco ou nada emotivo. Totalmente diferente do outro...

Ah, o outro! Custava a crer que fossem irmãos, tão diferentes eram as suas personalidades. Onde um era retraído, calado, o outro era extrovertido, com as emoções à flor da pele, sempre a explodir por tudo e por nada.

Com este, nunca se sabia verdadeiramente o que pensava ou sentia, sempre muito controlado, sem cenas ou fitas. Nunca lhe conhecera uma birra, nem mesmo em pequeno, nunca o vira chorar de desgosto ou berrar de alegria. Ou rir desbragadamente. O máximo que lhe vira fora um pequeno sorriso, tão pequeno que se não estivéssemos atentos nem sequer o veríamos.

O outro, não, todo o mundo e arredores ficava imediatamente ciente do que sentia, fosse bom ou mau. Nunca passava despercebido, estivesse onde estivesse, mesmo em situações que exigiriam um certo decoro. Envergonhara-a repetidas vezes em público com as suas birras ou bom humor exagerado, mas mesmo nessas alturas sentira uma pontinha de orgulho por aquele filho tão diferente do resto da família.

Não, ele nunca suportaria a vida deste irmão, tão regrada, tão cheia de deveres zelosamente cumpridos, em que até as raras distrações eram programadas com muita antecedência e quase sempre mais para agradarem a outros do que a si.

Até nos amores eram totalmente opostos. Este casara discretamente com a primeira e única namorada que tivera, boa moça, sim, nada a dizer contra ela, mas não muito interessante nem particularmente bonita. E que nunca vira como filha, mesmo ao fim de tantos anos, não se dando até lá muito bem com ela, apesar de lhe ter dado os seus únicos netos (que soubesse). Nem sabia se era um casamento feliz, sempre suspeitara que nesse lar era ela quem mandava e tudo decidia, mas nunca pudera ter a certeza de que assim era.

E os dois netos eram certamente crianças bem-educadas, demonstravam-no, pelo menos, sempre que os via, e sabia que eram bons alunos. E, felizmente, davam sinais de terem alguma personalidade, cuidadosamente controlada na sua presença, “para não incomodarem a avó”, embora não chegassem aos calcanhares do tio, mas quem o conseguiria?

Não, este vivia ao sabor dos seus caprichos, sempre metido em esquemas de enriquecimento rápido e confiante em conseguir sair-se bem graças ao encanto que tão bem sabia usar quando lhe convinha. Nunca tivera um emprego, apenas “ocupações” e “negócios em perspetiva”. E escapava-se sempre na altura certa, deixando atrás de si caos e problemas, muitas vezes para o irmão resolver a fim de lhe evitar dissabores, ou, como em tempos ouvira dizer, até uma possível pena de prisão.

No amor, era a mesma coisa. Nunca lhe apresentara uma namorada, mas vira-o num desfile permanente com todas as beldades da vila e conhecia algumas histórias, apesar de suspeitar que lhe escondiam as menos abonatórias. Também aí nunca assentara, apesar de muitas o terem tentado, fascinadas pelo seu encanto e reputação de inacessível. Mas não, era sempre livre e totalmente senhor de si.

Pelo menos supunha que tudo continuava assim, há uns seis anos que nada sabia dele, desde que desaparecera depois de a convencer a investir as poupanças de anos num “esquema seguro” que deixaria ambos ricos — e que dera em nada, claro, exceto deixá-la sem nada para os últimos anos de vida.

Anos, Natal, nem um telefonema, nem uma mensagem ou um simples cartão. Silêncio total. Nem sabia se estava vivo ou morto, apesar de querer acreditar que se tivesse morrido alguém teria notificado a família.

Mas isso não a impedia de passar as vésperas desses dias festivos num alvoroço, esperançada de que dessa vez seria diferente, que haveria um contacto, por muito breve e impessoal que fosse.

Fora por isso que passara o dia a chorar. Fizera 65 anos na véspera, um marco importante na vida de uma pessoa, e acordara com a convicção absoluta de que desta vez é que era. Mas o dia passara-se e... nada! Fora um tremendo esforço mostrar-se alegre e satisfeita na festinha que este filho organizara com as poucas amigas que ainda lhe restavam. Ou com os presentes que ele e os netos lhe tinham dado, bem ao encontro das suas necessidades, mas sem aquele toque de loucura, de extravagância, porque ansiava secretamente, mesmo sem o saber.

Com o outro, bom, com o outro teria sido tudo bem diferente, nada de chazinho e amigas de longa data, teriam ido os dois a um lugar  bem caro e muitíssimo chique — esquecendo-se muito provavelmente da carteira em casa e deixando-lhe o ónus da conta com a usual promessa de “eu depois pago-te”. E ter-lhe-ia oferecido algo totalmente inútil, mas lindo, deslumbrante, até.

Estranho, em miúda, na Catequese, nunca entendera a parábola do filho pródigo, achara horrível o modo como aquele pai tratara o filho cumpridor, o bom filho, o que sempre se mantivera no seu posto e o ajudara, guardando festim e acolhimento caloroso para o outro, o mau filho, o que partira à aventura e desbaratara os seus bens sem pensar no velho pai ou no futuro.

E aqui estava ela, tantos anos depois, a fazer exatamente o mesmo, ou antes, a ansiar poder fazer o mesmo. Se ao menos pudesse ver o seu!

Luísa Lopes

Imagem de Christian Dorn por Pixabay 





quarta-feira, 3 de novembro de 2021

BOI DESCOMEDIDO



                                             (Manuel Bandeira, 1886-1968), Opus 10.


“Como em turvas águas de enchente,

Me sinto a meio submergido

Entre destroços do presente

Dividido, subdividido,

Onde rola, enorme, o eu morto,

 

Eu morto, eu morto, eu morto.

 

Árvores da paisagem calma,

Convosco – altas, tão marginais! –

Fica a alma, a atônita alma,

Atônita para jamais.

Que o corpo, esse vai com o milton morto,

 

Milton morto, milton morto, milton morto.

 

Eu morto, eu descomedido,

Eu espantosamente, eu

Morto, sem forma ou sentido

Ou significado. O que foi

Ninguém sabe. Agora é milton morto,

 

Eu morto, milton morto, boi morto”.

 


 

 

 

 





quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A Cripta


** Publicado no blogue "Correio do Porto" http://www.correiodoporto.pt/prioritario/a-cripta
** Incluído no livro "Daqueles Além Marão"
 
 
Envolto na capa e o rosto oculto pela aba do chapéu, Umbelino saltitou de sombra em sombra, evitando ser visto pelos funcionários que acendiam os lampiões da rua. Colou-se à parede do adro da igreja, correu para o entreaberto portão de metal e penetrou nas sombras das árvores. Ofegante, aproveitou aquele momento para se acalmar e trazer os batimentos cardíacos a um ritmo aceitável.
Não gostava nada daquilo que lhe pediram para fazer, mas a verdade é que tiraram as sortes e ele perdeu… agora não podia dar parte de fraco. Não que tivesse qualquer escrúpulo, simplesmente… há coisas que deviam ser deixadas sossegadas.
As vozes longínquas dos acendedores de candeeiros ecoavam na rua, indistintas, mas revelando que ainda se encontravam por perto. O embuçado manteve-se quieto e calado nas sombras. Um gato preto passou e eriçou os pelos do dorso, surpreendido e assustado com a silenciosa presença, antes de fugir a bufar em grandes saltos.
Finalmente as ruas estavam em silêncio e o homem ergueu-se e caminhou lentamente até ao portão do adro e espreitou a praça vazia. Ao fundo, uma caleche passou apressada, os cascos do cavalo batendo forte na calçada. O silêncio regressou em seguida.
Ele voltou a ocultar o rosto embrulhando-se na capa e baixou a aba do chapéu. A sua respiração saía sob a forma de vapor da estreita abertura que deixara para os olhos. Avançou, com passos silenciosos, pela viela estreita que subia paralela ao adro da igreja. Não havia  ninguém nas ruas naquela noite de Novembro, o frio fazia com que ninguém quisesse sair de casa, mesmo que ela tivesse poucas condições. O calor da lareira, haveria de os aquecer um pouco durante a ceia e depois recolher-se-iam para “debaixo das mantas”. Também Umbelino preferia estar na taberna a beber aguardente, em vez de estar ali, ao frio, quase a fazer algo que não queria. Como que por se recordar, tirou um pequeno cantil de bolso e sorveu dois golos que queimaram forte na garganta.
***
Deveria ter desconfiado, logo que o criado bem vestido o abordou na taberna da viúva, que não lhe trazia “recado” fácil. Foi a qualidade das roupas do enviado, que despertou a cobiça de Adalberto e Silvério, que com ele partilhavam as  “aventuras” com que iam conseguindo “aquilo com que se compram as sardinhas”. Assim que o estranho contou o que se pretendia, Umbelino preparava-se para recusar, mas os outros dois protestaram e quiseram saber qual a paga. O “cliente” estava disposto a pagar dez mil reis! Todos ficaram de boca aberta. Vendo que captara a nossa atenção, o criado explicou que o seu patrão pretendia reaver um objeto de grande valor sentimental que fora sepultado com a sua esposa e para isso estava disposto a desembolsar dez mil reis, se lhe entregassem o que pretende.
“Mas afinal, se é a tumba da esposa, porque não a manda exumar e recolher o que quer?” Perguntou Silvério desconfiado.
“A falecida senhora minha patroa, era de origem abastada já antes do casamento e possuía muitos bens próprios; houve coisas que a família exigiu que fossem sepultadas com ela, de acordo com o escrito no testamento. O meu patrão não podia desonrar-se e recusar.” Respondeu o criado simplesmente.
“Mas de que se trata afinal? Que é que o seu patrão quer assim tanto, para pagar uma fortuna dessas?” Apesar da ideia do cemitério não lhe ser amigável, a paga fazia Umbelino reconsiderar.
“Um simples anel! O anel que o meu patrão lhe ofereceu de noivado e que pretende manter de sua propriedade, como recordação da amada esposa.” Concluiu o criado sorridente. “Apenas têm que trazer algo que cabe no bolso do colete e receber dez mil reis por isso.”
Claro que concordaram em fazer o serviço. Não era uma quantia que se visse todos os dias. Além de que, era muito mais fácil roubar um morto, que um vivo que grita, esperneia e às vezes traz uma pistola ou uma faca. Não era contudo trabalho para ser feito por mais do que um; três homens a vaguear na rua à noite, rapidamente atrairiam as atenções e tudo poderia correr mal. Acordaram em tirar às sortes com os dados… e Umbelino perdeu. Esteve quase a acovardar-se e dar o dito por não dito, mas não se atreveu a  ser alvo da chacota dos companheiros.
***
Chegou finalmente ao portão engradado do cemitério e fez-se um só com os contornos do granito, numa manobra que mostrava experiência, enquanto se certificava que a rua continuava vazia. Mais dois golos, serviram para lhe dar alguma coragem, antes de escalar ágilmente o enorme portão e saltar para o empedrado do lado de dentro.
A visão da “floresta de mármore”, fracamente iluminada pela luz bruxuleante das velas e pequenas luminárias, não contribuía em nada para que se sentisse mais calmo. O coração batia apressadamente e sentia as costas húmidas e geladas. Percorreu o cemitério ao longo dos mausoléus,  escondendo-se do fraco brilho da lua, enquanto contava mentalmente os sepulcros. As instruções eram claras: era o mausoléu da família Vasques de Sá, o décimo sexto após a porta lateral e terceiro antes da interceção com a nova ala do campo-santo. A chave estava pendurada do lado de dentro amarrada a um cordel e o caixão era o segundo à direita.
Chegou ao sepulcro correto. Inspirou fundo, e bebeu mais um pouco, antes de atirar o braço através da grade do portão e tatear em busca da chave. Sentia todos os pelos da nuca eriçarem-se. O ruído de passos sobressaltou-o e encolheu-se no espaço escuro entre os dois mausoléus. O brilho metálico de uma faca refulgiu na sua mão.
Através do espaço entre duas lápides, Umbelino viu o guarda do cemitério, vindo do acesso à ala nova, empunhando uma candeia. Passava e espreitava para dentro de cada um dos sepulcros. Preparou o punhal para uma estocada que o silenciasse rapidamente e aguardou. Não foi necessária a violência, pois o vigia passou rapidamente e a espreitar apenas de relance. Nunca saberá como esteve perto de perder a vida naquela ronda.
Assim que os passos deixaram de se ouvir, retornou à sua busca e logrou finalmente apanhar a chave. Foi quando tentou abrir a porta, que verificou que o cordel era demasiado curto para chegar à fechadura e demasiado resistente para que o conseguisse rebentar. Resmungou baixo a sua frustração e preparou-se para o cortar, mas depois pensou que deveria deixar tudo como estava e seria melhor desamarra-lo e atá-lo novamente. Com pouca luz e mãos enregeladas, teve muitas dificuldades em perceber como estava o nó e passou imenso tempo a insultar o fio, a chave, o cemitério, o seu patrão e ele próprio por se deixar levar nesta aventura. Furioso, num impulso irrefletido, sacou da faca e cortou brutalmente o cordel… a chave tilintou no interior escuro da cripta.
Se pudesse gritar aos céus as suas frustrações, tudo seria mais fácil, como não podia, viu-se na obrigação de dar saltos de fúria, enquanto praguejava sem soltar um som, executando uma dança grotesca.
Atirou-se sobre o portão e apalpou inutilmente o chão tentando ouvir ou sentir o objeto. Repetiu a operação com a ponta da faca, novamente sem sucesso. O desespero estava quase a leva-lo às lágrimas; sentou-se no chão, de costas para o mausoléu, com a cabeça entre os joelhos.
Recomposto, repetiu as tentativas para encontrar a chave, no interior completamente escuro. Soprou a fúria e chutou a impotência contra o portão. Com um gemido de ferro enferrujado, este abriu-se ligeiramente. “O maldito portão nunca esteve fechado!” Gritou silenciosamente enquanto amarrotava o chapéu na cabeça, furioso com a sua própria estupidez.
Empurrou a grade com receio e deu os primeiros passos no escuro. Algo tilintou em contacto com a bota e ele, num dos seus acessos de fúria, chutou a chave. Vários objetos metálicos tilintaram e alguns caíram em ruídos nada bem-vindos a quem não quer ser visto nem ouvido. Encolheu-se com os dentes cerrados, surpreendido com a sua própria estupidez. Espreitou para o exterior a ver se o guarda por um acaso regressava.
Sentindo-se mais seguro, olhou para as silhuetas difusas dos caixões nas prateleiras à sua direita. Estavam os três limpos, mas não havia duvidas que o do meio brilhava com madeira nova. Engoliu em seco, benzeu-se e puxou o ataúde para fora, com esforço. Deixou que a cabeceira continuasse em cima da prateleira e pousou a parte dos pés  no chão. Com a faca, trabalhou a fraca fechadura e abriu-a, dedicando-se depois a cortar o chumbo que o lacrava. Um cheiro intenso a morte invadiu o compartimento quase  fazendo-o vomitar.
Levantou a tampa respeitosamente e contemplou na penumbra a velha senhora Vasques de Sá. Quase não se conseguia distinguir os pormenores, mas percebia-se que estava cuidada e não muito envelhecida. Não fosse o cheiro e poderia dizer-se que dormia. Pegou no lenço das mãos e tapou o nariz. Pensando melhor, tirou o pequeno cantil do bolso e engoliu mais dois golos, depois humedeceu o lenço e tornou a tapar o nariz com ele… “Ah, muito melhor!”.
Renovou a benzedura e soltou um pesado suspiro. Afastando a cara o mais que podia, apalpou as mãos da falecida até identificar, entre os diversos anéis que lhe adornavam os dedos, aquele com a pedra quadrada que era o seu objetivo. Dada a proximidade do rosto do cadáver, conseguiu também distinguir o brilho do ouro, num grosso cordão, em volta do pescoço. Puxou o anel por várias vezes, parecia que a morta não queria ver-se despojada da joia, mas por fim acabou por sair. Mirou o objeto à luz difusa que se escoava para o compartimento antes de o meter no bolso. Observou novamente a mulher… “Afinal, ela já não precisa de nada do que tem.” pensou. Se bem o pensou, melhor o fez e ignorando o cheiro, colocou as mãos atrás do pescoço da morta para soltar o cordão. Nesse preciso momento, o ataúde escorregou para fora do seu apoio e caiu ruidosamente no chão de mármore, arrastando Umbelino para cima do cadáver, boca com boca, num involuntário ato de  necrofilia. Horrorizado com o inusitado ósculo, ele gritou enlouquecido e tentou sair do ataúde, de onde não se conseguia soltar. Durante o que lhe pareceu uma eternidade, lutou para libertar o braço, bloqueado atrás do pescoço da mulher, enquanto gritava por perdão. Atirou o peso do seu corpo para fora e arrastou o cadáver e o caixão, ficando desta vez por baixo do conjunto. Os uivos desesperados que soltava, seriam capazes de gelar o sangue nas veias de qualquer um que se abeirasse do cemitério naquele momento. Quando conseguiu soltar-se e sair debaixo da “armadilha”, ergueu-se de um salto para sentir o toque diáfano do manto de um fantasma pousar-lhe na cabeça. Nova sequência de gritos enquanto tentava libertar-se do ser sobrenatural em que se enroscava cada vez mais. Gritou, gritou e gritou, até que uma luz trémula iluminou a cripta. Gradualmente, os gritos foram abrandando e transformaram-se num choro manso e soluçante.
O guarda do cemitério iluminou o mausoléu com a sua lanterna. Era o caos total: um caixão tombado, candelabros e outras peças de prata espalhados por todo o chão. Mesmo no meio, um homem de rosto cinzento, com o cabelo completamente branco e os olhos raiados de sangue, estava atabalhoadamente enrolado no tule das cortinas. Chorava e estendia a mão numa súplica muda.
 

 

Manuel Amaro Mendonça

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