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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A DECOLAGEM

A comissária ajeitou minha mochila no compartimento da fila 16.
Muito bem, poltrona F, janela. Ao meu lado, lugar vazio.
Tomara que não venha ninguém, minhas pernas ficam mais à vontade,
posso espalhar o jornal, alternar leituras sossegado. Livro,
artigos, livro, crônicas, livro, notinhas maledicentes.
Mas eis que ela chega. Esbaforida, cabelos atrapalhados, bolsas,
uma para computador outra para coisas difíceis de se achar.
Sorriso contido, olhos de Capitu. Sou tragado.
- Bom dia.
- Bom dia.

Surpresa: me pego mais forte que minha timidez e ofereço o meu lugar.
- Na janelinha a gente vê melhor a paisagem.

Ela sorri, aceita, instantes de atrapalhação no troca troca.
Derrubamos coisas, deixamos o livro cair e perder a página marcada.
-Desculpe, lembra da página?

Digo que lembro, mentira, não tem importância. Fecho o livro e olho
para ela, que a esta altura está sorrindo para mim.
Pergunto alguma bobagem, ela responde com uma expressão nada de boba.
O comandante tem voz de locutor da madrugada.
- Atenção tripulação, preparar para a decolagem.

Ela faz o sinal da cruz e eu finjo que pratico o mesmo ritual.
Achamos graça, trocamos olhares e a conversa flui. Falamos de nós
mesmos, do trabalho, da vida. Gargalhamos discretos, tentando tapar
a boca, disparamos olhares gostosos.  Até que emudecemos no aviso
de apertar o cinto.

Quando chegamos ao desembarque, ofereço uma carona de taxi,
mesmo que seja fora do meu caminho. Ela aceita sem jeito e descobrimos
que iremos para o mesmo hotel.

Durante o dia inteiro, somos separados pelos afazeres. Ao cair da tarde,
corro para o hotel, afrouxo a gravata no engarrafamento e tenho uma
surpresa. No hall, ela está me esperando.
- Não tinha nada a fazer no quarto. Hotel é muito chato, impessoal.
Um drink, topa?

Perco a fala e quando passa a súbita pasmaceira emocional, desembesto.
- Cla, cla, claro...

Descubro que ela tem poder.
- Um Jack Daniels, por favor. Cowboy. Dois?
- Do-dois...

Escolhemos numa mesinha de canto, discreta e providencial.
A conversa que ficou no ar engrena de vez. Falamos mais coisas,
pedimos mais um, dois, três, quatro, infinitos Jack Daniels,
a esta altura já acompanhado de gelo e água cristal em copo longo,
para equilibrar a emoção e razão, e evitar um exagero vexatório.
Sentimos no travesso esbarrar de nossas mãos a excitação romântica
que pinta em cores fortes, a partir de um instante só os olhos falam.
E um beijo infinito se dá.
Ela é atingida por um raio de juízo.
-Nossa! Viu que horas já são?

E eu, num gesto inédito para um encabulado contumaz,
atiro meu relógio no balde de gelo.

Acordamos enroscados com o sol nas frestas da cortina que esquecemos
de fechar à chegada sôfrega. Não vou assustá-la pelo adiantado da hora,
mas ela, mais responsável do que eu, pula da cama, corre para o banheiro
e, enquanto uma cara de bobo acompanha a nudez dos seus movimentos,
creio que deusas existem e que uma delas, a mais perfeita, acabou de
operar um milagre na minha vida. Aos poucos vou me dando conta do feitiço
que me pegou e noto que não estou no meu apartamento. Vou catar minhas
roupas e enrolar ao máximo até seu banho acabar.
E me faço de sonso.
- Não sei do meu celular.
- No seu bolso, tontinho.

Começa a despedida em grande estilo, de novo as roupas no chão,
cabelos molhados pincelando meu corpo de cheiro de shampoo, salivas com
gosto de sexo e hortelã,  mais e melhores despudores. Juro que ouço fogos
de artifício, o tempo inexiste.
Até que embrenhados num torpor delicioso ela demonstra quem tem o juízo.
- A que horas é sua reunião?

Lembro do diabo da reunião.
- Acho que 11.

Agora tenho certeza de quem está mandando na minha vida.
- Corre que são quase 10.

O dia passa modorrento e disperso. A reunião chatérrima. O mundo corporativo,
mais uma vez, me apresenta sinais de cansaço e ventos tóxicos. O almoço com
o cliente caminha protocolar, hipócrita, interesseiro, com tudo para não
resultar em bons negócios. Digo foda-se.  Vou perder o avião, vou ficar mais
uma noite, vou acreditar no amor de filmes da sessão de tarde.
Salto esbaforido do taxi na porta do hotel, onde ela acaba de entrar num Uber.
Abro os braços de náufrago e me jogo no para brisa. Os seguranças tentam me
conter, grito pelo seu nome, socorro, ela abre a janela e diz:
- Vem.

E vou. Para onde o destino quiser. Vou viver a ardência da paixão, que vai
virar amor, que vai consolidar um amizade rara, que nunca vai perder o tesão,
o carinho e a vontade de viver o turbilhão que mereceremos viver:
casamento com amigos, dancing all night long, lua de mel em castelos normandos,
a volta feliz ao nosso ninho novinho e gostoso, que de tão gostoso, não
nos poupa em materializar a cumplicidade do nosso amor  num primeiro filho,
que logo terá uma irmã, que depois de alguns anos, surgirá um temporão
levado da breca, que nos encharcará os olhos, quando olharmos em volta o
nosso mundo esculpido, a nossa paz vivida, a sabedoria e a maturidade com
as quais enfrentamos  perrengues, indisposições da convivência, chatices
banais. É o amor companheiro, o sublime estado de arte dos relacionamentos.
Choramos abraçados e carinhosos, diante de tantos porta-retratos,
estantes que contam a nossa história, só em lembrarmos o quanto é
certo que a vida nasce do detalhe.

A comissária ajeitou minha mochila no compartimento da fila 16.
Muito bem, poltrona F, janela. Ao meu lado, o lugar vazio.
Tomara que não venha ninguém, minhas pernas ficam mais à vontade,
posso espalhar o jornal, alternar leituras sossegado. Livro,
artigos, livro, crônicas, livro, notinhas maledicentes.
Mas eis que ela chega. Esbaforida, cabelos atrapalhados, bolsas,
uma para computador outra para coisas difíceis de se achar.
Sorriso contido, olhos de Capitu. Sou tragado.
- Bom dia.
- Bom dia.

Surpresa: me pego mais forte que minha timidez e ofereço o meu lugar.
- Na janelinha a gente vê melhor a paisagem.

Ela sorri educada.
- Não, obrigado.

E mergulha na revista de bordo. 
O comandante tem voz de locutor da madrugada.
- Atenção tripulação, preparar para a decolagem.

O voo passa rápido, não trocamos uma palavra sequer.





terça-feira, 17 de setembro de 2019

Quando eu for cachorro - poema de Maria Amélia Dalvi

Quando eu for cachorro




Quando eu for cachorro
vou dormir com meu corpo
entre suas pernas.
Cabeça, tronco, orelhas
encaixados nas suas curvas
— cada breve respiração muda
como se fosse eterna.

Porei todo o meu medo à prova
quando você trancar a porta
saindo de casa, o olhar incerto.
Eu me entreterei com brinquedos:
comida, cochilos, bocejos, coceira
— farei com que acredite:
maior desejo é que você regresse
(mesmo se for mentira).

Entenderei sem ficar magoada
as interrupções de nossas conversas;
esperarei sem me exasperar
(curtindo sua dedicação
eternamente furtiva):
fecharmos uma pauta completa.

Roerei um pouco, de leve,
suas coisas favoritas —
que é pra eu apor minhas marcas em tudo,
lembrando que o amor,
mesmo denso, é breve.

Havendo dias de chuva
tremerei de preguiça
com você entre cobertas;
pedirei que não levante,
esteja sempre à mão, à vista:
e apenas me ame.

Trarei meus trágicos
olhos de compreensão
à maneira de uma oferta,
nas vezes em que você estiver
às raias do desespero;
então morderei seu braço
com impiedoso carinho
e direi, em silêncio,
que prefiro o mundo
com você bem perto.





segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Arremate



Escuto o uivo do cão e por um momento quero voltar e abraçá-lo e lhe dizer que eu também preciso gritar. Mas se eu me virar sei que nossos olhares se encontrarão em solidão e ele vai me pedir que o leve comigo. Não posso. Não quero enganar o cão. Ele sabe. Lambeu tantas vezes meu rosto aguado de tristeza. Deitou-se em cumplicidade enquanto eu maquilava de afeto as máscaras. Foi um cão fiel. Caminhou ao meu lado, saltou feliz, abanou o rabo e latiu à porta. Mas foi também um amigo de silêncios prestados. Para onde vou não se leva um cão fiel. Apenas a carcaça dos erros e a pressa de esquecer o que é supérfluo: amor, decência, humanidade. Adeus, cão. Agora que fechei a porta entre nossos destinos, tudo fica mais fácil.
O caminho hoje está molhado. Eu prefiro assim. Não gosto quando os sapatos roubam o pó vermelho da estrada. Nem de deixar pegadas rasas que qualquer vento apague. Quando chove tudo é diferente. A caminhada afunda na abundância do barro e a terra se abre a um gozo de estocadas. É bom que ir seja em dia de chuva. Talvez eu também chova se ainda souber. Talvez eu tente desfazer o nó que desoxigena meu peito. Talvez eu só sinta saudade. Do armário cheio de roupas compradas para ir onde nunca fui. Da estante com santos, duendes, budas e patuás exaustos de me negar pedidos. Da risada estridente dos filhos que não tive. Do verde intenso roubado a uma janela aberta. De cada homem ao meu lado sob o lençol do dia seguinte. Do cão. Talvez. Só de uma coisa eu tenho certeza: quero gritar entre a agonia e o livramento. Porque é bom que ir seja em som. É justo que a alma se esvazie num vômito barulhento. Até que o ritus se complete. E tudo seja paz ou nada. Antes de tanto, porém, um arremate. Preciso de alguém que me faça um último favor. É que me esqueci de mandar soltar o cão. Se ninguém abrir a porta, ele vai morrer sozinho. De fome, de sede, de abandono. O cão, não.





segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Cidade dos Anjos


A longa travessia do deserto aproxima-se do fim. Em breve atingiremos o mosteiro e a parte mais fácil da viagem. Todos estão contentes, prevendo uns dias de descanso na cidade, com os seus luxos e distracções. Para não destoar finjo sentir a mesma sensação de alívio e de prazer. Mas os meus sentimentos são totalmente opostos. Ainda não foi desta que reencontrei a Cidade dos Anjos.
Já se avista uma mancha de verdura no horizonte. Se seguisse os meus desejos voltaria para trás, de regresso ao deserto, para ali morrer ou encontrar o objecto dos meus anseios. Mas esta caravana depende de mim. Se morresse estes homens ficariam entregues a si próprios e às suas inimizades pessoais. As mercadorias seriam roubadas e muitos dos que nos aguardam com ansiedade perderiam a fortuna e com ela a razão de viver. Nunca a responsabilidade me foi tão pesada. Só me consola a ideia de que mesmo que andasse pelo deserto anos a fio o mais certo é não voltar a ser admitido na cidade de sonho.
Há quem diga que a juventude é desperdiçada nos jovens. E têm razão. Aos 20 anos atingi a felicidade máxima mas fui incapaz de o compreender. Em vez de aceitar o que me era oferecido imerecidamente recusei-o sem hesitações, convencido de que o voltaria a encontrar após uma longa vida repleta do que o mundo chama sucesso. Hoje, rico, respeitado e temido, tento em vão recuperar a única coisa que me faria feliz. Por isso continuo a dirigir estas caravanas ao longo de viagens repletas de privações e de perigos quando podia gozar a vida na bela mansão que construí e que em tempos me parecia ser o máximo a que podia aspirar. E continuarei a fazê-lo enquanto me restar um sopro de vida.
Sou originário de um país distante daquele em que vivo. Pobre e miserável, mal me lembro dos meus pais. Fui criado nas ruas e ali desenvolvi técnicas de sobrevivência e de astúcia que mais tarde me serviram para singrar nos negócios. Devia ter uns 19 anos quando a Grande Caravana parou na vilória onde vivia. Era uma visita inesperada, pois éramos demasiado pequenos e fora do caminho para termos contacto com os grandes comerciantes. Um ou outro vendedor ambulante, quanto muito uma pequenina caravana com dificuldades económicas, eram o máximo a que podíamos aspirar. Mas a doença atacara alguns dos carregadores e fora tomada a decisão de parar por alguns dias a fim de lhes dar a oportunidade de se restabelecerem.
O acampamento tornou-se ponto de peregrinação para todos os vadios da cidade. Mas como a segurança era apertada em breve desistiram. Só eu permaneci por ali, fascinado por aquele amontoado de pessoas que falavam várias línguas, na maior parte desconhecidas, que se vestiam de maneiras tão diversas e estranhas e que pareciam, aos olhos de um mendigo de província, ricos para além de todos os sonhos. Aos poucos fiz-me amigo dos guardas, a quem prestava todo o tipo de serviços e que tratava sempre com uma subserviência que não podia deixar de lhes ser agradável. Nunca me cansava de ouvir as histórias que contavam, embora mesmo então suspeitasse que muitos dos detalhes mais exóticos eram acrescentados simplesmente para gozarem com a minha ignorância e credulidade. Mas eram boas histórias, cheias de magia e aventura, e a minha alma sedenta absorvia-as com avidez.
Apesar dos cuidados prestados alguns dos carregadores morreram. Após o funeral o líder da caravana anunciou que tentaria substituí-los, embora sem grande esperança. Conhecia de sobejo o nosso tipo de povoação e bem sabia que embora falássemos muito estávamos agarrados ao nosso quotidiano e pouca vontade tínhamos de arrostar com o desconhecido. De facto fui o único que me apresentei. O meu aspecto e o meu passado estavam contra mim mas os guardas conheciam-me e falaram a meu favor. Fui, pois, admitido à experiência, na condição implícita de, caso não satisfizesse, ser substituído na primeira oportunidade. Agarrei pois nos poucos trapos que possuía e abandonei para sempre a terra que me vira nascer, decidido a singrar na vida, fosse com aquela caravana ou por qualquer outro modo. Nunca senti saudades e tenho passado a pequena distância da que se pode considerar como a “minha terra” sem sentir a tentação de a voltar a ver.
Decidido a conquistar um lugar permanente não me poupei a esforços, executando pronta e alegremente as tarefas mais duras e mais sujas, tornando-me prestável aos meus superiores directos e lutando o mais possível por me tornar simpático a todos. Aos poucos adquiri a reputação de ser um trabalhador honesto, esforçado e com quem se podia contar. Ao atingirmos a cidade seguinte novos carregadores foram contratados mas o meu lugar estava assegurado. Tornara-me um membro daquela respeitada companhia e com as poucas moedas que recebi a troco do meu trabalho apressei-me a comprar roupas dignas da minha actual posição.
Ocupado como estava a garantir o meu lugar não me preocupara em saber para onde íamos nem o que transportávamos. Agora, que me sentia mais seguro, apercebi-me pela primeira vez da carga preciosa que levávamos para terras distantes: vasilhas de metais preciosos, especiarias, perfumes, vidros e, até, alguns animais exóticos cuidadosamente acomodados em jaulas protegidas do calor e do mau tempo. Tinha tido a sorte de me ligar a uma das grandes caravanas que levavam sedas e outros materiais preciosos para Ocidente trocando-as por preciosidades desconhecidas ou raras no seu país de origem. As viagens eram longas e muito perigosas mas em caso de sucesso os lucros eram fabulosos.
Sentia-me, já, perfeitamente à vontade no meu novo ambiente quando detectei um certo nervosismo nos meus companheiros. Aproximava-se o pior momento de uma odisseia recheada de perigos: a travessia do inóspito deserto. Pelo que então ouvi contar parecia ser um local perigosíssimo, um dos piores conhecidos até então. Embora o nosso trajecto nos levasse apenas através de um dos extremos as condições eram horrorosas. A zona central era considerada intransitável e não havia memória de alguém a ter atravessado e sobrevivido para contar a história. Antes de iniciarmos a travessia parámos para nos abastecermos de água até ao limite das nossas capacidades, para repousar um pouco e para melhorar as condições das jaulas dos preciosos animais que transportávamos. Só viajaríamos de manhã cedo e ao fim do dia, descansando durante a parte mais quente do dia. Mesmo assim todos receavam a provação que se aproximava.
E tinham razões para isso. Nunca esquecerei essa minha primeira travessia, e isto para além das razões que em breve descreverei. Embora esperasse o pior a minha imaginação ficou bem aquém da realidade. A minha vilória ficava numa zona agreste mas fresca de Verão, embora gélida de Inverno. Não havia muita verdura mas também não havia calor. Nada me preparara para as condições que agora enfrentava. O calor era sufocante, e isto logo de madrugada. As noites, em contrapartida, eram do mais gélido que até então experimentara. Caminhava como que num sonho, ou melhor, num pesadelo, limitando-me a seguir numa semi-inconsciência os vultos que via vagamente à minha frente. Quando estes paravam, parava também, quando arrancavam fazia o mesmo, automaticamente. As areias escaldavam mesmo através das solas das minhas sandálias novas, despertando-me do meu pesadelo quando permanecia quieto durante demasiado tempo.
Não sei quantos dias passei deste modo, sem saber se estava acordado ou se dormia. Pelo que hoje sei, foram semanas, mas pareceram-me longos anos sempre iguais e repletos de tortura. Mal me dei conta dos comentários dos meus companheiros, que se regozijavam com a aproximação do fim desta etapa. Na altura parecia-me impossível que houvesse algo no mundo que não fosse areia, calor e vento.
Parámos para a que deveria ser a nossa última noite no deserto. Parecia um local mais abrigado do que de costume, no sopé de duas dunas altas, quase umas colinas, terminadas em bico e com uma depressão em concha entre elas. Parecia um lugar menos inóspito do que muitos outros em que pernoitáramos e por isso não entendi o desagrado dos meus companheiros. Protestavam contra os atrasos que nos tinham impedido de sair do deserto nesse dia e lançavam olhares suspeitosos para as colinas. Aproximava-se o pôr-do-sol e a azáfama era grande. Tendo terminado as minhas tarefas decidi subir uma das colinas, a que ficava mais próxima, para ver se do topo se avistava realmente o fim do deserto. Ao trepar comecei a notar um ligeiro som, quase que de tambores distantes, que parecia acompanhar os meus passos. Atingi o topo no momento em que o sol atingia o horizonte, incendiando as areias a toda a volta. Era magnífico! Decidi sentar-me e contemplar o espectáculo, totalmente esquecido por momentos da dureza dos últimos dias. Fi-lo com cuidado, para não me afundar na areia mais do que o necessário. Os meus movimentos foram acompanhados de um som cavo e alto, que na altura atribuí a um grande tambor, um dos poucos instrumentos que então conhecia. Nem mesmo agora poderia descrever totalmente a qualidade desse som, apesar de entretanto muito ter visto e conhecido.
Sobressaltado levantei-me de um pulo, fazendo com que uma boa porção de areia deslizasse colina abaixo. O som fez-se ouvir de novo. Espantado, olhei em torno de mim, tentando detectar a sua origem. Na base da colina os meus companheiros davam sinais de susto, fazendo os gestos habituais a cada um contra os malefícios e o mau-olhado. Eles não tinham sido com certeza. Do outro lado da colina apenas se avistava o deserto, tão despido de vida como até então o conhecera. Virei-me, finalmente, para o espaço entre as duas colinas.
Este tinha a forma de uma gigantesca concha, de superfície regular e lisa. Quase que parecia feita por mão humana, tão harmoniosas eram as suas dimensões e curvatura. Algo se passava naquela zona. O ar, até então límpido, turvava-se e agitava-se em torvelinhos e pequenos redemoinhos. Franzi os olhos para tentar ver com mais clareza. Mas tudo estava turvo e apenas me parecia avistar, aqui e acolá, formas indistintas, vultos gigantescos que se torciam, quer por efeito do ar quer por movimento próprio. Decidi aproximar-me para ver melhor. Desci, pois o lado da colina que levava à depressão, originando cascatas de areia a cada passo e sempre acompanhado pelo som cavo e ressoante que me despertara a atenção.
Dei meia dúzia de passos e hesitei quando um torvelinho mais forte me surgiu pela frente, cegando-me por instantes. Ainda pensei em recuar mas a curiosidade foi mais forte e, com os olhos fechados como protecção contra os grãos de areia arrastados pelo vento, dei mais um passo. A súbita calmaria surpreendeu-me de tal modo que abri imediatamente os olhos. Mas fechei-os de novo tal foi o espanto que me tomou. Ou estava a sonhar ou enfrentava uma das célebres miragens de que tanto ouvira falar mas que ainda não tivera oportunidade de ver. Como nada de mal me aconteceu decidi-me a dar nova olhadela, convencido de que apenas veria areia à minha frente. Mas não!
A visão permanecia intacta, tal como a avistara por fugazes instantes. Se era uma miragem, então a minha primeira experiência nesse campo ultrapassava tudo o que me tinham contado. À minha frente erguia-se um muro alto e brilhante, por cima do qual se avistavam cúpulas e telhados igualmente brilhantes. O meu primeiro pensamento foi o de estar perante a cidade para onde nos dirigíamos e que, por erro de cálculos, estaria mais próxima do que pensávamos. Mas se isso fosse verdade tê-la-ia avistado do acampamento. Mas era, sem dúvida, um grande aglomerado de edifícios, a avaliar pelo número de telhados que avistava.
Cuidadosamente, fui-me aproximando do muro. Não poderia dizer de que era feito. Parecia ser de metal brilhante, talvez cobre ou bronze, mas ao tocar-lhe, a medo, dava a sensação de pedra. Uma pedra muito lisa e polida, que parecia brilhar com uma luz própria, pois o sol já desaparecera e começavam a ver-se as primeiras estrelas. O muro era um pouco mais alto do que eu, sem reentrâncias ou portas, e encurvava-se ligeiramente rodeando os edifícios. Devia conter uma área enorme, a avaliar pela sua ligeiríssima curvatura, área essa que excedia em muito a da concavidade entre as duas colinas.
Tendo intimamente decidido que ou estava morto ou entrara num mundo de sonhos, comecei a caminhar ao longo do muro decidido a penetrar no seu anterior. Ao fim do que me pareceram horas – e que talvez o fossem – tive de me render à evidência. O muro permanecia liso e sem sinais de entrada. Parei para descansar um pouco, embora surpreendentemente não me sentisse fatigado. A vontade de visitar aquela área murada era cada vez maior mas não via bem como fazê-lo. Cheguei-me bem ao muro, à procura de qualquer imperfeição a que me pudesse agarrar. Nada encontrei. Mas ao erguer os braços com desespero apercebi-me de que as minhas mãos quase chegavam ao topo. Sempre considerara a minha grande altura como uma desvantagem – e era-o quando tentava passar despercebido após um pequeno roubo – mas agora parecia-me uma dádiva sem preço. Com um pouco de esforço talvez conseguisse agarrar-me ao topo do muro e trepar a força de pulso. E assim fiz. Foram várias as tentativas falhadas e a areia onde tombava parecia endurecer a cada queda que dava. Mas o sucesso coroou por fim os meus esforços.
Empoleirado no topo do muro sentei-me para recuperar as forças e para decidir o passo seguinte. À minha frente estendia-se uma cidade magnífica, toda ela feita do mesmo material brilhante do muro. Os edifícios eram elegantes, bem desenhados e espaçosos, encimados por cúpulas e telhados de feitios caprichosos e estranhos. Estavam separados uns dos outros pelo que só se poderia denominar de jardins, embora não se assemelhassem a nada que até então visse. Se ignorássemos as cores, seriam jardins normais, belos e opulentos como nenhuns, mas possíveis. Mas o colorido estragava essa ilusão. Parecia predominar um tom de laranja acobreado, intercalado, aqui e acolá, por lampejos multicores que pareciam piscar e reluzir como se tivessem vida própria. As formas assemelhavam-se às da nossa relva, arbustos ou flores mas de colorido e brilho inimagináveis.
Tudo isto apenas serviu para me convencer de que morrera e me encontrava nalgum mundo do Além de que nunca ouvira falar. Como nada tinha a perder saltei do muro bem decidido a explorar este mundo estranhamente fabuloso que se estendia a perder de vista. Embora tivesse caído desamparado não me magoei. Parecia até que o solo se torcera para melhor me amparar. Mas foi apenas uma breve sensação que logo pus de parte como impossível.
Comecei a caminhar ao longo de um dos muitos carreiros que avistara, rodeados de pequenos arbustos cintilantes. Era neles que se viam os lampejos multicores, que na altura me deslumbraram por nada ter visto de semelhante. Hoje posso compará-los a grandes diamantes fulgindo à luz de múltiplas velas. Mas não pareciam ter uma origem física ou então esta era tão pequena que me passou despercebida. A temperatura estava amena e corria uma ligeira aragem que parecia perfumada de aromas desconhecidos e suaves. Ao fim de algum tempo apercebi-me de que, embora não se visse vivalma, o silêncio era quebrado por sons distantes, apenas detectáveis. Parei para me concentrar neles. Por mais que me esforçasse não os ouvia com nitidez. Pareciam um sussurro, melodioso mas tão baixo que era quase inaudível, que atribuí à vez a música e a vozes, sem ficar com a certeza de nada.
Acabei por desistir e prossegui o meu caminho, parando, por vezes, para apreciar um edifício ou um grupo de flores exóticas. Não sei por quanto tempo caminhei assim. Pareceram-me horas, mas podem ter sido dias ou apenas minutos. Nada do que então me aconteceu tem raízes na experiência humana e por isso não tenho a certeza de nada. Nem sequer de não ter sido tudo um sonho.
Apercebi-me, finalmente, de que o carreiro por onde seguia tinha um propósito determinado, encaminhando-se, decididamente, em direcção ao que se poderia chamar o centro de toda aquela cidade. Não parecia ser o único, pois de ambos os lados avistava agora outros carreiros que pareciam ter o mesmo destino. Isso alegrou-me e preocupou-me ao mesmo tempo. Embora até então não avistasse vivalma achava improvável que tantos edifícios estivessem desabitados. Parecia tudo demasiadamente bem cuidado para estar abandonado. À minha estupefacção pelo que via juntava-se agora uma pontinha de receio pela recepção que poderia ter. Bem vistas as coisas não passava de um intruso e se os possíveis habitantes quisessem ter visitas então por certo teriam aberto portas na muralha da sua cidade.
Mas o medo apenas serviu para me incentivar. Quer estivesse morto, vivo ou a sonhar, a minha decisão era só uma: seguir esta aventura até ao fim. Apressei, pois, o passo, ansioso por conhecer o passo seguinte de tão estranha saga.
O carreiro desembocou, finalmente, numa praça que me pareceu enorme. Estava totalmente deserta. Ao centro avistava-se o que parecia ser uma estátua alada. Para ali me dirigi. Era a representação de um animal estranho. Parecia-se com um dragão, mas as suas enormes asas eram semelhantes às das águias e demasiado pequenas para tão gigantesco corpo. As patas também eram estranhas, terminando as da frente em forma de mão humana. Fora representado soerguido nas patas traseiras, com o focinho erguido para os céus e com as asas totalmente abertas. Nas patas dianteiras, perturbadoramente humanas e elegantes, segurava um pequeno baú semi-aberto.
Aproximei-me mais e, muito a medo, abri-o por completo. O seu interior continha um rolo de pergaminho e alguns anéis dourados. Enquanto hesitava, sem saber o que fazer, o pergaminho desenrolou-se por si mesmo e vi que na sua superfície estavam desenhados estranhos caracteres. Nessa altura não sabia ler e, mesmo se o soubesse, duvido que conseguisse traduzir aquela escrita. Mas isso não foi necessário porque uma voz sussurrante murmurou aos meus ouvidos:
“Se o teu coração é intrépido e quiseres conhecer os habitantes desta cidade, então coloca um destes anéis no dedo médio da mão esquerda. Mas lembra-te: tens muito a perder e pouco a ganhar.”
Com a impetuosidade da juventude nem hesitei. Estendi a mão e agarrei num dos anéis contidos no baú. Parecia demasiado grande para os meus finos dedos mas ao enfiá-lo no dedo indicado pareceu encolher, ajustando-se perfeitamente à minha pele.
A princípio nada mudou. A praça estava tão deserta como dantes, o sussurro distante continuava indecifrável e as cores que me rodeavam eram as mesmas. Mas pouco a pouco as coisas começaram a mudar, começando por uma ligeira turvação das imagens, que se foi acentuando até tudo se ter modificado. O espanto foi tão grande que quase sufoquei. Parecia-me que mudara novamente de mundo.
A praça estava agora cheia de criaturas que se moviam graciosa e apressadamente. Em vez do acobreado brilhante que parecia imperar anteriormente tudo agora tinha cores maravilhosas, intensas e variegadas. O sussurro aumentara de tom e, embora continuasse ininteligível, via-se agora que era o som de centenas de vozes erguidas em conversação ou canto. Era, verdadeiramente, um mundo à parte.
Concentrei-me nas criaturas que via um pouco por toda a parte. Muitas tinham forma humana, mas muito esguia e estilizada, parecendo flutuar sobre o chão de modo contínuo e suave. Outras tinham formas estranhas, uma mistura de elementos humanos e animais ou, até, totalmente desconhecidas. Mas todas tinham um elemento em comum: ao olhá-las ficava com uma sensação de beleza e de harmonia como não voltei a experimentar desde então, nem mesmo face às mais belas mulheres ou aos mais encantadores objectos. Aquilo que, descrito, poderia dar uma ideia de pesadelo, traduzia-se, sem que soubesse como, numa beleza ímpar e, acima de tudo, numa sensação de “verdade”, como se aquela fosse a única forma possível, ideal, para aquele ser.
Essa sensação de beleza sem igual estendia-se aos edifícios, que me pareciam ainda mais magníficos agora que os via na sua multiplicidade de cores. As coberturas fantásticas revelavam pormenores delicados, uma autêntica filigrana etérea mas que dava, ao mesmo tempo, a ideia de permanência, de durabilidade eterna que não se consegue obter com as fortalezas mais sólidas que entretanto conheci. Mas o material de que eram feitos permanecia uma incógnita.
A amenidade do ar era ainda mais pronunciada, se tal fosse possível, e os aromas suaves que transportava enchiam-me o espírito de delícias desconhecidas. Apesar da longa caminhada que efectuara para ali chegar sentia-me completamente fresco e repousado. Aliás, nunca me sentira melhor e não voltei a ter, desde então, uma sensação que se lhe aproximasse. Se ao menos tivesse sabido apreciar o que então tive em vez de me deixar cegar pela ideia de um futuro de prosperidade material!
Permanecia especado junto à estátua, de boca aberta de espanto e sem saber como reagir quando senti um leve toque no ombro esquerdo. Com o susto dei um enorme pulo, que me levou a pelo menos dois metros de distância. Virei-me e vi que uma das criaturas semi-humanas me olhava, a sorrir. Era bela, como todas as outras, distinguindo-se de uma mulher normal apenas devido aos olhos de um vermelho cintilante, facetados como pedras preciosas, e por duas minúsculas asas que lhe saíam da nuca. Bem mais alta do que eu, olhava-me, no entanto, quase de igual para igual e o seu sorriso fez com que os meus nervos agitados se acalmassem de imediato. Antes mesmo de falar já sabia que não me tinha inimizade, mas que sentia por mim uma certa parcialidade mesclada de indiferença. Aproximei-me, pois, até estarmos quase juntos.
— Bem-vindo à nossa cidade – disse, numa voz onde ressoava um ligeiro trinado e que era impossível de classificar. Aqui até os não convidados têm a sua oportunidade de escolher.
E fazendo-me sinal para a seguir dirigiu-se para um edifício redondo que ocupava um dos lados da praça.
Embora cheio de perguntas não me atrevi a erguer a voz. Havia algo naquela criatura que, embora não despertasse medo, me impedia de sentir um completo à-vontade na sua presença. Em silêncio, pois, atravessámos a imensa praça até atingirmos o nosso destino. Subidos cinco degraus deparámo-nos com duas portas imensas e escuras, que me impressionaram de modo desagradável. A sua superfície estava repleta de desenhos que pareciam tridimensionais e vivos. Quando fitava um deles nada se mexia mas pelo canto do olho via que o resto se retorcia e enclavinhava, quase como um ninho de cobras. Era a primeira coisa desarmoniosa que via desde que subira ao muro e fiquei cheio de vontade de fugir dali.
No entanto a criatura que me fizera sinal não parecia preocupada. Tocou-lhes com um dedo anormalmente fino e elas abriram-se com um chiar de dobradiças mal oleadas. Por momentos fez-se silêncio na praça e, ao virar-me, vi que todas as criaturas tinham parado e nos contemplavam. Mas não poderia dizer se com agrado ou desagrado. Mas logo tudo voltou ao normal.
Como hesitasse a minha acompanhante voltou a tocar-me no ombro – sempre o esquerdo – e fez-me sinal para entrar. Com o coração aos pulos, assim o fiz, fechando os olhos e dando um passo enorme para que a provação acabasse depressa. Quando os voltei a abrir era como se não o tivesse feito. O interior era do mais escuro que jamais vira. Não conseguia, literalmente, ver a minha mão quase em frente dos olhos. Foi um dos momentos mais aterradores da minha vida. Pensei que o meu fim chegara ou que, caso já estivesse morto, tivesse sido enviado para um dos piores infernos de que ouvira falar.
Quando pensei não poder suportar mais a escuridão e o silêncio a voz da criatura soou novamente, parecendo ainda mais musical do que lá fora:
— Este é o edifício que contém o Espelho das Almas. Só este tomará a decisão final, mas para lá chegar é preciso passar por várias provas, que podem ser fatais. Todos os que visitam a nossa cidade têm de passar por aqui. A alternativa é serem eliminados para todo o sempre.
A única parte boa deste discurso era a ideia de que afinal não devia estar morto. Embora a ideia das provas me assustasse sempre fui lutador e não me agradava a perspectiva de nem ao menos tentar. Estava para dizer isso mesmo quando a criatura, que parecia adivinhar-me os pensamentos, acrescentou:
— Muito bem. Prossigamos. Estamos no corredor da Confiança. Esta parte do percurso tem de ser feita na escuridão, e sem qualquer apoio. O caminho não tem obstáculos e basta dar cinquenta passos em frente, sem hesitações ou paragens. Volto a lembrar: uma prova falhada representa a obliteração.
As coisas começavam mal. Sempre tive medo do escuro, o que não é de estranhar para quem teve de sobreviver durante longos anos nas escuríssimas ruelas de uma vilória, onde nunca se sabia em que ou em quem poderíamos tropeçar. Ainda hoje tenho uma profunda cicatriz resultante de um encontro aziago com um cão esfaimado numa noite sem Lua. Mas sou um lutador, como já referi, e morto por morto preferia sair tentando.
Abafando o melhor possível os meus receios comecei a caminhada, tentando manter um ritmo certo e sem hesitações. O chão era estranho, parecendo umas vezes mole e outras duro. Mas segui sempre em frente, contando mentalmente. Foram os cinquenta passos mais longos da minha vida. Ao dar o último todo o local se encheu de luz, uma luz esverdeada e forte, que quase me cegou, após a escuridão anterior. A criatura estava à minha frente, sorrindo.
— Primeira prova superada. Entramos agora na Câmara dos Desejos. A prova consiste em escolher um objecto de entre os muitos que a povoam. Só se for o objecto certo é que o caminho fica livre.
Verifiquei, então, que o corredor que percorrera desembocava numa imensa câmara repleta de estantes e mesas onde se viam as coisas mais díspares, tudo iluminado por uma luz difusa e esverdeada que parecia provir de todos os lados ao mesmo tempo. O coração caiu-me aos pés. O que seria o objecto certo, no meio de todo aquele bazar? Embora contrariado penetrei na Câmara e comecei a analisar os objectos que a enchiam. Havia de tudo um pouco: preciosos e baratos, metálicos, de vidro, de madeira, tecidos, pergaminhos, frascos de perfume, enfim, uma colecção capaz de fazer inveja ao mais cotado mercador. Mas nada me parecia digno de ser escolhido. Oh, havia coisas fabulosamente belas, sobretudo para um provinciano como eu. Mas, não sei bem porquê, não me decidia a escolher nenhuma delas. Não me pareciam suficientemente ”únicas”.
E assim fui andando, de mesa em mesa e de estante em estante, tudo vendo e tudo rejeitando. A criatura parecia não ter pressa, mantendo-se imóvel junto a uma pesada e retorcida grade de ferro que parecia guardar a única saída. Já tinha visto tantas coisas que me sentia tentado a desistir quando algo me chamou a atenção. Aproximei-me e vi, na prateleira mais baixa de uma pequena estante o que à primeira vista não passava da reprodução grosseira e demasiado colorida de um coração rodeado de grandes chamas. Parecia impossível que no meio de tantas riquezas uma pobre coisa como aquela me tivesse chamado. Mas fora isso que acontecera. Sentia-me irresistivelmente atraído por aquela imagem baratucha e nem sequer bem feita. Tentei afastar-me por diversas vezes, mas via-me forçado a voltar atrás e a contemplá-la de novo.
Desisti de lutar. Agarrei-a e levei-a até à criatura, absolutamente certo de que era o meu fim. Aquele não podia ser o objecto certo, o único que me tinha sido pedido. Estendi-lho, encolhendo-me um pouco com receio do que estava para vir. Mas com grande surpresa minha a grade deslizou para um dos lados deixando a descoberto uma pequena passagem que terminava numa nova porta.
— Mais uma prova superada. Já só falta mais uma, antes de chegarmos ao Espelho das Almas.
Virou-se e dirigiu-se para a outra porta. Esta era bastante estranha, mesmo depois de todas as coisas esquisitas que vira até então. Não parecia sólida mas feita de uma espécie de nevoeiro multicor, onde se agitavam formas indistintas e se moviam vultos que não se chegava a perceber bem o que eram. Mas sólida ou não barrava totalmente o caminho.
— Chegámos à Ponte do Mundo. Tem três guardiães. Mais uma vez é preciso escolher o certo e pedir-lhe passagem.
E sem acrescentar mais nada passou através da barreira. Como não sabia que fazer, decidi-me a imitá-la. Aproximei-me e parei por instantes tentando perceber o que via. Mas as imagens entrevistas eram demasiado vagas e difusas para que pudesse dizer a que correspondiam. Por isso dei um passo em frente, convencido de que iria ser muito desagradável passar por ela. Estava à espera de uma sensação de frio húmido e pegajoso, como o que costumava sentir na minha terra em certas noites de Inverno. Mas nada senti. A porta era como se não existisse. A única diferença é que agora via o que estava por detrás dela.
À minha frente via uma larguíssima ponte lançada sobre um abismo aparentemente sem fundo. Pelo menos era bem larga no início. Mas ia estreitando até que, a cerca de metade do caminho, já só dava para cerca de quatro pessoas a par. Era nesse ponto que se viam três vultos. Deviam ser os guardiães.
Como a criatura que me acompanhava parecia ter desaparecido fui avançando cautelosamente pela ponte. À medida que me aproximava podia ver melhor o tipo de criaturas que me aguardavam. Eram seres muito estranhos e um pouco assustadores.
O da esquerda tinha um corpo entroncado e forte mas não muito alto. Vestia de castanho-escuro, algo que parecia quase uma couraça. A cabeça, no entanto, destoava do conjunto: estreia e pontiaguda, parecia-se com uma raposa, mas com grandes olhos de pupila vertical como a dos gatos e dois pequenos cornos retorcidos no topo. As mãos, poderosíssimas, terminavam em garras como as das águias e seguravam uma lança que parecia demasiado alta para aquele corpo.. O do meio tinha um corpo um pouco mais alto do que o meu, mas bem proporcionado. A cabeça era a de um cão, de dentes pontiagudos e olhos coruscantes e tinha nas mãos uma poderosa acha de guerra. O da direita tinha um corpo de serpente, grossíssimo, enroscado em inúmeros anéis de onde sobressaíam duas enormes asas. Tudo isto encimado por uma enorme cabeça de touro de cuja boca saíam labaredas.
Estava ainda mais atrapalhado do que na Câmara dos Desejos. Não sabia qual deles escolher, pois todos me pareciam igualmente assustadores, em particular o do meio, com a sua cabeça de cão. Como já disse anteriormente, os meus encontros com cães não tinham sido dos mais felizes. Por isso concentrei a minha atenção nos outros dois. Sentia-me tentado a escolher o da esquerda, uma vez que tudo até então estivera relacionado com aquele lado. Mas a desproporção entre o corpo e a cabeça repugnavam-me. Virei-me para o da direita e estava já perto quando tive a mesma reacção. Havia algo no conjunto que me desagradava imensamente. Acabei por me aproximar do do meio, pois, embora detestasse cães, era o que me repelia menos.
Vi-me assim face a face com a sua bocarra escancarada, que parecia capaz de me arrancar a cabeça. Quando o vi levantar a acha pensei que chegara o meu último momento. Mas virou-se para um dos lados e acertou com ela no ser cabeça de raposa, que prontamente se evaporou. Fez o mesmo do outro lado, ficando a ponte vazia com excepção de nós os dois. A sua imagem tremeluziu, então, e pareceu deslizar pelo caminho à minha frente, desaparecendo por um arco que se avistava ao longe. E fiquei só.
Decidi caminhar até esse arco, notando que a ponte se estreitara de tal modo que mal tinha largura para o meu magro corpo. A criatura da praça aguardava-me junto ao arco.
— Falta apenas a prova do Espelho das Almas. Mas esta é apenas uma escolha.
Virando-se, passou por baixo do arco. Fiz o mesmo.
Estávamos numa pequena sala redonda, que parecia ter apenas aquela abertura. À minha frente via-se uma superfície polida, que parecia atrair-me de modo misterioso. Aproximei-me sem qualquer receio até estar a poucos centímetros dela. Vi então que uma estranha criatura me contemplava. Tinha corpo de dragão, mas de um dragão pequenino e lindo, com maravilhosas escamas verdes e amarelas que pareciam cintilar e mudar de aspecto continuamente. De cada lado saíam enormes asas vermelhas, capazes de fazerem voar um corpo bem maior do que aquele. O mais estranho era a cabeça: não se assemelhava a nada que alguma vez tenha visto, mas parecia estar estranhamente em harmonia com o resto.
Fiquei embasbacado, contemplando aquele ser estranho que via onde esperara ver a minha imagem. Não sei quanto tempo decorreu nesse silêncio estupefacto mas por fim arranquei-me àquela contemplação que me deliciava sem que soubesse porquê e virei-me na direcção do arco. A criatura permanecia no mesmo ponto, mas parecia maior, mais luminosa e amigável do que antes. Ia perguntar-lhe o significado de tudo o que vira e vivera quando mais uma vez pareceu adivinhar os meus intentos.
— Essa é a imagem da tua alma. Se decidires ficar na cidade, será essa a tua forma. Quanto às provas, penso não precisar de te explicar a primeira. Confiaste nos teus instintos, que te diziam que eu não era capaz de te fazer mal. Na segunda demonstrastes que o teu maior desejo é uma vida vivida com emoção e encantamento, ansiando sempre por mais e melhor. E na terceira sobrepuseste o teu sentido da harmonia das coisas aos teus gostos pessoais. Demonstrastes, pois, seres digno de aqui viver.
Deu dois passos em frente e prosseguiu:
— Mas tens de escolher. Se aqui ficares, terás de renunciar à vida que poderias vir a ter se te fores embora. E tenho de dizer-te que seria uma bela vida, cheia de sucesso, riquezas, amizades e amor. Aqui terás paz, harmonia e uma longa existência sem sobressaltos ou angústias. Escolhe!
E foi então que cometi o maior erro da minha vida. Era novo, nada vira, nada experimentara para além de miséria e trabalhos duros. A ideia de vir a ser rico, considerado, de ver coisas e lugares, de conhecer novas gentes e novos costumes foi mais poderosa. Escolhi a vida.
Não precisei de abrir a boca. Assim que a minha mente formalizou a escolha logo me encontrei no topo da colina a que subira para ver se o deserto estava a chegar ao fim. A noite começava a cair, com a rapidez própria do deserto. Não entendia como isso era possível, uma vez que tinha a sensação de terem passados horas desde que saíra do acampamento. Se calhar tinham sido dias. O vento do fim da tarde acalmara e a depressão entre as duas colinas estava perfeitamente lisa e regular.
Trôpego e sem bem saber o que fazia desci o mais depressa possível até ao acampamento onde fui recebido com total indiferença. Ninguém dera pela minha ausência. Comecei até a pensar que tudo não passara de um sonho ou de uma alucinação provocada por excesso de sol e de fadiga. Mas na minha mão esquerda brilhava um anel dourado que nunca possuíra.
No dia seguinte a viagem prosseguiu sem percalços de maior, dando início a uma carreira que me tornou num dos mercadores mais ricos e invejados do meu tempo. Viajei incessantemente, vi maravilhas incontáveis, rodeei-me de luxo e de amigos dedicados, mas nunca fui totalmente feliz. A recordação daquela a que chamo a Cidade dos Anjos não me abandona o espírito, fazendo-me ansiar por uma paz e harmonia inexistentes neste mundo. Há anos que a procuro, muito particularmente junto às Colinas das Areias Cantantes, fenómeno que a população local jura ser provocado pelos espíritos que habitam por debaixo do deserto.
Mas nunca mais a avistei e começo a pensar que morrerei sem alcançar aquilo que levianamente recusei aos 20 anos.

Luísa Lopes

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domingo, 1 de setembro de 2019

sahir em acatalepsia

diabruras
ecclesiasticas,
conspira ao cárcere
a corôa afflicta:
se baixar a voz
em tyranna brandura
o império se esguia
na palermice
das indagações.
melhor assim:
desver as cousas
degradantes da tardança
habitadas no discurso,
ao burguês-níquel
a via-láctea
embrulhada
no porco-a-porco.
quantos golpes indispensáveis
para a vanguarda
dos prestígios?
d’ella o altruísmo
para com sendeiros,
jagunços e algozes.
aos escribas,
operários e mães-do-corpo
a mamata
dum óbolo passadista:
constituir em sede
o grassar do nada.
a exumação da foice
à estética do cuidado:
roçar a cabeça
do milico
para o sonho
em esperança,
martelar
a insurreição
o quanto for necessário
até os exgottados
erguerem-se além
da perversa apathia:
evangelizar o lar
com a cholera christã.
urge retomar o pecado
contra o abysmo
dos nobres contratos,
o punho cerrado
esmagando o cinismo
dum vergonhoso ordenado.





sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A COROA DA JAMAICA

“Com umas cordas [Jesus], fez um chicote e expulsou-os a todos do Templo, com as ovelhas e os bois. Deitou por terra o dinheiro dos banqueiros e derrubou-lhes as mesas.”
(João 2, 15)

            Era uma vez um homem justo e honrado que se tornou presidente do Brasil. Numa noite de quarta-feira, após cumprir seus compromissos de chefe de Estado e de governo, ele ligou a televisão, pois isso sempre o ajudava a pegar no sono. Eis que, passando os canais, ele viu um pastor chamado Valdemito Sandiablo, que alugava longas horas da programação de uma emissora de TV aberta, anunciando um martelo ungido, que teria o poder de, pela graça de Deus, realizar desejos. Bastava que o fiel o comprasse, por um preço bem superior a um salário mínimo, e tocasse com ele os objetos que desejava. Sem pensar duas vezes, o presidente ligou para o número indicado na tela e comprou o objeto, dando o endereço de seu apartamento em São Paulo, para onde iria no fim de semana almoçar com a filha e o genro.
            Eis que, na semana seguinte, em visita oficial ao Reino Unido, o presidente do Brasil, ao lado do Ministro da Justiça, diante de várias câmeras, postou-se diante do Palácio de Buckingham, onde seria recebido pela Rainha. Para surpresa de todos, o presidente desabotoou o paletó e fez ver que, por baixo dele, enfiado na calça, estava o famoso martelo ungido. Exibindo-o para as câmeras, disse: “Em nome de Jesus de Nazaré, eu tomo posse deste palácio e de tudo a que a ele se relaciona: a coroa da Inglaterra e de todos os reinos da monarquia britânica.” Feito isso, foi ao encontro da Rainha e anunciou: “Madame, se Vossa Majestade não me entregar agora diante das câmeras a coroa da Inglaterra e abdicar do trono em meu favor, estará comprovado o estelionato praticado por um líder religioso brasileiro, que vende por um preço extorsivo este martelo ungido, dizendo que, pela graça de Deus, este objeto realiza desejos.”
            A Rainha não teve outra reação a não ser rir do absurdo, ao que retorquiu o presidente: “Usarei as imagens de sua risada como prova do crime desse fariseu. Senhor Ministro da Justiça, na falta de um delegado de polícia, é a Vossa Excelência que faço a denúncia. É preciso colocar esse criminoso na cadeia. E declaro aqui, diante das câmeras, que está suspensa a concessão dessa emissora que aluga o espaço que lhe foi concedido pelo Estado brasileiro para um homem que engana pessoas pobres e ignorantes e lhes rouba as economias, ao invés de veicular uma programação que promova a cultura e a informação, como manda a nossa Constituição.”
No dia seguinte, os jornais acusaram o presidente de atentar contra democracia, contra a liberdade de expressão e contra a liberdade religiosa. Retrucou o presidente que nenhuma igreja havia sido fechada, nenhum altar destruído, nem uma única palavra tinha sido dita por ele, presidente, contra a fé cristã, contra o islamismo, contra o candomblé ou qualquer outro credo, mas que condenara a prática de estelionato por parte de um líder religioso que deveria levar consolo aos fiéis e não abusar de seu sofrimento para extorquir-lhes as minguadas economias. E a prova de que o martelo ungido não tinha nenhum poder mágico para realizar desejos estava registrada por aquelas câmeras: a risada da Rainha tinha sido exibida em todos os telejornais. E a emissora que permitira que esse crime de estelionato alcançasse os lares de tantos brasileiros era cúmplice do crime, e, por isso, sua concessão estava sendo justamente cassada. Era assim que ele agia em favor do bem comum – o que se dissesse ao contrário nada mais poderia ser que tentativas de misturar o sagrado direito à liberdade de expressão com a prática do mais nefasto estelionato.
O pastor Valdemito tentou sair do Brasil tão logo viu encerradas as atividades da emissora com ele acumpliciada, mas a Polícia Federal retirou seu passaporte e o algemou no aeroporto. Sabendo da prisão do seu líder, os fiéis foram à rua protestar. Em cadeia nacional de rádio e televisão, o presidente prontamente os tranquilizou:
– Senhores, retirarei a denúncia contra o pastor Valdemito tão logo a Rainha da Inglaterra me conceda seu trono. Ou pelo menos coloque não todos os seus reinos em minhas mãos, mas tão só o reino da Jamaica. Já encomendei mesmo a um artista plástico a confecção de uma coroa para quando ela me declarar monarca da pátria de Bob Marley. Pois, como todos vocês viram, eu toquei com o martelo ungido o Palácio de Buckingham. E o pastor Valdemito garantiu em seu programa que, pela graça de Deus, quem comprasse aquele martelo ungido teria seus desejos realizados. Dou a ele a oportunidade de provar a veracidade dos poderes que ele atribuiu ao martelo.
No dia seguinte, os outros pastores responderam que o martelo não funcionou para o presidente porque ele não tinha fé. Em novo pronunciamento, o presidente mostrou a bela coroa que fora confeccionada especialmente para ele e disse:
– Encontrem um único fiel com fé do tamanho de um grão de mostarda, e eu o levarei até Londres para que faça o mesmo teste que eu fiz. Se a Rainha o nomear imperador da Jamaica no lugar dela, eu retirarei a acusação contra Valdemito e ele estará livre.
Responderam os pastores que aquele pedido não podia ser realizado pelo martelo ungido, pois isso dependia da vontade da Rainha, a quem Deus dotara de livre arbítrio, como a todos os seres humanos.
 – Faço então outra proposta. Valdemito pode ir ao Hospital do Câncer, onde certamente haverá pessoas de muita fé, aptas a receberem um milagre. Faça ele desaparecer um único tumor maligno pelo poder da oração, como tantas vezes disse no seu programa de TV que tinha feito. Eu então reconhecerei que ele é um homem de Deus e retirarei a acusação de estelionato contra ele. Irei mesmo visitar o Hospital do Câncer amanhã e o convido a vir comigo, pois a Constituição garante o direito à assistência religiosa aos enfermos internados e ele pode fazer essa boa ação. Mas, se não conseguir curar ninguém, acrescentarei contra ele a acusação de charlatanismo.
Valdemito não se animou a acompanhar o presidente na visita ao Hospital do Câncer, a Rainha não entregou o trono da Jamaica ao presidente e, assim, aquele santo homem continuou preso e o seus fiéis passaram a orar todos os dias para que ele tivesse forças para suportar essa provação que Deus lhe enviara.

(São Gonçalo, 1º semestre de 2015 – versão final: 20/07/2016)





quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Prioridades







Fábio, de olhos fixos no ecrã, roía nervosamente a tampa da caneta. Apontamentos, rabiscados em dezenas de folhas, estavam espalhados sobre o tampo da secretária, por baixo dos cotovelos e sobre o teclado. No ecrã, as linhas pretas sobre fundo branco, pareciam ondular e emitiam reflexos sobre as lentes dos óculos. De tempos a tempos, ideias brotavam, através dos dedos para as teclas e fundiam-se em frases, que se materializavam no texto.
Subitamente, uma dúvida assaltou-o e começou a rebuscar os rascunhos, até que, pelo canto do olho, percebeu a presença encostada ao umbral da porta.
Olhou, entre o surpreendido e o confundido para Eduarda que, de braços cruzados, exibia uma expressão de desagrado.
— É... para ir jantar? — Perguntou hesitante e confundido, se tinha feito algo errado.
— Era. Era mesmo para ir jantar. — A voz rouca dela era firme e cheia de acusações. — Há mais de uma hora, quando te vim chamar e me disseste que já ias.
— Uma hora?!? — Ele continuava confundido. — Chamaste-me? Não ouvi...
— Sim, uma hora, Fábio Ferreira. Mais de uma hora que estive à tua espera. Acabei agora mesmo o meu jantar… frio!
— Oh, meu amor, desculpa-me, mas eu... — Principiou a desculpar-se.
— Sim, eu sei, tens esse teu maldito livro na cabeça e não tens espaço para mais nada. Há mais de quatro meses que não pensas noutra coisa... mesmo!
— … tenho de acabar este livro, enquanto não o fizer, não consigo sequer dormir!
A posição dela alterou-se. Colocou as mãos atrás do corpo e olhou para o chão enquanto se queixava baixinho:
— Não aguento mais isto…
— Por favor... — Ele ergueu-se e tentou abraçá-la, mas foi sacudido de imediato. — Não vês que é uma fase? Assim que terminar o livro, tudo será diferente.
— Diferente? Diferente até quando? Até ao próximo livro? Achas que é fácil? Viver num mundo sozinha, em que tu estás de corpo presente, mas com a cabeça sabe-se lá onde? Faço-te perguntas e não respondes ou respondes tanto tempo depois que já nem sei do que falas. Há quanto tempo não temos uma conversa sobre qualquer coisa? Passo refeições sozinha, a olhar para televisão, sem saber o que está a dar... contigo a meu lado.
— Mas estou ao teu lado sempre que posso... Acusas-me de ser lento a responder-te porque estou ausente e não te dou atenção. Para ti é fácil, a tua cabeça está cheia de ligações ao mundo e ao ambiente que te rodeia. A minha, está cheia de mundos e de vida interior... quando demoro a responder, é porque já vivi uma vida inteira, entre a tua pergunta e a minha resposta.
Ela olhou-o estranhamente e ele sorriu-lhe com tristeza enquanto apreciava o cabelo claro, curto, que lhe dava um aspeto de rapazinho e o rosto fino e sardento que ele tanto amava. Tentou acariciar-lhe o rosto, mas ela evitou o contato.
— Ausente, sempre! — Concluiu ela. — Seja absorvido por um livro, seja a escrevinhar com demência em qualquer papel, ou enclavinhado no computador! — A voz alterada atenuou-se e as lágrimas pareciam querer explodir nos olhos castanhos. — Onde estás tu, que não estás comigo? Que é que te leva para esse mundo distante, onde eu não estou e não te faço falta?
— Não é verdade, que não me fazes falta! Eu amo-te, preciso de ti e não posso viver sem ti!
— Para te lavar a roupa, arrumar a casa e... fazer amor... quando te lembras. Quantas vezes dormiste, nessa secretária, só este mês? Quantas vezes vieste gelado para a cama, já de madrugada, apenas para te enroscares em mim e adormecer de imediato? Estou farta!
— Desculpa-me! Eu compreendo que não deve ser fácil para ti, mas não consigo evitar. São os mundos, dentro da minha cabeça, milhões de mundos, aos quais me ligo e me perco. Quando as ideias começam a fluir, é como um transe onde visualizo cada cena, cada personagem, cada expressão. Tenho de escrever tudo, antes que se vá. Antes que desapareçam para sempre, como farrapos de um sonho aos primeiros raios da alvorada.
— Não posso mais! — Ela repetiu agora voltando-lhe as costas e dirigindo-se para o quarto. — Fica-te com os teus mundos e não me incomodes... eu vou arranjar, o que for preciso, para não te incomodar mais.
A porta do quarto estrondeou com força fazendo tremer os vidros na cristaleira.
Ele quedou-se em pé, olhando o corredor e a luz que se escoava por baixo da porta. Sabia que devia ir ter com ela, tentar compor as coisas, a sua cabeça fervilhava de ideias, de coisas que precisava escrever. Olhou para a secretária e, no chão, reluzia o apontamento que ele procurava. Apanhou-o, sentou-se em frente ao computador e recomeçou a escrever.
A luz do sol entrava pelas aberturas das persianas. Fábio dormia com a cabeça sobre a secretária, os óculos dobrados a marcar-lhe o rosto e a boca aberta numa respiração pesada. Alguns papéis espalhavam-se pelo chão.
Eduarda, mala na mão, olhou-o uma última vez. As lágrimas corriam-lhe livremente pelo rosto enquanto, por breves instantes, refulgiram com aquele brilho que ele em tempos acendia neles. Depois, como que acordada de um sonho, limpou as lágrimas com as costas da mão e pousou as chaves da casa, na secretária ao pé do homem adormecido.
Caminhou, lenta, mas firmemente e saiu do apartamento, fechando a porta com cuidado, para não acordar o marido.





terça-feira, 27 de agosto de 2019

As quatro estações









domingo, 25 de agosto de 2019

O Apocalipse de Atouguia


(Sibila neandertal)


Atouguia era uma mulher neandertal que vivia na zona mais ocidental da atual Península Ibérica, 29 mil anos antes do presente. A sua vivência simples de recoletora, adaptada às condições climáticas de então, foi certo dia marcada pelo terror de um feroz ataque de esguios e sanguinários invasores. Fugiu, escondeu-se numa loca rochosa, ouviu os gritos desesperados dos seus irmãos. Assistiu em agonia à morte de todos os membros do seu clã, que, depois de esquartejados pelas lâminas de sílex dos atacantes, foram comidos, numa orgia de sangue e ferocidade, que durou vários dias. Obrigada pela fome a tentar escapar, foi descoberta, apanhada e tornada alvo da turba cro-magnon. Violada repetidamente em festim da carne viva, acabou por ser poupada, não devido à alvura da pele da sua raça, mas à intensidade rubra dos cabelos. Os recém-chegados passaram a ser os seus donos e os novos senhores do seu mundo esfacelado. Tornou-se mãe de uma criança mista, calada e estranha.
A sua cria ainda durou quatro anos, mas, mais frágil do que as da sua antiga tribo, acabou por morrer aninhada nos seus braços. Atouguia sepultou-a na reentrância de uma falésia calcária, na zona do Lapedo, com alguns mimos de conchas e ossos pintados de ocre e, entre os joelhos, um coelho acabado de sacrificar. Depois, enlouquecida de dor e desesperança, retirou-se para um monte chamado Berlenga e pôs-se a profetizar desgraças para os seus captores e para a mãe Terra, em grandes lamentos que lhe eram revelados — dizia. Este é o rol das suas visões:

1 — Sentada no mais alto dos penedos da Berlenga e embrenhada na minha dor, lastimava a lonjura infinita do mar, quando ouvi uma voz potente atrás de mim. Voltei-me mas só vi uma névoa que parecia o meu pai. Ele falou lenta, mas profundamente, em frases cortadas por silêncios:
2 — Eu vejo o mal que vai assolar o mundo. Vejo turbas em fúria, vejo grandes tribos ser dizimadas, vejo a mãe Terra negar o alimento aos famintos. Aqueles que agora se banqueteiam com as nossas carnes amargarão a crueza da sua violência. Esta Terra que foi sempre mãe solícita e generosa, vai negar-lhes o úbere.
3 — Durante muito tempo, andarão enganados, iludidos pela sua própria expansão. Crescerão, invadirão campos e mares, expulsarão os seres irmãos dos territórios que cobiçam. Serão tantos que a Terra será incapaz de os alimentar. Apertarão o úbere da Terra até o esmagar, mas ele não verterá uma gota.
4 — Pragas envolverão as suas aldeias e tornarão arenosas as planuras. Querendo mais comida para si, espalharão venenos para debelar as pragas que lhes roubarão um resto de sustento. Matarão assim também os insetos úteis e não haverá pólenes a passar de flor em flor. Não haverá mais frutos, nem mais árvores novas, nem mais comida para os animais.
5 — Grandes incêndios engolirão florestas e matos e não restarão animais que eles possam caçar. Quando pensarem descansar, não terão sombras em que se refrescar, o sol queimará as suas peles e não terão descanso. Doenças e maleitas corroerão as suas entranhas e vomitarão os fígados, os bofes e as tripas. Fugirão para lá dos mares, mas o panorama será igualmente desolador.
6 — Vão-se arrastar nas campinas, tentando roer as ervas esparsas, mas elas serão amargas e envenenarão os seus ventres; em vão, percorrerão as margens dos rios e do mar, em busca de vermes e bolores, mas nada haverá que lhes mate a fome, nem água sã que lhes mate a sede.
7 — Os mananciais envenenados serão aterrados e secarão. Alucinados por pestes e epidemias deitarão as culpas aos seus semelhantes e eles próprios se dizimarão. As tribos famélicas e enlouquecidas enfrentarão outras tribos e os cadáveres insepultos secarão ao sol. Nem os abutres lhes quererão arrancar qualquer pedaço das carnes venenosas.
8 — As hecatombes serão diárias. Por fim, será tão evidente a insensata vida que escolheram que muitos se arrependerão, mas será tarde. A mãe Terra será um local morto. E terá de voltar a esforçar-se sozinha para recuperar do cataclismo que esta vil espécie Lhe infligiu.
9 — Esta é a revelação feita a Atouguia, que desvela o futuro da Terra. Ouvi!

Joaquim Bispo

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Por seleção em concurso literário, este texto integra a coletânea "A Arte do Terror Volume 6 ou Apocalipse", projeto da editora Elemental Editoração.
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Imagem: Fernand Cormon, Caim fugindo perante a maldição de Jeová, 1880.
Coleção Museu d'Orsay, Paris.

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