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sexta-feira, 25 de novembro de 2022

A outra

 

Numa noite de início de primavera, Nely Flores enganava o tédio jogando nas slot-machines do casino do Estoril, quando avistou, por entre os rendilhados pintados dos vidros da sala, Galhardo e a esposa, que saíam de braço dado da sala de espetáculos. Todas as noites passava ali duas ou três horas, apostando moedas nas máquinas rigorosamente programadas para a derrotar. Quando o fim do mês se aproximava, tinha de se conter. Para fazer render, jogava a aposta mínima e introduzia as moedas, uma a uma, em vez de mandar carregar a máquina com um determinado valor. Por vezes, limitava-se a bebericar um Alexander no bar do foyer. Ao ver o seu amante com a legítima, gloriosa num vestido comprido rosado, suspendeu o gesto de carregar no botão da máquina, como se tivesse ficado paralisada. Uma profunda névoa de tristeza toldou-lhe o olhar, enquanto via o casal afastar-se. Com a dor na alma, recolheu as quatro ou cinco moedas da bandeja da máquina e dirigiu-se para o bar. Pensativa, desta vez pediu um uísque de malte, tentando atordoar a mágoa que a feria visceralmente.

Não havia direito! A si é que amargava a boca, com o amor de Galhardo, e a consorte é que desfrutava da sua companhia e se exibia a seu lado. A princípio, fora bom. Ele tinha sido generoso e subsidiara a publicação de autor do seu livro. Eram dezasseis contos inspirados na sua experiência de modelo de moda e tinha o título genérico de “Poodles amestrados”. Conseguira impingir uma trintena de exemplares a familiares e amigos, mas a saída em livrarias fora pouco mais que simbólica. Na verdade, não era grande coisa como literatura, admitia. Deixava transparecer um certo ressentimento de fim de carreira.

Envolvera-se com Galhardo nessa situação de dependência de gratidão que os poderosos sabem aproveitar tão bem. E era atento e gentil. Depois de ir a casa dela algumas vezes, e em vista das suas dificuldades para continuar a dedicar-se exclusivamente à escrita, oferecera-se para ser o seu mecenas e deixara um cheque de mil e quinhentos euros. Desde então, um cheque de valor semelhante era deixado na última semana de cada mês. Às vezes, havia um reforço, a meio do mês, sobretudo pelo vício das slot-machines, que entretanto adquirira. Porquê? Morava perto do casino, permitia-lhe sentir que saía e via gente, e, provavelmente, mantinha-lhe uma esperança mal assumida de voltar a ser independente, desta vez pela sorte.

No primeiro ano, ainda fora acompanhante de Galhardo à República Checa e à Polónia, mas, desde então — e já iam quatro anos — nunca mais o acompanhara nas suas viagens de negócios. O contacto que mantinham limitava-se à visita de Galhardo, uma ou duas vezes por semana, nas quais, quase sempre, ele se contentava com um felatio.

Nely andava perto dos quarenta anos e, se não fosse por usar cabelos lisos, em vez de armados, podia dizer-se que era uma réplica da mulher de Galhardo, mais nova. Na verdade, também tinha formas mais generosas, sobretudo o peito. Segundo se lembrava, só uma outra vez tinha visto Galhardo e a mulher juntos, ao vivo. Fora um ano atrás, nesta mesma situação de saída do casino. Também dessa vez, Nely tinha ficado muito perturbada e invejara, como símbolo legitimador, a gargantilha de pedras azuis que dona Matilde ostentava. Nely reconhecera a gargantilha, pelo que tinha dito, algum tempo antes, a sua amiga Gina, que era esteticista no hotel Palace:

Sabes quem esteve ontem lá no salão? — a legítima do teu homem. Ainda rompe meias solas, a socialite! Estava toda elegante, com um colar de ouro, incrustado de pedras azuis. Com um colar daqueles, até eu havia de parecer uma grã-fina!

Nely não gostara da apreciação positiva feita pela amiga, e alardeara uma influência que não sabia se tinha:

Não digas a ninguém, mas ele comprou aquele colar para mim. Eu é que não o quis, porque a pedra do meu signo é a esmeralda, que é verde. O que fazia eu com um colar de pedras azuis?

Essa conversa era uma parte da razão para nunca pôr a gargantilha de safiras que ele, depois de muito pressionado, lhe oferecera.

Igualzinha, querido, tem de ser igualzinha! Não quero sentir-me discriminada. Já passo tanto tempo sem te ter ao pé de mim…

Na verdade, não tinha muitas ocasiões para a usar. Nem achava que fizesse o seu estilo. Era um bocado pesada de mais para a sua idade. Apresentava-se-lhe com ela posta, isso sim, nalgumas das vezes que ele a visitava.

Quanto mais pensava em todas estas recordações, mais deprimida se sentia. E o sentimento por aquela mulher que ocupava, de pedra e cal, um lugar que podia ser seu, era uma dor cortante no âmago do seu ser.

Desculpe, não é a Nely? — ouviu perguntar.

Ao seu lado, estava um homem entroncado e olhar intenso. Quando ela se voltou suficientemente, Albano não teve dúvidas de que era a sua antiga namorada, de há uns doze anos.

Nely, há quanto tempo! O que é feito?

Olá! Por aqui? Albano, não é?

Nunca mais te vi, desde aquela vez…

Pois, deixaste-me a secar!

Atrasava-me sempre, mas daquela vez devo ter exagerado… Nem voltaste a atender o telefone!

Sei que estás bem, que tens uma empresa de segurança, não é? Vi-te na televisão, quando foi dos tiroteios no Porto.

Queriam saber como era em Lisboa. Eles lá matam-se uns aos outros, pelo controlo dos contratos das casas de diversão noturna. Nós aqui temos a coisa dividida por zonas. Eu não me meto na zona dos outros e eles não se metem na minha. Não temos problemas.

Nely não soube em que momento tremeluziu no seu espírito uma centelha inspiradora, certo é que, em certo ponto da conversa sobre seguranças, e sobre o difícil e delicado que é lidar com homens duros, alguns, ex-cadastrados, Nely entreviu uma possibilidade de alterar o rumo da sua vida.

Também tens ex-assassinos na tua empresa?

Tenho de tudo. Isso não é problema. Só me interessa se sabem impor-se fisicamente, em caso de alteração da ordem, na casa noturna onde estiverem a prestar serviço.

Nely baixou os olhos, pensativa. Albano reconheceu nessa posição a longínqua imagem da amiga, com quem nunca chegara a vias de facto. Nely, após reviver por momentos o rancor que sentira há pouco, ao ver a sua rival, resolveu arriscar e aproximou o rosto do ouvido do ex-namorado.

Achas que consegues arranjar-me um fulano para um trabalhinho realmente sujo?

Albano hesitou um momento.

Sujo, como? Dar uma coça, partir as perninhas?

Apagar uma certa pessoa.

Albano quedou-se um pouco a contemplar o rosto decidido de Nely. Como estava diferente da jovem suave e um pouco tímida que conhecera anos atrás!

Caramba, Nely, não estou a reconhecer-te! Mas arranjo-te o que precisares. Deixa-me pensar! Olha, depois de amanhã, às onze, encontra-te comigo no miradouro da Boca do Inferno. Talvez já tenha alguma coisa para ti.


À hora combinada, chegou Albano. Nely, encostada à amurada do miradouro, fingia contemplar o infinito. Na verdade, controlava, discretamente, o acesso pedonal, um pouco insegura sobre quem apareceria. Albano cumprimentou-a e sugeriu o aconchego discreto de um banco de namorados incrustado na rocha. Foi direto ao assunto.

Nely, não chegámos a falar a sério sobre o que pretendes. Tens consciência de que é uma coisa muito grave e que deve ser rodeada de todas as cautelas?

Sim. O que queres dizer?

Sabes, não há operações perfeitas. Há sempre alguma coisa que corre mal, algum imprevisto. Tens consciência disto?

Nely acenou fracamente, sem dizer nada. Albano continuou.

Estás disposta a avançar, sabendo que, se der para o torto, somos todos envolvidos e presos, incluindo tu?

Estou — respondeu, endireitando o tronco e adotando uma expressão voluntariosa.

Ok! Então, é assim: há dois gajos que fazem isso, mas querem dois mil contos cada um. Vinte mil euros pelos dois. Estavas a contar com este valor?

Bem, sim! Eu não tenho esse dinheiro, mas tenho uma coisa que o vale. Uma gargantilha de safiras. Olha! — sugeriu, virando a abertura da mala de mão para ele. — Vale bem mais que isso.

Ok, talvez. Lembra-te que um recetador não dá o dinheiro que isso custou na loja. Mas vamos ver. Depois digo-te se chega. Agora, preciso de saber quem é o “feliz contemplado”.

Estás a ver o Galhardo dos vinhos? A mulher! — informou, estendendo uma revista do social a Albano. — É esta das fotografias.

Fihu! — assobiou Albano. — Não sei se os gajos vão querer. Logo se vê. Como é que ela se chama?

Matilde. Vive numa quinta em Sintra e dorme sozinha num quarto no rés-do-chão da casa. É fácil.

Tens pressa nisso? Tens algum método preferido?

Nely evocou a imagem da rival, radiosa, de colar a rodear o pescoço.

Enforcada! Pendurada por aquele pescocinho flácido. Assim que puderem.


Ainda nessa noite, Albano chamou ao seu gabinete os dois homens que tinham aceitado fazer o trabalho. Fora uma escolha acertada, à primeira.

Zezé; Bruno; já tenho os elementos que vocês vão precisar. É esta gaja — apontou, mostrando uma revista, em que avultavam fotografias de dona Matilde em várias divisões da sua casa de Sintra. — Vejam bem a gaja e as fotografias da casa, e estudem a localização aqui no Google Earth — adiantou, mostrando o ecrã do computador.

Chefe, já tem a “narta”? — quis saber Zezé.

Já! Tenho isto — asseverou, mostrando a gargantilha. — São pedras verdadeiras. Se levarem isto a Espanha, de certeza que conseguem mais de trinta mil euros. Vou cortá-la ao meio. Se aceitarem o trabalho, levam já metade. Quando acabarem, vêm buscar o resto. Pode ser assim?

Conte connosco, Chefe! — confirmou Zezé.

Se conseguirem sacar mais alguma coisa de valor lá da casa da gaja, é convosco. Até convinha, para parecer um assalto que se descontrolou. Mas, se trouxerem de lá alguma coisa, isso é material que queima. Tenham cuidado com ele. Não é como este.

Esteja descansado! Nós sabemos o que fazemos.

Claro. Era só para lembrar. Agora, queria ter uma conversinha muito séria convosco — explicou Albano. — A ti, Zezé, já te conheço desde os Fuzileiros. Sabes que um camarada nunca lixa outro. Se alguma coisa correr mal — e nestas coisas nunca se sabe o que pode acontecer — lembrem-se que é muito mais útil um amigo que possa fazer alguma coisa por nós, que um que esteja tão tramado como nós. O que eu quero dizer é o seguinte: se algum de vocês for preso, não lixe mais ninguém. Por um lado, eu ia negar tudo; depois, comigo cá fora, sempre vos posso contratar um advogado que valha alguma coisa. Fui claro?


No dia seguinte, Albano voltou a encontrar-se com Nely, para lhe dar conta da evolução do processo.

Está tudo tratado, Nely. Eles aceitaram o trabalho e o pagamento. Agora, é só esperar. Estou convencido de que vai correr tudo bem, que eles são homens de confiança. Por ti, deves fazer uma vida completamente normal, sem qualquer alteração, quer até ao dia D, quer depois. Nós próprios não devemos voltar a ver-nos, pelo menos sem deixar passar muito tempo e deixar arrefecer o caso.

És um querido! — regozijou-se Nely, dando um beijo na face de Albano. — Não sei como te agradecer!

Uma mulher bonita encontra sempre uma maneira de pagar um favor, se quiser — sentenciou Albano, com voz maliciosa.

Maroto! — protestou Nely, sorrindo.

Joaquim Bispo

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Este conto integra a coletânea Tempo de Vilões — resultante de concurso literário —, disponível na Amazon, em formato eBook Kindle. https://www.amazon.com.br/gp/product/B0BB52VNKX?fbclid=IwAR1GOZxMaC6Ka3Ae6NUGvQej0wTpM_UQ6ZN7bn8bpvBykJkP0XeUIn7nJr8

*

Imagem:

Édouard Manet, Nana, 1877.

Coleção Hamburger Kunsthalle, Hamburgo, Alemanha.

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sábado, 19 de novembro de 2022

Nada menos que isso


 

Faz dias que não consigo dormir. O vento jogado pelo ventilador soca a minha pele, como uma massa concreta, informe. Qualquer superfície em que me deito espinha ou urtiga. Apesar do tempo brando, há um calor infernal no meu quarto; o sol parece dormir neste canto. Penso em marcar um médico, mas ainda não estou certo de que especialidade, se psiquiatra ou neurologista do sono. Ao mesmo tempo, tenho receio de saber que se trata de loucura ou de tumor no cérebro – meu pai morreu disto. Minha filha é o meu único contato com o mundo, desde março de 2019 – fora a dona Neci, a diarista, que mal fala e pouco vive. Lina vem em dias alternados, sempre que pode. Quando me queixei de desconfortos, ele quis me levar à emergência, mas logo menti, dizendo que havia melhorado – tenho horror a hospital. Já me desfiz do aquário com os dois peixes; dei-o à dona Neci, que deve, também, ter dado um fim inútil – não a vejo cuidando de bichos. A decisão se deu para salvá-los; não me perdoaria se algum deles morresse sob a minha tutela. Aliás, acho uma péssima escolha criar bichos enjaulados. Parece que é uma necessidade, quando é uma carência que só diz respeito a mim; eu que tente resolver os meus problemas. Aceitei o presente de Lina porque seria uma desfeita devolvê-los, e porque ela disse que eu estava muito só, depois da morte de Maria, minha mulher. Agora, devo arranjar um artifício para explicar o “desaparecimento” dos coitados. Que algum deus lhes dê um bom destino. Pois bem, me livrar valia mais a pena do que fingir para minha filha que seríamos bons amiguinhos. Tenho tremeliques no corpo, que me impedem de escrever, um bom hábito que tinha. Até as pálpebras dançam sobre os olhos, em frenesi. Aproveito as poucas horas no dia em que minhas pernas não formigam ou latejam para tomar banho e comer. Tenho lido notícias sobre o mundo, e não são nada boas. Se fosse egoísta, pedia a Deus para mandar logo um meteoro, de modo a acabar logo com tudo. No entanto, com relação ao meu mundo, peço o fim; imediato. Sempre pensei que só haveria sentido em viver se houvesse dignidade. Nada menos que isso. Trabalhei feito um jumento e entreguei parte da minha fortuna ao país, para me aposentar. Tenho para o trivial, para comprar os meus remédios, para fazer as compras; inclusive, para pagar um agrado ao José, o servente do prédio, para trazer o meu almoço e alguma coisa da farmácia e mercearia. Rezo pelo dia em que possamos nos livrar do estúpido conservadorismo e da religiosidade doentia. Tinha o plano de morrer através da eutanásia. Mas, no Brasil, isso ainda é uma nuvem vaga. Não sei se devo descobrir o meu mal. Estou esperando que a natureza faça o seu papel, me tire daqui e dê espaço para uma nova vida que queira viver. Já chega de amolação.





quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Dentro dos glóbulos brancos e vermelhos

 









domingo, 13 de novembro de 2022

"O Cheiro do Medo"

 

“O bando de homens está com medo. Sei-o bem, porque sou um cão e ao meu olfacto chegou o cheiro ácido do medo”.

A maior parte das vezes em que sinto este cheiro, facilmente descubro de onde vem esse medo. Hoje está a ser muito mais complicado, porque por mais que me esforce ainda não consegui descobrir a razão de tanto medo. Não sei se estão à espera de serem vítimas de alguma emboscada ou se o medo advém daqueles momentos que antecedem os grandes golpes.

Se estão a preparar um assalto a casa, desiludam-se, ó medrosos, que eu cá estou para vos fazer frente. Sou um cão de guarda e desde cachorrinho que tenho treino específico para esse mister.

Não é para me gabar, mas posso dizer que já fui posto à prova várias vezes e com grande sucesso. Lembro-me que uma vez tive de me confrontar com um perigoso malfeitor, de grande calibre e sem ajuda de ninguém consegui pô-lo em fuga. Nem é por acaso que os meus donos decidiram baptizar-me com um nome cheio de significado, Leal.

O cheiro ácido do medo chega-me ao olfacto cada vez mais intenso. A sua origem não pode ter nada a ver com coisas comezinhas. Tenho cá um arrepiante pressentimento de que o medo tem a ver com algo de sobrenatural, talvez com almas maléficas do outro mundo.

Afinal de que têm eles medo? Poderá também ser de algum animal feroz ou de algum ajuste de contas entre bandos rivais. Tenho ouvido histórias contadas ao serão acerca de autênticas guerras. Continuo sem dar resposta a esta minha interrogação.

Também não consigo distinguir bem, quase que nem vejo sombras, porque é noite cerrada e o único fraco ponto de luz está colocado no lado contrário. Vou-me esforçando por tentar descortinar alguma coisa, mas por mais que tente fazer jus à minha excelente visão, nada consigo. Sei que são cinco, não pela intensidade do som, o bando fala baixo, mas porque oiço cinco timbres bem diferentes de sons vocais. Sou sobredotado nestas coisas da audição, tenho ouvido absoluto e consigo facilmente distinguir os timbres uns dos outros, no meio de qualquer algaraviada. Também sou capaz de afirmar com toda a certeza que o bando é composto por homens não muito velhos, porque quando falam não arrastam as palavras, têm a fala fluente.

Sou capaz de descodificar o mais insignificante ruído, nasci assim, confidenciou-me uma vez a minha mãe, que recorria frequentes vezes a mim, quando andávamos juntos pelos montes da herdade de noite. A guarda que montávamos só era eficaz se soubéssemos distinguir todos os ruídos, para saber aquilo com que podíamos contar. A minha mãe ensinou-me muitas coisas importantes que me ajudaram ao longo da vida e uma era conseguir distinguir bem os sons uns dos outros.

De dia é mais fácil, porque ouvimos e vemos bem, de noite, além da visibilidade ser reduzida, ela está cheia de ruídos esquisitos e como não vemos os autores deles, ficamos perdidos.

Hoje estou completamente perdido e desorientado, com o que está a acontecer neste momento. Oiço as diferentes falas, mas não consigo distinguir quem é quem, mas sei que o bando de homens está com medo, não pelo que dizem, mas pelo cheiro que chega ao meu olfacto.

Agora oiço um outro som que vem chegando, mas que não consigo descodificar. Não consegue chegar lá, fico-me pelo ruído e não sei de que ruído se trata. O som não me é familiar, nunca antes em circunstância alguma o ouvi. Nada tem a ver com os sons que oiço desde o meu nascimento e que tenho aprendido a distingui-los.

Não consegui descodificá-lo, só fui capaz de o associar a uma imagem virtual ao decompor aquele som em todas as suas camadas. O resultado deu numa espécie carreta puxada por estranhas criaturas. Assim que aquela chocolateira estancou, ouvi um ranger de uma porta a abrir-se e um movimento de alguma coisa a saltar paro o chão.

Não sinto nenhum odor. Essa coisa que saiu da carreta não tem cheiro. Um verdadeiro fenómeno da natureza, porque tudo o que é da natureza tem cheiro. O cheiro ácido do medo veio em crescendo, à medida que aquela coisa sem cheiro caminhava ao encontro daquelas cinco criaturas. Quando o meu olfacto estava prestes a atingir o grau máximo do suportável aquele bando de homens também deixou de ter cheiro.

 





quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Amendoim

O sujeito tinha muito orgulho do nome, enchia a boca cada vez que lhe indagavam, mesmo que para uma simples anotação no caderno de fiado da padaria da esquina. Cultivava este sentimento desde a infância quando observava as assinaturas nas cédulas. Quem sabe um dia fosse tão importante quanto um Ministro da Fazenda ou se não, ao menos Presidente do Banco Central.

Para as primeiras assinaturas, gastou folhas e folhas de papel, horas e horas rabiscando até chegar ao traço perfeito, a chancela que representava toda a dignidade de seu nome. Depois de tanto praticar, acreditava que a sua assinatura possuía traços únicos, garantia de exclusividade.

Tudo que usava era personalizado, o que incluía roupas, acessórios, a mobília que usava em casa ou no escritório. Fez aulas de pintura e de desenho para poder aplicar a assinatura em suas obras. Fez dela também a sua logomarca.

Com o passar do tempo, o Senhor Afonso Carlos de Mendonça passou a ocupar funções de destaque na empresa, chegando à Presidência. Sentia o maior prazer em esvaziar tubos e tubos de canetas esferográficas nas infinitas páginas de documentos que assinava.

Na empresa foram incontáveis os contínuos e estagiários que passaram pela sua frente. Nunca prestou atenção a nenhum deles. Certo dia, foi diferente. Um menino, que atuava como menor aprendiz, levou-lhe, como de costume, uma pilha de documentos para assinatura. Afonso examinou cada um e depois de passar por todos, começou sua sessão de assinaturas.

Testou a caneta, arrumou os objetos sobre a mesa para um melhor posicionamento dos papéis. Já ia assinar o primeiro documento, quando lembrou que não havia conferido o padrão da assinatura. Puxou uma folha de uma das gavetas. O papel já possuía algumas assinaturas, apôs uma nova logo abaixo da última, comparou com o gabarito e sorriu. Respirou fundo e cuidadosamente fez cada uma das assinaturas nos documentos. Tudo com muita calma e esmero.

Percebeu que o menino segurava um dos documentos e olhava com atenção os traços da marca. Curioso, resolveu questionar o menino.

− Gosta de assinaturas?

− Sim, as observo sempre.

 Tem uma?

 Todos têm, desde que aprendem a escrever, senhor. – disse, educadamente, o menino.

− Falo de uma marca pessoal, algo elaborado, como a minha, por exemplo.

− Não senhor, assino meu nome por extenso. Acredito que um dia uma nova assinatura surja espontaneamente.

− Pois eu elaborei a minha com muito cuidado. É o que nos diferencia, sabe?

− Sei.

− Mas se não acha uma assinatura elaborada importante, por que observa tanto a minha?

− Fiquei curioso.

− Com os traços? Com a inclinação? Com a pressão exercida sobre o papel? Ou seria com velocidade que é escrita?

− Não. Estranhei o fato de alguém escolher uma única palavra como assinatura. É um apelido?

− Como assim, um apelido? É uma representação de Afonso Carlos de Mendonça!

− Me desculpe, senhor. Para mim, está escrito: A-men-doim, apontando as partes da assinatura com o dedo

Afonso olhou para a folha de papel, sua face se tornou branca, quase transparente. Olhou novamente para o documento, depois para as assinaturas dos quadros de própria autoria espalhados pela grande sala, para o bordado no lenço do bolso do paletó, para a gravação em baixo relevo nos vidros do prédio, tudo, tudo grafado com o maldito A-men-doim. A terrível palavra reproduzida pelo menino, ecoava em seus pensamentos e o atordoava.

A palidez no rosto deu lugar ao rubor, veio a dor no peito e depois a escuridão. Não resistiu.

Afonso era intolerante a amendoim. Como ninguém sabia disso, estamparam a assinatura dele em sua lápide, logo abaixo da transcrição de uma de suas falas preferidas: “Todo homem precisa deixar sua marca, será a sua identidade e o seu passaporte para a eternidade!”.





quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Despedida de mãe


 

Não te admires se esta cartinha não for muito longa nem muito coerente, é que, com a inúmera medicação que me dão, os meus períodos de consciência são sempre curtos e nem sempre muito racionais. E apesar de me dizerem que não devo desesperar, que enquanto há vida há esperança e outros chavões similares, pressinto que talvez seja melhor deixar-te algo meu, uma mensagem, digamos, para o caso de eu não sobreviver.

Ainda não te vi sem ser em fotos e começo a pensar que não chegarei a ver-te e muito menos a tocar-te. Não podes sair da incubadora que te mantém vivo e eu não posso deixar estas máquinas que tentam manter-me presa à vida na vaga esperança de que o meu corpo comece finalmente a reagir favoravelmente.

Irónico, não é, estarmos ambos dependentes de máquinas, tu no início da tua vida e eu no fim da minha?

Mas divago. O que realmente te queria dizer é que nos curtos meses que tivemos juntos, em que te senti plenamente dentro de mim, me trouxeste uma imensa felicidade. Não és o meu primeiro filho, o teu aparecimento foi até uma surpresa numa altura em que pensava que tudo isso ficara há muito para trás. Mas confesso que, passada a surpresa e o pânico iniciais, passei a ver-te como um verdadeiro milagre, apesar dos usuais profetas da desgraça insistirem em falar nos perigos de uma gravidez na minha idade e estado de saúde.

Fiz, contudo, ouvidos moucos a tudo isso e concentrei-me em apreciar ao máximo uma experiência que, por muito que seja repetida, é sempre nova, sempre diferente. É certo que nem sempre me sentia bem, os célebres enjoos matinais atacaram cedo e em força e nunca chegaram a desaparecer totalmente. E para quem sofre tanto da coluna como eu, uma gravidez não é certamente a melhor opção.

Passei estes longos meses a imaginar como iria ser a nossa vida depois de nasceres, como serias... sim, nem sabia que eras um rapaz, preferi ter a surpresa completa, a da gravidez e a do teu sexo. Estranhamente, uns dias tinha a certeza absoluta de que serias uma menina, finalmente, com quem um dia poderia ter o tipo de conversas entre mãe e filha com que sempre sonhei. Mas noutros, bom, tinha a mesma certeza de que viria aí mais um rapaz, para grande alívio do teu pai que até tinha pesadelos com a ideia de ter uma filha na idade dele.

Pensei também muito nos erros que não repetiria e no muito que aprendi com os teus irmãos. Mais velha agora, muito mais velha, e mais ciente de quem sou, seria certamente bem melhor mãe do que fui com eles, sempre pressionada por problemas económicos e falta de tempo, aliados a uma boa dose de estouvadice e ignorância próprias da minha pouca idade.

O problema é que o mundo mudou, e de que maneira, por isso o mais provável seria cometer outro tipo de erros, quem sabe se mais graves. Mas, infelizmente, estou certa de que não estarei cá para ver isso acontecer, terão de ser os teus irmãos a ajudar a educar-te, é que Raul, o teu pai, nunca foi muito bom nesse tipo de coisas, é mais um homem de “panoramas gerais”, os detalhes do dia-a-dia passam-lhe quase sempre ao lado.

Gostaria imenso de me aguentar até poder ver pelo menos uma foto decente de ti, és tão pequeno e tens tantos tubos e coisas em cima que nem te consigo ver a cara. E não me posso basear nos teus três irmãos, são todos tão diferentes uns dos outros e foram-no sempre, desde a nascença, apesar de terem saído todinhos à família do teu pai. Era, pois, bom que saísses à minha, serias uma recordação viva para quando eu já cá não estiver.

Mas não é só a parte física que me passa pela mente. Nos meus curtos períodos de lucidez dou por mim a imaginar os teus primeiros passos, a primeira palavra que dirás, o teu primeiro dia de escola, se gostarás tanto de ler como eu, a tua primeira paixoneta, enfim, tudo o que virás a sentir e a viver ao longo de uma vida que espero que seja bem longa e preenchida.

Sei que serás muito acarinhado e apoiado pelo teu pai e irmãos. E isso sem esquecer a Ana, a tua única cunhada até à data, que também está grávida, terás pois um sobrinho quase da tua idade. Gosto muito dela, é muito boa rapariga e não duvido de que virá a ser uma mãe ótima para os filhos que tiver e para ti, uma vez que já me prometeu que zelaria por ti “caso aconteça alguma coisa”.

E sei bem que cumprirá, o mais provável será até vires a ser criado na casa dela até teres idade suficiente para ires viver só com o teu pai. Sim, só com ele, porque nessa altura já os teus irmãos terão a sua própria vida, poderão até estar casados e com filhos seus, que serão mais irmãos para ti do que propriamente sobrinhos.

Espero que te falem de mim, que venhas a saber alguma coisa sobre quem te trouxe ao mundo de um modo tão desastroso. Apesar de me recusar a aceitar maus agouros, algo me levou a organizar álbuns de fotos em que eu sou o tema principal, tudo devidamente legendado para que não precises de recorrer a ninguém para saberes o que representam. E mandei converter em DVD os velhos vídeos que tínhamos de festas familiares, férias e outras ocasiões para que os possas ver à vontade – e com ordens estritas ao teu pai para que faça nova conversão caso o DVD deixe de existir...

É pena já não teres avós e nunca teres tido tios, mas com quatro irmãos e mais um sobrinho – ou sobrinha – a caminho não te faltará família para te acarinhar e te dizer quanto foste amado e desejado, apesar da surpresa tremenda que foi a tua conceção.

Mas há uma coisa que só eu te posso dizer, daí a razão de ditar esta cartinha à simpática enfermeira que cuida de mim durante a noite: é que, mesmo sem nunca te ter visto ou tocado, posso afirmar, sem a menor hesitação ou dúvida, meu querido Rui, que foste o sol do final da minha vida.

Luísa Lopes

Photo by charlesdeluvio on Unsplash






quinta-feira, 3 de novembro de 2022

NAS ÁGUAS DO RIO


 

Aquele teu short de estrelas

não saiu de minha constelação mental,

em que eu te vislumbrava nítida e nua

e na noite o teu perfume se misturava

aos perfumes da noite, tornando-a impregnada

de um conteúdo que era ao mesmo tempo

ferino e feminino e ardente.

Lembrança de água barrenta na boca

e o teu corpo exposto que estava

ao papel transparente do sol sobre o tecido.

 






sexta-feira, 28 de outubro de 2022

O Ataque

 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 3   

O justo se alegrará quando vir a vingança; lavará os seus pés no sangue do ímpio.

Salmos 58:10

 

— Então? — A voz de Zia, companheira de Erem, trouxe-o de volta à realidade. O rosto dela, uma pequena mancha de lama branca emoldurada pela enorme cabeleira negra, estava irreconhecível. Ela insistiu batendo com o cabo da lança no chão. — É agora ou nunca, temos de aproveitar que estão ainda a dormir.

— Eu sei. — Erem estava reticente. — Não sabemos quantos estão ali, pergunto-me se não seria melhor ir fazendo algumas emboscadas aos grupos de caça deles e matando-os gradualmente. Se o número deles reduzir, de certeza se mudarão para longe.

— Isso exigirá tê-los sempre vigiados. — Considerou Lemi. — Não somos assim tantos para fazer isso.

— Não vamos vingar o meu irmão? — Naci parecia estar sempre zangado, mesmo sem a justificação que tinha agora. — Não quero saber se fogem ou não. Mataram Nuri; por um dos nossos, terão de morrer pelo menos três deles! — Ele ostentava ainda as marcas da luta, principalmente um enorme hematoma que quase lhe fechava um dos olhos.

— É verdade que nunca mataram antes… sempre se limitaram a fazer-nos fugir e levavam a caça. — Considerou Asil. — Tu e o Nuri é que reagiram quando eles tentaram levar a gazela. Depois tivemos de atacar todos para vos ajudar e mesmo comigo, Civam e Ediz, todos os cinco, não conseguimos vencer apenas quatro deles.

— Querias fugir e deixá-los levar a comida do clã? — Naci olhou-o incrédulo. — Nuri estava certo, hoje tiram-nos a caça, amanhã roubam-nos dentro da própria aldeia.

— Basta! — Exigiu Lemi. — Fazemos muito barulho.

— Mesmo assim, — Cortou nervosamente Su, a mulher de Naci. — não sabemos contra quantos vamos lutar. — Ela penteou um dos lados da longa e escorrida cabeleira negra, soltando as folhas que estavam presas nela. — Se forem mais que nós…

— Quem não quiser vir que vá embora agora! — Exigiu Zia com os dentes cerrados. — Estamos a perder o tempo que precisamos. Mesmo que se vão todos embora, eu ficarei e haverei de mandar para o mundo das sombras pelo menos um.

— Eu também fico! — Afirmou Naci batendo com a lança no chão e logo secundado pelos seus irmãos Tekin e Asil.

— Parem com isso! — Ordenou Erem. — Claro que temos de ir todos. Vamos vingar o meu filho e dar-lhes uma lição que não esqueçam. Temos de entrar e matar os que nos aparecerem pela frente e, ao meu sinal, ou de Lemi, fugimos de novo para este sítio onde estamos agora. Aqui, esperamos a ver se nos tentam seguir, antes de regressar às nossas casas. Perceberão que a sua ação teve consequências e deverá ensiná-los a manterem a distância ou mudarem-se para longe.

Começaram a descer da crista ocultando-se nos tufos de vegetação. De súbito, Lemi percebeu movimento na entrada da gruta e fez um gesto aos outros. Habituados a serem comandados nas caçadas, imobilizaram-se em silêncio.

Na enorme abertura surgira um dos homens-macaco. Era baixo, como todos os da sua espécie, com os braços e as pernas cabeludos que pareciam troncos de árvore, grossos e duros. Cada soco daqueles punhos nodosos e desproporcionais tinha a força de uma pedrada. O cabelo hirsuto, indistinguível das barbas que lhe caíam pelo peito, tombava sobre o rosto quadrado de celhas negras e grossas que encimavam a arcada supraciliar saliente. Os olhos pequenos e vivos estavam semicerrados quando o indivíduo se abeirou da borda, soltou um ruidoso traque e começou a urinar algures do meio das peles que o envolviam. Assim que terminou, esfregou os olhos, soltou uns roncos preguiçosos e olhou em volta, farejando o ar. Satisfeito com a avaliação, regressou ao interior coçando as nádegas.

Em resposta a novo sinal, todo o grupo reiniciou a progressão começando a subir a encosta enquanto dois deles ficavam para trás certificando-se de que não havia o perigo de serem atacados pelas costas. Quase não era preciso falar, todos eram experientes caçadores e estavam bem habituados a vigiar as costas uns dos outros para não serem surpreendidos por algum outro predador quando caçavam. No ano anterior, um dos filhos de Lemi fora morto por um leão quando corria atrás de uma corça e um cunhado de Zia, acabara por morrer na aldeia vítima dos ferimentos provocados por um urso.

Naci, sempre mais arrojado, lançou-se na escalada primeiro que os outros, logo seguido do irmão Tekin e de Fuat um dos filhos mais novos de Lemi, ansiosos por mostrar o seu valor. A subida não foi difícil; os invasores usaram os pequenos socalcos, invisíveis a partir de baixo, que deviam ser usados pelos habitantes da gruta e rapidamente Tekin e Fuat ultrapassaram Naci, chegando ao patamar à frente de todos os outros.

Lemi soltou um pequeno silvo para que os dois mais jovens se detivessem, enquanto Zia o ultrapassava também. Ele era o mais velho e ficava para último. Os dois rapazes desapareceram na borda do penhasco e já Naci e uma das cunhadas de Erem os seguiram. No momento seguinte ouviram-se vozes e gritos irados que ecoaram vale e espantaram um bando de aves de uma das árvores que crescia inclinada sobre o barranco. Já Erem, um dos seus irmãos, Zia e um irmão dela se guindavam para a plataforma. Havia luta na entrada da gruta e um corpo voou sobre os que ainda escalavam, batendo no fundo da ravina com um baque surdo; Lemi reconheceu o seu filho Fuat. À medida que mais invasores atingiam o patamar, a gritaria intensificava-se; dois corpos agarrados tombaram do patamar e rebolaram na encosta arrastando com eles dois dos invasores que descansavam na subida. Quase derrubaram Lemi que se viu de repente o único na face do barranco. Havia cinco corpos no fundo, e só um era dos homens-macaco.

Sem fôlego para subir mais depressa e desesperado por ir ajudar os companheiros, Lemi esforçava-se ao máximo. Um dos inimigos voou por cima dele com um grito silenciando-se em simultâneo com o baque no solo duro. Várias pedras e algumas lanças caíram em seguida.

Depois da sua subida imprudente, Fuat, Tekin e Naci, viram-se num patamar, meio direito, com cerca de dez metros até à entrada da gruta, de onde saíam quatro homens-macaco gritando de forma alarmante.

Um deles gritou-lhes incompreensivelmente, mas o outro disse com clareza: —Vão embora!

Naci não estava ali para conversar; atirou e cravou a sua lança no pescoço do que falara a língua deles. Tekin imitou o irmão, mas falhou o alvo que se esquivou agilmente. Os três defensores restantes atacaram os invasores de mãos nuas e soltando gritos selvagens.

Fuat não conseguiu usar a lança, partida de imediato pelos braços fortes do oponente que logo o agarrou pelo pescoço. Sem conseguir opor-se-lhe, o filho de Lemi conseguiu pegar a faca de pedra da sua bolsa e cravou-a várias vezes no ventre musculoso do homem-macaco. Este soltou um grito lancinante e empurrou o infeliz do penhasco.

Tekin, esquivou-se habilmente do ataque do seu inimigo e foi mais feliz com a faca do que com a lança, conseguindo espetá-la profundamente entre as costelas do outro.

Havia já mais companheiros a subir ao patamar e a ajudar Naci que, caído no chão, era alvo dos socos impiedosos do seu oponente. Zia cravou-lhe a lança nas costas e um companheiro pontapeou-o no rosto assim que ele caiu, espetando-o várias vezes no peito a seguir.

O homem-macaco que Tekin espetara soltou um enorme grito de fúria e agarrou-o pelo tronco, prendendo-lhe os braços tentando esmagá-lo. Asil correu em socorro do irmão e espetou a lança nas costas do inimigo que, na tentativa de fuga, precipitou-se com a sua presa no vazio.

Da entrada da gruta soavam novos gritos e vários homens e mulheres-macaco corriam na direção deles, enquanto outros atiravam pedras e lanças grosseiras: eram mais de vinte! Mais dois dos atacantes tombaram feridos.

Eda e Ezgi, respetivamente cunhadas de Erem e Zia usaram as fundas em que eram exímias e derrubaram alguns dos defensores, causando a confusão entre os restantes. As lanças bem apontadas de Erem e dos outros causaram mais vítimas e pararam a investida, com exceção de um deles que se chegou perto o suficiente do grupo invasor para sofrer vários golpes de e tombar imóvel. Havia agora vários corpos caídos na área da esplanada.

Os defensores, refugiados na entrada da caverna, atiraram nova chuva de pedras e lanças com pouco efeito, tirando alguns feridos ligeiros. Eda e Ezgi causaram novas vítimas com as suas fundas que tinham um alcance muito maior, fazendo os inimigos recuarem ainda mais para o interior. Lemi chegava nesse momento à borda do patamar.

Erem tentava assimilar rapidamente a situação complicada em que se encontravam; não podiam investir, pois, os outros eram em número superior e eram precisos vários para liquidar apenas um deles, além disso, já tinham vários feridos e seriam rapidamente suplantados. — Desçam depressa, vamos, fujam! — Gritou decidido na borda do patamar. — Eda, atira-lhes mais pedras, mantém-nos lá dentro. Cemil, ajuda-me, atiremos-lhes com as lanças deles.

Enquanto os restantes desciam e ajudavam os feridos, um pequeno grupo de quatro tentou manter os inimigos à distância, mas as lanças eram mais pesadas e mais toscas, caíam quase sem força ou batiam inutilmente nas paredes da gruta.

Vendo que o número de atacantes era irrisório, os homens-macaco começaram timidamente a sair da gruta atirando mais pedras e os quatro resistentes tiveram de se lançar na descida de forma meio atabalhoada. No fundo do barranco, já os outros acabavam com um dos inimigos que ainda estava vivo e arrastavam os seus mortos e feridos pela encosta contrária.

Enquanto Eda descia, Asli conseguia atirar com a funda algumas pedras bem colocadas para assobiarem à cabeça dos defensores que se atreveram a espreitar na borda do penhasco, mas isso não impediu que uma chuva de grandes rebos caísse sobre eles. Um dos projéteis acertou com força sobre as costas e ombro de Erem fazendo-o cair e foi Cemil, seu irmão, quem o ajudou a refugiar-se com os restantes atrás da crista onde haviam iniciado o desgraçado ataque.

Gritos de vitória e de desafio dos defensores, postados na borda do penhasco, faziam-se ouvir.

Cheio de dores, Erem olhou para os companheiros; Fuat e Alev estavam mortos, Tekin estava bastante ferido e teria de ser carregado, quase todos ostentavam ferimentos mais ou menos ligeiros, com exceção de Lemi que estava pálido de cansaço, ofegante e com a cabeça entre os joelhos.

Apesar de terem causado bastantes vítimas, o resultado era pior para eles. Os homens-macaco ganharam o combate.

 

 

 

Manuel Amaro Mendonça

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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

A chave do guarda-joias

 


Túlio já era um pouco entradote quando se apaixonou por Georgete. Reconheceram afinidades num grupo católico, que organizava ações de apoio social nos bairros de barracas que iam cercando a capital. Nesses finais dos anos 60, a cidade abarrotava de migrantes internos, à procura de ocupações com salário, que os campos negavam cada vez mais, e o grupo tentava minimizar o choque com as condições degradadas que encontravam.

Ele já tinha uns anos de contabilidade na Frutuoso e Irmãos, ali ao Conde-barão, uma empresa de equipamentos de escritório; ela, a fazer os vinte e três anos, dava os primeiros passos na promissora carreira de datilógrafa, na mesma firma. O namoro foi rápido, mas contido, e o casamento, bastante frugal, não juntou mais de trinta pessoas. Foram viver para um andar antigo, mas espaçoso, que a empresa dispunha em Campolide e cedeu por empréstimo de 10 anos ao diligente funcionário, o que ajudou Túlio a convencer a mulher a dedicar-se exclusivamente ao lar.

Ordenado e assíduo, todas as tardes de sábado, depois de almoço, Túlio aproveitava a recente regalia da semana inglesa e transformava-se numa espécie de fauno das assoalhadas. Pelo pequeno labirinto da casa, perseguia a jovem esposa, que, antevendo a captura inevitável, fugia em alvoroço de risadas e gritinhos, acicatando o instinto predador do caçador. Os vizinhos não tinham nenhumas dúvidas do que acontecia, quando o clamor da presa emudecia. O ritual semanal manteve-se cronometricamente regular e tinha o condão de lembrar a um ou outro casal das redondezas que ainda não tinha cumprido o compromisso conjugal semanal. Nasceu até uma criança, no prédio do lado, a quem puseram o nome de George, que nunca conseguiu convencer os pais a contar-lhe porque raio lhe tinham posto aquele nome.

O 25 de Abril constituiu um choque enorme para o casal. O valor das ações em que Túlio ia aplicando as poupanças esfumou-se naquele dia. Os aumentos de salários que a convulsão social trouxe, começou a desencadear um fenómeno quase desconhecido — a inflação. Túlio pensou muito, antes de se decidir a explanar à mulher a situação económica familiar e a propor-lhe que voltasse a trabalhar fora de casa. Havia muitas indefinições a ultrapassar e muito perigos a evitar.

Já podias ter falado há mais tempo, querido! Não, não me importo nada; não é coisa que eu não tivesse já pensado. Só acho que, se calhar, estou um pouco destreinada. Mas tudo se aprende.

Um mês depois, Túlio chegou com uma novidade.

Amorzinho, já te arranjei trabalho. Falei com o meu amigo Queiroz da contabilidade da Contugal e ele disse que podes começar como assistente da secretária dos vendedores. Para começar, não é mau, pois não?

Está bem. Vais ver que aprendo depressa.

Claro, não tenho dúvidas. Mas estou tão preocupado. É que eu sei como são os vendedores. E vejo bem o que acontece na Frutuoso. Anda toda a gente enrolada com toda a gente. E esses não são os nossos valores, pois não?

Ó querido, até me ofendes. Para mim, pode vir o mais pintado…

Eu sei, eu sei, amorzinho; mas mesmo assim. Esta modernice de homens e mulheres trabalharem juntos provoca devaneios, oportunidades. Acho que devíamos jogar pelo seguro. Não podemos dar azo à malícia, nos tempos que correm. “A ocasião faz o ladrão”, como bem se diz. Sabes o que me deixava mesmo tranquilo? Era deixares a pombinha em casa. Muita gente está a fazer isso. E ainda mais com as ruas cheias de barbudos e mal-encarados, não duvido que vão aumentar as violações. Com a pombinha bem guardada, estavas tu segura e eu descansado. O que achas?

Em casa? Eu não vejo necessidade; parece-me um excesso securitário, mas não quero, de maneira nenhuma, que fiques preocupado. Deixo-a cá, está combinado. Pelo menos enquanto os tempos não mudarem.

Olha, amorzinho, podíamos guardá-la no guarda-joias que comprámos no Mercado do Povo, aquela caixa de madeira avermelhada com aplicações de madrepérola, com uma chavinha dourada. E metemo-lo na mesa de cabeceira.

Georgete adaptou-se bem ao emprego, mas sempre com os procedimentos de segurança bem assumidos. A rotina dos sábados pouco se alterou; apenas faziam um pequeno compasso de espera para abrir a caixa, exceto da vez em que só deram com a chave quando já estavam irritados e desanimados. Resolveram passar a deixá-la na fechadura.

Uns meses depois, Georgete contou o gracejo divertido, que metia chuchas, que um vendedor da empresa lhe dissera; Túlio teve um frémito de angústia.

Amorzinho, não queres deixar cá também as margaridas? Só para não provocar esses depravados.

Querido, ele referia-se aos socialistas; foi um dito sem más intenções. E o peito compõe muito uma mulher. Não quero parecer uma matrafona com chumaços, muito menos aparecer lá agora de peito liso. E a propósito, porque é que tu não deixas cá também o tulinho? Segundo me disseste, uma das operadoras mecanográficas tem sido muito simpática...

Quiducha, fica em casa já amanhã. Não me faz falta nenhuma lá, garanto-te. Tenho ali um estojo, que acho que era da máquina de barbear, que deve ser à medida.

A sociedade ia mudando em ritmo acelerado, Georgete foi promovida a secretária do chefe dos vendedores, mas o casal não se afastava das rotinas sensuais a que estava habituado. Certa tarde de sábado, porém, no vertiginoso momento das aberturas da caixa e do estojo, a dona da pombinha estranhou qualquer coisa na posição da sua joia.

Túlio, mexeste na pombinha? — perguntou em tom desconfiado.

Os princípios cristãos de Túlio não o deixaram mentir.

Amorzinho, desculpa! — pediu Túlio com os olhos em alvo e a testa franzida. — Tinhas ido ao almoço de anos da tua amiga Fernanda; era sábado e não estavas cá… Tu sabes que o sábado é sagrado para mim. Não te fui infiel; foi tudo só nosso.

Francamente, Túlio, não podias esperar?; era dia de afogar o careca, como vocês dizem?; é só disso que precisas de mim? — reagiu, indignada.

Eu não digo expressões rascas dessas; faz-me a justiça de o reconhecer.

Fazer, fazer... O que é que eu faço, agora? Deixa-me pensar. Olha que tem de haver reciprocidade! Vai lá fazer um balancete, que eu vou discutir o assunto a sós aqui com o teu embuçadinho.

O episódio foi ultrapassado sem mais crispações, mas Georgete passou a andar com a chave do cofre da pombinha. Os anos decorriam calmos, Túlio começou a apostar dinheiro na D. Branca, que, na altura, era afamada por dar juros de 10% ao mês, o que sempre compunha o bolo remuneratório mensal. Certo sábado, Georgete notou que a fechadura do guarda-joias parecia mexida e confrontou o marido. Túlio, envergonhado, desatou a chorar em silêncio, para não alertar os vizinhos.

Desculpa, desculpa, desculpa! A D. Branca entrou em falência e ficámos sem o dinheiro.

Quê? O que é que estás para aí a dizer?

O Queiroz. Somos amigos há tanto tempo. Foi ele que te arranjou emprego lá na Contugal, lembras-te? Foi a ele que recorri, para ultrapassar esta perda imensa.

O chefe da contabilidade? O que é que o Queiroz é para aqui chamado? O que é que fizeste com a minha pombinha? — gritava Georgete, que temia o pior.

Era para ser uma coisa simples e tão esmerada que nem desses por nada. Entreguei-lhe a caixa na segunda e uma cópia da chave, que fiz há anos, mas ou ele é desajeitado ou estava tão apressado que não conseguiu abri-la e resolveu arrombá-la. Ontem, ainda tentei compor a fechadura, mas, pelos vistos, foi em vão.

Tu vendeste a minha pombinha ao Queiroz, aquele monte de banha?

Foi só um empréstimo por cinco dias. E bem remunerado. Nem te digo quanto é que ele bateu em notas de 5000!

Tu não tens vergonha nessa cara de degenerado? — berrou Georgete, sem se preocupar com a vizinhança.

Degenerado, não! Há situações na vida em que um homem tem de assumir as ações que mais o magoam. Nem imaginas o quanto me custou.

Tu é que não imaginas! O tulinho vai comigo na segunda e só peço ao Florêncio que mo devolva na sexta. O Florêncio, sabes?; aquele que te estava a galar na festa de Natal? Estou a dever-lhe um favor: foi ele que substituiu a fechadura do meu guarda-joias há uns meses. Tem muito jeito de mãos. Mas, descansa que não vou violar os nossos princípios católicos de renúncia da usura. Será a título gratuito.

O rosto de Túlio fazia pena. Parecia tão indefeso como um dos deserdados dos bairros de barracas que visitavam. Claramente, não fora boa ideia separarem-se das suas joias íntimas.

Joaquim Bispo

*

Imagem:

Caixa de concha de búzios com dobradiças de prata contendo pintura de um homem abrindo o cinto de castidade de uma mulher nua reclinada.

Coleção de Sir Henry Wellcome, Londres.

* * *





sábado, 22 de outubro de 2022

Lágrimas de Escorpião

 

Era o emblemático machão: cara fechada, sisudo e lacônico, as mangas da camisa acuadas ante a musculatura dos braços. Chamava ele o sorriso de acovardamento, e as lágrimas, as rendas de nossa dor, chamava-as de fracasso. Mas isso entre conhecidos e desconhecidos, na mesa do escritório ou nas mesas de bar; já nos vulcões de sua intimidade era emotivo, dado a arroubos de sentimentalidade, e ao assistir vídeos onde filhotes de cachorro brincavam e rolavam, mordiam-se em ofensivas de fofurice, lágrimas desleais assomavam de seus olhos.

Tal sensibilidade era o mais frágil alicerce de sua masculinidade e moral agressiva, dos trejeitos ríspidos, e não atribua-se o fato de ser um valentão à vida ou, mesmo, a terceiros, não atribua-se a nada senão ao próprio Vander. Tudo vem de mim, assim acreditava. Um homem tem suas escolhas. Pois seria errado culpar seus pais ou sua criação, as venturas da genética ou os anos no exército, seria errado incriminar ocorrências e variáveis quando houve, por parte dele, a intenção de ser um bruto.

Foi sua primeira decisão, tomada antes dos passos iniciais, e seria, também, a última e mais fatídica delas, ocorrida horas depois de entrar no escritório e chutar portas e paredes, reclamar da ausência dos colegas e só então surpreendê-los amontoados em torno de um monitor. Juntou-se a eles, não sem antes comentar,

Bando de vadios.

Às cotoveladas abriu espaço e ignorou as provocações, e diante da tela estacou: via-se, num carpete bege, três filhotes de cachorro engalfinhando-se em brincadeiras. Abocanhavam-se e corriam, rolavam, e eram tão redondos quanto as lágrimas que de imediato insurgiram-se contra Vander e seu rigor. Mas esta nem tanto é a história de um selvagem como é uma história sobre o arbítrio, e malgrado ele não sentisse vergonha de chorar em público, de enfim revelar a outros o mais sensível recanto de sua natureza, abalou-o e apavorou-o a contingência de não ter escolha, de ser coagido a soluçar e esvair-se em prantos.

Tudo bem, Vander, indagou Regina, uma das colegas, e afagou seus ombros.

Tudo, tudo, gaguejou ele e virou as costas para o grupo e os cachorrinhos, partiu e refugiou-se no banheiro. De tão humilhado, evitou os próprios olhos e, bruto como era, e seria até o fim, secou as gotas com o esmerilhar dos olhos nos ombros. Ali demorou-se até compreender que tais lágrimas não eram as de sempre, sensível reação à inocência, mas eram lágrimas de ódio, raiva, de quem descobria-se enganado e condenado. As últimas a lhe surgir, inclusive, das pálpebras emergiam maiores e mais lentas, distintas das anteriores. Recompôs-se em frente ao espelho, ajeitou as sobrancelhas de pelos grossos, e ao sair do banheiro estava ciente de como todo homem, durante a extensão de sua vida, tem somente uma decisão a tomar.

O resto do expediente, enfrentou-o carrancudo e irritado, e a tudo respondia com monossílabos.

No outro dia souberam que, ao deixar o trabalho, jogara-se na frente do trem.






quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Cristão é outra coisa

 

Não dou o outro lado da face. Sou cristão, sim, mas sem exagero e “mimimi”. O negócio é “direitos humanos para humanos direitos”, o resto é baboseira. Não tenho paciência de contar setenta vezes sete. Se Jesus fosse vivo hoje, se visse essa canalhada, teria feito uma bíblia diferente. Bolsonaro falou que Jesus andaria armado. Nosso Senhor não pisaria na terra de bobeira, com um bando de comunistinhas soltos por aí. Aquele tempo em que ele nasceu era o céu, não tinha bagunça, não. Homem era homem, mulher era mulher, e ponto. É tanto que ele não chamou mulher nenhuma para segui-lo. Teve uma enxerida lá, que queria acompanhar, a Maria Madalena, mas era puta e foi dispensada. No grupo dele tinha gente direita, de honra e princípios. Judas deu uma vaciladinha, bobagem, e acabou se matando. Jesus teria perdoado, certeza. Já fiz essas besteirinhas e nem por isso me matei. Se um otário deixar uma mala de dinheiro vivo na rua, ah, meu patrão, vai pro papo, já era! Quem mandou ser burro? É a lei da sobrevivência, quem chegar primeiro e for mais esperto vence a batalha. Nasci porque fui o mais sabido dos espermatozoides. Mas tem uns aí que parece que furaram a fila! Merecem levar umas porradas, isso sim! Comigo é tolerância zero. “Bandido bom é bandido morto!”, como no velho ditado. Se matassem uns trinta mil, o Brasil estava resolvido. É por isso que o País não vai pra frente. Pelo menos, umas boas lapadas nos couros dão uma aliviada no estresse. Ah, como é bom… Pego uns meliantezinhos, cara de pirangueiros, e meto a sola, umas duas vezes por semana. Lavo a alma. Vou com meu amigo Nonato, reformado da polícia. Ele fala o mesmo, que desestressa, faz bem à saúde. Não passo um mês sem o “Serviço Secreto do Cidadão de Bem”, o SSCB; no máximo duas semanas, quando tiro férias – e fico mal-humorado pra caralho. O SSCB se formou em 2018, com o objetivo de ajudar na reforma do país. Sou patriota e quero o bem do povo honesto, trabalhador. O grupo está aumentando. Entraram, recentemente, o Nazi – de Nazareno – e o Milico; dois homens do mais alto quilate. Jovens, assim, renovam os propósitos. Na última reunião que tivemos, Nazi decretou que vai partir para a matança se o “bandido de nove dedos” ganhar. Vou junto, me candidatei. A polícia está do lado do cidadão de bem. O nosso presidente vai bater palmas se livrarmos o país dessa gentalha, que suga o nosso dinheiro, acaba com as nossas famílias. Encontrei o Silva, outro dia, na igreja. Ele relatou que está meio desanimado com a política e que quer entrar no “corpo a corpo”. Chamei o garotão para participar da tropa, estamos precisando de homens de bom coração. Temos que nos defender do comunismo. É o maior mal que existe no planeta. Lascou um monte de país na América Latina, mas aqui não entra! Em 2023, o nosso presidente vai liberar mais armas, e não vai ter pra ninguém; rapidinho a bandidagem vaza ou entra na linha. Maria, minha esposa, está amargurada e triste estes dias. Pergunto, e ela não tem coragem de dizer o porquê. Aprendeu a respeitar cedo, deve ser por isso. Peguei ela novinha e ensinei o caminho certo. Ela é quase muda quando está comigo. É obediente e faz bem em cuidar do maridão, da casa e dos meninos. Sim, e é inteligente, entende o que é ter um homem dentro de casa, dando do bom e do melhor. Acabei o casamento com a Patrícia, minha ex, porque queria botar moral, ser a dona da situação. Foi uma luta de seis anos, até que ela fugiu, não aguentou a pressão. A minha filha, desse casamento, está nas mãos da pilantra. Ela conseguiu, não sei como, o direito de ficar com a guarda. Desgraçou a menina. A pirralha falou pra mãe que não quer mais sair com o pai. Isso é mentira. Na minha frente, a menina não fala nada disso; só chorou um bocado no dia em que prometi cortar o cabelo dela na tora se inventar de pintar. A mãe diz que eu assusto a donzelinha. Porra, ela tem treze anos, já sabe o que é certo e errado. Se estivesse nas minhas posses, seria outra coisa; ah, sim, seria. Os lá de casa, um com oito e o outro com seis, são bem-criados, compreendem as regras da boa cidadania patriótica. Têm de aprender na marra, pra serem homens de verdade, comprometidos com a causa maior, o Brasil. É assim, não tem jeito. Cada qual com a sua missão; essa é a minha. Missão dada é missão cumprida. Em nome de Jesus.








segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Flecha - poema de Carol Ruiz

 


    Flecha


O tempo

Ancorado no espaço

Ancorado no espelho

Ancorado no retrato

preto e branco da família


O tempo

Um vulto

Um suspiro

Uma flecha

a 250 km/h na memória




Do livro Raízes, Editora Patuá