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quinta-feira, 21 de maio de 2015

Jubileu

Ano de 2007. Sentou-se diante do computador em postura altiva, superior e preparou-se para digitar as primeiras linhas do seu romance. Caso acreditasse em Deus, estaria convencido que o toque do Criador o contemplara com um talento fabuloso. Era despeitado com críticas – no seu entender invejosas – aos seus trabalhos anteriores exibidos na grande rede. O tolo desconhecia que Deus nos brindava com um Rimbaud a cada cem milhões de nascimentos e, dada a seletividade divina, o resto da humanidade não abraçara a genialidade aos 20 anos de idade.
Nem um pretenso Deus muito menos os invejosos o atrapalhariam em seus planos de brilhar o universo das letras, pensava entre muxoxos banhados de desprezo. Manchou em tipos negros o virtual papel alvo que preenchia a tela com a expressão “A História de um Grande Presidente”. Sacudiu negativamente a cabeça. Um título demasiado simples para um livro candidato a  eternizar-se nos meios literários tupiniquins. Acionou a tecla “Del” e mandou “A História” paras os quintos dos infernos digitais, substituindo-a pela expressão “Revelações”.  Não gostou da sonoridade da palavra, considerando o título pobre sem atentar para o fato de faltar vocabulário no cemitério de idéias que era sua mente.
Buscou no dicionário eletrônico alojado no HD palavras bonitas para compor o título. Gastou cerca de uma hora pesquisando, juntando verbetes, amontoando expressões sem sentido para chegar ao rótulo definitivo de sua obra-prima. “Radiofotografia de Um Presidente” – escreveu desconhecendo todavia o significado da palavra a encabeçar o título. “Ficou bonito...” – sorriu triunfante.
Agora faltava o miolo, a alma do livro. Como ignorava que uma biografia, mesmo romanceada, tem a obrigação de se fiar na verdade dos fatos, inventou uma história inverossímil a respeito do biografado. Ávido, escreveu cerca de dez linhas para em breve estancar no deserto de criatividade a habitar sua caixa pensante.
Não se dando por vencido, enquanto tentava avançar em sua obra, alardeava em espaços virtuais suas façanhas sem comprovação como escritor laureado. Inventava prêmios recebidos, amigos escritores, gente famosa em seu rol de amizades. Tudo ruía ante a menor investigação, mas ele tanto mentia que passou a crer sinceramente em suas falsidades.
Estamos em 2057. Dezessete laudas da “Radiofotografia de Um Presidente”  foram compostas. Erros crassos de concordância e regência povoam a pretensa narrativa, equívocos ortográficos pululam o texto feito abelhas em torno de uma colmeia agredida.  Nada ali é aproveitável. Porém, o escritor, rosto carcomido pelas rugas, coluna antes ereta envergada para frente, castanha cabeleira pretérita agora embranquecida pela crueldade dos anos, ainda se engana. No jubileu de ouro de sua arrogância,  mirou a vista no título e exclamou “Sou um Gênio!” para em seguida dar prosseguimento a sua  triste e misantropa sina.






quarta-feira, 20 de maio de 2015

BODAS DE NEURAS

Há 25 anos faço análise com o mesmo analista. Dizem que não é bom esse tempo todo,
mas faço análise há 25 anos com o mesmo analista para não me deixar manipular por
estes “dizem” que o senso comum nos impõe.

Parece casamento.

Eu sou assíduo cliente de um austríaco de pai italiano, que foi trazido ainda no
colo dos Alpes fronteiriços da Itália para o Brasil, onde cresceu, adolesceu e
virou médico de especialização psicanalítica.

O nome dele é Ralph Bernnelli e duas vezes por semana tiro os sapatos e me jogo
nos almofadões do seu divã. Um analista de botequim parceiro de chope e bolinho
de bacalhau disse que chafurdar nos almofadões de um analista é nadar no líquido
amniótico da mãe.

Como ele não passa de um palpiteiro metido a falar difícil, eu disse que queria
chafurdar é na mãe dele. Nunca mais vi esse camarada.

Toda vez que saio da sessão, passo no hall dos elevadores vejo à direita uma dessas
vending machines – nome esquisito que esses marqueteiros inventam para máquinas que
vendem guloseimas, snacks (outra importação pedante intraduzível) e refrigerantes em
troca de alguns dinheiros enfiados num buraco. Pois a tal vending machine tem um
biscoitinho que me deixa doido: bolinhas de queijo
ocas e torradinhas.

Sempre gostei de biscoitinho de queijo com ar dentro.
Sempre gostei, não. Posso me considerar um devoto, um fetichista, um obsessivo,
um compulsivo devorador de biscoitinhos de queijo com ar dentro.

O espocar daquela crocância entre a língua e o céu da boca me representa a felicidade
plena, como para o carola é a hóstia desmanchando contra o palato, sei lá,
é o que dizem os católicos praticantes.

De novo, o “dizem”, esse sujeito indefinido chamado senso comum me persegue. Há 25 anos
luto contra ele no aconchego de Ralph, o companheiro profissional e afetivo que me acolheu.
Sem sexo, claro. Somos héteros. Pensando o quê?

Mas voltando aos biscoitinhos de queijo. Lembro quando criança que minha sofreguidão
era tanta na hora de rasgar o saquinho vermelho salpicado de estampas circulares
– sim, eram eles, os biscoitinhos em desenhos hiper-realistas provocando salivas e pressa
– sempre caía um no chão.
E minha avó gritava.
- Não come! Joga fora! Está infestado de micróbios!

E meus olhos ficavam fixados no biscoitinho caído solitário, condenado ao lixo.
Que peninha.

Dava uma tristeza aguda imaginar o périplo que o biscoitinho desgarrado percorreu
em vão. Misturado com farinha, sal, água e essência de parmezon, amassado, assado,
empacotado, encaixotado, sacolejando por estradas precárias até chegar à prateleira
do armazém.
Para quê? Para acabar no chão, na vala dos inúteis?

Essa compaixão me atormentava nos piores e melhores momentos, nào importa onde, quando
e por quê.

Toda vez que tocava punheta, despejando milhões de espermatozoides na água
morna do chuveiro, engolidos pelo ralo do box, lá vinha a tristeza pós gozo,
a culpa, a comiseração, a vontade de me esvair também.

Eu fazia isso dia sim dia não, sempre que chegava do Ralph. Porque sempre descia
no elevador comigo uma moreninha bustosa de saia justa, talvez recepcionista de
algum outro consultório, que me dava um “boa noite” gostoso aos meus ouvidos e
maldoso ao seu sorriso, e virava-se de costas para minha curiosidade observadora,
que não livrava nem as sapatilhas rasteirinhas nos pés que encerravam batatas de
perna torneadas e assanhadas, como seus mamares arrebitados e seus glúteos inspiradores.
E a pretexto de encontrá-la na imaginação, já entrava no chuveiro em riste.

Um dia a moça sai do elevador e em vez de seguir porta afora, dá meia volta e para
diante da vending machine, bem atrás de mim. Eu tinha acabado de enfiar uma nota de
dois reais para comprar um saco de biscoitinho de queijo. Em instantes, o biscoito
está na minha mão, enquanto a vending machine anuncia em letras vermelhas:
LAST CHEESE COOKIE.

A moça entendia inglês.
- Que chato, logo na minha vez.
E eu entendia de cavalheirismo.
- Não se preocupe, fica para você.
- Muita gentileza. Só vou aceitar porque por que esse biscoitinho mexe comigo.
- Ái meu Deus. Não disse, mas pensei.

De tão atrapalhado, rasquei o saco com a sofreguidão parksoniana. E um dos
biscoitinhos saltou para o chão.
Ela emendou:
- Não come! Joga fora! Está infestado de micróbios!

Teria ouvido o que ouvi?
Neste momento os olhares se encontraram cúmplices. Olhos iguais, ora nos biscoitinhos,
ora nos rostos mútuos, que se reconheciam arrasados, lacrimejosos, combalidos diante
de um biscoitinho condenado ao lixo.

Sessão seguinte, no Ralph.

- Encontrei minha alma gêmea.

Ralph tinha o hábito de tirar os óculos, dar uma baforada nas lentes, limpá-las com a manga da camisa e falar duas vezes a mesma coisa.

- Como você sabe? Como você sabe?

- Manias de mãos dadas.

- Prossiga, prossiga.

Essa mania do Ralph me irritava há 25 anos. Mas prossegui.

- Ela tem dó de coisas que se perdem. Restos de Coca Cola despejados na pia, tronquinhos 
de brócolis abandonados no prato, azeitonas deixadas de lado num prato de pizza, remédio 
que cai debaixo da mesa, caroço de milho cuspido, ervilhas que quicam no chão, 
biscoitinhos de queijo que caem do saco.

- Transtornos obsessivos se atraem ou se repelem. Transtornos obsessivos se atraem ou se repelem. Vamos ver. Vamos ver.


- Temos diferenças que nos completam. Eu só fico com pena de biscoitinho que o destino 
lhe nega o direito de cumprir sua missão. Ela guarda tudo.

- Guarda? Guarda?

- Quando nos encontramos, aqui embaixo no hall, um biscoitinho caiu no chão. 
Ela fez cara de dó, abriu a bolsa e tirou um saquinho plástico. Colocou o biscoitinho 
lá dentro e disse que levaria para casa, que acolhia objetos abandonados, extraviados, 
que nasceram e morreram à toa.

- Mais empreendedora que você. Mais empreendedora que você.

- Trocamos palavras celebrando nossos sentimentos afins. Ela me convidou para ir 
à casa dela.

- Houve penetração? Houve penetração?

Nesse momento Ralph repetiu o ritual da baforada nos óculos e se aprumou na poltrona.

- Não se apresse, Ralph. Vamos por etapas. Era uma sala e dois quartos na praça 
aqui perto. Num quarto, uma cama de casal, no outro, uma porta trancada.

- Ela mora sozinha? Ela mora sozinha?

- Sim e não.

- Respostas objetivas. Respostas objetivas. Por favor, seja claro. Por favor, seja claro.

- Sim, porque disse que mora sozinha. E não, porque quando ela abriu o quarto trancado, 
dei de cara com estantes e mais estantes repletas de saquinhos com milhões de coisas dentro. 
Ela tirou o biscoitinho no saquinho plástico da bolsa e colocou numa prateleira cheia de 
outros troços malucos. Ela disse que era apegada a tudo que seria importante à sua existência. 

- Você consegue descrever? Consegue descrever?

- Cascas de banana ressecadas, mechas de cabelos, recortes de panos e jornais, porções 
de terra e areia, conchas, cavalos marinhos, patas de caranguejo, molares, incisivos, 
caninos, livros despedaçados, calcinhas manchadas de vermelho, cuecas amareladas, 
cacos de materiais diversos, pedaços de reboco, meias luas de unhas do pé, rolhas 
e tampinhas, não dá para descrever tudo que eu via, muito menos entender a 
razão porque estavam ali. 

- Cada coisa deve ter lá sua representatividade  na história da moça. Cada coisa deve ter lá sua  representatividade na história da moça.

- Isso. Isso. 

Esse cacoete de linguagem é contagioso. Segue o relato.  

- Reparei que num lugar nobre da estante central havia um saquinho com um chumaço 
de gaze e sangue. “É meu umbigo, que caiu quanto tinha duas semanas de vida. 
Minha avó guardou. Quer ver?” Agradeci e disse que estava na hora de ir embora. 
Ela disse. “Se você ameaçar ir embora, corto seu pau, enfio num saquinho e coloco na estante 
das coisas que não aproveitei. Ao lado do biscoitinho.” 
Neste momento, cresceu uma ereção descomunal.

- Bingo, bingo! Neuroses se atraem, neuroses se atraem!

- Quer saber? Não houve muita conversa, nem uma penetração. Mas várias. Noite adentro 
de atração carnal ululante, intercalada de línguas em sacos, lábios, grandes e pequenos, 
róseos e aveludados, glande, veias pulsantes e clitóris, lambidas gerais, chupadas de mamilos 
e dedões do pé.

-  Ela tem joanete? Ela tem joanete? 

Nem respondi. Fiquei olhando para a cara do Ralph.  Acho que o senso comum tem razão. 25 anos ouvindo minhas manias e o cara esquece que não fodo mulher com joanete.





segunda-feira, 18 de maio de 2015

João Gostoso, Again










Naquela noite, João Gostoso chegou em casa às oito e meia, já com tudo preparado para a feira do dia seguinte. Em lugar de sua Maria das Dores, porém, encontrou foi o bilhete rabiscado no papel do pão: João, fui embora. Não me procure, fui com o Alfredo.
Pronto, só isso, nada mais, na letra de criança de Maria, em que cada traço saía difícil, ele lembrava quando ela aprendeu a ler e escrever, fazia pouco.
Por cinco noites os dias de João foram iguais: antes das dez na cama, pouco depois das três de pé, a lida na feira, carregando tomates e cebolas para a barraca do Rodrigo e da mulher, mais a filhinha do casal, que sempre ficava por lá e lhe sorria de um jeito que era ruim de ver, porque a filha que não teve olhava pra ele por ela.
Na sexta noite, João desistiu, não dava mais pra levar vida de sempre, hora de recomeçar. Das Dores não voltaria mesmo, precisava arrumar mulher, ficar feliz de novo. Nada melhor pra isso que o velho boteco de sempre, do Seu Joaquim, ali mesmo, na beirada do morro, lugar que Das Dores não suportava nem olhar, mas ele gostava, e como gostava. E agora era hora de redescobrir o gosto, viver a alegria e esquecer aquela dor no peito que queria levá-lo para onde não se sabe.
O bar Vinte de Novembro estava aberto, claro. Seu Joaquim olhou, apoiando-o em seus intentos, isso, nada de fazer drama, bebe pra arrumar outra, mulher na Babilônia, ora bolas, não falta, é o que mais tem! E o que vai querer hoje, João? Quero mesmo é pinga com limão, mas sem açúcar, pra descer ardendo. E foi bebendo, foi bebendo, nem pensando em quanto ia ficar, se ia ter dinheiro depois pro todo dia, se não. Tocava samba, que Seu Joaquim não avacalhava em seu boteco, era coisa de gente fina, nada dessas porcarias que se ouvem hoje em dia, mas samba dos bons, e João Gostoso dançava e se achegava às mulheres que pousavam por lá, não queria saber se dançava bem, se mal, queria só dançar e ficar com elas, perto delas. Pouco importava se a mulher era bonita, se era feiosa, baixinha, gorduchinha, até a dentuça da Josefa valia. Cantava as letras que sabia e inventava as partes que nunca tinha entendido, feliz da vida de verdade, ao menos era o que parecia.
Passava das duas quando lascou um beijo na Elizeth, ali mesmo, na frente do namorado novo dela, que ninguém nem o nome inda sabia, e saiu andando, sem olhar para trás. O tal namorado hesitou, não conhecia direito as regras do pedaço, não sabia se devia ir atrás do ousado que lhe roubara um beijo da moça, se brigava era com ela, e nessa indecisão João Gostoso se afastou o suficiente, livre de qualquer ameaça e caminhando em seu passo normal.

Ninguém soube dele até manhã cedinho do outro dia, quando a notícia de seu corpo boiando na Lagoa começou a correr e chegar até a Babilônia, pasmando a todos e, mais no fundo, a Elizeth e a Das Dores, que por meio de Alfredo ficou sabendo da notícia que logo foi registrada nas letras borradas de preto do jornal.





10 mandamentos pós 29 de abril de 2015

1. Professores são professores e sempre serão professores.

2. Professores exigem respeito e pagam seus impostos iguais a você.

3. Professores somente pedem o que é garantia do seu e outros governos.

4. Professores são unidos e não apenas em época de eleição igual vocês.

5. Professores apanham todos os dias - dos filhos da sociedade ao PM com um fuzil.

6. Professores não são black blocs e nem partidário de partido X ou Y.

7. Professores em greve lutam pelo melhor deles e dos filhos de todos.

8. Professores querem trabalhar e serem pagos como todo cidadão.

9. Professores servem e protegem de ignorâncias.


10. Professores em praça com nome de Santa clamam pela justiça.





domingo, 17 de maio de 2015

Ciuminho básico - o poema sórdido de Ana Elisa Ribeiro




Ciuminho básico


escuta
calado
a proposta rude
deste meu
ciúme:


vou cercar tua boca
com arame farpado


pôr cerca elétrica
ao redor dos braços
na envergadura
pra bloquear o abraço


vou serrar teus sorrisos
deixar apenas os sisos


esculhambar com teus olhos
furá-los com farpas
queimar os cabelos


no pau acendo uma tocha
que se apague apenas
ao sinal da minha xota


finco no cu uma placa
"não há vagas, vagabundas"

na bunda ponho uma cerca
 

proíbo os arrepios
exceto os de medo


e marco no lombo, a brasa,
a impressão única do meu dedo.





sábado, 16 de maio de 2015

Avareza

Se um corpo A aplicar uma força sobre um corpo B, receberá deste uma força, 
de mesma intensidade, mesma direção e de sentido contrário.
                                                                               (Isaac Newton)

Intensidade

Você quer cinco reais? Assim, de graça, menina? Não. Primeiro coça aqui as costas do papai. Mais um pouco... Isso... Muito bom. O dinheiro é para quê? ... Sorvete? Ah, não! Pensei que era pra coisa séria. Pra besteira não tem dinheiro, não! ... Mas o que é isso? Sem choro, menina. Para de chorar. Ah, não vai parar? Então, você agora me deve R$10,00. E se continuar chorando a dívida aumenta pra R$15,00. Pão-duro? Eu? Cala a boca, mulher! A menina precisa aprender que dinheiro não cai do céu! Cinco reais! Desse tamaninho e já pede logo cinco reais!! Sabe quanto tempo eu levo para ganhar esse dinheiro? Sabe o que eu preciso fazer para ganhar o que eu ganho? E o meu dinheiro não é capim, não! Não nasce em árvore! Quer saber? Você está de castigo, menina! Só sai do quarto quando entender o valor do dinheiro.


Direção 

Você cresce, cresce e não aprende, não é, menina? É isso mesmo! Coloquei corrente da geladeira, sim! Por acaso está na hora do almoço ou do jantar? Se quiser água, tem no filtro. Mas dentro da geladeira não tem nada que interesse a ninguém agora. Mas era só o que me faltava! Eu sei que a sua mãe fez gelatina escondido de mim. É isso, não é? Se eu tivesse visto, não tinha esse desperdício, não! Mas já que fez, é sobremesa. Só depois do jantar.


Sentido contrário 

O quê? O papai quer ir para um hospital particular? É isso mesmo que eu ouvi? Ele quer que eu pague para ele ficar sozinho num quarto? Que desperdício! O que é que ele está pensando? Que eu tenho dinheiro para jogar fora? Ele sabe o que eu preciso fazer pra ganhar o que eu ganho? Além do mais a doença dele é terminal, mamãe. Não importa em que hospital ele esteja, nós duas sabemos que ele vai morrer. E vai morrer logo. Então, para que esse luxo todo? ... Ah, mamãe, para de chorar! Se você continuar chorando eu vou desligar o telefone. 







quinta-feira, 14 de maio de 2015

Chá de gengibre




Ildefonso beberia uma chávena de chá e depois iria.
Nos cartões-de-visita tem escrito Mendes Cordeiro, médico. E, por baixo, em letras mais pequenas: obstetrícia e doenças de senhoras.
Beberia, sim, uma chávena de chá.
Ildefonso Mendes Cordeiro que já era canhoto antes do acidente usa sempre uma luva na mão com que antes se barbeava quando o fazia com Gillete ou com navalha, coisa que talvez tenha usado uma ou duas vezes. Ele sempre foi esquerdino para a máquina eléctrica e para tudo o resto, tanto que, no casamento, ia colocar a aliança no dedo da mão contrária de Madalena Andrade. Andariam ambos pelos vinte e quatro e corriam já os anos da guerra. Ildefonso foi mobilizado, mal terminou o curso.
Devemos evitar que um dia digamos desaforos um ao outro, escrevera-lhe Madalena numa carta imensa, folhas finíssimas deixando transparecer letras de um lado ao outro, palavras que se amalgamariam em discursos absurdos se fossem lidas com luz que incidisse em ângulo adequado sobre aquele papel de seda.
Deveremos não chorar a prole que nunca geraremos, assim pensara Ildefonso enquanto lhe dizia, numa carta lacónica, que sim, que ela tratasse do divórcio, mas se despedia com beijos ternos e saudade imensa do teu Id, diminutivo com que Madalena o tinha sempre tratado. E quando foi desmobilizado, tinham permanecido juntos.
Ildefonso beberia um chá fervendo ali mesmo, ao balcão, o açúcar deitado com a mesma mão com que o mexeria com a colherinha de plástico que tiraria do invólucro, os dentes da frente, ainda os que lhe tinham nascido por volta dos sete anos, ajudando a rasgar o papel. 
E não sorveria a beber um golinho. Madalena tinha horror a esse ruídoMas Ildefonso sopraria. Isso, faria. Um sopro sobre a superfície do líquido quente, qual ventinho suave que demoraria num gesto, todo ele, placebo. 
Ildefonso Mendes Cordeiro que se engasga, tosse, busca um guardanapo no suporte, e é um gesto aflito, demorado, esse de desentalar o papel, e ele tossicando para dentro da mão enluvada num cinzento rato, pele de uma boa marca trazida não saberia dizer de onde. Ildefonso com a mão esquerda atarantada e tossindo para a luva, inspira profundamente, acalma aquele engasgo, e pede um pingo de água que destempere o chá fervendo. 
O empregado traz-lhe um copinho raso, um vidro baço que Ildefonso segura com cuidado a verter apenas um fiozinho sobre o chá fumegante.
Gengibre, pedira ele, que gosta daquele travo doce-amargo.
E, sem querer perder o prazer que lhe dá o calor da loiça, Ildefonso envolve o bojo da chávena com as mãos, e fica saboreando o chá em golinhos esparsos.
Beberia um chá e depois iria, tinha ele pensado.
 

***


Em volta não havia horizonte. Descesse os olhos, e era o negro desde de ali até, nem Ildefonso sabia até onde era apenas escuridão e, lá no cimo, um céu pejado de pontos luminosos, uns dispersos, outros parecendo sobrepostos, uns mais cintilantes do que outros brilhando como pequeninos sóis.
Um céu estrelado, pensou Ildefonso já o carro se perdia num rumor rouco, e a escuridão rangia como ferrolho na cela do preso, e sentiu por instantes a respiração em descompasso e as mãos tremendo, mas logo se recompôs, o ar entrando e o ar sendo soprado e depois repetindo, e repetindo, até dar por ele a desejar uma aguardente, ele que não bebia desde aquela saída para o mato: todos mortos, excepto o condutor. O condutor e ele que ficara com a mão direita esfacelada.
Ildefonso respirando, calmo, o ar daquela noite dos deuses.
Terá que ser numa noite sem vento e sem lua, e terá que estar no ar uma temperatura de, ao menos, vinte graus, dissera a mulher que rodava entre os dedos uma enfiada de dentes de animal como se fossem contas de um rosário.
Ildefonso procurara ajuda e a mulher prometera que daria tudo certo.
De bruços sobre a areia morna, as mãos enterradas e o corpo ligeiramente apoiado sobre o lado esquerdo, de cada vez que move os dedos da mão esquerda e os que lhe sobram por baixo da luva, a areia desliza-lhe, fina, pelos  antebraços.
Ildefonso aguarda, seguindo os ensinamentos da mulher.
De vez em quando, parece distinguir a fralda branca dum vestido, mas é o branco, raro, de uma crista de onda; e um som que cuida ser de anjos é apenas o rumor das ondas deslizando espumas pela praia.
A mulher tinha-lhe dito: será melhor que não saiba onde.
E o táxi rodara em círculos, rolara descendo e roncara subindo.
O taxista era um rapaz bem-apessoado, mas receou-se: e se lhe acontece algum desastre?! e Ildefonso prometera-lhe que não iria acontecer fosse o que fosse e que não, que não seria caso de polícia. Era Ildefonso respondendo ao receio do taxista: depois, dizem que fui o último a vê-lo, e eu não quero porras com a justiça. 
Acabou por explicar-lhe que vinha encontrar-se com a esposa, que era assim uma espécie de jogo, mas não lhe falou em guerras, nem em anjos, nem noutros pormenores, e subiu a oferta, enquanto abria o livro de cheques e retirava a tampa duma vulgar esferográfica.
O rapaz do táxi esteve renitente, mas acabou acedendo e fez tudo tal e qual Ildefonso lhe pediu: que eu me perca, que eu não saiba onde me encontro.
A mulher tinha dito: fará de modo a não ter noção de local aonde ela irá.
A mesma mulher que lhe tinha perguntado: o senhor é medroso? e Ildefonso respondera que medo, medo mesmo, tinha sido o que sentiu uma vez apenas, e nem fora na guerra.


***

Virá rodeada de luzes, tinha dito a mulher.
E ainda assim, sabendo, Ildefonso sentiu o corpo contrair-se e o coração bater descompassado, tanto que lhe parecia querer sair pela boca para em seguida ficar retido entre as costelas, parado numa dor imensa que lhe tomava o peito: morto o coração de Ildefonso que logo esbaforia aos saltos.
Ildefonso desenterra as mãos e benze-se: a mão enluvada a traçar-lhe o peito com o sinal da cruz enquanto Ildefonso lhe balbucia o nome. Madalena. E repete.
A mulher tinha prometido que ela viria ao seu apelo, e Ildefonso balbucia, uma sílaba a seguir a outra sílaba.
Medo, não, ele nunca tinha tido medo senão quando ela lhe disse: Ildefonso, estou grávida, e sorria-lhe.
Ildefonso nunca lhe contara dos exames. Estéril, tinha sido o diagnóstico. 
Medo, mesmo medo, tinha sido aquele medo na alma, e mais que a mão desfeita lhe ficara o espírito. Um medo muito mais intenso do que o medo do estampido da mina, e era ou morrer ou ficar estropiado.
As luzes aproximam-se e Ildefonso continua a chamar-lhe o nome.
O retrato dela viera estampado nas primeiras páginas. Também viera o retrato dele, e acima, ao lado ou em baixo, em letras garrafais, o rapaz do táxi teria lido: anda a monte o médico que esfaqueou até à morte a esposa grávida.
Seriam luzes e seriam anjos antes que ela aparecesse, tinha dito a mulher a rolar pedrinhas sobre um pano.













terça-feira, 12 de maio de 2015

Desventuras de Margot (parte 01)



A ficha começou a cair quando puseram sobre a minha mesa, a mais diversificada do escritório, um livro para colorir. E de quebra um recadinho preso por um clipe à capa: “relaxe, meu bem. Aproveite e pinte com a mão esquerda. Serve como exercício de neuróbica. Seja feliz!”.
            Ok, ganhei atestado de mulher estressada, let’s relax.
            – Vai se foder quem colocou essa porra de Jardim Secreto na minha mesa! Eu quero uma passagem pro Caribe, alguém se prontifica? Hein? Prefiro tomar overdose de Fluoxetina do que ficar que nem uma retardada pintando, vocês não tem o que fazer não, é? Gente, que mundo é esse! Parem com essa infantilização, esse mimimi de que temos que resgatar a criancinha do seu interior! Acordem pra vida!
            As carinhas estateladas, a maioria por trás de lentes transitions, me olhando de suas cadeiras confortavelmente prontas para detonar todas as colunas.
            Sentei, respirei um ar gelado condicionado por uma máquina que respingava na cabeça dos ambulantes cinco andares abaixo. Fiz bolinha com o recadinho.
            – E ah, eu já bato punheta pro chefe toda semana com a canhotinha. Neuróbica ótima, me mantém empregada. Seus infelizes...
            Arremesso a bolinha no topete blindado de gel do Jackson. Sento de novo.
            Eu devia imaginar que essa do chefe causaria efeitos colaterais.
            – Não tem jeito, Margot. Depois dessa... você, você... pirou de vez! Como vou te manter no escritório depois dessa? O que vão pensar?
            – Que evoluí pro anal?
            – É, isso aí!... – exasperado, secando o suor da testa - você faria um anal, é?
            – Não ia doer tanto com você.
            – Porra é essa, Margot, tá dizendo que meu pau é pequeno?
            – Não, idiota. Quis dizer que já sou arrombada. Claro que é, né!
            – Olha aqui, você não está em posição de tirar onda com a minha cara, entendeu? Você tinha que rastejar aos meus pés. Implorar! Mas não, prefere me diminuir! Literalmente!
            – Quer saber, boss? Caguei pra você. Pra esse escritório mofado. Pra esses bafos de bala Halls preta que me dão náuseas.
            Ele cospe a bala na mão.
– Pra essa gente nada bronzeada que não se dá valor! Pra essas papeladas!
            E jogo papéis pro alto.
            – E vai fazer o que da vida, hein?
            – Faço ponto ao invés de bater ponto. Não digito mais nenhum ofício na vida dentro de uma sala com mais um monte de narizes fungando o tempo todo e respirando o mesmo ar.
            Antes de sair, ele pede que eu aguarde.
            – Lembra de me mandar o endereço da esquina que você for rodar tua bolsa, tá?
            Um dedo pra você.
            Recolho minhas coisas. Canetas, patuás, retratinho, caderneta, lixa, marca-texto, cataflan gel, calendário-brinde de supermercado, fone de ouvido, um pão embrulhado no papel alumínio de anteontem, calculadora (não, a calculadora é do babaca... ah, foda-se, vem de bônus).
Doralice me interrompe, trêmula.
            – Desculpa, eu, eu... só quis ajudar. Você parecia tão estressada ultimamente e...
            – Doralice, minha filha... vai colorir sua vida, vai. Pega uma praia, uma marquinha de biquíni... arranca esses boleros de veludo de vovozinha, cheio de pelo de coberta, coisa nojenta.
 – É que, é que faz frio aqui e eu tenho rinite e...
– Rinite o cacete, Doralice, quem tem rinite não dorme abraçada com ursinho de pelúcia!
– Não é ursinho, é um elefantinho rosa de infância, tá? Ah, e como você sabe que durmo com ele?
– Sai dessa, Doralice. Olha só, vem de decote pro escritório, frio é bom que faz o bico endurecer, dá aquele sinal sensual, sacou? Aproveita e tira esses grampos enferrujados da cabeça, solta esses cabelos, encharque de shampoo porque tá pingando óleo isso aí, usa um batom vermelho porque verde... tudo que é verde, minha amiga, não serve pra comer, né, vamos ser sinceras. Cata um macho, procura nesses Tinders da vida, hoje não tá difícil, o mundo tá carente.
– Mas, mas...
– Mas antes vai num cartório, abre um processo e troca de nome porque ninguém merece Doralice. Nem leitoa de novela de época das seis tem um nome poeirento desses.
 – Mas, mas... era o nome da minha avó! – já aos prantos.
– Ai, Doralice... me dá um abraço aqui.
Pronto, fiz minha boa ação do dia. Alma lavada.
Beijos, não me liga.
Catei minha trouxa e dei no pé daquele prédio. Dei o livro pra minha sobrinha de cinco anos e dias depois minha irmã me liga dizendo que já tinha largado os antidepressivos por conta do livro. Trancava a filha chorona no banheiro e assim podia se concentrar para encontrar o tesouro secreto através de um mundo multicolorido.
Já o meu mundo estava acinzentado, sem seguro desemprego, sem saldo no cartão, sem alguém pra dormir de conchinha, filando almoço na casa de parentes e amigos, economizando as economias...
Até que um dia ouvi o padre Marcelo, por acaso, numa rádio.
Troquei de estação. Pus meu cd do Alice in Chains em volume máximo, quebrei uns copos de requeijão que já me aborreciam há muito e acordei uns vizinhos vagabundos.
Num chopp dia desses com duas amigas, conversas foras, ex loves em pauta, paqueras e tal, solto uma gargalhada depois de ouvir da Sabrina que a vagina dela peida.
– Amiga... uau! Você é uma bruxa perfeita! – diz a Sabrina, arregalando os olhos.
– Que isso, Sabrina, tua vagina que peida e eu que faço feitiçaria?
As risadas continuam.
– Não, não é isso! A sua gargalhada agora me lembrou de uma coisa, hum... – dá uma golada no chopp – a minha mãe comentou em casa que vai rolar uma peça, uma parada do tipo, lá na escola dela, pro dia das crianças. E que ninguém queria fazer o papel da bruxa.
– Ok, ok, e você se lembrou disso por causa da minha gargalhada? Eu rio que nem uma bruxa?
– Não é isso, miga... é que você ri alto, engraçado, sei lá.
– Mentira, você acha meu nariz grande, né isso? Vai, confessa!
– Que isso, fala sério!
– Assim que eu tiver empregada de novo vou providenciar uma plástica nessa nareba, ah seu vou, escrevam isso!
– Nada, foi só por causa da risada mesmo amiga, desencana. Só pensei em você como uma possibilidade, e pá...
– Agora você quer me escalar pra ser a bruxinha malvada de uma peça infantil? É isso mesmo, produção?
– Por que não? Você é descolada e ainda é formada em professora!
– Querida, hello! Eu nunca dei uma aula na vida. Perdi três anos fazendo aquela bendita faculdade... só serviu pra ter um lance cult com o professor esquisito de Literatura Portuguesa.
 – Ah, sei, aquele que você disse que era amante do Camões? – recordou a Ana.
– É, ele dizia que tinha orgasmos lendo Camões... eu pensava que era no sentido figurado até o dia que encontrei porra na capa dos Lusíadas. Caí fora, lógico!
            – Vamos, amiga, topa, vai! Será divertido! Minha mãe tá desesperada, precisa pra ontem.
            Penso virando o chopp.
        – Ok, ok... Tua mãe é gorda, mas é gente fina... São quantas falas pra decorar nessa bagaça?

(Margot volta na parte 2...)







domingo, 10 de maio de 2015

Carta a um Jovem Filósofo


Henry Alfred Bugalho

Ontem li algumas cartas de cientistas escritas para elas mesmas quando mais jovens, em algum momento crítico ou desafiador de suas vidas.
Passei então a noite a divagar o que eu escreveria para mim mesmo e para qual período.
Sempre tive muitas dúvidas. Sempre me senti diferente. Sempre esforcei-me para ser diferente.
Entretanto, talvez o momento divisor para mim tenha sido aos dezesseis ou dezessete anos, quando o futuro era uma imensa incógnita e qualquer decisão errada poderia afetar-me pelo resto dos meus dias.
Então, esta é a carta que, se possível, a pessoa que hoje sou escrevia para a pessoa que um dia fui.

Caro Henry,

Deus não existe, ou, se existe, ele não se importa conosco. Sei que você está, neste exato momento, indagando-se exaustivamente: existe algum propósito para estarmos aqui? Qual é o sentido disto tudo? Há destino ou tudo é por acaso?
Não se preocupe, pois um dia você compreenderá que não há respostas absolutas nem eternas. Tudo muda. Tudo se transforma. Tudo morre, e renasce, e morre novamente. Sei que esta constatação pode ser asfixiante e insatisfatória. Você anseia por uma solução, mas não há nenhuma.
Você se conformará com isto. É o que lhe resta.

A sua decisão de cursar Filosofia é a melhor que poderia ter tomado. Você não trabalhará um dia sequer nesta sua área, mas você já devia saber disto.
O mundo não precisa de filósofos; precisa de jogadores de futebol, modelos e atores e apresentadores de TV. As pessoas querem e gostam da ilusão, da falsa sensação de conforto, do riso descompromissado e do vazio. Viver é deixar-se levar, mas esta é uma lição que você nunca aprenderá.
Você descobrirá que tudo precisa ser destruído para ser reconstruído.

Você será feliz. Feliz e livre. Justamente você que nunca imaginou que estas duas coisas existissem, muito menos que pudessem conviver. A sua liberdade é, essencialmente, uma negação. Na privação dos luxos que você nunca ansiou é que residem as asas que o permitirão voar.

Você amará e será amado. Sim, há alguém que o entende e que compartilhará dos seus mais loucos devaneios. Vocês serão bastante diferentes um do outro, mas, mesmo assim, estarão sempre juntos. Se existe alma gêmea (outra de suas grandes indagações), saiba que você terá encontrado. E isto será incrível!

Você aprenderá com os livros e com a vida. E viverá muitas vidas diferentes que valerão por muitas existências. Terá tantas histórias para contar que nem a sua imaginação seria capaz de concebê-las. Verá o mundo e o mundo o verá. Constatará que a fama é uma tolice efêmera, mas se alegrará quando ver o seu rosto na TV ou nas páginas dos jornais.

Sinto lhe dizer que você nunca se tornará um pianista. Você não é bom o suficiente. Não importa quantas horas estude, quanto tempo dedique, quanto se esforce. A música será um prazer para os ouvidos ou um mero passatempo.
Não fique triste.
O seu futuro é a palavra. A escrita. Os livros e literatura.
Você escreverá livros e mais livros. Venderá muitos milhares deles. Um dia, escreverá livros tão bons quanto os que admira. E isto lhe dará uma satisfação muito maior do que tocar a Patética ou a Appassionata.

Pode parecer inacreditável, mas você terá um filho e um cachorro. Aprenderá a dirigir e cruzará a Europa sem rumo com todos dentro de um carro. Como um nômade moderno, você se perderá numa busca incansável por um destino impossível.
Encontrará um descanso um dia?
Ainda não sei responder.

O futuro é assustador. Eu sei. Nunca deixará de ser.
Mas não se preocupe. Tudo dará certo. E se der errado será apenas mais uma lição para colecionar.
Confie em si mesmo.

Bona fortuna, meu amigo, e saiba que o tempo passa muito depressa.





sábado, 9 de maio de 2015

Lassidão

Uma separação em três atos

1
Isso não é justo. Não depois de tudo pelo que passamos. Você não pode simplesmente chegar assim e só me comunicar, diz Paula, numa torrente de indignação e perplexidade, fazendo uma pausa necessária para tornar a respirar. Pausa, também, para pensar nas melhores palavras a dizer, uma vez que a mudez de Alexandre a deixa insegura, tateando no escuro os sentimentos escondidos por trás daquele ar indecifrável que nem os anos de namoro e casamento foram capazes de referenciá-la a respeito.

Ele continua a arrumar a mala, como se a decisão tivesse sido tomada de última hora, no calor do momento. Mas, assim como tudo que envolvia seus gestos e suas palavras – ditas ou caladas –, fora algo planejado. Como não tinha coragem para assumir a responsabilidade pelo fim do casamento, fizera com que um mal entendido envolvendo Paula e um amigo próximo dela fosse o estopim para aquela cena.

Eu errei, admito, mas não do jeito que você me julgou, ela fala, de um jeito conciliador. Começava a acreditar que era a culpada. Sem dificuldade, Alexandre havia encontrado fotos da esposa com o tal amigo quando estavam em uma casa noturna, em arquivo fotográfico hospedado no site do estabelecimento. Os fatos de pouco estar presente em casa nos finais de semana, de ter sido avisado por Paula de que ela sairia com os amigos, e de as fotos conterem nada mais do que sorrisos e olhares trocados entre a esposa e o amigo dela, não foram suficientes para amenizar as conjecturas expostas por Alexandre alguns minutos atrás.

Por favor, vamos conversar sobre isso, pede Paula, já com a voz embargada, mas nada o demove. Aquele ar de solene introspecção havia sido ensaiado em frente ao espelho, e agora era seguido à risca. Fecha o zíper e coloca a mala da cama para o chão com alguma dificuldade. Ela, em frente a porta do quarto, tenta interromper sua passagem. Por favor…, consterna-se, tentando delicadamente pôr as mãos sobre o peito de Alexandre, mas desiste e abre espaço ao perceber a obstinação do marido em avançar para a sala.

Antes de abrir a porta para sair, ele se vira e lhe entrega um cartão. Meu advogado vai te procurar, contudo aí tem todos os contatos dele. Gira a maçaneta, tira a chave da porta e a coloca no bolso enquanto segue pelo corredor até o elevador. Para no meio do caminho, se recriminando pelo ato falho – a chave. Deixa a mala e volta alguns passos, sem encarar os olhos de Paula, que está à porta do apartamento, atônita. Enquanto lhe entrega o molho de chaves, a mão dela agarra a sua. Um tremor sutil, seguido de uma sensação gélida, tira Alexandre de sua orquestrada encenação. Pelo lado de Paula, o coração bate mais forte e a respiração fica ofegante.

Após alguns segundos, Alexandre se desvencilha a passos rápidos, pega a mala pelos braços e desce trôpego pela escadaria. Aquilo havia mexido com ele, e a possibilidade de não racionalizar seus sentimentos e deixar-se guiar pela emoção lhe assustava. Ela o observa afastar-se até desaparecer, e a angústia de talvez nunca mais ver-lhe novamente lhe causa uma sensação estranha, como se nada a sua volta fosse reconhecível, ou fizesse sentido, sem a presença dele.


2
Já na rua, Alexandre espera pelo táxi que havia chamado há alguns minutos. Ao mesmo tempo que avista o carro ao longe, no meio do trânsito pesado, ouve, atrás de si, uma voz suplicante. Espera, Alexandre… Espera, por favor. Paula abre o portão do condomínio com tanta força que o porteiro tenta lhe chamar a atenção, mas ela nem percebe. Incomodado, ele torna a olhar para o trânsito, à procura do táxi, mas este permanece parado.

Você não pode me deixar, segura-o pelos ombros, jogando seu corpo contra o dele. Eu já não sei mais viver sem você, sentencia, sentindo seu esquivar, como se ela fosse uma doença contagiosa em busca de sua vítima. Mesmo com esse sinal, e um pequeno grupo de pessoas que começa a prestar atenção no casal, Paula não se incomoda; Alexandre, sim. Você está sendo ridícula, agarra-a pelos braços, chacoalhando-a devagar, como quem acorda alguém de um pesadelo: Odeio esse tipo de cena, ainda mais pública. Levei tudo numa boa até aqui, mas isso é inaceitável, diz, realmente irritado. Solta-a, e ela parece ter acordado do seu devaneio, olhando em volta os rostos perscrutadores. Sabe que passou dos limites, mas lhe faltam opções melhores para tentar fazer-lhe mudar de ideia.

O táxi finalmente chega, e Alexandre coloca sua bagagem no porta-malas. Ao abrir a porta do lado do passageiro, as mãos de Paula agarram sua perna, e ela está ajoelhada debilmente sobre o asfalto, numa posição de como alguém que suplica aos céus, chorando e falando numa linguagem indecifrável. Aquela cena atrai ainda mais olhares e, agora, celulares com câmeras de vídeo, todos a postos para registrar a vida em sua versão mais insólita.

Você não tem autoestima? Vergonha de si mesma por se humilhar dessa forma?, reage Alexandre, puxando a perna com tanta força que faz Paula ficar de quatro. Ele fecha a porta do táxi, mas nada diz ao motorista. Nesse momento, seus sentimentos são dúbios. Não tem tanta certeza se quer deixá-la mesmo ali daquela forma, humilhada, e seguir o caminho traçado, ou se abre a porta, levanta-a e a beija com paixão, como há muito não fazia.

Seu devaneio é interrompido por uma série de batidas no vidro ao seu lado. Paula não desistiu de demovê-lo. O táxi arranca com alguma truculência, fazendo com que Alexandre finalmente perceba a dimensão da atitude que tomou. Espera, eu preciso falar com ela, pede ao motorista, que não tem contemplação: Meu carro é novinho. Eu não vou ficar esperando essa maluca acabar com a lataria, de jeito nenhum! Alexandre ainda a observa pelo espelho retrovisor, correndo no meio da rua, atrapalhando o trânsito, tentando alcançar o carro, sem sucesso. Quando a imagem de Paula começa a desaparecer, de tão pequena, ele se vira no banco, tentando visualizá-la, mas alguém, nesse momento, a retira de lá.

O motorista continua a falar, mas Alexandre, tentando colocar os pensamentos no lugar, nem ouve. Apenas indica o destino. Pega o celular, acessa os contatos, mas não encontra o número de Paula – já o havia excluído. Então começa a digitar o número do telefone, mas para antes de apertar o botão de ligar. Desliga o aparelho e, com alguma dificuldade, rememora o passo a passo executado para conseguir chegar ao final do casamento. Pensa, porém, que talvez tenha ido longe demais. Que levou-a ao limite, e isso, como ela disse em algum momento, não era justo. Deixou, porém, os pensamentos dissolverem-se quando chegou ao aeroporto. Tinha de viajar a trabalho. Depois resolveria a situação, ou então a deixaria como está, tanto fazia.


3
Moça, você precisa de ajuda. Eu vou chamar uma ambulância, ok? Qual o seu nome?, pergunta à Paula, com ar de piedade, o rapaz que ajudara a resgatá-la do meio da rua. Ela, no entanto, não lhe escuta. Continua a chorar, lamentando-se em murmúrios que não se consegue entender. Moça, senta um pouco aqui, o rapaz apontava-lhe o meio-fio. Vou pedir a alguém pra trazer um copo d´água pra você, ele forçava-a delicadamente a abaixar-se, e só então, a partir desse gesto, ela reagiu. Livrou-se das mãos do homem, que ainda tentava ampará-la, e observou em volta, localizando-se. Viu, ainda, a grande quantidade de pessoas que haviam parado para assisti-la, e exaltou-se.

Quê que é? Quê que foi? Vocês não tem mais nada pra fazer das suas vidas, não?, grita, enraivecida. Essa merda toda deixa vocês felizes, hein? Ninguém vai dizer nada, né! Mas agora vocês já podem voltar a se preocupar com a vidinha de merda de vocês, porque o show aqui acabou. Ouviram?, diz Paula, afastando-se. Ao olhar pra trás, porém, e notar que ainda é alvo dos olhares e dos celulares, explode ainda mais: Vão se foder, seus recalcados de merda! Fodam-se todos vocês! Encara o rapaz que tentara ajudá-la: E você me larga, senão eu chamo a polícia e te enquadro por atentado ao pudor, e afasta-se decidida, deixando-o imóvel, sem entender.

Já dentro do apartamento, fecha a porta atrás de si e olha à sua volta. A respiração em descompasso, o sangue latejando nas veias, a raiva corroendo-lhe o bom senso… Avança contra os móveis e os empurra longe, à medida que sua força proporciona tal feito. O tempo perde sentido. Minutos ou segundos depois, ao deixar-se desabar ofegante de joelhos no chão, repleta de marcas rochas nos braços e pernas, cabelos desgrenhados, cai num choro convulsivo, que a consome e a faz deitar-se em posição fetal no meio da sala revirada como um palco de guerra, até que o cansaço torna o sono a única opção viável dali para frente.

Quando acorda, já com a noite deixando a sala em penumbra, amenizando os reflexos da agitação anterior, levanta-se, anda com alguma dificuldade por entre os móveis revirados e acende a luz. Observa toda a bagunça com serenidade, sem deixar-se afetar pelo estado das coisas. Vai até a cozinha e senta-se à mesa. Pega o telefone sem fio sobre a bancada e procura um número na lista de contatos do aparelho. Encontra. Liga. Oi Maria Eduarda, tudo bem?… Sou eu, sim. Escuta, você pode vir amanhã?… Ah, é? É que tá uma baguncinha, e eu tava pensando em te pagar o dobro… Ótimo, às nove então. Beijo!

Puxa o cartão do advogado do bolso e digita os números do telefone. Como esperava, cai na caixa postal. Após o bipe: Doutor Gutemberg, aqui é Paula, esposa, prestes a ser ex, do seu importante cliente Alexandre. Nem preciso citar o sobrenome, tamanha a importância da entidade, diz, irônica, e segue: Quero marcar um horário o quanto antes, para acabarmos logo com essa pendenga. Se possível, que seja tudo extrajudicial, porque não tenho saco nem paciência para olhar mais a cara dele, e, em breve, também a do senhor. Nem o conheço e já o considero da mesma laia do Alexandre. Desculpe pelo juízo de valor, se for o caso. Ela ri. Aguardo sua ligação. Obrigada! Aperta o botão de desligar com força, como se pudesse reproduzir a batida de um telefone comum.

Deixara a ligação para Alexandre por fim. Fica, por alguns bons minutos, com o telefone na mão, olhando-o fixamente, pensando no que dizer. Decide-se por nada falar. Não naquele momento, não no calor dos acontecimentos. Talvez aquilo pudesse, assim como as fotos, ser usado contra ela, isso já havia ficado claro. Coloca o telefone sobre a bancada e deixa a cozinha. Passa pela sala sem observá-la. Vai até o quarto, escuro, e deixa-se cair de costas no meio da cama. Abre os braços e fica assim por um tempo. Estranha quando sua voz sai inesperadamente: Liberdade?



Foto: broken dreams, broken heart, broken relationship, broken key, de Andreas Wieser





sexta-feira, 8 de maio de 2015

Cobras, cães, cavalos

[do Diário de Joana]

 Rio Grande, segunda-feira, 23/3/2015. 15h22. Dia #9 (again). Cobras, cães, cavalos.

Surpreendentemente, acordei com uma baita disposição. Passei reto pela portaria. Não havia ninguém lá. Corri de manhã, na Praça Saraiva. Tá ficando cada vez mais frio – olha a minha cara de triste :D. Vi uma coisa que me fez ficar o trajeto todo pensando, tentando encontrar uma metáfora subjacente, uma simbologia oculta. É sério, tenho ficado de olho nessas coisas.

Tem um cachorrinho que mora bem aqui na frente. Eu e uma outra vizinha damos comida e água pra ele. Não trago ele pra dentro porque ele, mesmo sendo de porte médio, é muito grande pra apartamento. E acho mesmo que ele tá bem vivendo ali fora, tranquilinho, livre, ao ar livre. Por exemplo: eu não soltaria o Catatau, porque ele foi criado desde bebê dentro do nosso pátio, lá em São Gabriel. Fazer isso com um cachorro que nasceu domesticado é uma puta crueldade. E eu acho que adotar um cachorro adulto que nasceu na rua, tentar domesticar um bicho que nasceu e cresceu em liberdade é tão cruel quanto. Tá, eu sei que nisso tem um pouco do discurso garantista, e talvez a Mônica Freud diria que eu esteja aplicando pros bichos o que o penso da prisão para os homens, ou o que eu sinto em sobre os relacionamentos, blablablá. [Aliás, amanhã é o dia de ir na psi... aiaiai... #medo]. Voltando ao cachorrinho. Ele cavou um buraco perto de uma das palmeiras há vários dias. Vi ele dentro do buraco, algumas vezes, em posição fetal. Acho lindo. A primeira vez que eu vi o Catatau fazendo isso, comentei com a mãe, dizendo que os cachorros também sentem saudades do ventre materno – sim, ela entendeu a queixa. Mas a mãe, daquele jeitinho que só ela tem de ser uma “profissional da desilusão” – outra hora eu falo mais a respeito – disse “Que nada. Ele faz isso porque, quando o dia tá muito quente, a terra fica mais fresquinha”. Preferi continuar achando que era por causa da saudade do útero. Eu gosto de me iludir.

Hoje, quando saí pra correr, me espantou ver uma coisa: no buraco que o cachorrinho cavou havia uma cobra morta. Parei pra espiar. Era uma cobra filhote, eu acho. Medi com a mão; tinha um palmo dos meus – a palma da minha mão não é grande, mas tenho os dedos longos (consigo fazer uma spaccata com os dedos; dá uma escala e meia no teclado, do do até o outro fa). Não sei ver se uma cobra é ou não é venenosa – ou peçonhenta, sei que não é a mesma coisa... –, até que ela me pique, ou me morda, enfim, até que me ataque. Como nunca aconteceu, pra mim, todas são. Não tenho medo delas, especialmente, mais do que qualquer outro bicho. Exceção feita aos – écs! tenho nojo até de digitar... – ratos. E se cobras livram o mundo dos ratos, elas sempre terão em mim alguém com quem contar.

Lembrei de uma vez que fui correr no campus da FURG, nas férias. Tem muitos cachorros na FURG. Eles vivem bem lá. São gordinhos. Eu não participo de nenhum dos grupos que ajuda os cachorros, porque, pfu..., sabe?, eu sempre me incomodo com grupos desse tipo. As pessoas começam a ficar meio surtadas quando se reúnem “em prol de uma causa”. Sou anti-causas. Se acontecesse uma guerra entre os homens e os bichos, eu ficaria do lado dos ursos, já diria o meu pai – ele roubou essa do Thoreau, mas eu nunca disse que sabia disso... Não sei o que seria deles sem a galera que cuida, mas o fato é que os cães são bem alimentados durante o ano letivo, contrariando as mensagenzinhas de “Não alimente os cães” espalhadas pelo campus, especialmente no R.U.. Eu me preocupava com os bichos nas férias. Sabia que o pessoal do coletivo minguava terrivelmente nessa época, e era quando eu mais ajudava. Esse ano comprei dois sacões de ração, e combinei com um dos guris pra ir levar comida pra eles. Ele mora na Vila Maria, e pra ele ficava mais fácil. Meio feio isso da minha parte, tenho que admitir... acho que eu devia ter ido lá mais vezes. Meio que “cumpri minha obrigação cristã”, e não quis me envolver. Já to pronta pra uma associação de senhoras burguesas em prol de uma causa beneficente qualquer. Então, pra compensar, eu ia lá correr duas, três vezes por semana, entre janeiro e março, e aproveitava pra fazer uns carinhos e conversar com os cães que estivessem a fim. Eles não pareciam carentes, na verdade. Aliás, nesse período, eles pareciam até mais numerosos que durante as aulas. E mais selvagens, também. Andavam em grupos grandes, e as matilhas meio que brigando por território. Talvez pela pouca comida. Eu sei lá. Sei que, nas férias, a FURG era o território dos cachorros.

Outros que andam soltos por lá, pastando e dormindo nos gramados entre os prédios, são os cavalos. Frequentemente, eles se desentendem com os cachorros, e estes com aqueles. Uma alcateia numerosa se forma de repente para disparar as ameaças, arremetendo o mais das vezes contra um único animal, e não medem esforços para mostrar que ele não é bem vindo. Ladram, rosnam, tentam mordê-lo, algo entre furiosos e temerosos. Um cavalo é monstruosamente maior que qualquer um dos cães. Uma patada bem dada bastaria pra dirimir qualquer malquerença por parte do canídeo (hehehehehe... o advoguês voltou com tudo, depois da cartinha...). Acontece que eu nunca vi nenhum cavalo reagir de outro modo além de se afastar, silenciosamente. Os cachorros fazem um estardalhaço até que se cansam. Passado o desentendimento, os cavalos seguem vivendo suas vidas, sem demonstrar o menor desconforto com a balburdia dos insatisfeitos, permanecendo dormindo, ora deitados, ora em pé, na relva verdinha.

É engraçado porque, durante as aulas, também há um monte de cavalos, coisa que os estudantes de outros estados devem achar muito bizarro. Eu acho normal, bonito até. Fiz uma cadeira de inglês no prédio 3 como disciplina complementar, e toda segunda, no mesmo horário, aparecia um cavalo e ficava a aula toda na janela perto do quadro. A professora disse que teria que dar um certificado pra ele também. Todo mundo riu – eu ri porque acho que o cavalinho deve ter aprendido mais inglês do que alguns dos meus colegas. Vi poucos cavalos na FURG, entretanto, durante as férias.

Foi num desses dias de verão, passando pela entrada do estacionamento do Centro de Convivência, que eu vi uma cobra indo na mesma direção que eu ia. Tomei um baita susto. Pouco tempo antes, uma guria foi picada por uma jararaca-cruzeira filhote, perto do laguinho. Eu via ela (a guria, não a cobra...) bem seguido no prédio 6, era bixo (!) da Biologia. Dizem que foi preciso amputar o dedo do pé da guria, onde a cobra picou. O médico disse à família dela que aquela espécie de cobra tem um veneno muito potente, e que, quando são filhotes, não sabem dosar a quantidade do veneno na mordida: elas injetam na vítima todo o veneno que têm nas presas, o que faz dos bebês da jararaca um dos bichos mais perigosos que existem. Achei exagerado, mas, sabe como são os boatos. Em todo o caso, a guria foi picada de raspão e por isso perdeu um dedo. Se tivesse sido picada em cheio, teria morrido. Quando vi a cobra aquele dia que tava correndo, nem quis parar pra ver se se tratava de uma jararaca, muito menos se era um filhote. Dei um pulo – acho até que gritei (Shame on you, Joana...) – e continuei o meu trajeto na calçada do outro lado da rua.

Nesse mesmo dia, perto do ILA, ou seja, perto de onde a guria foi picada uns meses antes, vi um cachorro mancando, com uma das patas dianteiras inchada, que ele tentava não encostar no chão. Fiquei pensando em como ele teria se machucado, ou como o machucaram, enfim. Podia ter sido numa briga, o que é normal – ele tava sozinho; os indivíduos solitários das espécies gregárias sempre se dão meio mal. Mas também poderia ter sido uma cobra. Fiquei cuidando pra ver onde ele ia. Tranquilamente – mancando, mas parecia estar lidando bem com aquilo – o cachorro caminhou aos saltinhos até um grande monte de bosta de cavalo. Pela cor e pela textura, parecia que tinha acabado de ser depositado ali. Me deu uma puta ânsia de vômito – ainda me dá, agora, só de recordar. Eu lembro de ter ficado pensando no motivo, em por que, meu Deus, por que o cachorro se dispõe a comer cocô de cavalo? Daí se pode tirar mil conclusões.

Ouvi dizer que o soro antiofídico é extraído do sangue dos cavalos. Ou do sangue daqueles cavalos em que se injeta o veneno do tipo de cobra que atacou a vítima. Não sei mesmo. Não me consta que os cavalos sejam imunes ao veneno das cobras, mas eles estão lá, a serviço do Butantan. Li num continho do Quiroga que os quatis, sim, são imunes, mas também nunca me interessei de investigar. O que eu sei, porque eu vi, era que o cachorro manco da FURG tava comendo o cocô do cavalo. Na hora, eu pensei “Tem que estar numa merda muito grande, pra fazer isso, no último estágio antes de morrer”. Se o cavalo tem algum poder mutante de imunidade a venenos, isso deve deixar rastros no seu cocô. Talvez aquele cachorro soubesse disso. Talvez, instintivamente, todos os cães saibam. Ou, porra, talvez aquele cachorro, ou todos os cachorros, simplesmente gostem de comer cocô de cavalo. Talvez seja nutritivo, ou (blargh! peraí...) talvez seja até gostoso. Deixei ele continuar a sua refeição, e respeitei a liberdade que ele tinha. Mas foi difícil tirar a cena da memória.

Quando voltei pra casa hoje de manhã, depois da corrida e de ter repassado mentalmente a experiência da fauna universitária durante as férias, passei de novo perto do buraco que o cachorrinho cavocou aqui em frente ao condomínio. A carcaça da cobra ainda estava lá. O autor da obra veio, me abanou o rabo, daquele jeito meio displicente, de quem cumprimenta um vizinho com cortesia, mas que é mais por educação. Eu me abaixei pra olhar melhor para a cobra, e ele ficou pertinho de mim, de olho no que eu poderia fazer com seu tesouro. Sei lá o que pode ter passado na cabecinha dele. Me afastei, porque ele podia não entender que eu estava só olhando, pelo que, acho, ele ficou satisfeito. Fiz um cafuné em sua cabeça e segui o meu rumo. Ele deve ter tido os motivos dele pra guardar a cobra (como o outro também devia ter, para comer cocô). No fim das contas, pode ter sido só pela estética: a pele da cobra caiu muito bem na decoração do seu quartinho. Muito melhor do que eu, ele devia saber o que estava fazendo.