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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

UM HOMEM PERFEITO




Levava tatuado o nome da filha ilegítima na parte posterior do braço vigoroso. Talvez o carregasse ali para explicitar a significância que dispensava às mulheres.

Vestido em camisa sem mangas ― de estampa floral e botões inúteis ―, exibia evidente robustez. O volume na bermuda jeans garantia a seu pau o status de sagrado símbolo fálico de nossa casta comunidade. Um indecente palito de fósforo bailava na brancura traiçoeira de seus dentes e enaltecia sua canalhice de homem, sua indisposição para assuntos importantes. Não tirava dos pés o All Star sambado e nem da cabeça o boné virado para trás, que trazia na pala a numeração de algum vereador que não fora eleito nas campanhas de sabe-se-lá-quando.

Tinha sobre os largos ombros a cabeça cuidadosamente protegida pelo elmo que o defendia do mundo e de si mesmo. Vivia com tranquilidade, guardado por uma enganosa e inviolável película, armadura resplandecente que distraía os que teimassem em mirá-la com demorada atenção em busca do que por baixo havia.

Famélico comedor de bocetas, gozava na cara e na boca de mulheres que rastejavam a seus pés e suplicavam-lhe por mais uma foda desprovida de orgasmo, por mais uma justa mãozada na cara. Galinhas ou engaioladas, todas ansiavam semelhante submissão: A dor a cada nova estocada, a ausência do próprio prazer, o coito interrompido, o gozo negado.

Descabaçar virgens apaixonadas ― acometidas tardia ou precocemente por sua cópula brutal ― era lugar comum em sua licenciosa rotina, na qual também desempenhava a infame missão de consolar mulheres solitárias e sexualmente alienadas.

Que homem esplêndido era meu vizinho! Que voluptuoso arquétipo de macheza inspirava todos os rapazes de meu bairro!

Recostado ao muro de uma movimentada esquina, mexia o cordão de ouro dezoito em volta do pescoço equino e definia seu território às cusparadas. Olhava fogoso para as bundas das adolescentes que por ali passavam e instruía seu séquito de púberes aprendizes:

― São todas glúteos que anseiam picas! ― dizia o elmo à armadura, enquanto dormia qual princesa o cavaleiro.

Apesar de suas aventuras, era casado com uma mártir destituída de qualquer glória, tantos anos mais velha que ele. Religiosa, acreditava que os encontros de seu marido com outras mulheres fizessem parte de um plano de deus para remi-lo de sua abominável falta. Pai, fracassei na missão de salvá-lo. Manter-me casada e conformada é a única maneira de não desagradar-Te totalmente, orava.



Não era tarefa das mais fáceis ser viado em meu bairro. Não pelas carolas que se benziam quando passávamos assanhadas, nem pela molecada zombeteira que nos marcava a ferro com seus odiosos apelidos. Também não era por causa dos bêbados que praguejavam ofensas incompreensíveis, e muito menos pelas meninas que teimavam em nos impor suas tolas companhias, tomando-nos por seus confidentes de estimação, como se nos fosse prazeroso saber de suas pequeninas aventuras sexuais, tão mesquinhas quanto o ingênuo pedido que delas se fizesse segredo.

O problema era ele. O que transformava a rotina dos viados de nossa vizinhança ― fôssemos nós bichas caretas ou monas fabulosas ― era o maldito sugador de vaginas, o trepador compulsivo, tantas vezes jurado de morte por pais desolados e maridos traídos.

Armado de uma criatividade sórdida, usava sua língua de gume afiado para arrancar lágrimas até mesmo dos mais bem resolvidos entendidos de nosso perseguido clube segregado. Escarnecia de nossas roupas e cortes de cabelo, enquanto imitava-nos os gestos e vozes em um crudelíssimo espetáculo de ventriloquia.

Ele nos odiava. Nem mesmo suas insígnias vulvares alimentavam-no de tanto prazer quanto nos esfolar o couro entre duas ou três piadas cortantes.

Tantas vezes desejei sua morte, quantas pragas atirei contra aquele belo e irresistível inimigo, de olhos semicerrados, sobrancelhas contraídas, sorriso libidinoso, cavinhas esculpidas nas maçãs do rosto e escondidas sob a barba malfeita, como duas pantanosas armadilhas.

A fim de abrandar o terrível efeito que sua impostura me causava, todas as noites eu comia-o em pensamentos. A musculatura retesada de meu acossador rangia lânguida e ele implorava mimoso para que eu o currasse com violência e me dissolvesse por dentro e ao redor de seu próprio gozo. Quem é o viado agora?, eu perguntava à fronha transformada em músculos. Quem é o escroto agora?, exaltava-me ao meditar sobre a vingança que escorria morna sobre meus dedos anestesiados.

Aquilo virou um hábito, um exercício de desconstrução do outro. Quanto mais eu o fodia sob a protetora bênção das horas insones, menos assombroso ele se revelava a cada manhã. Eu já não trocava de calçada quando o via caminhar pela rua, perseguia-o, estreitava meu corpo ao seu no mercado, na fila da casa lotérica, na farmácia. Quase podia sentir seu desconforto, o eriçar dos pelos de sua nuca, enquanto minha cabeça repetia o mantra: Viadinho. Viadinho.

O ídolo havia sido desmontado por minha autossatisfação sexual. Diante de meu olhar modificado por libertadora miragem, aquela fortaleza viril transmudara-se em quebradiço arremedo de homem, cuja trinca em sua estrutura eu conhecia a localização topográfica.

Passei a dirigir-lhe sorrisos de cumplicidade, como se dividíssemos algo que os outros ignoravam. Meu inofensivo devaneio havia se transformado na incômoda expressão de um mistério que temia tornar-se evidente. Embaraçado, o piadista se esquivava de minha presença e já não me incluía em suas costumeiras caricaturas. Naquele nauseante circo de horrores, o chicote passara a serpentar nas mãos do antes assustado felino.

Meu opressor sabia que mesmo contra seu arbítrio, como um sonâmbulo, visitava-me constantemente os pensamentos. E em meu pobre fetiche, em minhas pouco inventivas taras, eu o via tal qual ele realmente era, e isso o estremecia.



― Com quem você andou falando, seu baitola? Quem contou mentiras a meu respeito? Foi minha mulher? O que te disse aquela múmia? O que você sabe? ― inquiriu-me ao invadir minha casa e revelar a faca que trazia junto ao cós da bermuda.

― Quem te falou sobre mim? ― ameaçou-me uma última vez, com a arma em riste. Cavaleiro e espada.

― Foi você, sua maldita bicha enrustida! ― gritei, apesar da vida que vacilava diante do fio. Minha vida.

Desprovido da máscara que lhe permitia abusar de seus iguais em humilhantes delitos, ele pôs-se a chorar. Tinha a armadura arruinada e o elmo caído a meus pés. Após largar a faca sobre o tapete da sala, pediu-me desculpas, deu-me as costas e mais uma vez saltou o muro de minha casa. Fugiu para nunca mais voltar. Uns dizem que trabalhou por anos no mercado pornográfico, outros juram que ainda hoje é pastor evangélico em uma cidadezinha do interior.

Não importa. Tudo que sei é que, de um único golpe, aquele sujeito subtraído de si mesmo saqueou-me a doce angústia da dúvida, a delícia de jamais sabê-lo de verdade.

Emerson Braga
                  





quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Colcha de Retalhos #12

Seguem alguns breves textos da coluna Colcha de Retalhos, homônima do livro que está disponível gratuitamente AQUI:


FINAL DE TARDE

Seria uma ofensa chamar o céu de azul naquele momento. Era uma mistura de rosa, laranja, amarelo e azul.
Sem aviso, veio o vento gelado que varre todo final de tarde, garantindo que esteja tudo limpo quando a noite chegar.
O sol, com frio, foi embora. E levou com ele todas as nuvens, para se cobrir.




CULPA

Quando Ele apareceu, perguntando quem é que havia comido do fruto proibido, todos ficaram desesperados.
Adão, que não havia sequer se aproximado da árvore, não pensou duas vezes, apontou o dedo acusador para Eva e disse que havia sido ela.
Os pássaros até hoje assobiam, fazendo-se de desentendidos.




SAUDOSISMO

Passei na casa dos meus avôs apenas para uma visita rápida. Inocência minha achar que conseguiria sair de lá antes do jantar. Como sempre, minha avó convenceu-me a ficar. Segundo ela, estava preparando uma comidinha especial e, além disso, eu andava muito magro, muito branco, precisando comer bem. Decidi ficar.
Enquanto ela terminava os preparativos, sentei à sala com meu avô para ver o jornal. Ele, esparramado na velha poltrona de couro, após duas ou três notícias, comentou:
- Bons os tempos em que só se roubavam corações.




DESTINO

Acordou no ônibus. Não sabia para onde estava indo, não fazia idéia.
Olhou em volta, apenas indiferença. Começou a ficar incomodado com a situação. Queria perguntar para alguém sobre o destino, mas tinha vergonha. Tentou olhar pela janela, mas estava no corredor e a senhora ao seu lado dormia, com as cortinas fechadas.
Depois de certo transtorno, resignou-se com a situação. Nunca achou que fosse chegar a lugar algum. Algum lugar - qualquer que fosse - já seria longe.







quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Santo de casa é que faz milagre

Sou viúva de santeiro. Ainda hoje moro no casebre ao lado da oficina que cheira a milagre. Quando nasce uma nova imagem, rezo à Virgem, agradecida. Em Minas é assim: a religião dá sustento a muitas famílias.

O avô do meu sogro já ganhava a vida com as virtudes do cinzel. O ofício tem galgado gerações, como sinal de esperança. A arte popular corre nas veias dos homens da família, batizados pela escultura. Seu trabalho é movimentar a devoção, facilitar o acesso à santidade. Meus filhos aprenderam cedo a manusear o formão, o macete e a goiva. Brincaram muito com lasquinhas de madeira e com pó de argila. Seus bonecos eram os santinhos defeituosos, impróprios para venda.

As mulheres também se dedicam. Ajudam nos finos retoques da pintura das peças, compram matéria-prima, atendem os clientes devotos e administram o lucro sagrado. Nosso ateliê é especial, porque fabrica e comercializa tanto esculturas feitas em madeira quanto em cerâmica. Produzimos réplicas dos canonizados e também daqueles santos do povo, queridos e simpáticos, mas que ainda não ganharam o título do Vaticano. Fabricamos imagens de N. Sra. Aparecida, N. Sra. de Fátima, São Frei Galvão, São José, Santa Edwiges, Padre Cícero...

Até hoje me emociono com cada obra recém-criada. Ontem mesmo ficou pronta uma beata interessante, feita sob encomenda. O freguês era devoto de Madre Paulina, Irmã Dulce e Nhá Chica; pediu, então, uma imagem mista, em cedro, que remetesse às três religiosas. A estátua tem os olhos fundos de Irmã Dulce, a negra cor de Nhá Chica e a veste preta e branca de Irmã Paulina. Se pedir a intercessão de uma única santa já traz resultados tão favoráveis, imagine rezar uma novena inteira diante da imagem triplamente ungida?! Um padre veio junto do paroquiano, para benzer a venerável novidade.

Há quem faça encomendas criativas e até esquisitas. Outro dia, um motorista de táxi pediu uma N. Sra. do Semáforo para pendurar no espelho interior do carro. “Tenho certeza de que ela vai abrir todos os sinais para mim” — disse, convicto. Um jovem de braços tatuados veio encomendar um São Videogame, que certamente o ajudaria a vencer os campeonatos de jogos virtuais. Uma madame comprou um minicrucifixo de madeira para seu cachorrinho de estimação. “Ele vai à missa comigo e já sabe até latir o terço” — afirmou.

Alguns fiéis são bem criteriosos. Analisam peça por peça, até se sentirem seguros quanto à imagem a ser adquirida. “A escultura deve ter, no máximo, 15 centímetros, para caber na bolsa e não pesar demais. Minha promessa é levar a santa aonde eu for e para sempre” — confidenciou a senhora obesa que se locomovia com dificuldade. “Eu era mórbida, agora sou severa. O sobrepeso será o meu milagre”.

Há quem prefira as imagens de argila: “Elas vêm do pó, como nós” — argumentam alguns clientes. Um colega que não é cristão quebra a escultura assim que a graça é alcançada; por isso, gosta das peças mais frágeis. Por outro lado, alguns dão mais valor às esculturas de madeira. Pensam que a resistência do pau de árvore incentiva a persistir na oração e na caridade. Acham que a fé reside é no entalhe, recorte e montagem do lenho! “A cruz de Nosso Senhor é a grande prova disso” — explicou uma fiel.

Assim como há santo de todo naipe e protetor de toda causa, há crente de toda sorte e indigente de toda vontade. Alguns colecionadores exigem várias estátuas de um mesmo beato: pequenas, médias, gigantes, gorduchas, magrelas, de madeira, de bronze, de barro, de corpo inteiro, só o busto... Um dos nossos melhores compradores tem mais de sessenta imagens de João Paulo II. Ele diz que conta com a custódia do papa há anos. “Pra mim, ele já é santo há muito tempo”.

A crença do povo emociona, e ainda bem que existe a arte dos fazedores de santos para referendar essa relação das pessoas com o Divino. A gente gosta de tocar os beatos, conversar com eles, mudá-los de lugar, abraçá-los, passar uma flanelinha limpa para tirar a poeira deles. A gente gosta de acreditar que eles também tinham pecados, mas se arrependeram e optaram por uma vida reta. A gente quer saber detalhes do dia a dia desses nossos amigos íntimos. A gente dá comida e até pinga para os companheiros de peleja. É preciso acreditar que a santidade cabe a qualquer um.

Meu santo de devoção é exclusivo. Convivi trinta e dois anos e tive dois casais de filhos com ele. Pense num homem bom e amoroso! Pense num pai presente e dedicado! Acho que apreendeu a virtude dos santos que esculpiu. Augusto foi promessa cumprida em minha vida, matrimônio acertado com a bênção de Santo Antônio.

Quando éramos noivos, eu tinha ciúme da forma como ele modelava as santas, do cuidado dele com a feitura de suas curvas, da forma profunda como ele olhava e tocava as Virgens. Com o tempo, meu despeito se tornou admiração, afeto, adoração — pelo marido e pela arte sacra. A oficina de um santeiro é verdadeira fábrica de amor!

Sonho em ter uma escultura de Santo Augusto em meu quarto viúvo, mas meu esposo não se deu ao trabalho de criar o autorretrato. Não faço a encomenda para os santeiros vivos que me são próximos, nem para os distantes. Eu mesma quero fazer a imagem, em segredo, em penitência, com base nas fotos que tenho dele e na lembrança de nossos bons tempos. Falta-me habilidade e força e destreza. Sobra-me obstinação e carinho e esperança. Reservei mil madrugadas para talhar o meu santo santeiro. Vez ou outra, magoo as mãos e entristeço a alma, mas o mister da mulher de artista é mesmo esperar, sempre em serviço. Deus só me leva quando a obra estiver pronta!

Maria Amélia Elói







terça-feira, 25 de agosto de 2015

Os pintassilgos



O verão estava no auge. Das aulas, já Albertino se tinha esquecido alegremente, nos seus treze anos ávidos de largueza campestre, o pé descalço liberto, as roupas soltas, o chapéu desabado, mas confortável. O seu céu era a ribeira: um charco aqui, outro acolá; o resto, areal sombreado pelos amieiros, a frescura e o jogo das areias, duma firmeza indolente, a acariciar-lhe as solas dos pés a cada passada, a ceder lascivamente com um ruído roçagante — música para os seus ouvidos. Em cima, o emaranhado dos salgueiros ou o horizonte mais alto das copas dos amieiros, ondulando suavemente, o sol a vibrar nos seus olhos ao ritmo da folhagem, a fisga preparada, a atenção concentrada. Qualquer movimento irregular da ramagem podia indicar um pássaro. As horas passavam, o prazer inebriava, só o estômago obrigava ao regresso ao casarão familiar de telha vã.
A observação dos pássaros e da sua beleza, a fruição dos seus cantos, levava-o a querer engaiolar alguns e a tê-los à disposição para prazer auditivo e visual, mas também para ostentação do troféu. Com alguma habilidade construiu uma gaiola com uma tábua, vários galhos e arames velhos, na qual não faltavam comedouro, bebedouro e uma portinhola com mola. Sabia que não podia engaiolar pássaros que se alimentassem de insetos e larvas. Só os que comessem sementes. E destes, qual seria o mais bonito senão o pintassilgo?
Um dia descobriu um ninho de pintassilgos nos ramos de uma oliveira pequena. Três ovos. Foi-o guardando, mas evitando aproximar-se demasiado, sabendo que os pássaros chegam a abandonar os ovos, e até os filhotes pequenos, se notam que o ninho anda a ser controlado. Curiosamente, se os encontrarem numa gaiola — ouvia dizer — alimentam-nos até perderem a esperança de os ver soltos e então dão-lhes sementes venenosas para os matar. Por isso, planeou encerrá-los na gaiola poucos dias antes de poderem voar, e deixá-la pendurada na oliveira onde estava o ninho. Isso permitiria não os deixar escapar e esperava que os pais os alimentassem por mais uns dias, os suficientes para que eles conseguissem comer, por si, as sementes que lhes iria pôr na gaiola. E, então, trazê-la para casa.
Os dias foram passando arrastadamente, os passarinhos nasceram e foram-se emplumando. Quando achou que poderiam voar em breve, meteu-os na gaiola, com água no bebedouro e alpista no comedouro. Mas, como a oliveira era demasiado soalheira, temeu uma excessiva exposição ao sol inclemente de agosto e resolveu pendurar a gaiola no ramo alto de uma árvore frondosa que distava dali uns duzentos metros. A distância não seria problema, dado que os pássaros detetam com facilidade os pios uns dos outros. Lá os deixou e voltou feliz para o casarão. Já tinha os seus pintassilgos!
No dia seguinte, chegou a malhadeira, aquela máquina monstruosa, do tamanho duma camioneta de carreira, com os seus ruídos estranhos e movimentos sinistros, mas com capacidades maravilhosas, com que nessa década de sessenta se malhava o produto das searas. Recebia molhos de centeio desatados, por uma abertura superior, que, depois de suspeitados safanões, pancadas e outros tratos violentos no seu interior, vertia, por um bocal, o grão, que era aparado em sacas de serapilheira e lançava, pelo outro lado, a palha em borbotões. O cereal era acarretado para a tulha; a palha era acondicionada ao lado da eira em montões redondos de perfil ogival, para resistirem às chuvas. Ameaçadora era a longa correia de transmissão de movimento, que ligava um cilindro metálico giratório, num trator anexo, a um cilindro semelhante na malhadeira, o qual fazia funcionar todas aquelas peças em madeira que iam e vinham num ritmo contínuo e ensurdecedor, cumprindo tarefas difíceis de adivinhar no interior do engenho.
A meda do centeio era grande, a lide era contagiante; havia a novidade de toda aquela gente que lidava com a máquina com enorme destreza e rapidez, apesar dos perigos que ela representava. Contavam histórias de outras eiras, de alguém que, ao meter o centeio, tinha deixado ir a mão muito à frente e tinha ficado sem alguns dedos, ou daquela mulher que se desequilibrara e caíra lá para dentro...
Ao fim do segundo dia, cumprida a malha, foram-se todos embora: os ceifeiros, para as suas terras; a malhadeira, a caminho de outra eira. A paisagem nesta mostrava-se substancialmente alterada. A anterior meda em forma de casa, feita de molhos de centeio carregado de grão, transformara-se nuns cinco ou seis grandes montes de palha leve — cama de gado para o ano inteiro. Ficava no olhar um brilho de fim de festa. Voltava a calma, voltava a rotina de todos os outros dias.
De repente, lembrou-se. A ideia retiniu-lhe na cabeça em toque de alarme. Tinha-se esquecido completamente dos pintassilgos. Teriam os pais descoberto os filhotes? Tê-los-iam alimentado? Desatou a correr para a árvore afastada, em desatino. Trepou rapidamente até ao galho onde os tinha dependurado, mas o coração apertava-se-lhe — não ouvia qualquer pio. Por fim, assomou. O fim de tarde ia ainda quente, mas pelo corpo de Albertino perpassou uma onda do frio glacial das noites de fevereiro. O olhar tentava discernir o que o remorso persistia em enevoar. Daqueles três passarinhos, já todos cobertos de pequenas penas firmes e bem compostas, já a imitar a coloração dos pais, nada mais restava do que três novelos de penas emaranhadas, desgrenhadas, tombados no chão da gaiola.
Retirou-os. Estavam frios. Tinham morrido há muito. De frio? De fome? De sementes venenosas dadas pelos pais? Tanto fazia. Albertino só sentia que, pela sua cobiça pueril, pela sua negligência, tinham morrido três lindas avezinhas. Morte estúpida, perda pura.
Voltou para casa acabrunhado. Não chorou. Os adultos reprovavam o choro nos rapazes.

Joaquim Bispo

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Este conto foi escrito em 1982 (20 anos depois), em vésperas de uma intervenção cirúrgica, o que é significativo da sua importância como catarse e contrição.

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Imagem colhida na net

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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

UM HAICAI PREMIADO

Publico, nesta edição, o haicai de minha autoria que obteve o SEGUNDO LUGAR no III FESTIVAL DE HAICAI DE PETRÓPOLIS.
Viva a Poesia, que nos traz estas felicidades.
Abraços a todos.

Edweine Loureiro






sábado, 22 de agosto de 2015

A Fábula do Caminhão de Bosta



Era o filho e era o pai e era tarde, nuvens vermelhas no humor da água. A pescaria acabara e assim o calor. Falavam de romance, de como a namoradinha o abandonara; esperava conselhos, respostas, mas o homem negou a cabeça e anunciou,
 
 ***
 
Havia um caminhão de bosta querendo namorar; era um caminhão muito grande e muito cheio, e a bosta escorria caçamba afora em filetes marrons, malcheirosos – para sorriso e alívio das moscas. Exausto de apenas levar bosta, de se pensar exausto disso, começou a paquerar caminhonetas e começou com faróis de marido, cavalheiro, de mandar pisca na ultrapassagem e ceder preferencial. Apesar de se julgar um caminhão digno, obstinado e operante, elas o ignoravam e respondiam,

Desculpe, querido, mas sigamos cada um na sua via.

Ao que ele perguntava o porquê,

Ora, porque você é cheio de bosta!

Arranhado pelas inúmeras e sucessivas recusas, pediu conselho a um reboque amigo seu, cheio de ferrugens, encarquilhado e velho – e com mil amantes e paixões. Conhecedor da alma feminina, o reboque sentou, acendeu um charuto, e meditando, falou,

Se a bosta é a questão, abandone a bosta.

Já longe, já embora, ele parou num estacionamento e desligou o motor. Adorava levar bosta, era a sua escolha, senão dom, senão imposição ou obrigação; mas, raciocinava, existia agora a exigência de sacrificar o melhor, o confortável, para ser mais – e ainda que incompleta essa aritmética ela continha a causa das maiores mudanças. Confiante, partiu dali rumo a um terreno vadio onde sujou os pneus e levantou as costas, observando pelos retrovisores a merda negra escorrer.

Depois reiniciou os cortejos, seguro, limpo, e o sol no capô espelhava como se joia em sua pintura. Ouviu, de primeira, uma recusa, e julgando pouco isso ouviu outra e outra; as caminhonetes, incólumes ao seu empenho, metamorfose, continuavam rejeitando-o. Perplexo, buscou saber, novamente, o porquê das constantes rejeições; elas responderam,

Porque você é um bosta!
 
***

O pai, então, silenciou.

O filho quis ir ao banheiro.





Vivendo de sono

Sabe aquela expressão corriqueira que quem desregula a rotina da madrugada costuma usar? O exagero “morrendo de sono”? Então, essa expressão ao avesso é a que mais bem traduz Lourdes. Quem pode culpá-la por experimentar jeitos de curar conflitos? Tem gente que atravessa semana se lamentando e na sexta-feira, depois do expediente, enche a cara e solta os bichos na boate. Tem quem se encontre na terapia, quem prefira cultos religiosos, quem malhe até esquecer das panturrilhas, quem se jogue nas compras, quem se entupa de chocolate, quem gaste a ansiedade no Facebook, quem toque piano. Meio perdida entre compromissos que a mandam ter e os que acredita que realmente são seus, a Lourdes normalmente dorme. Com sono ou sem, quando se vê feito formiga fora da trilha das companheiras, quando pressente que a folhinha verde que carrega sobre a cabeça vai cair ou voar, apesar do seu zelo ou do seu esforço, Lourdes deita e dorme. E como dorme.

Antes a Lourdes mentia, mas não achava legal. Ao invés do alívio de resolver um pepino, tinha que lidar com a vergonha antecipada por ser descoberta. Não era uma mentirosa compulsiva, não. Usava recursos habituais, socialmente aceitáveis, até: o telefone ficou sem bateria, tenho que estudar, minha bisavó precisa de mim no fim de semana, que resfriado do mal, não dói nada, estou sem fome, desculpa por não ter te visto parado aí do meu lado no ônibus, coisas assim. A sonolência veio depois, chegou mansa e foi se instalando como quem acampa na beira da praia, montando gazebo, cravando guarda-sol, fazendo fogo na churrasqueira e curtindo o calorzinho na pele. Dormir deixou de ser necessidade, de ser coisa noturna. Virou condição para o estar. Era dormir para estacionar o tempo, para sarar feridas que nasciam e se espalhavam pelo corpo sem motivo aparente, para não pensar em morrer, para não ter que encontrar as pessoas, para não falar. Havia mais decência em dormir do que no inventar satisfação ou fazer caras e bocas de contentamento.

Houve época em que Lourdes se preenchia com desejos. Ela queria futuros, fazia planos, juntava dinheiro, cozinhava, pintava as unhas de vermelho, ria alto no bar. Mas aí, os dias foram ficando tão iguais e tão ásperos, os e-mails tão burocráticos e com tantas ordens, os encontros e os prazeres tão raros, tudo tão repleto de post-its e tão assustadoramente vazio, que até a zona de conforto se limitou. À cama. Agora Lourdes não cochila mais em salas de espera, não sesteia depois do café ou de comer bergamotas no sol, não pisca durante o filme, pois não os vê mais. Faz mais de uma semana que dorme sono cheio. No trabalho ninguém reparou que a janela da sala de Lourdes não tem sido aberta e que os crisântemos amarelos murcharam. Os pais deram falta dela na festa de 92 da bisa, mas estavam muito envolvidos com questões de bolo, chá, refrigerantes e balões poá e a filha era tão atarefada, sempre às voltas com os estudos e o trabalho, na correria, preferiram deixar por conta de Lourdes, para não atrapalhar. Fizeram bem, porque a filha estava ocupada, mesmo, vivendo de sono.





sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Dona Ondina e Seu Teto.

Desde a mudança para o novo apartamento, aqueles passos vinham lhe martelando a cabeça. Pesados, firmes, marciais, passos de quem nenhuma consideração nutria pelo vizinho de baixo. E o morador sob aqueles pés que pisavam com tamanha voracidade era ela, viúva, inválida, prisioneira de uma cadeira de rodas, clamando por sossego no apagar de sua existência, sossego quebrado pelos maus modos do morador do 802.
Menos de uma semana convivendo forçosamente com aqueles pés de pedra e pouco sobrara da curta paciência de Dona Ondina. Bastava o morador do 802 chegar em casa e o tormento se iniciava. Passos, a qualquer hora do dia. Uns secos, denunciando os pés descalços do vizinho em contato com o assoalho - Dona Ondina tinha a certeza pela natureza dos sons que o chão acima de sua cabeça era forrado por tacos - outros, agudos, quando a criatura portava sapatos. "Maldito! Se ao menos tivesse um piso para amenizar o trote", lamentava.
Certa noite, despertada pelo andar paquidérmico do vizinho, Dona Ondina, abandonou sua cama e embarcou na cadeira de rodas rumo ao interfone. Reclamou com o sonolento porteiro do comportamento anti-social do morador do 802 e pediu providências. Minutos depois, o empregado, agora desperto, certo assombro modulando a voz, informou à importunada velhinha que o "Seu Rosalvo" havia demonstrado bastante irritação com a abordagem àquela hora da madrugada e, como conseqüência, mandara um recado à reclamante.
— Que tipo de recado, Diderot?
O porteiro, iluminista só no registro de nascimento, ainda tentou amenizar a situação.
— Com todo o respeito, Dona Ondina, ele mandou a senhora tomar naquele lugar onde o sol não bate...
O incidente fez que dela germinasse profundo ódio em relação ao morador do 802. O rude trotar de Rosalvo tornou-se apenas um componente no manancial de insatisfações que a anciã cultivava por ele. Suas gargalhadas, visitas, músicas escutadas, barulho da descarga, cheiro das suas frituras de homem solteiro, tudo era motivo de reclamações. Diderot ainda tentava apaziguar a contenda porém, Dona Ondina era resoluta: “Até a respiração desse calhorda me incomoda”, dizia ela ao porteiro da noite.
A solidão de Dona Ondina provocada por sua dificuldade em locomover-se era, diluída pela visita semanal da faxineira e pela internet. Os netos, presença bissexta no apartamento, costumavam provocá-la, chamando-a de “Vovó Internauta”. Ela assentia rejubilada àquelas homeopáticas manifestações de carinho dos seus enquanto conectava-se em ondas cibernéticas com o mundo que lhe era privado pela fraqueza das pernas. Cadeira de rodas em frente ao computador, Dona Ondina surfava na rede,  comprando o que era necessário para sua sobrevivência de mulher que pouco ia à rua, fazendo amigos virtuais, trocando receitas por e-mails, vasculhando a vida alheia nas páginas de relacionamentos pipocantes no universo web.
Foi quando ela chegou, obra do acaso, em curioso endereço eletrônico intitulado “Despacho.com”. No site a anciã descobriu, num misto de encantamento e horror, diversos trabalhos de religiões afros para o bem e para o mal.  Numa seção, o internauta poderia enviar o seu “ebó virtual” para prosperidade, saúde, doença ou morte de algum desafeto.
Rosalvo estava impossível naquele dia, sapateando nos miolos de Dona Ondina, cd dos sambas-enredos no último volume. Ela olhou a tela iluminada à sua frente, encarou o teto como se dali brotasse o barulho provocado pelo morador do 802, suspirou e pediu perdão a Santa Prisciliana, de quem era devota.
Selecionou com o mouse o mais perverso dos ebós.
Clicou em “enviar”.
Os dias correram em velocidade banda larga e Dona Ondina esqueceu por completo Rosalvo, macumbas virtuais e netos ingratos, mergulhando por inteira em sua invalidez e no passatempo da internet. Em certo momento, percebeu que há dias nenhum barulho partia do andar de cima. Agora era o silêncio que a incomodava. Incômodo de mãos dadas com o remorso. Temeu que o ebó encomendado houvesse surtido efeito e internamente se justificava: “Foi um momento de desespero, o homem me perturbava o dia inteiro”. Ou ainda: “Não levei a sério o Despacho ponto com, foi uma brincadeirinha de velha”.
Entrou em pânico ao sentir o cheiro da carne apodrecida vindo do andar de cima. Imediatamente ligou para a portaria. Aristófanes, porteiro do dia, atendeu e de pronto foi averiguar. Minutos depois o interfone soou no apartamento de Dona Ondina:
— Ligue não, Dona. Era um pacote de carne podre que alguém jogou fora e ficou entalado na porta da lixeira do oitavo andar. Seu Rosalvo deve estar vivo e gozando a vida por aí.
— E você sabe dele, Aristófanes?
O porteiro do dia, que de gracejador possuía algo além do nome de batismo, não perdeu a oportunidade de vomitar um gracejo:
— Seu Rosalvo viaja muito. Faz uma semana que eu não vejo ele. Deve estar queimando a rosca em algum lugar.
— Como?
— Essas coisas, Dona. Tenho até vergonha de falar com a senhora. Esses negócios estranhos, de homem com homem, a senhora entende?
Dona Ondina entendia, mas não eram os gostos sexuais do vizinho do 802 o alvo de suas preocupações. Queria o silêncio pairando sobre sua cabeça e temeu o regresso de Rosalvo, pisando duro, gargalhando alto, ladrão de sua paz.
— Quem sabe ele se casa, Dona, com um gringo bonitão que leve ele lá pras estranjas? Copacabana tá cheia deles!
Se casou, não deu notícias. Meses avançaram sem que um único barulho escapasse do andar de cima. Nem o som de uma chave girando dentro da fechadura chegava aos ouvidos de Dona Ondina. Arrependida por julgar haver vitimado Rosalvo com as artes do ciberfeitiço, a anciã acendeu uma vela virtual e deixou uma oração pela suposta alma no “Santa Prisciliana on line”.
Alívio percorreu seu ser quando foi acordada uma noite pelos passos de Rosalvo. Por debaixo das cobertas, chegou a sorrir ao reconhecer as passadas familiares, rítmicas, do vizinho do 802. Ele estava de volta. Nada acontecera. Certamente, largado pelo namorado estrangeiro que não deveria existir somente na cabeça maledicente de Aristófanes, Rosalvo retornara. Dona Ondina  reencontraria o sossego de espírito, roubado pelo silêncio que tanto ansiara. Jurou nunca mais reclamar de Rosalvo, emitir-lhes pensamentos rancorosos ou botar seu nome em bocas de sapos de mentira  nas páginas da internet. Tentaria selar a paz  com o morador de cima.
Porém, dias transcorriam e os baques provocados pelos pés de Rosalvo tornaram-se insuportáveis. Houve momentos em que ele chegou a andar por horas a fio massacrando os miolos da anciã a qual deixou de lado a trégua e acionou o porteiro da noite.
— Diderot, avisa para o Seu Rosalvo que ele está me deixando doida com esse barulho na minha cabeça.
— Como assim, Dona Ondina?
— Os passos, Diderot, desse cavalo batizado do Rosalvo.
Percebeu uma sensação de constrangimento do outro lado da linha.
— Dona Ondina, Seu Rosalvo morreu. O corpo foi encontrado semana passada lá na estrada das Paineiras. Desovaram o coitado...
— Tem alguém no apartamento?
— Não, os parentes dele vêm amanhã para tirar a mobília.
Dona Ondina negou-se a consultar um psiquiatra. Os filhos, agora mais presentes, tentaram de todas as formar dissuadi-la da decisão, mas ela manteve-se firme. Era o finado vizinho que estava lá, sapateando sobre sua cabeça como forma de vingança por ela ter encomendado sua morte através das forças ocultas. E ela, pecadora, teria que permanecer ali até o final dos seus dias purgando a sua maldade com um semelhante. “Deixe de besteira, mãe” dizia um filho. “Se ouvem a senhora falando deste modo, acabam acreditando e te denunciam”, dizia o outro. “Vocês não o percebem porque ele é esperto. Fica quietinho quando tem mais alguém em casa. Ele só que me atormentar, e com justiça”. Os filhos desistiram. Que a mãe ficasse com suas loucuras.
Dona Ondina passou a pesquisar em sites sobre fenômenos mediúnicos e descobriu que o modo mais fácil de se comunicar com aquele tipo de espírito seria através das pancadas que ele emitia.
Logi que as batidas no teto voltaram, ela perguntou com firmeza:
— É você que se manifesta, Rosalvo? Se for você, bata duas vezes.
Três batidas secas.
Repetiu a pergunta diversas vezes. Sempre as mesmas três pancadas em negativa.
Intrigada, ela catou caneta e papel para em seguida pergunta:
— Pode então soletrar seu nome através de um número de batidas correspondente a cada letra do alfabeto? Um batida para a letra "A", duas para "B" e assim por diante? Se concordar, bata uma vez.
Uma batida.
— Então, vamos ao trabalho.
Gastou a tarde inteira conversando com o morto pelo método das pancadas. Descobriu chamar-se Ângelo e que vivera naquele apartamento 30 anos atrás. Permanecera no imóvel sempre assustando àqueles que se aventurassem nele morar, porém, estava cansado dessa vida de fantasma batucador de tetos. Antes, tentara fazer o mesmo com ela, Ondina, mas ficara decepcionado com a confusão que a velhinha fizera entre suas batidas e os passos de Rosalvo, realmente barulhentos. Estava mesmo surpreso por ela imaginar ser ele o espírito de Rosalvo. Tranqüilizou a anciã afirmando que o morador do 802 não fora vítima dele, nem tão pouco dos seus ebós à distância. Rosalvo morrera por obra de um assaltante especializado em seduzir homens para roubá-los. "Reagiu, o pobre coitado".
Aperfeiçoaram o método de comunicação, passando das batidas, alvo das reclamações do vizinhos, para a escrita no computador. Dona Ondina digitava e Ângelo respondia logo abaixo, guiando o cursor como por encantamento.

Dona Ondina viveu seus últimos anos assim, em colóquio diário com o espírito batedor. Soube noticias do outro lado, inclusive de parentes. Ângelo revelou-se um ótimo correspondente do além. Guardou segredo até o fim. Ninguém acreditaria mesmo...





quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Belezura

O Coronel Aguilar Morato esporou o alazão Tinhoso, porque tinha pressa.
Atrás dele, Zé Fumaça montando a égua Esquiva e Gumercindo sobre o tordilho
Luar comboiavam o patrão. O último da fila puxava um burro carregado de apetrechos
nas laterais e um homem desfalecido no lombo. Trotavam em direção à aurora,
onde nuvens raras e retas se vestiam de alaranjado. O destino era lá longe.
Talvez chegassem com sol a pino, para voltarem ao curral da fazenda antes
do sol se por.
No cerrado monótono e silencioso, alguns arbustos ensaiavam sombra, mas a
tropa seguiu mais um tanto até um ipê de meia copa, sobre a qual o sol não
se metia a escaldar o chão rachado.
Pararam, apearam, urinaram.  Dividiram os cantis entre suas bocas e as bocas
espumantes dos animais. Não se reservou uma gota ao pobre coitado que gemia
amarrado sobre o burro.
O Coronel aproveitou para afiar o seu chicote nas costas nuas do que mais
parecia uma posta de sangue e carne viva, naquilo que um dia fora um caboclo
bonito, brejeiro, sorridente e musculoso de nome Narciso, ajudante da sede da fazenda
para o que desse e viesse, desde limpar a prataria do casarão, abanar lenha no fogão,
descascar cebola e até divertir as mucamas, a sinhá, a sinhazinha, o menino e
o próprio coronel, com seu jeito engraçado e pitoresco de levar a vida.
Era um sedutor. Aliás, um ex-sedutor, já que de cima daquele burro dificilmente
sairia o caboclo que um dia fora.
E a tropa composta de três homens, quatro equinos e um semimorto seguiu em silêncio
o caminho para lá de duas horas, até encontrar um bosque solitário no cerrado,
onde algumas árvores se davam as mãos em ciranda, protegendo uma espécie de
clareira no centro.
Haviam chegado ao destino. Amarraram os animais num dos troncos e Zé Fumaça e
Gumercindo apearam do burro a posta de sangue e carne viva. O coitado pendia
a cabeça, igualmente ensanguentada, para um lado e na impossibilidade de ficar em pé,
foram jogados seus dois braços nos ombros dos empregados, que o arrastaram quase de
joelhos à clareira onde o coronel o esperava de chicote na mão.

- Joguem essa bosta vermelha aqui no chão. Zé Fumaça, vai no burro e pega o alicate.

Dizem que a audição é o último dos sentidos que um moribundo perde. Verdade.
Narciso grunhiu, e tentou se levantar ao ouvir a palavra “alicate”. Sem sucesso.
Levou um chambão da bota do Coronel, rodopiou e caiu de costas no chão.
Aguilar Morato fez questão de ele mesmo operar o serviço do começo ao fim.
Primeiro, tirou-lhe as calças. Viu-se um pinto mole – porém avantajado -
refastelado sobre dois bagos, mas o pior estava por vir. De alicate na mão, o Coronel
fez o que se fazia com touros indóceis. E num só aperto, o sangue espirrou e a maçaroca
que um dia fora uma indócil genitália jazia nas mãos orgulhosas do patrão.
Narciso soltou um grito de revoar os anuns, caga sebos e chopins,
que assistiam ao espetáculo pousados nos galhos.

- Isso, filho do diabo com a rameira, continua gritando de boca aberta.

E enfiou-lhe garganta adentro pinto, bagos e sangue macerados, empurrando com força e
jeito de quem sabe fazer linguiça, enchendo as tripas do porco com sua própria carne.

- Traz o funil e o galão, Gumercindo. Zé Fumaça, amarra o infeliz de cabeça para 
baixo no tronco. E de perna aberta.

O Coronel examinou o funil e fez sim com a cabeça quando mediu a parte mais fina.
Também era avantajada.

- Tem graxa?
- Vou ver no burro, Coronel.

Gumercindo trouxe um pote com uma pasta viscosa, própria para brilhar bota.
O Coronel tirou um pano encardido do bolso, lambuzou a ponta do funil e sorriu
pelos olhos endiabrados.

- É para não magoar muito o coitadinho.

E empalou Narciso até o funil parecer um cone no cu do caboclo.
Dessa vez o grito saiu abafado. Um dos bagos foi cuspido inteirinho no chão.

O Coronel não era um homem das Letras. Os únicos livros pelos quais passou os olhos
foram a Bíblia e o Manual do Tiro de Guerra, quando foi um bravo e promissor fuzileiro
de campanha. Jamais imaginaria – ou saberia - que a técnica do funil teria saído da pena
de Érico Veríssimo, quando relatava em seus romances os requintes de tortura na rixa
entre maragatos e colorados nas lonjuras gaúchas. A diferença é que, na literatura,
no funil era despejado azeite fervendo.
O Coronel tinha seu estilo próprio de finalizar morte horrível.

- A gasolina, Zé Fumaça. Deixa que eu despejo.

O outro bago foi cuspido, dessa vez na bota do Coronel. Tinha cheiro forte de gasolina.

- Que nojo! Gumercindo, limpa aqui. Cabra mais porco: vomitou gasolina na minha bota. 
Zé Fumaça, me dá seu fósforo.

Zé Fumaça hesitou, apavorado. Gumercindo tremia. Ninguém sabia que diabos estava fazendo ali.
O coronel mantinha seu segredo trancado a sete chaves. Não era conveniente que alguém,
além de Narciso, tomasse conhecimento dos porquês do acontecido.

- Anda, homem. Tu não vive pitando essa palha de merda, que faz mal à saúde?

O que sobrou do galão foi encharcado pelo resto do caboclo. Não houve momento de
sadismo vagaroso ou discurso fúnebre ou gáudio de realização de vingança jurada.
O fósforo, logo que riscado, fez do funil uma tocha, que se entranhou e espalhou
pelo caboclo que se contorcia em silêncio. Errou a mão o Coronel. A gasolina respingou
no chão e pelo tronco, causando um fogaréu de proporções imprevisíveis.
Os cavalos se assustaram, o burro berrou. Em menos de cinco minutos,
o que tinha que queimar, queimou. E o que não tinha que queimar, também queimou.
Casacos de couro abafaram as labaredas iniciantes que subiam pela árvore,
mas o chão foi deixado arder até virar um monte de cinzas e emanar um cheiro
de churrasco mal feito. A mando do Coronel, os três sapatearam suas botas sobre
o resto de brasa e carne queimada, misturando tudo que restou de Narciso
na poeira do cerrado.

- Agora podemos ir. Ainda temos uma boiada a tocar e contar.

O trio mais o burro seguiam a galopes. Pobre do burro que não nasceu cavalo garboso,
mas galopou do seu jeito atrapalhado, de língua de fora, a chacoalhar os apetrechos.
Menos mal. Seu dorso estava mais leve.
O sol já havia cumprido mais de metade do seu arco, quando os três se dividiram.
As primeiras rezes foram avistadas e os berrantes entraram na orquestra de
ôs, ôs, ôs e êias, êias, êias. Antes de três quartos de hora, a boiada seguia em
ritmo disciplinado em direção ao curral. O Coronel galopou até o primeiro boi,
quando se postou ao lado da porteira. Começou a contagem. E acabou rápido.
Boi é bicho obediente.

- 267, Gumercindo?
- Carecia de ser 268, Coronel.

Zé Fumaça fez que sabia a diferença.

- Minha patroa quando foi bater roupa ontem no alagado viu uma sucuriju se 
aproximando da novilha. Ela tentou enxotar, mas não deu tempo.
- A novilha, Zé?

Zé Fumaça tirou o chapéu. Gumercindo e o Coronel repetiram o gesto.

- A patroa jurou certeza.
- A novilha Belezura, Zé, a minha Belezura?
- Ela mesmo, coronel. Diz que a cara dela ficou de fora da cobra.
- Para, para de falar, Zé Fumaça! Não me maltrata mais!

Gumercindo cofiou a barba malfeita, olhou o sol se escondendo no cerrado.
Zé Fumaça franziu os lábios. Tinhoso, Esquiva, Luar e o burro baixaram a cabeça.
Até as rezes pararam de mugir no curral. E o coronel chorou de soluçar.

Houve uma quase eternidade de silêncio respeitoso.

- Gumercindo!
- Sim sinhô, Coronel.
- Pega facão de mato, machado e serrote no bornal do burro. 
E vai até o alagado. Pica em rodelas a filha da puta dessa cobra.






terça-feira, 18 de agosto de 2015

Cândida

Faz meses, não, acho que já faz anos que a menina se arranha se machuca e se mutila. Até agora vem conseguindo esconder o fato. Ora foi um tombo, outrora um acidente com a faca na cozinha, e assim os engambela todos. Aos olhos de pai mãe namorado avós primos professores professoras padre ela é sempre boa e pura. Bela e com a face (quase) angelical, os cachos loiros dando o acabamento necessário ao rosto cujos olhos verde-azulados coruscam de modo absurdo.
E não para de se ferir cutucar com as unhas com estiletes grampos fivelas clipes pontas de facas. Às vezes, muitas, nem percebe. Está concentrada em um programa da televisão ou então no celular e, quando vê, é um grito que sai, revelando que despedaçava a pele do calcanhar, a perna dobrada sobre a cadeira, o joelho saliente escapando do short e agora a carne ferida reclama em vermelho.
Inúmeras as promessas de que pararia, mas prometer a si mesma costuma não dar em nada, Cândida sofre a cada vez que constata que se sabotou e se rasgou de novo. É pura e boa. Mas falha sempre e, como falha, as pessoas morrem. Tia Joana morreu no acidente de carro, tio Alberto inutilizado na cama, e tem ainda dona Zica, ninguém lhe tira da cabeça que não podia ter deixado a velha ir embora mais cedo naquele sábado, foi pegar outro ônibus, ninguém a conhecia, pronto, todo mundo assaltado, os policiais, o tiroteio, a faxineira de anos de sua mãe morta à toa. Era ela. Se tivesse feito as coisas certas no momento certo, estariam todos bem.  
Só Cândida sabe quantas são as ruindades em sua cabeça. Aquele homem, por exemplo, terminando de atravessar mais devagar a faixa, o farol já esverdeando pros carros. Se quisesse, lançava o pé no acelerador e passava por cima do homem. Estaria feito. Por nada, talvez apenas para que soubessem que não é boa nem pura nem bela. É suja e sua sujidade não sai com qualquer limpeza. Sua sujidade não para de lhe atormentar e vem se tornando dia a dia mais pesada.
Seria tão simples, nem saberia quem teria sido o homem morto, se tinha filhos, mulher, nada. O farol abre e ela acelera devagar, o homem (era meio manco?) já em sossego na calçada. Não tinha feito nada e é preciso conferir pelo retrovisor que o homem continuava vivinho. Sim. Continuava. Mas ela não podia continuar. Tinha pensado em sentir as rodas do carro deliciosamente esmagando a cara do homem manco. A parte de baixo do carro retalhando a pele do homem. As tripas pra fora, o sangue espirrando.
Pessoas normais não pensam em matar nem temem da próxima vez não conseguir segurar o intervalo de segundo entre pensamento e ação, mas faz muito tempo que Cândida sabe que não é uma pessoa normal e agora é preciso socar muitas vezes o saco de areia do boxe até suas mãos sangrarem pra ver se tira de dentro de si o espesso pensamento de ser, de poder ser uma assassina. O calor fica ruim na cabeça, a molidão se alastra pelos membros que não querem bater no saco e sim no estômago, a ver se tiram aquele enjoo que toma conta, se tiram a origem de tudo.
Por uns dois ou três segundos teme ser flagrada por Tânia, a instrutora, mas sabe que em verdade não irá socar a própria cabeça. É só vontade e isso dói. Seria melhor se acabasse com tudo, a cabeça parando pra sempre. Ou ao menos se pudesse desatarraxá-la e engatar outra no lugar, menos defeituosa.
Se soubessem como é difícil ser pura e boa o tempo todo. A vista escurecia e a bondade parecia lhe afundar. Queria padre Daniel agora, ele não entenderia, mas talvez conseguisse tirar de dentro dela a maldade. Ao menos por ora. Talvez a acalmasse com uma hóstia, uma hóstia boa sem gosto e pura de verdade pela ausência de sabor, cheiro, cor. A pureza completa. E ainda a mandasse rezar algumas ave-marias e outros tantos pai-nossos e a reza a envolvesse e ela conseguisse fazer a cabeça parar.
Esmurrava com mais força o saco até que, quando viu, o tinha feito arremeter contra si, acertando sua cabeça e sendo atirada ao chão, a vista preta, os lábios arroxeados, o sangue pingando do nariz, ou era da sobrancelha direita. A água brotando dos olhos, água que não era santa nem pura. Tânia se aproxima correndo e pergunta justamente se estava tudo bem, passando a mão pelo rosto de Cândida, deformado pelo choque e pelo choro. Faz um carinho em seus cabelos desgovernados e ela olha para a instrutora suplicando a ajuda que sabe que a outra nem ninguém pode dar.
Cândida era boa na luta, fazia dois anos e meio que treinava diariamente, era o que ajudava pra mente funcionar mais devagar. Tânia é que a havia introduzido na luta, explicado que era bobagem achar que era só coisa de homens, hoje em dia as mulheres fazem tudo e ainda podem ser melhores e até mais fortes que os homens. Tânia era forte e era boa. Passava o dia treinando, mas não era burra como se pode pensar que quem lida com coisas do corpo é. Cândida havia aprendido isso aos poucos, era mais um de seus preconceitos que caía.
Tânia sabia coisas e coisas do mundo e da vida, uma sabedoria que poucos tinham. Cuidava da filha adolescente sozinha. Um namorado que às vezes lhe sabotava, mas no final ela é que o sabotava. Não gostava muito de estudar, mas fazia de tudo para que a filha gostasse. Ela era boa. Mas agora era um obstáculo. Cândida não era tão boa assim e talvez nunca conseguisse ter uma filha, não era capaz de ser mãe. Tânia era odiosa, a culpa na verdade era dela. Claro que era. Ela é que não tinha conseguido fazer a cabeça de Cândida parar. Era isso que Tânia tinha que ter feito. A culpa toda dela, todinha, e o ódio despontando sem medo, puro, inteiro, em jorros.
A instrutora continuava acarinhando os cabelos de Cândida e perguntava de novo se estava tudo bem, mas fazia isso com uma voz baixa e que procurava esconder o medo que ela própria tinha de a aluna haver se machucado seriamente, seria um problema para sua academia, sua profissão, talvez até perdesse tudo. Cândida percebia isso e a raiva aumentava. A outra não era verdadeira. Era cínica, interesseira. E sentiu nojo daquela mão. Um nojo tão intenso que foi ganhando forma e crescendo e mobilizando seu braço fazendo-o ficar dormente até explodir, os olhos enxergando ainda embaçados, escurecidos, as luzinhas faiscantes pareciam se espalhar à sua frente e o soco atingindo em cheio a cabeça de Tânia, acertando o olho esquerdo da instrutora e fazendo-a parar o carinho e as perguntas estúpidas.
Com bolinhas ainda mais coloridas aparecendo à sua frente, Cândida se levantou, pegou a bolsa e escarrou na cara intumescida da instrutora. Mas onde é que estava a coceira que não passava? Ah, era no pé. Um chute, foi. Pra sempre. Agora tinha que se mandar de vez. A cara de Tânia transformada, talvez apenas ligeiramente menos feia do que o buraco produzido pelo espeto de cabelo com que Cândida, rumando pro carro e tentando apenas manter a respiração quieta, cutucava sem parar a fina pele abaixo dos seus olhos de safira. Precisava conseguir voltar a enxergar direito pra poder dirigir e voltar pra casa sem cometer nenhuma barbaridade.






segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A poesia de Anna Zêpa




21
morro
a cada
saudade
que não
mato


17
quero.

afasto
confesso:
esqueci você
em mim.


16
amor
é resto
de gozo.


11
viro a página
na tentativa
de virar você.


09
grão de areia
perdido no asfalto.
alguém 
passa.
eu só.


06
me deixo
em cada
pedaço
por onde
passo.


02
estamos chegando
nalgum lugar
da
vida

eu sem você
você sem mim
não há
saída


01
ela na terra dele
ele na terra dela
há distância não  



Do livro 
"A convivência dos nossos rastros". 
Editora Selo doburro.





domingo, 16 de agosto de 2015

Puta

Cuspiu na pia. Junto com a saliva, os restos do sexo. Estremeceu. Não tinha nascido para aquela vida. Fazer dinheiro trepando é pra quem tem estômago. Lembrou de antes. De quando não contava as rugas e as unhas estavam sempre feitas e o perfume francês e as roupas eram recebidos de presente, pagos por homens importantes. E de quando cada encontro era uma festa de bebida e pó. “Cheira aí, meu bem”. E ela fungava tudo. Para aguentar as trepadas alucinadas, os tapas,as humilhações. Tinha que cheirar. E beber. Que o champanha e a vodca deixavam qualquer porra com gosto de importada.
Sacudiu a cabeça. Em seguida, estremeceu de novo. Dessa vez, mandou embora o tempo. 
Porra de madrugada fria! Porra de úlcera maldita que dói toda hora! Mas tinha coisa que doía mais. Os murros do cafetão; a penetração por trás, forçada, apressada, arrebentando tudo. Não se acostumava. As outras debochavam: “Onde já se viu, puta com frescura?” Pois ela era uma puta danada de fresca. Desconsentia. Negava. Argumentava. Depois fazia. Tinha medo de o freguês reclamar para o cafetão. Mas não entregava a bunda sem luta.
Até que não é caro o remédio da úlcera. Só não adianta de nada. Vai ver é este conhaque vagabundo que está cortando o efeito dos comprimidos. 
Jogou na boca dois chicletes de hortelã. Testou o hálito. Retocou o batom vermelho e limpou os dedos na moldura de madeira apodrecida do espelho. Parou um instante para ver o coração rabiscado na parede. Não estava ali na semana anterior. “Marcelo ama Polaca”. Mais uma idiota achando que cliente se apaixona por puta. Polaca, Polaca, fica esperta! Devia ser menina nova. Tinham chegado umas catarinenses que ela ainda não tinha visto. Só gente bonita essas gurias do sul. Duro era trabalhar ao lado delas na rua. Altas, cabelos loiros, pele sem marcas. Droga! E ainda trepavam bem, as vacas. Atraíam os homens mais novos. Os melhores. Desses que transam com a puta falando poema e prometendo amor. Uns fodidos, isso sim!
Depois, ia sobrar para ela falar a verdade. Que puta não sonha. Que puta não faz planos. Que puta não fala de amor. E juntar os pedaços. Oferecer o pó, a pedra. Entregar o conhaque vagabundo. Estancar o sangue nos pulsos frios numa noite de navalha cega.
Porra! Quem será essa Polaca? Cuspiu no chão da rua. Estava ficando velha. Sentindo pena da menina do sul. Sentindo falta daquele antigamente de merda. A dor da úlcera queimando por dentro. O coração rabiscado na parede mostrando o pesadelo dos sonhos. O poema ausente em cada transa fazendo falta, finalmente.
Pegou os comprimidos na bolsa minúscula. Aquela desgraça toda ia passar.

(Ilustração: Les Demoiselles d'Avignon, Pablo Picasso)









sábado, 15 de agosto de 2015

jogo de damas



  Gabriela calça-se.
  Sapatos simples não fosse o tom vermelho tal e qual cor de sangue que se soltasse por ferida aberta.
  Calça-se e ergue o corpo em cima dos dois saltos nem assim muito altos, mas finíssimos, e vai ponteando o pedacinho de soalho num ruido seco, atenta ao ressoar das tábuas, um desdobrar em muitos os passos ainda mesmo que descalços, quanto mais aqueles.
  Gabriela Feiteira a deslocar o seu corpo magro: um metro e cinquenta e quatro que quase se diria enfezado.
  Cabeleireira de senhoras com salão no bairro, mora naquela água furtada faz um ror de tempo. Por largos anos, morou apenas num quarto, um esconso com falhas no soalho e uma janela donde Gabriela dantes via o Tejo. Antes de terem erguido aquele mamarracho cor-de-rosa com janelas de vidro fosco para dentro das quais ela nada vê, não sabendo, assim, se são novos ou velhos os vizinhos da frente que, em contrapartida, de qualquer ângulo, podem espreitar-lhe as intimidades, que Gabriela nem uma cortina na janelinha debruçada sobre telhas onde semeia um pé de salsa nos vasinhos em que outrora deixou florir uma craveira e duas sardinheiras. De vez em quando, também nasce um ou outro tomate. 
  São vasinhos de barro que Gabriela rega à tardinha, já quase noite, quando regressa de um dia inteiro: bom dia, dona Mª das Dores! está boazinha, dona Arnaldina, como vamos fazer, hoje, este corte? a filha, está melhorzinha, dona Gertrudes?
  O dia inteiro de braços levantados a segurar a escova, o secador, o pente ou a tesoura, e as meninas das lavagens cada vez mais badalhocas, mais desinteressadas que não seja pelos cruzados contados em euros que lhes paga a cada dia dez.
  Paga-lhes assim, dessincronizada dos dias de fim de mês, por superstição que lhe ficou desde o primeiro emprego no Salão Azul a Campolide, propriedade da Dona Ermelinda Passos, e que Deus Nosso Senhor tenha na sua paz a alma dela, murmura Gabriel e benze-se duas vezes sempre que o nome da antiga patroa lhe vem à memória.


  Gabriela desce a escada daquele prédio muito antigo.
  Desce devagarinho. Desce agarrada ao corrimão de madeira carcomida.
  Desce de lado a escadinha torta, estreita e empinada onde o soalho está muito ratado pelo caruncho e calcado dos seus saltos altos, que Maria Clara nunca calçava saltos altos.
  Maria Clara que morreu faz dois anos nessa segunda-feira.
 A escada está também manchada e será dos variados vómitos do Senhor Teófilo escriturário que ocupou o outro quarto da água furtada, o que dá para a travessa, e disso que nunca tenha tido outra vista que não fosse a sacada do Senhor Tenente Murtinheira, uma janela sempre cerrada por cortinas de cassa e, atrás delas, pesados reposteiros de damasco.
  Gabriela entreviu essa paisagem, pela primeira vez, quando o Senhor Teófilo já estava muito adoecido e vieram buscá-lo a pedido de Maria Clara. Que seria melhor que fosse para uma cura de ares, tinha ela convencido o Senhor Teófilo.
  Depois, quando chegou a carta participando que o homem não voltava, Gabriela ajudou a limpar o quarto devoluto, a desinfectar cada estria de madeira.
  Vamos afugentar desta casa essa doença maldita, tinha gritado Maria Clara tanto quanto a deixava a sua quase afonia.
  Que tinha sido soprano, que tinha cantado no S. Carlos, gostava de gabar-se numa voz que mal se ouvia, rouca e sem alcance, resultado duma corrente de ar nos camarins, explicava Maria Clara a assoar-se, a lutar com a renite que lhe ficara desses tempos, mais a afonia e a miséria.
  Vivia das rendas daqueles dois esconsos, e dos seus negócios, que era como designava as saídas que fazia por dois ou mais dias: Gabriela, olhe-me por isto, que eu vou tratar dos meus negócios, e lá ía, em cada mês um choufer a buscá-la num carro diferente, que tanto eram mercedes reluzentes, como carritos de marcas que Gabriela desconhecia, em cores debotadas e com riscos.
  Maria Clara, e nem dona nem senhora dona, que ela considerava charme ser tratada apenas pelo nome.

  Na rua, os saltos de Gabriela sussurram os altos e baixos da calçada muito lisa, muito arredondada, muito húmida no amanhecer que é sempre a hora em que ela sai a caminho do salão.
  Salão Gabriela, cortes e manicure, assim pode ler-se em letras doiradas desenhando um semicírculo no vidro da montra. Um salão seu na Francisco Metrass em Campo de Ourique. Uma porta estreita que Gabriela mantem aberta das nove às dezanove sem pausa para almoço, e na montra, em cima duma toalha de plástico a imitar renda de bilros, tem dispostos meia dúzia de lacas, uns champôs e cremes de marcas que ela lê como sabe ou como ouve na TV. E, a entretecer aquela panóplia, uma jarrita com flores quase naturais de tão semelhante que o plástico consegue fazer as flores.
  O salão. A sua fortuna e o seu desespero.
  Duas bacias para lavar cabeças, um nicho para tratar calcanhares e unhas que ela mesma se ajeita numa gestão rigorosa de marcações em que trate os calos ou faça uma mise ou um corte e, mais raro, uma permanente. Desfrisados é mais frequente. Há ainda o espelho de parede inteira e as duas cadeiras que rodam e vão acima e abaixo; amarelas, como o amarelo do friso que decora o branco da parede e como é a cor das cortinas que protegem do sol que, por todo o ano, entra pela montra entre as oito e o meio-dia.

  Os saltos dos sapatos de Gabriela sussurram no alcatrão quando ela atravessa a passadeira, mesmo em frente do salão. Depois, é o ruido suave dos passinhos curtos que Gabriela faz sobre a calçada do passeio.
  Gabriela Feiteira por razões que desconhece pois nem teve pai nem conheceu mulher a quem chamasse mãe. Dizem-lhe, na instituição onde cresceu, que chamava mamã às mulheres que serviam à mesa.
  Ainda hoje, quando, num restaurante a que vai raras vezes, o empregado se debruça a perguntar que deseja ou a colocar mais pão na cestinha, Gabriela sente aquele impulso de tratar o homem pelo termo com que tratava as raparigas no Lar de freiras onde a colocaram, mal nascida e deixada num beco nunca ninguém lhe soube explicar onde nem quem a entregou enrolada numa manta velha. Que é feito dessa manta, ainda se atreveu a perguntar, mas a freira atalhou que tinham deitado fora: que jeito teria terem guardado uma peça tão feia? E Gabriela nunca mais se atreveu a inquirir do seu passado.

  Gabriela abre a porta do salão e vai dizendo bom dia ao homem do bate-chapas que fica na esquina. Sorri-lhe, que ela o que aprendeu, mais do que tudo o que aprendeu à sua custa, é a deixar que um sorriso morno lhe banhe o rosto, que lhe ressoe pelo corpo como ressoa o som dos saltos no soalho roto do seu quarto.
  Bom dia, Dona Gabriela, diz-lhe o bate chapas, e Gabriela sempre sorrindo: bom dia, Emílio.
  Gabriela que pratica o sorriso com fervor de devota.
  Terá sido disso que o Senhor Teófilo, muito antes de ter sido enviado para um desses hospitais mandados erguer pelo regime em locais de bons ares, a convidou a jogar às damas no quartinho dele onde tinha livros numa prateleira dependurada do tecto com umas cordas.
  O Senhor Teófilo que, naquele espaço exíguo, ainda tinha uma pianola de onde arrancava áreas de ópera a pedido de Maria Clara.
  Tinha sido um convite feito de janela para janela, no ângulo justo em que só um grande acaso traria um dos hóspedes a ver a outra água furtada. Gabriela sorrira depois de lhe ter dito, muito séria, que não, Senhor Teófilo, eu não jogo a nada. E retirara-se para dentro apesar de ser noite de Julho e se estar bem a apanhar a brisa que soprava do rio.
  Nunca mais o homem a convidara para coisa nenhuma.
  No dia em que foi ajudar Maria Clara a limpar o quarto, Gabriela encontrou, entre os livros, dobrado em quatro sobre a caixa de madeira onde estavam as peças pretas e as peças brancas, um cartão: a embalagem de qualquer produto que já não se identificava, onde tinha sido riscado com lápis de pau um tabuleiro de damas.
  Maria Clara tinha dito: vai tudo para a fogueira e que o fogo limpe todos os micróbios, e dera-lhe um par de luvas para que se protegesse e uma bata e fora repetindo que queimaria tudo.
  Gabriela ainda hoje guarda, sem qualquer cuidado que tenha tido em desinfetá-lo, o tabuleiro e a caixa presos com uma cordinha. Um pedaço de corda fininha meio enegrecida do ata desata que o Senhor Teófilo tenha feito nos tempos em que, assim contava: éramos oito e vivíamos nas faldas da Serra da Estrela, nem pobres, antes remediado. 
E os oito eram pai e mãe e quatro irmãos, e ainda um afilhado, todos mortos de uma gripe aziaga, e ele ficara, muito novito, ao desamparo. Viera para Lisboa e fizera-se engraxador antes de frequentar a escola e fazer as vezes dos que, iletrados, pediam a uma alma caridosa, no registo, no banco, ali e acolá, e mesmo em suas casas, que fizesse a bondade de escrever o que eles não sabiam: papéis comerciais ou uma carta, tantas vezes, plena de intimidades. Davam-lhe um tanto ou pagavam-lhe em géneros, que as mais das vezes o que levava para o quarto eram ovos, um pão ainda quente, umas cebolas. Vinho trouxe, também, mas raramente. Maria Clara ameaçava-o de o pôr na rua se não pagasse em notas a miséria da renda, mas o homem tinha meses de arrecadar apenas escassas moedas e, no entanto, era na cozinha de Maria Clara que depositava a mercadoria: até um pato lhe trouxe, um dia.
  Assim que ficou limpo e desinfetado o quarto onde Gabriela nunca fora jogar damas, Maria Clara propôs-lhe que o ocupasse a expensas de umas mises, uns cortes de cabelo, umas unhas tratadas.
  Uma água furtada que seja só sua, disse-lhe, sorrindo, a lembrar-se do título de um dos livros do Senhor Teófilo: precisamente o último que enviara para as chamas da salamandra.

  Gabriela liga o esquentador e sacode umas toalhas.
  Tem duas marcações, uma daqui a meia hora e outra às onze. Tratamento de uns calos e unhas encravadas, e um corte.
  Ajeita tesouras e pinças e uma navalha sobre uma mesinha, e cantarola. Antes de abrir o Salão, ainda irá tomar o pequeno-almoço ao café do Senhor Alves e da Dona Margarida. No caminho comprará um sabonete de amêndoas doces para os cotovelos que descobriu que andam escamosos.
  Bom dia dona Gabriela, diz-lhe o Senhor Alves, e ela responde bom dia e pergunta: e a Dona Margarida?
  Que acordou com dores, responde o homem e diz, confidente, do lado de lá do balcão: coisas de mulheres, sabe? e já está a juntar o café ao leite numa chávena aquecida e a tomar conta da meia torrada, que ele sabe que é sempre o mesmo para a Dona Gabriela. Depois, dará a volta ao balcão e irá dirigir-se para a mesinha que fica junto da janela, essa onde Gabriela se acomoda enquanto ele lhe grita: e está melhorzinha da sua dor de costas, Dona Gabriela? E logo dirá, curvado para a mesa: pronto, aqui tem o seu pequeno-almoço.
  Francisco Alves, rapazito, ainda, quando veio de uma aldeia perdida lá pelos lados de Moura. Teria treze anos mal feitos e comeu o pão que o diabo cozeu, ou nem isso ele comeu em tantos dias de passar fome. Casou aos vinte anos e Margarida já ia prenha de seis meses. Uma vergonha, diziam na aldeia lá a norte de onde Margarida tinha vindo ainda em idade de ir à escola. Uma vergonha, repetiam, e nem um alfinete nem um abraço que lhe tivessem mandado pela prima que veio, como ela, servir para a cidade. Passaram muita lástima. Choraram muita lágrima o marçano e a criada. E nem foi apenas com a morte da menina. Uma benção dos céus, foi o pensamento que atravessou a mente de Francisco Alves a ver o anjinho mal nascido e já morto.
  Margarida não voltou a ficar prenha.
  Uma benção dos céus.
  De vez em quando, este pensamento ainda o assalta, nunca se atrevendo a partilhá-lo com Margarida, e nunca o balbuciando, sequer, em confissão.
  Mas foi, sim, uma bênção que não tenham procriado, está disso convencido Francisco Alves, e nem ele sabe da mágoa imensa, da pesada culpa que Dona Margarida carrega por cada um dos filhos que não lhe deu.


  São sete horas de mais um fim de dia.
  Gabriela descalça-se. Retira, devagar, um dos sapatos.
  Vermelho. Cor de sangue e cor de fogo.
  Deixa-o cair sobre o soalho.
  Retira o outro. 
  Larga-o devagar e fica ouvindo o ressoar, aquele som amigo a desenrolar-se.