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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Deus e Camila, Camila e Deus




Dia desses e Camila era aleluia, de ser una com o Universo, o mundo um carnaval promissor, Deus ali nas pequenas coisas; e não era a divindade intangível das religiões, mas sim, um Deus sólido e claro, presente; na verdade, um pedaço de mineral em sua varanda.

Vinha de pequena a fé de Mimi (gostava de ser chamada assim), pois aos cinco anos vivenciara a primeira irrupção iluminada na qual vislumbrou, por poucos segundos, Deus e seus arcanjos e sabe lá quem mais, chegando a cair na mesa do jantar com a cabeça num escorregadio pernil de ovelha. Ao recuperar a cor e a consciência, de cabelos engordurados e grossos, nada disse, culpando sua mãe as corriqueiras quedas de pressão nas mulheres da família.

Daí não comeu mais carne, enjoada, achando disso o seu alucinar, menina geniosa que era. Porém, mamãe e papai, no dia de amanhã, a levaram ao médico; Dr. Genivaldo, homem robusto e sábio, a largou paralela numa cama em pé, com cordinhas embaixo dos braços e das coxas prendendo-a no lugar. Dr. Gegê (gostava de ser chamado assim) chegou a pensar que a menina lembrava um peru, mas não sabia explicar o julgamento; era meio nariguda, o pescoço longo e magro engrossando numa papada; se pudesse, marcaria as bochechas dela com umas bifas bem dadas. Mandou para que deixasse embaixo da língua uma pílula branca e salgada, e em poucas arfadas a menina perdia a força nos pés e nas pernas, sem o perceber; nisso o médico ia baixando a maca, Mimi acompanhando o movimento. Ao ficar na horizontal, linhas esquivas de amarelo e vermelho passavam por seus olhos, perdendo-se em uma escuridão não de negros, mas de calma.

Desmaiou.

Ali surgiu Deus de novo, repetitivo, e disse, com o seu barulho de campainha, sem palavras ou comunicação de homem, que um dia se manifestaria para a menina, em conformação física, e que esperasse e não incomodasse, adeus. Acordou quando Dr. Genivaldo marcava-lhe as bochechas com umas bifas na cara.

Perderam-se os anos, a força menor do sol, o gelo maior nos pólos, e Mimila desenvolveu o corpo, a cabeça, o coração e as finas nádegas recurvas, e num dia de sol impetuoso surpreendeu-se com o ‘oi’ de um pedaço de argila no jardim. Mediante os incompreensíveis caminhos da intenção, decidira Dele como aquele pedaço de pedra mole.

Mimi amou; universitária, pavimentava caminho para o ofício de artesã, sua vocação o negro barro do mundo, o barro com que foi criado o homem, a mulher, e essas coisas por aí com piercings no sexo.

Acolheu a mais desse dia Deus em seu lar, venerando-o em um pequeno círculo de anjos e cristais coloridos, onde queimava incenso e as cores dum echarpe cigano amanheciam no pincelar de rudes velas aromáticas. Conversavam na lonjura da madrugada sobre o infinito, o porém, as marés, acompanhando a circunvolução da lua, que com ciúme de amante demorava a se perder. Camila jamais deixara de acreditar naquele delírio de infância, apesar de na adolescência indagar a própria confiança naquilo que mais parecia um erro - e quem sabe se suas dúvidas não fizeram mais real o que, com demasiada confiança, poderia se perder. Mas isso era o para lá; agora, Mimi achara Deus, não se livrando a possibilidade de ser Deus quem achara ela.

Caíram-se os meses, o calor mais para cá, os sonhos sempre iguais, e mamãe e papai ligaram – viriam no fim de semana; queriam ver a filha, mimimá-la (como falavam), afagar sua pança com almoços de alface sem sal. Quase mulher pura, morava a sós numa casinha de madeira esfarrapada, com um jardim concebido em selvageria e desprendimento, sem perder a lição das grades, dos alarmes, do limiar para forças invisíveis. Pois arruma a casa, passa a vassoura, limpa o musgo enegrecido de lajes sem nome; o pó sai e saem cabelos e pêlos num redemoinho assombroso de universos azulados. Depara-se com o Divino, aquela rocha úmida e disforme, e receia deixá-lo ali; quem sabe qual seria a ação da mãe para com Ele. Mas Deus, compreensivo, fala para que o esconda, afinal não se confessaria para mais ninguém, além de os pais provavelmente não admirarem a adoração da filha por uma quase pedra suja.

Miminha o escondeu.

Naquele sábado de sol recém amanhecido, guardou-o numa meia de rendinhas rosas, no fundo de um armário com chave, onde esqueceu-o, da saída de seus pais, por dois anos.








Liana

Enfiar o dedo mindinho no fundo do ouvido e cavoucar com a unha a cera úmida. Quebrar pedras de gelo com os dentes molares e sentir doer a testa bem no meio. Engolir sementes de bergamota por pura preguiça de cuspi-las na mão ou no lixo - e toda vez lembrar do terror infantil que é a possibilidade de uma árvore brotar na barriga, rompendo as tripas com galhos viçosos. Comer uva e beber leite e comer uva e beber leite sem jamais ter uma congestão. Coisas em que Liana pensa enquanto olha ao redor e se embala para frente e para trás.

Deixar a janela de casa escancarada e sair sem medo de chuva. Esquecer a louça suja na pia, sem culpa. Emendar uma cartela de anticoncepcional na outra para não menstruar, sem dar satisfação para ninguém. Ir deitar de cabelo molhado. Atrasar a conta de luz e só pagar no reaviso. Fazer três refeições por dia, de miojo. Não ir ao dentista há dois anos. Acreditar na influência do signo, do ascendente, da conjuntura dos planetas para a quantidade de amor, de acaso e de azar dessa vida. Porque-nãos que Liana diz para si em voz alta enquanto tenta, em vão, deixar a posição de flor de lótus.

Despejar de volta no cretino do chefe os 89 desaforos levados para casa nos últimos meses. Tocar no ombro da senhorinha muy espera que insiste em furar a fila na padaria e avisar que, sim, todo mundo reparou no golpe. Perder a paciência e atirar as maçãs da fruteira na tia que insiste em cobrar namorado-casamento-filho em toda reunião de família. Vontades que Liana tenta negar enquanto o estômago dói e as pernas, cruzadas há mais de três horas, formigam.

Vomitar até o enjoo cessar. Arrancar as cascas das feridas dos tornozelos apenas para ver a secura da psoríase mudar de status. Esfregar os polegares nos indicadores com força, com frequência, com desespero, até arderem. Pressionar os dentes do garfo de sobremesa sobre o pulso uma vez e outra e outra e outra e fundo e mais fundo até rasgar a superfície da pele e o sangue sair. Morder a bochecha por dentro no compasso de escravos-de-Jó-jogavam-caxangá. Chorar sem barulho, só de lágrima, olhos sem piscar. Liana é agonia embaixo da mesa da cozinha, sozinha, tristeza.

É uma mulher aflita, a Liana, com os bombardeios à Faixa de Gaza, com o fechamento de pronto-socorros, com a queda do viaduto, com a morte de Suassuna, com o assédio moral velado no trabalho, com a pressão generalizada para ser magra loura jovem rata de academia vegetariana fã de detox motorista cult lattes atualizado, com a infiltração na parede do quarto, o mofo no banheiro, na sala, no canto da porta, na alma, e não tem clorofina que dê jeito, com a falta tremenda que gente de confiança faz, com a escassez de verdade nesse mundo, com a constatação de que está prestes a perder as forças, com a presença de estranhos ao redor chamando Liana, Liana, Liana. Não me toca, Liana berra e baba e a saliva grossa escorre no moletom. Então, Liana junta o resto de ânimo que ainda sobra e deita no chão, encolhida, os braços ao redor dos joelhos, como quem vai nascer, como quem precisa voltar, ao útero.





quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O Bradock de Copacabana

Em uma loja de ferragens na Rua República do Peru, em Copacabana, vive Bradock, o gato mais tranquilo, ousaria dizer zen, que eu tive oportunidade de conhecer – e olhem que eu conheço uma infinidade de bichanos pois sou daqueles que cultivo o estranho hábito de conversar com gatos de rua. Acho que já até escutei de rabicho de ouvido, alguém se referir a mim pelo bairro como “aquele sujeito meio maluco que fala com tudo quanto é gato”. Mas voltando ao Bradock e deixando de lado os outros felinos com quem travo amizade, dá gosto ver como ele consegue manter a paz de espírito tendo ao seu redor todo o caos urbano que só Copacabana é capaz de proporcionar.
Bradock é altamente sociável. Qualquer pessoa que entre na loja de ferragens por ele é bem recebido, seja enroscando-se nos tornozelos do cliente ou deixando algum frequentador acariciar o seu pêlo, ainda lustroso apesar da idade, pois Bradock já aparenta ser um senhor contando com mais de 10 dez anos de vida. Seu local predileto é o balcão da loja, onde ele permanece em uma atitude zen, totalmente contrária ao seu bélico nome, dado em homenagem a um Rambo de ocasião, deitando de lado, sacudindo em pêndulo o rabo tigrado. Ele é capaz de permanecer assim por horas, até que algum funcionário gentilmente o coloque no chão para poder utilizar-se do balcão. Certos moradores da região, nos quais eu me incluo, eventualmente dão uma chegada na loja não em busca de um parafuso, ferramenta o seja lá o que for, mas sim com o mero objetivo de fazer-lhe um agrado, brincar um pouquinho com aquele simpático pedacinho de selva.
Nunca o vi em atitude agressiva, dentes à mostra, miado intimidador ou pelo eriçado. Tal comportamento não combina com Bradock. Quando ele se aventura pela calçada em frente à loja e lá fica sentado sob as patas traseiras como uma pequena esfinge felina, o movimento dos pedestres lhe é indiferente. Somente a ação de um cachorro mais agressivo o faz sair do seu quase estado de “meditação” e, nessas ocasiões em que o perigo se torna iminente, prefere o aconchego da loja ao duelo com ofensor de quatro patas e, movido por fantástica habilidade, traça um caminho de fuga sempre bem sucedido. Minutos depois, retorna a calçada e lá permanece, sem aparentar medo, ou rancores.
Para Bradock, a vida é bela, simples e merece ser bem vivida. Se todos os humanos fossem tão zens como você, meu caro amigo felino, talvez o mundo fosse um pouco melhor.
Falando em gatos e em atitudes zen, vai aqui uma pequena história envolvendo bichanos e religião budista como encerramento.

Conta-se que num mosteiro distante, um grupo de monges budistas era sempre incomodado por um gato durante as orações. Atormentados por seus miados, eles resolveram amarrar e amordaçar o pobre animal ao início das sessões de meditação. Passaram-se os anos e o gato morreu, sendo substituído por outro, que também era amarrado e amordaçado. Esta atitude tornou-se uma tradição entre os monges. Um século depois, surgiu uma série de tratados filosóficos sobre a necessidade de se amarrar um gato antes do início da prática da meditação zen.





domingo, 17 de agosto de 2014

não façam chacota das rosas - poema de Ricardo Escudeiro



não façam chacota das rosas

o tempo não bastou de flores
ele é de flores
menosprezadas
cercadas por grades

não é permitida a entrada no sub bosque

ah cruéis jardineiros
letais
não duvidem da rosa
ela há de não respeitar
grades
placas de aviso
entradas bloqueadas

que ela pode
até ao último talo de embargo

espalhá-las
salve àqueles que acolhendo
uma
estão plantando outras
várias

Do livro "tempo espaço re tratos", Editora Patuá.





sábado, 16 de agosto de 2014

Sobre mulheres e tulipas

Encomendou as flores. Nada de rosas, comuns e oferecidas. Tulipas. Sim, tulipas amarelas. Botões. Sem aquele cheiro de velório que se intensifica depois de um, dois dias. As flores nobres são elegantes até nisso, na timidez do perfume.
Viu-as de perto na Holanda, pela primeira vez. Aconselhado por amigos, visitou Keukenhof em pleno abril. De início, se recusou. Flores? Ele ia pagar para ver flores? Pagou. Impressionou-se com cada uma delas, com suas cores fortes, cheias de significados. E com seus cabos longos, imponentes. Depois dessa visita ao Jardim da Europa, rendeu-se às tulipas sem reservas.
De volta ao Brasil, caiu de novo na rotina de trabalho de 10 a 12 horas por dia, esquecido das férias e de qualquer assunto que não estivesse ligado à empresa. Até que conheceu Helena. E Sofia. E Carolina. E Ruth. Mulheres especiais, requintadas. Das que não se impressionam com palavras bonitas, nem com gestos espalhafatosos. Um simples olhar mais insistente, desses que passam do ponto por segundos, e recuavam, fechando-se na certeza de estarem sendo vulgarmente seduzidas. Uma taça servida em hora errada e se recolhiam, convictas de que um homem não deve tentar embebedar uma mulher. Nada de joias como se fossem prostitutas de luxo. Nada de conversas fúteis. E nada de fotógrafos ávidos por enquadramentos inconvenientes.
Helena, Sofia, Carolina e Ruth. Mulheres autossuficientes, donas de seus próprios narizes. Belos narizes. Donas, também, de uma renda quase tão boa quanto a dele. Carros do ano, mas sóbrios. Coberturas de três ou quatro quartos. Elegantes, funcionais, mas sem luxo. À exceção de Sofia, que não abria mão de uma casa fora da cidade. Um espaço grande onde mantinha seus cães e gatos em liberdade. E a si mesma. Mas igualmente um lugar de bom gosto. Roupas e acessórios de marca. Sem ostentação, sem excessos. Maquilagem básica; unhas curtas ou medianas; cabelos casuais, fluidos; armações de óculos ajustadas às sobrancelhas desenhadas. Mulheres com rotinas sólidas de trabalho, assim como ele.


Maio. Primeira floração. Carolina. 


Conheceu primeiro Carolina. Quando se sentou para negociar a venda do terreno onde queria construir um prédio de apartamentos, imaginou que ela fosse apenas a advogada da parte envolvida. Percebeu o erro quando disse que poderia lhe dar uns dias para discutir os valores com os donos do terreno e ela, encarando-o, disse a ele que também poderia lhe dar uns dias para informar a seus superiores que ela não cederia no preço pedido. Só então ele se deu conta de que acima de Carolina não havia ninguém. E, mais do que isso, de que aquela atitude sexista lhe custaria qualquer flexibilidade nas negociações. Não se desculpou. Um dia depois, convidou-a para jantar. Para sua surpresa, ela aceitou. E para surpresa maior ainda, foi ela quem tomou a iniciativa do sexo, no fim da noite. Ela por cima. Ela primeiro. E, por fim, ela e ele juntos, como se a química acontecesse havia muito tempo. Continuaram juntos. E ele passou a evitar os lugares-comuns como quem pula amarelinha. Quando ela perguntou por que ele nunca lhe dava flores, sentiu que havia um teste naquela constatação, mas não se deixou acuar. Porque eu nunca lhe daria uma flor que exista todo dia, foi a resposta que a satisfez. Lembrou-se da Holanda, do Jardim da Europa, do tapete multicolorido de tulipas. E de que haviam lhe ensinado que nos trópicos as tulipas só florescem entre maio e setembro, em ambientes controlados. Uma flor nobre. Um mês depois, em maioencomendou uma caixa com flores de cabo longo a uma das floriculturas mais caras da cidade. Tulipas de cor laranja. O cartão de próprio punho dizia: Esta é você, difícil, vital.


Junho. Segunda floração. Sofia. 

No início, não pretendia. Não era homem de trair ou de se envolver com mais de uma mulher ao mesmo tempo. Mas Sofia era uma mulher especial. Viúva aos 28 anos, assumiu a firma de importação e exportação do marido. Em cinco anos de gestão, seu capital tinha crescido em 40%. Dura com os empregados, dura consigo mesma. Conheceu-a quando precisou importar maquinário russo para a empreiteira. A transação foi tranquila, apesar de um ou outro embaraço junto à alfândega. Depois de tudo concretizado, convidou-a para almoçar. Poderia ter sido para jantar, mas não foi. Alguma coisa o alertou para não fazer um convite noturno a uma mulher desconfiada como aquela. Descobriram, já no primeiro dia, muitas afinidades. A maior delas foi a de que ambos haviam visitado Keukenhof. E ele soube que a dureza de Sofia era apenas um papel que ela representava no mundo comercial. Passou a vê-la com certa frequência, sem qualquer remorso em relação à Carolina. As duas eram parecidas nos negócios. Independentes, objetivas, críticas, perigosas. Mas muito diferentes na vida pessoal. Enquanto Carolina era adepta da boa mesa, dos vinhos, das exposições de arte, Sofia preferia uma dieta rigorosa, não bebia e gostava de estar ao ar livre para relaxar, cercada por animais e plantas. Na cama, Carolina era o bicho agressivo que ninguém dominava. Sofia ronronava. Como suas gatas. Em junho, encomendou para ela tulipas brancas. Significando um perdão que não pedia. Mas sentia. 



Julho. Terceira floração. Helena. 


Um homem não busca. Mas não se impede de querer, quando encontra o que lhe falta. Nem emoções desordenadas, nem culpa. Apenas um senso prático de complementação, de necessidade. Helena foi um desses encontros imprescindíveis. E improváveis. O negócio que ela dirigia, uma rede pequena, mas conceituada, de roupas femininas de marca, jamais se cruzaria com o dele. Mas Helena queria montar um desfile num prédio em construção. Bem lá no alto. Câmeras no chão de cimento e outras em filmagem aérea. Ele recusou. Muito perigoso. Que ela procurasse outro empreiteiro. Ela não cedeu. O prédio com a melhor vista aérea era o dele. O jantar foi marcado de comum acordo. Para aparar o desacordo das ideias. Cláusulas de segurança acertadas e cifras depois, ela venceu. Foi um desfile bonito. Durante os aplausos finais, ele mesmo entregou o buquê de tulipas negras trazidas por sua subsidiária de paisagismo diretamente da cooperativa de Holambra. Sofisticadas e raras como ela. Helena foi uma florada de julho feliz. E aquele mês se estendeu por vários outros. O sexo cheio de fantasias eróticas, as pequenas viagens para lugares isolados, a paixão dos dois pela leitura. Uma mulher para se ter por perto. 



AgostoQuarta floração. Ruth.

Existem mulheres para as quais é preciso um olho atento. Nenhum impacto à primeira vista, mas uma atração sem sentido a partir de um novo olhar. Ruth era feia. Dessas feiuras que nem as roupas caras, nem os cabelos impecáveis conseguem disfarçar. O que a redimia eram o sorriso e a voz. Uma boca que pedia conversa. Dentes imperfeitos, mas bonitos. E aquele tom de voz que coçava os instintos de quem a escutava de perto. Porque Ruth tinha sido feita para ser ouvida de perto. Com ela, tudo foi cordial desde o início. A abertura de nova filial e a escolha de novos executivos exigiram dele contratação de uma empresa de recrutamento qualificada. Desde a primeira reunião, ela entendeu o que ele precisava. Traçou perfis, mostrou opções, falou de valores como se conversasse com um sócio, não com um cliente. Informou, por fim, que cuidaria, ela mesma, daquele contrato. E antes que ele tivesse tempo, convidou-o para um almoço no sábado seguinte. No apartamento dela. Onde havia tantas pessoas que ele se sentiu deslocado. Foram as tulipas amarelas, colocadas em um vaso alto de cristal no aparador, que lhe devolveram a confiança. Entregues uma ou duas horas antes, elas combinavam com o ambiente claro e bem decorado. No cartão, a frase curta: Você faz sol.  Quando seus corpos passaram a se encontrar em lugares que nunca incluíam a cama, ele se deixou levar, curioso, pronto para qualquer insensatez. Escadas, garagens, elevadores, carros. A cada orgasmo, aquele rosto feio transformado pelo riso perfeito o fazia ter vontade de mais uma vez. Agosto foi de uma grande florada. 


Sete anos. Agora já faz sete anos que ele tem sido tulipas. Sete florações com Carolina. Seis com Sofia. Cinco com Helena e Ruth, porque as conheceu no mesmo ano. Sem entender como nenhuma delas nunca se encontrou com as outras. E como nenhuma delas nunca lhe pediu um até que a morte nos separe. Mulheres completas, autossuficientes, donas de seus próprios narizes. Especiais.
Naquela noite, avistou a caixa com as tulipas na hora de gozar. Vermelhas. Como o sangue que lhe fugiu do rosto e do membro para injetar seus olhos. Vermelhas. Vermelhas. Vermelhas. Vermelhas.
Quem estava florindo o seu setembro?






sexta-feira, 15 de agosto de 2014

o veredito

“Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] 
se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; 
e quem proferir um insulto a seu irmão 
estará sujeito a julgamento do tribunal; 
e quem lhe chamar: Tolo, 
estará sujeito ao inferno de fogo.”

Evangelho de Mateus, capítulo 5 e versículo 22 




– Ana Lúcia…
A irmã chama-a. 
Vivem as duas: Ana Lúcia e a sua irmã Henriqueta, mais velha do que ela dois anos.
Que se daria para chamá-la, assim, do outro extremo da casa? 
E Ana Lúcia responde-lhe, o corredor já em meio:
– Estou indo, mana.

****

A saleta exala o cheiro típico dos espaços fechados. 
A não ser, como agora, que a irmã a chama, o que é muito raro, Ana Lúcia nunca ali entra. 
São duas da tarde, e é o mês de Junho.
A irmã de Ana Lúcia está sentada junto duma mesinha de camilha. Estaria escrevendo, que ela tem na mão direita uma caneta, quando levanta o rosto a olhar quem entra. 
É muito magra e tem uns olhos tão claros que se diria água em vez de olhos verdes. 
Ana Lúcia entra e aproxima-se, e vai perguntando:
– Tem alguma precisão, mana?
Há ali um candeeiro com abajur cor de vinho. Está sempre aceso aquele candeeiro com uma lâmpada de trinta watt. É um candeeiro de pé alto que nem já se vê muito.
Ana Lúcia senta-se e traça a perna direita por cima da esquerda. 
Ao contrário da irmã, ela é cheiinha de carnes. Assim sentada, deixa a balançar, dependurada no seu pé direito, uma chinela rasa de verniz vermelho. 
E sem que tenha dito o que quer que fosse, a irmã comenta-lhe:
– Não devia usar essa cor que não é para a sua idade. 

E Ana Lúcia reage:
– Para isso me chamou, mana Henriqueta? Valha-me Deus, que o corredor é enorme eu já me canso.
E aquele seu pé rechonchudo, e ainda assim elegante, pequenino como ela toda, balança-o agora Ana Lúcia, de propósito. 
Henriqueta não diz mais acerca do chinelo, desvia mesmo o olhar dele, e fala, num tom baixo, debruçada sobre a irmã, assim como que segredando:
– Pedi-lhe que viesse, Ana Lúcia, para que me recorde. 
E faz uma pausa ligeira, tira os óculos e coloca-os sobre a mesa. E prossegue:
– Diga-me Ana Lúcia, o capitão Meireles… ele era seu padrinho ou era meu?
E Ana Lúcia quase perde a compostura que ainda está encenando depois daquele comentário de Henriqueta à cor do seu chinelo. E descruza as pernas, e assenta os pés calçados com as chinelinhas vermelhas no chão de sobrado muito escuro. Com as mãos, cada uma assente em seu joelho, curva-se para o local em que está Henriqueta e exclama o seu espanto.
– Que ideia a sua, mana! Que pergunta! A que propósito vem isso, diz-me?
Mas Henriqueta não move um músculo do rosto. Os sobrolhos mantêm-se sossegados, e nem um vislumbre do que esteja sentindo. E repete, tal e qual, o que acabou de perguntar:
– O capitão Meireles, era seu padrinho ou era meu?
E Ana Lúcia sem alcançar o motivo daquela pergunta, sem entender por que traz ela à baila aquele assunto, levanta-se fazendo que o corpo tome a atitude, que mostre bem que não quer mais conversa, que sairá porta fora. E responde-lhe deste modo:
– Ora a mana sabe, tão bem quanto eu, que o capitão Meireles era seu padrinho de baptismo, e era meu padrinho do crisma. Que pergunta, mana Henriqueta!
Está realmente incomodada, e fala de modo que não deixe dúvidas. Desagrado e espanto, é o que Ana Lúcia pretende que transvase nas suas palavras:
– Que lembrança a sua, mana. E chamar-me por isso! Que coisa mais sem jeito! 
E faz menção de deixar a sala. Mas Henriqueta arrasta as sílabas, suplicando:
– Sente-se mais um pouco, Ana Lúcia, peço-lhe.
E segura-lhe o braço esquerdo com a sua manápula quase só ossos:
– Só um bocadinho, imploro-lhe.

****


Elas viveram toda a vida naquele prédio, portas meias com o quartel. Artilharia Treze, se Ana Lúcia não está em erro. Do quarto de Henriqueta via-se a parada. No terreno, construíram um prédio para militares em trânsito. Viam-se também as janelas do que era naquele tempo a sala de oficiais. Lembra-se de irem lá, as duas pela mão do capitão Meireles. O pai e o capitão começaram por encontrar-se casualmente e tornaram-se amigos. Gostavam ambos de História do Egipto Antigo e conversavam muito. Tudo isso, antes de elas serem rapariguinhas. E muito antes da avó Bia falecer, quando foi preciso alguém que cuidasse da Herdade, ou venderiam tudo, dizia a mãe e, dizendo assim, estava a pressionar para que o pai tomasse as rédeas do negócio que vinha de família. Essencialmente laranja e tangerina. 
E os pais um dia tinham ido.
Ficaram elas naquela casa enorme. Solteiras e sozinhas, nem saberiam dividir entre elas a casa, se a vendessem, e sobretudo nem saberiam viver numa outra. E ali moraram uma vida inteira.

****

Ana Lúcia tem que confessar que está curiosa. Que a mana explique o que lhe quer naquela sala a cheirar a mofo, e lá fora um sol de primavera. 
E volta a sentar-se, ela que sempre foi a mais extrovertida e a mais viajada. Morreria virgem, mas isso eram manias que nem vinham ao caso. 
E volta a cruzar a perna direita sobre a perna esquerda. Modos de ter sido habituada a estar sentada muito tempo em estiradores altos. Desenho de arquitecto uma vida inteira.
E num descuido de estar mal enfiada, cai-lhe no chão a chinela do seu pé direito. 
Fica uma mancha vermelha a brilhar, indiscreta, no encerado do chão de madeira, na saleta da irmã Henriqueta, sua irmã mais velha, que nem lhe dá tempo de tornar a calçá-la. Henriqueta pontapeie aquele objecto numa cor que ela disse, há nada, achar inadequado que Ana Lúcia use. 
Um gesto tão feio quanto inesperado. 
Uma raiva inusitada que Henriqueta solta sobre a chinelinha da irmã mais nova. 
Assim o sente Ana Lúcia e não se engana, a olhar a chinela que fica tombada junto à ombreira da porta, o corredor em fundo. 
E o pasmo nem deixa que Ana Lúcia decida se vocifere, se vá buscar a chinela e a calce e saia porta fora, ou se simplesmente acate o pedido da mana e a oiça, e deixe a chinelinha encarnada esperando junto à porta da saleta. Ana Lúcia que permanece sentada, e balbucia apenas o seu espanto:
– Mana Henriqueta! Mana, que é isso?!
Mas a mana está muito quieta, muito impávida, muito como se nada tivesse acontecido. Diz-lhe apenas:
– Ana Lúcia, preciso comunicar-lhe coisas urgentes.
E Ana Lúcia toma fôlego, recompõe-se, e recostando-se na cadeira onde está sentada, atira-lhe, ela que sabe ser irónica, armar um fazer de conta que a coisa é divertida quando é um quase drama:
– Então conte, mana! Conte.
O que quererá a sua irmã mais velha? 
E Ana Lúcia, ainda que recostando-se, não se sente confortável.

****

As duas irmãs não morrem de amores uma pela outra. Saberá, disso, Deus. Se Ele realmente existe, é testemunha do quanto elas apenas se toleram. A avaliar pelo que sente, Ana Lúcia não pode afirmar como serão os sentimentos de Henriqueta, mas imagina-os. Que Ana Lúcia não nutre pela mana qualquer sentimento negativo, apenas a trata com todo o respeito, mas com uma estima apenas suficiente para que vivam juntas. E nunca se apercebeu que com Henriqueta seja de outro modo. Se bem que, neste momento, ali sentada, tenha surgido uma nesga de dúvida. Mas Ana Lúcia criou o hábito de não dar valor a atritos, e habituou-se a não gerar discussões. Nunca aconteceram, nunca tiveram uma zanga. 
Ana Lúcia olha de esguelha a chinela encarnada caída junto à porta. 
Um simples sapato vermelho a destoar de tantos dias de serena inimizade.

****

Teriam a idade de andar a terminar o liceu e os pais ainda ali viviam. Ainda era viva a avó Bia e, ainda tinham as duas criadas. Celísia que tinha vindo lá de baixo como a mãe dizia para explicar que a tinha trazido da aldeia onde a avó Bia tinha a Herdade. 
Era costume ser assim, naquele tempo. 
E também trabalhava ali em casa a Ermelinda que não era criada interna. 
Era o tempo em que o capitão Meireles era visita quase diária. 
O capitão que tinha sido, sim, padrinho de baptismo de Henriqueta e depois tinha apadrinhado o crisma de Ana Lúcia. Coisas da mãe delas, que já Ana Lúcia afirmava que não acreditava nem em Deus nem nos santos nem mesmo que Jesus Cristo fosse filho de uma virgem e muito menos que uma nossa senhora tivesse aparecido em lugares da Terra. Mas a mãe chorava e benzia-se, e rezava pela salvação da alma da filha mais nova, e obrigou-a a crismar-se e que o capitão seria seu padrinho. 
Um desgosto, aquela filha, lacrimejava a mãe, e que Henriqueta não lhe dava nenhuns cuidados, acrescentava ainda, a consolar-se.
Foi por essa altura que se deu o caso. Durou de Fevereiro a Outubro, e depois de tudo ter sido deslindado restou o silêncio. Nunca mais tinham sequer referido.
Nunca antes de Henriqueta ter agora inquirido: 
“O capitão Meireles, era seu padrinho ou era meu?”

****

Acontecia que quando vinha em visita, e eram pelo menos três vezes por semana, o capitão Meireles aparecia sempre depois do toque de recolher. Tinha vezes que vinha jantar, mas era muito raro. Entrava, e ia para a sala ao fundo do corredor. Ele e o pai ficavam a conversar, ou jogavam uma partida de xadrez ou uma partida de gamão, e a mãe entretinha-se com um livro ou uma costura. E lá pelas onze, o capitão despedia-se dos compadres e a criada levava-o à porta. 
“Celísia, acompanha o Senhor Capitão”, dizia a mãe, e a criada levava o senhor capitão pelo corredor e abria o ferrolho e tornava a fechá-lo. 
Era assim o costume, fazia muito ano. 
Mas naquele início de Fevereiro, a esse costume acrescentaram-se as entradas no quarto de Henriqueta. 
Nem mais nem menos. 
O capitão ficava com Henriqueta até ser madrugada. 
Uma paixão que se deu e não olhou a idades. 
O capitão ficava com Henriqueta até chegar Ermelinda que vinha ainda nem raiara o dia. E quando a criada entrava, o capitão saía confundindo ruídos. E a disfarçar encontros que houvesse, na escada ou na rua, havia a proximidade do quartel. Que entrava cedo ou saia tarde, diria se fosse necessário. Nunca descobririam. 
Ana Lúcia, ela mesma, só soube, já Abril ia em meio, que Celísia andava apavorada: olhe se a sua mãezinha sabe, menina, caem em mim as culpas. E a rapariga chorava desalmada. 
Ainda falou com a mana a fazer-lhe ver o enredo em que se metera, mas Henriqueta não lhe deu ouvidos e ainda lhe disse: faça como eu, Ana Lúcia, procure quem a deseje. E riu-se dela que sempre se tinha queixado de não ter namorado. Que a deixasse sossegada, exigiu a mana, e Ana Lúcia dormiu horrores de susto nas primeiras noites, depois que soube o que se passava ali por casa. Mas nunca deu pela saída do padrinho, e habituou-se. Esqueceu até o assunto, se possível é dizê-lo, mas é verdade. E não fosse aquele acaso, tudo teria seguido, só Deus saberia até quando. 
Mas naquele início de madrugada, era o final de Outubro, Ana Lúcia debruou-se de dores. Um apêndice infectado, soube já no hospital, já a dizerem: “opere-se”. Coisa feia, e Ana Lúcia, a gritar num descontrole, acordou a casa. E foram pijamas diversos pelo corredor, quase na hora em que chegaria a criada Ermelinda e sairia o capitão que, quis assim o destino, estava a dormir com, Henriqueta nessa noite. E nem foi de ele ter vindo corredor fora e terem dito: “ lá vai ele”. Foi a mãe que entrou no quarto da filha mais velha a pedir ajuda ou simplesmente para dizer-lhe: “Henriqueta, olhe a sua irmã que me morre”, que a mãe delas era muito de dramas. E foi assim que viu o capitão estendido na caminha de solteira da filha mais velha. Dormiam os dois, e nem gritos, nem rumores de passos os tinham acordado. 
E a mãe, misturando lágrimas diversas por cada uma das suas filhas, logo ali terá decidido o que faria, depois que tratasse de Ana Lúcia e daquilo que parecia ser uma apendicite.
E foi radical a sua atitude.
Participou do capitão e de Ermelinda, e nem rogos das filhas, nem rogos da avó Bia e nem conselhos do marido que se deixasse disso, que era a perca da reputação da filha e da família. Que, desse modo, só fazia ainda mais imenso o que já era escândalo. 
A mãe não lhes deu ouvidos. 
Arranjou um advogado que apelou à idade de Henriqueta e à idade do Capitão, e ao facto deste ser amigo da casa, e engendrou uma acusação tal que meteu o capitão na cadeia por dois anos.
E o tribunal militar não foi menos meigo. Ditou expulsão da arma onde o capitão servia, artilharia, salvo o erro, e perda de galões. 
E a mana Henriqueta só não entrou num convento porque ao tempo já não era uso. Ficou fechada em casa meses e mais meses, e nem janela aberta. Terá sido daí que lhe veio o hábito do candeeiro sempre aceso.
No ano seguinte morreria a avó Bia e os pais tinham ido para baixo e tinham levado com eles a criada Celísia, que nunca disse que sabia e nunca ninguém a acusou de ser cúmplice. Ana Lúcia nunca percebeu porque aquela criadita não recebeu acusação da patroa. Mistério que nunca se deslindaria, que Celísia morreu cedo, e nem tinha sido do peso do segredo. Morreu de umas febres. Coisa de frutas verdes e intestinos, tinha explicado a mãe.
Já Ermelinda não teve a mesma sorte. Acusada de incúria e compadrio, levou pena suspensa, e a vergonha impediu-a de voltar a servir. Ana Lúcia sabe que ainda é viva e casada e com filhos, mas nunca mais a viu.
Tudo posto a descoberto pelos gritos infernais do seu apêndice. 
Ana Lúcia sofreu horrores de culpas, que Henriqueta, depois que a irmã veio para casa recomendada de repouso e muito gelo, nunca foi vê-la ao quarto, e na quarentena que a obrigou a mãe, nunca a quis como visita. Mas o passar do tempo acabara por cobrir de silêncio aquele assunto. E Ana Lúcia convencera-se que a mana não lhe guardava rancor. Nunca até hoje, o capitão fora alumiado e menos ainda o caso.

****

Nunca mais até agora. O nome do capitão na boca de Henriqueta. E aquele pontapé na sabrina vermelha. Será apenas acaso? Será apenas o vermelho da chinelinha que a irrita? Ou será um rancor antigo que a mana lhe guarda? 
Henriqueta não lhe dá tempo para mais conjecturas. 
De pé, enorme, ainda mais pela túnica que tem vestido e lhe alonga a silhueta, Henriqueta mostra-lhe uma resma de folhas de papel timbrado. Abana o maço por cima da cabeça da irmã.
– Aqui tem o veredicto, Ana Lúcia.
E lê o que está escrito, num tom de voz que enche a pequena sala e vai decerto resvalando corredor fora. Sempre teve uma voz melodiosa, a mana Henriqueta. 
Ana Lúcia ouve, e cada palavra a deixa mais curiosa e mais perplexa.
Assunto, lê Henriqueta, e prossegue: anulação de processo. E cita datas e números e enuncia nomes, entre eles o seu e o de Henriqueta seguidos, ambos, dos apelidos Furtado e Mello.
Termos de conotação jurídica que ela vai desfiando, conclusões do que terá sido investigado.
Que tinha ficado demonstrado ter a Senhora Dona Ana Lúcia Furtado e Mello, ao tempo a que se reportam os acontecimentos com dezoito anos ainda incompletos, quem dormira, uma noite e outra noite, com o Senhor Capitão Deodato Cerqueira Meireles na própria casa em que morava com os pais.
Ana Lúcia estremece, mas mantem a compostura. Recosta-se mais ainda na cadeira e aperta uma na outra as mãos em cima do colo. 
Henriqueta continua.
Que o Senhor Capitão Deodato Cerqueira Meireles tinha declarado, aquando das inquirições, estar no quarto de Ana Lúcia Furtado e Mello na madrugada (e cita datas) quando a referida senhora teve uma crise de apendicite aguda que a levaria a ser intervencionada nesse mesmo dia. 
E a resma de folhas que Henriqueta segura e vai folheando e lendo numa voz que não esmorece, diz ainda que a criada Ermelinda afirmara nos autos que sim senhora, que era a menina mais nova que recebia no quarto o Senhor Capitão. 
Ana Lúcia nem diz o que quer que seja. Está siderada.
Que irá enviar para os jornais e telejornais, diz-lhe Henriqueta olhando-a e interrompendo a leitura. 
– Saberão do que foi capaz Ana Lúcia.
Ana Lúcia riria se fosse caso disso, mas o assunto merece-lhe seriedade. 
Ela agora percebe.
A mana Henriqueta levou anos a tartamudear no assunto, a ruminar a raiva. A dominar a ira que a faria explodir e ela era uma mulher educada. Conteve-se esses anos todos. Ainda há pouco, e nem teria sido apenas pelo vermelho brilhante do chinelo, quase desmoronou esse edifício construído a pulso. E Henriqueta foi engendrando um novo investigar. Foi imaginando, passo a passo, no silêncio mal iluminado daquela saleta onde tinha sido em tempos idos o seu quarto. Tudo tão real naquele documento que ela mesma terá escrito como se estivesse em tribunal. Henriqueta que estudara Direito e sabia muito bem lidar com os termos.
Está ainda lendo.
Que a mãe das Senhoras Dona Henriqueta Furtado e Mello e Dona Ana Lúcia Furtado e Mello afirmou para os autos não ter qualquer dúvida em consentir que tinha sido no quarto da filha mais nova que encontrara o senhor capitão Deodato Cerqueira Meireles quando foi acudi-la de uma crise de apendicite. 
Um documento credível.
Ana Lúcia nem se mexe, enquanto Henriqueta arruma os papéis em cima da mesa, ainda lendo:
– Omite-se o testemunho de Celísia Imaginário, ao tempo a trabalhar na casa, por ter falecido quando da reabertura do processo em epígrafe. 
E olhando-a com aqueles olhos quase transparentes, Henriqueta convoca-a:
– Esteja presente na Quinta Vara amanhã pelas dez horas.
Se a mana lhe tirasse a outra chinela e a sovasse, nem seria maior o espanto de Ana Lúcia, nem ela veria mais imensa a raiva de Henriqueta, o seu desejo de vingar-se dos gritos que Ana Lúcia tinha dado naquela madrugada distante, dolorida de uma apendicite grave. 
Uma ira que Henriqueta conteve esses anos todos. 
Mas Ana Lúcia estremece sobretudo perante a loucura que adivinha. 
E não diz uma palavra. 
Levanta-se. Recupera a chinela que ali mesmo calça, e sai da saleta. 
E só quando o corredor vai em meio, ela exclama, e ainda assim num tom baixo:
– Felizmente terá já prescrito, ou a minha mana ainda me enviava para a cadeia.
E sorri-se enquanto pela casa ecoam, estridentes, os gritos de Henriqueta:
– Volte aqui. Volte que ainda não terminei.
E é a figura erecta de Henriqueta assomada na porta da saleta.

E restará o silêncio que nunca mais será um silêncio como afinal apenas parecia ser.




texto integrando a antologia 7 pecados da Pastelaria Editora





quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ler, pensar, observar, meditar...


                              Ler, pensar, observar, meditar...
Cecília Maria De Luca
Dizem-me fria, insensível, dura, porque não me espanto nem choro mais com a morte de alguém ainda que próximo. Não é bem assim. É lógico que sinto a dor da saudade quando um ente querido morre. O que não consigo é prolongar essa dor e, confesso, não entendo quem a prolonga. Entendo a tristeza, mas não entendo e não aceito o lamento. Lamentar a morte é não entender a vida.

Poderiam me perguntar: “e quando se enterra um amigo querido, um filho, uma criança, um pai ou mãe, um irmão? Você não lamentaria?” Não, não lamentaria. Claro que sofreria, mas não lamentaria como um dia já lamentei. Hoje encaro a morte como o final necessário de um ciclo, seja ele curto ou longo. A vida é sempre completa, dure ela um dia, um ano, um século. Vejo pessoas que morrem anciãs sem terem realmente vivido, como vejo outras que morrem depois de uma curta existência plenamente vivida. Nascemos todos com prazo de validade e, quando penso grande, percebo que, por mais que vivamos, não vivemos pouco mais que um século. Ora, o que são unidades, dezenas ou uma centena diante dos milhões de anos da existência humana na terra? Um grão de areia no oceano ou menos que isso. 

Uma vez ouvi um autor famoso dizer: “não tenho medo de morrer, tenho pena”. Pena de que? De deixar a vida? Não, não tenho pena. Imaginem a chatice infinda que seria viver se não soubéssemos que um dia morreríamos! Que incompletude, que “nonsense” um caminho que não tivesse fim! Ora, tudo na natureza tem começo, meio, fim e renovação, um ciclo interminável. Uma flor, por exemplo, nasce, desabrocha e morre. Qual seria sua graça se não houvesse a possibilidade de outra nascer no seu lugar? Se fosse sempre ela a estar ali? Um tédio, convenhamos. Além do mais, parece-me justa, razoável e salutar, a conclusão de que precisamos morrer para que outros nasçam, assim como outros morreram antes para nos ceder o lugar.

Há aqueles que dizem não terem medo da morte propriamente dita, mas da doença que a precede. Pensem bem, quando estamos doentes a vida perde muito da sua graça, pelo menos para mim. Na doença, a ideia de morrer é muito menos apavorante, já que o que se quer é que a dor ou o mal estar passe a qualquer custo. Uma dor de cabeça intensa, por exemplo, dá-me vontade de fechar os olhos para o mundo. Tomo comprimidos fortes o suficiente para me aliviar e me fazer dormir. Dormir... Eis a palavra chave!

Lembram-se de Shakespeare? “... Morrer... dormir... mais nada... Morrer... dormir... dormir... Talvez sonhar...” Para mim, essa passagem de Hamlet funcionou como um clarão e foi um dos motivos que me fez perder o medo da morte: se morro e não há sonhos, será o nada e nada saberei. Se sonhos houver, ainda que ruins, estarei no lucro.

Não pensem que aceitando a morte com essa naturalidade, estaria desvalorizando a vida. Muito pelo contrário. Considero a vida um milagre maravilhoso e, como tal, não canso de maravilhar-me, deslumbrar-me com ela. Por isso mesmo, eu a vivo de forma intensa. E o faço porque encaro a morte sem medo, pensando sempre na sua possibilidade iminente, com a percepção real de que morrer é natural como viver. Posso, assim, entender melhor aquele negócio de viver o dia de hoje como se fosse o último. Ah, a vida! A vida - nela contida a morte - é fruto de um acaso poderoso! Não é por acaso que o acaso tenha tanta força sobre nós, pois por causa dele é que existimos, já dizia um autor antigo. 

Não, não há porque temer a senhora da foice. Não, não tenho medo de morrer, nem pena. Medo por quê? Pena por quê? Acho a morte fascinante, afinal ela faz parte dessa coisa fascinante que é a vida.

Cheguei a essas conclusões por volta dos trinta anos. Até então só conhecia a morte por ouvir dizer, tão longe de mim distante andava. Manejava sua foice com parentes e conhecidos longínquos. Quando resolveu se aproximar, foi de tal forma abrupta e repentina que me chocou deveras. Sem mais nem menos, levou minha melhor amiga num acidente estúpido. Uma hora antes, ríamos escancaradas e intensamente para a vida. Uma hora depois, minha amiga não mais existia, esmagada que fora sob as ferragens de um carro. Foi nessa época que parei para pensar a morte e pensar seriamente sobre a precariedade da vida, mesmo porque, depois desse primeiro contato, a morte se aproximou inúmeras vezes, levando pais, irmãos, parentes e amigos.

A princípio, como quase todo mundo, tentei me socorrer com a ideia religiosa de vida depois da morte, promessa de todas as religiões do mundo, mas nada nesse sentido me satisfazia. Se estávamos certos do renascimento, soava-me incoerente tanta tristeza e luto. Deixei de lado essa ideia e parti em busca de outras respostas¸ procurando entender porque tememos e nos chocamos tanto com a única certeza da vida. Procurando entender porque vivemos como se a morte não existisse, não pelo menos até que ela se avizinhe. Nessa busca, observava o mundo, lia, pensava, meditava. De tanto filosofar, um dia percebi que não mais a temia. E não a temia porque a entendia e, oh prazer supremo, estava livre. Sim, porque quando se entende a morte consegue-se a liberdade. Filosofar é aprender a morrer, disse Montaigne.

Bem, vocês devem estar se perguntando aonde eu quero chegar com esse discurso. Pra falar a verdade, eu também não sei. À parte a falta de assunto, talvez uma tentativa de aplacar a ansiedade que sinto pelo resultado do Raio X que fiz ontem do tórax. Sou uma fumante inveterada e estou em pânico, sem saber o que conterá o laudo médico... Oops!

Aiaiai... Mas se cheguei a tantas conclusões, que medo é este que sinto agora diante de um resultado clínico? O que foi mesmo que Montaigne disse? Que filosofar é aprender a morrer? Será mesmo? Não e não, meu querido filósofo, não há filosofia no mundo que nos ensine a morrer. Não há quem, diante da morte iminente, consiga encará-la com naturalidade. Não há mãe que enterre seu filho sem se desequilibrar, sem levar para sempre um vácuo no coração. Não há filho que enterre seu pai sem que o chão lhe falte durante muito tempo. Não há quem não precise de muletas quando um grande amigo se vai. Não há filosofia que nos console nessas ocasiões. Filosofar é uma coisa, Montaigne, vivenciar é outra bem diferente. E, no entanto, nada mais certo, lógico e natural que morrer. Ah, a contradição humana! Eis um tema sobre o qual preciso me debruçar. Preciso ler, observar e meditar seriamente sobre isso...





quarta-feira, 13 de agosto de 2014

PROMETO





Sentia pena daqueles que não haviam conhecido os avós.  Mesmo os avós ruins, até estes valiam a pena ser conhecidos, pois, quando nada de bom deixavam, permitiam ao menos uma melhor compreensão dos pais.
Conhecera o avô paterno. Forte, bonito, quieto, monossilábico. Dele, apenas duas lembranças: um dia, quando bem pequena, sentou em seu colo e fez a cópia de um quadro na parede, a cabeça de um cachorro.  O avô fez uma cópia também. Compararam, comentaram e riram. Anos depois, a lembrança dele na cama, doente, os músculos de nadador minguados; os belos dentes sumidos da boca.
A avó paterna, volumosa, bonita, falante, lhe concedera mais momentos. Por conta da gordura, tinha um colo pequeno, porém acolhedor. A pele das mãos e dos braços era fina, craquelê: mais do que lembrança, herança.   Fazia um doce de leite encaroçado de revirar os olhos, usava uma lavanda deliciosa, com cheiro de avó, contava histórias de sua mocidade, histórias fascinantes até mesmo nos capítulos tristes.
O pai de sua mãe não a esperou, uma pena, foi-se antes.  Conheceu-o por fotos, fotos em tom sépia desbotado. Soube que fora um homem bom, bancário de confiança que tinha a chave do banco e a levava para casa. Dera à família carinho, conforto, um lar com quintal grande e belas parreiras. Levava os filhos para cavalgar nas estâncias gaúchas.
A mãe da mãe foi sua grande paixão. Avó querida, de cabelos bem brancos e vestidos de jersey. Ouvia rádio de pilha numa poltrona, conversava, ria, acolhia, brincava.  Não enxergava. Mesmo sem enxergar, foi quem lhe ensinou a escrever o próprio nome e quem mais apreciou sua conquista.
Um dia, a avó-paixão pegou-a no colo e pediu:
− Quero que me prometa uma coisa... que no dia que a vovó morrer, não vai chorar nem ficar triste.
− Prometo ─ respondeu, confiante.
A avó morreu-se no dia seguinte.
            Hoje, anos depois, não tem mais avôs nem avós. Tem carinho e lembranças que variam em tamanho e profundidade.
Compreende o ciclo da vida e o aceita sem grandes questionamentos.

Estranhou a ausência do avô monossilábico, chorou a falta da avó volumosa. Construiu lembranças do avô que não conheceu. Quanto à avó-paixão, cantarola até hoje quando sente saudades. É boa em cumprir promessas. 





terça-feira, 12 de agosto de 2014

Tarde (conto de Lohan Lage Pignone*)

(*postando a pedido do autor, que está com problemas no computador) 

Antes de sair, conferiu o gás da cozinha. As janelas. A franja no espelho. Lavou as mãos demoradamente. A toalha estava na corda. Abriu a porta. Olhou para trás, uma última vez. Estava esquecendo alguma coisa: mantra diário. Apalpa os bolsos da calça. Afrouxa o nó da gravata. Segura firme a alça da maleta. Sofre um repentino ataque de tosse. Sai. Tranca a porta, retomando o fôlego. Com os olhos lacrimejantes, sorri um bom dia nervoso para o vizinho na porta do elevador. No elevador, “tá quente hoje”. Acena para o porteiro que estava distraído com a calça de ginástica da vizinha que cruzava o saguão. Táxi, táxi. Toca pra Rio Branco. Toca James Taylor na rádio. Recordou-se do Rock in Rio de 86. Ela estava lá. Mas não se conheceram. “Essas obras não acabam nunca...”, o taxista interrompe. Desceu na Cinelândia. Consultou o relógio de pulso. Presente de bodas de prata. Foi há dois meses. Um menino suspeito está de butuca. Um preto na Rio Branco. Apertou o passo. Não quis olhar para trás, mas pressentia a perseguição. Sinal fechado. Multidão na faixa de pedestres. Encontrão com um homem. A maleta se espatifa. Papéis em revoada. Divórcios, heranças, abusos da telefonia, assédio moral. Os casos pisoteados, indo de encontro aos transeuntes, os que transam. Como na vida. Casos e mais casos se apresentam, e não há como fugir deles. Chame seu advogado. Agora ele está sentado na beira da calçada, com as mãos afundadas no abismo do olhar. O menino preto ajuda a recolher a papelada. “Segura aí, dotor”. Pagou um pão com manteiga pra ele. Tomou um café expresso. Secou o suor com um lenço de papel. Ela sempre punha lenços de papel em sua maleta. Tudo começou com uma cantada no guardanapo. Idos de 89. Maracanã. O Botafogo foi campeão após 21 anos sem título. Ela estava lá. Mas não se conheceram. Ligou a TV do escritório. “O Botafogo pode ir à falência”, anuncia o comentarista esportivo de São Paulo. Tudo está falindo. O dia que mal começou, o casamento que começou mal. Zapeia os canais. Larga o controle sobre a mesa. Confere a fechadura. Arranca um embrulho do bolso. Afasta as coisas da mesa. Descarrega uma carreira. Inala agressivamente. Larga o controle sobre a mesa. O corpo estremece, relaxa no encosto da cadeira. A cabeça pende para trás, o nariz fungando. O telefone toca. Tira do gancho. Liga a cafeteira. Café requentado de algum dia desses. Está inquieto. O coração quase à boca. Foi assim naquele barzinho, depois do jogo. Ela vestia a camisa do Vasco. Não importava. Pediu uma caneta ao garçom. Passou a cantada. Ela riu com as amigas. Tentava apaziguar seu músculo disparado com algumas doses de uísque. Tomou coragem. A campainha toca. Arruma aqui e ali. Assoa o nariz. Sangra. Lenço de papel. Campainha. “Calma, merda!”. Era ela. A loira do escritório vizinho. Contadora. “Tava contando os minutos pra te ver”, ela diz, sedutora. Porta trancada. Trepada sobre os processos à mesa. Largam o controle sobre a mesa. O café fervilhando na cafeteira. Abotoou a blusa social branca, ajeitou o cabelo, retocou o batom vermelho. “Odeio essa aliança”, dispara, apertando os lábios. Ele correu de cueca para desligar a cafeteira. “Até amanhã”. A lua de mel foi fria. Ela não estava lá. Brigaram. Não deveriam ter seguido adiante. Tudo foi longe demais. Confere os e-mails. Limpa a caixa de spam. Apanha um cigarro na gaveta. Fuma enquanto analisa um divórcio litigioso. Chora por longos minutos. O celular vibra sem parar. Número desconhecido. Homem desconhecido de si próprio. Abandona o escritório, não sem antes limpar o cinzeiro, conferir as tomadas, as persianas. Perambulou pela Cinelândia com a maleta na mão. Sentou à escadaria da Biblioteca Nacional. Arregaçou as mangas, o calor castigava seus neurônios. Roeu as unhas. Já não tinha mais unhas para consumir naquela noite chuvosa de junho. A espera oficial pelo título da paternidade. Andava de um lado pro outro, o barulho atordoante da sola do sapato naquele corredor hospitalar encerado. Teria que se entulhar de casos, quiçá fazer até uns extras. Filho é trabalho. E sonho. “Sinto muito. Houve algumas complicações e...”; não ouviu mais nada. Útero despedaçado. Foi a hora do rebento. Não foi a hora de ser pai. Que horas eram? Confere o relógio. Já estava ficando tarde. Tudo entardecia. Pega um ônibus para o Irajá. Roda o mesmo trajeto por mais de uma hora. O cobrador quis saber se havia se perdido. “Sim, eu me perdi”. Desce no ponto certo. Cabisbaixo, caminha até o prédio. Havia muita gente, muito carro, vozes e vozes, bombeiro, gás carbônico, cinzas. Alça os olhos para o quinto andar. “Sinto muito”, ouviu de alguém. Depois, não ouviu mais nada. O olhar fixo na fuligem que encobria o que restou dos vidros de sua janela. A fumaça ainda escapava, serpenteando o céu azul-grená de fim de tarde. Fazia tempo que aquele romance não pegava fogo. Ela sempre se queixava. Ela estava lá. Tarde demais para se conhecerem.
Conferiu o gás da cozinha. Agora tinha certeza: não se esqueceu de nada.






segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Sangria




Não!
Deixa escorrer!
Não, não estanquem!

É a mais valia do  corpo,
do tributo pago
pelo desassossego dos sentidos.
 
Só uma alma nova destilaria toda essa dor...

São cambalhotas do destino...
Como o brilho excessivo que ofusca,
como um silêncio ruidoso...

Não!
Deixa acontecer!
Não, não segurem!

É Antígone gritando,
É Electra se vingando!
É Medéia matando!

Deixa sangrar...
É o sangue do meu sangue,
é o nectar do corpo,

Há muito tempo que não existo...

              
The end.





domingo, 10 de agosto de 2014

Ano Um


Henry Alfred Bugalho


Nunca entendi bem porque as pessoas põem filhos neste mundo fodido. Principalmente porque boa parte dos problemas é causado pelas próprias pessoas.
Irresponsáveis criando mais irresponsáveis.
Nunca entendi bem, e passei a entender menos ainda depois de ter o meu próprio filho.
Por que fazemos isto? Qual é o sentido essencial deste ato? O que esperamos disto?
Já concluí que estas são questões falsas. Não podemos esperar sentidos essenciais para nada.
Os sentidos são criados. Nós os criamos. Nós temos de inventar os porquês.

Dizem (Lacan, suponho) que uma mulher se torna mãe no momento em que descobre a gravidez, enquanto o homem só se torna pai quando o bebê nasce.
Isto me parece natural.
A mulher não tem como tirar se si todas as transformações, os enjoos, a fadiga, a barriga crescendo, as posições incômodas para dormir, os chutes nas costelas e os soluços do feto. Está dentro dela.
Bebê e mãe são um só.
O pai é um espectador. Foi convidado para a festa, mas tem de vê-la do lado de fora.
A realidade da paternidade só desaba sobre os ombros do pai quando o bebê sai, chorando e tremendo, e nas noites sem sono que se seguem.
O pai nasce junto com o filho.

"O parto é um milagre; uma prova da nossa centelha divina".
Quantas vezes já não ouvi algo semelhante expresso com outras palavras?
Para mim, assistir ao parto do meu filho foi a maior evidência da nossa natureza animal. É realmente um milagre, mas sem nenhuma relação com entidades supremas. É tão miraculoso e extraordinário quanto uma borboleta abrindo suas asas pela primeira vez após seu tempo no casulo.
Este é o nosso contato mais íntimo com todos os demais mamíferos; é o nosso vínculo com todas as demais criaturas vivas que subjugamos ou exterminamos.
O bebê nasce e, em contato com a pele da mãe, ameaça engatinhar, arrastando-se centímetros em direção ao peito.
Quão frágil somos neste instante, a mais dependente de todas as criaturas do planeta nesta primeira etapa! Sentimos medo de machucá-lo, como se fosse quebradiço.
Ele dorme, mas não queremos deixá-lo à sós nem um segundo.
Tão pequenininho e indefeso...

Os três primeiros meses parecem ser intermináveis. É como se houvéssemos ganhado um bonsai.
Um bonsai que chora, caga, mama e precisa de atenção vinte e quatro horas por dia.
Já tivemos um bonsai antes, que morreu em poucos dias. Esquecíamos de regá-lo e de pô-lo para pegar sol.
Se chorassse, cagasse e mamasse, talvez o nosso bonsai ainda estivesse conosco.
Os três primeiros meses são a prova de fogo, ou como dizem os americanos, o momento do "make it or break it". Creio que pais nenhuns se recuperam deste começo, que nunca mais voltam a dormir como antes, que nunca mais ouvem um choro sem disparar alguns alarmes no cérebro.
O bebê tem tanta coisa para aprender, mas os pais também.
E não há atalhos.

Então ele começa a rir e a interagir. O bonsai vira gente.
Os primeiros meses de um bebê, que podiam muito bem ser usados pela CIA como estratégia de privação de sono para interrogar prisioneiros, dão lugar aos primeiros instantes realmente divertidos.
Quase todos os dias há uma surpresa, uma coisa nova que o bebê passou a fazer, que aprendeu sabe-se lá como. É uma máquina de aprendizado e nos faz indagar como deve ser incrível ver tudo pela primeira vez.
Estamos tão calejados que muitas vezes não percebemos como a vida é fantástica e singular. No entanto, para o bebê tudo é novidade: a bolinha, o cachorro, as pessoas, as luzes, as músicas, as sensações, os sabores.
Tudo está acontecendo pela primeira vez. E dá aquela inveja boa de poder se espantar uma vez mais diante de tudo.
O artista é um bebê que jamais deixou de se surpreender.

Há momentos em que os pais sentam-se num canto e dizem, com as mãos na cabeça: "Não posso mais..."
Há outros em que eles se abraçam e riem juntos vendo o filho: "Por que esperamos tanto tempo para vivermos isto?"
E há também quando estes dois sentimentos ocorrem simultaneamente.

Presenciamos muito a cena de pais sozinhos com seus bebês aqui na Espanha.
Não há esta divisão entre o que é papel da mãe e do pai, excetuando por limitações fisiológicas incontornáveis. Todavia, se um dia descobrissem uma técnica que permitisse ao pai dar o peito, penso que os espanhóis fariam sem titubear.
Ficaria feliz se meu filho crescesse num ambiente assim, onde o pai não é somente aquele que paga a conta.
Ser pais é trabalho em tempo integral. Trabalho para os dois.

Sem nos darmos conta, já se passou quase um ano. O bebê, que era tão dependente e estático, agora não para quieto um segundo. Tem tudo para descobrir e, se ele tiver sorte, sempre agirá desta maneira, percebendo o mundo como um local para ser explorado.
A grande aventura da vida.

Não tive pai. Ele morreu quando eu tinha apenas seis anos. Sempre ouvi que ele era um bêbado e um vagabundo.
Hoje, acredito que era apenas uma pessoa que precisava de ajuda, numa época em que isto era somente vadiagem.
Não sou um bêbado nem um vagabundo. Quero que meu filho se lembre do meu rosto e saiba quem eu fui de verdade. Quero estar ao lado dele em seus momentos mais felizes; quero que ele possa chorar no meu ombro as suas derrotas. Quero me orgulhar dele, independentemente de suas escolhas, e quero que ele se orgulhe dos pais que teve.
Não é pedir muito.
Estamos fazendo escolhas difíceis. Escolhas que influenciarão toda a vida dele, que poderão dar muito certo ou muito errado, das quais poderemos nos arrepender um dia.
Mas quais pais não têm tais inquietações?
A grande lição que o nosso filho aprenderá, se não conosco, certamente ao longo de seus sucessos e desassabores, é que toda escolha é delimitadora.
Escolher é renunciar a todas as demais opções. Ser livre é fazer sacrifícios.
Escolhemos estar ao seu lado.