domingo, 7 de fevereiro de 2010

Só um Balão

por Ju Blasina

Balões parecem-me
Tão felizes
Coloridos, lustrosos
Pairando alto
Flutuando leve
Subindo ao céu
Tão belos ao longe
Tão cheios
De cor, de ar
De vida, talvez
E só quando estouram
Revelam o interior
Tão vazio e oco
Seu corpo, já
Frágil, disforme
E morto

Às vezes sou só
Um balão
Cuja corda dou
Em tuas mãos
Cuja beleza deixo
Aos teus cuidados
Ao teu olhar
Cuja vida depende
Do teu ar. Infla-me!
E te darei em troca
Minhas cores e
Meu feliz estar
Para nele te alegrar

Segure-me firme
Mas não muito
Amarre-me forte
Mas nem tanto
Não quero
Subir ao céu
Nem quero
Romper-me ao chão
Quero ter só
O brilho das cores
Do teu balão

Oqdz...

Por Ju Blasina


...Da Carência
Sentou no controle remoto, e gemeu, jurando que foi sem querer. Ao menos nas cinco primeiras vezes.


...Da Clemência
Implorou para não fizesse aquilo, daquele jeito, naquele lugar, mas Clemente era surdo seletivo.


...Da Indecência
Enrubescia sempre que ele ameaçava espiar-lhe as calcinhas. Não pela falta de decência da parte dele, mas pela carência da parte delas.


...Da Cadência 
Seu ritmo era perfeito! Estava indo tão bem... Pena ter-lhe faltado
as pilhas.

Ser genérico

por Ju Blasina
De tão indeciso nasceu hermafrodita. E não bastasse, nasceu em trânsito: os pais viajavam em férias pelo interior do Interior quando se deu o trabalho de parto. Era um domingo, dia de todos os santos, e no interior do Interior não há hospitais. Viajavam de uma cidadezinha de nome estranho A para uma de nome esquisito B, quando as dores começaram. As primeiras contrações se deram ainda em A, o bebê coroou em B, mas só teve o cordão cortado em C, cidadezinha menos inóspita.

Os pais, temendo escolher a opção errônea, recusaram influenciar-lhe o sexo. E então, com a consciência leve pela não decisão a qual preferiam chamar de “criação liberal”, chamaram ao bebê por um nome neutro e vestiram-lhe em cores neutras na esperança de que o gênero se revelasse junto ao desabrochar do crescimento. 

Passou a infância dividido entre Barbies e Falcons, panelinhas e playmobiles, bambolês e berlindes, mas foi na adolescência que a confusão piorou... E tudo o que antes parecia complicado, mostrou-se simples se comparado ao que estava por vir: futebol com os garotos ou shopping com as meninas? Vestido ou smoking para o baile de formatura? E o pior: com quem dançar?

Não bastasse o dilema pessoal e social de toda adolescência, o que dizer da sua? Uma explosão hormonal com ares de Big Bang! Ah, se ao menos agradasse a apenas um gênero, talvez a lei de oferta e procura selasse o seu destino, mas não... Sua beleza andrógena o tornava alvo genérico, cortejado por ambos os sexos. E seu corpo, sem preconceitos, respondia independente do gênero que o despertava. E na maior parte do tempo sentia-se assim uma pessoa feliz, indecisa e indefinida. Pena que o mundo só ofereça um espaço de cada vez. 

Tornou-se um indivíduo tão promíscuo e volúvel que nenhum relacionamento engrenou. Nunca soube se preferia ficar por cima ou por baixo, por dentro ou por fora. Algumas vezes já nem tinha certeza se gostava de alguma coisa de fato, ou se só as fazia em busca de respostas que nunca vinham.

Envelheceu cheio de rótulos que não lhe cabiam e dúvidas que lhe roubavam o pensar. Toda vez que precisava usar um banheiro público, parava em frente à porta num profundo e reflexivo pesar que mais ninguém compreendia. O mesmo ocorria ao abotoar de uma camisa, fechar de um cinto ou cruzar de pernas: qual é o lado certo? Qual é o lado...

Foi pai e mãe, biologicamente falando, mas não assumiu nenhum dos papéis. Não por falta de comprometimento para com os filhos, mas sim para com os pais. Sentia-se culpado por não poder dar-lhes uma resposta satisfatória, quaisquer que fosse.

O excesso de opção foi seu maior castigo, sua maior tormenta. Foi só na morte que encontrou a paz. Seu epitáfio exibe sua primeira revelação, compreendida somente por suas últimas palavras, foram elas:

“Deixem-me
Apenas
Ser”

sábado, 6 de fevereiro de 2010

C

O
N
C
I
S
O
S


BACCO

Não há como aceitar
cordeiros
– não sendo um deus assim como eu.




DESFILIBRADOR

Nas vidas em que a vida não desperta os sentidos
só resta a poesia
tentativa última de elo com o mundo exterior.



#


Se
o
mar
cabe
em
uma
concha,
por que o amar transborda do coração?




RETALHO

E o que somos nós,
senão um mosaico
de lembranças
num mural de fé?

Pecados do Fruto

Alvo e limpo como um livro só de poemas
ainda não sentidos.
Seco,
um rosto de lágrimas não vertidas
e inteiro:
um coração na virgem
mata.

É um fruto
ainda no seio.

À espera que lhe libertem de sua árvore
genealógica.

... de uma ave
que lhe dilacere,
engula e voe
para semea-lo em outras áreas
com suas fezes vivas,
fontes de ressurreição.

... de uma ventania frenética
na têmpora
que arranque tudo,
inclusive sua prisão,
e lhe dê
descascado
ao mundo do plástico e do neon.

ao invés da inanição
de amadurecer e
apodrecer ainda no pé.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Rasto de Sangue

Emanuel R. Marques

As hostilidades fermentavam já o previsível aroma da pólvora. Uma primeira esguia e inexperiente bala quebrava numa fracção de segundo a antecedente exaltação vocal. Todos corriam a cobrir-se, esconder-se, a irremediável fuga a um dia de derrota. Fora como um raio a chicotear um belo céu azul.

Mas, voltando à singela bala que deu o mote de partida, é de salientar que esta foi ocupar posição numa enorme e anónima janela, que teve o infortúnio de ser arquitectada sob aquela orientação. Soaram estilhaços de vidro que causaram o iminente pânico.

O grupo que Pedro comandava assumia a posição de retirada após esta inesperada investida dos seus rivais. Pedro, estonteado pela surpresa, procurou abrigo no nauseante contentor de lixo, que expelia os seus odores poucos metros atrás.

Há bastante tempo que ele antevia a chegada deste dia, em que as armas assumiriam o papel supremo entre os “gangs” da zona. Era uma das leis de sobrevivência para quem vive este tipo de vida. Apesar desta atitude rival pressagiar o aumento de crimes, vinganças e destruição de vidas, Pedro sentia uma inexplicável alegria. Talvez não seja assim tão inexplicável. O seu adorado revólver, símbolo de respeito para os seus amigos e seguidores, podia agora acordar e oferecer certidões de óbito aos inimigos.

No entanto, apesar de toda a coragem e petulância que o pobre rapaz expressava, o seu íntimo coração escondia um camuflado receio. Há muito tempo que o seu objecto bélico podia ter começado a cultivar opressão, mas Pedro não conseguia ser o primeiro a disparar, o seu sangue frio era ainda morno e necessitava de ser motivado por uma iniciativa exterior.

Enquanto ele se deliciava com excitantes reflexões, orgulhosamente escondido por finalmente estar despoletada uma guerra real, como as cinéfilas visões que lhe pulverizavam a mente com insóbrias fantasias, o tempo sucedia-se ao disparo. O ferimento que ele julgava ser um mero arranhão, que lhe incendiara o ombro, ao refugiar-se da trajectória maléfica, quando se atirou velozmente às traseiras do contentor, arrefecia agora de dor para um marco de sangue. Apesar da dinâmica da fuga ainda havia sido atingido pelo rasto do disperso projéctil.

De súbito, todo aquele fervor que crescia embebido em adrenalina e estupefacção, tornava-se em penoso sofrimento. Os incontestáveis súbditos tinham desaparecido instantaneamente após o grave ronco da besta de fogo, corrompendo as imaturas promessas de fidelidade. Não havia ninguém para o socorrer e, no entanto, também ele não se atrevia a procurar alguém, a abandonar o seu ninho metálico, pois os rivais poderiam estar ainda no local e, nesse caso, a fatalidade seria inevitável.

Na verdade, também os escassos rivais, nomeadamente o autor do disparo, haviam fugido amedrontados pelo desvirgar da situação.

Pedro sabia a superficialidade do seu ferimento, mas o inesgotável sangue começava a adornar o cinzento solo em húmido escarlate. As dores continuavam a progredir, tendo apenas como anestesia a sede de reencontrar os companheiros e planearem uma implacável vingança. Também uma tumultuosa sensação de abandono lhe percorria o corpo, deixando nesses pensativos momentos que a dor lhe arrancasse alguns lúgubres gemidos.

Decidiu nervosamente espreitar e certificar-se da presença de alguém, amigo ou inimigo, que ainda estivesse na periferia do acontecimento.

Ninguém! Apenas alguns transeuntes caminhavam despreocupadamente alheios ao sucedido.

Reparou então na cicatriz que a bala deixara na vidraça da janela atrás de si.

Não haveria ninguém para reclamar o dano, visto que a bala fora pousar no interior de um armazém abandonado – pensava Pedro, como se os verdadeiros chefes de quadrilha se preocupassem com os danos provenientes das suas guerras.

Ao ranger dos dentes levantou-se num único impulso de vontade, vasculhando de seguida na sua obstinada mente possíveis soluções. O crucifixo que balanceava no seu pescoço irradiava um intenso brilho de penumbra. Os seus cuidadosos passos, já inseridos numa pequena movimentação humana oriunda de um final de tarde, eram desmascarados pelo braço recolhido, que estava resguardado pela mão esquerda, e um previsível casaco que deixava transparecer nódoas de sangue fresco. Um rasto vermelho ia ficando da sua malograda passagem. Cada segundo era marcado a conta-gotas de sangue na irreversível ampulheta do tempo.

A sua primordial preocupação não eram os curiosos observadores que fingiam acreditar no seu encenado, e mal disfarçado, bem-estar. Logicamente que ninguém se iria intrometer nas rixas juvenis que todos sabiam assombrar a zona, aliás, qualquer tipo de ajuda oferecida a um membro ferido de um bando poderia causar possíveis represálias e violências por parte dos rivais. Assim, a atitude mais indicada seria a de ignorar aquele jovem ensanguentado.



A sua mãe! Esse era o motivo que consumia a sua confusa cabeça. Como confrontaria ele a preocupada mulher no estado em que se encontrava. Como lhe explicaria ele o porquê de ter sido alvejado?

Era claramente nítido na sua cabeç, o facto de este acontecimento ir avolumar os receios que a sua mãe tinha em relação ao seu modo de vida. A pobre velhota iria fazer um pranto salgado assim que o visse embebido no próprio sangue, e ele não queria torturá-la com tamanho desespero e pânico. Ainda tinha na memória o desgosto que a sua progenitora tivera no dia em que ele abandonou o rotinar pelos recreios da instrução em prol de um duvidoso deambular citadino. O seu pai, honesto trabalhador sempre preocupado em dar o melhor à família, havia de conseguir mudar o rumo do filho. Infelizmente, uma estranha doença levara-o anos antes de o filho ter tomado esta desenfreada escolha.

A solução? Talvez a sua namorada ainda estivesse em casa e o pudesse ajudar a limpar e tratar da ferida, ou, quanto mais, fosse ajudá-lo a camuflar os indícios, de modo a que a mãe não notasse nada.

Assim, com este desesperado objectivo em mente, se foi arrastando pela perspectiva das ruas, largando cada vez mais os silenciosos caudais da vida. O cansaço consumia-lhe a estabilidade física e mental. Sucessivas tonturas levavam-no a encostar-se às rígidas paredes que lhe amparavam violentamente o movimento. Decidiu finalmente descansar sentando o seu fraco corpo no marmóreo e gélido degrau que dava início a umas curtas escadas. O seu coração dava as últimas badaladas anunciando a hora da derradeira partida. O ferimento não fora, afinal, tão superficial quanto ele julgara; talvez até houvessem sido disparadas duas balas, em vez de uma somente A guerra tinha acabado para ele, ou talvez ele viesse a ser o motivo, o símbolo que levaria à guerra os seus camaradas.

Afinal, a sua mais recente intenção até ia ser conseguida – não teria de confrontar a sua mãe naquele estado lastimoso.


Sobre o autor
Emanuel R. Marques: Nascido em Aveiro, Portugal. Formado em Comunicação Audiovisual. Actualmente, além de continuar atento e ligado às várias artes pelas quais sente interesse, vive a crise do país a trabalhar num Museu. Continua a acreditar “…que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança…” “Autor do livro de contos “Sui Generis-Contos DeMentes” e do livro de poesia “Madrugadas indefinidas”. Tem colaborações nas revistas “Miasma” (Espanha), “Gótica” (México), Juvenatrix (Brasil), Lama (Brasil), Revista da editora Alma Azul “O Mal” (Portugal), “Abismo Humano” (Portugal), Terrorzine (Brasil). Participa das antologias “Novos talentos fantásticos” e “Poetas em desassossego”.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Cena no quarto

Bodegón con botella de Burdeos, Juan Gris


Caio Rudá de Oliveira


Se o rapaz já era dado a exprimir seus pensamentos sem que passassem pela censura, que em algum canto do cérebro habita, antes de chegarem às cordas vocais, língua e músculos da fala os impulsos elétricos, o vinho o faz menos ainda um adepto da repreensão própria, e mais rápido do que do gole ao estômago, chegará a ideia em estado bruto aos ouvidos desta figura feminina que o acompanha. E antes seja que ele lance alguma cantada devassa, uma insinuação vulgar, sendo ainda possível preservar alguma dignidade desta que o acompanha, pois embora não merecedora de cuidados ou requintes no dirigir-se-lhe a palavra, como de habitual a moças distintas, sobra-lhe um mínimo de honra enquanto ser humano, já que na qualidade de mulher, já foi dito, lhe é dispensável. Mas este rapaz já não tem controle de si, do que fala, tampouco de seus reflexos, e se o que ele está próximo de proferir não for demasiado ofensivo a esta que lhe suga o órgão, ainda assim sua noite não será de êxito na cama, já que sabemos que dificilmente lhe escapará fluido do corpo, e em seu lugar, escapará o repugnante resultado da mistura em bucho do que tenha entrado, sabidamente hoje apenas uma lasanha e vinho, vinho, vinho. Boa-sorte, são votos, a esta que continua o ato de felação, mas a baixeza do rapaz não se limita, e dá o indesejado imaginado: um gesto desvairado que derruba a garrafa de um tinto, do criado-mudo à cama, o rouge a tomar lençois e formar uma lenta cachoeira da beirada da cama ao chão. A seguir, interrompe-se tudo bruscamente, também assim o foi o supetão desta a quem é dito que limpe tudo e busque uma garrafa lá mesmo de onde retirara a primeira, que não lamente nem se preocupe do prejuízo, que o vinho é tão barato quanto o é esta que engole lágrimas.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

SAMIZDAT 25

SAMIZDAT25

Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
Super-grammaticam, Fernando Pessoa

MICROCONTOS
Ju Blasina

CONTOS
C’a Fé, Carlos Davissara
Pouca Sorte, Joaquim Bispo
Ortografia Indigesta, Volmar Camargo Junior
O Último Soneto, Ana Cristina Rodrigues
O Personagem, Henry Alfred Bugalho
Papoilas de Janeiro, Maria de Fátima Santos
As Devotas, José Guilherme Vereza
O Bar dos Homenzinhos, Léo Borges
Fragmentos: i. O Tempo, Marcia Szajnbok
Segredos do Tempo, Giselle Natsu Sato
Sempre há uma verdade... (Parte 1), Maristela Scheuer Deves

TRADUÇÃO
Por um Novo Romance: A Aplicação da Teoria, Alain Robbe-Grillet
Escrita e Solidão, Marguerite Duras

TEORIA LITERÁRIA
O Escritor como Personagem, Maristela Scheuer Deves
Dez anos de ofício literário, Henry Alfred Bugalho
Teorizando o concludo, Caio Rudá de Oliveira
Sobre escritores e suas drogas, Caio Rudá de Oliveira

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA
O Sapateiro. A anatomia de um psicótico, Giselle Sato

CRÔNICA
Parindo Letras, Ju Blasina
Saramago em Concerto, Joaquim Bispo

POESIA
Metapoesias, Ju Blasina
Asseio, Volmar Camargo Junior
Palavras Novas, Maria de Fátima Santos
Concludo: uma fórmula poética, Caio Rudá

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT

SAMIZDAT 25 (leitura online)
SAMIZDAT 25 (download)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Lançamento: D'antes, Ricardo Thadeu


SINOPSE
“A poética de Thadeu é, sobretudo, criativa, e nos limites semânticos desse adjetivo vulgar estão: acidez, irreverência, inteligência, ironia e surpresa. Com a bandeira hasteada, Breton encarnado, uniforme de poeta, batera no peito e dissera: imaginação querida, o que amo em ti é não perdoares. E assim escreveu seus versos tão-somente sobre cotidiano, mas um cotidiano visto de outro ângulo cujo acesso se dá pela leitura de D’ANTES. Somos levados por labirintos e paradoxos, respirando uma atmosfera surreal do habitual que nossos olhos virgens viriam apenas como um dia em que nada importante acontecera.”
Caio Rudá de Oliveira


FICHA TÉCNICA
Autor: Ricardo Thadeu
Título: D'ANTES
Editora: Virtual Books
ISBN: 9788579530647
Ano: 2009
Edição: 1
Número de páginas: 51
Acabamento: brochura
Formato: 14x20 cm



Para comprar ou para mais informações, entre no blogue do autor: clique para o 100 Fundamentos.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Sempre há uma verdade.... (Parte 1)

(Maristela Scheuer Deves)

Se você não acredita, por que olha para os lados disfarçadamente durante o filme de terror, ou se assusta se lhe tocam o ombro no momento em que o vampiro persegue a vítima na tela? Se é tudo invencionice, por que olha embaixo da cama ou dentro do guarda-roupas antes de deitar, "só para ter certeza que está tudo ok"? Por que evita passar à noite em frente aos cemitérios, já que garante ao seu filho pequeno que fantasmas não existem e os mortos não podem fazer nada aos vivos?

Precaução, diz você. Mas... estranho perder tempo se precavendo contra algo que não existe. Você também não acredita em feitiços, "trabalhos" e vodu, mas prefere não pisar em uma galinha deixada numa encruzilhada, e não se sentiria nada bem se soubesse que um boneco com o seu rosto recebeu agulhas de um desafeto...Será que, no fundo, não há uma centelha de herança ancestral dentro de você, que guarda uma sabedoria primitiva e ensina que sempre há algo de verdade nas lendas? Será que, sem que você perceba, você não se questiona de onde surgiram vampiros, lobisomens, bichos-papões e outros personagens que povoam as histórias feitas para assustar?

Você nunca se perguntou, mesmo que de brincadeira, como é que esses mitos se espalharam por todos os recantos do mundo há centenas e centenas de anos, quando não havia internet, televisão ou outro meio rápido para difundir as idéias? Como é que simples histórias puderam chegar a diferentes povos, de idiomas distintos e de lugares distantes, mas unidos pela mesma crença no sobrenatural, pelo mesmo medo?

Pois eu acredito nas lendas. Agora, eu acredito. Depois de anos tentando esconder a verdade de mim mesma, fechando os olhos às evidências, eu fui obrigada a acreditar. E não só pela lógica que acabei de enumerar; lógica, por melhor que seja, não são fatos. Mas, quando os fatos apontam que o invisível é real, também não há lógica que os possa destruir – infelizmente.

Da mesma forma, sei que ter um depoimento sobre um fato não é o mesmo que vivenciá-lo. Assim, antes mesmo de contar o que me aconteceu, conformo-me antecipadamente de que você não acreditará no que eu digo. Mais uma lenda apenas, sorrirá. Como Tomé, só acreditaria se a vivesse. Então, e sou sincero, prefiro de todo meu coração que você não acredite no que vou dizer. Mesmo assim, tenho a obrigação de fazer esse relato.

Como eu dizia, também era cético até algum tempo atrás – até bem pouco tempo atrás, na verdade. Para ser mais preciso, até duas semanas atrás. Até que minha vida virou de cabeça para baixo, de uma forma que cheguei a pensar seriamente em me internar voluntariamente em um asilo para loucos. E o teria feito, acreditem, se eu pelo menos tivesse a certeza de que aquilo que descobri deixaria de ser verdade. Mas eu sei que a realidade não pode ser mudada assim, à nossa revelia. Por isso, decidi que contar a minha história era a única forma de salvação possível. Se não para mim, pelo menos para outros que possam aprender com ela.

No momento em que escrevo, estou escondida, encerrada num esconderijo distante. Não que esconderijos possam evitar o pior, mas tenho esperanças de que possam pelo menos adiá-lo. Não tenho muito tempo, por isso preste a máxima atenção no que eu estou lhe dizendo: não irei repetir essa história.

(continua no próximo mês)