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sábado, 17 de fevereiro de 2018

Quando a Lua nasce por cima de minha casa









Quando a Lua nasce
por cima de minha casa
o telhado tem cor de passado.














sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Depoimento de uma mulher que apanha




Eu fico olhando ele dormir toda noite. Ele não faz um ruído, sabia? É uma coisa assustadora. Não ronca, não respira alto. Parece alguém em coma; um semimorto. Como é possível? Isso não é justo. Não está certo ele dormir assim enquanto eu passo a noite cuidando do meu corpo cheio de dor. Cada tapa, cada soco, cada pontapé me deixa toda marcada, está vendo? A minha pele está toda roxa. Tem uns lugares em que os hematomas nem saem mais. Está vendo a minha coxa? É o lugar que ele mais chuta. Acho que é porque essa parte do corpo está sempre coberta e ninguém vê as marcas. Eu nunca mais vesti um short. Nunca mais fui à praia, acredita? Mas as coxas não me preocupam. Na hora em que ele começa a bater eu só me lembro de usar as mãos e os braços para proteger a cabeça. Faço uma espécie de redoma, de escudo. Assim, está vendo? Mas tem hora que ele me pega desprevenida. Eu morro de medo que ele machuque os meus olhos. Ou a minha cabeça. Fico imaginando como seria ficar em cima de uma cama. Dependendo dos outros; dependendo dele. Imagina o que mais ele faria comigo. 
Eu ainda choro. Por que será que eu ainda choro? Não é mais choro de revolta nem de medo, sabe? É uma coisa boa. Que me dá alívio. Andei pensando sobre isso. Eu acho que eu choro porque talvez seja a única coisa em mim que ele não pode tocar: as lágrimas. Ele não pode puxar, apertar, sacudir, espancar as minhas lágrimas. Como faz com o meu corpo. Também não pode manipular, nem controlar, nem abusar delas. Como faz com a minha cabeça. Com a minha vida.
Não, isso não é vida. Eu sei. Eu já estive aqui antes. Já conversei com a psicóloga. Foi bom. Ela me fez pensar. E eu já tinha parado de pensar fazia um tempo. Mas pensar não adianta muito, sabe? A gente se sente pra baixo de novo. Pensando em tudo o que não consegue fazer. E sofre outra vez.
Eu nem sei por que é que eu apanho tanto. Só sei que a coisa vem, e quando vem nunca é pouca. Primeiro ele me olha. É um jeito de olhar que fala. Eu não sei explicar direito. Mas é como se ele estivesse sempre me culpando por alguma coisa que eu não fiz. Como se estivesse procurando uma desculpa para me arrebentar toda. Qualquer coisa serve. Qualquer coisa mesmo. O cabelo solto, a saia curta, a calça comprida justa, o riso, a unha grande, o decote, o jeito de pendurar a roupa no varal, a máquina ligada muito cedo, a camisa passada do jeito errado, o banheiro ocupado. 
A psicóloga me disse que ele é um abusador. Que ele faz eu me sentir culpada de propósito. Porque é isso que um abusador faz. É verdade. Toda vez que ele me bate fica repetindo que a culpa é minha, que eu mereço apanhar. Não mereço, não. Já tem tempo que eu sei que não mereço castigo. 
Eu me casei muito cedo. E ele não me deixou trabalhar nem estudar. Tinha ciúme até da minha mãe. No começo, eu achei graça. Não vou negar que eu gostei daquela vida de não trabalhar. Só depois de um tempo é que eu percebi que era tudo uma armadilha. Eu não tinha diploma, não tinha emprego, não tinha mais amigos e me afastei da minha família. Eles nunca entenderam o porquê. Nunca aceitaram eu ter parado de falar com eles: minha mãe, meu pai, meus irmãos. A minha irmã mais nova me disse que é benfeito tudo o que me acontece. Porque eu sou burra, covarde, fraca. Eu entendo. Entendo, sim.
Eu não tenho filhos. Não pude ter. Fiquei triste por muito tempo. Porque eu imaginava que se eu tivesse filhos ele não ia mais me bater. Mas depois eu andei lendo sobre uns casos parecidos com o meu e vi a sorte que eu dei. Eu e essas crianças que nunca nasceram. Só que, por causa disso, ele passou a me bater mais ainda. Batia e me xingava. Sua inútil! Sua vaca! Não presta nem pra me dar um filho! 
Foi nessa época que eu pensei em cair fora pela primeira vez. Sem filhos, ele não tinha como me ameaçar. Sem filhos, eu não me importava de não ter estudo nem emprego. E aí eu vim aqui e prestei queixa. Conversei com a psicóloga e ela me disse para eu parar de pensar no que tinha a perder, e começar a pensar em tudo o que eu tinha a ganhar. Foi uma conversa boa. Imaginei tanta coisa. Cheguei a procurar a minha mãe e perguntar se ela me aceitava de volta em casa. Imagina que ridículo! Mulher feita voltando para a casa da mamãe. Mas ela aceitou feliz. Os meus planos é que duraram pouco. Um dia depois ele foi trazido aqui, nesta delegacia, prestou depoimento e foi mandado de volta para casa. Em 2005, ainda não existia a Lei Maria da Penha. Foi aprovada só no ano seguinte. Tarde demais. Na noite em que ele foi liberado pela polícia, me fez uma ameaça. Que se eu viesse aqui de novo ele matava meus pais e meus irmãos. E logo em seguida me deu uma surra tão grande que me quebrou um dente. Esses nove anos foram um inferno.
Mas as coisas mudam. Por isso eu resolvi prestar queixa de novo. Dessa vez, sem volta. Meu pai morreu tem quatro anos. Mas ainda tinha a minha mãe para o desgraçado ameaçar. Agora, ela também morreu. Faz um mês e meio. Antes, eu dei um jeito de ir até o hospital e ficar um pouco com ela. Pedi perdão. Sabe o que ela me disse? Que eu precisava pedir perdão era a mim mesma. Aquilo doeu. E doeu mais ainda quando eu fiquei sabendo que ela deixou a casa para mim de herança. E que os meus irmãos abriram mão da parte deles por mim. Para que eu pudesse ter para onde ir se eu decidisse me separar. Aí eu pensei: é agora ou nunca; não tem mais pai nem mãe pra esse filho da puta ameaçar. Eu conversei com os meus irmãos. Contei tudo para eles. E eles me disseram para não me preocupar que eles se garantem. Acho que a única covarde sou eu mesma.
Hoje, quando eu estava saindo de casa, ele veio atrás de mim. Adivinhou o que eu ia fazer. E me ameaçou, revólver na mão. Eu continuei caminhando, sem me virar. Pensando que o tiro não podia me matar mais do que eu já estou morta. Mas não era para ser. Não, não era para eu terminar em silêncio. 






segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Coragem pela Liberdade - O Oscar de 2018

Por Lohan Lage Pignone
(Contém spoillers)             

             Quando o herói hesita, o mundo inteiro para à espera de sua decisão.
             A pedra está ali, bem no meio do caminho. E agora, José?
        Assisti a oito dos nove indicados ao Oscar de Melhor Filme este ano. Tentando rascunhar um painel do que a Academia decidiu apresentar ao mundo, percebo algumas nuances sintomáticas dos nossos tempos. E a mais contundente, no meu entender, é a coragem de vivenciar a liberdade.
Nadar contra a maré talvez seja o maior dos desafios. Sobretudo quando a maré está pra peixe. Viver a liberdade é cruzar uma linha invisível em um oceano. Superar a exaustão, as intempéries, o ímpeto das ondas. É Truman em seu veleiro, buscando escapar de sua cela hiper-real. Exige coragem, senhores. Já dizia Ana Cristina César que “virar pelo avesso era uma experiência mortal”. E o que seria a liberdade senão virar pelo avesso, dadas as circunstâncias da nossa realidade?
            Morre-se ou não. Renuncia-se. Ou não. Abre-se mão da reputação, da segurança, das heranças, dos amores, dos hábitos. Not always. O herói vacila ao se aproximar da caverna profunda. Pensa se de fato valerá a pena dar um passo no escuro. A pedra está no caminho, e mais do que nunca é hora de contorná-la.
Em “Darkest hour”, o personagem de Winston Churchill, interpretado por um monstruoso Gary Oldman, renunciou a um acordo de paz com os nazistas e assumiu de peito aberto o risco de uma invasão iminente, apoiando-se nos apelos patrióticos do povo inglês. Já em “The Post”, Kay, vivida pela recordista de indicações ao Oscar, Meryl Streep, renunciou a uma amizade de longa data, ao governo, aos banqueiros; em nome da liberdade de expressão. Em “Lady Bird”, a passarinha vivida por Saoirse Ronan voou para longe do ninho. Em “Three Bilboards”, o desfecho aponta um dilema na trajetória dos personagens de Mildred Hayes (Frances McDormand) e Jason Dixon (Sam Rockwell), também calcado em um ato de coragem em prol da liberdade; todavia, aqui, de uma liberdade que é viver sabendo-se juiz do próprio destino, livre de qualquer martelo de tribunal ou dependência legislativa. Em “Call me by your name” a coragem está no processo da descoberta, que demanda a uma experimentação múltipla, atendendo a uma ebulição inexorável de vida por todos os poros. E ainda, eu diria, que o protagonista Elio (Timothée Chalamet) finca no solo de uma geração a bandeira da liberdade, destituindo um território antes ocupado por personagens como o seu pai, Mr. Perlman (Michael Stuhlbarg), que preferiu não contornar a pedra drummondiana e seguir adiante à caverna profunda.
            Essa dona coragem também permeia a “Dunkirk” de Nolan, quando civis tomam a frente da operação Dínamo – instituída, vejam só, pelo Churchill de outro filme indicado – e tudo funciona como uma corrente eletrificada pela bravura e convicção na tomada de decisões que salvam vidas, modificam o destino de uma nação e impedem uma nova e nefasta configuração do mapa-mundi. Em “The Shape of Water”, Elisa (Sally Hawkins) é a heroína que busca, simplesmente, a liberdade de ser humana. É preciso coragem para se ter humanidade em um mundo repleto de seres monstruosos... em um mundo onde seres devoram-se uns aos outros por conta da etnia, da sexualidade, da religião, da classe social. É preciso ter coragem para assumir a forma informe da liberdade e do amor.


          Por fim, e não menos importante, ressalto a importância de um filme que aparentemente “corre por fora” na disputa; mas que a meu ver, corre mesmo rumo à estatueta dourada. “Get Out” não necessariamente vai à contramão dessa coragem para viver o estado de liberdade, mesmo que ilusório; o filme de Jordan Peele apresenta um dos melhores roteiros dos últimos tempos porque se propõe a expressar o chamado e a força colossal que o sistema impõe sobre nós, meros mortais. É o filme que grita “vá, coragem! Fuja desse sistema que te escraviza!”. Acompanhamos a angustiante trajetória do nosso herói Chris, que busca atender a esse chamado; chamado este que não se restringe ao conflito do filme, mas que reverbera desde os tempos ancestrais, de todos os negros que deram suas vidas em nome da liberdade; e sim, Chris assume essa responsabilidade histórica e combate a hipnótica força de um sistema representado por uma família branca, de elite. É essa mesma hipnose que vivenciamos, dia após dia, capitaneadas por aqueles que detêm as ferramentas que exercem tal poder.
            Ainda não tive a oportunidade de assistir à “Trama Fantasma”, do cultuado Paul Thomas Anderson. Mas não duvido que fuja desse parâmetro. A Academia Cinematográfica, uma convenção tradicional histórica, exclama a coragem para que se viva a liberdade; para que se rompa a teia obscura que entrelaça tantas vidas; para que haja declarações livres de assédios, de preconceitos; para, enfim, poder corroborar que o cinema é o farol que nos guia e encoraja neste oceano, e nos auxilia a cruzar a tal linha invisível.





segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

gênesis


eu passaria três dias
olhando para o teu corpo 
ouvindo da tua boca 
centenas de versos tortos
servindo de água e pão 
para matar tua sede e fome 
girando como um ciclone
no olho do furacão

eu passaria mais três dias 
fazendo massagem tântrica
falando no teu ouvido
canções que viraram mantras 
servindo de céu e chão
para os teus sonhos de criança 
seria o teu par nessa dança
tal qual relâmpago e trovão

já no sétimo dia
a gente apenas gozaria 
o amor





sábado, 3 de fevereiro de 2018

SINGIN´ IN THE SUN

Quem tem a pachorra ou a generosidade de me ler sabe que sou da ficção, com preferência a
histórias de amor, relacionamento e sexo, beirando às vezes o erotismo impropriamente dito. Crônicas são raras nas minhas teclas, embora tenha em Cony, Rubem Braga e Fernando Sabino
as melhores inspirações do estilo, sendo que este último gerou uma obra prima – A Última Crônica – que habita minha cabeceira e faço uso e abuso dela quando tenho ímpetos de chorar para lavar
a alma.

Mas chega de lero lero. O relato que se segue é uma crônica da mais pura realidade, porém seus contornos de absurdo levam a parecer uma ficção delirante.

No início do ano, fui classificado num processo seletivo para dar aulas numa universidade.
Tomei conhecimento da imensidão de documentos necessários e por sorte, tinha quase todos.
Por azar, vi que minha Carteira de Trabalho – que não usava há 12 anos - tinha sumido.
Há os que dizem -  como aprenderam a dizer o que lhes interessa e acreditar no que lhes convém – que “acabaram com a carteira de trabalho!”. Não. Empresas exigem o mesmo documento
azulzinho dos tempos de Getúlio Vargas em seus ternos de linho branco. Mas isso é outro assunto.

Com a documentação verificada pelo sabido Google, fui ao Poupa Tempo de Ipanema.
Burros n´água.  Era preciso agendamento pelo telefone e mais uma lista de providências, já que
a Carteira foi perdida. Fui orientado lá mesmo no Perca Tempo, ops, Poupa Tempo, a fazer o
boletim on line da ocorrência. Assim o fiz. Tanto quanto o agendamento pelo telefone, às 7 horas
da manhã, pois 7:05, conforme dica dos próprios funcionários, o sistema congestiona e só no
dia seguinte seria possível ser atendido. Mesmo assim, consegui: quatro dias depois, 13:42,
no Posto do Ministério do Trabalho em Marechal Hermes.

Na entrada, um cartaz gritante: “Desrespeitar um servidor público é crime previsto pela lei tal e tal”.
Imaginei o quanto de tentativa de estrangulamento deve ter acontecido naquele local. Nem tampa no vaso sanitário do banheiro havia. Mas havia um funcionário público direto e reto:

- Boletim On Line não serve. Tem que ter a assinatura de autoridade policial.

E mais não disse. Na mesma hora, voltei 24 km para a delegacia na otimista intenção de fazer o
BO ao vivo. Impossível. Era uma daquelas tardes de terror com mortes na Rocinha e a delegacia
tinha mais soldados prestando depoimento do que a Inglaterra nas vésperas de 6 de junho de 1944. Voltei no dia seguinte e consegui a assinatura do policial civil. Mas só pude reagendar para uma semana depois. No Centro.

- Estado civil?
- União estável.
- Não serve. Tem que ter certidão de nascimento ou casamento.
- Vivo numa união estável há 25 anos, conforme esta certidão.
- Só serve certidão de nascimento ou de casamento com averbação do divórcio. Original.

E mais a senhora não disse. Por outro golpe de sorte, tinha a tal certidão num daqueles baús que
você acha que só vai ser aberto por um ente querido depois do seu próprio óbito. Parti para o
terceiro agendamento. 7 da manhã no telefone.

- Hoje só tem 11:13.
- Ôpa! Serve! Onde?
- Itaperuna.
- Não tem outro local em outro dia?
- Aqui no sistema, só em março. Amanhã o senhor liga. Vai que dá sorte de alguma desistência. 

E mais a moça não disse. Neste meio tempo, a universidade me convoca para uma aula/prova
com todos os documentos em mãos. Fiz uma declaração de próprio punho, anexei o Boletim de Ocorrência e ainda descrevi os três protocolos dos agendamentos embarreirados. Foram gentis e compreensivos. Dei minha aula para uma banca, mas dependia da Carteira de Trabalho.
Parti para o quarto agendamento, só possível cinco dias depois, dessa vez na Central do Brasil.

- Número da carteira de trabalho.
- Mas não tenho! Foi extraviada, olha aqui o BO.
- Tem que ter o número da carteira.
- A senhora poderia me dar uma orientação sobre como remexer a memória numérica remota? Hipnose? Telepatia? Regressão? 

Ainda bem que ela não entendeu. Lembrei do cartaz de Marechal Hermes.

- Vai no Ministério do Trabalho no Centro. Eles devem ter o seu cadastro com o número da carteira.
- Obrigado.

E mais não disse. Voei de taxi para o Ministério do Trabalho, expliquei o caso a um senhorzinho sentado numa escrivaninha.

- Isso é só com fiscal. E fiscal só trabalha até meio dia. Volta amanhã às 9.

Por outra bafejada da sorte, encontrei no mesmo baú o extrato de retirada do FGTS do meu último empregador. O número estava lá. Eufórico, parti para a Delegacia fazer um novo BO com a
numeração exigida. Feito. E nova tentativa de agendamento:  só primeiro de fevereiro, pelo menos, no próprio Ministério no Centro.

Cheguei uma hora antes e de cinco em cinco minutos, acometido de um tique nervoso, abria e fechava a pasta conferindo os documentos. Tudo lá. Dessa vez, desde 5 de janeiro, vai.
Fui recebido no guichê com a notícia de que o sistema estava fora do ar. No mesmo instante,
recebo um e-mail da universidade exigindo a Carteira naquele mesmo dia, sob risco de desclassificação no processo. Fui soterrado por uma calma inédita, algo como um monge do
Nepal que nunca fui, levitando ou pisando em brasas com um sorriso idiota.
E alguma eternidade depois, o sistema voltou e tudo correu nos conformes da burocracia.

- Olha para a câmera. Aqui na minha mão. 

Click.

- Daqui a uma hora vai naquele guichê e pega a carteira.

Não sei se foram os 60 minutos mais tensos e longos da minha existência, sentidos pelos espasmos
do ponteiro do relógio – não, não há relógios digitais em repartições do Ministério do Trabalho. Também naquele dia não havia Ministro, nem Ministra, que está sub judice, condenada por descumprir as leis trabalhistas. Coisas do Brasil. Mas isso é outro assunto.
Segui parado em pé, observando aquele pelotão de servidores se arrastando malemolentes
para lá e para cá com papéis na mão – sim, papel na mão denota que estão atarefados - e
conjecturei que eles já conheciam a luz elétrica, mas certamente dormiam em camas com
penico embaixo. Estava começando a achar graça das minhas besteiras, quando algo me trouxe
à realidade

- Seu José?
- José de quê?
- José de Tal (não lembro o sobrenome)

Pronto. Não era eu. A paranoia me cochicha que embarreiraram minha Carteira.

- E venha Seu José Guilherme também.

Alívio. Na minha frente, o primeiro José, o tal de Tal, um senhorzinho bem humilde, nordestino,
rosto craquelado pela vida, carregando uma sacola de coisas no braço direito, começou a ser atendido.

- Polegar aqui no sensor.

Ele obedeceu.

- O direito. Esquerdo não serve.

O senhorzinho passou a tremer, gaguejar, balbuciar algo indecifrável em seu dialeto humilhado, enquanto tentava levantar a sacola pesada com a mão direita.

- O polegar direito! O senhor está atrasando a fila!

Foi aí que eu intervi, com elegância limítrofe.

- Senhor, ele não tem o polegar direito!

O servidor olhou com desconfiança para o cotoco, mas se curvou ao óbvio.

Chegou, enfim, a minha vez. Tudo correu rápido e bem, eu tinha polegar direito. Recebi enfim
a Carteira de Trabalho, verifiquei os dados, tudo certo, a não ser minha foto que me lembrou
meus ancestrais em Cro-Magnon. E saí correndo daquele lugar, antes que alguma força maligna pudesse fazer o tempo andar para trás.

Já na rua, por uma surpresa do acaso, a playlist da tecnologia que me embala a vida pelos ouvidos começa a tocar “Singin' In The Rain”. Aos primeiros acordes pan panan pan pan panan panan 
pan percebi que estava happy again. O sol era de rachar, céu de brigadeiro, calor estúpido de
verão no Rio.  Imaginei tirar meu guarda-chuva de dez reais que mora na mochila e sair
dançando, rodopiando em postes, pisando em poças, respingando alegria em transeuntes,
saltitando pelo meio fio até o metrô. Imaginei que algum carrancudo (há tantos nestes tempos patrulheiros) pudesse me fuzilar com um olhar de morte ao ridículo. E imaginei responder
ao chato imaginado, representante de todos que se puseram neste meu caminho de desvarios,
com a única expressão apropriada, legítima e insubstituível, que define sentimentos
momentâneos indescritíveis: foda-se.





quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Amigos


Foi ao jantar, em casa da minha irmã, na Beira, que o assunto da amizade foi levantado.
Pai, o Bruno quer que eu lhe empreste o street-skate — lançou o meu sobrinho Sérgio, logo no princípio do creme de ervilhas.
Porquê? Ele não tem? — retorquiu o meu cunhado, meio desinteressado.
Só tem um dos básicos. Mas, como vai passar o fim de semana a Lisboa, quer ir ao passeio do Parque das Nações com uma máquina a sério.
E então, emprestas?
Achas? Só entrou na escola o mês passado. Eu sei lá se ele mo perde ou o estraga? — argumentava o meu sobrinho, para encobrir o egoísmo dos seus 13 anos.
Isso é que não pode ser — devolveu o pai. — Se estraga, tem de pagar. Ou comprar novo. Fora isso… Porque é que só entrou agora?
O pai veio trabalhar para cá. Acho que é técnico de máquinas na fábrica.
E esse Bruno já te emprestou alguma coisa? Ou é daqueles que só pede, mas nunca empresta? — tentava o pai avaliar o amigo do filho pelo critério da reciprocidade.
Ele é um egoísta; está sempre a dar desculpas. Só me emprestou três jogos para a playstation. E foi porque eu lhe pedi muito.
Mas, vocês não são amigos?
Sim — concedia Sérgio, a contragosto. — Mas eu mal o conheço…
Foi nesse ponto da conversa que eu intervim, aproveitando os momentos antes do prato principal.
A questão da amizade, e de como lidamos com ela, é das mais importantes, sobretudo para quem está a crescer, porque pode moldar toda a futura maneira de estar na vida. A História e a Literatura têm-nos fornecido inúmeros exemplos de amizades, desde Os 3 mosqueteiros, em que há um companheirismo igualitário, à amizade, digamos, assimétrica de D. Quixote e Sancho Pança.
Lá vem o momento Acontece — ironizou a minha irmã, referindo-se ao extinto programa cultural da televisão.
Na verdade — continuei eu, ignorando acintosamente a provocação —, confunde-se frequentemente amizade com coleguismo. No coleguismo, há apenas confluência de interesses.
Então, e na amizade, não há interesse? — avançou o meu cunhado, fisgado no interesse, mas no interesse na conversa.
A amizade é algo bem mais desinteressado. Pode mesmo dizer-se que o interesse está afastado da relação de amizade. É uma afeição desinteressada, até altruísta, alicerçada na longa convivência anterior, na qual todas as provas de lealdade e honestidade foram superadas. A partilha é então praticada naturalmente, sem esperar contrapartidas. Vou contar-vos o que me aconteceu em 1976, quando fui às vindimas a França.
Imediatamente, cessaram as perguntas e a atenção redobrou. Histórias antigas eram o gáudio do meu sobrinho, e até a restante família não as desdenhava.
Eu não ia bem às vindimas; ia a caminho de Inglaterra, zangado com o nosso país, mas aproveitei para fazer o caminho à boleia pelo sul de Espanha. Demorei quase um mês a chegar a França e quando lá cheguei estava com pouco dinheiro. Então, parei duas semanas numa quinta acima de Bordéus para me reabastecer de algum dinheiro.

«Na altura, ganhei uns 400 e tal francos.» — Algumas lembranças pediam passagem, mas nem todas encaixavam na coesão da narrativa.

Chateado com o frio que o início de outubro trazia e eu não previra, em vez de progredir, resolvi voltar. E, como antes, aconteceram-me as peripécias mais bizarras.

«Estive mais de duas horas à espera por uma ligação telefónica para Portugal.»

Entretanto, os anfitriões apresentavam um bacalhau com batata doce que devia estar suculento. O meu sobrinho, esse já estava preso à história.
A questão é que eu, para não gastar dinheiro desnecessariamente, continuei à boleia. Fartava-me de andar a pé, e aceitava todo o tipo de transporte. Antes de Bordéus aceitei boleia de uma ambulância, que entrou numa via rápida, mas logo a seguir ficou sem gasolina. O enfermeiro, em vez de me deixar ali, vestiu-me uma bata e fomos ambos à boleia buscar gasolina. Simpático, não?

«Para sair de Bordéus, andei 14 quilómetros a pé.»

Ainda nesse fim de tarde, a começar a chover, e sem encontrar dormida a preços aceitáveis, o que me valeu foi um empregado português de um hotel, que me cedeu, de graça, o modesto quarto dele, porque nessa noite não dormia lá. Estão a ver o que é solidariedade, ajuda desinteressada?
Sem te conhecer, tio? Fogo!
Lá fora, um compatriota é um meio amigo. No dia seguinte, ia eu caminhando pela berma da estrada, no meio de uma paisagem deslumbrante de verde, quando vi que outro caminhante se aproximava. Era outro português que vinha das vindimas. Chamava-se Zé Duarte e era um tipo surpreendente. De 26 anos e cabelo comprido, muito alegre, disse que tinha andado quinze dias à procura de vindimas, sem êxito, e tinha gasto a “massa” toda.

«Logo aí, desconfiei que podia ser mentira, talvez com medo que eu o “cravasse”.»

Disse que tinha 6 passaportes conseguidos quando se lhe acabava a “massa”. Ia aos consulados portugueses, dizendo que fora roubado, e aí pagavam-lhe a viagem de regresso, davam-lhe dinheiro para comida — 200 ou 300 francos — e novo passaporte. Partilhei logo com ele uns “comes” e cigarros. Nada de mais, se pensarmos que éramos ambos portugueses e jovens e estávamos na difícil condição de “penduras”.

«Nada de mais, realmente. Mas se ele me tivesse pedido dinheiro? Hum, não sei, não!»

Nessa noite, depois de algumas boleias, ora separados ora juntos — numa delas, fui eu que intercedi por ele, que ia na estrada depois de uma boleia —, alugámos um quarto baratinho com cama de casal e lá jantámos também uns “comes” que comprámos.
Assim, sem o conheceres, tio? — estranhou o meu sobrinho.
Pois, arrisquei, mas confiei no bom tipo que parecia ser. Aliás, eu é que pressionei, porque ele queria dormir numa gare ou num prédio em construção, como tinha feito nos últimos dias. Disse que só tinha 100 francos.

«Arrisquei, reconheço! Devo ter confiado no esconderijo em que tinha o grosso do dinheiro — um bolso falso de umas calças que iam no fundo da mochila.»

Deixa lá agora a história, senão não comes nada — ralhou a minha irmã. Realmente, quase todos estavam a acabar e eu a meio do bacalhau.
Desculpa; está ótimo. A batata doce dá-lhe um toque exótico — redimi-me.
Concentrei-me na tarefa degustativa, enquanto os restantes faziam alguns comentários, realçando a imprudência de me relacionar tão proximamente com um desconhecido, ainda por cima com indícios preocupantes. A minha cabeça, entretanto, debitava lembranças.

«Era possível dormir por 60 escudos em Portugal, 100 pesetas em Espanha e 12 francos em França. A peseta estava a cerca de 50 centavos e o franco a cerca de 8 escudos. Muitos bancos espanhóis e franceses não aceitavam escudos, devido à proximidade temporal da revolução portuguesa. Só se podia sair do país com um máximo de 7500 escudos. Nas fronteiras havia que passar por uma alfândega e por um controlo de polícia.»

Quando atacámos o queijo de pasta mole, continuei.
No dia seguinte, a partir de Bayonne esteve sempre a chover. Resignámo-nos a apanhar um autocarro e depois o comboio para Hendaye e dali para Vitória, já em Espanha, tentando esgotar os últimos trocos franceses. O tempo das moedas nacionais tinha destas bizarrias. Em Hendaye, o nosso grupo cresceu: um casalito francês pediu-nos ajuda para passar a fronteira, porque não tinha passaporte.

«Ele talvez tivesse, mas era um menor de 17 anos. Ela nem idade, nem papéis. Ambos a fugir aos pais.»

Em Irun — a fronteira espanhola — o Zé disse-lhes para seguirem ao longo da gare e da linha e saltarem o muro, para não passarem na alfândega. Pouco depois, apareceram do outro lado da estação, já na parte espanhola, mas ainda cheios de medo.
Andavas metido com boa gente... — ironizou o meu cunhado.
Quando se passa por situações precárias, está-se mais disponível para ajudar outros em situações semelhantes. Esse foi um dos meus dias mais longos. Começámos por esperar 3 horas pelo comboio. Eu distribuí os meus “comes” e fomos os 4 até Vitória.

«O Zé tinha “erva” e o francês mostrou-se interessado em comprar. Foram ambos fumar um “charro”. Voltaram eufóricos.»

O Zé todo o caminho cantou todas as canções e mais uma, desde revolucionárias portuguesas, algumas da autoria dele, até egípcias, brasileiras e chilenas. Não se calou durante o tempo todo, enquanto os franceses e 4 espanhóis que iam no mesmo compartimento, vindos das vindimas, adormeceram. Em Vitória, à uma da manhã, todos os hotéis estavam cheios — disseram-nos — e os que tentámos estavam fechados.

«Não podíamos ir para a gare, por causa da miúda que tinha medo de ser apanhada pelos “flics”.»

O Zé sugeriu dormir debaixo de um viaduto, eu alvitrei ir andando até amanhecer, mas chovia um pouco e acabámos por entrar na porta de um prédio e dormimos na entrada: eles metidos nos sacos de dormir, ela sentada num saco e encostada a outro e eu sentado num degrau e reclinado sobre a mochila, e depois deitado em cima de um tapete de arame.

«O francês pagou por “erva”, que daria para fazer talvez uns dois cigarros, 400 pesetas, contadas ali na obscuridade e no silêncio imposto de uma entrada de residências.»

O frio não foi nada meigo. Posso garantir-vos que é das piores maneiras de passar uma noite.
Então, e a solidariedade e a amizade que tens estado a apregoar? — voltava ao ataque o meu cunhado. — Eles no saquinho e tu ao frio!
Estávamos todos irmanados no sacrifício e continuávamos juntos, que era o principal. Não havia era sacos para todos… — tentei eu a justificativa pelo circunstancial.
E depois, tio?
De manhã, nada se via ainda e já havia muitas pessoas a passar na rua. Alguém começou a descer as escadas do prédio onde estávamos e eis-nos a levantar de um salto, a arrumar as coisas e a “cavar” porta fora. A rapidez não foi suficiente porque o fulano que desceu viu bem que tínhamos saído do prédio e que tínhamos ar de ter estado por ali “acampados”. Os outros voltaram a deitar-se. Eu apenas me sentei — o frio era muito e eu ansiava pelo dia. Outros moradores desceram, mas dessas vezes sem reação da nossa parte. Daí a bocado, fomos para a estrada e separámo-nos. Nunca mais vi os jovens franceses.
E o outro gandulo? — mais uma “farpa” do meu cunhado.
Até Burgos, ora intercedia eu por ele, ora ele por mim. O pior é que caía uma chuva gelada, de que nem a toalha que pus pela cabeça protegia. Na última boleia, no quentinho do carro e com a noite mal dormida, o sono atacou-me bem. Em Burgos, fui trocar 1000 escudos por pesetas e nem me despedi do Zé, pensando que voltaria a encontrá-lo mais tarde, mas não.

«Estava cansado, chateado com o frio e talvez temesse que o dinheiro do Zé acabasse e ele se “pendurasse” em mim. Pequenices pessoais que mesmo aquela tão especial viagem ainda não conseguira apagar.»

Nunca mais o vi. Como gostava de o reencontrar para reavivar estas memórias! Daí para a frente, talvez pela falta do otimismo do Zé, talvez pelo frio, não aguentei muito. Vesti mais uma camisa — o que perfazia uma camisola interior, duas camisas, uma camisola de gola alta e um casaco de malha —, mas apesar de me abrigar atrás de uma árvore, o frio entrava-me por todos os lados. Fui tomar um café à gare dos comboios e lá fiquei a cabecear com os cotovelos apoiados numa mesa. Depois, comprei bilhete para Portugal. Que se lixasse a sovinice. E a boleia e Espanha e mais o frio. Estava “pelos cabelos”. Às 11 da noite estava na Guarda.
Ó Mário — chateou-se a minha irmã — achas que isso são histórias edificantes para o Sérgio? Andar feito vagabundo, a acamaradar com tipos sem eira nem beira?

«E não ouviste tu o que eu pensei entre aspas!»

Se calhar, afastei-me do assunto principal. O que eu queria mostrar é que podemos ajudar alguém, ser solidários e amigos, mesmo que não conheçamos bem esse alguém. Há sempre uma incerteza no primeiro contacto. O reverso é: como podemos ser generosos e magnânimos, sem nos arriscarmos a ser usados e abusados? O que achas, Sérgio?
Sim, vou emprestar o street-skate ao Bruno. Já antes me tinha decidido. Mas se ele mo estragar, nunca mais lhe empresto nada.
O licor de ameixa após o café soube-me maravilhosamente.

Joaquim Bispo

Imagem: Joan Miró, O pássaro de plumagem levantada voa para a árvore prateada, 1953

* * *





segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Da Dúzia à Graça




Num embaraço entre vida e morte, entre o corte e o saber-se vítima do acidente e de um tempo regressivo, derradeiro, Sidney Sherley atribuiu seu fim ao ato de escrever sobre a própria cabeça – cabeça como parte dele, parte como ele, cabeça enfim rolando no asfalto da estrada. Sabia, conforme narrava a história, que a de Charlotte Corday, decapitada em 1793, avermelhou-se e demonstrou inequívoca expressão de raiva ao ser estapeada pelo carrasco; que as dos ratos geravam atividade elétrico-cerebral relativa à consciência e cognição quando separadas do tronco; sabia, portanto, deste último intervalo, cujos segmentos ele haveria de repartir e usar tal qual um benéfico paradoxo de Zenão.

Surgira o desejo das palavras ao ver-se calvo num reflexo, ao investigar o crânio e suas reentrâncias e saliências, irregularidades, os inúmeros cortes e fissuras; nunca se conhecera assim, detalhado, e ante essa revelação informou-se acerca das ciências relativas à índole dos ossos e expressões, formas, e unindo material e vontade resolveu contar a história da própria cabeça – mas a história dela e só dela, dos detalhes alheios a ele; pois a cabeça era única, e malgrado contesse o cérebro e o princípio de uma união indissolúvel, tinha ela outra vida, exclusiva, cujas singularidades não representavam as características do corpo ou as circunstâncias do passado. Se os postulados da frenologia descreviam vinte e sete órgãos individuais que determinavam a personalidade, Sidney, aprofundando-se em estudos autênticos e apócrifos, logo denunciava muitos outros mais, ocultos pelo querer; registrou ele, no prefácio do livro, como a existência destes juízos fundamentava-se num atributo de omissão e codificação, e sobre como levávamos nos ombros um elemento estranho, rebelde, cujo desmembramento era objetivo almejado, exigindo eventual resolução.

Adquirindo dois ou três craniômetros, objeto semelhante aos antigos globos planetários, com suportes e arcos para medição da latitude e longitude, mapeou canais, pontos e ângulos enquanto lia e relia os tomos de Franz Joseph Gall e Johann Kaspar Lavater, enquanto estudava o saber atual, e todavia cabalístico, da neurologia, concebendo por fim a doutrina da crâniomancia; esta, ao interpretar as suturas superiores e compará-las às constelações, previa o destino e explicava aspectos psicológicos referentes ao indivíduo-alvo. Exceção a ela era a chamada ‘Fossa de Sherley’, um mal consolidado trauma encefálico na testa de Sidney que exigiria o uso de ferramentas inéditas, aptas a mensurar pormenores infinitesimais, de natureza esotérica.

Mesmo sendo homem de vocação numérica, sua prosa era a perfeita manifestação de expectativas artísticas: clara, simples e bela, e rabiscando não se interessava tanto pela constituição da história como pela relação da cabeça com a escrita. O ato de escrever, notou, era o ato de dar vida a essa parte oculta, a essa imaginação além da mente e matéria – e labutando no frio anoitecer do campo, entre sombras e tinteiros, ele afastava-se do momento e a tudo assistia, distante. Durante o trabalho nunca deixara de investigar o próprio rosto, e assim, num dos muitos e habituais exames, constatou a presença de indícios estranhos, suspeitos: as microexpressões da face traíam ironia, revelavam um sarcasmo involuntário – e vingativo.  Voltando ao texto, indagou se a caligrafia e a sintaxe não esconderiam segredos tal qual seu semblante escondeu. Enfrentou, então, espasmos que contraíram os olhos, venceu câimbras invasivas, paralisantes, e examinando o texto nele entreviu sugestões de cortes e separações, libertação. Naquela madrugada a tudo leu, e ao amanhecer, cansado e paranoico, concluiu que a cabeça conspirava contra o tronco, ansiosa por autonomia.

Vestindo-se e saindo, no automóvel, acelerou; iria ao psiquiatra, acabaria com este monstro descoberto e criado, monstro dele mesmo. Abrindo os vidros para aspirar a brisa matinal, os papéis e notas jogados alçaram voo, formando uma nuvem cuja silhueta retratou caveiras e ossos antes de cegá-lo.

Sidney Sherley bateu na traseira de um caminhão. 

Decapitado, e consciente, testemunhando as pedras do asfalto calçarem o fim, sabia ele de seus segundos finais, de seu erro, e sabia, também, que esse momento fora concebido pela cabeça – ou, se não, sua vida fora uma ironia sem pé e sem ela.





sábado, 20 de janeiro de 2018

A menina que tinha pena de cotonete


Você pode me achar maluca, mas tenho dó de cotonetes. Se há alguma explicação, explico.

Sou neta única de um casal de avós daqueles que só existem em histórias fofinhas.
Ele Romualdo, ela, Lurdinha. Passei parte da minha infância e atravessei da adolescência
à vida adulta aproveitando as férias num sítio nos arredores de São João del Rey,
onde moravam.

Vovô era um velho comprido, espigado, magrinho, cuja cabeça farta de cabelos branquinhos
me intrigava por não ter ficado careca, como os avós fofinhos das histórias fofinhas.
Caladão, discreto, esguio, elegante. O tempo não foi lhe curvando, porém encolhendo
a barriga presa a um cinto quatro dedos acima do umbigo, que sustentava uma calça larga
de pregas até os chinelos que aconchegavam meias azuis.

Meu avô só usava azul. Calça, camisa, meias, casaco, pijamas, talvez cuecas samba-canção.
Só azul, tudo azul. Dos pés à cabeça branquinha.  Cruzeirense, a mania da cor era resultado
de uma promessa de jamais mudar a indumentária absolutamente celeste quando o Cruzeiro de
Tostão dilacerou de 6 o Santos de Pelé. Eu não era nascida, mas lembro detalhes do jogo
através da suas palavras e lágrimas.

Lurdinha era o contrário. Espevitada e boquirrota, tinha a língua nos cotovelos.
A diferença de personalidade entre os dois era na falação, pois o corpo, a cabecinha de
densos cabelos brancos e a finura alta eram as mesmas. Apaixonada pelo marido, embarcou
na tal promessa e até camisola, os vestidos, os casacos de tricô, as saias longas e o
avental de cozinha também eram azuis.

Há lendas que se contam dos dois. Quando a vitoriosa FEB desembarcou na Capital Federal
em garboso desfile militar, estavam eles no Rio, na certa para homenagear alguns
conterrâneos de São João del Rey, uma das cidades que mais mandaram soldados para a Itália.
No meio da multidão, surge engalanado sobre um jipão o bravo General Zenóbio da Costa,
comandante da Infantaria da Força Expedicionária, celebridade nos jornais e revistas
ufanistas da época. Lurdinha não se conteve ao reconhecer um famoso, esgarçou o cordão de isolamento e explodiu em gritos esganiçados.

- Zenóbio!!! Zenóbio!!! Zenóbio!!!! 

A voz era tão aguda e aflautada que abafou os rufares da banda marcial. Os cavalos da guarda
do general se assustaram, um Dragão da Independência caiu de um tordilho empinado e meu
avô imediatamente tratou de sumir com Lurdinha pelo povo, enfiando-se no primeiro bonde
que encontrou. Diz se deste episódio, que ao chegar na casa de parentes no Engelho Velho,
naquela noite a cobra fumou.

- Onde já se viu, Lurdinha! Um chilique de macaca de auditório! Em pleno desfile de heróis!

Certa vez, viajavam de ônibus de São João para Belo Horizonte, quando Lurdinha engrenou
a conversa sobre uma comadre que estava sendo traída pelo marido. Empolgou-se na prosa,
a ponto de falar mais alto que o coveniente, não só incomodando os passageiros, como também
- e principalmente - o discreto marido. E detalhou o ponto mais alto da carraspana da
comadre ao traidor em altos decibéis.

- Patife! Miserável! Cafajeste! 

Para deixar bem claro que Lurdinha não estava lhe passando uma descompostura em público,
Romualdo elevou a voz, num tom acima do dela.

- Mas que coisa! Sempre achei o Juvenal um patife, miserável, cafajeste! 

Histórias como as de Romualdo e Lurdinha transbordam. Cada um deve ter algumas para contar e
eternizar, mesmo sem ter presenciado. Passam de gerações a gerações como verdades que poderiam
ser, mas na certa, de tanto se contar, verdades sempre serão.

Mas uma delas eu vivi diante do meu nariz. Estava de namorado novo, quando fomos viajar pelas
Minas Gerais. No trajeto, um pernoite no sítio dos avós em São João Del Rey.  Romualdo e
Lurdinha nos receberam com a fidalguia de sempre, uma mesa típica das delicias de Minas e
uma gentileza inusitada, avançada para a época, ao arrumar o quarto de casal para a neta e
seu namorado.

No jantar, deu-se o ápice da viagem inteira.

- Menina, você quer saber de uma coisa? 
- O quê, vó? 
- Seu avô está com herpes. 

Silêncio. Colheres de bambá de couve rasgada paralisaram na beira de bocas semi abertas.

- No pau, minha filha. 

Meu avô, bicou sua cachacinha, girou a língua pelos lábios, desviou o olhar da mesa para a
lua que ensaiava sair de trás dos morros de Minas e entrar pelo avarandado. Vovó trovejou.

- Não pegou essa doença comigo! Há mais de 20 anos não há sexo nessa casa!  

Meu namorado se aproximou de mim em cochichos. 

- É genético? 
- O quê? Herpes? 
- Não, a língua solta. 

Claro que houve gargalhadas gerais e meu esguio e discreto avô, esguio e discreto
permaneceu, saboreando sua pinguinha mineira.

Foi a última vez que os encontrei juntos. Vó Lurdinha teve um mal súbito e Vô Romualdo
não entendeu porque ela estava demorando em ir para a cama dormir. Arrastou seus chinelos
com meias azuis até a sala e a viu sentada na poltrona, televisão ligada já fazendo chiado,
novelo de tricô caído pelo chão. Deste dia em diante, ele nunca mais falou. Nem uma palavra.
Nem queria saber de jogo do Cruzeiro. Permaneceu mudo perambulando pela casa por mais três meses, até que vestiu seu pijama azul, encostou a cabecinha branca no travesseiro, fechou os
olhos e resolveu encontrá-la para sempre. Tinham 99 anos ele, 95 anos ela.

Hoje, toda vez que uso cotonete, fico comovida, lembro de Vó Lurdinha e Vô Romualdo.
Não posso pegar um só e separá-lo dos outros. Dá peninha. Dá tanta saudade que sempre
pego dois.  Olho para eles juntinhos por um instante eterno, as memórias brotam. Suspiro fundo,
vida que segue. Seco os ouvidos, as dobras das orelhas, embrulho num papel e coloco os
dois na lixeirinha. Um do lado do outro. Dois. Como creio que deve ser o número
da felicidade.





quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

o mundo acaba no quadril - Poema de Nil Kremer








 o mundo acaba no quadril
  no íngreme trajeto até os ouvidos
   nos olhos acaba o mundo
    guardião do indizível
     sob as expressivas sobrancelhas
      na glote contraída acaba o mundo
       pigmeu que regurgita atrocidade
        na sobriedade em demasia
         na vaidade prostrada
          na cama desarrumada o mundo acaba
           na piada mal contada
            nas vértebras ignoradas
             no redemoinho dos teus cabelos o mundo acaba
              na conivência de amores tracejados
               rascunhos e estragos da boca de lobo
                no volúvel
                 no contraditório
                 o mundo, este invólucro reutilizado
                acaba no pecado mal consumado
               na rasura sobressalente
             no semáforo inerte
           na conversão pós delito
         na negligência da faixa amarela
       na quirela dada aos porcos
     o mundo acaba
   pra renascer na massa de modelar
 e desaguar no rosto
feito pinta próximo aos lábios