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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Três poemas de Amanda Bruno





noite no trânsito

branco branco
risca 
vermelho
pisca
acende
amarelo

nem assim 
apaga
a lua


***


os poetas do passado
pesam meu pensamento
não há tormento
que eles não tenham curado

não há poema meu
que não pareça errado
para quem leu
os poetas do passado


***


          pro Teus

não tenho ponto de vista
que ponto não tem tamanho

nem linha de raciocínio
que linha é só num plano

tenho é plano pro mundo
e nem é cartesiano

levo tudo na flauta
que toco no último volume




do livro Por Aqui (Edith)





terça-feira, 16 de setembro de 2014

Penitência

Quando os meus olhos se perderem em voos sem pouso, será hora de não ficar. Mas, antes, o deteriorar-se lento.
Primeiro, os fracassos, se instalando gradualmente. As mãos se tornando inúteis, sem saber para que sirvam. A boca esquecendo o mastigar. O corpo se repuxando em reflexos descoordenados. As fraldas colhendo um descontrole indigno. Os cabelos ralos enfeando o rosto inexpressivo. As pernas paralisadas. O banho dado por mãos alheias. Os nomes dos filhos e dos amigos embaralhando-se em idas e vindas cada vez mais idas. As histórias inventadas, as assombrações à luz do dia, os afetos irreconhecíveis. Longas horas de sono ruim. Outras tantas de olhos no teto. As mesmas frases, repetindo-se várias vezes. Um feto encolhendo-se em involução. 
Assim será. Quando tudo em mim for cansaço e desespero, e eu me desintegrar como um corpo estraçalhado por feras. A cada pedaço arrancado, existirei menos pessoa, desfigurada, agonizante. A cada nesga mirrada de lucidez, invocarei um choro. Por mim. Por vocês. Para os deuses. Mas eles não ouvirão. 
Antes, as tentativas. Comprimidos, lâminas, janelas abertas. Opções à inexistência vegetativa. Impedidas por vocês. Como se fosse melhor gastar o dinheiro que não têm, o tempo que não têm, o amor que não têm numa agonia que transforma em raiva e frustração as sobras de sentimento. 
Depois, o afastamento. No quarto, nenhum de vocês culpando-se ou desculpando-se. Apenas uma mulher estranha, sentada a um canto, cuidando de mim. Fim dos hiatos cruéis. Da realidade escassa que aparecia para brincar de adeus. Nevoeiro. Eu já não estarei morando em mim.
Mas até que a impotência aconteça, há coisas bobas a cometer. Como a vida.
Escrever no vidro embaçado das janelas de chuva. Mudar a cor do cabelo. Tomar sorvete de pistache com castanhas. Tropeçar os olhos na lua, contar os paralelepípedos, tomar banho gelado no verão, balançar na rede.
Como mais tarde não haverá lembranças, quero sentir agora tudo o que ainda está em mim. Os abraços que me devo, as madrugadas de conversas estúpidas, as viagens desastradas com amigos imperfeitos. A melancolia dos natais e das páscoas e dos aniversários barulhentos. As bochechas dos bebês, o rabo dos cachorros. As comidas calóricas, a água com bolhas de gás. O chope com dois dedos de colarinho. O uísque com quatro pedras de gelo. Quero falar sobre sexo às gargalhadas. Fazer sexo às gargalhadas. Rezar. Pedir mais tempo para pecar desejos inconfessáveis.
Só então a penitência. Que será longa e minha. Incerta como os olhos perdidos em voos sem pouso. 







domingo, 14 de setembro de 2014

oremos

Não há palavras para dizer de tristeza
e dizer de dor. 
Nem para dizer de medo.
Mais ainda, ficamos analfabetos,

mudos,
se é o Mal que referimos.
Esse, que a gente cuida que já mostrou demais e se supera,

nos traz, vazio, inumano, igual, mas mais horrendo,
o que julgamos não tivesse retorno.
Falta-nos o dizer e quase desacreditamos.                             
Ou a humanidade caminha aos solavancos
ou o Mal tem seus domínios.

Não há palavras para dizer de tristeza e dor,

nem para expressar esta profunda mágoa de não termos modo...





A mãe do filho


Chegou o filho. E com ele a mãe e a mulher que até então ela desconhecia. Sabia que não experimentaria a maternidade da mesma forma que as amigas ou que as mulheres sorridentes das revistas. As coisas com ela eram diferentes.
Não se sentira angelical durante a gravidez e observara com certa repulsa as expressões beatificadas das grávidas que acariciavam a barriga inchada com o olhar distante, com a sensação de que, finalmente, floresceriam junto com a cria.
Não se sentira confortável com aquela simbiose. Na verdade, achava estranho gerar alguém. Melhor se pusesse ovos. Teria deixado a chocadeira elétrica ligada e tocado a vida para frente, como sempre fizera.
Nunca fora esposa dedicada ou filha carinhosa. Era simplesmente alguém que cuidava de si, que convivia com os outros, se divertia e se aborrecia com eles.
Desejara o filho. Conscientemente. Num dado momento da vida, teve medo de não ter raízes, medo de não experimentar o que todos diziam ser o amor verdadeiro, o amor incondicional. Precisava disso: amar incondicionalmente.
Chegou em casa com o filho nos braços e esperou que o botão do tal amor fosse acionado. Nada aconteceu. Algo havia de errado. Deixara-se iludir. Pôs a criança no berço e recostou-se no sofá. Ficou alguns momentos parada, a mente vazia, sem saber o que fazer. Nada para pensar. Nada para planejar. Esperaria o filho chorar e o alimentaria. Isso... Seria uma embalagem ambulante de leite.
Seguiram-se os dias, seguiram-se as noites. Nada do tal amor. Sua vida estava virada de ponta- cabeça. Não dormia, não parava, não pensava. Era o alimento, o colo, o conforto do outro. Não havia troca, apenas doação.
Arrependeu-se. Não queria mais brincar de casinha. Deu o filho para a mãe, ela não aceitou. Olhou para o marido, deixaria os dois, iria embora. Não foi.
Os meses foram passando. Voltou a trabalhar, pôs o filho na creche. Afastou-se.
E no afastamento, foi voltando, se resgatando. E no afastamento, viu o amor surgindo, lento e sorrateiro como se com medo de grande exposição.









Amores Vários





TANTO E TÃO POUCO!

Cecília Maria De Luca                                   
Preciso lhe falar, meu amor. Estou pensando que daqui a poucos dias completo sessenta e nove giros em torno do sol. Tanto e tão pouco! Olho-me ao espelho tentando encontrar a leveza, o viço, a beleza, e tudo o que vejo são marcas e vincos.  Tão pouco tempo para a vida ir se desfazendo assim e, no entanto, quanto tempo! Tempo suficiente para aprender, conhecer, saber. E o que aprendi, o que conheci, o que sei? Girei tão depressa que sinto vertigem diante da constatação de que quase nada conheço, quase nada aprendi, quase nada sei. Quase nada tenho para lhe oferecer, meu amor. Olho meio que desanimada para minha imagem embaçada e... Opa, há alguma coisa ali que resplandece. Vê? Se não são lágrimas e se não é o reflexo da luz, tenho um novo brilho no olhar. Que bom isso! Sim, porque se os olhos são o espelho da alma, significa que a possuo ainda pulsante. Certo que devo isso a você que, nessas voltas finais, resolveu dar-me mais uma lição. Uma lição de amor. E é sobre o amor que quero e preciso lhe falar.  

O amor sempre foi meu combustível, em consequência, amores tive e muitos nessa vida. Pensava que amava, mas não. O que eu amava era ser amada. Amava ser servida. Amava manipular e fazer joguinhos de sedução. Mas diante da proposta de conviver, pulava fora. Os amores impossíveis para mim eram os melhores. Na minha santa ignorância, achava que o grande amor era aquele que nunca acontecia. Se acontecesse, deixava de ser amor. Insana que era! Precisei de todo esse tempo para finalmente aprender o que é amar de verdade. E tão pouco tempo me resta para por esse aprendizado em prática.

Descobri, pela primeira vez, que tenho vontade de oferecer mais do que receber e me pego com uma vontade imensa de servi-lo. De me fazer bonita e sempre disponível para você. De levar-lhe o café na cama, de preparar-lhe o banho, de massagear seus pés e ombros quando chegar cansado. De silenciar quando é o momento e respeitar seu silêncio se não quiser falar. Nos momentos de crise, ajudá-lo a resolver seus problemas. De não altear a voz quando sei que estou certa. Tenho vontade de enfeitar a casa, espalhando flores e velas perfumadas, de reservar para você o melhor pedaço da torta. De opinar, se precisar, na escolha da camisa que deve usar.  Quero aprender seu esporte favorito para, se quiser, praticá-lo comigo. Não quero medir forças com você, mas caminhar ao seu lado, sempre companheira e cúmplice. Fazê-lo pensar que me protege, ainda que não precise de proteção. Quero você, igualmente, protegido e amparado. Não interrompê-lo mesmo que fale o que considero bobagens. Sorrir de sua falta de jeito ao tentar fechar meu vestido. Tenho vontade de obedecer, mesmo que seu desejo seja fútil. Meu amor, você deve estar pensando que isso é muito natural. Pode ser, mas não para mim. Nunca quis isso na minha vida. Tanto que fiz questão de não aprender a cozinhar, lavar, passar. Servir a um homem? Eu? Eu que, nos anos sessenta, levantei bandeiras feministas, eu que sempre fui dominadora, intolerante e impaciente, que sempre pus meus interesses em primeiro lugar? Eu que costumava dizer: “gosto de você, mas gosto muito mais de mim”? Eu, independente, emocionalmente equilibrada, inteligente, convicta da minha competência, quero agora submeter-me? Pois quero sim, e assim mesmo, numa entrega total e abandonada a esse amor. E para ser honesta, um resquício do antigo egoísmo persiste quando sei que só serei feliz se puder ver a felicidade estampada em sua face. Parece loucura, bem sei, mas não é loucura, é amor. Um amor incondicional, tão verdadeiro e real que me acompanhará até o último giro, que sobreviverá ainda que você deixe de me amar, o que não acredito. Não acredito porque você sabe amar como poucos e me ama de tal maneira que me fez descobrir o significado desse sentimento que aviltei tanto. Você conseguiu despertar em mim a mulher que nem sabia existir. Só agora, depois de tantos giros, descubro minha feminilidade e doçura. Duas qualidades que fazem minha alma pulsar, meu corpo arder e meu olhar brilhar. Duas qualidades que ofereço a você, meu amor, numa bandeja de prata para servi-lo como a um rei que é.

Daqui a alguns dias completo sessenta e nove giros em torno do sol. Tanto e tão pouco! Tanto porque me levaram a juventude. Tão pouco porque parece que foi ontem que eu debutei. Vejo-me agora naquele mesmo salão, naquele mesmo vestido vaporoso, com o mesmo brilho no olhar e a mesma ansiedade na alma, esperando a orquestra tocar. E é com você, meu amor, que quero dançar a primeira valsa.      





sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Soneto do digno fim

(Por Lohan Lage)

D’ uma tão medíocre história
Outro fim não haveria
Sequer restou nostalgia
No cárcere da memória...

Perambulou pela escória
Como gado à revelia
Aprisionado à teimosia
De tua palavra irrisória.

Ser de puro anonimato
Cujo roteiro existente
Figura em seu óbito: infarto

Dado como um indigente
Foi, do coveiro novato,
Primeiro corpo presente.






quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Livro "Margot Adormecida" grátis até 12 de setembro


O meu livro "Margot Adormecida" estará disponível para download gratuito na Amazon até dia 12 de setembro de 2014.

“Margot Adormecida” aborda o complicado processo de passagem da juventude à idade adulta.
David, um rapaz com uma vida regrada e com o futuro traçado, conhece e se apaixona por Margot, uma mulher muitos anos mais velha do que ele e, como ela mesmo se denomina, “um espírito livre”. Com Margot, David descobre o amor, o sexo e expande seus horizontes, mas também descobre o que é sofrer por uma grande paixão.

Inspirado na canção "Maggie May" de Rod Stewart, este é um retrato da juventude que nasceu e cresceu nos anos 80, uma geração sem heróis, sem mitos e sem limites, mas também é um espelho das incertezas e medos da maioria dos adolescentes, angustiada sobre o futuro e oprimida pela cobrança dos pais.

Baixe, leia e deixe o seu comentário.


Link para o livro

http://www.amazon.com.br/Margot-Adormecida-Henry-Alfred-Bugalho-ebook/dp/B00HOI58C6





O Fantasma da Promessa

Henry Alfred Bugalho

Foi uma reportagem do El País que me apresentou a Marina Keegan, uma escritora americana que morreu aos 23 anos. Era considerada uma promessa, "brilhante" segundo seus professores de Escrita Criativa em Yale.

Procurei o livro dela e dei uma folheada. Há um frescor inusitado para alguém que estuda para ser escritora. Tenho lido uma infinidade de contos produzidos nestes cursos, que são quase um pré-requisito para qualquer americano com pretensão a literato; todos se parecem, o mesmo tom, os mesmos temas, a aversão extrema à voz passiva, o uso formulaico de advérbios e adjetivos para evocar "todos os cinco sentidos". Contos longos e tediosos que se prolongam por uma vintena de páginas. Contos para tentarem publicar em The New Yorker ou na Paris Review.

É certo que se pode ensinar a escrever, mas pode-se ensinar alguém a ser escritor?
Tenho as minhas dúvidas.

Corri os olhos pelos contos e crônicas de Keegan, mas não li nenhum integralmente. Interessava-me mais a promessa da escritora que ela não se tornou do que a escritora que de fato ela era. Interessava-me mais a sua breve carreira literária interrompida pela tragédia. Interessava-me o aristotelismo do que poderia ter sido ao invés do que foi.
Pois eu também já fui uma promessa aos vinte e um anos quando escrevi meu primeiro romance e passei a frequentar os círculos literários curitibanos.
Era um rapazola quase concluindo a faculdade embrenhando-me entre os ilustres nomes desconhecidos da Academia Paranaense de Letras, ou com as elegantes senhoras do Centro Paranense Feminino de Cultura. Eu estava lá para ver e ser visto, para ser descoberto, para constatar positiva ou negativamente se havia algum espaço para mim.
No prólogo do meu primeiro livro, a atual presidente da Academia escreveu "o autor, que se prenuncia como uma promessa, trabalha com desenvoltura os múltiplos acontecimentos que afligem homens e mulhres o transcorrer de suas existências", o que me envaidecia e me assustava. Promessa de quê? E como se cumpre uma promessa?

Tive medo. Principalmente, medo de fracassar, de ser uma das várias promessas feitas apenas da boca para fora.
Eu tinha quase a mesma idade de Keegan ao morrer e estava longe de ser um escritor competente. Talvez fosse somente isto, "uma promessa", ou melhor, "o prenúncio de uma promessa", que nem promessa ainda era.
Treze anos se passaram desde então e várias vezes me perguntei: se eu morresse hoje, o que seria da minha obra literária?
É uma indagação tola, reconheço, pois após morrermos não há nada, somente o fim.
O fim das promessas e das realizações, dos sonhos sonhados e dos realizados, do que é e também do que seria.
É triste ser uma promessa, mas é mais triste ser uma eterna promessa.

Até onde ela iria? Quão boa poderia ter se tornado? Qual seria sua obra-prima?
Estas dolorosas perguntas permanecerão para sempre sem resposta.

Publicado originalmente no Blog do Escritor





segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Uma cuia pro compadre Saint-Hilaire



Isso de atribuir nomes às coisas, e a cientificidade que a botânica e a biologia assumiram para si desde o século XVIII de nomear cientificamente tudo o que é vivo, isso teve (tem) um impacto profundo nas demais ciências, em especial nas que pouco tinham de biológicas, que ainda viriam a nascer, as Sociais e as Humanas, mas que adotaram seus métodos. Hoje, a custo e aos poucos, se está livrando dessa herança. 

Pensando assim, meio a esmo nas palavras e nas coisas, (e em As palavras e as coisas, do Foucault) e em como a história dos nomes é relevante para a cultura e a identidade de uma forma que a gente tem pouco conhecimento (e ainda menos controle), acabei chegando, no meu devaneio, ao chimarrão: coisa mais identitária da gauchidade não há.

Que a nossa famosa erva-mate tem o nome científico de Ilex Paraguariensis, isso se aprende desde cedo (e desde que o indivíduo sinta curiosidade de ler o pacote de erva, esse que já está custando quase dez pila). O que até hoje eu não sabia (e acho que pouca gente sabe - isso não está no pacote da erva) é que quem atribuiu essa palavra à coisa erva-mate (que, bem, já tinha nome entre os índios... mas a ciência tem suas regras) foi o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire. 

Saint-Hilaire, em uma de suas incursões para o interior do Brasil (Viagem à comarca de Curitiba, 1820) conheceu a erva, e descreveu todo o processo do cultivo, a origem - que supunha paraguaia, daí o nome - e até algumas questões administrativas e de faturamento das fazendas em que se plantava a erva.

Mas é na viagem ao sul do país (Viagem ao Rio Grande do Sul, 1820-1821) que Saint-Hilaire descreve, numa postura entre observador naturalista e orgulhoso mateador, o hábito de tomar chimarrão, e como se tornou, ele próprio, apreciador do amargo.
Estância de José Correia [próximo a Rio Grande], 22 de setembro de 1820. – Ainda tomei dois mates antes de partir. O uso dessa bebida é geral aqui: toma-se mate no instante em que se acorda e, depois, várias vezes durante o dia. A chaleira cheia de água quente está sempre ao fogo e, logo que um estranho entre na casa, oferecem-lhe mate imediatamente. O nome de mate é propriamente o da pequena cuia onde ele é servido, mas dá-se também à bebida ou à quantidade de líguido contido na cabaça; assim diz-se que se tomaram dois ou três mates, quando se tem esvaziado a cuia duas ou três vezes. Quanto à planta que fornece essa bebida, chamam-na erva-mate ou simplesmente erva. A cuia pode conter cerca de um copo d'água; enche-se de erva até a metade e, por cima, põe-se a água quente. Quando a erva é de boa qualidade, pode-se escaldá-la até dez ou doze vezes, sem renovar a erva. Conhece-se que esta perdeu sua força e que é necessário mudá-la quando, derramando-se-lhe água fervente, não se forma espuma à superfície. Os verdadeiros apreciadores do mate tomam-no sem açúcar, e então se obtém o chamado mate-chimarrão. A primeira vez que provei tal bebida, achei-a muito sem graça, mas cedo me acostumei a ela e, atualmente, tomo vários mates seguidamente com prazer, até mesmo sem açúcar. Acho no mate um ligeiro perfume misturado de amargor, que não é desagradável. Muito se tem elogiado esta bebida; dizem que é diurética, combate dores de cabeça, descansa o viajor de suas fadigas; e, na realidade, é provável que seu sabor amargo a torne estomacal e, por isso, seja talvez necessária numa região onde se come enorme quantidade de carne sem mastigá-la convenientemente. Aqueles que estão acostumados ao mate não podem privar-se dele, sem sofrerem incômodos.(1)



(1) Auguste de Saint-Hilaire
Viagem ao Rio Grande do Sul - 1820-1821 (2002)
trad. Adroaldo Mesquita da Costa
Brasília: Senado Federal, 2002 
Coleção "O Brasil visto por estrangeiros"
p. 131

imagem: 
"Ilex paraguaiensis A. St.-Hil."
Gilg, Ernst; Schumann, Karl 
Das Pflanzenreich Hausschatz des Wissens (1900)


Texto publicado originalmente no blog do V. em 7 set. 2014.





a comunicação das árvores




nada mais parecido com um pinheiro
que um pinheiro

verde busca dourado
raíz procura água
oxigênio de dia
gás carbônico à noite

macho
fêmea

porém não diz pinheiro 










imagem: Gemeine Kiefer; Föhre
Pinus sylvestris

www.BioLib.de

Publicado originalmente em Pragas urbanas renitentes, em 21 ago. 2014





domingo, 7 de setembro de 2014

um poema para uma poeta morta

Reprodução
Conheci uma mulher 
nova
também 
poeta
cronista, escritora
também mulher 
que vivia 
onde eu vivo hoje
mas acabo de conhecê-la
e ela está morta

embora seu perfil, sua coluna
seus sites e os insights neles
não: 
a morte virtual deveria fazer 
parte dos ritos funerários.

tive com a morte
uma intimidade 
semelhante àquela
que ela expressava 
quando viva
e ninguém lia 
ninguém 
lia...
ou parecia se importar
com isso
prefiro acreditar que 
ninguém lia

nem mesmo sua biografia
tão cheia de prêmios e 
os planos esquecidos
no canto de um lugar comum
de escritos que eu ainda frequento
e me assombro
com um fantasma dela 

preso eternamente ali.

e eu li 
eu poderia ter lido antes, confesso 
mão não teria feito 
qualquer diferença.
pois eu li e
não não gostei 
simplesmente
não gostei da poesia dela
e não vou dizer que gosto 
pelo 'simples fato' dela estar morta.
ainda
que pudesse 
ser eu ali.
mas não sou.

há algumas desvantagens em estar morto
uma delas é perder 
[além da vida]
o direito a opinião
e em alguns casos 
opinar parece mais importante
que estar 
vivo.

pelo pouco que li
imagino que ela fosse 
entender tamanha grosseria minha 
disfarçada de sinceridade
patética 
de [falta de] afinidade poética

a verdade 
do que se pensa sobre
a obra 
da vida de um poeta
jamais deveria ser dita
a menos que ela fosse boa 
mesmo
se ele já estiver morto
- ou especialmente 
nessas condições
por respeito

e o respeito muitas vezes
parece ser mais importante que
uma opinião sincera.
e é.

descubro com isso
que não posso partir tão cedo 
pelo simples fato de não ter
ainda escrito 
poemas premiados
poemas aclamados 
poemas muito melhores 
que esse
poema simplesmente 
melhores

que os meus.





Hecatombe

André Foltran

É quase noite na
Rua Pau Brasil.
É quase hora de descer
a musa
— a grande musa
atômica.

Tiro as roupas, tranco

as porta: ela não tarda
a descer, e se me pega
ainda vestido:
— Darling, darling,
ainda escondido nesta
fantasia estúpida?!

Toda noite jogamos

intermináveis partidas
de xadrez, e enquanto
fujo de seu cavalo ou
bispo, ela sussurra:
— Darling, darling,
você me pertence,
per omnia saecula...

Se abro os olhos (depois

da eucaristia)
enquanto ela me beija,
e busco, nos olhos dela,
alguma nesga de piedade,
só encontro sombras
(e aumento um grau
minha miopia)...

— Quando é que acaba
esta guerra? pergunto,
em lágrimas, enquanto
ela me chupa. A musa
atômica sorri (o sorriso
que há de matar-me
antes dos vinte)... 

— Ora, darling, quantas revoluções

cabem num poema? depois me toma
à força... e como zomba, a malvada,
de minha resistência inútil...

Pela manhã mamãe arromba as

portas do meu quarto devastado,
desvira a cama e a escrivaninha,
recoloca os livros na estante e as
minhas partes espalhadas no
tapete,

e me costura, pedaço a pedaço,

fígado aqui, sexo ali, coração
lá... e resmunga:
— É sempre, sempre assim:
toda noite esta hecatombe!





A POESIA DE MARIO FILIPE CAVALCANTI a Oswaldo Goeldi (in memoriam)

ÓLEO SOBRE TELA



|Mario Filipe Cavalcanti



(Para Oswaldo Goeldi)


Minha rua é uma reta vazia
Como uma flecha direcionando ao nada
Onde os gatos siameses e malhados nos olham
Com seus olhos de gatos, por sobre os muros das casas
Nela a solidão do asfalto frio é a mesma do céu da noite
E o grito do silêncio não é rompido
Nem pelos gemidos dos casais no leito
Nem pelo sapato emborrachado do viandante ensimesmado
Nem pelo som estridente das rodas enferrujadas do carrinho de cachorro quente que a sombra do homem curvado empurra
Minha rua é feita de saudades e de abraços esquecidos
Ou mesmo de armas em punhos e mentes assaltadas de algum vazio
Nela o amarelo dos postes é como gemas esquecidas numa frigideira que não mais se esquenta
E a lua vermelha como o sangue que escorreu daquela espinha estourada
Nela um alguém como eu arquiteta o poema ao som dos passos da vizinha do andar de cima
E a luz solitária de seu quarto é como um olho na imensidão escura das ausências

Verdadeiramente colorido, apenas o encarnado do guarda-chuva do homem bem vestido que esqueceu o coração em casa.







ABANDONO - ELEGIA
|Mario Filipe Cavalcanti

Ao som do tema do Prelúdio das Bachianas Brasileiras n. 4 de Villa-Lobos



A pétala partida nas mãos enrubescia seus olhos
As faíscas que o coração lançava poderiam queimá-lo
O vermelho agourento da rosa derramava-se entre seus dedos
E escorria
E escorria lentamente
Como se aquele instante não fosse
A pétala partida
E escorria o líquido vermelho
Em sua mente o tempo dançava com o espaço e se fundiam numa foda até se tornarem nada
E a pétala na mão, a rosa vermelha como o sangue mais encarnado
De seu coração
O líquido escorria
E escorria...
O instante
Vermelhos lábios crispados os crispados lábios vermelhos
Como o fogo de seu cabelo laranja fogo
Como se ela toda viesse do fogo no qual entrara e sucumbira
A pétala vermelha dos cabelos de fogo
E a dor, aquela dor que ele sentia
Suas mãos escorrendo com o líquido vermelho
Como se seus dedos, seus próprios dedos não fossem
Como se nada mais fosse
Como se o relógio no alto da Malakoff devesse
Como se o relógio no alto da Malakoff devesse (ficar parado)
E os olhos dela diziam
E os olhos dela disseram
(o vento em seus cabelos negros)
E em suas mãos o líquido que, suor, escorria
Ela subira ao mais alto das nuvens e se incrustara
Voo vermelho fogo avião caído
O suor vermelho suas mãos escorrendo
Ela
Pétala
Rosa
Suor

Caindo...



*Gravuras: "Abandono" de Oswaldo Goeldi