Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

Revista on-line

Participe da próxima edição da Revista SAMIZDAT

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Poema de Breno para Fernanda, de Camila Ferrazzano






POEMA DE BRENO PARA FERNANDA





a paixão lesionou-me as pernas
tornou ralo os cabelos
fuzilou o amor próprio
escamoteou vocábulos como
não-quero
não-posso
queria-mas-minha-mãe-disse-que-não-será-o-melhor-para-mim
a paixão tem olhos de vidro e dança como mulher
envolve a cintura no meio da cidade de concreto e diz com seu hálito doce que adoraria um café antes de partir.
para onde?
buenos aires.
a paixão soprou gelado nos joelhos e quis gritar de ódio
(muito embora não diga nada, porque na bula de são paulo, escreveu-se;
tu serás indiferente.
tu serás indiferente.
tu não irás até corinthians itaquera. cometas haraquiri mental mas não deixes que saibam)
nessa cidade não se fala na segunda pessoa do singular.
saiu de moda.
nessa cidade não se fala nada além de passa no crédito.
acabou o débito.
nessa cidade não se fala eu gosto de você.
é letal e contempla os caretas.
e aqui
todo mundo
é
muito
maneiro.


 

Do livro Orações subordinadas, Editora Patuá.





terça-feira, 16 de julho de 2019

João e Maria

Fotografia: Lee Jeffries

Eu me acostumei a ver os dois sentados no chão, lado a lado, encostados na parede da padaria. Eu descia do carro apressada, retornando do trabalho, para comprar dois ou três pães, um leite, um queijo. E lá estavam eles, no mesmo lugar, todos os dias, como se tivessem sido posicionados ali para uma dessas fotografias intermináveis de estúdio que repetem e repetem uma mesma pose, à exaustão. Ou para uma pintura. Óleo sobre tela. Indigência sobre tela.
João e Maria. A princípio pensei que eram apenas apelidos. Esse jeito leviano de inventarmos nomes comuns para os que queremos manter à distância ou para os que não nos importam de verdade. Mas depois fiquei sabendo que esses eram, realmente, seus nomes. João Eustáquio dos Santos, um seu criado, ele se apresentou a mim num fim de tarde, enquanto me ajudava a colocar no carro a compra feita no varejão da esquina. O senhor aceita que eu lhe compre uns pães e leite?, perguntei sem jeito, pensando se não seria melhor dar algum dinheiro (o velho hábito cristão da caridade medida em bens ou moedas). Ele riu e aceitou os pães e o leite. Agradeceu. Eu entrei na padaria para a compra. Ele me esperou do lado de fora, único lugar considerado adequado aos pobres pelos donos de comércio. Conversamos. Ele me contou que nem sempre morou na rua. Que teve família e casa e uma mulher que tinha morrido daquela doença ruim e cinco filhos que estavam pelo mundo e netos que ele só viu bem pequenos. Estudou um pouco. Mas não gostava das letrinhas miúdas. Números, ah!, isso sim. A sua vocação. Foi motorista. Fichado. Despedido do emprego já quase com 50 anos. Virou camelô. Vendia guarda-chuva, brinquedo, batom. De um tudo, ele afirmou orgulhoso. Mas ficou doente e perdeu o ponto. Eu sou doente das juntas, me contou.  Mancava muito, joelhos tomados pelo reumatismo. As mãos doíam. Doía tudo. Sem conseguir correr, não tinha como fugir do rapa. Os homens chegavam e quebravam tudo com o cassetete. E ele não tinha como repor a mercadoria, diz com os olhos perdidos em uma memória de dor. Perdeu a casa por causa das prestações atrasadas. Não tinha parentes: a mulher já havia morrido, os filhos estavam esparramados pelo mundo afora. Ninguém o acolheu. Foi parar na rua. E começou a beber. Bebeu de cair, de vomitar e de se urinar dormindo. Até conhecer a Maria. 
A conversa acabou. Ele pediu desculpas porque falava demais. Eu gosto muito de conversar, mas a Maria não gosta, disse apontando o queixo para a companheira. Maria Aparecida da Silva, a Maria Muda, como era conhecida pelos comerciantes e lavadores de carro. Trazia nos olhos as palavras que faltavam à boca. 
Com o tempo, descobri que aquela cena se repetia muitas vezes ao longo do dia. João ajudava as pessoas em troca de algum dinheiro ou comida, e de muita conversa. O casal dormia embaixo de uma marquise e sobrevivia de caridade: roupas, cobertas, alimentos e alguns trocados — realidade que faz tempo se banalizou e se tornou invisível para os nossos sentidos cotidianos. 
Tinham, pela aparência, uns 75 anos. Mas as ruas costumam vincar mais cedo as peles. De qualquer maneira, eram idosos. De qualquer maneira, dormiam em cima de um papelão gasto e fino. De qualquer maneira tinham que pedir, que implorar, essa brutalização da dignidade que aos poucos vai quebrando o indivíduo. Comer. Beber. Morar. Coisas simples que não deveriam depender de favores. Não, não deveriam.
Mas hoje não é a barbárie da indiferença social que me preocupa. É alguma coisa mais evidente, mais urgente. Uma falta. Uma ausência. Hoje, não tem João. Nem Maria. 
Tem tragédia. 
Dois bêbados brigaram por causa de um cobertor que algum morador das redondezas deixou para eles. Um deles puxou uma faca. João tentou impedir. E virou alvo da faca embriagada que buscava qualquer corpo. Várias vezes. Maria, desesperada, pulou sobre o agressor. E foi a sua vez de sentir nas carnes magras a lâmina cega e suja do sangue do companheiro. 
Agonizaram um sobre o outro. Sem ambulância. Sem hospital. Sem palavra. Apenas uns panos colocados sobre as feridas por alguém que correu para tentar ajudar. E umas lágrimas desse alguém que os enxergou pelo menos na morte. Mães tampando o rosto dos filhos. Idosas passando mal. Curiosos filmando os mortos. Comerciantes praguejando contra a falta de policiamento nas ruas, para impedir a aproximação “dessa gente” que só arruma confusão. 
Um dia como outro qualquer. Como hoje. Em que a ausência dos dois já faz parte da rotina da rua. Caminhões descarregando mercadorias. Carros parados em fila dupla na porta das lojas, do varejão, da padaria. Carrinhos de bebê circulando nas calçadas que ligam os prédios ao parquinho. Lavadores de carro preocupados em não perder o ponto. Cachorros passeando em coleiras incômodas, farejando o sangue mal lavado no chão de concreto. E eu. Leite e pão na sacola ecológica que me descreve como pessoa evoluída.
O pensamento está em João e  Maria. Na estupidez da vida. Na rapidez da morte. Na crueldade da miséria. Que irmana assassinos e vítimas num mesmo script perverso.
Olho para o chão vazio onde os dois dormiam e me pergunto se eu poderia ter feito alguma coisa. Talvez. E me agarro a esse talvez com a complacência dos que sempre fogem. Entro no carro apressada. Pensando na briga que acabou matando os dois. Uma briga que nem era deles.
Não sei quem ficou com o cobertor.





sábado, 29 de junho de 2019

Elogio do Amaranto


“mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou o joio no meio do trigo e retirou-se” Mateus 13: 24


            Vá um pesquisador estrangeiro buscar informações sobre o Mato Grosso do Sul na Internet e logo descobrirá que a área desse estado é maior que a Alemanha inteira, que foi desmembrado do Mato Grosso no dia 11 de outubro de 1977 e elevado à categoria de estado em 1º de janeiro de 1979. Isso depois de ter tentado emancipar-se de Mato Grosso durante a Revolução Constitucionalista de 1932, quando, entre julho e outubro, seus próceres criaram o efêmero estado de Maracaju. Caso ele queira ler as páginas dedicadas à Economia nos grandes jornais do país e nas revistas especializadas, aprenderá que o estado é um grande produtor de soja, e que essa produção é uma grande fonte de divisas para o nosso país, toneladas e toneladas que fazem grande diferença no equilíbrio e no saldo positivo da balança comercial brasileira. Mas se o tal pesquisador buscasse ouvir Gabriel Kaiowá, obteria dele informações nada ufanistas.
            Gabriel Kaiowá mora na comunidade do Pequizeiro que, há alguns anos atrás, era chamada de favela – quase nada mudou além do nome, porque ficou decidido que “favela” é um termo que pode ofender a autoestima dos moradores da área assim designada, e, logo, tantos os estudiosos das universidades quanto os jornalistas e os governantes aboliram o termo e o substituíram pela expressão “comunidade”, esquecendo-se que “comunidade” serve para designar também o conjunto de moradores de uma área nobre ou os praticantes de uma mesma fé que semanalmente se reúnem no mesmo templo. É essa, aliás, a grande utilidade dos eufemismos: disfarçar o que não queremos admitir, pois a chegada de uma nova designação para a área não veio acompanhada de água encanada, rede de esgoto, creches, postos de saúde, escolas, coleta de lixo e tantas outras intervenções do poder público necessárias à qualidade de vida de seus habitantes. A preocupação do Estado com a autoestima dos moradores do Pequizeiro não foi além da inauguração de um eufemismo.
            Mas, voltando a Gabriel Kaiowá, ele diria ao pesquisador que, onde hoje é a comunidade, que ninguém pode mais chamar de favela porque o Leviatã já permite ações por danos morais contra quem assim o fizer, havia uma aldeia habitada pela nação Guarani-Kaiowá, povo esse que tinha o pequi, fruta típica do Cerrado, como a base da sua alimentação. Contou-lhe seu avô, o pajé, que mora no mesmo barraco que ele, que, quando uma criança nascia, seu pai e seus avós plantavam cinquenta sementes de pequi, que cresceriam para se tornar árvores e garantir o sustento do recém-nascido. Ele mesmo plantara centenas de pequizeiros para sustentar os seus filhos, mas já não havia onde plantar quando nasceram Gabriel e seus outros netos, pois o homem branco já tinha se apossado das terras da tribo. As árvores plantadas em honra ao nascimento do pajé ainda estariam vivas e frutificando se o homem branco não as tivesse cortado para plantar soja para exportação. E se tivesse restado ao seu pai terras para plantar pequis para sustentar a ele e aos seus irmãos, Gabriel não teria que trabalhar tanto.
            O ano que passara fora bom para Gabriel, pois com o pouco de plantas nativas que ainda se encontram junto aos barracos da comunidade, conseguira produzir colares de sementes para vender aos peregrinos que, a caminho do Rio de Janeiro, para prestigiar a visita do recém-eleito papa Francisco, passavam pela cidade: não só gente do Paraguai e da Bolívia, mas até canadenses e japoneses em romaria se encantavam com seu artesanato. Na época da Jornada Mundial da Juventude – esse era o nome do evento do papa –, conseguira trabalhar menos, descansar e estudar mais e assim terminara com louvor o Ensino Médio.
            Depois da visita do papa, quando se foram os últimos peregrinos, voltara à rotina: acordar cedo para ir a pé até a escola, almoçar lá – não comer em casa é uma grande economia para a família – e procurar como arranjar dinheiro: engraxava sapatos, catava latinhas, vendia colares, pintava paredes, fazia todo tipo de trabalho braçal que encontrasse na cidade e, ao anoitecer, andava de volta até a comunidade. Foi nessa época que despontou seu carisma de líder: conseguiu persuadir quantos trabalhavam na comunidade para contribuírem para um fundo comum a fim de que se cavasse um poço artesiano para terem mais fácil acesso à agua. Depois, ensinou às mulheres a colocarem toda a água de que precisariam no dia seguinte em garrafas PET em cima de lonas pretas ao Sol: deixando assim o dia inteiro, o calor fazia a água ferver e matar quantas bactérias nocivas ali houvesse.
            No ano de 2014, ano eleitoral, Gabriel conseguiu um outro subemprego: cabo eleitoral. Passava todo o dia panfletando a candidatura de Naamã Felício a deputado federal e à noite dizia à comunidade para não votar em nenhum dos candidatos que pagavam aos jovens por seus serviços: os nababos que os assalariavam eram os mesmos que ocupavam as terras que antes tinham sido da tribo. Naamã prometia aos jovens que de tudo faria para gerar empregos na região e integrá-los ao mercado de trabalho, mas ele mesmo não fora prefeito sem nada fazer em prol dos indígenas? E se não houvesse tantos jovens desempregados, como exército de reserva, onde ele conseguiria quem aceitasse dinheiro para divulgar sua candidatura? Não, as ótimas notas de Gabriel nas aulas de Sociologia não lhe permitiam acreditar em Naamã ou em qualquer outro fazendeiro. As lembranças dessas aulas sempre o desafiavam a encontrar uma maneira de enfrentá-los, conjuntamente com os jovens da tribo. Mas, como, diante dos armamentos dos fazendeiros? – perguntava ele aos colegas, e as discussões terminavam com a turma cantando “Koangagua”, dos rappers indígenas da banda Brô MC’s, unânime referência na preservação da língua ancestral.
            A resposta para suas indagações veio uma tarde, quando ele e seus ex-colegas de escola, desempregados, conversavam na entrada da comunidade: um “gato” – capataz de fazendeiros, encarregado de procurar mão de obra barata para serviços esporádicos – propôs levá-los à fazenda de Naamã. O riquíssimo deputado, que valia-se de máquinas para semear e colher a soja em suas fazendas, gerando pouquíssimos empregos, agora precisava de muitas mãos para que adentrassem nas plantações e arrancassem, um a um, os pés de amaranto que ameaçavam a lavoura. O dinheiro oferecido era pouco mas a necessidade era maior, e assim Gabriel e os outros garotos da tribo aceitaram a oferta. O “gato” viria buscá-los num caminhão quando o Sol nascesse.
            A caminho da fazenda, Gabriel combinava com os amigos, em língua guarani:
 – Ouvi no rádio uma reportagem sobre essa planta invasora. Os fazendeiros creem que as primeiras sementes tenham chegado ao Brasil em máquinas de segunda mão que alguém comprou dos Estados Unidos. Essa planta é forte e resiste aos venenos que os fazendeiros usam contra outras plantas indesejáveis. No Tennessee, houve casos de fazendeiros que perderam toda a safra de soja porque a planta se alastrou, cresceu mais que os pés de soja e sugou a água e os nutrientes necessários à lavoura. Por isso, eles estão com medo que ela se espalhe pelo Brasil. Então, nós vamos lá arrancar essas plantas como eles mandaram, mas vamos esconder sementes delas nos nossos bolsos. E deixar cair algumas delas pelo caminho.
 – Por quê, Gabriel?
 – Josué, você lembra quando o professor de Sociologia exibia para a gente os filmes de Charles Chaplin?
 – Sim, a gente ria muito.
 – Lembra do filme “O Garoto”? Carlitos resolveu cuidar de um menino órfão. E para terem o que comer, o garoto jogava pedras nas vidraças e Carlitos chegava depois com os vidros para substituí-las. Do mesmo modo, não podemos deixar que o amaranto seja eliminado. Enquanto houver amaranto, eles terão que contratar gente para arrancá-lo das plantações, pois seus tratores e colheitadeiras não podem fazer isso sem destruir a soja. Enquanto houver amaranto, teremos trabalho a fazer.
De volta do trabalho, de posse das subversivas sementes, Gabriel decidiu que, no dia seguinte, iria à cidade pesquisar sobre a planta invasora. Todos os jovens passaram o dia esperando as novidades que ele lhes traria.
Ao cair da noite, Gabriel voltou e lhe deu as esperadas notícias:
 – Alvíssaras! O amaranto não é uma planta nociva nem venenosa. Aliás, é um alimento nutritivo. Era a base da alimentação dos incas. É como o caruru, aquela planta que os nordestinos usam na salada. Mas o agronegócio é burro demais para pensar nisso. Vamos plantar essas sementes junto aos nossos barracos, em nossa comunidade, e vamos usar suas folhas e seus grãos na nossa alimentação. E, de vez em quando, jogaremos sementes nas estradas, no pouco de mata que ainda resta. Nós não podemos invadir as fazendas para tomar de volta as terras que os fazendeiros roubaram do nosso povo, porque eles nos matariam com suas armas ou nos jogariam na cadeia. Mas onde nós não podemos entrar, o vento pode. Não há matador algum que atire no vento nem policial algum espancará as tempestades. O vento será nosso vingador. Quando o amaranto expulsar os fazendeiros daqui, entraremos lá e nos apossaremos das terras onde viveram nossos antepassados e novamente faremos grandes aldeias, e plantaremos cinquenta pequizeiros para cada criança que nascer.

(15 e 16 de janeiro de 2017)





terça-feira, 25 de junho de 2019

Na Praia do Osso da Baleia



Naquela altura, praticávamos geocaching, para tornar o exercício ciclista mais motivador. Ir à procura das caixinhas escondidas em locais aprazíveis, ou só curiosos, através da sua localização GPS, obrigava-nos a pedalar para chegar aos locais indicados no respetivo site da Internet, mas sem a carga de exercício físico obrigatório que o andar de bicicleta tinha tido até então. Isto, porque pedalávamos, quase diariamente, uma dezena de quilómetros, não tanto pelo gosto, mas para manter alguma forma física, aconselhável a um casal sexagenário.
Naqueles dias de férias, a nossa base era a Praia de Vieira de Leiria, uma localidade muito animada, em época de veraneio, mas que naquele meado de um setembro invulgarmente nebuloso, mesmo para aquelas paragens litorais, perdera parte do bulício habitual. No primeiro dia, fomos à procura de uma cache escondida junto ao parque de campismo da Praia de Pedrogão. Era um pequeno tupperware com um boneco pokemon e um caderninho minúsculo — coisa de miúdos. Assinámos: “Rolling biker 56” — o meu nickname — e “Fiftie Agnes” — o da minha companheira Inês.
No dia seguinte, fomos para sul, para encontrar, junto ao farol de São Pedro de Moel, num buraco da falésia em que pescadores amadores se empoleiram para lançar as linhas ao mar, uma caixa de VHS com três florinhas secas e um pequeno texto: «Este farol chamado “do Penedo da Saudade” foi construído no promontório onde, segundo a lenda, a duquesa D. Juliana Máxima de Faro, dona destas terras, vinha, através destas flores chamadas “Saudades” e que só aqui crescem, relembrar o marido, mandado executar pelo rei D. João IV, no século XVII.» Assinámos também o registo, conforme a norma.
No terceiro dia, rumámos a norte, para a zona da Lagoa da Ervedeira — zona bonita e ainda arborizada, felizmente poupada aos grandes incêndios de 2017. Não foi fácil encontrar a cache escondida num pinhal, uns quilómetros depois. Até aonde a vista alcançava, a paisagem, que acompanhava a ondulação arenosa do solo, era um mar lúgubre de pinheiros queimados, com os seus braços negros e nus pedindo clemência. Com eles, ardeu, provavelmente, a caixinha que procurávamos. Decidimos que só podia ser um resíduo plástico calcinado que encontrámos no local que as coordenadas GPS indicavam, junto a um tronco queimado. Como passava pouco das três da tarde, resolvemos continuar para uma cache escondida na Praia do Osso da Baleia, a uns doze quilómetros, segundo indicava o GPS.
Pedalar com um objetivo definido é bem mais fácil do que fazê-lo para cumprir um número de quilómetros definido. Como, além disso, as autarquias dotaram toda aquela zona costeira de ciclovias ao longo das estradas principais, o nosso exercício podia ser um passeio aprazível, apesar do céu nublado; infelizmente, o aspeto desolador da paisagem acabrunhava-nos. Os pinheiros, já de si retorcidos por ação dos ventos marítimos, assim reduzidos a troncos negros sugeriam formas espectrais inquietantes. Pedalávamos calados, de olhos no ecrã de GPS, lançando olhares apreensivos à multidão tétrica e torturada que nos envolvia.
Entretanto, lembrámo-nos do crime horrendo que aconteceu naquela mesma praia há uns trinta anos, em que um tipo, aparentemente normal e integrado, matou a mulher, a filha e mais cinco amigos com quem estava a confraternizar na praia. O que fará alguém enlouquecer de um momento para o outro? Que transtorno mental invadirá o cérebro de uma pessoa e a fará não reconhecer os seus próximos, ou, reconhecendo-os, odiá-los ao ponto de os matar à machadada? Ainda que incomodados com a evocação, decidimos que não havia, atualmente, nenhum motivo para evitar aquela praia e falhar o nosso objetivo.
A Praia do Osso da Baleia não tem uma povoação associada, não tem um restaurante nem um bar, nada. Pelos vistos, não passa daquela enorme extensão de areia, na altura, nevoenta, apoiada por um pequeno parque de estacionamento, então, deserto. O GPS fez-nos subir a duna baixa que nos separava da praia e caminhar uns trezentos metros para sul, mas nada havia ali, além de areia, naquela base de duna a cem metros da água. No entanto, o localizador por satélite era claro: «Chegou ao seu destino!».
Depois de uma inspeção mais atenta, descobri uma pequena ponta negra a emergir da areia. Ali comecei a escavar com o canivete suíço, que anda sempre comigo. Não tardou que embatesse em algo rígido, que retiniu. Parecia um antigo frasco de compota ou de azeitonas e estava enterrado no que poderiam ter sido os restos de uma fogueira. Olhámo-nos sem dizer nada, a apreensão no olhar.
O interior era visível e mostrava apenas o que parecia uma pequena placa óssea. Abrimos o frasco e percebemos que a placa estava esgrafitada. Consegui ler: «Nós que aqui estamos», de um lado e «por vós esperamos», do outro.
O choque destas palavras tão simples, mas tão simbólicas, que aparecem escritas em cemitérios e “alminhas” um pouco por todo o país, foi brutal. Naquele momento, por coincidência, correu uma brisa fria e pareceu-nos que o nevoeiro se adensou. A Inês recuou dois ou três passos, o olhar em pânico. Eu larguei aqueles objetos, como se queimassem, a tentar racionalizar. «Que raio! Quem teria feito uma maldade destas? Brincadeira estúpida!»
— Quero ir-me embora — articulou, por fim, Inês.
— Estúpidos! — resmunguei eu, enquanto pegava no braço dela e nos encaminhávamos para a estrada.
Na parte norte da praia, avistámos a vaga imagem de um grupo de seis ou sete pessoas, que pareciam sentadas e reunidas em círculo, talvez à volta do início de uma fogueira. Não as tínhamos visto ao chegar, mas aquela visão de normalidade reconfortou-nos. Ver membros da nossa espécie num local inóspito transmite-nos um sentimento de segurança, de solidariedade potencial. Passou-me pela cabeça, momentaneamente, a ideia de nos aquecermos um pouco, antes de partirmos, porque a temperatura tinha caído fortemente. Uns metros andados, pareceu-nos que olhavam para nós. Para quebrar o desconforto, acenei-lhes. Não responderam.
— Quero-me ir embora! — acentuou Inês.
— Tem calma!; está tudo bem — tentei eu sossegá-la, mas pouco convencido.
Nesse momento, levantaram-se dois ou três vultos e começaram a dirigir-se para nós.
— Calma! Não dês a entender que tens medo — disse eu, para travar a minha parceira que apressara muito o passo.
Entretanto, calculava distâncias, apesar do nevoeiro cada vez mais cerrado. Nós estaríamos a duzentos metros da passagem da duna, mais cinquenta até às bicicletas. Eles estariam a uns trezentos metros da passagem da duna. Com passo ligeiro chegaríamos antes deles, sem problema. Além disso, não tínhamos razões para temer ameaças vindas daquelas silhuetas, embora escuras. Era só uma questão de prudência. O homem pode ser a salvação de outro homem, mas também pode ser a sua perdição. E, em locais ermos, uma pequena diferença de força ou de número pode transformar os homens em predadores brutais. Impregnados de “selva”.
Nessa altura, levantou-se vento vindo de norte. Empurrava-os a eles e travava-nos a nós. Procurei conter o pânico, mas Inês já tentava correr, sem grande êxito. Chegámos à passagem, quando os três desconhecidos, com os outros mais atrás, já pareciam demasiado próximos, mas sem conseguirmos distinguir-lhes as feições. Então, já gesticulavam e gritavam. Ou assim parecia, por causa do vento.
Corremos para as bicicletas e arrancámos, desvairados, Inês à frente e eu, sem olhar para trás, concentrado na pedalada. Durante aqueles metros iniciais de inércia da bicicleta, ouvi distintamente as pancadas dos pés deles, em corrida, mesmo atrás de mim.
— Acelera, Inês — gritei, apavorado. — Se me apanharem, foge tu!
Eu sabia que lhe apetecia gritar e chorar, mas aguentou uma pedalada vigorosa, durante centenas de metros, demonstrando um sangue-frio notável. Aos poucos, para minha grande surpresa, as passadas pesadas dos nossos perseguidores deixaram de se notar. Ouvia-se só o som soprado do vento nos troncos calcinados, a abafar o ruído rastejante dos pneus no asfalto vermelho. Olhei, enfim, para trás, mas só discerni o trilho deserto da ciclovia. Talvez uma hora depois, estávamos no quarto do hotel.
Raramente voltámos a falar daquele anoitecer na Praia do Osso da Baleia. Não sabemos o que vimos ou o que pensámos que vimos. Não faço ideia do que veria, mas tenho para mim, que, se naqueles momentos iniciais da fuga me tivesse distraído um momento a olhar para trás, não estaria aqui para contar.

Joaquim Bispo

*
Por seleção em concurso literário, este conto integra (páginas 112 a 114) a coletânea MIRAGE — Miscelânea de Narrativas Irreais, do projeto “Delírios” do coletivo editor Coverge, Curitiba, Brasil:


*
Imagem: Iberê Camargo, Ciclistas, 1989.
Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, Brasil.

* * *






quinta-feira, 20 de junho de 2019

AMIGOS INVISÍVEIS

Marcelinho tinha dois amigos invisíveis.
Conversava com eles pela casa, reconhecia
os meninos atravessando a rua e acenava para o nada.
Brincava com eles na escola, não dormia sem antes
dar “boa noite” ao dois. Coisa de filho único.
Um se chamava Batuta. O outro se chamava Cagão.
- Meu filho, esse amigo é muito feio. Só o Batuta 
pode entrar aqui em casa. 
Mãe, pai, avôs, avós, padrinho, madrinha, tias solteironas,
todos zelosos pela educação de Marcelinho, estavam cada
vez mais preocupados.
- Esse menino está vendo coisas.
- Chama Dona Odete, aquela vizinha rezadeira.
- Vai ver que está chamando irmãozinho.
- Cala a boca, papai.
Mas preferiram convocar para uma reunião o Dr. Valdetaro,
o médico da família.
- Marcelinho está com um comportamento horrível, Doutor. 
Diz que tem dois amiguinhos que vivem entre nós. 
Um dos amiguinhos nem podemos declinar o nome.
Chegaram a uma conclusão.
Adotaram um cachorro. E antes que Marcelinho abrisse a boca,
deram o nome de Batuta ao animal.
Semana seguinte, Batuta teve uma diarreia canina.
Saltitante, sujou os sofás, as poltronas, as almofadas
das cadeiras, as colchas, as barras das cortinas,
o persa da sala de jantar. De tanto pular e abanar o rabo,
respingou o que pode nas paredes. Deixou um rastro no corredor.
Salpicou de marrom o retrato pintado a óleo da falecida bisavó
Evangelina, matriarca da família.
Marcelinho tentou consolar a mãe, que soluçava:
- Eu sabia, mamãe. Ele não era o Batuta.





segunda-feira, 17 de junho de 2019

Traços das pessoas












         Olhava para ela e via sua irmã, seus irmãos, seus pais. Os traços eram parecidos, o cabelo era escuro, o ângulo de suas colunas. Quando estava em companhia de sua família entendia a cor dos cabelos, as linhas de expressão e a posição de seus corpos perante as pessoas. Eu era um recém-agregado que apenas observava. Esses traços são as memórias dessas pessoas que conviveram comigo, naquelas tardes de domingo comendo pão de queijo, tomando refrigerante.

















domingo, 16 de junho de 2019

12h28

Ela está lá. Sentada. Esfinge deformada. As moscas pousando em cada ruga, em cada gota de suor, nos cabelos sujos de barro. Olhos baixos. Fixos num ponto exato daquele esparrame de lama. O vestido estampado de todos os dias. Grudado no corpo pela chuva fina que recomeçou, que recomeça toda hora. Sem trégua. Tanto faz. Ela não sabe mais nada dessas coisas de sol de chuva de fome de sono. Ela não dorme. Não precisa. Ela só quer ficar ali, perto daquele chão que também é teto. Para entender. Entender por que o peito doeu muito e o ar faltou. Naquele dia. Prenúncio. Foi o que lhe disseram.
Às 10h20, havia mais que pontadas. Ela podia ter calado a boca. Podia ter aguentado. Mas a náusea e a dor de cabeça não eram bons sinais. Palavras da tia ao telefone. Quando o carro velho do primo encostou na porta de casa, ela entrou, aliviada. 10h45, dizia o relógio da cozinha. Ainda. Os meninos na escola. Dava tempo de ir ao hospital e voltar. Para servir o almoço. Para recolher as mochilas largadas na grama do jardim acanhado plantado a pedido dela. Para servir o prato de Sebastião. Para enxergar nos olhos dele as promessas que seriam cumpridas mais à noite.
O relógio do hospital marcando 11h47. E um único médico. Ocupado. A pressão alta brincando de desobediência com os primeiros socorros. E de repente o nome dela. Chamado pela voz sem nuança de uma enfermeira com pressa. 11h51: o doutor ouvindo o que ela dizia, o que o peito dela dizia, o que o aparelho de pressão dizia. Ambos bem longe dali. Ele, em algum lugar lá fora. Algum lugar que raptava seus olhos castanhos. Ela, em casa, lavando a louça do almoço, ralhando com os filhos, limpando, passando, guardando roupa, sendo feliz quase de madrugada, depois que os meninos dormiam e Sebastião entrava nela, as coxas quentes e fortes se entrelaçando com as dela, retesadas. Às 12h15, o diagnóstico anotado na ficha: Crise hipertensiva.  Nem foi uma angina. Nem foi uma isquemia. Só um pique de pressão. Associado ao nervoso. Associado ao medo de estar tendo um enfarte. Palavras do doutor. O último remédio engolido às 12h27. Uns segundos depois de ler no celular a mensagem de Sebastião:

Que bom que não é nada sério, mulher. Eu não vou até aí porque preciso dar o almoço dos meninos. Pode deixar que eu cuido deles até você voltar. Não se preocupe. Se eu me atrasar, compenso no turno de amanhã. Se cuida. 

12h58. Mais nada. 
Caminho. Casa. Paredes. Teto. Muro. Horta. Cachorros. Filhos. Sebastião.
Mais nada. 
Tudo engolido pela lama quente e grossa. Sepulcro maldito. 
Ela está lá. Sentada. Em cima do vômito podre da terra. Abaixo dela a casa-caixão que se recusa a devolver as fotos de família, a bola, as bicicletas, o fogão, a cama de casal acostumada a ranger de amor todas as noites. 
Gentes, bichos, lembranças. Destroçados. Afetos transmudados em rejeitos. Restos. Ossos misturados aos pedaços de minério que a lama entregou de volta à natureza. Almas soterrados em ganância e indiferença.
Ela está lá. Sentada. Sem vida. Sem morte. Sem ressurreição. Guardiã do nada. Asfixiada pelo barro enlouquecedor da saudade.





sábado, 25 de maio de 2019

Cioccolato



Este relato começa quase no final da volta que Roberto Gama costuma dar pelo hipermercado local, ao fim da tarde, arrastando o cesto de plástico com rodas que vai fazendo o troc-troc típico no piso de mosaicos. A certo momento, conferiu o que já levava: uma piza pré-cozinhada em forno de lenha, um frasco de azeitonas, leite, tostas, nêsperas... Para esse dia, chegava, mas, antes de se dirigir às caixas de pagamento, era altura de passar pelos corredores onde gostava de se apropriar de algum bem facilmente escamoteável: uma embalagem de fatias de presunto; uma caixa de preservativos; uma escova de dentes — tudo mercadorias achatadas e leves. Desta vez, escolheu um chocolate de leite de uma marca conhecida e, com a destreza do hábito, meteu-o por dentro da camisa previamente forrada de papel de alumínio, por causa da deteção eletrónica.
Como se percebe, esta prática a que ele chamava “taxa de cliente frequente” era mais um jogo lúdico e rebelde que lhe vinha da adolescência do que uma manha de falsário. Agradava-lhe uma certa tensão que sempre experimentava e gostava de pensar que introduzia uma minúscula, mas real, reposição de justiça de tipo “Robin Hood” nas relações comerciais que os magnatas das mercearias impõem ao grande público. Mas sempre sem exagerar, não se desse o caso de ser apanhado. Dirigia-se já para as caixas, quando deu de caras com uma antiga namorada no corredor das conservas.
Roby! Que surpresa! — quase gritou ela, ao vê-lo. — Moras por aqui?
Olá! Há quanto tempo! — exteriorizou também Roberto, em luta mental para se lembrar do nome da amiga. — Moro ali na Arroja. E tu?
Moro em Loures. Vim à Loja do Cidadão e acabei por entrar aqui no Super.
Que interessante! Não nos vemos desde quando?
Eu sei lá… Para aí há dez anos. Eu devia ter uns vinte e cinco! Casaste?
Não; e tu? Na altura foste atrás dum tipo mais velho…
Não, não correu bem. Continuo solteirinha e boa rapariga… Nem sempre por opção… — riu-se com a graça da queixa.
Nesse momento, Roberto lembrou-se da tablete de chocolate. Desconfiou que tinha amolecido. Era natural; havia já um bocado que estava próxima do calor do corpo. Ainda mais agora…
Olha, eu preciso de ir à casa de banho. Ainda vais fazer mais compras?
Não, só levo aqui uma lasanha, para logo; e achei barata esta garrafa de vodka.
A passagem pela caixa não foi tão rápida como convinha a Roberto. A dupla tensão fez os seus estragos — começou a sentir nitidamente uma massa pastosa a escorrer-lhe pelo umbigo.
Depois de saírem, o problema já não parecia tão grave; só um pouco constrangedor. Prosseguiram a conversa pelos corredores do centro comercial, em direção ao parque de estacionamento.
Roby; quem havia de dizer que te encontrava aqui! Lembras-te que nos conhecemos também num centro comercial? E tu não eras de modas… convidaste-me logo para ir ao teu quarto.
Bons tempos! As paródias que a gente fazia…
Tu eras muito maluco! Daquela vez que querias no elevador!
Do elevador não me lembro; mas quando fomos apanhados no provador da Zara? — Roberto riu-se com gosto, relembrando o episódio. «Tinham sido tempos realmente desvairados. Como é que ela se chamava?»
Ela também se riu, comprazida com as recordações. Praticamente, saltitava ao seu lado. Para ele, estas lembranças estavam a piorar sensivelmente a situação. Fechou um pouco o riso quando sentiu que a pasta de chocolate estava cada vez mais fluida e vencera a resistência do cinto na cintura. A invasão das zonas íntimas não era completamente desagradável, mas não era o momento... De qualquer modo, tinha de se livrar rapidamente da companhia, para poder compor-se. «Mas, com esta conversa, não é o momento...»
E as experiências que tu inventavas… Uma vez arranjaste ovos cozidos… Outra, chantili… Lambuzámos o lençol todo. “Ganda” bodeguice!
Olha se tivesse sido chocolate!
Hum! Cioccolato! — o trejeito de deleite indicava que a sonoridade da língua italiana lhe trazia boas emoções. Sou doida por cioccolato. Era o que devias ter arranjado... Até o lambia...
Sabe-se que os mais brilhantes homens perdem parte da capacidade racional quando as funções cerebrais responsáveis pelo pensamento lógico são atordoadas pelas emoções. De um momento para o outro, Roberto deixou de se preocupar com a tablete liquefeita que descia pelo seu corpo e vislumbrou uma promessa de resto de dia como antigamente. E, antes que o córtex pré-frontal retomasse o comando, saiu-lhe da boca o convite:
Lá em casa tenho cioccolato
Maroto! E é bom o teu cioccolato? — perguntou ela, em tom insinuante.
Do melhor. Suíço! — abriu-se Roberto em sorriso. — Vou só ali à casa de banho.
Aproximavam-se das casas de banho e da escada rolante para o estacionamento, quando a jovem reparou que as pessoas se viravam à passagem deles. Viu então que Roberto tinha os sapatos manchados e ia deixando um rasto de pingos castanhos. Estacou e encarou-o, em pedido mudo de explicações.
É chocolate! — respondeu ele, confrangido, mas o esgar no rosto dela afastando-se indicava que não tinha sido convincente.
Olha! Olha! Amiga! Eu posso explicar — lançou ainda Roberto, ignorando os olhares de censura que o cercavam.
Regina! — respondeu a rapariga, virando o rosto sem abrandar o passo.

Joaquim Bispo

*
Por seleção em concurso literário, este conto integra a antologia “Doçaria Cristal” — páginas 48 a 50 — da Editora Jogo de Palavras:

*

Imagem: Mel Ramos, Virnaburger, 1965.
Museu Coleção Berardo, Lisboa.
* * *






domingo, 19 de maio de 2019

Triz

Gosto muito da palavra triz. Pela forma gostosa de pronunciar.
Trisss para a turma de São Paulo e Gerais, triezz para gauchada
e trish para cariocada. Não me ocorre como seja em outras regiões
do Brasil. Mas não importa como se diz, mas porque se diz.

A origem é discutível, mas fico com a tese de que ela vem do grego thriks,
que significa fio de cabelo. Faz todo sentido, quando precedida pela
preposição Por e pelo artigo indefinido Um. Pronto. Por um triz.
Por um fio de cabelo uma coisa deixa de acontecer ou acontece.
Metáfora perfeita, pois não há limite mais frágil do que aquele
determinado por um instante capilar.

Outro ponto que me encanta é que quando as pessoas expressam um
autêntico, oportuno e legítimo Por um triz, elas discreta ou indiscretamente
arregalam os olhos e dão à expressão adverbial uma expressão facial
que complementa a dramaticidade dos fatos.

Há quem atribua a divindades superiores o comando dos nossos destinos.
Respeito, compreendo e já tentei inúmeras vezes comprar tal ideia.
Mas, na altura do meu campeonato, confesso que ainda não encontrei
identificação com deuses ou demônios, capazes de tirar dos seus caderninhos
os comandos que regem vidas. Resisto a crer no estava escrito, ou foi 
a vontade de Deus ou isso é coisa do diabo. 

Quantas coisas acontecem ou desacontecem por um triz, ficam no quase,
no por pouco ou por um fio. Assim penso que é, sem justificativas
que vêm do Além.

O desesperado Romeu em busca de um encontro definitivo com sua Julieta,
por um triz não encontra o mensageiro que cruza na estrada levando o
recado que o veneno que a moça tomara era de mentirinha,
tudo combinado para ela despertar e os dois fugirem. A mensagem que
não chega a Romeu, poderia ter mudado o rumo da prosa.
Shakespeare, o criador da situação, operou o simples por um triz 
no lugar de um final feliz banal.

Na fatídica Copa de 82, o goleiro italiano Zoff, já nos acréscimos,
toma uma bola no pé da trave. Ela volta nas suas mãos e por um triz
não cai na ponta da chuteira do Sócrates (ou do Zico???) que estava
na pequena área, pronto para mudar o desfecho da história trágica
daquela noite no Sarriá na Espanha.

Dos olhos dos amantes do bom futebol, brota um filete lacrimal só
de imaginar que o destino do futebol-arte se deu por um triz,
o mesmo triz que fez o viajante perder o avião da Air France que
sumiu no mar, ou o sonhador endividado marcar os números
10 25 31 32 44 50 na megassena quando de fato, deu
o 10 25 31 32 44 49.

E assim caminha a humanidade colecionando por um triz na História.
No plano individual, cada um tem lá sua coleção particular de episódios
exemplares na memória.

Por um triz John Lennon deve ter pensado em ser antipático com aquele
fã maluco que lhe chamou para um autógrafo. Por um triz, a vértebra de
uma pessoa que amo não quebrou para dentro da medula óssea, mas para
fora da coluna. Felizmente.

Escrevo tudo isso ainda embalado pelo triz que recentemente se aboletou
no meu banco de carona. No fim da manhã da última sexta feira, ao sair
do trabalho na Barra em direção da Gávea, pressenti um engarrafamento
tedioso e resolvi ir ao banheiro antes, quando me despedi apressado
de alguns colegas professores, pois tinha hora para chegar. Foram os
cinco minutos que me deixaram a uns oito carros da viga que desabou
sobre um ônibus no fim do túnel. Por um triz, eu poderia não estar
escrevendo sobre por um triz. 

O que seria uma injustiça. Por um triz merece todas as minhas homenagens.
Se por um lado o triz é capaz de evitar ou operar tragédias produzidas
pela estupidez humana ou pela natureza, penso que o triz é o começo da vida.
Aquele espermatozoide esforçado do seu pai ficou em segundo lugar na
determinante corrida. Por um triz, o mais ágil chegou primeiro.





sexta-feira, 17 de maio de 2019

Enterrando gatos - conto de Rafaela Tavares Kawasaki


Enterrando gatos





    Onde quer que Leona pouse a vista há uma criança. Alguns meninos têm a mesma altura de Cadu. Nenhum é ele. O peso dos ossos peitorais de Leona parece ter dobrado. Ela é dominada pelo cansaço de carregá-los. A respiração encontra obstáculos ao percorrer a traqueia.
   Palpitações criam uma atividade sísmica no território que se estende do pescoço ao coração. A umidade deixa as palmas de Leona escorregadias, mas ela não solta as mãos da filha que a encara assustada com o pescoço esticado para enxergar sua expressão.
    Notas de uma mesma música enjoativa escapam do Bicho da Seda e formam um ciclone de sons ao redor da cabeça de Leona. É como se seu corpo esticasse e se comprimisse, tornando variável a distância entre seus olhos e o chão. Leona e Lolô andaram um quilômetro em círculos, sempre sob os gritos que escapavam da montanha-russa.
  A fila em torno do Barco Viking parece ter sempre a mesma extensão, ainda que os rostos despreocupados na espera mudassem cada vez que as duas a examinavam. Cadu nunca estava entre eles.
   Leona se sente um pingo no meio a um horizonte sem fim de brinquedos, barracas e pessoas. Como seria então para o filho de nove anos, sozinho? Os guardas talvez ajudassem se ela pedisse ajuda.
Se as caixas de som anunciassem o desaparecimento de uma criança, os outros visitantes afiariam o olhar. Ela encontraria Cadu mais rápido.
   Mas por que a indecisão paralisa seus músculos quando ela passa pelos funcionários do parque? Seu único desejo não era afundar o rosto nos cabelos do filho até deixar o cheiro de xampu infantil impregnar em suas narinas? Não seria bom sentir a fragilidade dos ossos que ela conhecia tão bem e jurar protegê-lo do mundo? Seria?
   A viagem ao parque foi planejada há dois anos. As crianças o visitavam em fantasias desde que viram as fotos em uma reportagem de revista. Leona, Armando, Cadu e Lolô alimentavam com cédulas de papel gasto o estômago de uma velha lata de biscoitos finos da marca Piraquê, já sardenta com a ferrugem. Era da avó das crianças. Um pé crescia demais, um dente precisava de obturação, uma tosse dava alerta para a necessidade de remédios e eles se viam obrigados a fazer retiradas.
   A lata só engordou mesmo naquele novembro, quando Armando deixou uma soma generosa para o aniversário do filho porque uma viagem a trabalho o impediria estar na festa. O dinheiro, fonte de uma recente promoção, era um pedido disfarçado de desculpas.
   A ideia de ir ao parque já deixava um gosto amargo preso à boca de Leona naquela época. Os filhos comemoravam a perspectiva de ida. Cadu se gabava para conhecidos e desconhecidos sempre que podia, mesmo que a mãe o pedisse para ser discreto.
   – E por quê? - ele sempre questionava, derramando sobre a mãe um olhar de ler mentes.
Armando insistia que ela cumprisse a promessa, quando ela considerava pretexto para adiar a viagem. Mas que graça teria irmos só eu e as crianças, sem o você? E como os filhos confiariam neles novamente, caso se sentissem traídos? Cadu tinha boas notas, não trazia reclamações da escola para casa, até recolhia garrafas de bebidas usadas para deixar no mercadinho do bairro em troca de moedas. O moleque merece, não merece? Fácil para Armando falar, ela pensava, por mais que a decisão de poupar o marido sobre a história dos gatos fosse decisão dela.
   Ao avistar o parque se revelar distante na paisagem da marginal, Cadu demonstrou uma alegria que Leona não via desde que o corpo do filho era uma miniaturiazinha de quatro anos. A culpa dava pontadas no estômago da mãe.
   Ela resgatava lembranças de quando percebeu os músculos faciais do filho caírem em dormência. Nos últimos anos, o rosto havia ganhado uma máscara de um adulto cansado, apático demais para uma criança saudável.
  Era incômodo ser alvo de seu olhar fixo por mais de cinco segundos. Cadu nunca piscava as pálpebras até Leona desviar os olhos. As pupilas dele abriam um caminho até o tálamo da mãe. Porém, quando os três puseram os pés no parque ele se transformou de novo no menino de nove anos que deveria ser, como se tocado por uma Fada Azul das histórias que o filho já rejeitava por estar grande demais para essas coisas. O medo de Leona recuava.
   Cadu procurou o rosto de Leona com um sorriso convidativo quando subiram juntos no teleférico do Castelo dos Horrores. A mãe o respondia com a exposição de uma dentição muito parecida com a do garoto.
 Ele disfarçava mal a curiosidade quando os três caminharam pela mina dos anões. Não dá pra perder tempo aqui. É brinquedo pra criancinha, igual à Lolô. Cadu indicava com a cabeça a irmã de seis anos, que desejava ser a própria Branca de Neve ao espiar o trabalho dos anões. Apesar da diferença de idade, a felicidade no rosto das duas crianças era idêntica.
  Os três se divertiram. Atacaram o carrinho um do outro no tromba-tromba até as barrigas ficarem cansadas com o movimento das risadas, dividiram um Dip n’Link comparando as caretas que faziam ao sentir as explosões na garganta. Leona até permitiu que os filhos tomassem não um, mas dois sacos de tubaína para afastar sede e calor.
   A nuvem de temor de Leona se dissipou. O tempo só voltou a se acinzentar quando os olhos dela esbarraram nas marcas de hematomas no pescoço de Lolô.
   – Foi o Cadu, mamãe. Ele disse que ia me enforcar se eu não ficasse quieta no carro quando você desceu no posto. Eu só queria ir atrás.
   – Quem mente a língua cai, não é não, mãe?
   Lolô lançava um ensaio de choro para a mãe, seu modo de pedir socorro. Leona não a olhava. Ela estava ocupada em vasculhar sinais de culpa em Cadu, mas ele estava isento de remorso, como um inocente.
   – Diga a verdade, Cadu. Você machucou sua irmã? - Leona se segurava para não desviar a face, embora a pupila do filho já perfurasse seu crânio.
    – Eu não tô mentindo.
    – Você sabe que não gosto de falsidade. Pior que fazer é esconder.
   O filho franziu a testa e exprimiu os lábios. Leona assistia a respiração do menino acelerar. Dos lábios de Cadu escapou um som. Era um miado quase imperceptível. Leona estremeceu. As mãos dela engoliam os dedos de Lolô.
   Os três caminharam com as bocas cerradas e assim continuaram por minutos. Uma mistura disforme de vozes e canções das caixas de som os invadia. O ar foi cortado por um grito animal que escapava de uma casa.
    – A mulher que vira macaco! - Cadu exclamou. - Vamos ver, mãe? Você prometeu!
    – Mamãããe, eu não queeeero.
    – Larga de ser manhosa, Lolo. Ninguém engole gente manhosa.
    – Eu não sou manhosa, só tô com medo.
    – Se vocês não pararem de brigar, nós vamos é para casa agora mesmo.
    Cadu procurou as mãos da mãe. Ele que odiava andar de mãos dadas porque já estava crescidinho.
  Talvez sentisse medo da promessa de ir embora ou a multidão que descia de um brinquedo o deixasse com tontura. Talvez ele quisesse sentir nos poros as vibrações da pele de Leona, enquanto a atacava com um olhar de ler mentes.
   – Você teria coragem mesmo de cumprir quando ameaçava ir embora do parque?
  – Está bem. Mas você vai sozinho. Não vou deixar a Lolô aqui. Vá e se comporte, você já é um homenzinho, não é?
   – Homem, mãe, homem. Sem essa de “inho”.
  Um fantasma da mão de Cadu agarrava a palma de Leona enquanto ele se distanciava. Quando a figura do filho atravessou a porta da casa da mulher-macaco, as pernas de Leona começaram a caminhar. O intervalo entre as batidas do scarpin contra o asfalto diminuía a cada passo.
 A gola do vestido a sufocava. Ela puxava uma Lolô cheia de perguntas. Não fale nada, Lolô, por favor! Ao se ver no estacionamento, Leona correu até o Chevette. A chave demorava a encaixar, porque ela tremia. Depois de apertar o cinto da filha, Leona se sentou no banco de motorista. As batidas de seu coração se transportavam para os tímpanos.
   – Mas e o Cadu, mamãe?
   Cada ruído da caminhada até o carro foi uma martelada leve contra um vidro grosso do aquário onde imergia sua decisão. O primeiro golpe só arranhou a superfície. O ritmo das batidas aumentava. Bleng. Bleng Bleng. BLENG. Era difícil ignorar. A pergunta de Lolô foi a última martelada. Perfurou o vidro que protegia a determinação de Leona. O vão é pequeno, o que não impede o desespero de escorrer, vazar como a água de um aquário rachado. O choro escapou até Leona engasgar.
   Cadu era mesmo capaz? Foi o que Leona se perguntou quando encontrou a primeira gata escondida na caixa de brinquedos do filho. A pergunta se instalou como um visitante indesejado que desconhece a hora de ir embora. Era um pensamento obsceno do qual Leona se despedia, mas que não se desprendia do cérebro.
   Era uma persa de pelagem toda cinza, quase azulada. Apesar da cor, seu nome era Mel. Os vizinhos perguntaram se Leona havia visto a gata alguns dias antes. Mel às vezes pulava o muro e fazia companhia para Leona enquanto ela esfregava as roupas no tanque. Seus pelos, antes macios, estavam secos e ásperos. As patas ágeis e o rabo endureceram. Parecia uma estátua com pescoço quebrado.
  Cadu brincava na sala com soldadinhos verdes e minúsculos. Imitava os barulhos de uma guerra com os lábios. Tinha sete anos. Leona reparou nos arranhões nos braços do filho. Ele logo largou os brinquedos para assisti-la. Os dois se encaravam, imóveis. Era possível ouvir mocinho e a mocinha da novela terminarem um relacionamento chorosos no televisor.
A cena da atriz chorando lágrimas cinzas era substituída por um coadjuvante dirigindo um carro que seria azul-marinho fora do mundo monocromático da televisão sem que Leona e Cadu pronunciassem uma palavra. As perguntas da mãe eram engolidas. O filho a cercava com o olhar de ler mentes.
   – Ela já estava assim quando a encontrei no jardim. - ele finalmente rompeu o silêncio, com os olhos grudados nos soldadinhos.
   – E por que a guardou? - Leona perguntou, em vez do “Foi você quem a matou?” em gestação na sua garganta.
   – Não sei. Eu só quis.
   Duas lágrimas gêmeas escorreram nas bochechas da mãe e do filho. Leona não conseguia interrogar Cadu. O que dera nela? Só era capaz de abraçar o filho e desejar que ele diminuísse até voltar a ser o bebê que ela carregava no colo.
   Leona saiu de madrugada com o Chevette. Rezava para que os faróis ou o motor não acordassem ninguém, principalmente Armando. Ela saiu à caça de um terreno baldio pela pequena cidade onde moravam. Cavar exigia mais força do que ela parecia ter. Porém, Leona abriu uma pequena cova e se despediu de Mel.
   O segundo gato era gordo e rajado. Era um animal andarilho que às vezes circulava um boteco da rua de trás. Estavam em uma gaveta, debaixo das roupas do filho, que ainda conservavam o cheiro do amaciante.
   Leona o enterrou torcendo para que fosse o último gato enforcado, mas não foi. Houve um terceiro, um quarto e um quinto. Ela desmontava e remontava a casa todos os dias ao voltar do trabalho no escritório a procura de um novo corpo. Tentava ser rápida para realizar os enterros antes de o marido chegar. Às vezes, perdia o sono e andava pela casa para vigiar as crianças.
  Cadu sempre dizia que os encontrava mortos e os trazia para casa. Leona ameaçava contar para Armando, mas fraquejava. O marido estava sempre tão cansado e passava tão pouco tempo com as crianças. Os momentos em que os pai e filho brincavam com trens em miniatura ou em que Armando ensinava Cadu a imitar jogadores da seleção tricampeã que o menino nem havia assistido, mas idolatrava porque o pai idolatrava, não podiam ser maculados.
   Quando chegaram ao parque, o pensamento de medo pareceu morrer. Ou desmaiar, pelo menos. Os três iriam apenas se divertir. E ficaram alegres, como as famílias das propagandas que viam na televisão. Davam risadas no tromba-tromba como se quisessem afrontar o mundo. Tudo parecia bem e agora ela se vê ligando o motor do Chevette, com o rosto ensopado de lágrimas enquanto se prepara para abandonar filho em um grande parque.
   Leona sente a vergonha incendiar a pele de seu rosto enquanto se olha no retrovisor. As lágrimas caem tingidas pelo preto da maquiagem borrada. Ela limpa o rosto com força. Queria se machucar, queria que doesse. Leona crava as unhas no rosto e se arranha até as marcas ficarem nítidas. Os cabelos cortados no estilo Farrah Fawcett estão um caos.
   Abandonar Cadu era inclusive um plano ridículo. Armando se desesperaria com o sumiço do filho, para começar. A polícia teria de ser avisada e Cadu seria procurado até ser encontrado. Esclareceriam o crime de abandono. Mas a cidade onde eles moravam ficava tão longe do parque e era tão pequena, tão esquecida pelo mundo. Só que Cadu sabia onde morava e pediria ajuda. Não só era idiota demais pensar nisso, era cruel demais.
   Como o mundo trataria Cadu? Ela era a mãe, sempre ouviu que deveria amar e proteger o filho a qualquer custo. Devia? É o que chamavam de papel de mãe, de amor incondicional. Mas era tão difícil enterrar gatos. E se partisse para algo maior? Ela tremia ao observá-lo ao lado da irmã, ao almoçar e jantar na mesma mesa que ele, ao conversar com o menino sem conseguir fazer as perguntas que importavam.
   Lolô sofre com a confusão. Chora baixinho com as pupilas pregadas na mãe.
   – Não, meu anjo, não precisa chorar. Já passou. Vem. Está tudo bem. Nós vamos buscar Cadu e ir embora. Que tal? Podemos tomar sorvete no caminho como você queria. Vem.
  As duas voltam ao local onde o deixaram. Cadu não está na saída da casa da mulher que vira macaco, nem nos brinquedos mais próximos ou nas barracas nos arredores. Onde quer que Leona pouse a vista há meninos. Nenhum deles é o filho. Leona o procura até o sangue se concentrar nos dedos apertados dentro do scarpin velho, comprado em 1979.
   A vontade de fugir para sempre aumentava na mesma proporção do medo de nunca mais ver o filho, nunca mais pentear seus cabelos cacheados, nunca medir seu tamanho até perceber que ele estava um centímetro mais próximo da altura da própria Leona e de Armando. E nunca mais sentir aquele olhar de ler mentes. Nunca mais encontrar gatos. Nunca mais sentir medo por Lolô.
   Porém, se o filho é que se tornasse uma criança morta seria culpa dela. Ela sentia ratos subirem por suas roupas. Ela era um animal sujo, um animal ruim. O filho herdou isso dela.
  Leona volta a chorar sem perceber. Ela aperta forte a mão da filha, até que Lolô começa a choramingar que está com dor. No mesmo segundo, uma mulher com sorriso forçado surge na frente das duas.
  – Você está procurando um menininho com essa altura? Ele estava ali parado, atrás das barracas. Parecia perdido. Disse que a mãe foi embora.
  O dedo da mulher indica o caminho. Até o último instante, Leona sente dúvidas sobre seguir as direções ou não. Ela tenta esgarçar a gola que a esganava. E então corre, arrastando Lolô como se a filha fosse uma mala pesada.
  Estava pronta para abraçar Cadu. A atmosfera fria em volta dele a desmonta. Os dois estão frente a frente e evitam se olhar. Ela não sabe dizer desculpas, como nunca soube perguntar em voz alta quem o filho realmente era.
  Cadu mantém uma espécie de voto de silêncio. A certeza está estampada no rosto do garoto. Ele sabe ler com exatidão os gestos, a respiração da mãe, o cheiro acre de seu medo. Os dois dão as mãos. Ao apertar a palma macia do filho entre seus dedos, Leona sente que aquele dia no parque seria um gato que ela e Cadu enterrariam juntos.