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quinta-feira, 24 de abril de 2014

ALDRAVIAS – PARTE II

Amigos, continuando com o exercício das aldravias, deixo aqui mais três poemas de minha autoria. Espero que gostem.

Para conhecer o trabalho da Sociedade Brasileira dos Poetas Aldravianistas (SBPA), visitem:

http://www.jornalaldrava.com.br/pag_sbpa_edweine.htm

E, desde março de 2014, tenho a alegria e honra de ser um dos membros da SBPA. Convido-os também a visitar minha página:

http://www.jornalaldrava.com.br/pag_sbpa_edweine.htm

Saudações poéticas.

Edweine Loureiro

I.

carlitos
cuspidos
pelas
máquinas
do
capitalismo

II.

perdi
a
poesia
procurando
uma
rima

III.

no
violão
ecos
dum
amor
perdido

***





terça-feira, 22 de abril de 2014

A Joaninha Violada




A Joaninha parou no chão da sala e era uma bolinha vermelha com manchas e cabeça negra; redonda, fulgurava nela o reflexo da janela e do sol lá fora; mesmo as pernas, representando com finos espinhos os pormenores da criação, eram julgadas macias assim da fofura maior.

O animal parou e ficou, ignorando o frio do piso, seu inimigo e provável fim, mas que no dia quente demais não chegava a isso. Achou-a ela, dona da casa, mulher longa e magra, de ossos curvilíneos a conceber sombras, e ao vê-la se ajoelhou ao lado e o chão não era mais gelado, não era nada mais. Reconhecia na joaninha um milagre, da pouca probabilidade de estar ali e do sorriso que nascia nela própria.

Chamou o filho pequeno de cinco anos e poucos verbos, rosado na força das bochechas, o qual se agachou ao lado; no ladrilho, as palmas da mão chiavam. Em silêncio observaram-na, e havia ali a mulher, a joaninha e a criança, e havia ali mais. O filho não esperou o descaso começar para logo erguer e alongar o indicador gordinho inchado em dobras, e a mãe o contemplou parada, esboçando um sorriso fechado em calma.

Ele, num movimento rápido, baixou o dedo e esmagou o inseto.

O crack ruidoso partiu não só a harmonia de um dia verdadeiro como a inocência de suas palavras, senão a inocência de um fim pleno. Depois de esmurrar de leve a mão do menor, perguntou ela, por que isso?

Ao que ouviu, e por que não?

Erik K. Weber
http://asd3copas.wordpress.com/





No céu com diamantes

Não era de bebida. Ingeria refrigerante socialmente, suco industrializado ou natural ocasionalmente, alcoólicos raramente e água sempre. Tinha no bolso ou na bolsa uma garrafinha à mão toda vez. Não fumava cigarro, nem cachimbo, nem maconha, nem. Só passivamente, em filas de paradas de ônibus, em barzinhos com os amigos, no meio da multidão de caminhantes no centro da cidade, vez ou outra dava azar de andar atrás de transeuntes-chaminé. Por não ter vícios, e não julgava quem cultivasse os seus, por levar a vida numa boa, na manha e na paz, dizia-se um cara saudável. Nada de apostar a mãe mortinha embaixo do caminhão. Otávio jurava por sua saúde, pelo que podia por o braço inteiro na fogueira. Fazia tudo certo, da rotina regrada aos exercícios físicos, carregando para lá e para cá uma cuca muito fresca. Até que, na visita anual, o clínico prescreveu exames extras, além do hemograma.

Não me leva a mal, doutor, mas o senhor acha mesmo que precisa saber do meu estômago por dentro? Eu contei de uma ardência e um inchaço que me duraram dois dias e meio, coisa que obviamente tem relação com a feijoada de sábado. Como recusaria? Minha mãe não cozinhava uma feijoada completa assim há anos. Costumo me conter, só que naquele dia abusei. Foi isso. O médico, manso e vagaroso como boi, explicou que era bom ver, eliminar qualquer fresta de suspeita, blindando aquele corpo de certezas novamente. Não havia de ser nada além de uma indisposição, conforme supôs o paciente. Vai ver, sim, Otávio, sexta-feira, às 15h, com o gastroenterologista fulano, que atende aqui mesmo, no consultório do fim do corredor. A secretária já marca na saída, está bem?

No dia e horário agendados, Otávio estava lá, banho tomado e as tripas feito canudos de milk shake, atravessando um jejum tão longo e violento que nem água podia. Um medo inconfessável o acompanhava. Tinha ouvido horrores sobre a anestesia. Na sala de espera, o pavor de remédios induzia previsões catastróficas: enfermeiras injetando substâncias tóxicas em uma das nádegas, aplicando soníferos em veias difíceis de achar, o médico cavoucando suas entranhas com pinças enquanto ele jaz inerte na maca branca. Otávio, sua vez, chamou a anestesista.

Ele foi, encantado com a moça de jaleco branco e cabelos amarrados em coque. Antes de deitar de costas para ela, recebeu spray anestésico na garganta e no braço direito, agulha. Primeiro vais sentir uma tontura, é normal, mas ainda não será momento de dormir, preveniu a moça. A vertigem realmente aconteceu, mas para o que veio depois não houve aviso. Essa moça que me olha e me cuida, que mágica é essa, tão bonito aqui, vem cá, querida, nasce amor em lugares bem incomuns, não é mesmo, a gente podia casar na beira da praia com tochas acesas iluminando o caminho até o altar de areia e depois então trocamos sins e voamos até encostar a ponta dos nossos dedos nos diamantes lá no céu e se eu morresse agora até que seria lindo e. Pronto, Otávio. Terminamos por aqui. Em seguida, o resultado. Uma úlcera considerável. Comece o tratamento com doses diárias do comprimido tal e daqui oito semanas retorne para novo exame, em que vamos reavaliar o caso. Otávio agradeceu a atenção e foi embora, perplexo e ansioso pela próxima sedação.





sábado, 19 de abril de 2014

Colcha de retalhos (ainda precisando de costura)

Como
         se concretiza
                      poesia?
                                       Se o corpo da alma desprendeu
                                               Alcançou um éter mistério
                                                               Sumiu com o sopro do fim das 24h.

Será que isso assim, desalinhado
É gênio reprimido?
Mau uso do verso?
Fragmentário fruto do pós-moderno?
                                               Tudo assim que nem meu corpo e a minha cabeça se alinham
                                               A mente
           Que se encolerizou hoje, ontem chorou muito a morte do Gabo
                                               Mas aprendeu algo sobre as leis matemáticas

                                               E se dá por dia bem vivido. 





quinta-feira, 17 de abril de 2014

Eu amo Ana Elisa Ribeiro





Eu amo Ana Elisa Ribeiro.






















quarta-feira, 16 de abril de 2014

Uma história comum

Este frio úmido está comendo os meus ossos. Preciso consertar o aquecedor e parar de usar tanto a lareira...
— O senhor quer que eu acenda a lareira agora? — me pergunta a mocinha de uniforme.
— Não, agora não, obrigado. — respondo, interrompendo o pensamento.
Às 5 horas tenho um encontro com Angélica. Vamos tentar uma partilha amigável de bens, mas, com certeza, haverá ferimentos de batalha. Na verdade, o que eu quero mesmo é vê-la. Sempre me encanta absorver a figura sensual de Angélica. É discreta, mas insinuante; cabelos lisos, escovados, olhos sem máscaras. A boca rosada se deve mais ao hábito de morder os lábios do que a qualquer carmim.
Quando a vi pela primeira vez, ela não reparou em mim, e minha virilidade acostumada ao reconhecimento ressentiu-se. O par de olhos risonhos estava entretido com outra coisa, outra pessoa: um transeunte, uma vitrine, não importa. Eu cruzava a rua quando me deparei com ela, parada na calçada oposta.
— Está perdida? Posso ajudar?
Que idiotice essa abordagem adolescente. Um ato impensado, sem propósito.
— Não, obrigada.
Desnecessário ser despachado assim.
— Mas eu gostaria de tomar um café e estou na dúvida sobre qual deles é o melhor. — ela recuou — Você sugere algum em especial? — perguntou, casual.
Relaxei o maxilar travado instantes atrás pelo embaraço e me virei para avaliar a fileira de mesas espalhadas aqui e ali nos vários cafés daquela rua. 
— O Café Suisse — respondi sem pensar.
— É bom mesmo?
— Ótimo. O schümli deles é perfeito. Servem também os italianos, o irlandês, o escocês...
Schümli? — a risada combinava com a boca, e aquela boca ria de mim! — Eles servem também o Affogato, o Chanoniz, o Imperial?
Então era isso, ela debochava de mim sem nenhuma reserva! Melhor partir antes de um desastre completo.
Mas não aconteceu assim.
Acabamos nos sentando para um café e consumimos horas de boa conversa. Nos dias e meses que se seguiram, nossos caminhos foram se entrelaçando ao longo de jantares, vinhos, filmes, livros e carinhos.
Não sei depois de quanto tempo fomos morar juntos. As mulheres têm esse dom de guardar datas. Eu, por exemplo, conto apenas com uma boa agenda. Não foi difícil sequer me acostumar com Angélica. Se, pela manhã, as roupas dela estavam espalhadas no banheiro ou no closet, à noite não restava vestígio de nada. Se o cheiro de chocolate do meu cachimbo impregnava o ambiente, era eu quem corria a abrir as janelas da saleta para renovar o ar. Hoje, um almoço de massas leves, regado a um bom Chianti. Amanhã, uma carne rubra incandescente, cortejada por um Bourgogne relaxante.
Angélica pecava apenas por manifestar os sintomas das mulheres que amam: estava sempre em busca de beijos românticos e seu corpo não se saciava somente com o puro prazer, mas exigia palavras, diálogos, humores adequados.
Os homens não se aproximam muito do amor; são atraídos quase sempre pelos atributos da carne. Depois, às vezes, se encantam um pouco mais além. E se a coisa vai ainda mais adiante — e é certo que o "se" e o "adiante" preferem manter-se afastados em distância prudente. — só então se permitem gostar. Amor é descuido.
Eu não queria prescindir de Angélica. Ela fazia parte da minha vida, eu estava acostumado com ela, gostava dela. Então, para fugir à possibilidade de descuidar-me por causa desse gostar, passei a concentrar meus dias em hábitos antigos.
— A que horas você chega, hoje?
— Não me espere. Hoje é dia de pôquer com o pessoal.
Havia também os drinques com os colegas do escritório.
— Vai chegar tarde?
— Não sei ainda, melhor você dormir — e tarde era sempre a opção da noitada.
Em casa, programas de televisão, música, livros. As mesmas perguntas; as mesmas respostas. Então, aconteceu aquela noite de terça-feira em que o jogo da semana foi desmarcado. Que tédio. Ir para casa seria o mais lógico, mas quebrar rotinas podia se tornar um perigo. Uma vez aberta a exceção, Angélica poderia se achar no direito de me pedir para não ir outras noites, ou quem sabe iniciar aquelas lamúrias que as mulheres repetem com maestria.  Sentei-me num bar de calçada, meio perdido.
— Um Glenffidich, por favor, em copo longo. Pode trazer a garrafa e um balde de gelo. Uma água sem gás também.
Ambiente e bebida não combinavam nem um pouco, mas o garçom me pareceu feliz com o pedido. Alguns casais caminhavam rua acima ou rua abaixo, sem pressa. A agitação do local era pouca, mas havia harmonia naqueles rostos.
Reconheci Angélica pelos cabelos lisos. Ou teria sido pelas mordidas nos lábios que há tanto tempo eu não via? Não houve sobressalto em vê-la ali. Na verdade, eu nunca tinha me questionado onde Angélica estaria nas minhas noites de jogatina. Nunca perguntara a ela. Eu apenas me senti desapontado, como se o controle das coisas me escapasse um tanto. Não me inquietou ao menos olhar para o homem que se sentava à sua frente, do outro lado da rua, naquele restaurante à meia-luz. Só me senti curioso. E foi assim até que as mãos daquele homem se apossaram das dela; e as mãos de Angélica permaneceram nas dele, aconchegadas.
Depois de muito tempo me levantei daquela mesa. A névoa dos meus olhos fazia da embriaguez a única companheira da noite, e foi ela que carregou para casa o que restava da minha lucidez. Havia agora dois homens dentro de mim, e ambos me corrompiam: um queria ferir; o outro, chorar.
Tudo me pareceu tão longe até em casa. E se Angélica ainda não estivesse lá? Há quanto tempo os dois estavam tendo um caso? Vagabunda!, pensei. Vou sacudir aquele corpo devasso e gritar nos seus ouvidos palavras infames.
A porta do quarto estava entreaberta e eu senti o perfume de Angélica no nosso banheiro. Ela estava lá, refletida no espelho, limpando o rosto como fazia todas as noites. Álcool, ciúme e estupidez se combinaram em violência e eu cravei as mãos nos seus ombros. 
— Quem era aquele homem? Diga logo, vagabunda!
Esperei que ela negasse. Desejei mesmo que negasse. Quis que ela tremesse, que me pedisse perdão, que tivesse medo de mim, que chorasse em meus braços.
Mas não aconteceu assim.
— Um homem que me ama — respondeu, insensível. 
"E eu por acaso não te amo?", minha boca perplexa quis gritar. Mas a voz se acabrunhou, subitamente. De que amor eu falaria a ela? Do amor descuidado que não me permitia saber como tê-la ao meu lado? Do desprezo que eu sentia pelas suas emoções? Dos dias de solidão que eu lhe imputara conscientemente?
Não houve gritos, choros, discussões, acusações. Apenas um desespero intenso que me envolveu em angústia, medo, solidão. E antes que eu pudesse recompor as palavras, aquela boca rosada me disse:
— Eu vou embora hoje mesmo. Não vou mais voltar. Depois a gente conversa sobre o que for preciso.
Enquanto eu ardia por dentro em sensações desencontradas, ela se foi assim, em três frases. Adormeci pensando em absurdos, consumido por imagens de uma fêmea que se contorcia em dar prazer a outro homem, e ria da minha dor.
Faltam 20 minutos para o nosso encontro. Tenho pouco tempo para repassar o que quero dizer. Quero lhe provar que faço qualquer coisa por ela. Convencê-la de que é possível cultivar o sentimento. Quero que não me deixe, que não me deixe nunca.
Então, vejo-a entrar. E ao encarar seus olhos sem máscaras percebo que não se trata do que eu quero. Nenhum passado a resgatar. Ela já partiu de mim faz muito tempo.
O frio e a umidade estão entranhados nos meus ossos.  Preciso voltar e acender a lareira.






terça-feira, 15 de abril de 2014

a palhinha


Maria de Fátima


Para quieto com isso, diz ela, e ele naquele prazer de vê-la. Um niquinho de palha, um bocadito seco de alguma erva. Ele a enfiar a palhinha no decote dela. Ele a roçagar-lhe os bicos das maminhas, e ela a desviar-lhe a mão.
Um dia, e depois mais outro, sem mais do que isso: um beijinho de nada, nem língua, nem um mordisco. Assim, aquela coisa, deslavada. Um beijo, uma festinha na perna despida de saia. Só na coxa de fora, que nem pensasse ele em subir à virilha.
Para quieto, dizia ela, e ria-se, desviando-lhe a mão, sacolejando as pernas. E ele entretinha-se naquela brincadeira de roçar-lhe a palhinha nas maminhas.
Hoje, ela destapou-as, assim, num de repente.
Mas nem toques, disse-lhe. Tira daqui a mão, acrescentou, e riu-se, agarotada. Desejosa, foi o que ele pensou, mas não sabia ainda, quase nada.
Desvia essa boca, é o que diz ela, e ele nem tinha sequer pensado o gesto.
A palhinha, dançarica-a, ele, num daqueles piquinhos castanhos, muito escuros. Contorna-lhe o doirado da auréola. Que enorme que é o bico, pensa ele, e cisma. Lamber. Tocar só com a ponta de um dedo. Apertar o biquinho daquele seio que deve ser tão macio.
Para, grita ela, e ele dançaricando a palhinha, e cogitando. Apenas cogitando e nem um gesto mais do que a palhinha saçaricando.
E ela a voltar-se de lado, o rabo a sair-lhe do calção curtinho que alarga mais na perna esquerda. Devia ter o elástico lasso, ou descosera-se e ela nem notara. Fica uma nalga mais gorda do que a outra, e ele jogando a mão, e ela a encolher-se, e grita: podes ficar quieto, e ele nem percebe se o que ela diz é convite, se pedido, se ordem, e fica-lhe no ar o suposto gesto.
Deitados na manta de quadrados, debaixo da nogueira, o ribeiro correndo, manso.
Já tomaram banho, já nadaram, já comeram salada e melancia, o suco a escorrer e ela a deixar que corresse vermelho para dentro do decote, que lhe molhasse, fresco, as duas maminhas, ainda ela as não soltara do fato de florinhas.
Ela a oferecer-lhe, que ele fosse lambê-lo, e a negar-se rindo, rindo.
Ela a tirar as alças, assim num de repente, e ele a querer tocar-lhas, e ela rindo, rindo, retorcendo o corpo que lhe parece, a ele, mais gozo que brincando.
Ela deitada de lado, fingindo-lhe desprezo.
Ela respirando, muito devagarinho, o rabo com uma bochecha mais gorda do que outra saindo do calção, e as maminhas soltas apetecendo.
Ele a beijar-lhe um ombro, a lambê-lo, a afagar-lhe o braço. Ele a roçar-lhe apenas a borda do seio, a afagar-lhe as costas com os lábios, a deslizar uma mão no cabelo molhado. Ele a morder-lhe a orla rosada da orelha.
E ela muito quieta, respirando, e ele a segurar-lhe, devagar, a medo, a nudez rechonchuda da maminha esquerda.
Ele a encostar-se, e ela que se roda inteira.
Ela quase nua, e o céu a dar-se em chuva, bagos grossos, e eles revolteando, nem sabe ele se de maminhas, se de rabo, se de ombro, se de que parte do corpo. Repuxa-lhe, ela, o calção de banho. Segura-lhe entre as mãos o sexo. Num repente, afaga-o como se fora beijo.
Para com isso, está quieta, diz ele, e sabe que mente. Ele espantado dela que ainda sabe tanto ao sabor da melancia, e ela rindo.
Ri-se muito. Dobra o riso, quase em gargalhada. Diverte-se.
Vermelha a boca dela, como se fora fruto a ficar maduro.
As maminhas, soltas, bailam-se, muito virgens, e ele agarra-as, vagaroso, beija-as,  suga cada um dos bicos.
Ele e ela inventando gestos no corpo um do outro, em cima da manta de quadrados, junto ao rio.
Ri-se ela, e ri-se também ele. Riem-se, muito, os dois.
E a chuva a cair. A chuva, muito fresca, a misturar-se aos líquidos dos seus corpos.



(sobre a manta, uma palhinha olha-os)





segunda-feira, 14 de abril de 2014

A Cega


"Sua prata tornou-se escória."

(Isaías, 1: 22)


Foi de repente.
Quando vi, minha vizinha já tinha abaixado minhas calças.
Ela era cega e foi até o fim, chamando-me com o nome de seu marido enquanto brincava comigo.
Eu era apenas silêncio.


Eu e Ângelo somos amigos de infância.
Ele casou com a ceguinha do bairro por pressão da família. Fez barriga.
Tomávamos cerveja todo final de tarde na casa dele. Mas depois do que aconteceu, me isolei em casa. Não atendia ao telefone nem a porta; saía apenas para trabalhar.


Estava assistindo a um programa fajuto na tevê, quando minha vizinha bateu à porta. Queria fingir que não estava, mas achei melhor conversar com ela. Resolver a questão. Mas não sabia o que dizer.
Abri a porta sem coragem de olhar para aqueles olhos opacos.
Ângelo quer saber por que você sumiu. Tá doente?
(Porque estou morrendo de remorso. E você nem desconfia o porquê.)
É, não estou muito bem.
Ele quer falar com você.
(Nada fica encoberto. Vocês já descobriram?)
Eu não sei se eu posso.
Não seja bobo.
(Mas como é que eu vou olhar pra ele? Todos os dias, fico remoendo e pensando no que fiz com você.)
Eu tenho coisas pra fazer.
Não tem, não. Eu sei o que está acontecendo.
(Você descobriu tudo. Vai me jogar na cara o que cometi. Eu não presto. Eu sou escória. Aquilo foi imperdoável. Eu devia ter tentado evitar.)
Não se preocupe comigo, vizinha.
Ângelo não sabe o que fizemos. Eu não contei pra ele.
O que você disse?
Eu sabia desde o início que eu não estava com meu marido.
Você sabia que era eu?
Claro.
Mas você me chamava pelo nome dele.
Foi pra ficar mais interessante.
E como sabia que era eu e não o Ângelo?
Cada macho tem um cheiro diferente.
Como?
Ângelo não tem cheiro nenhum.



Este conto integra o livro Sísifo Desatento, que será publicado em maio deste ano, pela editora Terracota.





VICO

                                                                                                                   VICO

Cecília Maria De Luca                                          

Quando o vi pela primeira vez, mal cabia na palma da minha mão estendida. Trocamos olhares desconfiados, aquela bolinha de algodão e eu. Passados cinco minutos eu já estava apaixonada, enquanto aqueles dois olhinhos de jabuticaba ainda me fitavam com medo e desconfiança. Meia hora depois, restou vencido, cheio de amor por mim. Já daquele tamanhinho correu pela casa toda, reconhecendo o terreno e marcando território.    Em poucos dias aprendeu onde fazer suas necessidades, mas, quanto ao local de dormir, não teve jeito, sempre foi no tapete, bem ao lado da minha cama.

Como era inteligente aquele danadinho.  Conhecia o timbre da minha voz e sabia exatamente o que fazer quando lhe ordenava qualquer coisa. Sabia quando eu estava triste, alegre, preocupada, brava, enfim, conhecia-me mais do que qualquer pessoa e reagia sempre da maneira mais acertada. Era a minha sombra adorada.

Quando eu estava trabalhando eu o sabia em casa me esperando. Ao chegar, era uma festa só, quase me sufocava, tanto latia e me lambia, seu rabinho girando loucamente. Quando eu viajava, eu o sabia em depressão. Ao regressar, me olhava ressabiado, ofendido com tanta ausência e era eu quem quase o sufocava de tanto que o abraçava e beijava pedindo perdão.  E ele sempre perdoava, voltando a me lamber e a abanar o rabo.

Vez em quando me tirava do sério. Era assim quando exigia que eu lançasse sua bolinha, incansavelmente, por mais de hora seguida, ou quando latia desesperado de ciúme ao ver-me abraçar um amigo ou brincar com outro animalzinho qualquer.

Vico era um lorde. Era um cão diferenciado, tal a sua elegância. Tinha a mania de levantar uma das patas dianteira antes de enfrentar qualquer terreno ou pessoa desconhecidos. Fazia esse gesto com tal graciosidade que era impossível não arrancar um sorriso de quem quer que fosse. Parava as pessoas na rua para admirá-lo. Enchia-me de orgulho.

Era o xodó no “pet shop” onde tomava banho, mas detestava quando lhe punham uma gravata ou o enfeitavam de qualquer forma. Enquanto não arrancava tudo, não sossegava. Era como se sua dignidade ficasse arranhada. Eu entendia e não permitia que lhe vestissem qualquer coisa. Afinal, Vico era um cão, tinha orgulho de assim ser e era assim que queria ser tratado. E como era valente o meu amigo! Enfrentava cachorro grande como se grande ele fosse. Chegava a ser agressivo com estranhos. Quando eu ralhava com ele, me olhava com olhos de orgulho de macho. Só de uma coisa o meu machinho tinha medo. Era do barulho de foguetes e trovões. Aliás, até com o estalido de bombinhas ele se apavorava. Nessas horas se achegava com o rabinho entre as pernas, tremendo feito vara verde, e me olhava com olhos de pavor. Eu o pegava e o acariciava até que se acalmasse.

Nunca mais me esqueço do dia em que chegou. Naquele mesmo dia, à tarde, perdi uma grande amiga. Reagi como sempre reajo quando alguém que amo muito vai embora. Costumo sentar no chão, encostar-me à parede e chorar desconsoladamente.  Acho que é um mecanismo inconsciente. Um precisar de algo sólido, firme o bastante, que segure minha alma, impedindo que ela escape me levando junto.  Vico ficou sentadinho na minha frente, inclinando a cabecinha ora para um lado, ora para outro, me olhando com olhos de presença. Parecia saber que só de tê-lo ali, pertinho de mim, já era um grande consolo.  E, nesses quase doze anos de convivência, sempre foi assim. Nesses doze anos perdi amigos, pais, irmãos e sempre, nessas horas terríveis, ali estava o Vico, perto de mim, inclinando a cabecinha de um lado para o outro, lambendo minhas lágrimas, me olhando com olhos de amor.

Nos momentos alegres, e foram muitos, Vico também estava ali, saltitando, dando voltas, correndo de um lado para o outro, me olhando com olhos de vida plena. Na casa de campo era uma festa. Todas as árvores, plantas e flores foram batizadas e rebatizadas por ele. Corria pelo jardim feito um corisco e que alegria ver aquela mancha branca como a neve contrastando com o verde intenso do gramado! Que paz senti-lo no colo ao apreciar o por do sol!  Que delícia, nas noites frias ou quentes, ir ao jardim antes de dormir, hábito meu, olhar para o céu estrelado, para a lua cheia ou minguante, sempre com ele ao meu lado. Nessas noites, quando me demorava a entrar, ele ia para a porta, latia e me olhava com olhos de sono.  Ah, Vico, que amigão você era!

Vico foi um cão saudável. Só visitava o veterinário para as vacinas de praxe e para limpar os dentes. Não me dava o menor trabalho nesse sentido.  Entretanto, um belo dia, quando ele já tinha oito anos de idade, percebi que, depois de uma corrida, arfava mais do que o normal. A partir daí, quando se assustava, sua língua, sempre vermelhinha, adquiria um tom arroxeado e, nessas horas, parecia que ia desfalecer.  O diagnóstico foi “traqueíte congênita”, e a receita, evitar corridas e sustos. Escondi a bolinha, mas era impossível segurar o Vico quando ele via uma cadelinha na rua, ou evitar que ele pulasse feito cabrito quando eu chegava do trabalho. Era impossível também impedir o barulho dos trovões ou dos foguetes. Contudo, e apesar de tudo, Vico e eu convivemos com sua “traqueíte” sem problemas, levando uma vida, que poderia dizer, normal.

Vico foi envelhecendo comigo. Seu focinho negro, antes tão brilhante, começou a raiar de branco. Ameaçava correr quando via algo que o interessasse na rua, mas logo desistia e me olhava com olhos de cansaço.  Seus passos foram ficando mais lentos e lá, no campo, já não corria pelo gramado, já não me acompanhava ao mirante para apreciar o céu. Ia, no máximo, até a varanda onde ficava a me esperar para entrar. Depois, nem isso. Preferia ficar deitado sob a cama ou no tapete da sala quando lá eu ouvia música ou assistia à televisão. Trocávamos olhares longos e angustiados. No entanto, como eu disse, Vico era valente. Foi vivendo assim, sempre a me fazer companhia, eu já aposentada. De manhã, única hora do dia em que ele esboçava algum entusiasmo, caminhava pelas ruas, só que agora devagarzinho, quase parando.

Dia desses aí atrás, fim de inverno, Vico estava bem. A mim me pareceu que ele até criara alma nova. Andou mais ligeiro pela casa e, não fosse pelo fato de que se recusara a comer, eu diria que Vico ficaria comigo mais uns dois anos. Foi dormir como sempre, na hora em que fui para o quarto, deitando-se ao meu lado.  No meio da noite, Vico latiu. Um latido só. Pensei em acender a luz e verificar se estava bem. Mas ele se aquietou, então eu dormi.  E Vico também dormiu. Só que eu amanheci e Vico não.  Até para morrer ele foi elegante. Deixou para mim seus olhinhos abertos, fixos e cristalinos como dois cristaizinhos a me olhar com olhos de adeus. Um fio vermelho discreto riscava seu pelo branco no canto da boca. Chorei desconsoladamente, como sempre sentada no chão e encostada à parede. Só que desta vez, Vico estava inerte nos meus braços. Não mais sentado à minha frente, a inclinar sua cabecinha de um lado para o outro, a me olhar com olhos de consolo, a lamber minhas lágrimas de saudade.

E agora Vico? E agora que não o sei em lugar algum, como é que eu fico? Como andar pelas ruas, pelo jardim do chalé, passar por todos os seus territórios, sem você? Como dormir sem ouvir o seu ressonar ou os seus passinhos pelo quarto? E agora Vico? Cadê você? Sabe, ainda estamos no verão. Temporada de chuva com raios e trovões. Será que você os ouve? Será que ainda tem medo?

Meu grande companheirinho, vou lhe contar um segredo. Quando chove como hoje, quando os relâmpagos riscam o céu, seguidos pelos estrondos, eu fico a tremer, também com medo. Só que agora não preciso fingir que sou corajosa. Você não está no meu colo, você não está mais aqui e isso de certa forma me consola... Consola?!
 
Ah, Vico, quanta ausência, quanta dor, quanta saudade!





sexta-feira, 11 de abril de 2014

Cotidiano



olhares sombrios, sem expressão
mãos caídas
pernas compridas
caminham
em suas tarefas inexpressivas, alimentando o sistema bizarro
e os velhos com seus rostos deformados
como caricaturas,
caminham, silenciosamente, entre seus narizes compridos e empelotados


 
The End





quinta-feira, 10 de abril de 2014

Por que a Copa poderia ser a melhor coisa que já ocorreu ao Brasil?


Henry Alfred Bugalho

Nenhum outro evento expôs nossos problemas de maneira tão evidente quanto a Copa. São temas dos quais o brasileiro sempre reclamou, em casa, entre amigos, na fila do mercado ou no ponto de ônibus, como corrupção, abuso de poder, desorganização, atrasos, malandragem, ganância e a nossa falta de seriedade.
Talvez pela primeira vez estamos vendo o nosso retrato estampado nestes estádios inacabados, os mais caros da História, em toda a falta de organização e planejamento do evento, e este retrato está sendo exibido para todo o mundo.
Quando enfim o gigante parecia haver acordado, com as grandes manifestações do ano passado, ele rapidamente vestiu de novo o pijama e voltou a dormir, outro exemplo clássico de nossa incapacidade de realizar mudanças duradouras e eficientes.
Todos temem o pior, inclusive a própria FIFA, e muitos gringos estão com medo do que poderão encontrar no Brasil, desde o custo excessivo de tudo até a violência sem controle. Se a Copa da África do Sul já foi considerada um fiasco, temos tudo para superá-la, dos piores modos possível.

Mas o problema essencial do Brasil não é governamental, a raiz de todos os males está em nosso próprio comportamento, em nossa natureza nacional de sempre tirar vantagem em tudo.
Quando alguém devolve um item valioso ou uma grande quantia em dinheiro para seu respectivo proprietário, isto vira notícia no jornal. E ainda assim é considerado um otário por muitos, instigando com que nós nos façamos a questão: "Eu teria feito o mesmo? Depende do valor..." (risinhos)

A corrupção dos nossos políticos é tão somente um espelho da nossa própria corrupção moral. Lembro-me de uma frase de algum dos mensaleiros: "Fiz porque todos estavam fazendo".
E é esta a nossa atitude secular. Fazemos porque todos estão fazendo, mas isto nunca nos levou a lugar algum, somente criou um estado insustentável, todo um país onde quase nada funciona, que se tornou uma piada global da qual somos os protagonistas e, ainda assim, somos os que mais estão rindo dela.

Muitas das mudanças significativas necessitam de revoluções para ocorrerem. No entanto, talvez nós precisemos do futebol, o único assunto que realmente levamos a sério, para, finalmente, realizarmos alguma mudança.
O fiasco da Copa é também o nosso fiasco como cidadãos, mais do que isto até, é o nosso fiasco como pessoas morais.

Nós somos e fomos sempre assim, mas até quando?





terça-feira, 8 de abril de 2014

senhor diretor






ora veja, senhor diretor
estamos atrapalhados
ainda em roupas de baixo

é preciso abrir um caminho entre as garrafas 

entrem as garrafas!

como estamos, senhor diretor?
a quantas andamos hoje?
mil? dois mil? dez mil?  

perdoe-nos esse inseto
ele não sabe o que faz  

diga-nos, caríssimo diretor
como temos passado?
isso é tudo o que devemos? 

ficamos surpresos
até mais animados em pensar que
a burocracia atravessa o universo até nós
na perfeita razão dialética
e nos torna tão semelhantes
entre os buracos das traças
e as boas aparências 

beba uma conosco, senhor diretor, não nos faça essa desfeita 

aqui nos elevamos todos à categoria de bens
não repare
somos uns tão pertencentes aos outros
ignoramos a ordem hierárquica específica 
basta estarmos assim juntos sob o mesmo elenco de contas
e nos entendemos

nos veremos todos no grande inventário daqui a um tempo
quando nossas conversas já houverem esquecido o primeiro significado

mais uma? que maravilha!

é aqui que devemos assinar? 
que nome escrevemos aqui? 

perdão, era para ser engraçado  

vamos rir de tudo isso 
nós e o senhor, senhor diretor 

amanhã
quando a massa documental voltar à retroalimentação
deitar-nos-emos com ela
impregnados de renovada libido

está satisfeito? bem, bem

é para nós também uma satisfação, senhor diretor
obrigado por coletar nossas rubricas 

volte, sem compromissos, sim?

a saída é por ali
bom dia 






imagem: acervo pessoal (V.)
Creative Commons
atribuição-uso; não comercial




publicado originalmente em http://pragasurbanasrenitentes.blogspot.com.br/2014/03/senhor-diretor.html





Blanco, Transblanco, Octavio Paz e Haroldo de Campos






Você certamente já experimentou a poesia: a sensação de não saber como explicar o modo como você diminui, sente-se ínfimo perto de uma grandeza muito maior que a sua e, imediatamente, sentir-se dissolvido e absorvido por essa imensidão, sentir-se fazendo parte dessa coisa incompreensível. Muitos poemas (também, com um sentimento semelhante, outras formas de arte, sobretudo a música) já causaram em mim essa sensação; entretanto, poucos como o poema Blanco, do mexicano Octavio Paz.



Pensei em apresentar o poema, falar a seu respeito e, talvez, até alguma impressão; entretanto, julguei que qualquer esforço exegético/hermenêutico/crítico fosse, no mínimo, desrespeitoso da minha parte com o poema, com o poeta, com minha experiência poética de sua leitura e da SUA experiência, você que está lendo esse post.

O poema na íntegra, inúmeros textos a seu respeito, encontram-se neste endereço: www.poemablanco.com.mx. Trata-se de uma exposição eletrônica, cujo conteudo (traduções, estudos, fotos, os SÍMILES dos rascunhos de Octavio!) orbita o poema. Tem a curadoria do professor Enrico Mario Santí (University of Kentucky, Department of Hispanic Studies), e da viúva do poeta, Marie-José Paz.






Blanco, (Joaquín Mortiz, ed., México, 1967) foi traduzido, ou, mais acertadamente, foi recriado por Haroldo de Campos, publicado no Brasil em 1981. Mais adiante, em 1986, Haroldo e Octavio publicariam o processo de tradução/recriação (re)intitulado Transblanco (Editora Guanabara; reeditado em 1994 pela Editora Siciliano), acompanhado de uma formidável seleção da correspondência entre eles.





Em 1985, no Anfiteatro de convenções da USP, os dois poetas encontraram-se e, na ocasião, houve uma leitura paralela do poema original em espanhol e de sua tradução/recriação em português. Previamente, Octavio Paz faz uma breve explanação de como Blanco pode ser lido, pelo menos, em sua estrutura original.


Aqui, então, o encontro poético que eu adoraria ter presenciado, problema temporal, que só pode ser minimizado pela experiência poética, e, neste caso, graças à tecnologia.  Aproveitemos enquanto isso existe.

[créditos do video: USPFM]
[créditos das imagens: acima, à esquerda: Octavio Paz (não encontrei informação do fotógrafo); acima, à direita: Haroldo de Campos (foto de Eder Chiodetto)]
[publicado originalmente em http://vcamargojunior.blogspot.com.br/2014/03/blanco-transblanco-octavio-paz-e.html]











segunda-feira, 7 de abril de 2014

Nodo

Joy Hester - Little girl with book on head - 1957 

A poesia é um buraco
que muda de lugar
todo dia
no meio do caminho
do poeta

é preciso andar
com um bocado de
equilíbrio
[feito se faz
quando criança
com um livro
deitado
sobre a cabeça]
e muito
muito jogo
de cintura
para não meter-se nela
-e nunca
nunca mais querer sair-
em dias de chuva

a poesia é um buraco
sem fundo.

a poesia é um ponto
de partida
que muda de lugar
no meio do peito
do poeta

quem houver de tocá-lo
levianamente
com as pontas
dos dedos
há de saber que
é lá que a vida
se esconde e vibra
de verdade
no corpo do poeta.
o resto é papel

em branco
timbrado
vencido
rasgado
empilhado

e do monte de papel
que a vida nos joga
por cima, só esse
vale a lida!

a poesia é uma voz a gemer
todo
todo o dia
ainda que não se queira ouvir
ainda
que não se possa fazer algo
a respeito.

a poesia é um fardo
a pesar sobre a cabeça
do pobre poeta
[feito se faz
quando criança
com um livro
deitado
sobre a cabeça]
ou ele a carrega
ou se deixa esmagar
ilusão é pensar
que há alternativa.

a poesia é uma janela
que se abre para o lado
de dentro
de um poeta.
o inverso. o avesso
fora, o mundo
dentro, um fundo
de verdade:

há um coração
a bater
em cada poeta
e a poesia
é o nó
que lhe acorda
a poesia é um nó
enquanto a vida,
é a corda.

e é preciso de um bocado
metros e metros
dela
para que o poeta não se enforque
de vez.