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terça-feira, 25 de abril de 2017

O Cordeiro do Sacrifício


Como acontecia frequentemente, o conselheiro Luís Galhardo almoçava nessa quarta-feira no restaurante Valadares, em Lisboa, com o seu amigo Vasco Corvelo, administrador principal do Banco Nacional de Investimentos. Falavam de negócios e saboreavam um carpaccio de lagosta, antes da chegada do linguado au meunier.
Se o Governo se decidir, finalmente, pela privatização da Caixa, é fundamental que eu possa subscrever, pelo menos, setenta milhões de ações — enfatizava Galhardo. Aparentava uns cinquenta e tal anos enxutos, o olhar decidido, as sobrancelhas negras fazendo contraste com o cabelo um pouco grisalho. — Quem entrar em força no capital do banco do Estado, fica com uma posição excecional no mercado. E um fluxo de dividendos inigualável. Nem a petrolífera é tão apetecível.
Eu sei, Luís. É um dos últimos baluartes que o Estado mantém. Todos os funcionários públicos lá têm conta. São valores baixos, mas são milhões de contas. — Corvelo tinha um perfil físico mais arredondado, o rosto rosado, um lábio inferior carnudo. — O teu problema é o aval.
Se o Estado alienar vinte e cinco por cento, convinha-me atingir uma quota de três por cento, o que deve rondar os setecentos milhões de euros.
Pode ser que aliene só dez ou quinze… — avançava Corvelo, cuja preocupação parecia ser a segurança dos empréstimos.
Hmm!, creio que irá bem acima. Repara que a dívida já é maior que o PIB. Só para os juros precisam de uns cinco mil milhões.
Também dependerá da cotação por ação, na oferta pública — ponderava Corvelo, enquanto bebericava mais um pouco de alvarinho.
Elas devem valer uns dez, dez e meio — racionalizava Galhardo —, mas o Governo vai fixar um preço mais baixo, com certeza, para que a operação seja um êxito. E será tanto mais baixo quanto mais incerta for a procura previsível, claro. Convinha que o mercado desse a entender que não tem um interesse por aí além, para que o preço não suba acima dos dez.
Mesmo assim, Luís, como é que queres atirar-te para setecentos milhões? Que aval é que podes garantir?
As ações, Vasco! Só as da petrolífera estão a valer cento e oitenta milhões. Todas juntas valem mais de trezentos milhões. Não é uma garantia a cem por cento, mas, na prática, chega bem.
Valem trezentos milhões, mas em que dia e em que conjuntura? É um valor virtual, Luís. Ações não são garantia segura e os bancos evitam fazer grandes empréstimos sobre carteiras de ações, como sabes. Preferem valores menos voláteis.
Também isso da garantia é uma exigência de segurança excessiva. Achas que as ações da Caixa algum dia vão cair abaixo dos cinco euros? Trezentos milhões é mais do que suficiente.
É chato! Vou ter um trabalhão para convencer os outros administradores.
Mas, não és tu que mandas? — gracejou Galhardo.
Não é bem assim; só valho um voto. Tenho é alguma influência... Mas preciso preparar bem a argumentação. Vou ter de apresentar uns gráficos com o teu crescimento económico, e outros com os ativos que já geraste para o banco.
Vá lá! Tu és capaz. — incitava Galhardo. — E já pensaste quanto é que este negócio vai render para o teu banco, se o empréstimo vier do vosso lado?
E também tenho de contar uma treta qualquer à comissão de fiscalização da Bolsa!
A comissão quer é não ter chatices!
Às vezes, ainda me vêm uns pruridos, ainda acho tudo isto muito pouco ético — confessou Corvelo, enquanto dava mais uma garfada no linguado.
Ética… A ética não produz dividendos. A nossa missão é ganhar dinheiro para nós e para os nossos — para a nossa família, para os nosso amigos, para os grupos que fazem andar a sociedade. No teu caso, para os acionistas. E nem sempre é barato ganhar dinheiro. Não te digo quanto é que transferi para uma conta da sogra de um secretário de estado. Eu tenho para mim, desde muito novo, que a gorjeta dá-se antes do serviço e tenho-me dado bem com o sistema. Fui sempre bem servido. Tu não queres ganhar dinheiro?
Eu quero, vou fazer os possíveis para que ambos ganhemos, mas não vais sem resposta; há quem parece que não quer. Tenho um cunhado, que encontrei há dias… É gestor de uma baiuca qualquer, na indústria. Aquele homem deve viver só do trabalho dele, é impressionante. Se visses com que carro ele anda!
Por que é que não o puxas lá para o banco?
E tentei! Propus-lhe um lugar de consultor. Nem precisava de lá ir. Não quis. E ainda bem. O tipo é um bocado esquisito. Ainda me criava lá algum problema, alguma contestação, alguma fuga de informações, sei lá? Nem ele se sentia feliz a trabalhar para uma empresa que tem o investimento de risco — a especulação, como ele prefere dizer — como princípio produtor de riqueza. Há pessoas que são felizes assim, o que é que tu queres?!
Mais razão me dás! A propósito — Galhardo baixou a voz —, foste convocado para logo à noite?
É secreto… Não, não fui. Aliás, não sou um dos grandes interessados diretos; tu, sim, queres atirar-te de cabeça.
Não sei quem vai lá estar. Aliás, é indiferente. Só espero que resulte.
Tu acreditas que aquilo tem alguma influência positiva nos negócios?
Olha, eu sei é que os que lá vão obtêm graças. É curioso, é como dar gorjeta adiantada.
Era preciso que Deus, ou lá que entidade é, se deixasse subornar com sacrifícios.
Na Bíblia, dizem que sim. Deus gosta do cheiro de carne na brasa. Foi por isso que o Caim matou o Abel.
Como assim, não foi uma briga?
Ciúme! O problema é que Deus deleitou-se com o sacrifício do borrego assado do Abel; para as frutas e legumes do Caim, nem olhou. A propósito, queres sobremesa?
Corvelo olhou em volta, disfarçadamente, até descortinar o carrinho de sobremesas.
Noisettes de morango com Porto; é isso. E tu?
Galhardo soltou-se em riso.
Desculpa, lembrei-me duma coisa. Como será uma sobremesa de carne? — riu-se de novo ao gesto lúbrico de Corvelo. — Não, falo a sério. Uma empada de borrego? Um creme de cabidela? Deus bem podia ter honrado alguma fruta do Caim para a sobremesa!
Após uma pausa para mandarem vir sobremesas, voltou à conversa anterior:
Para mim, aquilo é importante, sobretudo, pela força que criamos em nós, por sentirmos que estamos certos e que Deus está do nosso lado; e por nos sabermos rodeados por amigos empenhados nos mesmos objetivos, mesmo não lhes vendo a cara, não achas? A Ação ajuda os seus filhos, como nós a ajudamos. Os membros da Ação são como irmãos, não é… irmão? Olha, venham almoçar lá à minha quinta de Sintra, no domingo, está bem? A Matilde está farta de me dizer para vos voltar a convidar. Venham, que damos uma volta pela serra. Nesta altura está toda florida e o cheiro das acácias é sublime.

Conforme ditava a convocação cifrada, Galhardo chegou às onze e meia da noite à Quinta da Dedaleira, ele próprio ao volante de um carro pequeno. Envergava um albornoz negro com uma cruz de Cristo no peito. Recolheu-se uns minutos a interiorizar o ambiente e o espírito adequados à cerimónia em que iria participar. Antes de sair do carro, colocou o capuz bicudo, também negro, onde só duas aberturas ao nível dos olhos permitiam interação com o exterior.
Percorreu uma alameda sinuosa em declive ascendente, iluminada pela lua, ouvindo apenas os próprios passos, e entrou num túnel, disfarçado por detrás da cantaria de uma fonte. Parou a adaptar a retina à escuridão. Em vão. Resolveu ligar a lanterna do telemóvel. Não havia motivo para se arriscar a tropeçar e cair. Pouco depois, ao dobrar o cotovelo existente no túnel, vislumbrou uma luz ténue vinda do poço vertical escavado na encosta e apagou a lanterna.
Desembocou num ponto intermédio da escadaria espiral embutida na parede interna do poço iniciático. Olhou para cima. A uns doze metros, via-se parte da parede do poço iluminada pela lua cheia, enquadrando o círculo de azul profundo do céu. Para baixo, escuridão. Ouviu passos que desciam da parte superior. Estava na hora. Desceu, com cuidado, os sessenta degraus que o separavam do fundo. Aí, o diâmetro do círculo de chão marmóreo não ultrapassava os três metros. Na sombra, percebeu cinco vultos silenciosos, de que só se percebia o símbolo vermelho no peito, dispostos em semicírculo junto à parede. Ocupou o seu lugar e aguardou.
Pouco depois, chegou o irmão de quem ouvira os passos e outro companheiro que surgiu da sua direita, da galeria que dava para o lago. Em breve, os seus olhos estavam adaptados à escuridão e pôde perceber uma banqueta almofadada e uma grande cruz em aspa encostada e fixada quase verticalmente à parede curva. Ali, ocorreria o ritual que — acreditava-se — desencadearia o mistério da ajuda divina para os que a invocavam. Ele tinha algumas dúvidas, algumas reticências íntimas, mas não podia dar-se à ousadia de as deixar emergir demasiado. Não tinha bem a certeza de quem controlava o quê. Havia demasiados mistérios na vida, apesar dos muitos mecanismos de domínio e manipulação que já conhecia.
No alto do poço, surgiu um halo de luz que se deslocava ao longo da escadaria, fazendo as sombras das colunas desta viajar na parede oposta. Era o cordeiro do sacrifício que chegava. Reparou que todos os irmãos olhavam na direção da luz e percebeu uma certa ansiedade. Um irmão, quase à sua frente, começou a cantar, muito baixo e grave, quase em surdina, o Agnus Dei. Galhardo não teve dúvidas de que se tratava de monsenhor Benedito, o responsável pelas aplicações financeiras do santuário. Todos responderam, nas partes “aleluia” e “digno é o cordeiro”. Pareceu-lhe reconhecer as vozes do presidente do Banco Central de Negócios e do rival e vizinho, o milionário Ricardo Van Keizer. Quando já se via que a luz provinha de um grande círio empunhado por um irmão, começou a revelar-se a forma alva que o seguia. Era uma jovem de branco, com um manto que lhe cobria o cabelo. Galhardo pensou reconhecer, no irmão guia e ofertante, o passo oscilante do ministro das finanças. Fazia sentido.
Chegados junto da assembleia, este colocou o círio num suporte elevado da parede e conduziu a jovem até à banqueta, na qual ela se ajoelhou, de mãos postas e cabeça baixa. Monsenhor, seguido por todos, foi baixando o volume da entoação do cântico até se fazer silêncio. O ofertante puxou para trás o manto da rapariga, descobrindo-lhe a cabeça e revelando uma longa cabeleira escura. Envolvendo a cabeça, uma faixa púrpura com o logótipo da Caixa Geral de Depósitos bordado ao nível da testa. Olhando para todos os companheiros encobertos, através das aberturas do seu capuz, o ofertante anunciou:
Corpo do meu corpo, sangue do meu sangue: eis aqui a escrava do Senhor!
Avé, Maria, cheia de graça! — saudou monsenhor, postado à frente da donzela. — Glorioso será o fruto do teu ventre, que gerarás para nós, para a glória de Deus.
Faça-se em mim, segundo o vosso desejo! — acedeu a inocente.
Monsenhor colocou, então, a mão direita sob o queixo da jovem, introduziu a ponta do polegar na boca dela e anunciou baixinho:
O Senhor entrará a ti e tu produzirás os frutos da tua fertilidade e saciaremos a sede no teu úbere.
O ofertante ajudou a jovem a levantar-se, conduziu-a com doçura e encostou-a à cruz em forma de X. Fez descer a faixa púrpura, de modo a cobrir-lhe os olhos e olhou, de novo, para todos os circunstantes. Num gesto suave, puxou um laço que prendia a longa túnica na zona do pescoço, soltando-a. Esta caiu ao chão, revelando o corpo nu da rapariga. Era uma mulher jovem; “da idade da minha filha” — calculou Galhardo. Os seios eram fartos e estava rapada na zona púbica. Cada um dos dois irmãos que ladeavam a cruz pegou num braço da jovem, amarrou-lhe o pulso com uma fita também púrpura e ergueu-o até ao respetivo braço superior da cruz. Os seios da jovem subiram um pouco e afastaram-se um do outro. Com meia dúzia de pancadas que ecoaram pelo espaço cilíndrico do poço, os dois confrades pregaram as pontas da fita ao madeiro. A seguir, fizeram o mesmo às pernas: afastando-as, prendendo os tornozelos com fitas e pregando estas aos braços inferiores da cruz.
A jovem mulher mostrava-se dócil e submissa. Ofereceu, em voz suave:
Tomai e comei; este é o meu corpo!
Monsenhor aproximou-se de punhal em riste. Parou junto ao cordeiro da imolação, contemplando o seu corpo indefeso. Ergueu o punhal apontando-o ao pescoço, enquanto a mão esquerda segurava o queixo virado para fora, e susteve-se. Galhardo pensou reconhecer a mesma posição em que já vira representado Abraão sacrificando o seu filho Isaac, no momento em que um anjo interveio e evitou o sacrifício. Parecia que monsenhor estava a dar tempo ao anjo para intervir. A jovem inclinou mais a cabeça para a sua direita, oferecendo o pescoço branco.
Galhardo conhecia a jovem, das suas ligações mecenáticas à arte. Era artista de performance e já trabalhara várias vezes para a Ação. Ela e o marido cobravam uns poucos milhares de euros por uma sessão destas, sigilo incluído. Monsenhor encostou o punhal ao pescoço da jovem. Sob a lâmina surgiu um fio de sangue. Monsenhor fê-la deslizar em torno do pescoço nu, pressionando o botão que expulsava do recipiente do cabo sangue de galinha. Grossos veios vermelhos escorreram do pretenso golpe no pescoço unindo-o ao baixo-ventre e escorrendo pela face interior da perna direita, qual gargantilha de múltiplos pendentes longos e sangrentos. O sacrifício estava consumado. A jovem, em voz baixa, voltou a sussurrar:
Este é o meu sangue. Tomai e bebei!
Seguiu-se a fecundação ritual, por cada um dos oito comensais. Monsenhor aproximou-se, abriu o albornoz, agarrou os pulsos do cordeiro e encostou o corpo nu ao da vítima. Fez um movimento para a frente com a pélvis, exclamando:
Abundante seja o fruto do teu ventre!
Galhardo foi o penúltimo. Sentiu a tensão suave do peito da jovem a ceder ao peso do seu, sentiu os sexos encostados, viu à frente dos seus olhos o símbolo de três letras do corpo financeiro desejado. Um início de ereção manifestou-se. Fez o movimento ritual.
Abundante seja o fruto do teu ventre! — completou monsenhor.
Pouco depois, descia a figura arcangélica, pela escadaria. Era alto, de cabelos louros ondeados. Envergava um longo manto de brocado em tons de amarelo e vermelho. Na mão direita, um cetro da Ação, no ombro esquerdo, uma pomba de rabo de leque branca. Aproximou-se da mulher; a pomba voou para a cabeça da escolhida. O delegado da Ação soltou o manto, revelando o corpo nu, musculado e ginasticado. Adotou a mesma posição que os irmãos, havia pouco, executando suaves enleios das ancas. Monsenhor começou a cantar “Forte, forte é o Senhor”, acompanhado por todos. Pouco depois, o enviado penetrava o corpo exposto da eleita, manifestando ritmadas e enérgicas contrações dos glúteos. A assembleia em semicírculo, arrebatada, mantinha uma atenção intensa. O ato não durou mais de minuto e meio. O corpo cansado quedou-se em comunhão física com o corpo do desejo, o rosto tombado no seu ombro. Monsenhor retirou um círio aceso e, ainda cantando, dirigiu-se para o exterior, pela caverna do lago, seguido pelos outros irmãos, em fila cerimonial.

No dia seguinte, Galhardo tomava o pequeno-almoço no alpendre quando recebeu uma chamada do seu amigo Corvelo:
O Governo anunciou agora que vai privatizar vinte e cinco por cento da Caixa ao preço de oito e meio cada ação. Parabéns! Sempre vais conseguir levar a tua avante!
Hurra! — rejubilou Galhardo. — Não vejo a hora de pôr as mãos naquele banco! Agora só dependo de ti para conseguir o empréstimo.
Fica descansado; já comecei a tratar de tudo. Penso que para a semana já tenho notícias para ti. Boas, com certeza!
Ótimo! Outra coisa, já falaste com a tua mulher por causa do almoço de domingo?
Sim, sim! Ficou muito agradada com o convite. No domingo, lá estaremos para o almoço, com todo o gosto. Cumprimentos à Matilde.
O almoço constituiu um ensejo de maior aproximação dos amigos e também das suas esposas. Tantos interesses comuns elas encontraram que combinaram um salto de uma semana a Nova Iorque, para ver umas peças na Broadway, e para compras, claro.

Conforme tinha prometido, Corvelo tinha um empréstimo de setecentos milhões aprovado pela direção do Banco em menos de uma semana. A assinatura do contrato fez-se na sexta-feira, de manhã, na sede do banco de Corvelo, desculpando-se este com a insuficiência da garantia para a taxa de juro ser um ponto mais alta que o esperado pelo amigo. Galhardo compreendeu e aceitou, admitindo para si que até daria mais, desde que isso lhe permitisse aceder a uma fatia da Caixa. Em privado, revelou a Corvelo:
Quero agradecer-te por este empréstimo e pelo esforço que fizeste para o conseguir. Para te mostrar quanto estou reconhecido, quero convidar-te para uma sessão especial de que vais gostar, tenho a certeza. Eu depois confirmo as datas. Não marques nada para aqueles dias em que a Matilde e a Zizi estiverem para fora!

Na tarde do dia seguinte, um dia quente de princípio de primavera, Galhardo ligou para a rapariga da performance no poço iniciático:
Como está, menina Paula? Não me conhece, ou antes, nunca nos falámos, mas eu sei que faz performances especiais, para grupos muito selecionados. Foi uma pessoa altamente colocada que me deu o seu número. Estou a ligar-lhe, exatamente, para saber se está disponível para uma performance temática, desde sábado a oito dias, numa quinta em Sintra.

A primavera passou lenta e majestosa pela quinta de Galhardo e por toda a serra de Sintra. Impercetivelmente, os mantos amarelos das acácias deram lugar a matizados de castanho e verde profundo e as brisas de odores adocicados trazem agora cheiros sensuais de feno e madeira.
Correu bem a escapada a Nova Iorque de Matilde e da nova amiga. Voltaram radiantes e dispostas a outras aventuras por outras capitais de compras. Correu bem a escapadela de Galhardo e do amigo na recriação do episódio bíblico de Susana e os Velhos. Ficaram com vontade de aprofundar o estudo da Bíblia e selecionar outros episódios inspiradores.
Correu bem a privatização parcial da Caixa. O Estado encaixou quase seis mil milhões, o que permitia ao Governo aliviar por algum tempo o garrote inexorável da dívida. Correu bem a Galhardo a aquisição de ações da Caixa, apesar do receio de que os investidores estrangeiros, nomeadamente os fundos de pensões americanos, entrassem em força na operação, mas o Governo reservou dois terços do alienado para os investidores nacionais. Galhardo, sozinho, subscreveu e obteve os setenta milhões de ações que pretendia, pelos quais pagou seiscentos milhões. Nos primeiros quinze dias, o preço por ação manteve-se a subir, confirmando os palpites otimistas de Galhardo que aproveitou para acumular, aplicando os restantes cem milhões do empréstimo que ainda não tinha usado.
A partir daí, não correu tão bem a investida acionista de Galhardo. Devido a investimentos ruinosos do banco que suportava o seu rival Van Keizer, tornou-se claro, ao longo da primavera, que esse banco corria o risco de falência. Dizia-se que os administradores eram apenas homens de mão de Van Keizer para esvaziar o banco, desapossando liminarmente os depositantes. Acontece que alguns dos maiores depositantes eram organismos do Estado, atraídos por juros muito tentadores e pelo prestígio de sucesso de Van Keizer. Assim sendo, o Estado, na posição desconfortável de perder milhares de milhões se o banco falisse, resolveu nacionalizá-lo, assumindo os prejuízos, mas tomando em mãos a gestão do banco para não perder tudo o que lá tinha metido por interpostos organismos. Argumentou com o perigo de uma derrocada geral do sistema financeiro do país, mas Galhardo pensou que o facto de Van Keizer pertencer à Ação também teria pesado na decisão do Governo, embora nada mais pudesse fazer que conjeturar.
As perdas do banco nacionalizado eram bem maiores do que a princípio se pensou e, aos poucos, todo o encaixe que o Estado tinha realizado com a privatização de parte da Caixa foi metido no banco de Van Keizer. Na verdade, as perdas repercutiram-se nos outros bancos, o que fez cair as cotações das ações de todos. As da Caixa não foram exceção, caindo em três meses para menos de seis euros. Dadas as dificuldades gerais e da Caixa em particular, esta decidiu não distribuir os dividendos previstos para esse ano. O que tinha custado a Galhardo setecentos milhões valia agora menos duzentos e cinquenta, sem qualquer retorno. A sua garantia de trezentos milhões, que tinha parecido ser mais que suficiente, levou um rombo, quando também as ações da petrolífera caíram, devido à instalação próxima, no Alentejo, de uma fábrica de produção em massa de carros elétricos.

Desta vez foi Corvelo que convidou Galhardo para almoçar. Ainda antes de chegar o rosbife à hortelã, Corvelo encetou o assunto quente:
A tua posição é insustentável, tens de reconhecer. Acho que desta vez arriscaste de mais. Estou a ser pressionado por toda a administração e não há outra volta a dar, senão executar a tua garantia, para cobrir as perdas.
Eu sei que a coisa está feia, mas não achas que a Ação me podia dar uma mão, como deu ao Van Keizer?
É também por isso que tinha de falar contigo. O principal diz que tem de haver sacrificados, alguém que possa ser apontado como culpado. Usou especificamente o termo “cordeiro”. Ele acha que deves ser tu, por jogares um bocado fora do grupo.
Cordeiro!” Galhardo sentiu-se encurralado. O ímpeto predador de há poucos meses estava agora transformado em docilidade impotente.

No dia seguinte, compareceu à reunião convocada pelo banco de Corvelo. Uma dúzia de olhos severos anunciou-lhe que iam executar a garantia e tomar posse das ações da Caixa, que Galhardo subscrevera, dado que, tudo junto, mal dava para cobrir o empréstimo, sem falar nos juros. Que era só assinar um molho de papéis que lhe puseram à frente.
A sala de reuniões do nono andar era grande e estava desagradavelmente fria, devido ao ar condicionado. “Lá fora, o ar está morno”, pensou. Vistas de cima, as árvores do parque fronteiro pareciam colchões, fofos e penugentos. Juntou o maço de papéis que os abutres tinham posto à sua frente, bateu-os, alisou-os, avaliou a sua leveza, o seu volume e dividiu-os em dois molhos iguais, um em cada mão. Estava a poucos metros da janela; podia tornar-se um Ícaro dos tempos modernos, se quisesse. Queria? Teria coragem?
O toque de um telemóvel distraiu-o momentaneamente dos seus pensamentos. Corvelo atendeu, ouviu durante uns segundos e deixou escapar:
Forte é o Senhor!

Quinze dias depois, na sua quinta de Sintra, Galhardo reconhecido e já recuperado dos momentos tensos que tinha vivido, oferecia ao ministro uma performance temática — O rapto de Perséfone. A mitologia grega também era interessante.

Joaquim Bispo

* * *
Imagem: George Grosz, Tempo der Strasse [O Ritmo da Rua], 1918.

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(Este conto obteve o 7º lugar no Concurso Literário Osório Alves de Castro, da UFOB — Universidade Federal do Oeste da Bahia, Brasil, em 2016.)

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segunda-feira, 24 de abril de 2017

MICROCONTOS DE EDWEINE LOUREIRO






sábado, 22 de abril de 2017

A Princesa e O Sapo



Que se diga a verdade, as pernas abaixo não eram de sapo e sim de rã, mas como Wanderléia saberia disso se jamais aventurava-se longe do asfalto, se jamais queria o fora dela ou das unhas com motivos carnavalescos? Ora, era ela mulher de cidade, do aço, e para identificar além do rato ou da barata, quiçá da formiga, reclamava auxílio alheio e incalculável força emocional. Em sua defesa, esclareça-se, a citação ao bicho repetir-se-ia nas mil versões do caso, mesmo quando corrigissem o narrador, mesmo quando o óbvio surgisse e pulasse na ponta da língua. Assim são as histórias, nascidas entre erros e enganos, impossíveis de se contar à perfeição; e, mais, exigem um dissecar inverso e criativo que una e costure os fatos ignorados – seja através da fantasia, seja através de outras espécies de conhecimento.

Inquirida um dia pelo primo, Nésley, se comeria sapos ou rãs, ela negou, ofendida e curiosa de saber se a julgavam esfomeada. Não obstante, aceitou o apelo do Procurador Soares, homem novo com nome de velho, homem por quem ansiava um naco, convidada que foi nos corredores do Ministério Público; era tarde calorosa essa quando o ar-condicionado deixara de funcionar e os servidores passeavam, saltitantes, pelo corredor.

– Por minha conta, cantou ele ao final do convite, e acertaram o encontro para sábado.

Agora jantavam, as pernas de rã abaixo, e Wanderléia contemplava Soares (que cuspia ao falar) e os botões vermelhos de seu terno. Já engolira a primeira delas, e, gostando, espremeu suco de limão na segunda, vendo-o sumir por entre a pele frita e alaranjada. Separou, então, o maior pedaço e o alçou aos lábios; apesar da língua seca, sentiu desmanchar-se a fibra em suco próprio, cremoso. Acima rodava um luxuoso candelabro de velas amarelas, e as mesas aos lados, com rendas finas, espaçavam-se em lonjura adequada para amantes e amores; à frente, uma janela panorâmica exibia o anoitecer e o mais calmo dos lagos. Era a felicidade, assim julgou ela, sabendo faltar somente a crença absoluta, sapológica, na figura de Soares como príncipe definitivo.

Quem sabe se por ocasião da rã, quem sabe se pelo anel de ouro no mindinho dele, recordou Wanderléia quando lhe contaram a fábula do sapo que, beijado, transformara-se em príncipe. Buscando um amor fantástico, mas conveniente aos seus desejos e limitações, e, também, ao modo como narraria o banquete às amigas, decidiu por beijar a perna seguinte antes de comê-la – querendo assim igualar esse momento ao da história.

Agindo, pegou uma e nela roçou os lábios; ao sugá-la, estremeceram copos e talheres ante o barulho da sucção. Wanderléia chupou, e chupou forte, e com os olhos revirados, brancos, sentiu o membro trancar em sua garganta. A seguir, entre terror e alegria, ergueu-se, enquanto da boca originava-se um rugido de músculos violentados. Soares, célere e prestativo, socorreu-a, e abraçando-a por trás executou a Manobra de Heimlich, ou a esperança do engasgado: pressionou e soltou as costelas, mas logo sentiu-a desfalecer, morrer para sempre e para depois.


Lá fora, no lago, eram mil os coaxares.





quinta-feira, 20 de abril de 2017

Um cadáver em cima da mesa

Lindauro achava que eu era boba, mas não sou boba não. Esse meu jeito quietinho,
boca fechada que não entra mosca, bico calado, cabeça baixa e olho que não enxerga
é coisa pensada, que guardo só para mim. Mas ele nunca tinha provado da minha
vingança. Bobo é ele, que achava que indecência não tinha limite.

Nos primeiros três meses de casamento, descobri as gostosuras do único homem que
entrou no meu corpo e no meu coração, mas como disse, durou só três meses, logo
a gente enjoou. Ele era meio brutamontes na cama. No princípio até achei gostoso,
mas sentia falta de carinho e de algumas variedades que as vizinhas diziam que os
maridos faziam com elas. Variedades que sempre esperei que Lindauro me oferecesse,
mas ele, não, queria logo enfiar aquele jacarandá entre as minhas pernas, e vez ou
outra me mandava virar de bruços e foi aí que fui me desencantando, só dor.

Lá pelo sexto mês do casamento, ele me procurava uma vez em cada vinte dias e olhe lá.
Passei a desconfiar que ele andava pulando a cerca, mas, como eu disse, com meu jeito
boca fechada não entra mosca fui levando a vidinha com alguma esperança de que as
coisas podiam se ajeitar de novo. Ele comparecia com dinheiro para tocar a casa e
eu tocava a casa com o dinheiro dele. Dizia que eu não precisava trabalhar fora e eu
que não sou boba baixava a cabeça. Assim era o trato, sem conversa, sem um reclamar do
outro. Filhos? Nunca falamos sobre isso. Acho que até seria bom para me ocupar, mas
eu não queria filho de pai bêbado.

Justiça seja feita, ele era respeitador, me tratava com certo carinho e dizia que
gostava de mim. Nunca me bateu. Eu também nunca dei motivo para ele me levantar a
voz ou me sentar a mão.

Mas Lindauro andava cada vez mais ausente, chegando cada vez mais tarde do serviço,
trocando as pernas. E eu fazendo o serviço de casa e matutando que ele já estaria nos
braços de uma desfrutável, algumazinha qualquer que não sentia dor quando ele mandava
virar de bruços, vai ver que era isso.

O diabo era que eu gostava dele e achava que aquele Lindauro que me enfeitiçou na roda
de samba da Tia Zezé podia entrar a qualquer momento pela porta da casa. Quanto mais
ele se distanciava de mim, mais eu tinha saudade dele.

E por isso resolvi fazer uma surpresa no dia do nosso primeiro aniversário de casamento.
Preparei um estrogonofe com batata corada, arrumei nossa mesinha de fórmica na copa mesmo
– a sala só tinha sofá e televisão – dois pratos, talheres lado a lado, guardanapo de pano
enfiado numa fitinha do Bonfim, dois copos – um para água e outro para cerveja, que deixei
gelando desde cedo na parte mais fria da geladeira. Tinha pudim de leite condensado e
goiabada, ele poderia escolher. De manhã tinha ido na farmácia comprar um pote de vaselina,
queria dar uma chance a ele, agradar Lindauro de qualquer jeito, mas eu não era boba não,
não queria era sentir dor.

Quando deu 8 da noite, tudo estava pronto, eu de banho tomado e perfumada, com um vestido
justo que peguei emprestado com a vizinha Djaira, com a condição que, pela ocasião, eu não
usasse sutiã nem calcinha. Estava me sentindo uma porta bandeira, esperando os rodopios
do mestre sala.

Mas quando deu 9 da noite, eu comecei a pensar em assalto, desastre de trem, atropelamento.
10 da noite nenhum telefonema da polícia, hospital ou Instituto Médico Legal. Quando o relógio
avisou meia noite, eu tinha certeza que ela estava na safadeza mesmo. Recolhi o estrogonofe
e o arroz para a geladeira, deixei as batatas coradas na frigideira e fui para cama.

Tirei o vestido com cuidado para não amassar e me deitei nua, debaixo dos lençóis.
Uma da manhã, nada. Duas da manhã, nada, três da manhã nada. Fiquei com o olho aberto
grudado no teto com uma raiva danada. Quando deu cinco da madrugada, ouvi um barulho
de chave e passos andando na direção da cozinha. Fechei os olhos e fingi que dormia.
Percebi Lindauro entrando tropeçando no quarto, mas bem devagarinho. Senti que ele tirou
a roupa e se meteu nu na cama, passando a mão pelos meios seios. Mas ele pensava que eu era boba.
Dei uma virada de lado, seguido de um resmungo só para ele saber que naquela noite não
tinha mais nada. E logo ele adormeceu profundamente. Roncava com bafo de cerveja fermentada,
e para ter certeza que que ele não acordaria mais, segurei e sacudi o pau molengo dele,
que molengo ficou até eu desistir.

Levantei e fui beber água. Estava seca de raiva. E quando cheguei na cozinha vi um ramo
de flores enorme – deve ter custado dois dias de trabalho do Lindauro – numa cesta de vime
bem em cima mesa. Era tão grande que nem cabia no meio dos pratos, dos copos e os guardanapos
de pano. Desgraçado. Deve ter lembrado do aniversário do nosso casamento no meio da
frutricação com a vagabunda e deu-lhe remorso às 4 da manhã.

Ele pensa que eu sou boba, mas não sou boba não. Quando o despertador tocou às 6 e meia,
percebi o pulo da cama que ele deu. Percebi porque não vi. Estava na cozinha passando café.
Na mesa, duas xícaras, uma manteigueira e uma cestinha do pão que o padeiro deixa na porta
todo dia. O matagal de flores na cesta de vime continuava no mesmo lugar, nem mexi.
Deixei de proposito, porque quando ele fosse sentar não queria ficar olhando para a
cara dele nem que ele quisesse olhar para minha.

Quando ele chegou desenxabido, eu estava passando manteiga no pão com a faca de serra mesmo,
para não ter que lavar muita coisa. Ele tentou falar comigo, me deu um beijo na testa,
passou a mão nos meus cabelos, tentou bulinar o bico do meu seio direito, mas levou um chega
pra lá, sem palavras. Pensa que sou boba? Fingi que nada tinha acontecido. Ele acusou o golpe
e também silenciou. Acho que se serviu de café – as flores não deixavam que eu visse a cara dele
 -, também nada disse e saiu porta afora. Vai, traste, disse eu para mim mesma.

Às 7 horas da noite, ele chegou todo serelepe puxando conversa, perguntando o que tinha para janta.
Eu vendo TV, vendo TV fiquei, só apontei para a cozinha sem desviar o olho da novela. Ele não
teve coragem de falar nada. Não havia mesa posta, nem jantarzinho caprichado, só gororoba direto
da panela. E as flores continuavam lá, já com algumas mosquinhas rodeando as pétalas. Fui dormir
e nem levantei quando ele saiu para o serviço.

Foi sem café. Mas deve ter olhado o vaso de flores do jeito que ele colocou, a essa altura
começando a feder, parecia velório demorado. E assim foi no dia seguinte, no dia seguinte
do dia seguinte, na semana seguinte, no mês seguinte. Sem café da manhã, sem janta servida,
sem conversa, sem trepada. Mas com as flores sempre na mesa.

O pior que ele nunca mais chegou em casa depois das sete da noite. Deve ter combinado com a
vagabunda encontros na hora do almoço, sei lá, tanto faz como tanto fez, eu não ligava mais
para ele. Só queria mesada para coisas da casa e para ir ao salão.

Eu notava que ele queria conversar comigo, mas tinha medo. E eu não queria conversar com ele,
porque também tinha medo de perder a cabeça, e ter que saber coisas, e tomar umas decisões
que eu também não queria. E assim vamos levando a vida. Seis meses se passaram e a cesta de
vime com as flores continua lá na mesa da copa, do jeito que ele deixou na noite do aniversário
do nosso casamento.  Todas murchas, secas, nem feder fedem mais, nem mosca quer ficar em volta.

Ele achava que eu era boba, mas eu não sou boba não.





domingo, 16 de abril de 2017

Sete Segundos - Conto de Cristiano Silva Rato


0:00:01 – Reticências
      
          Prometemos nada. Nós. Extintos. Sanidades suicidas de lógicas pragmáticas. O velho blábláblá de sempre. Memórias. Sim, suas memórias, me vinham sempre à cabeça. Entende o que perfura o sentido? Os anos e anos de acúmulo do signo, estantes mofadas pelas goteiras das noites. Sempre. Sempre foram elas, e a madrugada queimando nos bancos sujos das praças. Meu nome. É vazio. Não existo. Sou um signo extinto de sentidos. Pontos se acumulam. Os braços sobem. Kamikazes, sem direção, de encontro ao corpo. A vida se acumula.


0:00:02 – Infância?

       Gritávamos. Ninguém nos ouvia. Subíamos em ônibus, nossa diversão preferida, em suas traseiras galopávamos no êxtase, assim como o cavalo no coito. As baforadas não tinham muito sentido. As horas olhando o relento, remoendo a correria e cuspindo seus restos. Não entendem. Ouço os passos de sandálias apressadas. Poeira cravada no rosto. A lápide urbana está esburacada. O vento acerta ferozmente meu rosto. Corta de tão gelado!


0:00:03 – Sobre a existência simulada…

        Nem tudo é dor. Há, sim, um estado de suspensão. Onde nada predomina, nem o pensamento atrapalha a racionalidade. Nem a racionalidade existe. E tudo é pueril. Mas sempre há sons e apelos nos jornais que atrapalham a humanidade de fluir pelos poros. Ficamos sujeitos a sermos atores. A existência. Estado cômodo de alucinação. As palavras estão cada vez mais vazias. Somente o acaso sobrevive à onda de ordens, buscando sentido.


0:00:04– Passeio ao shopping

         Hoje o sol seguiu-me baixo. Toda esquina que quebrava papelões decoravam o chão. Esguio. O caminhar continua apressado, enquanto os gritos do coração ecoam no corpo. Os motores, acelerados, decoram o ar. Todo nosso esforço transforma-se em ondas. Inertes. Circulando sem fim, problematizando teorias mal decoradas. Análises de mictoriais. Danças mal trajadas lambrisam as novas tendências da noite. Empurrei-o escada-rolante-abaixo. Dei-lhe em seguida uma voadora na cara. Tinham que ver. Logo. Lambuzei todas as mãos com áquea vermelha… Puta merda!


0:00:05 – Baseado.

        Dixavei o camarão. Minha mente mente, se agita e grita com a passagem do vento. Minhas mãos tremeram. Instantes. Ficou fritando. Vinha sempre à tona. Pensamentos. A que classe pertenço? Não sei significar mais pertencimento. Deparo. Dúvidas. Cortei a seda. Enrolei o baseado.


0:00:06 – Ode!
     
    As pessoas andam sem rumo, sumindo no horizonte. A sombra descansa pesadamente sob o castigo do meio-dia. As ruas à noite parecem rios turvo-secos pelas gradativas erosões, provocadas por irregularidades no ciclo lógico da existência do organismo. Terra. Meus pés não conhecem mais o gosto. Sentidos estão sendo privados, vagarosamente. Existe um complô de ideias. Injetam-me sutilmente imagens, obscenas, audíveis, como uma melodia suave, hipnótica. Esta é sua cultura, você não vê? Precisa de mais provas? A todo o momento: construa sua imagem. Você é seu Deus. Temos a nossa. Lavagem. Lavagem de ideias. Fodam-se as imagens. Somos ódio. Mudo se arrastando pelo canto sujo de um bueiro qualquer. A cidade me moldou à sua sombra, tegues manchando sua assepsia. O ar séptico; é impossível culpar os culpados.  
       Lancei o detona enquanto um vigiava uma ponta e outro, a outra. O coração acelerava e, com os pulsos explodindo a todo o momento, era difícil controlar a tala. Precisava às vezes de aditivos. É molesto suportar horas em frente à TV vendo palhaços com nomes engraçados e sobrenomes nobres. Quando a luz brilhou, no fim da rua, já sabíamos o que fazer. Abaixei lentamente a mão e segui os olhos na direção oposta. Descartei o bico fino. Puta que pariu, era o único que tinha. Dispensamos a tala também. O coração acelerado, junto ao barulho do motor silencioso do controle social. Meus braços contraíram-se no corpo. As pancadas às vezes não deixam cicatrizes, mas hematomas.



0:00:07 – Binômio

       O sentido. As malas viraram cuecas emporcalhadas por caralhos mal lavados e carregam agora as modas cada vez mais frequentes de jogatinas e espetáculos modernos. Você sabe do que estou falando. Vagava no escuro. O medo fuzilara a parede onde estava. O pensamento ia e vinha, farol alto na neblina da madrugada. Os instantes são transformados em pontos de interrogação. As vulvas do peito surram a pele, corpos alucinados se envolvendo em uivos. O silêncio.









sábado, 15 de abril de 2017

sábado de aleluia



Levavas um vestidinho de um tecido sedoso enrameado que a Primavera começara e tu sempre gostaste de vestidinhos vaporosos. Tinha manguinhas franzidas no ombro que mal cobriam o cotovelo e, do decote em bico, bem rasgado sobre o teu seio farto, saiam meia dúzia de botõezinhos forrados no rosa velho das florinhas que salpicavam o tecido em tom de pele de rato muito clarinho. A roda da saia era apenas a que resultava de quatro pregas, fundas como quatro dedos unidos, que abriam mal saiam da cintura. Fizera-to a Aninhas a quem pediste que guardasse segredo, mas que o vestido era para ires de noiva, e ela abriu a boca mas não disse o que quer que fosse que, se era segredo, o que ela devia era cumprir o seu dever de costureira e ter o vestido pronto no aprazado dia que seria Sábado de Aleluia, como tu tinhas dito e já tinha sido Domingo de Ramos. 
Uma correria. E Aninhas, a pensar nas noitadas costurando-te o vestido, não fez comentários que não fosse dizer-te cada uma das medidas que ia apontando num caderninho de capa gasta pelo uso. E quando te mediu as ancas e a cintura, repetiu a medida tornando a envolver-te o corpo com a fita enegrecida de tantas dedadas. Mas, além de enumerar em voz audível, os centímetros que ia escrevinhando no caderno, manteve-se discreta, tão discreta que tu, antes de saíres, e tendo já marcado o dia da prova, lhe disseste, peremptória: casamos pela igreja, a seguir à missa do meio dia; e saíste sem olhar a cara de espanto da Aninhas.
Casaste, sim, nesse sábado e, quando entraste na igreja, havia um odor intenso a alecrim que te deixou ainda mais almareada do que já estavas e, comentaram as tias, seria da ansiedade.
Elas lá estavam as tuas tias maternas, ambas senhoras de respeito, ambas solteiras e com carrapitos enfeitados por chapelinhos e redes que lhes desciam pelo rosto; e casacos, como se estivesse frio e na igrejinha estava, realmente, fresco, mas lá fora abafava naquela hora de meio-dia e um quarto que tu olharas o relógio do campanário quando o senhor Almerindo te abriu, cerimonioso, a porta do carro de praça em que te trouxe e mais o teu padrinho Henrique que desceu a seguir a ti com o chapéu na mão, envergando o mesmo fato preto com que se tinha casado e ficara viúvo. A gravata era nova. Comprara-a na última ida à cidade: dourada com salpicos encarnados. A empregada da loja tinha-lhe, até, dito: parece um rapaz novo! e o teu padrinho nem tinha apreciado. Elegantes, tu e ele que te deu o braço como se fora o pai de quem nunca tinhas sabido sequer o nome.
Defronte ao altar, ajoelhaste no genuflexório de madeira escura forrado a veludo vermelho e fizeste o sinal da cruz numa lentidão que era modo de atalhares o desassossego em que estavas, e balbuciaste, os olhos postos no sacrário: meu Deus, ajudai-me.
Nunca mo contaste: eu fui adivinhando.
Adivinhei-te como o fez a Aninhas a medir-te a cintura e as ancas.
Hoje, que passa novo Sábado de Aleluia, confesso-te. Hoje que o tempo para ti já nem tem significado e mais centímetro, menos centímetro nada dizem do teu corpo.
Esqueci-me de escrever que levavas uma encharpe, um veu grande rendado e alvo que te tapava o corpo até ao quadril e te cobria as duas tranças presas no alto.

E não disse, nem vou dizê-lo, quem era o teu noivo que veio vestido de creme com um papilom cor de ervilha no pescoço. Adivinhe quem leu.





quarta-feira, 5 de abril de 2017

vulto



meu nome é vulto
ando sem ser percebido
escrevo em paredes
apedrejo vidraças
emito sinais de fumaça aos vivos
arrasto correntes
bato de frente com rótulos
e poderosos que arrotam mentiras
do alto de seus cascos edificados
com mão de obra escravizada
na imensa roda da vida

meu nome é vulto
vulgo cidadão que paga imposto
a contragosto
onde todo mês é de cachorro louco
e o todo que me é furtado
me deixa assim pelas beiras
em trincheiras que eu mesmo cavo
rodeado de amigos
que nunca deram um tiro
mesmo estando com a arma
e o coração na mão





domingo, 2 de abril de 2017

ECUMÊNICO



 


Ele, judeu; ela, muçulmana. Não precisavam de sinagogas ou mesquitas para saber que nem só de ódio vive a Faixa de Gaza.


(11º lugar na Semana I do II Prêmio Escambau de Microcontos - Fortaleza/Janeiro de 2017)





domingo, 26 de março de 2017

Fecunda

Pra que outro filho, Maria? Já não basta? Ouvia dos amigos, irmãos, vizinhança, até da mãe. Mais um? Pra que mais tormento? E nova barriga se espichava, ano sim, ano sim. Botar no mundo pra sofrer e fazer sofrer? Ideia de jerica.

E Maria continuava gerando vida, certa de que assim era o certo, não exagerava. Casa sem berço é tristeza. Lar sem criança, aridez.

O marido não concordava nem se opunha. Pois se era isto que movia a mulher: a chance de ser mãe de novo e de exibir o quartinho amontoado de anjos. Teimosia? Dádiva? Não planejava nada, não remediava. É Deus quem dá. Ela sempre se alegrava com as boas-novas que chegavam, embrulhadas em fome e choro. Nem dormir fazia falta. Acostumou-se logo a atender filho doente e ninar filho manhoso. Um atrás de outro, às vezes um junto com outro.

Tinha pouco estudo, nenhum dinheiro. Não seria doutora nem teria luxo. Nunca viajaria para o Exterior nem conheceria Marte. Parar de parir por quê? Ir contra a natureza, se meu ventre acolhia tão bem cada nativo, se o mundo me pedia mais presente?

Andaram receitando umas ervas pra ela, umas pílulas, livramentos; mas ela rejeitou tudinho. Quem disse que eu quero tirar? Nem a cirurgia fez efeito. Engravidou logo depois e nem ficou triste. Só entendia de silêncio, aceitação, obediência. Andaram catequizando a mulher a favor do aborto, do direito de escolher.

Respeitem a minha opção. Eu só presto pra isso. Me deixem ter meus filhotes.

Você também pode doar os bebês, Maria. Tanta gente querendo adotar filho saudável. Vocês passando tanta necessidade.  

Nada disso. Ninguém sai daqui. É tudo meu. Sadio ou doente. Quanto mais, melhor.

Não se podia negar. Era boa parideira, jorrava leite e energia. Nunca se viu tão bom aproveitamento da idade fértil. E começou cedo, na adolescência. E demorou chegar à menopausa. Gostava de pelejar com os pequetitos e vê-los crescendo, ganhando peso, arranjando asa nesse mundo. E uns ajudando a cuidar dos outros, bebês virando adultos. Mãe e avó ao mesmo tempo. Dividia os grãos, cada vez em menor número, dentre cada vez mais bocas! E todas queriam comida e carinho. Mas não lamentava.

Ninguém entendia Maria. Em tempos tão difíceis, arrumar tanta criança! Em tempos tão modernos, meu Deus, quando já existe tanto jeito de evitar. Um filho, dois no máximo. É doida essa Maria.

O rebanho aumentava como bênção. Chuvinha fina, gotejando dentro de casa, transbordando nos colchões amontoados. Era menina, menino, menina, menino. Muita doença, muita falta, dificuldade no sustento; mas o colo de Maria estava sempre ali para acalmar, acomodar. Dava conta de tudo. Acalentava os filhos como quem nina o próprio Cristo. E eram tantos, que nem havia espaço para ciúme, disputa, egoísmo, discussão naquela casa. Havia uma história de paz costurando aquele povo. Tanta gente precisada, e uma harmonia que não se vê fácil por aí.

Quando morreu, missão cumprida, dezenas de filhos, netos, bisnetos, ninguém ousou criticar a opção de Maria. Só se ouvia elogio àquela que, enfim, descansava. Sequer reclamaram do testamento miserável. O silêncio sofrido que se ouvia no velório era de gratidão. Velavam ali uma grande defensora dos direitos humanos. Cada descendente depositou uma flor do campo sobre a urna. Nossa Senhora da Esperança, Nossa Senhora do Presépio, Nossa Senhora da Natividade. Cada um rogava. Obrigada, dona Maria, por tanta vida causada.

Maria Amélia Elói





sábado, 25 de março de 2017

A transmutação


Quando Cacilda deu por si, após um curto período de sensação de irrealidade, percebeu que se transformara numa árvore do jardim em frente de sua casa.
Permaneceu de braços levantados, curiosamente sem esforço, e pernas bem metidas na terra, como quem tem medo de se mexer em uma situação de perigo. Não conseguia discernir sons nem imagens, mas a agitação do ar trazia-lhe muita informação óbvia e outra que ainda não sabia bem interpretar, o mesmo acontecendo às subtis vibrações do solo que lhe faziam tremelicar as pernas.
«O que terá acontecido?», surgiu na nebulosa da sua consciência, o que lhe transmitiu um instante de confiança, por, ao menos, perceber que dispunha dessa capacidade de controlo de si. «Talvez tenha tido uma quebra de tensão quando me levantei. Ou já estava a tomar banho? Não me lembro.»
Era uma chatice, de qualquer modo: entrava às 10 no supermercado e não estava a ver como podia chegar a horas. Felizmente que no início do dia havia poucos clientes e talvez as colegas conseguissem aguentar o serviço sem grandes complicações. Mas do raspanete da chefe não se ia livrar.
Avaliou a situação com mais detalhe. Era mais do que as pernas o que tinha enterrado. Percebeu a pressão da terra até ao alto da anca, o que um leve roçar das ervas que lhe tocavam veio confirmar. Para baixo, era humidade e tensão firme. E uma certeza de imobilização. Para cima, secura, agitação do ar e vibração luminosa. Com esta vibração vinha um conforto de ganho de energia. Não enchia quaisquer pulmões, mas a sensação de plenitude respiratória era real.
«Estou com a pele muito rugosa», percebeu. «Então as partes da barriga e do peito estão bem escamosas. Peito, salvo seja. Está mais espalmado do que quando me deito de costas. Só se forem aquelas elevações junto à confluência dos braços mais baixos. Caramba! Se tiver de aplicar cremes a este corpanzil todo, tenho de trazer a prateleira inteira», gracejou com a situação.
Percebeu o carro dos do 3º andar a arrancar. «Ainda bem que não me viram.» Pouco depois, a vizinha da cave a passear o cão. «Se se aproximar, é capaz de reconhecer a tatuagem em forma de coração que tenho ao fundo das costas... Não, acho que nem olhou. E se o cão me vem urinar ao troço… Faço o quê? Atiro-lhe com umas pétalas? Nem sequer ainda tenho vagens rijas… Ai a minha vida!»
Percebeu pela primeira vez o toque múltiplo do que deveriam ser insetos. O primeiro pensamento foi de incómodo, mas pouco depois toda aquela azáfama por sobre o seu corpo, se lhe podia chamar isso, tornou-se confortável e até sensual.
«Sensual, como? Aonde fui buscar esta ideia?», admirou-se. Então percebeu que o seu sexo estava distribuído por uma miríade de pontos do seu corpo, onde as abelhas se atarefavam na recolha de pólen, o que lhe transmitia múltiplas sensações de regozijo. «Devo estar a fazer uma linda figura, de múltiplos braços no ar a agitar pequenos sexos coloridos, entusiasmada com os toques de quem chega, entra, deixa sémen de outras árvores que nem sequer conheço e se vai embora sem um beijo de despedida...» Sorriu-se com o próprio gracejo, mas duvidava que algum outro ser o tivesse notado.
Ser caixa no supermercado era muito cansativo e mal pago, mas tinha essa particularidade de permitir o contacto com muitas pessoas. Durante uma jornada de trabalho trocava palavras, sorrisos, olhares e toques de mãos com dezenas de mulheres e homens. Desde os gatões aos velhadas. Fora lá que conhecera o último namorado, da lista que já ia longa e mal sucedida. Fora assim num toque casual, na entrega do troco em moedas em que algumas tinham caído e houvera risos e troca de gracejos. Ele devia ter gostado, porque quando voltava procurava sempre a caixa dela. E voltava cada vez com mais frequência. Enfim, o costume, em tudo. Ao fim de uns meses a viverem juntos, arranjou uma desculpa esfarrapada de que precisava de espaço. «Espaço… Ele é que devia estar aqui para sentir o que é falta de espaço para as pernas.»
«A esta hora já deram pela minha falta. Vou ter de inventar qualquer coisa com a saúde da minha mãe. Lá se vai um dia de salário! E se isto se prolonga? Quem virá à minha procura? Não será a minha mãe, com certeza, que fica pesarosa quando não lhe atendo o telefone, mas mal sabe onde moro. E os ex-namorados foram de vez.»
Com o avançar do dia e do calor, os festões olorosos de flores brancas, pendentes dos múltiplos ramos da acácia bastarda em que Cacilda se transformara eram uma atração irresistível para muitas dezenas de abelhas e besouros. Ela não lhes resistia, antes se expunha, num deleite físico de entrega, à orgia que os insetos representavam. Nunca se entusiasmara com a ideia de ter sexo com mais de um homem, mas certa vez acontecera. Não gostara. A ilusão de excitação acrescida gorara-se em grande medida. Era muito membro para dar atenção, muito físico e pouca alma, egoísmo a dobrar.
«Será que vou passar aqui a noite? Deve estar frio.» A noite foi estranha. Com o entardecer veio uma espécie de sufocamento. As folhas já não recebiam luz, já não lhe transmitiam energia. Teve medo. Então, paulatinamente, recomeçou a “respirar” com conforto, expirando o que a estava a entupir. Frio não sentiu muito, só um ténue encarquilhamento das folhas. Deixou-se entorpecer, num sossego de que tanto precisava.
O novo dia trouxe-lhe a perceção ténue, fluida, da absorção que se produzia nos recônditos que os seus membros inferiores alcançavam. E a primeira ideia de imobilidade subterrânea também era falsa: impercetivelmente, as suas extremidades tateavam, sondavam e deslocavam-se milimetricamente para a humidade. E bebiam. «Ali, pelo menos, a pele deve estar bem hidratada.» E quando a orgia floral recomeçou, intuiu claramente os movimentos ínfimos que se produziam dentro das suas corolas. E esse conhecimento trouxe-lhe uma alegria que nunca tinha podido sentir — a de que ia ser mãe. Percebeu a evidência do processo de chegada dos frutos. Daí a uns dias, não podia ainda calcular quantos, ia “parir” vagens cheias de sementes. Era de uma grande ironia o que lhe estava a acontecer. E de certo modo trazia algum consolo às injustiças da vida. Ia gerar centenas de filhos, poucos meses depois da constatação dramática de que lhe tinha cessado o período. E não cessara por estar grávida, que já não estava com um homem havia quase um ano. «Nem tudo é mau», alegrou-se. Aliás, avaliando bem, quase tudo naquela situação era melhor do que na sua vida. Não precisava de ir aturar a chefe e toda a gentalha consumista. Não precisava das angústias de esperar por um homem, nem das humilhações de ser preterida ou rejeitada. Não precisava de se angustiar com o envelhecimento da sua mãe. Só ainda não tinha certeza se ia conseguir habituar-se a passar a vida sem sair do mesmo sítio. Muitas vezes, da janela do seu 2º andar, contemplara a acácia e a lamentara exatamente por esta imobilidade forçada. Mas, talvez, algumas vezes tivesse invejado a sua exuberância de flores e frutos, inconscientemente, pelo menos. Seria esta transformação um “castigo” por aquele pecado de inveja?
Esta lembrança e as conjeturas bizarras que lhe acudiam, trouxeram-lhe, no momento, uma suspeita assustadora: «E se tudo isto não passa de imaginação, de ideias na minha cabeça? Será que estou à janela a imaginar que sou uma acácia? Lembro-me de, há muitos anos, ter andado “cismática”.» Assim, explicava-se a sensação de irrealidade que experimentara antes de se ver transformada na acácia. Concentrou-se na hipótese, mas daí a pouco pareceu-lhe tão ou mais bizarra do que a própria transformação. «Mais provavelmente sou uma acácia que pensa que pode ser uma mulher na janela do 2º andar a imaginar-se acácia», riu-se, o que, desta vez, transmitiu uma ténue agitação a algumas das suas folhas. De qualquer modo, não havia como saber. Esta constatação foi o primeiro passo do necessário processo de habituação ao seu estado e de aceitação da ideia.
Com a chegada do verão e as cigarras a fazerem vibrar o ar que envolvia o seu corpo carregado de vagens pendentes, como uma mãe cheia de filhos, mais do que resignar-se à sua condição, abraçou-a com todos os ramos da sua fronde.

Joaquim Bispo

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Imagem: Gustav Klimt, A Árvore da Vida, 1909.
Museu de Artes Aplicadas, Viena, Áustria, 102 x 195 cm.

* * *
(Este conto recebeu uma Menção Especial «pelo seu realismo mágico e muita criatividade» no Concurso Literário da AFEMIL — Academia Feminina Mineira de Letras —, Belo Horizonte/MG, Brasil, em 2016)

* * *
[Esta é a minha humilde homenagem a Kafka e à sua obra “A Metamorfose”, publicada há 102 anos, e que se tornou uma das mais importantes obras de referência da Literatura contemporânea.]

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