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quinta-feira, 28 de julho de 2016

BANDIDO



Bandido era bicho de estimação da mãe idosa de minha vizinha. Os três moravam no 606, aqui mesmo, no Edifício Olympya, dois andares acima do meu. O gato não incomodava ninguém. Raramente era visto pelos corredores do prédio. Nem sequer miava. Um santo. Já a velha, dia e noite, aos gritos, pedia pela presença da filha. Chamava-a de muitas coisas, mas nunca pelo nome de batismo. Apenas ao animal a velha dirigia carinho, e dele jamais ganhara sequer um ronronar de agradecimento. Bandido era só fome e silêncio. Um anjo.

Depois da morte materna, minha vizinha herdou o apartamento e o gato. Não apreciava a companhia de nenhum dos dois, mas não tinha para onde ir e nem quem lhe estendesse amizade. O ranço materno havia destruído qualquer possibilidade daquela jovem senhora estrear uma história diferente. A velhice já se desenhava nos cantos de seus olhos e de sua boca. E ninguém abriria mão da própria vida a fim de cuidar de suas futuras dores.

Chamava-se Aldegunda. Muitas vezes me perguntei por que ela não se presenteava com um nome de fantasia, ao menos para desempenhar, sem constrangimento, a profissão de corretora de seguros. Aceitava, resignada, o nome embaraçoso. Carregava-o nas costas arqueadas, nos cabelos descuidados e na voz tolhida, de quem pede licença e desculpas por tudo. Era como se ela não pudesse tornar-se Beatriz, Viviane ou Narcisa. Estava condenada a ser Aldegunda.

Apesar de odiar o felino com quem dividia o apartamento, não o deixava passar qualquer tipo de privação. Uma vez a cada trimestre, levava-o em uma gaiola ao veterinário. Jamais o carregou nos braços e ele também não fazia questão de tal excesso. Um pacto de invisibilidade tornava aquela estranha convivência menos conturbada. Não cobravam um do outro o que não podiam, e nem queriam, oferecer. Resultando em uma relação distanciada, mas satisfatória.

Há três semanas, algo fora da rotina do 606 aconteceu. Minha vizinha havia chegado chateada de mais um dia improdutivo de trabalho. A fim de não encontrar o gato, passou pela sala quase de olhos fechados e, atrapalhada, abriu a porta do quarto. Sobre os lençóis recém-lavados, Bandido lambia as partes, enquanto uma das patas, em riste, acariciava a parte detrás da nuca felpuda e castanha. Tomada por uma fúria desproporcional ao delito do bichano, Aldegunda avançou sobre ele e deu-lhe um sopapo violento. Traído pela mão que deveria preservar-lhe a integridade, apesar das rusgas cotidianas, o animal devolveu a agressão com uma generosa mordida. O contrato fora quebrado naquele instante por ambas as partes.

Os dias passaram e eles não voltaram a ter novo embate. Mesmo assim, Bandido entendera a porta do quarto — agora sempre trancada — como declarado sinal de guerra. O bichano percebia no olhar da dona algo terrível se materializar, mas nada temeria enquanto tivesse o arranhador da sala, no qual, matreiro, demonstrava fingido desinteresse por tudo e por todos.

Saber da realização do 19º Congresso Brasileiro de Corretores de Seguros, em Foz do Iguaçu, não causaria grande expectativa em Aldegunda, pouco afeita a reuniões sociais. Ali não se desenhava uma oportunidade de confraternizar com os colegas de categoria, mas de punir severamente o inimigo íntimo. O congresso duraria três dias, tempo suficiente para um gato sem comida ou água aprender uma terrível lição. E assim minha vizinha fez. Arrumou as malas, bloqueou todas as vias de acesso às pias e torneiras, certificou-se de que não havia escapatória do apartamento, e largou Bandido no interior frio e cruel daquela vendeta.

Instalada na suíte 1405 do Rafain Palace Hotel, Aldegunda atirou-se à cama e riu com prazer. Cheirou as colchas, experimentou as loções de banho e olhou através da janela como se o mundo, pela primeira vez, lhe pertencesse. Da varanda, aspirou o ar fresco e conferiu o movimento dos carros lá embaixo. Cuspiu e observou a saliva misturar-se à noite. Apesar de ser-lhe um sentimento estranho, ela deveria estar realmente feliz. Preferiu não participar do jantar de abertura do evento. Dormiu cedo sobre colchas perfumadas, após banhar-se em loções refrescantes. Deixou as persianas abertas e espiou o mundo até o sono envolvê-la. Satisfeita, sonhou que era livre.

Um miado — quase inaudível, como se viesse de dentro de uma caixa esquecida no fundo do oceano — acordou Aldegunda de seu sono. Intrigada, encolheu-se sobre a cama e apurou o sentido da audição. Abriu muito os olhos a fim de escutar melhor, mas só ouvia o ar-condicionado. Riu de si mesma e decidiu aprontar-se para o passeio promocional às Cataratas do Iguaçu. Antes de entrar no banheiro, escutou outra vez o odioso som. Enrolou-se apressada na toalha e retornou ao quarto. Olhou sob a cama, atrás das cortinas, dentro do armário. Nada. Raciocinou por um instante e então se lembrou de que o hotel não aceitava animais. Desistiu de enlouquecer e planejou os detalhes de sua imersão na natureza. Contudo, a aventura não saiu bem como descrita no catálogo. A experiência poderia ter sido arrebatadora, se não fosse por aquela miadeira infernal. Aldegunda precisava fugir para longe do angustiante ruído, pensou em atirar-se às corredeiras, e foi detida por seu medo de água fria. Constrangida, atrapalhou o passeio dos demais e deixou o barco.

Os travesseiros não ajudaram, nem mesmo o Rivotril surtiu efeito. Não havia gato em parte alguma. Os miados continuavam ali, fantasmagóricos, como um agouro. Aldegunda ainda tentou assistir a uma das palestras, mas foi impossível. A frequência e a amplitude do lamento felino aumentavam a cada instante, conferindo à mulher uma aparência de louca.

Vencida, minha vizinha fechou a conta do hotel e pegou o primeiro avião de volta a casa. Nem mesmo os fones de ouvido foram capazes de tornar a viagem menos tortuosa. Os miados continuaram incessantes, dentre os assentos e nos bagageiros acima das cabeças. Tenho medo de voar, explicava-se aos passageiros que se divertiam com sua aflição. Temia o fantasma do gato, a loucura. Desesperada, rezou. Repetiu todas as orações das quais se lembrava, até o avião pousar. Mas Deus não atendeu as preces. Haveria um deus dos gatos?

No caminho até o Olympya, explicou de modo custoso o endereço ao taxista, que se sentiu à vontade em cobrar-lhe um pouco mais. Os miados avançavam sobre os ouvidos feito um mantra demoníaco. Imaginou a mordedura cirúrgica de Bandido sobre seus tímpanos e chorou com as mãos postas sobre as orelhas. Pagava um preço altíssimo pelo sadismo infantil ao qual se rendera há dois dias. Louca ou amaldiçoada? De certo, arrependida.

Aldegunda sofreu por alguns instantes diante da porta do apartamento, antes de conseguir encaixar com sucesso a chave na fechadura. Uma, duas, cinco, sete tentativas. Quando finalmente girou a maçaneta e o ferrolho liberou a entrada, a porta se abriu e um silêncio abismal confortou os ouvidos feridos. Aquela deve ter sido uma sensação maravilhosa, pois minha vizinha chorou de contentamento, agradecida.

Como um raio, Bandido passou dentre as pernas de sua agressora e sumiu na direção da escadaria. Rapidamente, ela saltou para o lado de dentro e deu duas voltas na chave. Nunca mais deixaria o bichano retornar. Nunca mais. Porém, antes que pudesse planejar uma vida sem a presença do animal, escutou a voz da mãe morta chamar-lhe pelo nome: Aldegunda!

Desde então, seu apartamento se encontra vazio. Foi levada do Olympya por uns homens vestidos de branco, muito sérios.

E como eu sei de tudo isso? Porque nem sempre eu fui seu vizinho. Houve um tempo em que eu morava no 606. E lá, minhas antigas donas me chamavam de Bandido.

Emerson Braga






terça-feira, 26 de julho de 2016

Boa noite

Vinte e cinco anos, no máximo vinte e sete e meio. Cabelo bem aparado, batom alegre. Unhas ilustradas, brincos balançantes. Nunca vi tão bela operadora de caixa de supermercado. Escolhi a fila dela para passar minhas compras de terça-feira. As outras linhas estavam cheias, carrinhos abarrotados no aguardo. Uma outra fileira era de atendimento prioritário.
Eu vinha de um dia exaustivo de trabalho em vias de trânsito entupidas, prenhes de impaciência e desmesura. Esperei uns minutinhos e dei um boa-noite caprichado à moça do caixa. Ela não respondeu. Nem olhou na minha cara. Repeti, alteando a voz: “Boa noite. Tudo bem?”. Ela não levantou sequer o olhar. Perguntou apenas se eu queria o CPF na nota fiscal e, ligeiramente, passou no leitor digital os itens que escolhi.
Era tão desenvolta, tão competente a moça das unhas desenhadas! Mas desprezou meu boa-noite. Tão cheia de amanhãs a operadora daquele caixa de supermercado! Mas não era de cumprimentar clientes. Trabalha, cumpre a carga horária e não dá prejuízo à empresa. Não é sua obrigação dizer olá, bom dia, volte sempre. Foi contratada e exerce bem seu ofício de registrar mercadorias e receber o pagamento exato do freguês. Está tudo certo. É fiel ao emprego. Não precisava mesmo me devolver o aceno. Não precisava ir além. Pra que tanta exigência de minha parte? Por que criar vínculo com o consumidor? Deve ter uma mãe acamada, um marido violento e um filhote quase bandido. Deve estar de aviso-prévio, apesar da eficiência. Deve se chamar Rodovânia.
Quando voltei ao estacionamento, um flanelinha me esperava de sorriso largo. "Boa noite. Guardei bem o seu carro". Não lhe fixei os olhos. Não lhe dei ligança. Por que deveria perder tempo com um pedinte? Pra que a ousadia da intimidade?

Em casa, as crianças fizeram festa com os sucrilhos e iogurtes que levei. Não lhes fiz carinho nem permiti liberdades. Proibi brincarem com meu cabelo e me irritei com a bagunça em cima da cama. O marido me abraçou zeloso, mostrando a arte nova que havia criado. Afastei-o com um sorriso abatido, sem viço. Fui deitar doente, indisponível, encaixotada, sem dar nem um boa-noite. 

Maria Amélia Elói





segunda-feira, 25 de julho de 2016

Obsessão



Fernando Nunes tinha a certeza de que as forças encobertas não deixariam passar aquela ocasião, não iriam ignorar aquele descuido fatal da sua segurança. Morreria nesse dia e sabia como, só não sabia de onde surgiria o golpe decisivo.
Não era supersticioso. Ou, pelo menos, achava que não era. Aliás, fazia questão de mostrar que não ligava a gatos pretos, nem se inibia de abrir guarda-chuvas em casa ou de passar por baixo de escadas. É certo que o fazia com algum acinte e esforço de racionalização. Sabia perfeitamente que certas superstições radicavam em sabedoria prática, que tinha degenerado em norma dogmática de difícil justificação e muito pouco questionamento. Usava, no entanto, de um cuidado redobrado nessas situações potencialmente nefastas. Agora, o caso era perigoso.
Esse esforço de racionalização vinha já da infância e da juventude. Então, muitas vezes se sentia compelido a contar os passos entre dois pontos da rua. Se errasse por muito, sentia-se ameaçado. Como se sentia em transgressão, se pisasse alguma separação dos blocos de pedra de alguns passeios mais nobres. Tinha de fazer um esforço para decidir que nenhum perigo advinha se errasse o cálculo ou se pisasse alguma dessas separações, mas continuava o jogo mental, ao mesmo tempo lúdico e sinistro, com as entidades que tudo veriam e estariam certamente atentas às suas falhas. Era uma ameaça mais intuída que percebida, com origem indeterminada, mas obviamente sobrenatural. Nunca as vira, mas sabia que estavam sempre lá, a espiar-lhe os movimentos, a julgá-lo.
Certa vez, num teste vocacional da adolescência, um psicólogo apontara-lhe uma personalidade esquizotípica. O relatório falava em crenças estranhas e pensamento mágico influenciando o comportamento, fuga da realidade e ruminações sem resistência interna, mas não ligou muito nem ficou preocupado, porque pressentia que tudo correria bem se fosse cuidadoso.
Naquele dia, Fernando fora descuidado. E os descuidos podem ser ciladas das forças obscuras. Sabia-o e temia o que aí vinha, necessariamente. Os apaziguamentos de racionalidade chocavam com o perigo da situação. Que parecia simples e prosaica. E, no entanto, continha um alto grau de ameaça.
Qual era a situação? Não tendo encontrado em qualquer estância de materiais, em Lisboa, as placas de fibra de madeira, da largura que necessitava para construir o interior de um roupeiro, na sua casa na terra, mandou cortá-las numa grande superfície de Santarém.
A satisfação por ter conseguido encontrar o que necessitava deu lugar a uma grande apreensão, ao perceber que não conseguia acomodar as placas maiores no seu carro, mesmo dobrando os bancos traseiros. Como bom suburbano, resolveu alojá-las no lugar do “pendura”, com o banco um pouco reclinado.
Percebeu logo o perigo que tais placas à solta no habitáculo do carro representavam, em caso de acidente. Com as suas massa e inércia, deslocando-se abruptamente no mesmo espaço que ele, seriam como cutelos cortando carne num talho. A decapitação seria o resultado mais piedoso.
Sentiu-se ridículo, ao apertar o cinto de segurança ao grupo das quatro placas de um metro e setenta. Imaginou o sarcasmo das forças emboscadas nos meandros das subtilezas sobrenaturais: tesas, as placas lembravam um esqueleto a seu lado.
Tomou a A1, a caminho da Mealhada, com o coração apertado. Havia que fazer um plano, para minimizar as hipóteses de intervenção das forças obscuras. Havia que manter uma velocidade moderada, para baixar as possibilidades de acidente, por pneu rebentado ou despiste. Havia que evitar uma velocidade demasiado baixa, para não ser abalroado. Muito tenso, mas atento, ia tomando consciência dos quilómetros percorridos ― perigo passado ―, mas apreensivo pela enorme distância a percorrer.
Olhando pelo retrovisor, a dezena de carros que avistava pareciam-lhe uma matilha em sua perseguição. Algum deles podia estar tomado pelo inimigo. Podia embater no carro dele, violentamente. Ou podia, simplesmente, dar-lhe um pequeno toque lateral. Seria o suficiente para o seu carro entrar em descontrolo e dar meia dúzia de cambalhotas. Nem queria pensar no que aconteceria dentro do habitáculo.
Depois de Fátima, um camião lá à frente em marcha mais lenta podia ser a barreira contra a qual seria encurralado por aquela carrinha compacta que vinha lá atrás, em alta velocidade; mas passou. Ao ultrapassar o camião, Fernando viu os cilindros metálicos. Podia ser agora: os tubos soltarem-se e invadirem a estrada ou mesmo caírem-lhe em cima. Passou. Pareceu-lhe ouvir um zumbido na zona do pneu dianteiro direito. Um rebentamento seria fatal. Era agora. Abrandou um pouco.
Perto de Pombal, tentou fazer um exame de consciência: afinal, merecia ser castigado? Claro que sim! Tantas vezes fora reles e perverso, tantas vezes tratara mal as outras pessoas, tantas vezes fora pouco honesto. Sim, certamente seria castigado. Mas morto? Sentiu pena de deixar de viver já. Tinha ainda tantos planos, tantas coisas mal resolvidas. Viver era tão bom. Gaita! Sempre suspeitara de que era demasiado bom para durar. Deve haver sistemas de reequilíbrio no Universo.
Apesar do veredito, decidiu ir à luta. Iria continuar com a condução defensiva e estar atento a todos os tipos que mudassem de direção, sem fazer piscas.
Como que reagindo ao seu desafio, um nevoeiro progressivamente mais compacto formou-se, ao passar nos vales baixos próximos de Condeixa. Agora nenhuma precaução podia salvá-lo. Ligou máximos, ligou luzes de nevoeiro e os quatro piscas, tentando fazer-se ver, já que não enxergava mais do que uns quinze metros à sua frente. As mãos ferravam-se-lhe no volante, os olhos no nada da estrada, e sempre controlando o retrovisor. Em vão. Sem referências de nenhum tipo, parecia ter passado para outra dimensão, uma dimensão que não era deste mundo. Esperava o embate a qualquer momento. De que é que estavam à espera? Uma enorme tristeza invadiu-o. Sentiu que não podia nada contra estes inimigos.
Uma dezena de quilómetros depois, o nevoeiro esfumou-se de um momento para o outro. Passou Coimbra e começava a acreditar que talvez se safasse. Se calhar, os traiçoeiros tinham mudado de ideias. Ou estariam a fazê-lo acreditar que estava a salvo, para então lhe aplicarem o golpe fatal e se comprazerem com a surpresa no seu rosto?
Já depois da Mealhada, teve de tomar as estreitas e sinuosas estradas para a sua Antã da Serra, no meio da serra do Buçaco. Ali, as velocidades eram diminutas, mas a probabilidade de um choque ou uma saída de estrada era bem maior. Devia ser agora. Pareceu-lhe que as tábuas já se moviam nas curvas. Sentia outra vez uma nostalgia do que ia deixar. Como era belo o mundo. Aquela serra era gloriosa. Que pena ir embora agora. Se calhar, tinha de ser.
Mas não. Para grande espanto seu, chegou a casa sem qualquer percalço, sem qualquer mazela. Manteve-se ao volante, no carro parado, envolvido pelo silêncio local, tentando equacionar a situação. Como era possível? Tanta tensão, tanta concentração nas últimas duas horas e o terrível clímax não surgira. Obviamente, tinha sido agraciado com mais uma vida. Agradeceu mentalmente, não sabia a quem, por descargo de consciência. Só o zumbido nos ouvidos e alguns estalos do motor a arrefecer lhe responderam. Aliviado, racionalizando o caso, concluiu que não havia razão para ser supersticioso. Mas tinha de ter mais cuidado.

Joaquim Bispo
* * *
Imagem: Pinturas rupestres, Parque Nacional Serra da Capivara, Piauí, Brasil.

(Este conto integra a coletânea Obsessões, Lua de Marfim Editora, Póvoa de Santa Iria, 2015.)
* * *





domingo, 24 de julho de 2016

TROVA DOS LVII JOGOS FLORAIS DE NOVA FRIBURGO - CATEGORIA HUMOR






sexta-feira, 22 de julho de 2016

A Tartaruga Ordinária



Dela acusavam o passado, o presente e o futuro, o sobre como era promíscua, sobre como, apesar dos passos esquisitos e feios, insinuava tamanha sensualidade, e assim quem havia para ajudá-la agora, presa de costas, abanando pernas e desespero após alegrar a carne? Quem senão o mais bondoso, quem a empurraria e levantaria com a cabeça, quem senão o apaixonado Tutu?

Era a centésima salvação, calculava ele, a centésima, e era o centésimo orgulho de um amor; pois Tutu amava Geneci, e isso dela abraçar namorados que a usavam e jogavam e deixavam-na lá, do avesso, com as brutas patas buscando um fio de céu para se erguer. O amor contempla o erro, falava Tutu, contempla, acima de tudo, o erro, e os amigos riam; calmo e além, ignorava-os ao lembrar da amante cobiçada, o como ela se despedia em beijos suaves, céleres.

Já Geneci ia embora punindo a terra e o próprio coração, querendo saber o porquê de se envolver com machos agressivos e violentos. Era sempre a mesma mágoa, dor, o breve suspiro das carícias e o esquecimento; depois, confiava na determinação de mudar, e seguia firme e resoluta durante a gestação, culpando a origem de suas ações ao domínio de espíritos insivíveis e distantes. Todavia, bastava enterrar os ovos na areia e a maré da luxúria subia, vinda por trás, vinda por baixo, levando as promessas de autocontrole em um repuxo violento e primitivo. Desta feita, chorando excitação, quis entregar-se para alguém manso, amoroso, e recusando ponderações acerca do justiça ou merecimento, presenteou-se. E quem foi o escolhido, quem uniu os caminhos da obrigação e da paixão, quem senão Tutu?

Arrastado pela nervosa e sôfrega tartaruga, amaram-se em um velho cais de tábuas soltas, onde a graça do vento corria dunas e arranhava corações. Ele, desajeitado, quis tentar o primeiro beijo, mensurando neles o perfeito momento; ela, carente de força bruta e ante a passividade do amante, deitou-o, subindo por cima de seu ventre e rebolando o quadril com tal força que se tornaram centro do universo e definição de espaço.

Demoraram cinco, três ou dois minutos, e ao terminar ela caminhou embora, longe, livrando-se do suor e da saliva, casual como o são aqueles e aquelas para quem a vida apenas é. Tutu abraçava a felicidade, o êxtase, e da boca aberta pingavam sorrisos; caído, esperou o descanso e balançou as pernas – e pedalou no ar. Estava virado, de costas. Sacudindo e pulando, almejou pôr-se de pé, mas fracassou, e nisso questionava as intenções de Genecia, as suas, encontrando nelas encanto e feitiço, a desculpa de um amor. Era madrugada, fresca e leve; exausto, adormeceu ao capricho do amanhã.

E nem chegou a bem despertar.

Antes do sol queimar, devoraram-no muitas gaivotas famintas; dele restou a cabeça e o sorriso, resistentes aos bicos, garras, resistentes ao picotear, como nervo que não se leva.





quinta-feira, 21 de julho de 2016

México 70 - A Copa que eu não vi

Será possível alguém sentir saudades daquilo que não vivenciou? Por mais estranho que pareça, eu sinto, pois sempre me lembro com nostalgia da Copa do Mundo que, com meros quatro anos de idade,  eu não vi.  Ele foi disputada  no México, 1970, quando onze homens vestiram a camisa amarela da seleção brasileira e juntos elevaram o futebol à categoria de obra de arte.
Esqueçam tudo o que ouviram falar do governo Médici, seus porões sangrentos e a utilização do futebol como massa de manobra para manter o povo alienado e em seu lugar. Ignorem milagres econômicos, Guerra do Vietnã ou o movimento hippie. Procure no Youtube a Copa de 70 e foque-se apenas nas quatro linhas que demarcaram o campo de batalha do Estádio Jalisco, na cidade de Guadalajara. Naquele longínquo mês de junho, o “scratch canarinho” como era carinhosamente chamada a seleção, apresentou um espetáculo futebolístico nunca visto antes e quiçá impossível de ser reapresentado pois, a despeito do futebol haver mudando tanto em disciplina tática quanto nos aprimoramentos físico e técnico, as peças do xadrez eram outras, e de qualidade infinitamente superior ao que vemos hoje.
Para começar, havia um deus de ébano no esplendor de sua forma física, tecnicamente perfeito e amadurecido nos seus trinta anos de idade. Pelé, simplesmente o Rei, que conseguiu a façanha de ficar eternizado na Copa em que foi magistral não pelos gols assinalados, mas pelos perdidos. Veja, reveja e deslumbre-se com o seu chute do próprio campo contra a meta adversária e o desespero do goleiro theco, ou a clássica cabeçada defendia pelo inglês Gordon Banks, jogada responsável pela fama do arqueiro da seleção inglesa por muitos anos, ou ainda a incrível, fantástica, esteticamente maravilhosa meia-lua sem tocar na bola contra um goleiro uruguaio de prosaico nome polonês. No México Pelé foi perfeito, um maestro acompanhado pelo spalla Tostão, talentoso meia do Cruzeiro que meses antes sofrera um grave descolamento de retina e, do inferno a redenção, brilhou em terras aztecas. Justamente no confronto mais difícil, contra o “English Team”, consagrado campeão do mundo quatro anos antes, Tostão deixou sua marca em uma jogada individual pelo lado esquerdo onde, após provocar um salseiro, passou a bola para Pelé que, com um simples toque para lado, deixou Jairzinho livre para decretar a magra, contudo heroica vitória por um a zero.
Como esquecer de Jairzinho, o Furação da Copa? Seis jogos, seis gols, façanha nunca antes alcançada, nosso camisa sete levou pânico as defesas adversárias com suas arrancadas mortíferas. Tivemos ainda Rivelino e sua patada atômica; Brito zagueiro raçudo, considerado o pulmão da copa; Carlos Alberto, nosso eterno capitão que perpetuou o gesto de beijar a taça Jules Rimet (que como dizia o samba-enredo “derreteram na maior cara-de-pau”); a juventude veterana de Clodoaldo, a organização tática e os lançamentos milimétricos de Gerson, o canhotinha de ouro; a classe de Piazza, a discrição de Félix e Everaldo.
Campanha sem igual, coroada com a brilhante exibição na final disputada na Cidade do México. Um 4 x 1 convincente contra a seleção italiana, tão diferente destas finais insossas que nos acostumamos a presenciar nas últimas Copas.

Parafraseio Pablo Neruda e confesso que não vivi o momento, não vi a maior seleção de futebol de todos os tempos mas, graças ao milagre tecnológico, este espetáculo está ao alcance de qualquer mortal . Aprecie sem moderação.





quarta-feira, 20 de julho de 2016

A besta

O Professor Frederik Krumann descortinou a mansarda do chalé e contemplou ao longe
a placidez do Lago Konstanz, margeado por alguns aglomerados de pingos trêmulos de luz.
A noite começava a chegar bem antes da hora prometida por Wilhelm Brodheinz, que viria
passar o fim de semana com sua nova namorada no pequeno sítio do seu mestre maior,
encrustado no alto de um bosque nos arredores de Sipplingens. Não seria a primeira
vez que o jovem de 25 anos merecia a distinção de tal convite. Mas com Sânia, sim.
Estava orgulhoso de apresentá-la, tanto quanto Herr Krumann curioso em conhecê-la
em pessoa.
“De fato, é uma bela moça”, pensou Krumann assim que viu o casal saltar do carro.
- Enfim, chegaram!
- O trânsito na saída da universidade estava infernal. 
- Imagino. Parece que todo corpo discente deixa Konstanz para relaxar no fim de semana.
- O senhor convidou mais alguém para o seu chalé?
Herr Krumann soltou uma gargalhada simpática. Seguiu-se outra fineza de bom anfitrião.
- Suponho que seja Sânia, não?
- Herr Professor Krumann ..., e se não fosse? Seria um constrangimento triplo.
- Sou eu mesma, Professor.
- Pois você é muito mais bonita do que a “moça de beleza incomum”, como Wilhelm 
me descreveu. Eu diria, com perdão do seu namorado, “moça de beleza estonteante”. 
Estabeleceu-se naquele momento prenúncios de um fim de semana agradável, de prosas
inteligentes e celebração de afetos. Para o professor, um mestre em História Germânica,
seria a oportunidade de extrair do seu melhor aluno antídotos contra sua solidão,
cultivo de amizade e boas risadas. Para o aluno, a possibilidade de enfim dormir
com Sânia entre edredons macios e travesseiros de penas de ganso. Sexo urgente nos
cantos escondidos do alojamento estudantil era dado por experimentado. Queria acordar
com Sânia desassossegado, depois uma noite das mil e uma noites.

Sânia Al Zarfih nascera em berço esplêndido nos arredores de Aleppo.
De tradicional família rica de mercadores sírios, tomou gosto por saber
mais do mundo do que fazer dinheiro às custas da pobreza alheia. Tanto que,
contrariando seu patriarca, entrou para uma das universidades mais conceituadas
do mundo árabe, exatamente a mais aberta às erupções naturais da Humanidade.
Já no segundo ano de Artes, Línguas e Ciências Humanas, Sânia dominava inglês
e alemão, arranhava francês e sabia que curiosidade, senso crítico e questionamento
eram pincéis do conhecimento e da sabedoria. Definitivamente, não se conformava
com sua origem embrulhada em dogmas.
Quando os tufões da guerra civil começaram a devastar Aleppo, Sânia entrou a pé
com a família pela fronteira do Líbano e conheceu a boleia de um caminhão até Beirute.
Era a vida recomeçando de favor na casa apinhada de parentes distantes.  Tida como
ovelha negra do rebanho, e impulsionada por uma imensa vontade de viver, transgredir
e se reinventar, esperou pai, mãe, irmãos, tios e primos caírem no sono, raspou alguns
mil dólares que faturou como guia de turistas e cuidou de se meter num caminhão de
miseráveis até uma praia deserta, onde um pesqueiro de péssimas condições aguardava
a turba para zarpar pelo Mediterrâneo. Espremida na proa, Sânia se livrou do véu e
o atirou no mar. Soltou os cabelos negros, balançou o rosto forte e sentiu no vento
com cheiro de maresia sua Primavera particular com cheiro de esperança.
Passaram ao largo de Chipre, da Grécia, mas no Mar Jônico os motores não aguentaram.
Ficaram os infelizes à deriva. O tempo, o destino e as correntes marítimas fizeram Sânia
conhecer a morte, a indigência, o medo de voltar para trás e a Itália.
A embarcação adernava pelo Adriático ao sabor da sorte, dias e dias, noites e noites
de sede e privações, até que deu com os costados numa praia no sul de Rimini,
cidade que Sânia conhecia de nome, pois sua avidez em saber coisas identificou no
centro histórico o lugar onde nasceu Fellini. Sabia quem era Fellini. Sabia o que era Rimini.
Tinha se encantado com Ammarcord numa fita pirata na faculdade e lido sobre La Dolce Vita.
Pensou que podia estar perto de Roma e mergulhar na Fontana de Trevi, mas não deu trelas
ao romantismo. Dez quilos mais magra, sem desgrudar da mochila sobrevivente, atravessou
de carona, trem e caminhão toda a Emiglia Romana, dormindo em pousadas de baixo custo,
evitando o relento e os acampamentos de refugiados. “Sou uma refugiada com dinheiro”,
dizia a si própria, toda vez que sentia cansaço e desejo de uma cama confortável e
banho quente. E de pouso em pouso, foi parar na Lombardia, onde encontrou um exemplar
de um novo mundo no velho mundo com que tanto sonhou: Milão.

Herr Krumann alçou aos próprios ombros a mochila de Sânia e levou o casal para conhecer
o chalé. Apresentou o salão do primeiro andar: uma sala de jantar com janela interna
para uma cozinha gourmet e um ambiente com poltronas e sofás direcionados a uma lareira.
À esquerda, uma estante subia pela parede acolhendo livros de todas as línguas
e tamanhos. À direita, de uma portinhola entreaberta via-se uma adega de boas safras.
Subiram uma escada estreita, onde houve uma apresentação pseudo solene aos aposentos dos hóspedes.
- Aqui é o ninho de amor do jovem casal. Há um banheiro próprio com hidromassagem. 
Espero que em algum momento vocês saiam da suíte para degustar minhas tentativas culinárias.
- Tentaremos, Professor - disse Wilhelm trazendo Sânia para um encaixe em seus braços.
- Muito agradável, Professor. Wilhelm esqueceu de dizer que a gula é meu pecado preferido. 
Agora, o tempo que ficaremos na suíte depende das delícias que meu namorado 
e o senhor têm a me oferecer.
A temperatura da simpatia estava subindo. Os sorrisos se alastravam. Herr Krumann
elogiou de viva voz a sagacidade e o desprendimento da moça, cuidando para não expressar
surpresa por sua inteligência e personalidade, para ele, incompatíveis com sua pele
amendoada, sobrancelhas fortes, olhos castanhos insinuantes e traços um tanto exóticos.
- Uma curiosidade, Professor.
- Diga, Sânia.
- Onde fica seu quarto de dormir?
- Ah, numa mansarda bem acima da suíte de vocês. Quando levanto da cama, 
bato com a cabeça no teto. É meu despertador. 
- Sânia, ele me disse que aos 14 anos já tinha 1.93 cm.
- Aos 14 anos, meus jovens, eu já me escondia dos russos pelos escombros de Berlim. 
Houve um instante de entreolhares silenciosos, quase reflexivos, logo interrompidos
pelo próprio Professor, que bateu uma mão contra a palma da outra.
- Águas passadas. Fiquem à vontade. Relaxem e quando quiserem, desçam para a ceia. 
Sânia jogou-se no colchão macio, com Wilhelm se aconchegando sobre seu corpo.
Embolaram-se e rodopiaram-se num beijo suculento, enquanto mãos despiam calças,
camisas, blusas, calcinha, cueca e sutiã.
- Sem pressa, devagar, Will. Não estamos no banheiro da faculdade...
Não era novidade para Sânia o sexo bem saboreado. Um chef de cozinha milanês
inaugurou sua vida de mulher adulta, tendo ainda provado na cama dois turistas
americanos casuais – um de cada vez - e um estudante de design francês, por quem
desconfiou ter tropeçado na armadilha da paixão. Mas não se deixou iludir.
Assim como apareceu, o francês sumiu da sua vida, sem ao menos um au revoir. 
Wilhelm seria seu namorado mais ardente – contrariando o mito da frieza dos alemães
– e já havia dois meses que se deviam conhecer o sossego de uma noite agarradinhos,
um dentro do outro, procedendo com calma os rituais do amor, com todos os suas audácias,
variedades, cheiros e sensações. Foi o que se deu naqueles primeiros minutos de embolação
nos edredons de Herr Krumann, seguindo-se nus à hidromassagem, quando se ensaboaram um
ao outro: ela cuidando com afagos manuais e orais do avermelhado pulsante do alemão
em prontidão, ele fazendo espuminha no triângulo hirsuto e receptivo de Sânia.
Refeitos dos suspiros e pulsações aceleradas, Wilhelm e Sânia desceram bem vestidos
e cheirosos ao primeiro andar, onde Herr Krumann os esperava com uma tábua de queijos
da região e presuntos defumados cortados finos, quase à navalha, uma cesta de pães,
uma travessa de Leberkäse rodeado de salada morna de batata e cream souer, apfelstrudel,
um pote de creme fresco e, imersas num balde de gelo translúcido, três garrafas de
Riesling Morstein, supostamente uma para cada um. A noite prometia. Sânia esfregou as mãos.
- Que linda mesa, Professor! 
- Não é sempre que recebo um jovem casal sensível no chalé. 
Wilhelm pediu licença para abrir o vinho e após a primeira prova, serviu à
namorada e ao Professor.
- Está bom, está bom para mim, obrigado, Wilhelm. Só vou beber para um brinde a vocês. 
Na minha idade não costumo abusar das refeições e beberranças noturnas.
Sânia mostrou que conhecia provérbios alemães.
- Já sei: desjejum de imperador, almoço de rei e jantar de mendigo.
- Como sabe tanto, Fräulen?
Wilhelm emendou.
- Sânia viveu seis meses em Milão como garçonete num restaurante alemão. 
Não fossem suas origens religiosas, diria que na outra encarnação foi germânica.
- Os alemães que conheci viviam me ensinando provérbios. Este em especial é uma farsa. 
No restaurante, jantavam carne de porcos como porcos, altas horas da noite. Eisbein, 
kassler, labiskaus, chucrutes, blutwurst, schwarzwurst, tudo exagerado.
Houve um profundo silêncio constrangedor. Herr Krumann replicou.
- Os alemães não são porcos, minha filha.
Por um instante, Sânia ficou desconcertada. Mas logo depois de um breve gole,
o Riesling lhe deu sinais de coragem e grandeza.
- Desculpe, Professor. Os alemães que conheci na Itália não eram elegantes, 
refinados e gentis como o senhor. 
- Claro, minha filha. Nem todas as uvas dão bons vinhos.
Wilhelm virou-se de costas e passou observar o ambiente, sempre de taça na mão.
Parou diante de uma parede, onde uma besta pendurada chamou sua atenção.
- Professor, essa arma medieval é novidade aqui.
- Ganhei de um aluno de Mitos Germânicos.
Sânia exibiu sapiência.
- É a besta de Wilhelm Tell. O suíço que virou herói na Alemanha. 
- Essa sua namorada sabe mais do que você, Wilhelm.
- Estudei Wilhelm Tell. Diz a lenda que ele desafiou o tirano dos Habsburgos, 
não se curvando diante de seu chapéu pendurado num poste. O tirano o prendeu por isso. 
Para soltá-lo, propôs um desafio. 
- Uma prova de amor e confiança. Está ouvindo, Wilhelm?
-  Claro, Professor. Continue, Sânia.
- Foi obrigado a amarrar o filho num tronco e colocar uma maçã na sua cabeça. 
A dez passos, ele dispararia da besta a seta. E assim partiu a maçã em dois. 
- Willhein, seu germânico indigno! Não conhece a lenda de seu homônimo Tell. 
Que vergonha!
- Desculpe, Professor. Sânia está se saindo melhor que eu sonhava.
- Sem competições, meninos, por favor. Vamos degustar a mesa que preparei.
Sentaram-se. A conversa fluiu descontraída, sem maiores cerimônias, uma garrafa
e meia já havia sido abatida. Herr Krumann estava encantado e curioso com a
desenvoltura de Sânia.
- Como vocês se conheceram?
- Foi na universidade de Konstanz.
- Em Milão fiz amizade com um casal de idosos suíços que me levaram para Zurich. 
Achavam que eu merecia mais do que ser uma garçonete. 
- E daí Konstanz, não?
- Sim, Professor. Falaram muito bem de uma universidade na fronteira alemã. 
Pagaram minha passagem e não tive problemas para ser aceita na Konstanz. 
Os estudos em Aleppo e minha condição me ajudaram muito. 
E o casal suíço acabou por produzir uma ajuda humanitária.   
- Você não se enquadra como refugiada.
- Não, Professor, nunca me senti assim.
- O que me diz, Wilhelm?
-  Sânia era jardineira do campus.
- Ainda sou. Trabalho para pagar minha estadia e meus estudos. Mas não quero 
ficar só com a mão na terra.
- E a paixão, quando acendeu?
- Foi aos pouquinhos. Toda vez que andava pelos jardins, sentia um alemão 
interessante me olhando de longe.
- Para mim, foi amor à primeira vista. Gostei do seu jeito de cavucar a terra.
As gargalhadas se sucediam. As garrafas de vinhos esvaziavam. Prudente,
Herr Krumann só bebia água e perguntava muito.
- E você, Sânia?
- Foi amor à segunda vista. Wilhelm arrancou uma tulipa e me ofereceu.
Mais risos. Mais goles. Os pães, os queijos, os presuntos e o bolo de carne também se iam.
O casal discorria sobre o amor com a excitação da circunstância movida a Riesling.
Herr Krumann cuidou de providenciar mais uma garrafa. E lá pelas tantas, falou sério.
- Sânia, você sonha projetos de vida com Wilhelm?
Mais um gole.
- Pergunta difícil. Mas acho que sim, Professor.
- Tomara que sim, digo eu. Amo Sânia mais que qualquer lourinha 
comportada que mamãe sonhou para mim.
- Conhece a mãe dele, Sânia?
- Ainda não. Vamos aos pouquinhos.
- Mas você ama Wilhelm, não?
- Disso eu tenho certeza.
- Pode provar seu amor por mim, Sânia? 
- Como você quiser, Will.
- Professor, você tem uma maçã?
A última garrafa fora aberta. Sânia não havia perdido a lucidez.
- Já sei. Vai me amarrar num pinheiro, disparar a besta e partir a maçã 
em duas sobre a minha cabeça.
- Você confiaria em mim, meu amor?
- De olhos abertos, Will.
O professor interveio.
- Calma, meninos. Vocês beberam demais.
- Não, professor. Quero mostrar o quanto amo meu arqueiro. 
E saber quanto ele ama seu alvo.
Herr Frederik tentou demovê-los da ideia louca. Sem êxito.
E partiram para o bosque atrás do chalé. Apesar de tantos Rieslings, não estavam
trocando as pernas. Mas caminhavam abraçados e gargalhantes, com o professor
carregando a besta.
Foi a própria Sânia que se amarrou no pinheiro. Wilhelm só lhe apertou os
nós das mãos entrelaçadas.
- Wilhelm, meu filho. Olhe bem o que está fazendo.
- Estou olhando, Professor. Uma maçã sobre a mulher que eu amo.
Sânia sorriu esplendorosa. Arregalou os olhos e se posicionou decidida.
Wilhelm levantou a besta em direção à maçã e prendeu a respiração.
O professor olhou para o chão. Wilhelm não hesitou e disparou.
A seta varou o olho direito de Sânia, atravessou o crânio,  cravando
a ponta na casca do pinheiro. A morena perdeu as forças, mas não caiu.
Ficou presa, joelhos dobrados, nas amarras do tronco. Ainda tentou mexer
a cabeça atônita e sôfrega, e com o olho que restava parecia fitar Wilhelm
como se suplicasse piedade.
- Errei, Professor!
- Não foi você quem errou. O destino conduziu a seta. E lembre-se de Wilhelm Tell, 
rapaz. Você não tem uma segunda seta escondida no casaco?
E Wilhelm finalizou a missão. A segunda seta perfurou certeira o coração de Sânia.
- Muito bem, rapaz. Mas da próxima vez, traga uma turca mais burrinha. A gente acaba 
se afeiçoando. Sou um velho cansado de guerra, que anda com pena de matar barata. 
Wilhelm se colocou em posição de sentido frente a frente com o Professor.
Seus olhos azuis brilhavam de orgulho. E os dois ergueram o braço direito
e bateram calcanhares numa só voz.
- Heil Hitler!
A saudação foi repetida no breu da noite, quando a bela Sânia desceu amarrada
em pedregulhos às profundezas do Lago Konstanz.





domingo, 17 de julho de 2016

Horário comercial











           Acordo cedo, um pouco depois do galo e das galinhas. Minha pele embranqueceu, pego trânsito, filas. As pessoas conversam ruidosamente, o metrô movimenta-se. Está tudo aberto.
            Eu amo, agora, em horário comercial.






















sábado, 16 de julho de 2016

Por um instante, comigo


Por um instante, eu me lembro de mim. Grávida, sem companheiro, sem apoio nenhum. A barriga aumentando junto com as dúvidas. Se vai nascer normal; se vai ser mulher, para sofrer que nem todas as fêmeas das minhas raízes; se o dinheiro, que já não dá, vai conseguir se multiplicar na divisão por dois. Os complexos crescendo junto com o feto. A celulite exposta, as estrias brancas, os seios imensos e doloridos dos primeiros meses, a bunda caída do final. E a certeza humilhante de não ter com quem falar sobre o primeiro chute, sobre as cólicas, sobre a vontade aumentada de fazer sexo, sobre a dor nas pernas obrigando a reduzir os saltos. Ninguém a quem mostrar as camisinhas de pagão, a chupeta branca, as calças, as fraldas, os cueiros, a banheira de plástico. Quase tudo comprado aos pares ou pouco mais, para caber no orçamento. Nem pai nem mãe a quem pedir colo, conselho. Ambos mortos. A única irmã morando em Dunquerque. Tão distante quanto antes de Dunquerque. Nenhum namorado, nenhum amor. Só um reprodutor apressado. Trinta e cinco anos e uma vida na barriga. Trinta e cinco anos, uma vida na barriga e outra carregada no próprio lombo. O medo de um aborto, de um parto prematuro, da perda, clichê da humanidade. E as pessoas cobrando esse aborto, chamando de decisão irresponsável levar adiante, dizendo que é fardo. Que fardo? Alguém de quem cuidar nas noites esvaziadas de tudo. Alguém para fazer barulho no silêncio insuportável. Alguém com todas as possibilidades ainda intocadas. Sem ranço, fracasso, impotência, angústia, desistência, solidão, desespero. Que fardo? 
Agora, este esbarrão. Olhos que se engalfinham com os meus. Um pedido de desculpas tão intenso que extrapola o fato banal. Um rosto que copia o passado. A barriga imensa, os tornozelos inchados, o nariz alargado. A angústia estourando como ressaca nos olhos. Dúvidas iguais. O medo de ter que ser tudo, de querer ser tudo. Sozinha. Eu sei. Reconheço a mim mesma quando me encontro. Tenho vontade de abraçar essa história nossa. De dizer a ela que a incerteza rasga o afeto; de dizer que dói para sempre seguir sendo o eu e o nós; de dizer que, ainda assim, vale a pena. Mas o momento passa e eu recuo. A vida fará melhor do que eu. A vida não recua.

Ilustração: ShawlinMohd





sexta-feira, 15 de julho de 2016

do lado de lá




Era mal acordava.
Era mal punha os pés no chão.
Era ainda sem ter comido fosse o que fosse, sem ter sequer bebido o copo de água a que se habituara fazia largos anos.
Ligava o número dela.
Comprazia-se em sentir o liso das teclas ao marcar cada algarismo, e balbuciava-lhes o nome: dois, um, seis, até ouvir o soar característico de estar chamando, e ficava a imaginar como seria do lado de lá da linha: um ressoar estridente na casa onde ela morava, do outro lado do oceano.
E, entretanto, ia acordando. Ia-se trazendo do limbo onde se aninhava a seguir a deixar o lugar dos sonhos onde, desde há mais de dois anos, permanecia um máximo de cinco horas seguidas.
Dorme pouco, dissera-lhe a médica numa visita de rotina.
Em cada manhã, desde aquele fim de Outubro, marcava o número que ela tinha escrito na contracapa do caderno em que desenhava uns troncos de árvore nos jardins duma qualquer cidade algures na Europa.
Ela perguntara-lhe, aproximando-se por detrás: depois pinta-as ou deixa ficar apenas a grafite?
Agradara-se daquela sonoridade, daquele melado que era a voz dessa desconhecida e, só depois de lhe ter respondido com um: às vezes, se virou e lhe viu os olhos cor das cearas em Agosto.
Quando ela atendia, e seriam desoras do lado de lá da linha telefónica, costurava uma desculpa: ou que nem reparara no relógio, ou que desesperava em falar-lhe e nem atendera aos fusos. Era assim todos os dias e ligava sempre em cada início de dia, e do lado de lá, ela nunca lhe disse: ora, isto lá são horas, estava dormindo! Do lado de lá, ela abria um bom dia cantado de quem acordou com o sol nascendo e já labutou fosse no que fosse. E em cada manhã dos muitos dias depois que se encontraram num jardim duma localidade que, nem um nem outro, saberia assinalar num mapa, ou, pelo nome que esqueceram, e nem buscar num Google que, ao tempo deles, ainda nem existia; em cada manhã, do lado de lá da linha, ela respondia, fazia exclamações, ripostava, dizia de sua justiça, ria e chorava por via de cada uma das perguntas que eram colocadas do lado de cá, e a que ela respondia, e também, às continuações que vinham do dia de antes de ontem, perguntas que eram emanadas do lado de cá num emaranhado subtil, redondo ou estirado. Bocados de dizeres que nem eram conversa, mas tantas vezes monólogos, questões angulosas a semelharem mais afirmações do que dúvidas que não se deslindavam de um dia ao outro e ficavam, quase sempre, dependuradas nas más interpretações ou nas ignorâncias que desvendavam nela.
Questões triviais ou debates filosóficos sobre os deuses, os arcanjos ou a justeza de uma criança aprender em casa o abecedário, os números e as quatro operações, em perfeita conjugação com a moral do lar em que cada progenitor, que tinha assim decidido, rejeitava sequer a ideia de que um filho seu tivesse ouvido falar em meninos que nunca rezavam antes de irem dormir, e meninos que não comiam. Meninos com fome: que horror, diziam eles.
E a ela que lhe parecia, perguntava-lhe.
Ao telefone, com um oceano de água a separá-los.
E, do lado de lá, ela respondia como se a pergunta fosse aquele conjunto de palavras que lhe chegavam ao ouvido e, ainda depois de se ter passado um verão inteiro e terem decorrido dois invernos, ela escutava o lado de cá que, insistente, retorquia: mas porquê? explicas-me? e ela sibilava frases entrecortadas de “acho que” e “não sei bem” e do lado de cá partiam discursos enviados pelo telefone, de pé junto à porta de entrada, que nunca colocara um telefone sem fio e nem um fio comprido com que pudesse, se não deambular pela casa, ao menos sentar-se, confortável, num sofá.
De pé era como fazia aqueles telefonemas.
Sentou-se no soalho encerado apenas naquele dia e nem sabia que na véspera tinha sido o telefonema derradeiro.
Foi no dia em que percebeu.
Estava a discar o algarismo das unidades do número que faria com que ouvisse, a vir lá do outro lado, um bom dia risonho e expectante, quando tudo se lhe tornou claro, e teve necessidade de encaixar o corpo num ângulo muito recto entre o chão e a parede
Já lhe tinha acontecido aperceber-se, mas de modo suave.
Um dia, tinha adormecido até tarde e o telefone soara deste lado. Era ela a ligar-lhe, era ela falando, ansiosa, ofegante: estou preocupada, e acrescentado: porque não telefonaste, com uma intensa exclamação crítica a mesclar a interrogação.
Foi uma vez apenas.
Do lado de cá tinha-lhe dito, com secura na voz, que um dia podia mesmo nunca mais telefonar.
Que nunca lhe telefonasse, disse-lhe, cortante.
Disse, assim, indiferente ao desejo que ela nem disfarçara de lhe mostrar que se tinha já habituado, que dependia daquele ruido e da sua voz do outro lado.
Já aí se tinha apercebido.
Depois, soube.
Naquele dia de escorregar até sentir o soalho a receber-lhe o corpo, soube que se comprazia em devorar-lhe o entendimento, comer-lhe, como pequeno-almoço, cada pedacinho do que ela era no seu mais precioso: alma, espírito, intelecto, sensibilidade.
Já tinha tido um vislumbre, mas nunca como no dia em que precisou sentar-se.
Nesse dia de ela nem ter atendido o telefone, percebeu com aquela nitidez que é a visão que só conseguem os olhos que temos e não se baseiam num vítreo, num cristalino e numa córnea, humores vários e o nervo óptico.
Viu de ver em todos os pormenores, e por trás e pela frente, ao mesmo tempo.
Viu para lá do que nunca imaginara e escorregou pela parede, e sentou-se no soalho encerado com um sorriso estampado na cara e um arrepio de espanto a percorrer-lhe o corpo.
Era assim como se fosse temor, mas era um contentamento, aquele estar ali descobrindo que era do demo que aquilo lhe vinha em cada manhã a falar com ela.
Do demo, muito mais do que dos deuses em que nunca acreditara.
Era dia cinco de um Janeiro gelado e marcava o número e ouvia o ruido característico do telefone a chamar lá do outro lado.
Nesse dia, soou mais vezes do que era costume.
Nessa manhã ninguém respondeu do outro lado, nem mesmo depois de ter colocado o fone no descanso e ter repetido cada gesto a clicar cada tecla sem o ritual que lhe era costume.
Ficou à espera que o ruido se calasse e fosse substituído pela voz dela num bom dia de quem acordou há muito.
Mas, nessa manhã, ela não veio.
E foi esse o dia em que percebeu, e se sentou no soalho, ainda antes de saber que ela nem atenderia.
Foi uns instantes antes de saber que ela não atenderia o telefone.
Estava já com a parede a servir de apoio a um corpo que mal carregava o pasmo. Estava já deglutindo aquele ter percebido que, a existir-se como ser de outro mundo, seria como emanação de um demónio e não de um deus, que só um demónio se daria ao trabalho de colocar um telefone em meio da vítima e do algoz, a fazer parecer, a um e ao outro, que era uma conversa, uma troca de ideias, um cimentar da amizade que podia ter ficado do encontro casual entre dois seres que viviam com um oceano a separá-los.
Percebeu que tinha sido, dia a seguir a outro dia, aquele devorar-lhe alma e o mais que houvesse nela para além do corpo.
Saboreando, sugando, trincando como um naco suculento, ou arrancando pedaços como se fossem entranhas de animal de talho, ou humano morto na mesa de autopsias.
Percebeu, e nem um choro, uma lágrima com que se condoesse, antes lhe ficou, plasmado no rosto, aquele sorriso.
Mais tarde deste dia ter sido, haviam de dizer-lhe.
Seria muito depois de ter descoberto que lhe sugara a alma um verão completo e dois largos invernos.
Muito depois de ela não ter atendido o telefone.
Tentou, de novo. Marcou cada algarismo como já nem lhe era costume.
Perguntou pela Rebeca que nem lhe sabia outro nome: Rebeca quê, tinha-lhe um dia perguntado, e ela tinha debitado dois sobrenomes. Tinha-os esquecido.
Alguém atendeu do outro lado.
Sou um amigo, disse.
E, de repente, lembrou-se do nome da cidadezinha onde se tinham encontrado: Mauléon, uma quase vilória perdida nas faldas dos Pirenéus Atlânticos. Mas nem disse: encontrámo-nos em França, nem disse o nome da cidade. Do lado de lá, a voz falava, como se fosse natural ir dizendo a alguém que ligava deste lado, e ainda hoje não sabe quem lhe falou dela. Se pai, irmão, marido, amigo ou cunhado; ou se seria um tio ou o padrasto ou um advogado. Era voz de homem, mas só isso soube.
A voz informou: que tinha sido lento e penoso; que ela tinha passado nisso um verão e dois invernos.






domingo, 10 de julho de 2016

Por que o Reino Unido quer sair da União Europeia?


Henry Alfred Bugalho

Nos últimos dias, algumas pessoas têm me perguntado o porquê de os britânicos terem votado para sair da União Europeia e o que eu penso sobre isto.

Primeiro, precisamos compreender o contexto que conduziu a este desastroso momento histórico.
A União Europeia foi criada, inicialmente, em 1957, com uma proposta para reforçar os laços comerciais entre os países europeus após a Segunda Guerra Mundial. Os países membros fundadores eram a Alemanha Ocidental, a França, a Holanda, a Itália, a Bélgica e Luxemburgo, e, se chamava então Comunidade Econômica Europeia. Como vocês podem ver, o Reino Unido não fazia parte deste primeiro acordo, só se juntando ao grupo em 1973.
Em 1992, este acordo mudou o nome para União Europeia e, desde então, tem seguido na direção de uma unificação cada vez mais profunda das instituições. Atualmente, se ainda contarmos o Reino Unido, 28 países fazem parte da União. Em 2002, foi criado o euro, uma moeda única para todo o bloco, mas que não foi adotada pelo Reino Unido, que permaneceu com a libra esterlina.
Até hoje o euro é motivo de divergências, pois ele teve como base as moedas fortes da Alemanha (com o marco alemão) e da França (o franco), o que fez que o custo de vida aumentasse em países mais pobres, como a Espanha (com a peseta), a Itália (com a lira) e a Grécia (com o dracma). Uma das razões pelas quais o Reino Unido se recusou a abandonar a libra esterlina em favor do euro foi por causa da força de sua moeda, o que implicaria em desvalorização do dinheiro. No entanto, desde o princípio, o Reino Unido foi a ovelha negra da União Europeia, opondo-se a vários projetos de integração do bloco.
Um deles é a Zona Schengen, que se trata de uma vasta área na Europa sem fronteiras, pela qual você pode circular sem a necessidade de passar por controles de fronteira. Inclusive, até alguns países que não fazem parte da União Europeia, como a Suíça, a Noruega ou Islândia, fazem parte da Zona Schengen. O Reino Unido não faz parte da Zona Schengen, portanto, se você for viajar à Inglaterra partindo de algum país europeu, terá de passar, mesmo se for cidadão europeu, pelo controle de imigração.

Os 4 princípios básicos da União Europeia são: livre circulação de capital, mercadorias, pessoas e serviços, ou seja, qualquer cidadão de qualquer país europeu pode viver e trabalhar em qualquer outro país europeu. E isto é um dos problemas centrais que motivou a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia: a imigração.
Uma das promessas do ex-primeiro ministro David Cameron era a de reduzir os atuais índices de imigração, que gira em torno de 330 mil novas pessoas chegando ao Reino Unido todos os anos. Deste número, apenas uns 180 mil são de europeus, o restante destes imigrantes é de pessoas de outros países, principalmente do Commonwealth, que engloba principalmente ex-colônias britânicas, como Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Índia, Paquistão, Jamaica, Canadá, e por aí vai. Há muito mais imigrantes de outros países do que europeus no Reino Unido, mas isto, para o discurso xenófobo que se instaurou, não importa.

Outro argumento para a saída do Reino Unido da UE é a contribuição anual do país ao orçamento do bloco, que gira em torno de 10 bilhões de libras ao ano, após a restituição.
O que acontece é que todos os países pertencentes ao bloco precisam fazer esta contribuição (que não é voluntária) de acordo com o seu PIB, ou seja, os países mais ricos contribuem mais do que os pobres, que muitas vezes recebem uma retribuição superior ao que contribuíram. A ideia por detrás disto é permitir o desenvolvimento de regiões mais problemáticas do bloco, assim gerando uma riqueza mais igualitária entre os vários países europeus, sendo utilizado para investimentos em infraestrutura e subsídios agrícolas, para pesca, para pesquisa universitária, e assim por diante.
Só que o que funciona na teoria não funciona tão bem na prática, e países como a Grécia, Portugal e Espanha, quando viram a grana entrar, passaram a fazer gastos públicos imensos, com déficits assustadores. Só para você ter uma ideia, a Espanha tem uma das maiores malhas de trens de alta velocidade da Europa e hospitais de última geração que você não encontra na Inglaterra.
O Reino Unido é o segundo país que mais contribui para este fundo depois da Alemanha. Um dos argumentos dos políticos a favor de deixar a UE é que não faz sentido enviar esta dinheirama para o bloco decidir o que fará com ele e como o Reino Unido deverá utilizá-lo depois.

O terceiro argumento do Reino Unido é a tremenda burocracia e lentidão nas decisões da UE. Caso não fizessem parte do bloco, o país poderia negociar diretamente com parceiros comerciais sem a necessidade de aprovação e votação na UE.

Por fim, o último argumento do Reino Unido é que a crescente unificação da UE visa a criação de um super-Estado europeu que retiraria a autonomia política de cada país. Um dos principais discursos da campanha para deixar a UE era "tomar conta de novo do nosso país", fundado numa noção de soberania perdida.

Em fevereiro deste ano, David Cameron tentou negociar um status especial para o Reino Unido, impondo algumas condições para o país permanecer na União Europeia. Ele conseguiu algumas concessões, como a restrição de alguns benefícios a imigrantes europeus recém-chegados.

Acho que, neste ponto, é importante explicar como funciona o sistema de assistencialismo do governo britânico: existem incontáveis benefícios que as pessoas podem receber (tipo as bolsas-família no Brasil), mesmo para aqueles que estão trabalhando. O quanto a pessoa recebe depende de sua renda, mas, em muitos casos, quando alguém tem muitos filhos, pode ser mais vantajoso viver de benefícios do que trabalhar de fato recebendo salário mínimo (que fica em torno de umas 1200 libras ao mês).
Há muitíssimos britânicos vivendo exclusivamente de benefícios, e também uma porção de imigrantes, embora a proporção seja muito inferior.
O governo (e as pessoas) acreditam que muitos se mudam para o Reino Unido por causa dos benefícios e que, se eles fossem cortados por um período de 4 anos para os recém-chegados, isto desmotivaria muita gente de ir para o país.
Só que isto está longe de ser verdade. A maioria dos imigrantes está interessada em trabalhar de fato, principalmente porque a economia do Reino Unido é muito mais aquecida e há muito mais oportunidades de emprego do que em outros países europeus como Espanha, Itália, Portugal ou Polônia, aliás, os poloneses representam o maior percentual de imigrantes europeus no Reino Unido e têm sido os primeiros alvos de ataques xenófobos desde o fim do referendo.

Porém, o pacote proposto pela União Europeia não pareceu ser o suficiente para muita gente no Reino Unido, portanto David Cameron deu prosseguimento à votação do referendo para a permanência ou não do país na UE, que havia sido uma das promessas feitas por ele para aplacar a crescente ala ultraconservadora do Parlamento Britânico, encabeçada pela imbecil figura de Nigel Farage do partido UKIP, que é uma espécie de Bolsonaro britânico; inclusive, ele foi alvo de pesadas críticas quando exibiu uma foto de uma multidão de refugiados sírios na Europa com o texto "Ponto de Ruptura", que se parecia muito com umas das propagandas veiculadas por Goebbles na Alemanha nazista.
Este campanha, que ficou conhecida como Brexit (uma abreviação de Great Britain + Exit, ou seja, Grã-Bretanha + Saída) foi inspirada principalmente na xenofobia e no discurso nacionalista, algo que ninguém imaginava que ocorreria num continente que foi devastado por causa do nazismo e do fascismo.

O que acontece é que há uma clara divisão de classes sociais no Reino Unido, entre as elites e a classe dos trabalhadores (muitos destes que não trabalham, mas vivem de benefícios). Basta lembrar que Marx e Engels escreveram muitos dos seus livros, tratados e manifestos sobre a classe trabalhadora enquanto residiam na Inglaterra, e embora isto tenha mudado bastante em todos estes anos, a divisão (e a luta) de classes ainda é muito presente, e foram principalmente estas pessoas que votaram para deixar a UE.
Outro conflito foi geracional. Um grande percentual de pessoas com idade superior a 45 anos votou para deixar a UE, talvez tendo em mente outra noção de país, provavelmente sem esta "invasão" de imigrantes, enquanto que a maioria dos mais jovens votou para permanecer na UE.

Além disto, outro conflito foi de região. Boa parte da Inglaterra (excetuando algumas cidades como Londres, Manchester, Liverpool, etc.) e País de Gales votaram para sair da UE, enquanto que a maioria dos cidadão da Escócia e da Irlanda do Norte, que se beneficiam mais das retribuições do orçamento da UE, votou para ficar.
E isto porá mais lenha na fogueira para o movimento independentista da Escócia. Em 2014, a Escócia também havia feito um referendo, só que este era para decidir se a Escócia se tornaria independente do Reino Unido. O "não" ganhou principalmente com base no argumento que, se a Escócia deixasse o Reino Unido, o país seria excluído do livre comércio com a União Europeia e sofreria grandes perdas econômicas. Além disto, o governo britânico prometeu a eles que, se eles votassem contra a independência, ele não poria em risco a participação do país na UE. Portanto, é fácil entender porque os escoceses estão se sentindo traídos após este referendo de agora, e estão cogitando a possibilidade de abandonar o Reino Unido e permanecer na UE.
Ou seja, no final das contas, a luta pela soberania britânica pode significar também o fim do Reino Unido.

Mas o país realmente deixará a União Europeia?
Ninguém sabe ao certo. Eles precisam agora acionar o artigo 50 do Tratado de Lisboa que inicia o desligamento da União Europeia. No entanto, nenhum outro país fez isto antes, portanto, ninguém sabe ao certo quanto tempo levará para o Reino Unido se desenrolar do complexo sistema de leis e tratados da União Europeia. O prazo inicial é de dois anos, mas, ao todo, isto pode levar até uma década.
Os mercados estão nervosos e os economistas prevêm que o Reino Unido entrará em recessão, que muitas empresas deixarão Londres, que era o centro financeiro da UE, para se mudarem para a Europa Continental, que a libra continuará se desvalorizando e que o Reino Unido perderá muito da sua relevância política global.
Outra consequência, que é o que já estamos vendo, será a reação negativa contra imigrantes, que tende a se acentuar ainda mais principalmente após líderes do Brexit terem afirmado que não há meios para controlar a imigração, ou seja, que nada mudará.
E caso a saída realmente ocorra, os líderes dos países europeus já demonstraram que jogarão duro contra o Reino Unido, que não farão concessões, pois temem que o Brexit contagie outros países europeus e causem o desmantelamento da União Europeia.
O fato é que poucos realmente acreditavam que o Reino Unido votaria para deixar a UE, e muitos britânicos já estão arrependidos do resultado.

Agora só nos resta aguardar pelo desfecho desta cagada histórica.

(Assistir ao vídeo sobre este tema aqui)