domingo, 22 de novembro de 2009

Alô, Waldirene?

por Barbara Duffles

1: Seu problema é autoboicotismo crônico, senhor.

2: E o que seria isso?

1: Simples. O senhor sabota sua vida. Coloca empecilhos para justificar sua depressão – que eu inclusive acho que o senhor saboreia.

2: Eu saboreio minha depressão??

1: Sim. No fundo, o senhor gosta de ser um loser. Chorar suas pitangas para os amigos, dizer-se impróprio para a vida.

2: Mas eu sou mesmo. Minha vida não caminha. Vejo os outros correndo por fora. Eu não luto e nem tenho forças para tal.

1: Loser, senhor.

2: Pare de me chamar de loser!

1: Não grite comigo, senhor.

2: Eu quero morrer. E vou fazê-lo esta noite.

1: Isso é egoísmo, senhor. Pense no sofrimento dos que vão ficar.

2: Então vou para um mosteiro. Vou me enclausurar.

1: É uma maneira covarde de fugir da vida, não acha?

2: Ah, me ajude, então, o que eu devo fazer?

1: Para começar, pare de ligar para mim. Eu não posso lhe ajudar.

2: Mas a sua voz me acalma.

1: O senhor não tem amigos? Precisa importunar uma operadora de telemarketing todos os dias?
2: Você é minha única amiga, Waldirene.

1: Eu nem sei seu nome, senhor. Com licença, preciso atender outra ligação.

2: Alô??? Waldireneeee!

Crepúsculo- Resenha por Giselle Sato


Crepúsculo
(Twilight -2008)



O filme começa com um clima normal, uma adolescente como qualquer outra, Isabella Swan (Kristen Stewart) se muda para Forks, uma cidade pequena, nublada e chuvosa, perto do estado de Washington. A razão da mudança, é o novo casamento da mãe, com um jogador de baseball da segunda linha. E a vontade da mesma, de viajar com o marido, o que não poderia fazer, morando com Bella. A reaproximação com o pai, a escola onde é o centro da atenções e o reencontro com o amigo índio, dão um enfoque inicial bem tranqüilo.

O que Bella não contava, era com o fascínio que uma estranha família, causa em seu mundo tímido e triste. Os Cullen, são um grupo de jovens pálidos, lindos e arredios. Razão por si só, motivo de muita curiosidade. Em especial, o mais jovem dos irmãos, Edward Cullen (Robert Pattinson), um garoto de uma beleza e magnetismo, atordoantes e irresistíveis. Depois ela descobre que ele é um vampiro, e se desenrola um romance, o grande mote da historia.

Eis a sinopse do filme, com pitadas de situações onde a jovem é salva pelo amado e todas as informações aprendidas nos antigos filmes sobre vampiros. Quem assistiu Entrevista com vampiro, Harry Potter, Van Hensing e outros, sabe muito bem do que estou falando. Sobreviver com sangue humano ou animal? Resistir à sede e lutar contra os maus da espécie ou dar vazão a todo poder e ferocidade? Um bom fã de vampiros, conhece de cor e salteado. Então, o que tornou uma série, escrita em 2005 por uma escritora novata, um fenômeno? Vamos entrar neste universo sobrenatural...

Se tratando de um primeiro episódio de uma série, esse é um filme mais completo, com um início, meio e fim. A história, para muitas adolescentes, é linda, maravilhosa e romântica.
Romeu e Julieta do século 21, cenários lindos e a realização dos sonhos de qualquer mortal: Viver a emoção de um imortal, escalando arvores altíssimas, vendo o mundo sob um ângulo completamente diferente. E é claro, não podemos esquecer: A dor do amor frustrado, proibido, entre uma humana e um vampiro.

Ele representa o perigo, ela é uma garota diferente, que não teme o desconhecido. Estão tão envolvidos, que precisam lutar contra as inquietações desconcertantes, tão comum aos jovens e aprender a controlar seus impulsos.

Bella, aos dezessete anos, é a mistura perfeita de pureza e libido.
Edward tem sede, não de sexo, mas do sangue da amada. Querem situação mais erótica e provocante? Muitas cenas, insinuam um beijo que nunca acontece... E envolvem o publico em uma torcida apaixonada.

Enquanto isso, sensualidade, paisagens belíssimas, efeitos especiais, romance e fantasia interagem. Não foi à toa que o filme virou febre e conquistou altíssimas bilheterias. Devo admitir que o filme é delicioso e por alguns minutos, senti vontade de ter todos aqueles poderes. Quem não sentiria? Impossível resistir...

E é claro, encontrar um vampiro tão encantador quanto Edward, personagem que Stephenie Meyer, a autora, construiu em uma trama de extraordinário suspense e que marcou sua estréia literária.

Vale citar que seus livros já venderam mais de 25 milhões de copias e foram traduzidos em 37 idiomas. A saga é contada em quatro livros, e o segundo volume, Lua Nova, já estreou nos cinemas. Posso adiantar que neste filme, Jacob Black , o amigo índio de Bella e que já deixou indícios, de ser um lobisomem, tem grande destaque na trama.

Crepúsculo vale a pena ser assistido, por todas as razões acima citadas e principalmente porque foi feito para entreter.
Por alguns minutos, deixe a realidade lá fora, e no escurinho do cinema... Liberte o jovem dentro de si e deixe-se levar pela magia.




"Quando a vida lhe oferece um sonho muito além de todas as suas expectativas, é irracional se lamentar quando isso chega ao fim"


(trecho do livro)

Diretor: Catherine Hardwicke
Roteiro: Melissa Rosenberg

Com: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Billy Burke, Ashley Greene, Nikki Reed, Kellan Lutz e Taylor Lautner.





Autora: Stephenie Meyer formou-se em literatura inglesa na Brigham Young University. Sobre este romance (Crepúsculo), ela diz: "Sempre admirei a capacidade de alguns escritores de criar situações de fantasia impossíveis e depois acrescentar personagens que são tão profundamente humanos que suas perspectivas tornam a situação real. Espero que Crepúsculo proporcione a mesma experiência a seus leitores". A escritora mora com o marido e três filhos em Glendale, no Arizona.




Descrição da Saga:
Crepúsculo: O início da saga de Isabella Swan desde sua chegada a cidadela de Forks e a descoberta de sua paixão pelo vampiro Edward Cullen no best-seller mais cultuado da atualidade. - 416 páginas


Lua Nova: Para Bella Swan, há uma coisa mais importante do que a própria vida: Edward Cullen. Mas estar apaixonada por um vampiro é ainda mais perigoso do que ela poderia ter imaginado. Edward já resgatara Bella das garras de um mostro cruel, mas agora, quando o relacionamento ousado do casal ameaça tudo o que lhes é próximo e querido, eles percebem que seus problemas podem estar apenas começando... Em Lua Nova, Stephenie Meyer nos dá outra combinação irresistível de romance e suspense com um toque sobrenatural. - 480 páginas



Eclipse: Enquanto Seattle é assolada por uma sequência de assassinatos misteriosos e uma vampira maligna continua em sua busca por vingança, Bella está cercada de outros perigos. Em meio a isso, ela é forçada a escolher entre seu amor por Edward e sua amizade com Jacob - uma opção que tem o potencial para reacender o conflito perene entre vampiros e lobisomens. Com a proximidade da formatura, Bella vive mais um dilema: vida ou morte. Mas o que representará cada uma dessas escolhas?- 464 páginas


Amanhecer: Na aguardada conclusão da saga Crepúsculo Bella se vê a frente da difícil decisão da escolha fatal entre fazer parte do obscuro, mas sedutor, mundo dos imortais ou seguir uma vida totalmente humana. Escolha essa, que poderá significar a transformação do destino dos dois clãs: vampiros e lobisomens. Assombroso e de tirar o fôlego, Amanhecer esclarece os mistérios e os segredos desse fascinante épico romântico que tem arrebatado milhões de leitores. - 576 páginas

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Lascívias viáveis

Léo Borges



Alguns desejos são traídos pela lógica,
outros, conquistados pela inocência.
Todos atraídos pela vontade de ontem.


Em cômodos, estes pecados se travestem,
incômodos trazidos por meias promessas.
Tolos pactos impregnados de noite.


Por fim, alças caem dentro de trapaças.


E orgasmos surgem no auge da mentira.

Invasão nas ondas médias

Léo Borges



– Doces ou travessuras?


– Como “doces ou travessuras”? Como seus pais deixam vocês soltos numa noite como esta? Não estão ouvindo as notícias?


O tenente Mark Budd não entendia como algumas crianças mantinham as inocentes brincadeiras do Dia das Bruxas mesmo com a tensão que pairava sobre aquele 30 de outubro. Capetas e vampiros desavisados ainda perambulavam pelas ruas, ignorando a batalha incipiente, fidedignamente transmitida pela Rádio CBS.


O militar estava transtornado. Participara da guerra de 1914 no apoio dos Estados Unidos à Tríplice Entente como soldado raso, onde sofrera ferimentos de todo o tipo (além do psicológico abalado pela morte dos colegas de farda) e agora se via novamente frente à outra, talvez ainda mais devastadora.


– Mulher, você não vai acreditar! Notícias e mais notícias sobre a assombrosa invasão marciana e idiotas vestidos de diabos e bruxas aí fora desfilando!


Rose Budd, assustada desde que sintonizaram o drama nas ondas médias, via sua aflição aumentar gradativamente com o pânico disseminado pelo professor Pierson, codinome do produtor radiofônico Orson Welles. Este narrava o estranho episódio de OVNIs que invadiam o espaço aéreo americano e, vez por outra, abria espaço para que gritos histéricos de repórteres e de pessoas sendo caçadas por insuspeitos seres esverdeados fossem levados a toda a nação. Muito longe de ser uma tragédia comum, aquilo era uma impensável ocorrência extraterrestre. Alienígenas estavam atacando o mundo e a tecnologia dos novos aparelhos de radiofreqüência servia apenas para que o medo se espalhasse mais rápido.


– Meu Deus, Mark! Estamos nos curvando para esses seres de Marte!


O tenente Budd, procurando ripas no sótão, não ouviu o comentário. Estava mais preocupado em encontrar objetos que pudessem ajudá-lo a lacrar as possíveis entradas, dificultando, assim, o acesso dos inimigos verdes à sua casa. Ainda incrédula, Rose mudou de estação para ouvir o que outras rádios poderiam estar falando sobre o terrível acontecimento. Captou uma estação com notícias internacionais:


A poetisa Gertrude Stein continua defendendo a entrega do Nobel da Paz de 1938 ao líder alemão Adolf Hitler. Este posicionamento é compartilhado por Chamberlain, que acredita nas promessas deste novo ícone mundial. Robert Kolgest, analista geopolítico presente aqui em nossos estúdios, crê que, através destas conexões políticas, a paz vigorará inexoravelmente neste planeta no início da nova década...


– Ora, Rose – interrompeu Mark –, estamos vivendo uma guerra dos mundos e você muda o dial para alguém falando em “paz na nova década”?! Não sabemos nem se vamos estar vivos em 1939! Quem quer saber sobre Nobel da Paz neste momento? Volte para a CBS!


A história da guerra interplanetária ganhava força no boca a boca e as ruas, aos poucos, se esvaziavam, com os foliões, em fuga, abandonando suas fantasias. Welles era enfático ao informar que muitos já haviam sucumbido ante os raios de esquisitas armas e os que ludibriavam a morte eram, de qualquer modo, cooptados e tinham a consciência subtraída; o Halloween, de mera ficção, ganhava personagens reais. Rose, subitamente, lembrou-se dos pais, idosos, moradores do quarteirão vizinho.


– Vou ver meus pais – disse e saiu por uma janela que ainda não fora vedada.


– Está louca?! Quer ser abduzida? Eles estão bem! Meu sogro não saiu de casa nem para saudar Roosevelt em seu comício! Não é agora, no meio dessa calamidade, que o velho vai botar a cara na rua.


– Você é das Forças Armadas! Devia estar fazendo alguma coisa além de se acovardar escorando madeiras nas portas e janelas! – berrou a mulher, nervosa com o marido.


Rose saiu sem olhar para trás. O dever de cuidado com seus pais era maior do que o temor por encontrar bizarros ETs pela frente. Corria aos tropeções sob os olhares atônitos de pessoas escondidas em suas casas, agora transformadas em verdadeiras fortalezas.


No meio do caminho, chorou. Com tanta tecnologia bélica o homem ainda era incapaz de fabricar armas que evitassem um problema de tal magnitude. Mas, esperar o quê de seres que constroem um opulento e, afirmado pelas autoridades navais, extremamente seguro navio para, logo em sua primeira viagem, afundar? Isso sem falar na bestialidade da sangrenta guerra – esta puramente humana – de vinte e quatro anos atrás. O mundo estava mesmo perdido. Talvez a invasão dos marcianos não fosse de toda ruim. Iriam destruir essa medíocre e ignóbil civilização e criariam uma nova, mais inteligente e justa.


Num átimo, Rose se enxergou ao lado de um dos dominadores esmeraldinos, quem sabe o mais robusto e poderoso, alguém que fosse o mentor de toda a invasão. Um giro rápido e confuso de recordações entrecortadas fez deste pensamento um paralelo com seu casamento e de como o condicionara à ascensão de Mark no meio militar. A convicção de que somente amor não mantém relacionamentos (muito embora não admitisse ser taxada como uma pessoa materialista) sempre a acompanhou e, por isso, acreditava que estar perto dos vencedores era um meio legítimo de proteção e, por conseguinte, de sobrevivência.


Mas o desvario, revestido por uma grotesca carga libidinosa, a fez corar de vergonha e entender que aquilo era pecado não apenas macabro como também digno de severo castigo. O remorso obrigou-a, então, a correr ainda mais rápido, como se, agora, lutasse para escapar dos insidiosos flashes que açoitavam sua mente. Enquanto corria, viu restos de capas, máscaras mortuárias e cruzes de madeira esquecidas nas calçadas. Ninguém nas ruas além dela e de sua sombra criada pelos antigos postes de ferro do subúrbio de Nova Jersey. Durante a sôfrega correria, a mulher passou perto de uma casa que também ouvia, em alto som, o noticiário que vinha tirando sua paz:


Pierson, eles estão chegando à Manhattan. São muitos e são hostis. Nossa correspondente em Detroit foi atacada e virou um zumbi. Vou suspender a transmissão. Nick Rogers diretamente de Nova York. Que Deus nos proteja...


– Como? Como é que isso pode estar acontecendo? Não é possível! – balbuciou Rose para si mesma. – Aquele alemão que está concorrendo ao Nobel da Paz deveria se pronunciar. Vir a público para dar alguma esperança às pessoas. Falar sobre algum projeto para eliminar essa praga sideral que assolou o mundo...


Desanimada e sem fôlego, Rose caiu ajoelhada, olhando para o firmamento e clamando por Deus; o céu estava limpo, mas a luz das estrelas parecia ocultar o brilho dos discos voadores. Em sua frente, repousando no asfalto, apenas uma sarcástica e oca abóbora, vazada com seu indefectível sorriso demoníaco. Os invasores esperaram o Halloween para poder concretizar o plano. Nada mais perfeito: bruxas e marcianos. Era isso! Eram seres realmente evoluídos. Estudaram o comportamento e as tradições dos humanos por anos! Uma noite como aquela, onde todos festejavam o Mal, era perfeita para a conquista da Terra.


Rose, já sem esperanças em uma vitória da Humanidade, chorava copiosamente quando um soturno homem de terno surgiu em sua frente, oferecendo o braço para ajudá-la a se levantar.


– Q-quem é você?


– Pegue esse pão embebido em groselha. Um doce aliviará seu pânico pela travessura.


Mesmo estranhando aquela aparição, Rose aceitou a ajuda e, lentamente, ergueu-se.


– Doce? Travessura? Meu senhor, ainda brincas de Halloween? Que calma é essa?


– Desconfie do que ouve e tenha cuidado com os verdadeiros invasores – disse, com paciência, o misterioso sujeito, afastando-se, logo após, num calmo vagar. Antes, porém, deixou um livro sobre a abóbora com os dizeres: A Guerra dos Mundos – H. G. Wells.


A simples presença daquele exemplar iluminou a mente de Rose de tal modo que a escuridão de desconfianças dissipou-se de imediato, permitindo que o silêncio noturno rapidamente invadisse seus ouvidos. Não havia nenhum ruído de armas estelares ou de monitoramento do espaço terrestre; não havia naves; não havia marcianos; não havia invasão. Mas ainda assim a mulher sentiu as pernas tremerem, pois a calmaria, de tão mórbida, gerou-lhe um súbito e intenso calafrio. Quem era aquela pessoa?


– Qual o seu nome, cidadão? ­– indagou com algum receio.


De longe, sem se virar, o homem respondeu:


– Kane.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Física como matéria-prima para o suspense

(Maristela Scheuer Deves)

Seja sincero: alguma vez, durante uma aula de física, você pensou que aquele conteúdo que o professor explicava lá na frente e que por vezes parecia impossível de entender poderia servir de base para um romance de suspense? A resposta, muito provavelmente, é não.

Eu, tampouco, cheguei a cogitar tal coisa. Assim, quando vi a capa do livro A última teoria de Einstein numa banca da Feira do Livro de Caxias do Sul, onde moro, ele não atraiu minha atenção. O título e as fórmulas matemáticas na capa deram-me a impressão de que se tratava de um livro teórico.

Mas quando o livreiro, meu conhecido, indicou-me sua leitura, resolvi dar à obra o ônus da dúvida e folheá-lo. Foi o bastante para mudar minha opinião: o livro valia a pena ser comprado e lido. Essa nova impressão se confirmou durante os dias de leitura, pois a obra é um thriller de muito suspense, mesclado com o mundo dos pesquisadores e do terrorismo (e uma pitada de romance).

A trama de A última teoria de Einstein, do escritor Mark Alpert (editado no Brasil pela editora Agir, 388 páginas, preço aproximado de R$ 40), gira em torno da Einheitliche Feldtheorie, ou teoria do tudo, um conjunto de equações explicando todas as forças da natureza que Albert Einstein teria descoberto - mas não teria revelado por medo de que ela fosse usada para criar armas ainda mais poderosas do que a bomba atômica.

Apenas três cientistas que trabalharam com Einstein sabem dessa teoria, e agora eles estão sendo mortos, um a um. O último, antes de morrer, revela a existência da teoria a seu ex-pupilo David Swift, um professor universitário que, a partir de então, passa a ser perseguido pelo FBI e por um matador implacável.

Com estilo semelhante a O Código Da Vinci, A última teoria de Einstein é de certa forma mais convincente, talvez pela mescla com o mundo da física e da matemática.

Uma leitura que prende do início ao fim - mesmo enquanto os personagem discorrem sobre física.

A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA




Confesso nunca ter dado muito crédito à obra de Jorge Amado. Não por qualquer motivo mais relevante, mas, simplesmente, por puro preconceito de alguém que não conseguia enxergar nenhum ponto atrativo em títulos como “Tieta do Agreste” ou “Gabriela, Cravo e Canela”.

E o que maturidade não faz conosco? Hoje, com meus quase 30 anos de idade (nem tão maduro assim), resolvi superar meu antigo preconceito juvenil da maneira mais óbvia possível: lendo o que Jorge Amado escreveu.

Eis que me surge “A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua”, escrito em 1959. E, já no prefácio, encontro palavras intimistas de Vinícius de Moraes, dizendo que a novela em questão trata-se da melhor na literatura brasileira. Opiniões à parte, o que se deve levar em conta é a franqueza até mesmo comprometedora da afirmação, que deixa para trás obras de outros grandes novelistas. Mas, sendo Vinícius de Moraes um dos mais respeitados nomes da cultura artística de nosso país, há que se dar mínimo crédito ao que escreveu e, sem dúvida, chega-se à conclusão de que a novela de Jorge Amado é, ao menos, digna de ser lida.

Tendo um ou outro deslize na técnica (quase imperceptíveis), a escrita de Amado se mostra aconchegante, acalentadora, transparecendo algo que remete a certa inocência de tempos idos do Brasil. Ao leitor, fica a agradável experiência de ler uma história que flui sem rebuscamentos, com diálogos divertidos e personagens de uma conquistadora malandragem inocente.

O enredo trata das circunstâncias envolvidas na morte de Joaquim Soares da Cunha, também chamado Quincas Berro Dágua. Através de dois blocos de personagens principais, são confrontadas distintas versões para a morte do defunto-protagonista. Há o grupo da família sanguínea, o qual insiste na morte tranquila e formal de Joaquim Soares. Enquanto que o grupo da “família mundana”, representado por tipos caricatos dos subúrbios baianos, defende a tese de que Quincas morreu entregue às águas do mar, num cenário de lua e mistério.

Com pitadas de humor irônico – lembrando Tolstoi em seu “A Morte de Ivan Ilitch” – e representando uma deliciosa alma baiana que talvez nem mais exista – remetendo a “O Cortiço” de Aluísio de Azevedo –, Jorge Amado, sem dúvida, criou uma obra magnífica que, como poucas, une prazer na leitura com qualidade literária.

Assim como na morte de Quincas, há quem concorde ou discorde da opinião de Vinicius de Moraes. A mim, a certeza que fica é que Jorge Amado foi um dos grandes escritores da literatura brasileira. E, se ainda ficar dúvidas no leitor sobre “A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua”, cabe uma última reflexão sobre a frase derradeira de Quincas, segundo Quitéria que estava ao seu lado: “Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há”.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Eu também quero meu Septilhão!






Dia desses, um certo cidadão americano chamado Dalton Chiscolm entrou com uma ação na justiça, pedindo uma indenização ao banco onde é correntista, o Bank of America, alegando que foi mal atendido. O valor pedido por ele por conta da cara feia (e, talvez, por causa das dezenas de tarifas cobradas pelo banco, ou porque o cafezinho tinha gosto de meia suja) é o número mais absurdo que já se ouviu falar




US$ 1.784.000.000.000.000.000.000.000,00 (ou, um septilhão e pouco de dólares)(¹)




Quem pode com um troço desses?


É óbvio que não existe dinheiro o suficiente no mundo pra pagar o cara. Ainda que algum juiz fosse levar o cara a sério (é só uma suposição, ok?), como seria possível indenizá-lo? Eu tenho aqui minhas sugestões:


1º - entregar a ele uma escritura pública do planeta Saturno, incluindo o anel recém-descoberto, já que dizem que ele poderia circundar bilhões de planetas iguais à Terra;


2° - entregar uma escritura pública do ex-planeta Plutão, já que agora ele caiu para a segunda divisão do sistema solar, estaria livre de pagar o IPTU. Mas seria preciso fazer isso antes que o MST tomasse conta do planetóide, alegando que se trata de propriedade improdutiva.


3º - pagá-lo com relíquias católicas medievais. Dizem que com a quantidade de ossos de Jesus Cristo surgidos nas igrejas da idade média - que cobravam "uma pequena quantia" para que os peregrinos os vissem, tocassem ou mesmo, levassem uma lasquinha para casa - dava para dar uma volta inteira ao redor de Roma.


4º - entregar a ele o baú do mago Paulo Coelho, de onde saíram todas as verdades e provas de seus contatos extraplanares e extraterrestres.


5º - pagá-lo com a hipoteca das usinas de beneficiamento de urânio e as indústrias de armamento de destruição em massa que os americanos encontraram no Iraque.




Com uma dessas alternativas, seria bem provável que o cara ficasse bem satisfeito. Só não ia conseguir que os bancos melhorassem o atentimento. Afinal, o que lhes interessa são números. Grandes números.










Um vestido rosa, tabu e um fenômeno de intolerância coletiva


Todos os anos, em janeiro, no auge do inverno nova-iorquino, centenas de pessoas se reunem para uma estranha brincadeira: entrar no metrô sem calças. Na parte de cima, homens e mulheres vestem o que habitualmente usam, paletó, blusa, casaco, ou moletom, no entanto, na parte de baixo, somente cuecas e calcinhas, com pernas à mostra.

Da primeira vez que vi isto ocorrer, causou um certo estranhamento, mas, no metrô lotado, eu era o único que parecia estar notando algo de errado. Todos os demais nova-iorquinos ignoravam, ou fingiam ignorar, a ausência das calças em alguns passageiros. Era como se fosse um dia corriqueiro, como qualquer outro.

(Louco [?] no East Village)

Semana passada, no East Village, um homem, vestido de mulher, corria em círculos com uma rena de pelúcia em mãos. A maioria das pessoas simplesmente passava por ele, fingindo não vê-lo, apenas um ou outro dava uma risadinha, ou parava para tirar uma foto
Se era um louco, pouco importa, o extraordinário era a reação das pessoas, a indiferença delas.

O mote dos EUA, arrotado aos quatro ventos, é liberdade. Em vários aspectos, é uma lema puramente retórico, para justificar invasões ao Iraque ou Afeganistão, mas em outros, é de fato o ideal pelo qual os americanos vivem: liberdade acima de tudo.

Para um americano, pouco importa como você se veste, o que você faz, com quem você anda, o que você come. Cada um é responsável por seus próprios atos, livre para fazer suas próprias escolhas e ninguém tem nada a ver com isto. Ninguém.
Isto não significa que não haja preconceitos, mas externá-los chega a ser quase antiético.

Como os americanos reagiriam a uma universitária desfilando com um vestido rosa curtíssimo?
Difícil dar uma resposta categórica, mas talvez com a mesma indiferença com que tratam os passageiros sem calças no metrô, ou o louco trajado de mulher na Astor Place, com indiferença, com naturalidade.


E é neste momento em que revelamos toda nossa hipocrisia, nosso atraso, nossa moralidade retrógrada.
Estamos tão habituados à exposição do corpo, à reificação da mulher e do sexo, no baile funk, no carnaval, no fio dental na praia, no concurso "Menina da Laje", na protagonista da novela posando para a "Playboy", na imagem do corpo vendida e veiculada em todos os outdoors, nas revistas, na TV, nos jornais de quinta.
Consumimos a todo o momento o culto ao corpo, ao sexo, à beleza a qualquer custo e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, repudiamo-lo quando se apresenta fora dos meios onde ele é convencionalmente aceito.
Talvez sejam os tabus, estas normais sociais que regulam o permitido e proibido, que estejam no cerne desta questão, que expliquem porque aceitaríamos a Geyse e seu vestido rosa em certas circunstâncias, mas a repudiariamos em outras.
Mas nada é tão simples, e tabus não explicariam porque milhares de alunos, supostamente esclarecidos, posto que estão numa Universidade, se reuniriam para insultar uma colega, apenas por causa do que ela veste. Se tabu, ou machismo, pode estar na origem do ocorrido, as proporções do evento sugerem outro fator.

"Eu comecei a gritar, mas nem sabia o que estava acontecendo. Foi engraçado", disse um estudante da UniBan, numa das reportagens que assisti. O ser humano, como uma criatura social, tende a reproduzir os atos dos seus pares como estratégia de sobrevivência: se a maioria faz, então deve ser o melhor a ser feito. Enquanto que este comportamento se justifica em várias ocasiões e nos ajuda coletivamente, em muitas situações apenas reforça uma injustiça.

No livro "A Sabedoria das Multidões", há um exemplo esclarecedor - uma mulher que deseja se suicidar jogando-se de uma ponte causa um enorme congestionamento. Algumas pessoas, para se livrarem logo deste incômodo, começam a gritar, "Pula! Pula!". Em pouco tempo, centenas de motoristas nervosos reforçam o coro e a mulher se joga para a morte.
Duvido que qualquer uma daquelas pessoas, individualmente, desejasse a morte da mulher, mas coletivamente, de modo errôneo, os motoristas julgaram que, se ela se jogasse logo no rio, o tráfego seria normalizado.

Às vezes, precisamos nos esconder sob a máscara da coletividade para expormos nossa intolerância. Somente assim, sentimo-nos seguros para demonstrar a nossa profunda ignorância.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

E faz de conta...

Miguel de Unamuno
trad.: Henry Alfred Bugalho

A Miguel, o herói de meu conto, um haviam lhe pedido. Herói? Herói, sim! E por quê?— perguntará o leitor. Pois, primeiro, porque quase todos os protagonistas dos contos e dos poemas devem ser heróis, e isto por definição. Por definição? Sim! E se não, vê-lo-emos.
P. — Que é um herói?
R. — Alguém sobre o qual se pode escrever um poema épico, um epinício, um epitáfio, um conto, um epigrama, ou mesmo uma manchete ou uma mera frase.
Aquiles é herói porque fê-lo Homero, ou quem quer que fosse, ao compor a Ilíada.
Somos, pois, os escritores — ó nobre sacerdócio! — quem para nosso uso e satisfação criamos os heróis, e não haveria heroísmo se não houvesse literatura. Isso de heróis ignorados é uma lengalenga para consolo dos simplórios. Ser herói é ser cantado!
E, ademais, era herói o Miguel de meu conto porque lhe haviam pedido um. Aquele a quem se lhe pede um conto é, pelo mesmo fato de sê-lo pedido, um herói, e aquele que o pede é outro herói. Heróis os dois. Era, pois, herói o meu Miguel, a quem Emilio lhe pediu um conto, e era herói o meu Emilio, que pediu o conto a Miguel. E assim vai avançando este que escrevo. Quer dizer,

Sem perceber, seguem os dois adiante.

E meu herói, diante das folhas brancas e amarelecidas, olhos fixos nelas, a cabeça entre as palmas das mãos e cotovelos sobre a escrivaninha de trabalho — e com esta descrição me parece que o leitor estará vendo-o muito melhor do que se o visse ilustrado —, dizia para si: “Bem, sobre o que escrevo agora o conto que me pedem?” Vixe, escrever um conto alguém que, como eu, não é contista de profissão! Porque há o romancista que escreve romances, um, dois, três ou mais ao ano, e o homem que os escreve quando eles brotam de si. E eu não sou um contista!...
E não, o Miguel de meu conto não era um contista. Quando, por acaso, fazia-os, sacava-os, ou de algo que, visto ou ouvido, havia ferido-lhe a imaginação, ou das mais profundas de suas entranhas. E isto de sacar contos do fundo das entranhas, isto de converter em literatura os mais íntimos tormentos do espírito, as mais espirituais dores da mente, ó, sobre isto!... Sobre isto, tanto já falaram os poetas líricos de todos os tempos e países, que nos resta já muito pouco por dizer.
E logo os contos de meu herói teriam para os leitores habituais de contos — os quais formam uma classe especial dentro do gênero dos leitores — um gravíssimo inconveniente, que é o de não haver argumento, o que se chama argumento. Dava muito mais importância às pérolas do que ao fio em que estão inseridas, e para o leitor de contos o importante é a ação, assim com “a”, e não ilação, com “il”, como nos esforçamos em escrever, os mais ou menos latinistas que pensamos ser, e ensinar que este vocábulo deriva de infero, fers, intuli, illatum. (Não se esqueçam que sou um catedrático, e por sê-lo meus filhos comem, mesmo que, vez ou outra, merendem de um conto perdido)

E estou na metade de outra página.

Para o herói do meu conto, o conto não é senão um pretexto para observações mais ou menos engenhosas, fragmentos de fantasia, paradoxos, etc., etc. E isto, francamente, é rebaixar a dignidade do conto, que tem um valor substantivo — creio que se diz assim — em si mesmo e por si mesmo. Miguel não cria que o importante era o interesse da narração e que o leitor fosse dizendo para si mesmo a cada momento: “E agora o que virá?”, ou: “E como isto acabará?" Sabia, ademais, que há quem começa um destes romances enormemente interessantes, vai ver nas últimas páginas o desfecho e já não o lê mais.
Por isto, acreditava que um bom romance não deve ter desfecho, como não tem, ordinariamente, a vida. Ou devia ter dois ou mais, expostos em duas ou mais colunas, e que o leitor escolha entre aquele que mais o agrade. O que é soberanamente arbitrário. E este Miguel meu era o mais arbitrário que dar-se possa.
Em um bom conto, o mais importante são as situações e as transições. Sobretudo, estas últimas. Ó, as transições! E a respeito daquelas, é o que dizia o famoso melodramaturgo d’Ennery: “Em um drama (e quem diz drama, diz conto), o importante são as situações; componha você uma situação patética e emocionante, e pouco importa o que nela digam os personagens, porque o público, quando chora, não ouve”. Que profunda observação esta de que o público, quando chora, não ouve! Um sujeito que havia sido apontador do grande ator Antonio Vico me dizia que, representando este uma vez A morte civil, quando entre dois assentos fazia que morria, e as senhoras o olhavam com binóculos para cobrir com eles as lágrimas e os cavalheiros fingiam que assoavam para enxugá-las, o grande Vico, entre soluços estertóricos e frases entrecortadas de agonia, estava dando a ele, ao apontador, umas tarefas para a contadoria. O que precisa é saber fazer chorar!
Sim; aquele que num conto, como num drama, sabe fazer chorar ou rir, pode nele dizer o que lhe apetecer. O público, quando chora ou quando ri, não se inteira. E o herói de meu conto tinha a perniciosa e petulante mania de que o público — seu público, é claro! — se inteirasse do que ele escrevia. Haja visto pretensão semelhante!
Permita-me o leitor que interrompa um momento o fio da narração de meu conto, faltando ao preceito literário da impessoalidade do contista (veja a Correspondance de Flaubert, em qualquer de seus cinco volumes Oeuvres completes, Paris, Louis Conard, libraire-éditeur, MDCCCXX), para contestar essa pretensão ridícula do herói de meu conto de que seu público se interesse pelo que ele escreve. É que não sabia que a maioria das pessoas lê para não se inteirar? Fartos estão cada um com suas próprias penas, seus próprios pesares e cavilações para que venham lhes enfiar outras! Quando eu, de manhã, à hora do chocolate, pego o jornal do dia, é para me distrair, para passar o tempo. E conhecido é o aforismo daquele sábio granadino: “A questão é passar o tempo”; ao que outro sábio, bilbaíno este, e que sou eu, acrescento: “Mas sem adquirir compromissos sérios”. E não há meio menos comprometedor de passar o tempo do que ler o jornal. E se apanho um romance ou um conto não é para que, por reação, suscite minhas profundas preocupações e minhas penas, senão para que me distraia delas. E, por isto, não me inteiro do que leio, e até leio para não me inteirar...
Mas o herói de meu conto era um petulante que queria escrever para que se inteirassem e, é natural, assim não pode ser, não lhe resultava do que escrevia senão paradoxos.
Que é isto um paradoxo? Ah!, eu não sei, mas tampouco sabem os que falam deles com certo desdém, mas ou menos fingido; mas nos entendemos, e basta. E precisamente o chiste do paradoxo, como o do humor, firma-se somente em haver quem fale deles e saibam o que são. A questão é passar o tempo, sim, mas sem adquirir compromissos sérios; e que compromisso sério se adquire acusando algo de paradoxo, sem saber o que ele seja, ou tachando-o de humorístico?
Eu, que como o herói do meu conto, sou também herói e catedrático de grego, sei o que etimologicamente quer dizer isto de paradoxo: Da preposição para, que indica lateralidade, o que vai ao lado ou se desvia, e doxa, opinião, e sei que entre paradoxo e heresia há apenas diferença; mas...
Mas o que tem tudo isto a ver com o conto? Voltemos, pois, a ele.
Havíamos deixado nosso herói — começando sendo-o meu e já é teu, leitor amigo, e meu; isto é, nosso — com os cotovelos sobre a mesa, com os olhos fixos nas folhas brancas, etc. (veja a descrição precedente) e dizendo para si: “Bem, sobre que escrevo eu agora?...”
Isto de pôr-se a escrever, não precisamente porque se tenha encontrado assunto, senão para encontrá-lo, é uma das necessidades mais terríveis a que se veem expostos os escritores fabricantes de heróis, e, por conseguinte, heróis eles mesmos. Por que qual é o heroísmo supremo, senão criar heróis, cantá-los? É o herói quem cria seu criador, opinião que mantenho muito brilhante e profundamente em minha Vida de Don Quixote e Sancho, segundo Miguel de Cervantes Saavedra, Madri, librería de Fernando Fe, 1905 — e isto sirva, de passagem, como propaganda —, obra na qual sustento que foi Dom Quixote aquele que criou Cervantes e não este a aquele. E a mim quem me criou, pois? Neste caso, não cabe dúvida que foi o herói do meu conto. Sim, eu não sou senão uma fantasia do herói de meu conto.
Prossigamos? Por mim, leitor amigo, até onde você quiser; mas temo que isto se converta no conto que nunca há de acabar. E assim é a vida... Ainda que não! Não! A vida se acaba.
Aqui seria uma boa ocasião, com este pretexto, para dissertar sobre a brevidade desta vida perecedora e a vanidade de seus êxitos, o que daria a este conto um certo caráter moralizador que o elevaria além do nível destes outros contos vulgares que só servem para divertir. Porque a arte deve ser edificante. Vou, portanto, acabar com uma

Moral da história. Tudo se acaba neste mundo miserável: Até os contos e a paciência dos leitores. Não vou, pois, abusar.

Fonte: http://www.scribd.com/doc/6808126/Unamuno-Miguel-de-Tres-Cuentos

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Biografia
Miguel de Unamuno y Jugo (29 de Setembro de 1864 – 31 de Dezembro de 1936) foi um poeta e filósofo espanhol.

Nasceu em Ronda del Casco Viejo (Bilbau) e faleceu em Salamanca. Considerado a figura mais completa da Generación del 98, um grupo constituído por nomes como Antonio Machado, Azorín, Pío Baroja, Ramón del Valle-Inclán, Ramiro de Maetzu, Angel Ganivet, entre outros.

Estudou na universidade de Madrid onde tirou o curso de Filosofia e Letras e mais tarde obteve a cátedra de grego na Universidade de Salamanca. Dez anos depois foi nomeado reitor da universidade salmantina.

Foi conhecido também pelos sucessivos ataques à monarquia de Afonso XIII de Espanha. De 1926 a 1930 viveu no exílio, primeiro nas Ilhas Canárias e depois em França, de onde só voltou depois da queda do general Primo de Rivera. Mais tarde o General Francisco Franco afastou-o novamente da vida pública, devido a críticas duras feitas ao General Millán Astray, acabando por passar os seus últimos dias de vida numa casa em Salamanca.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_de_Unamuno

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Noite de chuva


Ela andava por um beco escuro. Passos apressados, com medo. A capa de chuva cobria o collant e a calça suada que ela usara na academia. Acabara de voltar da aula de dança. Nada a fazia mais feliz do que aquela hora e meia de aula... E foi quando se lembrou da coreografia do dia que ela se deparou com um moreno forte e mal-encarado.
- Tá sorrindo pra mim é, lindona?
Ela tentou avançar, sem sucesso. Aqueles braços musculosos e sujos de graxa impediam seu caminho.
- Onde você pensa que vai, boneca?
- Você não tem nada a ver com isso. Dá licença, por favor?
- Hummm. Que educação. Olha aqui garota, saiba você que eu tenho tudo a ver com isso, porque você vai comigo agora praquele cantinho.
E dito isso ele já foi empurrando-a para o ambiente sujo, fétido e escuro.
- Não, por favor, me deixa ir embora. Eu te dou todo o meu dinheiro, toma. É seu.
- Quem disse que eu quero grana, princesa? Eu quero você.
- Por favor...
E nisso ele já tinha aberto a capa e já abaixava a alça do collant.
- Não, por favor...
- Hum, que peitinho gostoso. Vou mamar você todinha.
- Por favor...
- Ai, pede, pede mais que eu fico louco.
- Me deixa ir...
- Que barriguinha...
- Socorro!
Com violência, ele tapou sua boca e puxou seu cabelo.
- Olha aqui, gostosinha. Gemer pode, mas gritar não. Assim eu perco a paciência.
E isso parece que o deixou com mais tesão ainda, pois num minuto ele rasgou o collant e colocou o seu membro naquele buraco quentinho.
- Hum, sua safada. Tá molhadinha, hein? Tá gostando do papai aqui, tá?
- Me deixa ir embora - dizia ela cerrando os dentes e arranhando a lataria do carro onde estava deitada.
- Eu deixo, mas antes vou fazer a festa, sua cadela - disse o moreno dando um tabefe naquelas fuças.
- Ai, não precisa me bater. Eu fico quietinha.
- Ah vai ficar quietinha, é? Mas eu não quero não, sua piranha. Quero te ver gemendo, gritando. Quero te ver gozando, vai.
- Por favoooooor...
- Isso vai, assim que eu gosto. Já está até perdendo a voz.
- Me deixa ir embora...
- Sem acabar o serviço?
Dito isso, ele a virou de quatro e retomou os trabalhos cada vez com mais força.
Ela não sabia se chorava ou se gemia.
- Ai... por favor...
- Vamos parar com essa educação? Me manda meter, vai.
- Como assim?
- Manda logo, porra.
- Mete.
- Assim não, tá muito fraco. Quero ouvir alto.
- Meeeete.
- Mais forte.
- Mete!
- Ta melhorando. De novo.
- Mete, cacete.
- Isso! Assim que eu gosto.
- Mete logo essa porra!
- Hummm.
Era o que faltava pro garanhão gozar.
- Agora pode ir, cadela. E não esquece: você nunca me viu na vida, hein? Sei onde você mora e vou infernizar tua vida se tu der com a língua nos dentes.

Em casa, já no chuveiro, ela não conseguia esquecer o que tinha acabado de acontecer. E nunca contou pra ninguém, nem pra sua analista. Mas todo dia de noite sonhava com o tal moreno. E acordava com o lençol encharcado.

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