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sábado, 2 de agosto de 2014

NAS LINHAS DO TEXTO, NAS TRILHAS DA VIDA


 
Nunca pensei que escrever acerca dos livros que marcaram a minha vida pudesse ser uma tarefa tão difícil. Ao tentar registrar as obras que mais me tocaram, percebi que me deparava com uma prova das mais árduas, e, como Sísifo, a cada vez que julgava atingir o topo da montanha, eis que me via rolando e retornando ao ponto de partida. Sim, porque tudo começou aí: as quatro paredes do restrito apartamento da minha infância metamorfoseavam-se em diversos e longínquos lugares, transportando-me, como por encanto, aos espaços retratados nas histórias, que iam desde o mar tenebroso d’Os Lusíadas ao céu de Ícaro, na obra de Monteiro Lobato, despertando-me o gosto pela mitologia clássica.

Não sou da época da Internet nem dos videogames, e a leitura – sempre tive livros os mais diversos ao meu alcance – representava, naquele momento, a evasão de uma realidade sem grandes atrativos. E, entre labirintos e sertões, mapeio aqui algumas das trilhas que me conduziram de modo irreversível à magia da Literatura.

Ganhei, ainda pequena, uma versão infantil e ilustrada d’Os Lusíadas. Embriaguei-me com os deuses do Olimpo, e, plena de ambrosia, vibrei com as aventuras e desventuras dos portugueses, que para mim constituíam algum tipo de raça mítica, tantas eram as histórias contadas por meu avô. Naquela época, navegava, com a esquadra portuguesa, por mares que tantas vezes visitaria depois como professora de Literatura. Chorei com a trágica história de Pedro e Inês, e por muito tempo a imagem da rainha morta surgia para mim como uma referência do amor impossível e eterno.

Na mesma época, caiu em minhas mãos uma edição da Bíblia em quadrinhos. Digo isso porque não me lembro de onde veio, mas o fato é que a li como se de um conjunto de fábulas se tratasse, de modo lúdico, chegando mesmo a me referir a Moisés, a Davi ou aos apóstolos como personagens de uma grande história, e julgando-me inclusive no direito de criticá-los, como ao rei que sugerira que a criança disputada por duas mães fosse dividida entre ambas, o que para mim nada tinha de sábio, ou ao pai que festeja o retorno do filho pródigo, esquecendo-se daquele que jamais o abandonara. Ainda não tinha consciência de toda a ideologia contida naquelas linhas, e hoje sei que só sobrevivi ao colégio de freiras porque a Inquisição já havia terminado.

As aventuras de Tom Sawyer e Vinte Mil Léguas Submarinas preencheram a minha sede de aventuras, e as obras de Sir Arthur Conan Doyle e de Agatha Christie fizeram de mim a mais arguta detetive. Lembro-me de ter lido, ainda criança, O Retrato de Dorian Gray e O médico e o monstro, que hoje considero fundamentais para a compreensão da natureza humana, e que à época me impressionaram pelo que continham de assustador.

Minha relação com os livros sempre foi sensorial, e eu gostava de tocá-los, de sentir-lhes a textura, o cheiro, muito embora tenha decidido não realizar mais esse ritual em lugares públicos, após ter sido flagrada pelo olhar espantado do vendedor de uma livraria. Mergulhava nas entrelinhas, enveredando por um território mágico, envolvente, preparando-me para mergulhos ainda mais desafiadores, muito embora nessa época minhas leituras ainda fossem motivadas apenas pelo prazer. Mas muitas foram as viagens, e meu senso crítico se foi naturalmente depurando. Fui uma ávida leitora de contos de fadas, tenho de admitir, e muito do que reli depois, já movida pelo olhar crítico, me fez perceber que as histórias narradas são as mesmas desde o início dos tempos, e o que muda é o modo como são contadas ou lidas.

Ao perceber que as histórias são eternas como as angústias humanas, entendi o verdadeiro sentido de muitas coisas que tinha lido. Quando voltei a alguns dos meus textos favoritos, já havia descoberto que bruxas existem, mas não são, necessariamente, más, nem possuem verrugas no nariz, mas que padeceram na fogueira por ameaçar o poder vigente. Já havia percebido, por experiência própria, que há poucos príncipes encantados no mundo, mas que nem por isso precisaria engolir sapos diariamente. Descobri o instigante universo de Lilith, num retrato feminino anterior ao tempo em que a mulher supostamente seria oriunda da costela do homem. Encontrei, no mito de Perséfone, a sabedoria e a transformação atingidas por quem se permite um mergulho nas profundezas, por mais assustador que isso pareça. Vaguei pelos labirintos até descobrir que cada um tem seu próprio Minotauro dentro de si, e que o encontro com ele é necessário e enriquecedor. Percebi que nem todo homem é Lobo Mau, e que a mulher não precisa se restringir à impotência da vovozinha ou à ingenuidade da netinha. Reconheci a importância da liberdade ao vislumbrar a angústia de Pégaso preso ao arado, e novamente dei asas a meus sonhos, tomando o cuidado de não me aproximar demais do sol, aprendendo, com Ícaro, a valiosa lição.

Finalmente, permiti-me, como a Fênix, renascer, plena, de minhas próprias cinzas, reconhecendo a capacidade humana de regeneração. Descobri-me feminista, e por muitas vezes vivenciei experiências a que jamais teria acesso, não fossem as várias personagens femininas com que me deparei ao longo de tantas linhas. Teria que agradecer a Morgana, Capitu, Diadorim, e a tantas outras mulheres de papel, que me fizeram pensar o papel da mulher, e minha própria vida. Percebi que sempre poderia, como Penélope, na minha odisseia nada heroica, desfazer a tela tantas vezes quantas fossem necessárias, para defender meus ideais. Que eu poderia, como Ariadne, representar a saída do labirinto para alguém, muito embora nem sempre o fio da meada estivesse visível para mim.

Há um livro que sem dúvida marcou a minha vida, tendo funcionado como um verdadeiro divisor de águas: falo de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. O romance, que narra as reminiscências do protagonista Riobaldo acerca de suas andanças e aventuras nos tempos de jagunço, constituiu meu maior desafio como leitora. Tive a sorte de ter sido guiada pela minha então professora, e, ao perceber que havia diferentes sertões na obra, e que cada trilha conduzia a um caminho particular, encontrei, fascinada, dimensões universais nos dramas do protagonista. Medo, coragem, Deus, Diabo, amor, ódio, sabedoria, inocência, são aspectos encontrados a cada passo desse texto que apresenta ainda elementos de uma jornada iniciática e cifrada que só consegui vislumbrar após algumas visitas. Com ele, descobri que a cada leitura a compreensão do texto dilata-se, ultrapassando as dimensões do regional e permitindo novas e instigantes interpretações.

Poderia falar ainda de Clarice Lispector, sem citar um texto especificamente, mas destacando a empatia com a temática feminina e com as angústias existenciais, muitas despertadas em mim após a leitura de sua obra. Considero-a, e a Rosa, meus grandes mestres.

Mas talvez a minha melhor viagem ainda seja aquela que, como professora, realizo continuamente. À semelhança do barqueiro Caronte, sinto-me impelida a conduzir todos os que se atrevem a mergulhar na deliciosa e insensata aventura trazida pela Literatura. Nesse momento mágico, em que todos parecem extasiados pelo encantamento que os grandes autores nos legaram, lembro-me de Ulisses, e percebo que isso é ainda mais sedutor do que o canto das sereias.





sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Vulnerável

vira-lata do cosmo
tenciono sobre a merda
o corpo nauseado
de um escabroso milagre
rendido pelo pavor

não há tempo
de sacudir a poeira
antes de maquiar
o orgulho
no mijo da desesperação

- agônica integridade -

monopolizo o medo
dentro do impassível estímulo
suando pelo cu
a tensão de arrebentar o ego
para chagar
o ser-em-si

- cordeiro do adeus
esconjurado pela clemência -

visito-me na frágil crueza
da lápide interna
para retificar
os intrépidos latidos
que imperam
no escafandro carnal

- saudade
será o meu nome
talhado em amnésia -

à vontade
na danação
antes que o silêncio
simbolize
sufoco

- cubro-me insondável
amiudando
nas insignificâncias
do regalo -.

[Thomas Oscar Miles]





quarta-feira, 30 de julho de 2014

SAMIZDAT 41 - Virginia Woolf



Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA

A Girl is a Half-formed Thing, de Eimear McBride, a herdeira de Joyce e Beckett, Henry Alfred Bugalho

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
A Solidão, António Feliciano de Castilho
Terceiro Serão do Casal, António Feliciano de Castilho
A Romaria, António Feliciano de Castilho
Os Treze Anos, António Feliciano de Castilho

CONTO
O Anjo Purificador, Joaquim Bispo
Caminho pelas ruas..., Rafael F. Carvalho
La Bobera, Emerson Braga
Pitanga, Yvisson Gomes dos Santos
virgem mulher, Vivian de Moraes
Réquiem, Tatiana Alves
To Selfie or Not to Selfie, Julia Antuerpem
Filogênesis, Marcelo Soriano
Um Corte para Hollywood, Bruno Scuissiatto
Acalanto de Passagem, Cinthia Kriemler
Olhares Paralelos, Mario Filipe Cavalcanti
Florentino Barbeiro, Maria de Fátima Santos

TRADUÇÃO

Uma Casa Assombrada, Virginia Woolf
Segunda ou Terça-feira, Virginia Woolf
Azul e Verde, Virginia Woolf
A Primeira Vez, Roberto Abad

CRÔNICA
Odeio Futebol, Henry Alfred Bugalho
Entrando numa fria, Mario Luis Grangeia
Ama, do verbo Amar, Ana Paula Costa
Um Amor Possível, Cecília Maria de Luca

POESIA
Inexplicável, Edweine Loureiro
Porto, Leonardo Alves
Permanência Perene em Estado de Ser-em-si, Igor Melo de Sousa
Infiltração, Priscila Rôde
Monogamia Nômade, Maria Giulia Pinheiro
Floriano, Daniela Zappi
pvc, xx, xy, Volmar Camargo Junior
Nodo, Ju Blasina
Luz na Rua, André Foltran

Scribd - http://www.scribd.com/doc/235439727/Samizdat-41-Virginia-Woolf
Calamèo - http://en.calameo.com/books/0000022381987bc8cdac8

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SAMIZDAT 42 - Virginia Woolf
Por que Samizdat?, Henry Alfred BugalhoRECOMENDAÇÃO DE LEITURAA Girl is a Half-formed Thing, de Eimear McBride, a herdeira de Joyce e Beckett, Henry Alfred BugalhoAUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESAA Solidão, António Feliciano de CastilhoTerceiro Serão do Casal, António Feliciano de Castilho…





segunda-feira, 28 de julho de 2014

Filho do desassossego


No último 25 de julho comemorou-se o Dia do Escritor, esse filho do desassossego. Hoje, o escritor que sou (releve!) está sem o que escrever. Numa frase: o escritor está cansado de se derramar perdulário. E o raro leitor, presumo, cansado de acolher os meus excessos. Estando sem o que escrever,  bem que eu podia ficar em silêncio, bem que eu podia dar de presente o silêncio da palavra, não fosse a sina que abracei de espalhar palavras e frases, tendo ou não palavras e frases para espalhar. O escritor escritura o que vier, escritura com o que tem à mão, escritura mesmo sem ter nada à mão. Há dias em que o escritor pousa o olhar na folha em branco e nada pousa na sua imaginação. Ainda assim o escritor faz pousar na página palavras colhidas em vôo rasteiro. O escritor, escravo, cumpre a sina de lavrar com a palavra o chão da vida. Escritor pra valer está sempre em estado de ebulição da escrivatura. Um texto é como um ovo que é preciso botar, é como uma pedra que é preciso expelir, é como um grito que é preciso libertar, é como um silêncio que é preciso pronunciar. Escrever requer começo, mas é sem fim. O escritor é um pobre vassalo da tirania das palavras – ou do silêncio. O escritor é um operário da palavra. O escritor, feito um Quixote, arma-se da palavra para salvar do esquecimento acontecimentos baldios. 
Penso que escrever é preencher um vão entre o eu e o mundo, entre o dentro e o fora, entre o que foi e o que virá. Como o vão nunca se preenche, a escrita nunca cessa. É por isso que venho escrevendo sem margens e enchendo de vãs palavras páginas sem fim. No processo de preencher vãos, descobrem-se mais e mais desvãos. O escrevente desassossegado que tenho sido vive cobrindo de palavras os desvãos em que a vida é pródiga. É um desejo vão. Os vãos e desvãos seguirão se multiplicando. As mesmas palavras que cobrem vãos, descobrem outros. Escrever é sem fim. Não há palavra que dê conta de tanto vão. A sina de preencher vãos equivale a cair numa espécie de moto-contínuo. Fecha-se um vão no exato momento em que se é capturado por outro vão. Assim sem fim, até o fim. Porque escrever, mais que cobrir vãos, é escavar mais vãos. Porque escrever, em vez de trazer respostas, pode trazer mais perguntas. Uma resposta pode ser o ponto de partida para outras perguntas. Isso de ficar observando “a vida se vivendo em nós e ao redor de nós” é sem fim – e ultrapassa qualquer entendimento. O mais que fazemos é administrar os vãos de perplexidade que a vida abre de diante de nós. O certo é que há muito mais desvãos entre um vão e outro do que supõe a nossa vã percepção.

O cineasta Joaquim Pedro de Andrade, ao ser perguntado por que fazia cinema, deu uma resposta genial. Adriana Calcanhotto ouviu na resposta uma música – que pode ser lida/ouvida aqui. Usando a moldura do que respondeu o cineasta, eis minha tentativa de resposta à pergunta “Por que escrevo?”: 
Para ter a garantia do anonimato.
Para não ser lido depois de dispor no papel os brilhos do chão.
Para brincar com as 26 patas do bicho alfabeto.
Para correr o risco de ser flagrado em delito de intertextualidade.
Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem”.
Para que os saltimbancos e amadores ganhem invisibilidade, sobretudo eu mesmo.
Porque a vida precisa ser recolhida pelas palavras.
Para reescrever o sempre escrito, a vida e o viver, o amor e a dor.
Porque li machado, rosa, clarice et alii.
Para aliciar os incautos e distraídos quando divulgo meu desfile de ninharias.
Para ter meus direitos autorais pagos com elogios baldios.

E assim, de vão em vão, o escritor segue o seu destino. O destino de todo escritor? O desassossego. O lugar do escritor? Onde quer que possa escutar os ruídos da vida. O papel do escritor? A4, como bem disse o grande escritor Evandro Affonso Ferreira, dono de uma dicção literária personalíssima. Eu? Um quase escritor, autor de Quase Nada, um livro de crônicas – ou quase!





domingo, 27 de julho de 2014

Veredas


Caminhava a passos vagos
por noites esquecidas

e para marcar a trilha
- e retornar durante o dia

deixava pra trás um rastro

de migalhas do passado







sábado, 26 de julho de 2014

Essa tal de intolerância

Agora deram pra demonizar o leite de vaca. Ele virou o grande vilão do universo, culpado da gastrite, flatulência, sinusite, dificuldade respiratória, gota, câncer e até da impotência. Hoje o discurso dos médicos e nutricionistas é o seguinte: “Se você quiser viver pelo menos cinquenta anos, até pode beber cachaça e comer torresmo, mas não caia na tentação da lasquinha de requeijão”. Puro exagero, injustiça pura.

Minha sobrinha chegou aqui em Tiradentes já avisando: “Nada de leite de vaca para o Caio, porque não lhe cai bem. Ele é intolerante, assim como eu”. Onde já se viu negar alimento sagrado a um menino de cinco anos? Foi a base da alimentação dos meus bisavós, dos meus avós, dos meus pais. Eu fui criado no leite gordo. Catarina também: tomava leitinho no curral, quando pequena. Agora, ela tira do pobre do Caio todo o leite, queijo, pão de queijo, canjica e o curau de milho verde. Pronto. Sou eu quem decreto: “Em Minas Gerais, não existe alergia nem intolerância a lactose”.

Depois que foi pra Brasília, mudou muito de jeito, a Catarina. Quando morava no Triângulo e quando veio pra Tiradentes, até bem pouco tempo antes de casar, adorava um doce de leite. Comia cada talho gordo de goiabada com queijo! Agora, encheu-se de frescura. Tem nojo de nata. Enjoa só de ver a gordura do leite fervido. E tem outra, pra piorar: meteu-se a especialista em gastronomia. Vive listando umas comidas requintadas que ela provou ou que cozinhou. Sente o maior prazer em esnobar os “minerim”.

Acha que a Catarina voltou, depois de vários anos longe, só pra visitar o titio querido? Nada disso. Como jornalista, veio cobrir um festival “gourmético” internacional que está na cidade. Ela tinha até marcado uma entrevista com o Alex Atala; mas de última hora ele não veio, porque seu D.O.M. ia receber uns gringos ilustres neste fim de semana.

Aí, o jeito foi ela conversar com um outro chefe chatonildo, entendido de culinária estrangeira. O tal Jean Rond está abrindo um restaurante francês na nossa terra. Se esse cara metido a cozinheiro tivesse perguntado a minha opinião antes de abrir o negócio, eu lhe diria que é perda de tempo e dinheiro. O povo gosta mesmo é de tutu de feijão, costelinha de porco curtida na banha, frango caipira no açafrão, com quiabo e angu. A pizza também já caiu no gosto do mineiro; mas comidinha francesa — argentina, japonesa ou chinesa —, nem empurrando goela abaixo. Isso não funciona em Tiradentes, pessoal. Nem em ‘Beraba e ‘Berlândia, nem em Ouro Preto e Mariana. O mineiro não tem apetite requintado.

Ouvi minha sobrinha entrevistar o barrigudão. Do jeito que ele fala, balançando as medalhas que recebeu e citando os famosos que apreciam seu tempero, a clientela daqui já está fisgada. Apareceu nas rádios tiradentinas, no MGTV e esteve até no programa da Ana Maria Braga, onde ensinou uma receita de mousse de truta defumada. Todo detalhista, o moço. Disse como prepara o risoto de laranja e o arroz de cogumelos e revelou o segredo do magret de pato. Uma mistureba feia! Ele abusa dum tal alho porró. (Que porra é essa? Você conhece?)

Catarina ficou toda encantada com o cozinheiro. A prosa demorou horas. A jornalista anotou detalhes sobre o carro-chefe do restaurante, o famoso coq au vin, um frango metido a besta que certamente não chega aos pés da galinha caipira feita pela minha mãe. O pançudo usa cada trem esquisito! Ele diz que, na culinária contemporânea, é preciso misturar ingredientes inusitados. Trouxe até umas ervas haitianas para compor os pratos (será que aquele povo só come ramo, meu Deus?). Recomendou alguns vinhos da moda — à venda em seu restaurante — e entortou a boca para anunciar que o estabelecimento já nasce cinco estrelas.

Você acha que a Catarina jantou algum dia com a gente? Não, senhor. Fez a maior desfeita com a tia-avó. Não vou contar a ela, não, porque não vem ao caso; mas fiquei triste, triste mesmo com a conduta da minha sobrinha. Ela testou todo o cardápio do pseudofrancês, esnobando as iguarias que havia provado, e não deu a mínima para a tradicional comida mineira aqui de casa.

Minha mãe lhe perguntou se Jean Rond servia doce de leite de sobremesa.

— Não, tia. Só comi torta, mousse e petit gâteau — tudo feito à base de leite de soja e leite de amêndoas. O Jean tem um cardápio variado para quem é intolerante. Até o creme de leite que ele usa no estrogonofe de camarão é vegetal. Um primor, sem um pingo de lactose!

Trem difícil é ver uma sobrinha negando as raízes, cuspindo no copo que bebeu. Mas tudo bem. Quem não tolera esse papo de gourmet virtuose sou eu. Sei que comida boa é a nossa, simples, mas nutritiva. Enquanto Catarina comia aqueles pratinhos frufru no restaurante do João Roliço, o Caio estava aqui com a gente, devorando, feliz da vida, um punhado de pão de queijo com recheio de requeijão.


MARIA AMÉLIA ELÓI





sexta-feira, 25 de julho de 2014

O Anjo Purificador


Joaquim Bispo

A mulher esperou, encoberta, que Abílio saísse, antes de subir as escadas para o estúdio e tocar. Lucília veio abrir, convencida de que o modelo, que já não ia para novo, se esquecera de algo, mas não; era Judite, uma sua ex-empregada doméstica, que ultimamente usara como modelo, e que já não via há uns quatro meses.
– Entra, Judite – convidou, sem reparar no olhar duro da mulher. – Estava a ver que já não me vinhas visitar.
– Olá, Dona Lucília – respondeu Judite, fria. – O que cá me traz é do seu máximo interesse e agradecia que me ouvisse com atenção.
– Que se passa, Judite?, não me assustes! Senta-te.
Contornaram uma grande tela, num cavalete a meio da divisão, em que se podia ver Abílio, de kilt e olhar sério, meio pintado, reclinado num sofá. No sofá verdadeiro se sentou a pintora. Judite manteve-se de pé, em atitude decidida.
– O que se passa, Dona Lucília, é que a senhora tem ganho bom dinheiro à minha custa e eu continuo pobre como dantes – disparou a mulher, de olhar alterado. – A senhora usou-me para as suas pinturas, ganhou milhares de contos com elas, e eu não tenho sequer uma casa minha.
– Ó, Judite – estranhou a pintora – eu não te reconheço; o que se passa?
– Ainda bem que não me reconhece, que eu não sou a mesma. Acabou-se a boazinha que ficava horas e horas, feita parva, em posições ridículas, a fazer de urso, ou de galinha – que agora as pessoas até se riem – e a senhora na lua, a olhar para anteontem. E, no fim do mês o que é que eu via? – uns reles contos a mais. Eu já não tenho idade para continuar a trabalhar. Quero a minha reforma!
– Reforma, como, Judite? Não sou eu que dou as reformas. Sempre fiz os descontos a que tinhas direito. Se lá fores, lá devem estar na Segurança Social.
– Eles dizem que ainda me faltam doze anos para pedir a reforma. Ora, eu não aguento mais. Eu vou ser muito direta, Dona Lucília; ou a senhora me dá vinte mil contos por estes dias, ou o patrão vai ficar a saber que a senhora anda enrolada com o Abílio. Tenho os mails todos, sabe? Tanto os que a senhora envia, como os que recebe. Levei a password da sua caixa de correio e fiz cópias de ecrã de todos. Agora, a senhora escolha; quer continuar a sua boa vida de sonsa, com menos uns trocos, ou quer ver como acaba o seu casamento?
– Eu não te mereço isto, Judite! Como podes? – desapontava-se Lucília. – Depois de tudo o que fiz por ti, que eras uma rústica… E que história é essa do Abílio? Enrolada? Tu não estás bem. O Abílio é um bom amigo e um bom modelo, tal qual como tu. Só isso!
– Sim, sim! Pensa que eu não via o seu olhar a lambê-lo de alto a baixo? Depois, quando li os mails, descobri tudo. Agora está tramada, minha santa!
– Estás louca, mulher! Nunca hás de perceber um artista. O pintor olha, com olhos de ver. Mira, sim, completa e exaustivamente o corpo do seu modelo. Conhece-lhe cada centímetro, melhor que ele próprio. E, às vezes, perturba-se, que a intimidade a tanto chega! Sempre se falou da relação ambígua entre pintores e modelos: já ouviste falar em Balthus? Às vezes, mais explícita que ambígua – Rodin, Toulouse-Lautrec… Mas isso, que te interessa!?; pareceu-te ver luxúria onde havia apreensão estética. E isso dos mails, nem quero tentar perceber que bizarros enredos de alcova engendraste. Só te digo que leste mal. E a desfaçatez de entrares na minha caixa de correio. Que cabra me saíste!
– Não adianta negar, Dona. O Senhor Jorge vai perceber muito bem o que lá está escrito. Por isso, pense bem.
– Não percebes nada, mulher! – impacientava-se a artista. – Vieste lá das berças e pensas que este mundo tem alguma coisa que ver com o teu. Isto não é um romance do Eça de Queiroz. Aqui não há primos sabidos, nem eu sou uma cândida esposa imatura. Convence-te, Judite, o mundo dos artistas é mais solto, mais liberal. Também não gostamos de ser preteridos, às vezes choramos, mas não entendemos os maridos e as mulheres como propriedade, nem lhes limitamos demasiado a liberdade. Mas sempre com transparência. Já estive com outros homens, sim, mas o Jorge foi sempre o primeiro a saber. E ele também já teve os seus arrebatamentos. Chegou a viver lá em casa uma de quem ele gostava muito. Depois de algum tempo, como eu previa, acabou-se a chama, e ela foi-se embora. Não ando com o meu modelo, mas se andasse, o Jorge estaria ao corrente. Percebes, Judite? Agora, vai-te embora, que não me apetece olhar para ti.
Antes de sair e bater com a porta, Judite, visivelmente confusa, ainda articulou, sem convicção:
– Se é assim que quer, assim terá! Vaca!

Dois dias depois, Judite voltou.
– Que queres, Judite? – perguntou Lucília, segurando a porta, ao ver o olhar injetado da outra.
Esta empurrou Lucília e entrou, fechando a porta sem olhar para trás. Depois, retirou da malinha uma faca de cozinha e apontou-a à ex-patroa:
– Não te vais livrar assim! Deste-me a volta, deram-me a volta, cambada de badalhocos, mas eu não vou desistir. Se não dás a bem, dás a mal – vociferava a ex-chantagista convertida à extorsão.
A pintora hesitou por um momento, ao ver a faca no braço em riste da outra. Depois, recuou calmamente, de olhar perscrutador. Quem a visse a avaliar a agressora, não demonstrando medo, antes curiosidade, suspeitaria de alguma quebra momentânea de siso, provocada pela situação traumática. Também Judite pareceu surpreendida com a reação da ex-patroa. Mantinha-se parada a três passos de Lucília, faca levantada, atitude expectante. Foi a pintora que quebrou a rigidez da composição:
– Judite, escuta, se me agredires, estragas a tua vida. Vais presa, deixas de estar com o teu filho. Deves estar desesperada para fazer isto. Posso ajudar-te, mas não da maneira que dizes.
– Quero o meu dinheiro! – insistia Judite.
– Ouve, estou-te reconhecida pelos trabalhos que fizeste para mim, não o esqueço. As minhas pinturas vendem-se por muito dinheiro? Nem sempre foi assim. Mesmo então, cumpri o combinado com os meus modelos; paguei sempre no dia certo, não foi? Também um construtor vende os prédios por muito dinheiro, e não é por isso que o pedreiro muda de carro. Às vezes, lá tem um prémio pelo Natal. Queres comparticipação? Vamos fazer o seguinte: posas para mim com essa faca, nessa atitude. Interioriza-a bem: zangada, ressentida, vingativa. Gostei da imagem, é forte. Acho que dá para uma nova série de pastéis. Pago-te o mesmo que te pagava, mas, além disso, quando as obras se venderem, recebes uns três por cento do que eu receber. Parece-te bem?
Judite estava confusa e indecisa. Tentava calcular quantos contos representariam três por cento de, talvez, duzentos mil euros, depois de deduzida a parte da galeria. Nesse momento, ouviu-se uma chave a rodar na fechadura e Abílio entrou. Surpreendido por ver Judite de faca na mão e face afogueada, indagou, em prontidão:
– Há algum problema?
– Não, Abílio, entra! – contemporizou a pintora. – A Judite veio outra vez visitar-me e combinámos uma nova série de telas com anjos justiceiros femininos – uma mistura de Arcanjo São Miguel e empregada doméstica: numa mão, a espada; na outra, o pano do pó. Vou-me rir com as interpretações que a crítica vai fazer.



Paula Rego, Anjo, 1998


(Este conto obteve uma menção honrosa na edição de 2013 do Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba, categoria internacional.)





quinta-feira, 24 de julho de 2014

MINIPOEMAS DE EDWEINE LOUREIRO

NA BOLÍVIA

Foi uma arma Americana,
apontada por um irmão,
que calou a Che Guevara
e aprisionou uma Nação.

*

ABRAHAM E MARTIN

Separados pelo tempo
e tão diferentes vidas,
tinham, porém,
um sonho igual:
irmanar uma nação
até hoje dividida
pelo ódio racial.

*

SALÁRIO

Mais um dia...

Mais faria?

Mais-valia.

***





terça-feira, 22 de julho de 2014

Que bonito seria se pudesse voar

Gira o copo entre os dedos e o resto de líquido amarelo se agita em redemoinho. É o último gole do whisky roubado do pai. A garrafa atirada no tapete pinga o fim da bebida formando uma pequena poça, suficiente para encher a sala de um cheiro adocicado que faz arder o nariz. Mas Augusto nem repara mais. Tem a garganta aquecida e uma vontade constante de vomitar. E de morrer. O que vier primeiro está de bom tamanho para ele, parado no canto da ampla janela do oitavo andar, nu, a cabeça encostada no vidro há mais de três horas. Augusto olha o mais para baixo que pode e acompanha o movimento dos carros da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, da bifurcação para longe, e imagina que bonito seria se pudesse voar, dali, e pousar no topo da antena telefônica que fica atrás do posto de gasolina. Só para sentir o sol nas costas e o vento nos joelhos enquanto observa o trânsito de uma distância em que o silêncio abafa as buzinas e suas ideias feias. 

Augusto acha que tem ideias feias. Ele próprio, de fora, não é feio inteiro. As orelhas de abano se disfarçam muito bem entre os cabelos desalinhados e compridos. Os lábios grossos, rosados, e os grandes olhos castanhos compensam com sobra a perna ligeiramente mais curta do que a outra. Ele escorado numa parede, ninguém diz. Faz um tempo, aparecem na cabeça de Augusto uns pensamentos-apito, daqueles que soam de repente e depois estancam, como que produzidos por um sopro forte. Não são iguais, mas tem por constância o objetivo de dolorir. Se Augusto se demora em pensar, quer explodir o açougue do João com garrafa de álcool gel e fósforos longos; quer cortar os tornozelos do padre com a tesoura de podar; quer vazar os olhos da diarista com a agulha de costura da mãe, depois de cavoucar a mãe pelo umbigo com a faca de churrasco; quer ver pane no semáforo para os carros baterem de frente; quer martelar a testa do vizinho enquanto ele dorme. Quereres que não cessam. 

Desde ontem cresce uma vontade nova, finalmente um pensamento para si. Já entendeu que precisa escrever e vai usar a pele em lugar de papel. O que registrar ainda não decidiu. Uma carroça carregada de areia grossa e pedra brita cruza a rua e some na esquina. De onde está, vê com nitidez a cola preta abanar enquanto o cavalo caga verde no asfalto. Que bonito seria se pudesse voar e pousar entre as orelhas do animal, cogita Augusto, que bonito. O copo já vazio escorrega das mãos e se estilhaça no piso frio. Os cacos transparentes estão por toda parte. Augusto, descalço, não se move: paralisa. Quer dominar o desejo absurdo de sambar que o inunda, hoje eu vou tomar um porre não me socorre que eu tô feliz. Não consegue. Samba. Samba feito passista nascida e criada em barracão do Rio de Janeiro. Que bom seria se pudesse voar e desprezar os pés que agora ardem, ardem, ardem. Então cata um pedaço pontiagudo de vidro e risca, começando entre os mamilos em direção à barriga, “Que bom seria se pudesse voar”. O sangue escorre pelas pernas. Augusto se afasta da janela uns cinco passos. Convencido de quão bonito é ser livre, toma impulso, corre, atravessa a vidraça e voa.





segunda-feira, 21 de julho de 2014

Os Sem-Vesículas nas Areias de Copacabana

                 Matilda, faz tempo que eu não vejo a Carminha, por onde ela anda? – perguntou Fifi enquanto se alojava em sua cadeira de praia.

                Operou a vesícula menina! Mas já tá em casa, com três buracos na barriga. Dois para as pinças e um no umbigo, para a câmera.

                Vídeo-laparoscopia. Em também já fiz. Sou uma membro do Movimento dos Sem-vesículas.

                Como é que é? – espantou-se Matilda.

                Movimento dos Sem-vesículas. A turma que tirou fora este orgãozinho que a gente nem sabe bem pra que serve. Já notou garota, o montão de gente que extraiu a vesícula nos últimos anos? Rosilda, Heloísa, a Paula mulher do Germano, Seu Oscar meu vizinho, eu, e agora a Carminha. Me empresta seu protetor solar Matilda.

                Eu também já arranquei a bicha, mas o doutor fez na faca mesmo, não teve este negócio de lapa-não-sei-o-quê – berrou Seu Antônio do seu ponto de aluguel de barracas e cadeiras de praia.

                Mais um sócio do clube – sentenciou Fifi.

                Nunca tinha notado que havia tanta gente sem vesícula – espantou-se Matilda – Você Fifi, que sabe tudo, tem alguma opinião para o fenômeno?

                Tenho uma teoria...

                Lá vem você com suas idéias, cuidado para não assustar a Jeniffer com alguma maluquice. Você sabe que a menina é impressionável

A garota de programa, que sempre se bronzeava perto daquelas simpáticas anciãs, fez um gesto de “deixa pra lá” com a mão direita e manteve-se deitada de bruços, exibindo suas generosas formas para algum eventual cliente que pelas areias da praia se aventurasse.

                Lucros, nada mais que lucros – disse Fifi ao mesmo tempo em que chamava o vendedor de Biscoitos Globo – Estes médicos que atendem por planos de saúde querem mais é ganhar o deles. Devem fazer operações a rodo, desnecessárias. O sujeito vai lá com uma dor do lado e pronto: “O senhor tem um pequeno pólipo na vesícula. É melhor a gente operar logo pois ele pode crescer a causar problema. A recuperação é rápida e o paciente vai poder levar uma vida normal”. Aí neguinha, já era. Quando a gente vê, já na mesa de operação com aqueles braços mecânicos remexendo a gente por dentro.

                Que exagero Fifi...

                Exagero? Hoje em dia, tem gente capaz de tudo.

Jeniffer, lagarteando ao sol em cima de uma canga, dourando as carnes e imprimindo a já sua famosa “marquinha de biquíni” anunciada nos classificados dos jornais, gesticulou em apoio a FiFi.

                Mas se você preferir, o meu neto Lucas têm uma opinião mais radical sobre os Sem-vesícula.

                Mande aí – intrometeu-se na conversa  Seu Antônio lá de sua base avançada nas areias copacabanianas ao mesmo tempo em que atendia um casal de dinamarqueses rosados pelo sol como uma página do Jornal dos Sports.

                Pois é Seu Antônio. Segundo o Lucas, tudo não passa de uma conspiração alienígena. Todas as pessoas que tiram a vesícula são na verdade ETs e não sabem. A extração da vesícula seria uma forma de marcar estas pessoas para quando a Terra fosse invadida  pelos discos-voadores, eles serem poupados da grande chacina espacial e em seguida abduzidos.

                Abi o que? – Assustou-se o barraqueiro.

                Abduzidos, levados pelas naves extraterrestres.

Jeniffer levantou a cabeça e baixou os óculos escuros, revelando um olhar de incredulidade. Seu Antônio riu e berrou dizendo que conspiração por conspiração, preferia a dos médicos gananciosos. Já Matilda saiu-se com esta:

                Vou sentir sua falta Fifi, afinal, você não tem vesícula. E o Seu Antônio também.

E os quatro explodiram numa uníssona gargalhada.


Do livro "Pastel de Vento" (crônicas)
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sábado, 19 de julho de 2014

VERSÍCULOS DE LAPIDAÇÃO CONTRA A PSEUDO-POESIA




  • Essa história de poesia, hoje em dia, é a maior das ficções. Vagabundo escreve chorumelas e - pronto! - o que está feito, está feito.


  • Escreva-se qualquer coisa, simule emoção, inclua as palavras amor, saudade, coração, beijo... Voilà! Eis o novo poema que já nasceu viciado. 


  • Sim, há poetas verdadeiros, mas eles não leem ninguém. O poeta é um ser autônomo, perfeccionista, individualista. 

  • Poeta nenhum quer ouvir crítica ou opinião sobre poemas. Tudo o que ele deseja é espanto, sorriso, o bichinho do ram-ram na garganta alheia.


  • Só para esclarecer, não sou sábio, mas estou ligado.


  • E, enquanto divago, como você (que me lê, ou que escreve aqui), na Internet, os poetas comem pastéis e bebem cerveja nos botecos de esquina.


  • Poeta é poeta, ora! Quem almeja luzes e confetes virtuais sob o pretexto de "usar um meio de comunicação de massa acessível", é Usuário.


  • E usuários ficam felizes quando são retuitados, curtidos, compartilhados. O poeta não. Ele usa caneta e papel, agendas e guardanapos.


  • O poeta nunca se sente feliz. E é por isso mesmo que escreve, convulsiva e doentiamente, num ato de auto exorcismo, vomitório espiritual...


  • Poeta não ilumina caminhos, perambula ébrio pelas vielas da própria escatologia. Ele é sombra e assombra qualquer alma que não seja a dele.


  • Enfim, se cá estou e - aqui - escrevo, é para confessar ao vulgo: EU NÃO SOU POETA! Não assim, aqui, sentado na poltrona com olhar de LCD.


  • Quiçá já tenha sido poeta. Numa noite de verão, depois de um coito, antes duma mal sucedida tentativa de suicídio. Mas aqui, a frio, jamais!


  • O meu poeta e eu já nos perdemos há tempos. Mas voltamos a nos encontrar em segredo, vez ou outra. E sempre, sempre, acabamos, ambos, curvados, encarando um ao outro na linda luz da lua refletida na sarjeta. 




Por M.M.Soriano.





Só os peixes não falam

O som dos peixes descamados argumentava com a velocidade do seu querer. A média de consumidores era altamente pela época das férias escolares, justamente a que conheceu do outro lado do balcão. As filhas, uma de cada pai, formando o trio feminino em uma casa construída com tantos trabalhos extras nos domingos – desconfiavam da verdade. Descamar peixes é um absurdo, diante de tanta gente que nem obrigado fala.
A mais velha casou-se e foi morar em uma cidade distante do mar, da maresia apenas as lembranças da infância a as visitas até a mãe. Uma delas, esqueceu o seu nome em razão da loucura promovida pelo então seu esposo – insistente de tarefas e desacordos familiares. Eu chego cedo, ajudo na pesagem dos peixes. Quando posso, nego a identidade diante de tantos homens em alto mar - certa vez precisei usar a faca para condizer com o meu nome.
Hoje estou de folga e posso censurar todos os clientes de barriga cheia e acostumados com o litoral apenas nos seus descansos. Alguns acreditam, cabeça de peixe frita é uma delícia. 





quinta-feira, 17 de julho de 2014

À media que envelhecemos





                                   Dizem que à medida que envelhecemos ficamos parecidos com os nossos pais. Outro dia parecia que minha mãe estava repreendendo meu amigo; até que parei, percebi, e ao meu modo, o repreendi.








quarta-feira, 16 de julho de 2014

Minha avó lia Nietzsche


Toco a campainha. Gesto ridículo. Costume. Entrar na casa da avó sempre foi um ritual. Tocar, esperar que seus passos lentos  equilibrassem o corpo magro e velho em direção à porta, escutar os quatro ou cinco cliques das chaves e cadeados feitos para impedir algum bandido de forçar a entrada para roubar móveis antigos e bibelôs saudosistas. Bolo de cenoura ou de milho, café passado na hora, manteiga de verdade, pães fresquinhos.
Coloco no chão as caixas de papelão que trouxe desmontadas e começo a testar as chaves nas trancas, bem devagar. Tão devagar que desperto os olhares do homem no fim do corredor de portas iguais. Ele entra indeciso no elevador, imaginando se sou a nova inquilina ou uma ladra bem vestida.
Estou dentro. O corpo retesado procurando fantasmas. Das minhas narinas sai um vento quente e rápido que conheço de sobra. Desde o meu divórcio tumultuado que é assim. Passei meses hiperventilando por qualquer besteira que me causasse ansiedade. E tudo me causava ansiedade. Até que a avó me viu em plena crise. Abriu a gaveta do móvel da cozinha e tirou de lá um saquinho marrom de papel, desses de padaria. Põe na boca, depois inspira e solta o ar dentro do saco, ela me disse. Recusei a oferta. Anda, ela insistiu, faz o que eu estou dizendo. Fiz. Parei de ficar tonta. E melhorei ainda mais um ano depois, após começar a terapia. Mas o artifício dos saquinhos carreguei comigo. Dentro da bolsa. Até hoje, em qualquer lugar, quando sinto que a respiração começa a descompassar, é só me afastar para um canto e soprar.
Os pelos do gato ainda estão nas almofadas. Talvez eu deva levar todas elas para casa, agora que Oscar Wilde está morando comigo. Ele vai gostar. Gato estranho. Desde que saiu daqui, parou de miar. O veterinário me diz para esperar, porque os gatos são avessos às perdas. Como as pessoas. Mas eu acho que ele não mia de pirraça. Não gostou de se mudar.
Quantos livros. Vou encaixotar e mandar tudo para uma biblioteca. Nada disso me interessa. Coleções encadernadas de receitas, atlas, dicionários. Romances antigos de M. Delly que pertencem à minha mãe, constato pela assinatura nas folhas de rosto. Biblioteca das Moças é o nome da coleção. Um mundo condicionante de felicidade para jovens bem comportadas. 
Interessante. Nas prateleiras mais altas, Byron, Lorca, Flaubert, Balzac. Bela safra. Edições originais misturadas a livros traduzidos. São da avó, com certeza. Meu avô só lia jornais e novelas policiais. É uma estante ambígua. Definitivamente, ambígua. 
Vou montar mais uma caixa. Ainda faltam os livros da última prateleira. Deve ter uns vinte lá em cima. O que não tem é escada. Levei para casa junto com o gato. Tudo bem. O cabo do rodo resolve. Só tenho que cutucar. E aí vem o primeiro. A Gaia Ciência. Nietzsche...? A avó lia Nietzsche? Talvez tenha sido presente de alguém. Uma folheada e vejo as expressões "Deus está morto" circuladas a lápis. São três. No rodapé de uma das páginas, escrita com a letra miúda e desenhada da avó, a anotação: "declarar a morte é reconhecer a existência?", seguida de outras duas que não consigo ler. Em outra página, há uma frase inteira marcada: "Há qualquer coisa de estupidificante e monstruoso na educação das mulheres da alta sociedade, talvez nada mais haja tão paradoxal. Todos estão de acordo em educá-las numa ignorância extrema das coisas do amor...". 
Além dos comentários em Nietzsche, há expressões grifadas e questionamentos anotados em Sartre, Beauvoir, Camus. Desconcertantes. Como a mulher que os escreveu.
Finalmente, o último livro da prateleira vem para as minhas mãos. A capa amarrada por uma fita estreita chama a atenção. Cartas a um jovem poeta. Rilke subjugado, sequestrado, preso em seu próprio livro é um pensamento idiota. Mas é tudo o que me vem à cabeça. Desfaço o laço empoeirado e quatro envelopes amarelados caem no meu colo. Eu me pergunto se devo ler; se quero ler. Mas meu constrangimento não resiste ao argumento conveniente de que as fatalidades não devem ser desprezadas.
No primeiro deles, uma carta que me parece em escrita lusitana. José de Arimatéia Sobrinho é o remetente. O texto é curto. A despedida magoada e piegas de um amante ressentido. "Não te importunarei mais. A nossa história morrerá comigo. Eu só estou a cismar como há-de ser possível que consigas viver ao lado desse gajo que teu pai te escolheu para marido, porque eu sei que não és rapariga de aceitar cabrestos. Mas como tu mesma o disseste, isso não é da minha conta. Envio-te os retratos que pediste, e que tanta apreensão te causam."
Quem é esse homem? Que fotos são essas? A data na carta não deixa dúvida: a avó ainda era bem jovem quando a recebeu: Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 1950. Foi escrita aqui mesmo e não vejo carimbo dos correios, o que me leva a crer que tenha sido entregue por um mensageiro ou por um amigo comum, cúmplice de histórias obscuras. 
No segundo envelope, a data da carta é anterior à primeira: Rio de Janeiro, 4 de junho de 1950. Talvez revele um pouco mais. Mas não. O tal José de Arimatéia pede desculpas por não ser um homem livre e declara-se apaixonado. Mais adiante, escreve um parágrafo de desprezo por Alberto Vargas, a quem se refere como "o marido de conveniência”.
Não, José de Arimatéia. Alberto Vargas não foi um marido de conveniência. Foi o meu avô amado. Que me dava escondido as balas e os chocolates que mamãe proibia. Que me ensinou a andar a cavalo, a jogar cartas, a gostar de viajar, a caminhar pela praia às seis da manhã. Que foi o único pai que eu tive, depois que o meu morreu tão cedo. Você, sim, é um oportunista, José de Arimatéia. E eu não gosto de você. Aliás, eu detesto você. 
O terceiro envelope não está sobrescritado. Dentro dele, um recorte de jornal, com data de 23 de setembro de 1950, mostrando o desfecho daquela história incompleta: "Fogo em Laranjeiras mata empresário português". Na matéria, a dúvida da polícia entre acidente e incêndio criminoso, seguida de uma declaração da mulher do morto e de uma breve  menção aos três filhos do casal. 
No último envelope, também não endereçado, quatro fotografias em preto e branco. E é você, avó, em cada uma delas. 
Você, exibindo os seios para o homem atrás da câmera. Você, de braços levantados, de pernas abertas, equilibrando o corpo despido sobre os saltos altos. Você e uma nudez descarada sobre a cama desfeita de um quarto qualquer. Você feliz. De uma felicidade que dá estocadas nos meus olhos. 
Você sabia que seria eu. Quem mais? Sabia que eu encontraria o seu segredo, e que as minhas narinas iriam respirar rapidamente em descompasso, e que eu precisaria usar de novo os saquinhos de papel marrons, e que eu vomitaria no banheiro o meu pudor oportunista. Porque somente eu viria aqui. Para levar o gato. Para esvaziar o apartamento. Para folhear seus livros. Para invadir a sua morte. Você sabia. E preparou a armadilha da fita amarrada. Só não me preparou para você.
Tenho que levar as almofadas para Oscar Wilde. Ele sente falta delas. Colocar em caixas separadas as roupas de cama, a louça, os bibelôs. Avisar à transportadora que pode vir buscar os móveis da sala, da cozinha, dos quartos. Levar comigo os quadros menores; a coleção de M. Delly que vou devolver à mamãe; a caixa com os existencialistas, que acabo de doar a mim mesma para poder ler com atenção cada anotação da avó.
Preciso de mais tempo para me decidir se vou rasgar estas fotos. Ou para me convencer de que isso já não faz diferença. Rasgada ou intacta no envelope amarelado, não importa, a avó dos bolos e da manteiga de verdade não é mais de verdade. Mas talvez a mulher nua das fotos seja. A mulher que esperou a morte para se apresentar honestamente a mim.