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domingo, 3 de julho de 2022

CRÔNICA DE UM FRACASSO PRENUNCIADO


 

         

Eu hoje estive vendo uma galeria de pessoas derrotadas, mas com gritos de certeza numa espécie de vingança futura. Eu estava entre eles em pensamento e se eu estivesse lá de fato, certamente estaria gritando como eles as mesmas palavras-de-ordem, superando a derrota do dia e sufocando a sequência das derrotas diárias. Há 30 anos fazemos isto, ou seja, oscilamos entre o suicídio e o grito. Eu teria gritado, mas depois em casa eu pensaria no assunto, já com a ressaca moral das derrotas acumuladas.

Está cada vez mais difícil “arrancar alegria ao futuro”. Não sei, mas penso que se houvesse uma mudança ela seria, talvez, mais uma manchete nos jornais e a nossa vida prosseguiria, infelizmente, da mesma forma. Estamos ao largo das coisas do mundo e as alterações de percurso já não nos atingem pois estamos já fora do curso das coisas.

Hoje, depois de 10 anos, eu reconheço uma pessoa que conheci no afã estudantil. Bem no início da luta pela vida. Estávamos na mesma sala de espera, lutando por uma perspectiva melhor de vida. Enquanto esperávamos, cheguei a compor alguns versos banais enaltecendo a sua beleza e a sua calma, típica de quem vai, certamente, abarcar alguma coisa. Ela apertava os livros contra os seios e caminhava pelos corredores de espera. Seus cabelos esvoaçavam e eram longos e lisos. Dez anos depois eu a reconheço praticamente na mesma situação em que estávamos e em que estou ainda, quer dizer, nos corredores de espera. Apenas que agora somos pessoas adultas e já resignadas com a merda.

Será que nada mudou desde então? Alguma coisa sempre muda na periferia da vida. Ela hoje está de cabelos curtos e o corpo mais velho ainda lembra as antigas formas desafiantes ao mundo. Parece que o aspecto prático inundou tudo. Trabalha e vende roupas nos intervalos do expediente de trabalho. As calças jeans deram lugar aos moletons de malha que sempre me pareceram pijamas.

Ela não me reconheceu de imediato e mesmo eu tive uma certa dificuldade em reconhecê-la, pois a vida, às vezes, obscurece a vista. Seguimos por caminhos diversos que nos levariam, por uma série de coincidências e acasos fortuitos, ao mesmo ponto onde agora estamos, ou seja, na cela pública e comum onde nos debatemos. O que prova que a vida é cíclica. Cíclica sem sair do lugar de onde começou a rodar.

Não me apresentei. Não me identifiquei. Hoje eu me escondo atrás de uma grande barba e estou quase sempre indisponível para a vida. Muitos dos meus amigos já morreram, outros se afastaram e o fato comum de termos as nossas vidas destroçadas na verdade não têm muita importância. Apenas que temos os nossos filhos para criar e reconhecer esta pessoa hoje, 10 anos depois, despertou em mim uma súbita nostalgia de quem se aproxima do fim tendo como bagagem apenas a melancolia das malas vazias.

Revejo meus livros e meus (des)apontamentos e percebo que tenho, além das gavetas, uma cabeça abarrotada de tudo e com tendência ao vazio. O tempo é inexorável e dilui a beleza da existência, como de fato se diluiu em nós em nossa miséria funcional. Atualmente eu me sinto como um velho poeta de trinta e poucos anos enquanto que ela ainda é de certo modo bela, mas de uma beleza destituída de especificidade e de sonhos.

 

PS: Estou agora no meio das galerias de onde jogamos papéis picados sobre os nossos adversários. Queremos um pouco e precisamos ainda “arrancar alguma alegria ao futuro”, por isso rompemos às vezes o nosso silêncio e permitimo-nos um pouco de humanidade e ternura para conosco e para com os de nossa geração.

 






terça-feira, 28 de junho de 2022

Erros Meus, Má Fortuna

 


Fernando arrastou os sapatos de couro gasto e quase sem brilho, pelo passeio de cimento. Tinha o cabelo castanho cheio de brancas que lhe chegava aos ombros, mas estava lavado… pelo menos hoje. A pele do rosto, queimada do sol e vincada milhares de vezes, estava para além dos cinquenta e oito anos que dizia ter, mas hoje estava mais clara e reluzente. A alva barba estava penteada e limpa e até as mãos de dedos curtos e gordos, estavam lavadas e com as unhas escuras cortadas.

Hoje estava destinado a ser um dia especial. Foi por isso que foi ao abrigo tomar banho, arranjou um fato cinza-claro (que era obviamente para alguém maior que ele) e convenceu a Eduarda, a bonita, mas cansada voluntária do abrigo, a penteá-lo e fazer-lhe a manicura possível.

Agora estava ali, a chegar à paragem de autocarro onde se sentou pesadamente e cruzou a perna, à espera. Sentia-se orgulhoso, não bebia desde o jantar de ontem e bem olhara para a garrafa de tinto ainda meia que deixara com os seus pertences.

Soltou um suspiro soluçado, enquanto pensava nos cartões, cobertores e restantes tralhas a que ele chamava “as suas coisas” que deixara à guarda do Tone “Figo”. Não sabia o apelido dele, todos o chamavam assim porque para ele, tudo o que comia, dizia que “chamou-lhe um figo!” Era bom rapaz, se se pode chamar isso a alguém com cinquenta e muitos anos, mas faltava-lhe a coragem para se defender a si e ao que é seu. Sabia bem que se um dos outros sem-abrigo fosse lá roubar as coisas que ficaram ao seu cuidado, ele nada faria para o impedir. De qualquer maneira, Fernando dissera-lhe que se não voltasse naquela noite poderia ficar com tudo, mesmo com o maravilhoso relógio despertador a pilhas que tanto estimava.

Roeu nervosamente a unha do indicador direito e continuou com o sabugo até que lhe doeu. Gemeu e olhou os dedos maltratados com as unhas negras. Aquele lixo, se insistisse na lavagem, levaria anos a sair… assim como levou anos a amontoar-se.

Estava nervoso, claro que sim. Acordara na última madrugada decidido a dar uma volta na sua vida. Quase não dormira a sonhar como o iria fazer e se bem pensou, rápido o fez; foi quase o primeiro a comparecer na fila do duche do abrigo e depois correu ao vestiário para arranjar as roupas novas. Agora ali estava… pronto para ir à casa da filha de onde saíra há… demasiado tempo.

Pensou no rosto de Maria Inês, sua filha, mas não conseguia lembrar-se dela com vinte e muitos anos, quando ele saiu de casa, apenas via a Inês de quinze anos sempre abraçada a ele, aos beijos. “Como as pessoas podem mudar assim?” — Pensou para si. — “Era um amor profundo e terno, que parecia não morrer nunca. Ela tomava sempre o meu partido nas minhas discussões com a mãe dela.”

A sua expressão alterou-se para preocupação. Como reagiria a filha assim que o visse, agora, dez anos passados? Que pensaria ela do homem que saiu pela porta fora, zangado com ela e com o mundo e que nunca mais voltou nem deu notícias? Primeiro, acreditou que seria uma noite ou duas e dormiu no chão entre os cartões e o lixo. Alcoolizado, os cheiros não o incomodavam, nem dava pelo tempo passar e uma manhã, aquele amanhecer precisamente, levara dez anos a chegar.

Também ela estava zangada com ele… e com razão. Fora ela, aliás, quem começara a discussão; encontrara-o de novo a dormir no chão do quarto, embriagado, com as roupas fétidas e sujas de vómito e urina.

Agora que pensava bem, as discussões eram frequentes. Bernardo, o genro, tentava pôr “água na fervura”, apelava à calma dela e à minha compreensão de que não podia agir assim. Desde que nascera a criança deles, Inês estava insuportável, gritava à menor contrariedade… ou seria ele que se embriagava com demasiada frequência?

Desde a morte de Alzira, sua mulher, Inês nunca mais planeou casar e ter a sua própria casa. Fazia questão de ficar junto do pai para cuidar dele. Fernando, por seu lado, perdida a mulher que fazia parte da sua vida há mais de vinte e cinco anos, sentia-se desolado e desamparado. A filha tratava da sua própria vida, a trabalhar e a acabar os estudos e depois a namorar… não conseguiu perceber quando tudo começou. Ele bebia em casa o que havia e depois ia para fora a procurar mais. Começou por beber para esquecer, depois já não se lembrava porque bebia.

Uma lágrima correu veloz pelas rugas do rosto. Ele tinha noção que Alzira conseguia ser insuportável, mas era a mulher que ele escolheu e que o escolhera. Discutiam e zangavam-se, mas, após uns “amuos” começavam a falar normalmente e acabavam de fazer as pazes à noite, na cama. Depois partiu deste mundo e levou a alma dele com ela.

Inês cuidou dele, sim, pobre menina, o melhor que pôde. Aturou-lhe a depressão, o mau-humor e as bebedeiras. Depois conheceu Bernardo e a sua vigilância sobre ele aligeirou… a dependência do álcool e as suas consequências, cada vez mais difíceis de esconder, atiraram-no para o desemprego. — Ele franziu o sobrolho. — Quando nasceu a sua neta, Inês chamou-lhe Alzira, como se mais alguém pudesse digno de ser portador de tal nome.

Era obrigado a compreender que ele transformava a vida deles num inferno… baixou a cabeça e repousou-a entre as mãos com os cotovelos nos joelhos… ao longe o relógio da igreja soltou dez badaladas. Pensou que o autocarro se demorava.

— Bom dia, amigo. — Uma voz masculina bem-disposta interrompeu-lhe os pensamentos e ele levantou o rosto para ver um homem montado numa bicicleta, parado a seu lado. — Está à espera do autocarro aqui? Não vê que a paragem está desativada há mais de um ano? A carreira que passava aqui foi mudada para a outra rua paralela a esta.

Com esta explicação, o homem retomou a sua marcha pedalando e afastou-se rapidamente, sem mesmo escutar o “obrigado” quase inaudível.

Fernando ergueu-se e constatou o aviso quase apagado colado na placa indicativa da carreira. Pousou o olhar no chão, pensativo, como que a decidir o que fazer. “Então a carreira não me quer levar, é?” — Pensou de si para si. — “Se calhar também eles estão melhor sem mim…”

Sacudiu o pó das calças e começou a caminhar na direção de onde viera, rematando em voz alta:

— Vou ver se o Figo guardou as minhas coisas em condições, afinal, a garrafa do tinto ainda estava meia. Espero bem que não lhe tenha dado a sede.





sábado, 25 de junho de 2022

O parabolista

 

Nunca foi apurado de onde partiu o primeiro disparo. As potências em conflito acusaram-se mutuamente, enquanto foi possível ouvir rádio. Nem sequer havia consenso sobre onde caiu a primeira ogiva nuclear. Aparentemente, houve um disparo de origem indeterminada, mas o que primeiro atingiu o alvo no solo terá sido uma resposta a esse fantasmático primeiro disparo. Só se percebeu que, em poucas horas, foram disparados alguns milhares de mísseis regionais e intercontinentais, portadores de bombas nucleares, dum lado e do outro do Atlântico.

As primeiras dezenas de disparos apontavam para as áreas de lançamento e armazenamento das ogivas inimigas. A maior parte foi travada pelos sistemas de interceção, mas as explosões aconteceram na mesma, só que em altitude. A ogiva que atingiu a zona de Aviano, em Itália, provocou o rebentamento de, pelo menos, outras quatro ogivas, em prontidão. A explosão resultante vaporizou milhares de toneladas de solo e causou uma cratera de mais de um quilómetro de diâmetro.

À medida que os satélites adstritos ao uso militar foram sendo derrubados, perdeu-se grande parte da capacidade de deteção e interceção. Também os mísseis lançados deixaram de poder contar com os satélites para os guiar; passaram a usar sistemas de navegação incorporados, o que lhes baixou sensivelmente o grau de precisão. O que devia atingir a base da Nato em Oeiras foi cair perto de São Domingos de Rana.

Havia semanas que Eneias punha a eventualidade da guerra nuclear como muito possível. Percebia os apelos armamentistas, a retórica de confronto, a escalada bélica em crescendo. Quando o clarão apocalíptico acendeu o dia no seu quarto estremunhado, seguido de um abanão pavoroso, imediatamente mobilizou a família — o seu pai, com mobilidade reduzida, e as duas filhas adolescentes —, carregaram todos os víveres que tinham em casa e desligaram tudo. Provavelmente, não voltariam tão cedo. Tinha passado apenas meia hora depois do impacto e da onda de choque que estilhaçou janelas e destruiu edificações num raio de vinte quilómetros, quando partiram de Odivelas em direção ao interior.

Eneias optou pela circular exterior de Lisboa, pensando evitar o provável trânsito denso da autoestrada, mas, apanhou um engarrafamento monstro, logo ao entrar. Viram passar apenas duas viaturas da polícia de trânsito. Circulou a passo de caracol, contornando os inúmeros destroços e evitando os conflitos de trânsito quase forçosos, num contexto de enorme crispação e terror, percetível em muitos rostos. Meteu pela A10, assim que pôde e só conseguiu entrar na A1 quatro horas depois.

As notícias, das poucas rádios que se mantinham em funcionamento, eram alarmantes. Boa parte do leste dos Estados Unidos tinha sido destruída, assim como todo o ocidente da Rússia e variadas zonas no resto da Europa. Milhões de toneladas de cinzas radioativas subiam na atmosfera e toldavam o sol. Aparentemente, tinham parado os disparos, embora, presumivelmente, ainda houvesse alguns milhares de ogivas disponíveis. Eram horríveis os relatos das destruições e do estado dos corpos dos que ainda sobreviviam.

Eneias sabia que, provavelmente, ele e a família já carregariam alguma contaminação. Esperava tão só que as doses radioativas ainda não fossem mortais. Não tinha grandes planos. Para já, só fugir dos grandes centros, alvos mais prováveis de novos disparos e obrigatoriamente foco de desordens sociais. Quando passaram pela zona de Torres Novas, perceberam que o centro comercial que se via da estrada estava a ser alvo de pilhagem. Os dias que aí vinham prometiam provações terríveis para milhões de seres humanos.

Ainda antes de Abrantes, a mancha de cinza, que escondia o céu a oeste, sofreu vastos acrescentos negros a grande altura, de norte e leste, que foram enchendo o céu até tapá-lo completamente. Uma obscuridade estranha foi crescendo até transformar-se numa escuridão densa, que se tornaria a companheira de todos os dias, mas não era sensato parar. Ao longe percebiam-se incêndios em algumas povoações. Pouco depois do cruzamento de Belver, estranharam a inação do pai de Eneias. Estava morto. Frio, sem pulso, sem respiração, sem embaciar o ecrã do telemóvel que lhe puseram à frente da boca.

Eneias sentiu-se perdido. Não era aconselhável entrar numa cidade; as complicações que se seguiriam quando apresentasse o caso poderiam ser muito penalizadoras. E, para quê? O pai estava morto, sem qualquer dúvida. Assumiu a decisão de prosseguir com o pai no lugar do pendura, bem preso com o cinto, bem direito no banco. Na confusão reinante e no escuro, nenhuma improvável patrulha iria averiguar a saúde do idoso.

Ultrapassou os contrafortes da Gardunha quando uma ténue luminosidade anunciava que, por cima das nuvens de cinzas, brilhava o sol. Seria assim, daí para a frente, não se sabia se por uns dias, se por meses ou anos.

A sua casa entre serras, junto a Silvares, seria o refúgio possível num mundo enlouquecido. Com a devida discrição, sepultaram o avô das meninas numa pequena elevação sobranceira ao vale. Ninguém iria notar, ninguém iria saber. Ele deveria gostar, se soubesse.

Ainda nesse dia começou a cair muita cinza; radioativa, provavelmente. Tinha um cheiro fétido, um misto de plástico queimado, com reverberações olfativas metálicas. Eneias tinha consciência de que cada inalação que permitisse representava um foco de radiações a destruir o seu ADN, a facilitar cancros. A temperatura tinha baixado abruptamente e todos os dias foi baixando mais. O aquecedor a gás, mais o elétrico, eram insuficientes. Acenderam a lareira, mas nada conseguia aquecer a casa. A pilha de lenha diminuiu a olhos vistos.

As notícias das poucas rádios em funcionamento eram caóticas. Ainda havia crispação das grandes potências, mas as pequenas nações apelavam ao diálogo e ao trabalho conjunto para reconstruir o mundo. Um pouco por todos os continentes, os saques, o morticínio de grupos demonizados, os levantamentos militares, as revoltas populares estraçalhavam o que restara. Regimes oportunistas de todos os quadrantes surgiam e desapareciam no mesmo dia. A energia elétrica faltou de vez ao fim de três dias. Devia ser geral, porque nem o rádio de pilhas dava sinal. A sociedade desmoronava-se.

A casa já não era porto seguro. As cinzas tomavam tudo. Não era possível colher vegetais enegrecidos e “queimados” pela radiação, não era aconselhável consumir qualquer animal, qualquer ser exposto às cinzas. Viviam de conservas. O frio tornava-se debilitante. A temperatura tinha caído uns trinta graus, numa semana. O “Inverno nuclear”, teorizado pelos cientistas, confirmava-se. Sem luz solar, as plantas iriam mirrando e a maior parte morreria em poucas semanas ou meses. Havia que engendrar uma maneira de sobreviver. Ou então ousar partir para melhor refúgio.

Foi a proximidade das minas da Panasqueira, juntamente com a memória de uma visita, em tempos, a umas minas de sal-gema na Suíça, que iluminaram o espírito de Eneias. A temperatura em minas costuma ser baixa, mas constante. Lá, não chegariam poeiras radioativas, lá poderia captar água não contaminada, lá poderia cultivar cogumelos.



Passaram seis anos desde que Eneias chegou às minas da Panasqueira. A comunidade de uns cem refugiados que lá tinha já procurado refúgio passou a chamar-lhe Lote, por ter chegado com duas filhas, depois de um cataclismo de contornos de bombardeamento, como no episódio bíblico. Eram sobretudo habitantes da região, alguns muito maltratados pelas cinzas radioativas, das quais não tinham sabido proteger-se. A maioria morreu nos seis primeiros meses, alguns em grande sofrimento; outros foram morrendo de enfermidades não imediatamente relacionáveis com as cinzas. Até o desmoronamento, provocado por um dos vários terramotos de intensidade média, que se fizeram sentir no primeiro ano, fez duas vítimas.

Lote era tratado com curiosidade, por ter passado a falar por parábolas, que alguns achavam acertadas, mas, respeitavam-no por ter apontado alguns dos vários aspetos que podiam ajudar a mantê-los vivos. Havia quatro fontes nas galerias da mina. Não tinham garantia de que a água não viesse a chegar contaminada, mas tinham esperança que ainda demorasse uns anos. A cultura de cogumelos tinha sido um êxito. Desenvolviam-se bem em regime de ausência de luz solar, eram proteicos e havia quem lhes encontrasse nuances de sabor. A temperatura na mina, conforme previsto, era baixa, mas tolerável, desde que complementada com muitos agasalhos. A comunidade decrescia, apesar de as filhas de Lote e outras raparigas terem tido crianças, no entanto, caminhava-se para um equilíbrio. Não podiam deixar morrer a esperança.

Na rotina do cultivo dos cogumelos, há sempre quem, para dar resposta aos seus pensamentos, faz uma ou outra pergunta:

— Lote, não teria havido uma maneira de travar a guerra no início?

Lote tornou-se um ancião de olhos encovados e face macilenta. Abranda por uns momentos a atividade e depois debita uma inspiração:

— Em tempos que já lá vão, um jovem combinou uma saída com os amigos, para celebrarem a noite, a amizade e o álcool. No Cais do Sodré, já depois de uns shots e em clima de boa disposição, o jovem foi surpreendido por uma chapada que quase o atirou ao chão, sem saber como nem porquê. Virou-se ao agressor, contudo, este era um marinheiro nórdico, cheio de tatuagens e um corpanzil que aconselhava alguma prudência. Mesmo assim, galarito empertigado, o jovem pediu-lhe satisfações, mas recebeu de volta outro bofetão. Aí, percebeu que era melhor nem tentar saber porque é que estava a levar pancada; o que era urgente era tentar apaziguar os ânimos, porém, os amigos começaram a atiçá-lo, a gritar-lhe que não se podia ficar, que tinha de retaliar. «Tu podes derrotá-lo. Lembra-te de David e Golias», gritavam-lhe. «Tu chegas bem para ele. Nem te vamos ajudar, porque aí ele pode puxar de alguma faca, mas ficamos aqui a desmoralizá-lo.» E faziam um coro ruidoso de «Cara de avestruz! Cheiras mal da boca. Vais morrer de cancro. Estás a levar tantas que já não te tens em pé. Bêbado!» Ora, o desgraçado rapaz fez o melhor que pôde, mas acabou a noite muito amassado e foi mesmo parar ao hospital. Verdade seja dita que os amigos foram todos visitá-lo à enfermaria e alguns levaram-lhe flores. Depois veio a saber-se que o moço teria dito um piropo à rapariga do marinheiro, ou, pelo menos, este assim o entendeu. Eis aqui que não havia razão suficiente para a agressão inicial, não obstante, foi uma temeridade insensata enfrentar sozinho o brutamontes. Mais valia ter reconhecido a desvantagem física e ter ido para casa só com um olho negro.

Na tarefa de aparar o fino fio de água gelada que escorre da rocha, lá vem com frequência uma dúvida:

— Lote, porque é que começou a guerra e o que é que a Nato e a América tinham a ver com o caso?

Lote olha para o negro invisível do fundo da galeria e, depois de uns momentos de silêncio, debita uma lucubração:

— Havia em tempos um grande apicultor que prezava muito a qualidade do mel que produzia. Gabava-se de que o seu produto estava isento de pesticidas ou outros químicos nocivos. Num outro concelho, havia um grande agricultor que ensaiava todo o tipo de práticas agrícolas para obter boas produções de cereais, incluindo o uso de agrotóxicos, que o apicultor abominava. Ora isto durou, e nenhum problema houve, mas, aos poucos, os pequenos lavradores vizinhos do apicultor foram passando a usar os mesmos químicos que o grande agricultor usava e produzia. «Não quero aqui venenos junto ao meu terreno! O vento traz tudo para o lado de cá. Mata-me as abelhas e estraga-me o mel», gritava o apicultor. Porém, cada pequeno produtor ripostava: «No meu terreno não posso fazer o que quero?» E o mandante instruía-os: «Ninguém manda no vento. Se vai para a terra dele não é culpa vossa.» No entanto, o apicultor sentiu-se ameaçado no seu negócio e no seu modo de vida. Vendo as suas colmeias a morrer e a qualidade do mel a deteriorar-se, foi acumulando ressentimento e vontade de retaliação, sobretudo contra o produtor de venenos e instigador da pressão tóxica sobre os seus colmeais. Um dia de junho, já muito irritado, aproveitando uma brisa favorável, acendeu dezenas de balões de São João e lançou-os, em procissão punitiva. Conforme esperava, alguns balões caíram nos terrenos próximos e outros elevaram-se e foram aterrar lá longe na propriedade do grande produtor cerealífero, incendiaram as searas e causaram uma destruição avassaladora. Ao furioso coro do “Núcleo Agro-Tóxico Ocidental”, como lhe chamava, o apicultor respondia com todo o cinismo: «Acaso não posso festejar o São João no meu terreno? Ninguém manda no vento.» E, para si, autojustificava-se, com um aforismo ouvido há muito: “Dizem do rio que é violento porque arrasou todo o vale, mas ninguém se preocupou com as margens que o oprimiam.” Eis assim que no nosso mundo ambientalmente encapsulado, nenhum terreno é uma ilha. Faltou muito respeito mútuo, muita capacidade de se pôr no lugar do outro, muita empatia pelo que é diferente, muito diálogo, muitas relações de boa-vizinhança. Porém, uma conversa franca e honesta, um entendimento de seres racionais, podia ter evitado aquele desacato.

Nas muitas vezes em que a pequena comunidade se junta, durante horas, em círculo à volta de uma chama, para se autogerir, para conversar, para socializar — imagem pós-apocalíptica de um grupo de silhuetas espetrais, embrulhadas em cobertores, em ambiente de quase escuridão —, com frequência lá surge um lamento, uma especulação, um desalento: «Será que voltaremos a ver um céu estrelado, que um dia voltaremos a percorrer campos abertos, respirando ar puro a plenos pulmões, com o sol no rosto e o futuro nos olhos?» E outro acrescenta: «E, se voltarmos a ter uma vida lá fora, não teremos de nos armar para a guerra, nem que seja com paus e pedras, já que ela parece estar no nosso “ADN social”?

Lote está muitas vezes de cabeça baixa. Certos temas levam-no a responder:

— Um escritor escreveu um romance, em que um homem e os seus irmãos chegaram a uma terra desconhecida, onde construíram uma casa e em que moraram em harmonia durante muitos anos, entretanto, um dia veio uma cheia que lhes derrubou a casa e lhes destruiu as colheitas. Era, pois,um drama que passava uma mensagem de tristeza e desalento. Ora, o escritor não gostou daquele final,não obstante, em vez de o alterar, prosseguiu a história. Deste modo, pôs os irmãos a corrigir o percurso, a reconstruir a casa fora do leito de cheia e a levantar uma pequena barragem, para regulação do rio. Eis que a história já continha uma mensagem de esperança e resiliência, todavia, surgiram alguns conflitos, alguma falta de solidariedade, algum desleixo social. Assim, o escritor não resistiu a fazer rebentar a barragem, com a consequente destruição do que tinham construído. Ora, este final também não lhe agradou e novamente continuou a história. Entretanto, suspeitando que o autor tinha inclinação para a desgraça ou as personagens para a asneira, experimentou mudar de personagens; então, pôs a nova geração de primos a fazer a reconstrução, com novos paradigmas. As novas personagens, só por serem outras e jovens, levaram a história por outros caminhos: logo fizeram nascer uma grande quinta e uma pequena sociedade em que, ainda que havendo problemas, eram resolvidos com diálogo e racionalidade. Eis que, depois de um final dramático, pode-se sempre imaginar uma continuação, uma nova narrativa, um final motivador.

O pequeno círculo de espetros vivos parece esperar mais respostas, soluções concretas, mas Lote baixa novamente a cabeça e cala-se. A meditação de cada um começa a divergir da de cada um dos outros, talvez alguma vislumbre um futuro viável, para quando a missão de cada um aspire a mais do que só sobreviver outro dia.

Joaquim Bispo

*

Imagem:

Caspar David Friedrich, Abadia no Carvalhal, 1809–1810.

Coleção Castelo de Charlottenburg, Alte Nationalgalerie, Berlim.

* * *






domingo, 19 de junho de 2022

Carta ao amanhã


 

Pouca coisa me consome hoje em dia. Já vivi bastante; o suficiente, pelo menos, para aprender a me safar das barbaridades. Alertei amigos e familiares sobre os indícios de uma grande crise, ainda em 2019, mas quase não me ouviram. Falo “quase” porque Caetano, meu filho do meio, tão atento quanto o pai, reservou uma quantia considerável para atravessar a tempestade. Com ele não me preocupo. Cássio é diferente, sempre no estilo “de bem com a vida”, mas, numa dessa, levou um bocado do meu dinheiro – claro, não poderia deixar que ele e minhas netas passassem aperreio. Às vezes penso em que que eu errei. Na criação, não faltou nada: curso de inglês, karatê, judô, skate, surfe e o escambau. Eu viajava muito, a negócios, contudo desembolsava e dava à minha esposa a quantia imprescindível para o conforto. Julita falava que exagerava na dose; mas eu, ao contrário, pensava – e penso – que amor nunca é demais. Faltou falar umas palavrinhas sobre a Carmen, minha filha mais velha. Veja como é engraçado, ela é a moderação em pessoa; não excede nas compras; tem uma casa modesta e aconchegante; possui, para ela e o marido, um único carro; e tem um único filho, o Ricardinho. Com ela também me preocupo, justamente porque não sei o tamanho de sua carência – se sei, é quando está com a corda no pescoço. Para ela, igualmente, distribuí uns trocados nessa pandemia. Meu pai me dizia que não precisava que o filho fosse “doutor”, mas não tinha negócio com a falta de caráter, desumanidade e vagabundagem. Disso não posso me queixar; todos deram para gente. A questão é que, agora, quando deveria estar usufruindo o meu restinho de vida, tenho de tapar os buracos de alguns descoordenados. Não os culpo, já que não vivem a reclamar da vida, não passam miséria e não devem a um agiota, por exemplo. Caetano, para variar, tem uma cisma com Cássio; afirma que é mimado e que nunca cresceu. Quando Cássio comprou uma caminhonete quatro por quatro, ele foi o primeiro a recriminar: “Mas papai, ele ao menos tem dinheiro para pagar o IPVA? Isso vai sobrar para o senhor!”, falou trancando os dentes de raiva. Eu o acomodei na poltrona, pedi que relaxasse; que Cássio é desorganizado, não há dúvida, mas nunca chegou com um rombo para eu cobrir. E ainda argumentei que minhas netas, suas filhas, eram meninas muito centradas, já trabalhavam e viviam bem; poderiam dar um acocho no pai, se e quando fosse preciso. Carmem tem um jeito quieto e cordial, que, felizmente, apazigua os ânimos. Soube da confusão do bendito carro e disse que, se sobrasse algum pepino, ajudaria a descascar. Coitada, não teria como. Contrairia empréstimo? Não sei que mágica faria. Caetano fala que o caçulinha é o protegido, que até a irmã “paga de mamãezinha, depois da orfandade do menino”. Eles não sabem; não precisam saber. Há um segredo escondido a sete chaves, de que só terão notícia quando eu morrer. Não os deixarei largados. Priscila Neiva, a minha advogada e querida sobrinha, sabe a chave do “cofre”. Poderão até sustentar três gerações, se quiserem. Não sei se faço mal juízo. Também, não vou me culpar por isso. Já cansei de peso na consciência, de queixa disso e daquilo. Sou razão, Julita dizia; mas muito mais coração. Espero e rezo para que a minha descendência possa viver em paz.






sexta-feira, 17 de junho de 2022

Desvio - poema de Lilian Aquino

 Desvio



teria o poema
um trajeto?
um mapa
com alfinetes
a me espetar
os pés?

o que pode
fazer um poema
atarracado
no meio da passagem
qual um cobrador
de ônibus
fazendo girar
catracas
a não ser me deixar
passar
por baixo?





Do livro Nunca estive em Tübingen, Editora Patuá.





segunda-feira, 13 de junho de 2022

 

O lugar 666

 

O passageiro olhou para o bilhete de comboio que tinha acabado de comprar e leu o número inscrito no canto superior esquerdo:

Carruagem - 6/Lugar - 66

Entrou na carruagem indicada e caminhou ao longo corredor, seguindo a sequência numérica dos lugares.

…; 60; 62; 64; 666; 68, …

Notou que a sequência se tinha quebrado e viu que o número afixado no cimo da janela, era, não o 66, mas o 666.

Não ficou muito satisfeito com o que acabara de ler, porque tinha em tempos ouvido dizer que aquele número era “o número da besta”, que tinha ligações com o mal. 

Logo numa Sexta-Feira 13 havia de ter calhado a este viajante o número maldito em má sorte. Embora não se tivesse em boa conta nestas coisas de crendices e de maus fados, ficou preocupado com aquele presságio um pouco sinistro. Ainda pensou em não embarcar, mas pôs de parte a ideia, porque não seria um número, por mais conotações maléficas que lhe atribuíssem, que o iria impedir de fazer aquela vigem.

Olhou uma vez mais, olhou ainda outra, hesitou um segundo e encolheu os ombros. Arrumou a bagagem e sentou-se. Já estava bem acomodado na sua cadeira quando sentiu um calafrio a percorrer-lhe o corpo. Parecia que por ali tinha passado uma corrente gélida.

Era tão estranho sentir aquela corrente de ar, como era estranho ver-se aquele número na marcação de lugares.

«Talvez aquela marcação se devesse a alguma maldosa brincadeira, em vez de 66, com toda a certeza, escreveram 666».

Satisfeito com a sua própria explicação, que arrasava qualquer espécie de maquinação diabólica, fechou os olhos, adormeceu e sonhou.

Um barulho aterrador acordou-o. Assarapantado olhou à sua volta e não viu ninguém. Era o único na carruagem.

Ainda meio baralhado com tudo o que lhe estava acontecer lembrou-se do sonho que então tivera:

Tinha sido apanhado por um fenómeno cósmico que o atirara para um buraco negro que, ao fechar-se estrondosamente, o tinha encerrado num outro universo.

E foi esse enorme estrondo que o tinha acordado.

A verdade é que, para ele, continuava ali sentado no lugar 666 e não num outro qualquer universo. A verdade é que ele estava ali a olhar para a estação que, apesar de estar numa zona de penumbra, dava para concluir que estava lá, o que era a prova provada de que tudo não passara de um medonho sonho.

Olhou para o relógio de pulso e viu que eram 20.00.

− Não pode ser! – o relógio parou. Esta era a hora da partida e já estamos a viajar há algum tempo.

O comboio arrancou e continuou a sua marcha. A paisagem corria em sentido contrário e a estação ficou lá para trás. Sem paragem e a alta velocidade, não dava tempo para ver bem as horas no relógio da gare. De relance e num momento fugaz pareceu-lhe ao passageiro que marcava 21 e qualquer coisa.

«Que merda, o comboio não parou e além disso passou tão depressa que não deu para ver nada. Fica para a próxima, porque essa tem paragem obrigatória.»

Num silêncio cósmico em que aquela carruagem se encontrava, ouviu vozes vindas de algures, pareciam conversas desgarradas, ouviu risos e outros barulhos intercalados com tempos de silêncio. Ouviu também passos a circularem e até um grito, talvez de alguma pessoa que se tenha ferido. Admirado levantou-se e percorreu a carruagem espreitando para todos os lugares, mas não viu ninguém.

«Talvez os barulhos venham de alguma das outras carruagens. É isso, são conversas dos outros passageiros».

Entretanto o comboio que se aproximava da estação começou a abrandar e imobilizou-se, ficando a carruagem do nosso viajante mesmo em frente do relógio pendurado na parede.

Eram 22 horas e 30 minutos.

Ouviu-se o característico som do abrir da porta, passos, o rodar de malas, vozes, mas não se viu ninguém a entrar na carruagem. Depois o barulho característico de uma porta a fechar-se. A seguir uma voz no altifalante avisou de que o comboio iria iniciar a sua marcha.

O absurdo de tão insólita situação é que entraram passageiros, mas ele continuava sozinho naquela carruagem. Era tudo tão estranho e assombroso que o solitário passageiro começou a ficar muito assustado.

«Se não estou a sonhar estou a ficar maluco. Vou-me já embora daqui. Era o que já devia ter feito há muito tempo. Tenho de ir à procura dos outros.»

Em vão procurou em todas as carruagens. Os bancos completamente vazios sucediam-se uns aos outros. Pelo visto, ele era o único naquele comboio, apesar do barulho do abrir e fechar das portas, do arrastar das malas, dos risos e das conversas ouvidas. Nem sequer o revisor andava por ali.

«Onde estão as pessoas que acabaram de entrar? desapareceram sem deixar rasto»?

Desesperado, começou a gritar bem alto na esperança de ser ouvido. Mas só se ouvia o eco dos seus medos.

Aterrado, dirigiu-se à carruagem da máquina à procura do maquinista, mas deparou com a porta fechada que não se abriu, apesar das fortes e raivosas pancadas e pontapés. Parecia feita de aço indestrutível. Talvez aquele comboio também não tivesse maquinista, talvez viajasse em piloto automático, talvez fosse um comboio fantasma.

O viajante correu para a porta e tentou rodar o manípulo. A porta continuou cerrada. Com toda a sua força voltou a puxá-la, mas tão grande esforço resultou em nada. Em vão descarregou toda a sua fúria e medo no puxador. Vendo que a sua tentativa de abrir a porta era infrutífera tentou partir o vidro da janela mas constatou que ele era à prova de destruição.

«Atenção senhores passageiros o comboio estacionado na linha número três vai iniciar a sua marcha, atenção à sua partida». ─ ouviu-se.

─ Socorro! ─ berrava o passageiro, batendo nos vidros e gesticulando angustiadamente para quem estava na gare, mas ninguém parecia estar a vê-lo. Num último desespero, correu para o alarme e puxou-o violentamente. Nada aconteceu, o comboio continuou a sua marcha.

«É tenebroso. Isto não pode estar a acontecer.»

Aquele passageiro não sabia que o destino lhe tinha comprado o bilhete maldito. Também não sabe que nunca chegará ao seu destino. Esta será a sua eterna viagem. Quando adormeceu, o sonho que sonhou levou-o para uma fenda que se abriu entre o futuro e o passado e a sua viagem passou a fazer-se numa dimensão contrária. Se entretanto não se verificar um fenómeno cósmico inverso que o liberte daquela prisão viajará sozinho até á eternidade.

 

 

 

Não ficou muito satisfeito com o que acabara de ler, porque tinha em tempos ouvido dizer que aquele número era “o número da besta”, tinha ligações com o mal. 

Logo numa Sexta-Feira 13 havia de ter calhado a este viajante o número maldito em má sorte. Embora não se tivesse em boa conta nestas coisas de crendices e de maus fados ficou preocupado com aquele presságio um pouco sinistro. Ainda pensou em não embarcar, mas pôs de parte a ideia, porque não seria um número, por mais conotações maléficas que lhe atribuíssem, que o iria impedir de fazer aquela vigem. Munido do bilhete, dirigiu-se à carruagem e entrou.

 

 

 

 

 

 





quinta-feira, 9 de junho de 2022

O Psicólogo

 


Estou a dizer-vos que confesso! Sim, entrei à socapa em casa da D. Joana, já vos disse isso dúzias de vezes! Porque não prestam atenção?

Está bem, não se exaltem, volto a contar-vos tudo. Mas parem de falar em roubos ou ataques, não sou nada dessas coisas e isso só prova que não me têm escutado. Eu, atacar a D. Joana! Francamente!

Começando pelo princípio – e diga ao seu colega ali atrás que pare de revirar os olhos ou quem se exalta sou eu – a culpa é toda do psicólogo que consultei por insistência da empresa. Como se andar um pouco stressado matasse alguém! Mas são os tempos em que vivemos, uma reação mais viva, umas frases menos apropriadas, digamos, e pronto, psicólogo com ele! Ainda tentei resistir, mas mudaram-me para a digitalização de décadas de ficheiros e ao fim de uns dias de uma tarefa chatérrima acabei por ceder.

E lá fui eu três horas por semana sentar-me no consultório de um tipo qualquer que nem sequer fingia estar interessado no que eu dizia. Não que eu lhe contasse a verdade, pelo menos não a verdade toda, que tinha ele a ver com os meus problemas maritais, por exemplo? Ou com a minha infância?

Não, limitava-me a mencionar uma vaga insatisfação com a vida, uma certa desilusão por os meus sonhos de criança não se terem concretizado, enfim, toda uma série de lugares comuns que ouvia constantemente aos meus colegas de trabalho, os tais que se tinham sentido tão ofendidos pelas minhas reações à sua estupidez e choradinhos constantes.

Francamente, nem me tinha apercebido de que lhes prestara tanta atenção, era sempre a mesma coisa, a mesma atitude de vítima, o mesmo baixar de braços perante tudo o que fosse um pouco mais forte do que eles ou que lhes pudesse causar danos, enfim, um nunca acabar de queixas e queixinhas. Não admira eu ter-me passado algumas vezes!

Bom, pelo menos tinham servido para alguma coisa, preenchiam lindamente aquelas horas inúteis mas pagas a preço de ouro por mim, claro, apesar de me terem obrigado a ir às consultas recusaram-se liminarmente a pagar, mesmo em parte, o especialista que costumavam usar quando surgia algum “trauma” entre os inúmeros funcionários. E aposto que eram frequentes! Fica-me até a dúvida se não receberiam uma percentagem do muito que lhe davam a ganhar...

Mas divago.

E qual foi a brilhante solução do génio que iria resolver os meus problemas de ira, como lhes chamaram? Relaxar, arranjar um passatempo que me agradasse e que me ocupasse umas horas por semana. Só havia uma condição, ser algo totalmente diferente das minhas atividades usuais.

Não foi mesmo nada fácil, garanto-vos, recuso-me a fazer seja o que for que exija esforço físico e as atividades puramente intelectuais estavam excluídas à partida uma vez que para além do meu trabalho de analista de dados passo o meu tempo livre a ler aquilo a que a Rosa, a minha bem-amada esposa, chama calhamaços maçudos.

Estava prestes a mandar o psicólogo à fava quando tive finalmente uma ideia: aprender piano! Aprecio música e em miúdo sempre tive inveja da minha irmã, teve direito a aulas de piano e eu não, apesar de detestar música e não ter o menor jeito ou ouvido para ela. Mas de acordo com os meus pais isso era “coisa de meninas” e, como me repetiram vezes sem conta, eu já andava demasiado ocupado com os estudos, jogos online e tudo isso.

Entendem agora como tudo começou? Era totalmente diferente de qualquer outra das minhas atividades, presentes e passadas e, para ter resultados capazes, exigiria certamente várias horas por semana, entre aulas e prática. Sim, prática, nunca fui de fazer as coisas pela metade e ainda antes de começar já tinha comprado um piano em segunda mão que consegui meter no meu escritório em casa que, por imposição da Rosa, tinha sido insonorizado uns anos antes para eu poder jogar e ouvir música à vontade “sem incomodar os vizinhos”, leia-se, sem a incomodar a ela.

A D. Joana foi-me recomendada como estando muito habituada a ensinar adultos que nunca tinham tocado num piano e fui à primeira aula cheio de entusiasmo e vontade de trabalhar. Mal sabia eu a batucada que me esperava!

Está bem, não precisam de se irritar assim, salto a descrição das unhas e tudo isso, apesar de ser a base do que se passou esta noite. E se querem mesmo que eu repita tudo, como disseram há pouco, então têm de me deixar repetir mesmo tudo o que deu origem ao imbróglio desta noite.

Posso continuar? Muito obrigado, são muito “compreensivos”. Já agora, podem substituir o vosso colega ali atrás, sim, o do revirar dos olhos? Para além de mostrar falta de educação, corta-me um pouco o fim à meada ver as suas caretas e ar de troça. No mínimo, mudem-no de lugar para eu não o conseguir ver no espelho. Sim, assim está melhor.

Pois bem, a D. Joana. Gostei daquela primeira aula e das que se seguiram, ela é realmente uma boa professora e vê-se que está habituada a lidar com adultos e não com criancinhas que têm aulas só por imposição dos pais. Sim, se um adulto decide aprender piano, é lógico ser por vontade própria e isso altera muito toda a relação entre professor e aluno.

Como disse, gostei imenso das aulas, com um pequeno senão. Bom, pequeno inicialmente. É que a D. Joana tinha umas unhas longas, mesmo muito longas. E bicudas, por falta de melhor termo. Quase como as de um vampiro em filmes antigos, a preto e branco. Muito francamente, pareciam mais próprias de uma modelo ou “senhora de lazer” do que de quem toca e ensina piano. E sempre pintadas de um verniz muito vermelho e brilhante.

O problema é que para me ensinar a D. Joana começava por demonstrar o que queria que eu fizesse. Ao fim de pouco tempo consegui abstrair-me do faiscar de todo aquele vermelho quando ela atacava as teclas, mas o ruído... Ah, o ruído surdo daquelas unhas aguçadas a baterem no marfim – ou plástico, hoje em dia quem sabe?

Há um detalhe sobre mim que sinto que devo realçar. Sou muito sensível a certos tipos de ruídos. A minha mulher indigna-se sempre quando o digo, aponta inevitavelmente o alto nível sonoro com que jogo no computador, vejo filmes e ouço música – daí a insonorização do meu escritório. Mas não são os sons todos, são só alguns. Tive, por exemplo, de experimentar vários teclados para o meu computador de trabalho e para o de casa até encontrar um que não me enervasse e foi um pesadelo encontrar um portátil com o “som” certo das teclas. E olhem que ao contrário da D. Joana tenho sempre as unhas muito curtas, o mais rentes possível, evitando assim que aumentem o ruído inevitável de um teclado.

Sim, bem sei que todos acham absurda esta minha esquisitice, mas as pessoas são como são e esta é talvez a minha única obsessão.

Perante o que acabei de dizer, imaginem a minha reação ao batuque, sim, é o termo adequado, daquelas unhas nas teclas de um piano. Tentei tudo para o ignorar, cheguei até a usar tampões para os ouvidos, dos que só atenuam um pouco o ruído, mas nada resultava. Até mesmo quando se passava uma aula sem que a D. Joana tocasse fosse o que fosse, a tensão continuava presente, nem podia gozar o silêncio, bom, o das unhas, claro está, porque estava sempre num sobressalto à espera de uma intervenção dela.

É claro que podia ter deixado o piano ou, no mínimo, arranjado outra pessoa para me ensinar. Mas estava a progredir bastante e se acham que é fácil encontrar quem ensine adultos, estão redondamente enganados.

Depois de muito matutar, encontrei finalmente uma outra opção que resolveria o meu problema sem incomodar ninguém. Muito simplesmente, decidi fazer uma pequena alteração no piano dela. Depois, a D. Joana até podia ter unhas de aço!

Sei que vasculharam o meu saco, encontraram certamente uma caixa com uns pequenos retângulos transparentes muito bem embalados. Pois bem, foram cortados por mim à medida das teclas num material que a empresa onde trabalho anda a desenvolver para a NASA. Absorve totalmente o ruído, bom, por enquanto ainda está nos 72 %, é leve e fácil de aplicar, a ideia é forrar uma zona de uma nave de longo curso, para Marte, por exemplo, ou da estação espacial para dar alguma privacidade aos astronautas, um de cada vez, claro.

Mesmo muito longe de estar pronto, servia perfeitamente para o fim em vista, permitir-me ter aulas de piano. Sei que me perguntaram várias vezes porque não falei francamente com a D. Joana sobre o assunto e porque não lhe propus abertamente a minha solução. Sinceramente, não a quis ofender. Umas unhas daquelas dão imenso trabalho a manter sempre tão perfeitas, pelo menos a avaliar pelas da Rosa que, apesar de manicuras semanais nunca estão assim. Eram pois motivo de orgulho para ela, não me atrevi a fazer-lhes a menor crítica ou algo que pudesse ser visto como tal.

Não, a minha ideia era bem mais discreta e evitaria certamente ofender aquela excelente senhora e ótima professora de piano.

E foi por isso que entrei à socapa em casa da D. Joana esta noite, usando uma janela que tive o cuidado de deixar destrancada durante a minha aula desta tarde. Seria tudo muito rápido, como disse, o material é fácil e rápido de aplicar. Pelos meus cálculos, uns vinte minutos, meia hora no máximo, para entrar, fazer o trabalho e sair.

Como é que eu podia adivinhar que havia um cão em casa? Nunca o tinha visto nem ouvido! Mas ele ouviu-me certamente e deitou mesmo a casa abaixo ainda antes de eu ter dado dois passos na sala do piano. Ainda se ao menos me tivessem apanhado uma vez concluída a alteração, isso evitaria incómodos a outros alunos, estou certo que não devo ser o único a quem o som daquelas garras incomodam.

É claro que depois de toda a confusão desta noite, isso já não será possível. É que o material é experimental e secreto e tirei-o sem autorização...


Luísa Lopes

Imagem de mahbubhasan