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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Da Dúzia à Graça




Num embaraço entre vida e morte, entre o corte e o saber-se vítima do acidente e de um tempo regressivo, derradeiro, Sidney Sherley atribuiu seu fim ao ato de escrever sobre a própria cabeça – cabeça como parte dele, parte como ele, cabeça enfim rolando no asfalto da estrada. Sabia, conforme narrava a história, que a de Charlotte Corday, decapitada em 1793, avermelhou-se e demonstrou inequívoca expressão de raiva ao ser estapeada pelo carrasco; que as dos ratos geravam atividade elétrico-cerebral relativa à consciência e cognição quando separadas do tronco; sabia, portanto, deste último intervalo, cujos segmentos ele haveria de repartir e usar tal qual um benéfico paradoxo de Zenão.

Surgira o desejo das palavras ao ver-se calvo num reflexo, ao investigar o crânio e suas reentrâncias e saliências, irregularidades, os inúmeros cortes e fissuras; nunca se conhecera assim, detalhado, e ante essa revelação informou-se acerca das ciências relativas à índole dos ossos e expressões, formas, e unindo material e vontade resolveu contar a história da própria cabeça – mas a história dela e só dela, dos detalhes alheios a ele; pois a cabeça era única, e malgrado contesse o cérebro e o princípio de uma união indissolúvel, tinha ela outra vida, exclusiva, cujas singularidades não representavam as características do corpo ou as circunstâncias do passado. Se os postulados da frenologia descreviam vinte e sete órgãos individuais que determinavam a personalidade, Sidney, aprofundando-se em estudos autênticos e apócrifos, logo denunciava muitos outros mais, ocultos pelo querer; registrou ele, no prefácio do livro, como a existência destes juízos fundamentava-se num atributo de omissão e codificação, e sobre como levávamos nos ombros um elemento estranho, rebelde, cujo desmembramento era objetivo almejado, exigindo eventual resolução.

Adquirindo dois ou três craniômetros, objeto semelhante aos antigos globos planetários, com suportes e arcos para medição da latitude e longitude, mapeou canais, pontos e ângulos enquanto lia e relia os tomos de Franz Joseph Gall e Johann Kaspar Lavater, enquanto estudava o saber atual, e todavia cabalístico, da neurologia, concebendo por fim a doutrina da crâniomancia; esta, ao interpretar as suturas superiores e compará-las às constelações, previa o destino e explicava aspectos psicológicos referentes ao indivíduo-alvo. Exceção a ela era a chamada ‘Fossa de Sherley’, um mal consolidado trauma encefálico na testa de Sidney que exigiria o uso de ferramentas inéditas, aptas a mensurar pormenores infinitesimais, de natureza esotérica.

Mesmo sendo homem de vocação numérica, sua prosa era a perfeita manifestação de expectativas artísticas: clara, simples e bela, e rabiscando não se interessava tanto pela constituição da história como pela relação da cabeça com a escrita. O ato de escrever, notou, era o ato de dar vida a essa parte oculta, a essa imaginação além da mente e matéria – e labutando no frio anoitecer do campo, entre sombras e tinteiros, ele afastava-se do momento e a tudo assistia, distante. Durante o trabalho nunca deixara de investigar o próprio rosto, e assim, num dos muitos e habituais exames, constatou a presença de indícios estranhos, suspeitos: as microexpressões da face traíam ironia, revelavam um sarcasmo involuntário – e vingativo.  Voltando ao texto, indagou se a caligrafia e a sintaxe não esconderiam segredos tal qual seu semblante escondeu. Enfrentou, então, espasmos que contraíram os olhos, venceu câimbras invasivas, paralisantes, e examinando o texto nele entreviu sugestões de cortes e separações, libertação. Naquela madrugada a tudo leu, e ao amanhecer, cansado e paranoico, concluiu que a cabeça conspirava contra o tronco, ansiosa por autonomia.

Vestindo-se e saindo, no automóvel, acelerou; iria ao psiquiatra, acabaria com este monstro descoberto e criado, monstro dele mesmo. Abrindo os vidros para aspirar a brisa matinal, os papéis e notas jogados alçaram voo, formando uma nuvem cuja silhueta retratou caveiras e ossos antes de cegá-lo.

Sidney Sherley bateu na traseira de um caminhão. 

Decapitado, e consciente, testemunhando as pedras do asfalto calçarem o fim, sabia ele de seus segundos finais, de seu erro, e sabia, também, que esse momento fora concebido pela cabeça – ou, se não, sua vida fora uma ironia sem pé e sem ela.





sábado, 20 de janeiro de 2018

A menina que tinha pena de cotonete


Você pode me achar maluca, mas tenho dó de cotonetes. Se há alguma explicação, explico.

Sou neta única de um casal de avós daqueles que só existem em histórias fofinhas.
Ele Romualdo, ela, Lurdinha. Passei parte da minha infância e atravessei da adolescência
à vida adulta aproveitando as férias num sítio nos arredores de São João del Rey,
onde moravam.

Vovô era um velho comprido, espigado, magrinho, cuja cabeça farta de cabelos branquinhos
me intrigava por não ter ficado careca, como os avós fofinhos das histórias fofinhas.
Caladão, discreto, esguio, elegante. O tempo não foi lhe curvando, porém encolhendo
a barriga presa a um cinto quatro dedos acima do umbigo, que sustentava uma calça larga
de pregas até os chinelos que aconchegavam meias azuis.

Meu avô só usava azul. Calça, camisa, meias, casaco, pijamas, talvez cuecas samba-canção.
Só azul, tudo azul. Dos pés à cabeça branquinha.  Cruzeirense, a mania da cor era resultado
de uma promessa de jamais mudar a indumentária absolutamente celeste quando o Cruzeiro de
Tostão dilacerou de 6 o Santos de Pelé. Eu não era nascida, mas lembro detalhes do jogo
através da suas palavras e lágrimas.

Lurdinha era o contrário. Espevitada e boquirrota, tinha a língua nos cotovelos.
A diferença de personalidade entre os dois era na falação, pois o corpo, a cabecinha de
densos cabelos brancos e a finura alta eram as mesmas. Apaixonada pelo marido, embarcou
na tal promessa e até camisola, os vestidos, os casacos de tricô, as saias longas e o
avental de cozinha também eram azuis.

Há lendas que se contam dos dois. Quando a vitoriosa FEB desembarcou na Capital Federal
em garboso desfile militar, estavam eles no Rio, na certa para homenagear alguns
conterrâneos de São João del Rey, uma das cidades que mais mandaram soldados para a Itália.
No meio da multidão, surge engalanado sobre um jipão o bravo General Zenóbio da Costa,
comandante da Infantaria da Força Expedicionária, celebridade nos jornais e revistas
ufanistas da época. Lurdinha não se conteve ao reconhecer um famoso, esgarçou o cordão de isolamento e explodiu em gritos esganiçados.

- Zenóbio!!! Zenóbio!!! Zenóbio!!!! 

A voz era tão aguda e aflautada que abafou os rufares da banda marcial. Os cavalos da guarda
do general se assustaram, um Dragão da Independência caiu de um tordilho empinado e meu
avô imediatamente tratou de sumir com Lurdinha pelo povo, enfiando-se no primeiro bonde
que encontrou. Diz se deste episódio, que ao chegar na casa de parentes no Engelho Velho,
naquela noite a cobra fumou.

- Onde já se viu, Lurdinha! Um chilique de macaca de auditório! Em pleno desfile de heróis!

Certa vez, viajavam de ônibus de São João para Belo Horizonte, quando Lurdinha engrenou
a conversa sobre uma comadre que estava sendo traída pelo marido. Empolgou-se na prosa,
a ponto de falar mais alto que o coveniente, não só incomodando os passageiros, como também
- e principalmente - o discreto marido. E detalhou o ponto mais alto da carraspana da
comadre ao traidor em altos decibéis.

- Patife! Miserável! Cafajeste! 

Para deixar bem claro que Lurdinha não estava lhe passando uma descompostura em público,
Romualdo elevou a voz, num tom acima do dela.

- Mas que coisa! Sempre achei o Juvenal um patife, miserável, cafajeste! 

Histórias como as de Romualdo e Lurdinha transbordam. Cada um deve ter algumas para contar e
eternizar, mesmo sem ter presenciado. Passam de gerações a gerações como verdades que poderiam
ser, mas na certa, de tanto se contar, verdades sempre serão.

Mas uma delas eu vivi diante do meu nariz. Estava de namorado novo, quando fomos viajar pelas
Minas Gerais. No trajeto, um pernoite no sítio dos avós em São João Del Rey.  Romualdo e
Lurdinha nos receberam com a fidalguia de sempre, uma mesa típica das delicias de Minas e
uma gentileza inusitada, avançada para a época, ao arrumar o quarto de casal para a neta e
seu namorado.

No jantar, deu-se o ápice da viagem inteira.

- Menina, você quer saber de uma coisa? 
- O quê, vó? 
- Seu avô está com herpes. 

Silêncio. Colheres de bambá de couve rasgada paralisaram na beira de bocas semi abertas.

- No pau, minha filha. 

Meu avô, bicou sua cachacinha, girou a língua pelos lábios, desviou o olhar da mesa para a
lua que ensaiava sair de trás dos morros de Minas e entrar pelo avarandado. Vovó trovejou.

- Não pegou essa doença comigo! Há mais de 20 anos não há sexo nessa casa!  

Meu namorado se aproximou de mim em cochichos. 

- É genético? 
- O quê? Herpes? 
- Não, a língua solta. 

Claro que houve gargalhadas gerais e meu esguio e discreto avô, esguio e discreto
permaneceu, saboreando sua pinguinha mineira.

Foi a última vez que os encontrei juntos. Vó Lurdinha teve um mal súbito e Vô Romualdo
não entendeu porque ela estava demorando em ir para a cama dormir. Arrastou seus chinelos
com meias azuis até a sala e a viu sentada na poltrona, televisão ligada já fazendo chiado,
novelo de tricô caído pelo chão. Deste dia em diante, ele nunca mais falou. Nem uma palavra.
Nem queria saber de jogo do Cruzeiro. Permaneceu mudo perambulando pela casa por mais três meses, até que vestiu seu pijama azul, encostou a cabecinha branca no travesseiro, fechou os
olhos e resolveu encontrá-la para sempre. Tinham 99 anos ele, 95 anos ela.

Hoje, toda vez que uso cotonete, fico comovida, lembro de Vó Lurdinha e Vô Romualdo.
Não posso pegar um só e separá-lo dos outros. Dá peninha. Dá tanta saudade que sempre
pego dois.  Olho para eles juntinhos por um instante eterno, as memórias brotam. Suspiro fundo,
vida que segue. Seco os ouvidos, as dobras das orelhas, embrulho num papel e coloco os
dois na lixeirinha. Um do lado do outro. Dois. Como creio que deve ser o número
da felicidade.





quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

o mundo acaba no quadril - Poema de Nil Kremer








 o mundo acaba no quadril
  no íngreme trajeto até os ouvidos
   nos olhos acaba o mundo
    guardião do indizível
     sob as expressivas sobrancelhas
      na glote contraída acaba o mundo
       pigmeu que regurgita atrocidade
        na sobriedade em demasia
         na vaidade prostrada
          na cama desarrumada o mundo acaba
           na piada mal contada
            nas vértebras ignoradas
             no redemoinho dos teus cabelos o mundo acaba
              na conivência de amores tracejados
               rascunhos e estragos da boca de lobo
                no volúvel
                 no contraditório
                 o mundo, este invólucro reutilizado
                acaba no pecado mal consumado
               na rasura sobressalente
             no semáforo inerte
           na conversão pós delito
         na negligência da faixa amarela
       na quirela dada aos porcos
     o mundo acaba
   pra renascer na massa de modelar
 e desaguar no rosto
feito pinta próximo aos lábios









terça-feira, 2 de janeiro de 2018

HOMEOPATIA - parte III







Carnaval

Surdos, pandeiros e tamborins ecoavam naquele desfile. Mas ele só tinha olhos – e ouvidos – para uma das passistas daquela ala.


Talismã

O caminhão derrapou no trevo da estrada. Um amuleto, um pingente de quatro folhas, pendia ironicamente do retrovisor.


Orgulho

Só havia uma coisa que o Dr. Coelho, renomado cirurgião, se recusava a operar: lábio leporino. Questão de autoestima.





terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Catarse

Tasso não sabia cozinhar. Carla não andava de bicicleta. Ulisses era maltratado pela informática. Mônica não cantava nem no banheiro. Já Catarina não sabia era cagar, coitada. Via-se obrigada a manobras radicais durante a prática do número dois. Ah, a solidão dolorosa, a desgraça aguda de uma mulher prostrada em seu trono — qual náufraga ilhada há meses no coração do mar...

Chegava para se sentar no vaso cheia de esperança, mas logo se desiludia com o fracasso. Não era de muito drama, mas durante cada esforço defecatório sempre se queixava da vida. Às vezes fazia troça de si mesma: como uma profissional bem-sucedida, influente e respeitada era incapaz de executar uma tarefa tão básica e primordial como fazer caquinha?

Quando nasceu, sabia obrar com perfeição. Era um bebê normalzinho, coliquento, que enchia fraldas e chorava de bunda suja, reclamando a atenção da mãe, como qualquer outro neném. Foi desaprendendo com o tempo, por conta dum ressecamento cada vez mais crônico. A partir da adolescência, a preguiça do intestino se instalou com poder. Principalmente quando a garota passava um tempo fora de casa. Ensino médio, faculdade, mestrado, doutorado, empregos, viagens, namoro, noivado, casamento... Tudinho enfrentado com constipação. As gravidezes e os nascimentos dos filhos — por partos normais — agravaram o problema.

A princípio, ela procurou a ajuda de clínicos gerais e gastroenterologistas. Falou com a obstetra também. Colecionou dicas e receitas de purgantes e reguladores intestinais, comprados em farmácias alopáticas e homeopáticas, nas raizeiras da esquina ou arrancados da horta da vó. Experimentou azeite, ameixa, sene, pitanga, almeida prado, lactulona, naturetti, lactopurga, muvinlax e outros de sufixo lax, óleo mineral, metamucil, tamarine, supositórios de glicerina... (Na época ainda não se podia recorrer ao tal ministro laxante.) Experimentou até um remédio de nome esquisito, caríssimo, que, segundo o médico, iria dar "inteligência" para o intestino, iria ensiná-lo a funcionar legal. Papo reto? Não resolveu.

Catarina fez inclusive umas sessões de fisioterapia para reabilitação da musculatura do assoalho pélvico (um tratamento para tentar recuperar a ordem funcional proctológica — como se fossem umas aulinhas práticas de autoescola para o mau cagador aprender a dirigir os movimentos dos próprios fundos até chegar ao êxtase da expurgação). Mas a fisioterapia também não deu jeito. Outra experiência sem sucesso foi deitar-se no divã e abrir seu coração para o psicoterapeuta. Nem a cuca sarada ajudou a corrigir o funcionamento do traseiro.

É que o problema era fisiológico! Comprovou-se um autêntico defeito nos países baixos de Catarina. O diagnóstico só foi dado depois de muita labuta, quando ela enfim se consultou com um proctologista renomado da cidade. O doutor submeteu o fiofó da nossa heroína a vários exames e descobriu, afinal, o que causava o enguiço da paciente. Ela passou até pela abominável defecografia (um raio X da ação de cagar, exame deprimente, oferecido por hospital de rede pública: primeiro enfiam uma massa branca no ânus da sujeita e depois ela tem de se sentar numa cabine e apresentar ao seleto público de médicos e radiologistas como se comporta antes, durante e após seu belo espetáculo de catarse fecal).

O resultado da defecografia confirmou que Catarina precisava de uma correção cirúrgica de retocele. O tecido entre a parede posterior da vagina e a parede anterior de seu reto era frouxo, o que dificultava a passagem das fezes. As bostas ficavam lá, retidas naquela bolsa, teimando em não sair. Por isso, a coitada sofria com a defecação incompleta, força excessiva e manobras inacreditáveis para ejetar as preciosas pedras no vaso. A falta de disciplina e controle lhe causava constrangimento, desconforto, mal-estar, dor, fraqueza e uma coleção de hemorroidas.

Mas a história de Catarina não continuou essa bosta cocozenta pra sempre. Teve uma reviravolta de sucesso há alguns meses. O especialista entrou no palco do teatro da vida dela para salvá-la de sua proctodisfunção. Merda! Deu um show. Acertou em cheio na performance! A paciente enfrentou a cirurgia, teve o fiofó remendado e grampeado (procedimento bem chatinho, pós-operatório doloroso) e, enfim, reaprendeu a cagar como dantes. Aleluia.

Agora, antes de sair de casa para exercer a profissão, Catarina toma café da manhã, senta-se no vaso, faz seu serviço com eficiência, toma banho e se emperiquita toda, plena em suas faculdades vitais, como a maior parte dos cidadãos. Qualidade de vida adubada!

Pois bem. Tasso ainda não se garante na cozinha. Mônica não canta nada. Mas Catarina reaprendeu a evacuar e está feliz com seu hábil fiofó.

Ah, esta é uma obra de ficção e não deve entrar para os Anais da História. Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência. 

Maria Amélia Elói





segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Doze Passas do Ano Velho


(12 Passas do Ano Velho. Calibre micro: até 300 caracteres)



Terminal
Naquele tempo, eu trabalhava no terminal de contentores do porto de Lisboa. Certo dia, fui incumbido de verificar um, chegado da Líbia com tâmaras, que vertia líquidos. Trinta e dois corpos, alguns já em decomposição, amontoavam-se no pouco espaço livre. Sete eram de mulheres, dois de crianças.
*


Sensível
Bruno colocou o automóvel no túnel da lavagem automática e afastou-se, para evitar olhares incómodos. Assim que as escovas mecânicas começaram a esfregar a superfície do carro, começou um diabólico festival de buzinas, faróis e solavancos.
Ninguém acreditava, mas eram cócegas.
*

Mistério
Ouvi uma lenda sobre o meu prédio assim que me mudei para cá: haveria uma costureira fantasma, que cosia roupa à máquina. Na verdade, dias depois, ouvi o tic-tic-tic fantasmático, mas pareceu-me o ruído normal de um contador de água. Para o confirmar, bati a todas as portas. O prédio estava vazio.
*


Gestão
Quem deu a novidade foi o encarregado da chave da latrina: a partir daquele dia, todos os operários teriam de trazer as necessidades feitas de casa, ou trabalhariam mais uma hora por cada dez minutos de retrete. A revolta entrou nos peitos tão furtiva como a nova fragrância do ar.
*

Encontro à 1 e 5
Apático, observo o relógio da sala silenciosa. O elegante ponteiro dos minutos apressa-se, impaciente. O das horas — sereno, anca larga, de uma sensualidade manifesta —, parece esperá-lo. Ouço uma badalada quando se avistam. Dali a cinco minutos roçam-se um no outro, sem pudor. Desvio o olhar.
*


Casal
Na casa da aldeia havia uma máquina de escrever antiga, com uma fita de duas cores. Quis experimentar a velharia e tentei um microconto. As letras metálicas batiam na união das cores. No papel, consegui ler uma história na metade preta de cima, e outra na metade vermelha de baixo. Complementares.
*

Corpos celestes
Sabendo da magia especial dessa noite, Eduardo prometeu à namorada uma surpresa. Conduziu-a de olhos vendados e revelou-lhe a lua cheia, imponente no seu zénite. «É tua, meu amor; dou-ta!» Ela, maravilhada e enamorada, mostrou-lhe a via láctea, sem nada dizer. A paixão explodiu, cósmica.
*


“Alma cibernética”
O primeiro processador compunha frases simples, a partir de longas listas de substantivos, adjetivos, verbos e complementos. Os seguintes geravam conjugações mais complexas. Por fim, o inventor publicou um livro de poemas.
A crítica elogiou-lhe as sonoridades e a profundidade de algumas reflexões.
*

Caridade
Na sua placidez de árvore de jardim, Acácia apreciava a azáfama dos animais, desde os lúbricos insetos aos inexplicáveis humanos. Naquela manhã, enrugou-se com o aspeto famélico de um cão que por ali farejava. Largou uma vagem, mas ele ignorou-a. Não conseguiu conter duas gotas de orvalho.
*


Inspiração
A diva iniciou a sedução do público com um “adagio” terno e enamorado, entusiasmou-o com um “allegro” vivo e jubiloso, e arrebatou-o num “presto” sôfrego e frenético. «Interpretação vívida, memorável.» Só a cantora sabia que se tinha inspirado nos andamentos do seu último desatino orgástico.
*

Injustiça
O número das botas seria um 32, e tinham sido feitas à mão — cabedal de lado, borracha de pneu por baixo. Para um miúdo da segunda classe, era um veículo todo-o-terreno. No intervalo foi patinhar nas poças da chuva. A professora sublinhou a proeza com 12 reguadas. Doeu-lhe mais a injustiça.
*


Santos anónimos
Todos elogiam a magnificência da catedral: as torres que furam os céus, os arcobotantes, as arquivoltas esculpidas do portal. Todos sentem enlevos celestiais ao contemplar a serenidade etérea da Virgem pintada no retábulo. Nem um só evoca os operários que operaram tais milagres.
*
Joaquim Bispo

Imagem: Giuseppe Arcimboldo, Cabeça Reversível com Cesto de Fruta, c. 1590.

* * *





domingo, 24 de dezembro de 2017

TROVA PREMIADA - Edweine Loureiro

Desejo a todos os amigos da Revista Samizdat um Feliz Natal e um 2018 repleto de paz e alegrias.
Edweine Loureiro






quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

BACALHAU QUE NUNCA CHEGA.

Me chamavam de Ruth ou tia Ruth ou vó Ruth ou Dona Ruth. Minha filha Maria Eulália não
me chama de mãe, nunca chamou. Ruth, Ruth, Ruth. Meu neto Marcelinho me chamava de vovó, mas quando morou aqui em casa me chamava só de velha. Velha, sua velha. Eu nunca liguei.
A velhice tem dessas coisas: você escolhe se é carinho ou não é. Eu achava que era. Minha filha
diz que não. Diz que Marcelinho não tinha mais jeito, se perdeu com as más companhias.
Eu não acredito. No fundo, no fundo, ele é um bom menino, filho de uma mãe, essa sim,
desmiolada.

Todo Natal Maria Eulália me aparece com um marido diferente. Já perdi as contas dos Natais
em que ela vem sem meu neto, chega de mãos dadas com um sujeito cara de fuinha,
equilibrando uma bandeja de rabanada, dizendo que o filho vem depois. Mas Marcelinho
nunca chega. Já faz mais de cinco maridos da mãe que ele não vem ver a velha. Mas esse ano
ele vem. Com a mãe desmiolada e seu valete da vez.

Meu neto sempre gostou de bacalhau. Na cadeirinha de bebê, lambia os beiços, sujava as
mãozinhas e eu sempre cuidava de tirar o caroço da azeitona. Tenho pânico de engasgo de
criança. Mas graças ao Jesus Menino, nunca aconteceu. Nem com azeitona nem com espinha
do bacalhau. Sempre foi do bom. Nunca economizei. Sem espinha, autêntico norueguês do
Lidador. Aprendi a receita com minha bisavó lisboeta, que chamava o prato de Bacalhau
Que Nunca Chega e dizia que um rei de Portugal não parava de comer a iguaria, amolando os
cozinheiros num ritual sem fim.

Parece que estou ouvindo minha bisavó. Primeiro, você desfia bem desfiadinho o bacalhau.
Depois, numa panela aberta, frita a cebola e o alho até dourar. É hora de jogar presunto picadinho. Quando tudo a saltitar, você dispõe o bacalhau, as azeitonas, batata frita fininha e um ovo.
Abaixa o fogo, e vai mexendo, mexendo, mexendo. E não esquece de respingar, comedidamente, azeite português para servir pelando. Quando estiver acabando na terrina, comece tudo de novo.

Pronto. A mesa está pronta. Quatro pratos. Já foi tempo em que o Natal aqui em casa tinha doze pratos. Eu disse: doze pratos. Eles foram quebrando um a um e eu resolvi tirar as cadeiras da mesa conforme os pratos iam rareando.Cadeira para quê? Aqui só senta memória. E memória não tem bunda, fica vagando pelo ar, entrando pelas rugas, encharcando os olhos. Velhice tem dessas coisas. Você escolhe se chora de tristeza ou alegria pelo que viveu. Eu acho que é alegria. Minha filha diz que não. Diz que é arteriosclerose misturada com amargura de ver o tempo
passar. Diz que eu estou mofada, não sei mexer no celular. Filha desmiolada. Cada Natal,
um marido diferente. Cada Natal, dizendo que Marcelinho vai chegar. Cada Natal, inventando
coisas desagradáveis a meu respeito na frente de uma criatura que nunca vi mais gorda.

Quatro pratos, quatro cadeiras. Ah, chegaram. Minha filha, rabanadas e um tal de Gilson.
Gilson? Não era o do ano passado, Maria Eulália? Não, Ruth, o do ano passado era Gildo,
Gil-dô, aquele cafajeste. Minha filha, você não é nada original. Cadê o Marcelinho? Gilson
trouxe um vinho, Ruth. Mudou de assunto por quê? Cadê o Marcelinho? Gilson é um homem
de sensibilidade, Ruth, canta num quiosque da praia. Foi lá que o conheci. Não quero saber
de suas intimidades, minha filha, não quero saber que esse Gildo é cantor, - Gilson, Ruth,
fala baixo, Ruth.... Não quero saber que o vinho ele trouxe para me chaleirar. Quero saber
do Marcelinho.

Quatro pratos, três à mesa, um silêncio que espeta como agulha de tricô. Só os talheres tilintando
e ao longe algumas risadas na vizinhança. A conversa nem engrenou e a travessa está vazia.
O tal do Gilson raspa o prato, ensaia um elogio vulgar, pega o chaveiro e começa a bater as
chaves na palma da mão. “Tóf, tóf, tóf, tóf, tóf, tóf...é noite de Natal, tóf, chegou Papai Noel, 
tóf, estrelinhas a bilhar, blim blom, os sinos a badalar, blim blom, tóf, tóf... ” Mais um idiota
que minha filha me traz de presente. Dessa vez com voz de cana rachada. Isso sim me dá
vontade de chorar. Dizem que é melancolia. Disfarço, recolho os pratos e vou à cozinha recomeçar
o preparo do bacalhau para o Marcelinho. Vai que dessa vez ele chega.

Olho na pia poucas louças empilhadas, poucos talheres sujos, uma panela com resto do bacalhau grudado e no aparador uma bandeja de rabanadas. Parecem sola de sapato. Vindo da sala, ouço
tóf, tóf, tóf. Maria Eulália também resolve cantar.“É noite de Natal... chegou Papai Noel, tóf, tóf...”. Aí dói no peito. Saudade do tempo em que meu neto mexia na minha bolsa e sumia com
as minhas joias.

Já passa de meia noite. Tóf, tóf, tóf. Mas Marcelinho vai chegar. Vou começar a desfiar uma
outra posta de bacalhau bem desfiadinha, tirar caroço das azeitonas. Natal tem dessas coisas.
Você escolhe no que quer acreditar. Enxugo a lágrima com a ponta do avental e
fico feliz de novo.





domingo, 17 de dezembro de 2017

A baía de Edo











A baía de Edo:
o olho do peixe 
é maior.






 
Edo é o antigo nome da capital do Japão, Tóquio.







sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Acaba comigo

Hoje tem espetáculo? Tem, sim, senhor... Tem, sim, senhor...  

Amanheceu com o bordão ecoando no cérebro. Não bastassem os anos da sua vida comidos pelo circo, ainda, de um tempo para cá, tinha dado para sonhar com as pessoas da trupe. No começo, fora tudo engraçado. Nada parecia ser o que era. Um mágico que tirava pessoas da cartola; um equilibrista que caminhava pé ante pé por um fio grudado no chão; um palhaço que usava terno e gravata, e bebia champanha no picadeiro.  Acordava ainda rindo, torcendo para que o sonho voltasse na noite seguinte. Voltou. Noite após noite, mês após mês, até ele quase enlouquecer.
De início, não ligou para o refrão. Que o que fica dos sonhos é mais a forma do que os sons; mais as cores do que os cheiros. Mas um dia percebeu que, de igual, os sonhos só tinham aquele estribilho batido e velho. Hoje tem marmelada? Tem, sim, senhor! Para sua maior irritação, nunca sonhava com o bordão completo. Uma frase hoje, outra amanhã. E voltava à primeira... Hoje tem espetáculo?... 
Demorou para notar que algo mais o incomodava. Descartou o refrão pobre, pensou nas pessoas que apareciam nos seus sonhos, imaginou significados ocultos, teve medos de souar a camisa, dores de cabeça inesperadas, palpitações. Por fim, deu-se conta: estava obsessivo. Logo ele, que já rira de tanta gente com suas manias de só pisar em ladrilhos inteiros, de perfilar objetos sobre a cômoda, de pendurar terços brancos no pescoço — e só serviam brancos — de contar e recontar as luzes no picadeiro, de usar a mesma cadeira para a maquilagem, de pintar as unhas deixando o dedo mínimo para o final. Logo ele, vivia agora com os dois versos caquéticos que aprendera em criança na boca, como uma espécie de mantra doentio... Hoje tem espet... Porra! O que tem hoje é trabalho! Para ele, sempre muito. 
Um circo de porte pequeno é uma família em crescimento — enfatizava Mestre Ambrósio, dono da trupe. — É preciso cuidar de tudo com carinho, com atenção, com tenacidade. Como se fosse a sua própria família, Geraldo Magela. 
A mesma ladainha, ano após ano. 
Mestre Ambrósio tinha sido palhaço em seus melhores anos. E dos bons. Desses que trabalham em companhias internacionais e dão entrevista nas cidades por onde passam.  Orgulhava-se de poder dizer que, ao contrário dos colegas de profissão, tinha conseguido economizar, para nunca mais ser empregado de ninguém. Quando a idade começou a pesar e outros mais jovens ganharam a preferência do público, ele se aposentou antes que o despedissem. Com o dinheiro das economias, abriu o seu próprio circo, pequeno, sem muitas atrações, mas organizado e promissor. 
Desde quando um palhaço vira dono de circo, hein?, exibia-se para os amigos. Pois este aqui virou!, dizia, batendo no peito magro.
Quem via de longe a figura ereta e magra de Mestre Ambrósio, cabelos pretos e finos que o vento sempre levantava, jurava, a princípio, tratar-se de um homem ainda jovem, talvez apenas maduro. Era bem de perto, na certeza das rugas vincadas como estradas de barro seco, que se contavam os anos. Muitos deles. Tantos que nem a pasta preta usada nos cabelos, dia sim, dia não, conseguia disfarçar ou amenizar. Mestre Ambrósio era realmente velho. Mas que todos guardassem para si essa opinião, não pedida nem admitida por ele. Só não se achava na flor da idade porque uma antiga amante, esperta, o havia convencido de que se dizer um homem maduro ou um homem vivido era mais charmoso e confiável do que se declarar um rapazola sem eira nem beira, sem juízo, sem lastro, sem recursos. Foi a partir daí que ele passou a proclamar-se vivido, maduro.  
Outra coisa interessante sobre ele era a necessidade que sentia de fazer uso de palavras difíceis. Palavras como tenacidade eram, portanto, um jeito de impressionar o interlocutor e fazê-lo pensar duas, três, várias vezes antes de dar uma resposta que não fosse à altura; ou de fazê-lo calar-se logo. Havia, ainda, muitas outras palavras que o velho gostava de ouvir soar nos próprios ouvidos, como soberbo, impávido — que vez ou outra substituía por intrépido —, deleite, estrepitoso, inusitado, vicissitude, peremptório. Guardava o voluptuosa para as mulheres, a quem chamava de damas ou senhoras, fossem ou não. E dirigia-se às que o interessavam usando um minha princesa ou um minha rainha, dependendo da idade de cada uma. 
A realidade é que ele, Geraldo Magela, ouvia essa história de “como se fosse a sua própria família” havia anos. Seguida de pequenos sermões repletos de palavras empoladas. Tudo sempre acompanhado do seu nome completo. Nada de Geraldinho, Gera ou Gê, como diziam os outros. Geraldo Magela era pronunciado quase como o nome do santo. Nunca havia entendido por que a mãe e o pai tinham lhe dado ess nome. Um santo que fora sacristão, jardineiro, porteiro, enfermeiro e alfaiate. Em resumo, pobre. Ora, que ideia! Adolescente, tinha feito pesquisas sobre alguns santos nobres, ricos. E imaginou-se sendo rebatizado como Ivo, Nolasco, Inácio. Nomes com melhor sina para atrair dinheiro. Enfim, coincidência ou não, tivera uma vida tão difícil quanto o dono original do nome.
Ali, no circo, era o faz-tudo. Lavava, limpava, maquilava os mais velhos, cujas mãos trêmulas e cujos olhos de catarata lhes roubavam a autossuficiência. Coordenava o pessoal da montagem e desmontagem da tenda principal, orientava os trailers na hora de formar um pequeno acampamento e, de quebra, era também o bilheteiro. 
Cansado de tanto trabalho, dirigira-se a Mestre Ambrósio para pedir uma redução nas suas funções. Afinal, além de ser o homem da força bruta no carregamento de peso e na limpeza dos banheiros, e de ser também o homem de mãos firmes para arrumar cabelos, perucas e chapéus, ainda tinha que atuar naquela função tediosa de bilheteiro. Recebido com tapinhas nas costas pelo patrão, ouviu dele uma explicação que satisfez a sua pouca vaidade. Por isso, dias depois, quando percebeu que havia sido apenas engabelado, deu de ombros. É que, para impedi-lo de deixar a bilheteria, o patrão apresentara argumentos que o dobraram: 

A quem mais posso confiar o meu dinheiro, sem medo de ser roubado, Geraldo Magela? Quem mais aqui, nesta companhia, é incapaz do furto, da burla, do ludíbrio?

Já amaciado pela metade, ouviu em seguida a outra metade do elogio: 

E quem mais tem uma esposa tão linda, educada, talentosa e valente como a sua, Geraldo Magela? Quem mais dorme ao lado de uma deusa e acorda relaxado e feliz todos os dias?

Era verdade. Aos 50 anos de idade, apaixonara-se por Rafaella, a estonteante atiradora de facas de apenas 19 anos que começava no circo na profissão herdada do pai. Quase cego, alcoólatra, cansado, Vladimir, o Rei das Facas, comunicou a Mestre Ambrósio que encerrava carreira. Antes que o desespero sequer chegasse à boca do patrão, anunciou-lhe também a solução: Rafaella, a filha que estudava na capital, assumiria o seu lugar no picadeiro. De início, houve apreensão por parte de todos, em especial do rapazinho que servia de alvo na arena. Mas assim que fizeram o primeiro treino, todos perceberam que aquela moça, além de bonita, dominava o ofício. A paixão começara nesse dia, ao vê-la tão segura e selvagem atirando aquelas facas. No entanto, nunca deu um passo em direção a ela. Acostumado a pensar em si mesmo como um homem insignificante, baixava os olhos sempre que a via. Foi ela quem, numa noite de trovões e falta de luz, aconchegou-se a ele, com medo da tempestade. E se fartaram de sexo na cama estreita do trailer. Gritos abafados pelas trovoadas; rostos mal iluminados pela luz ocasional de um ou outro relâmpago. E ela repetindo, sem parar: Acaba comigo! Acaba comigo! 
Aprendeu muito com Rafaella. Naquela noite e em outras que vieram em sequência. E nunca lhe ocorreu perguntar de onde vinham tanta experiência e tanta sede por sexo. Ele não ligava.
Passou a fechar a bilheteria com pressa, para correr ao picadeiro na hora em que ela se apresentava. Não lhe importavam as facas brilhantes, o rapazinho que servia de alvo, os aplausos e assovios intensos. Ele ficava ali, durante todo o número, vendo-a se movimentar na arena. Olhando para aquela bunda empinada dentro do maiô branco e apertado, contrastando com as pernas morenas, longas e lisas. As botas de salto muito alto, as mesmas que ela usava para pisar no peito dele durante a madrugada; os lábios vermelhos; o cabelo imenso solto sobre os ombros, e que ela girava no ar antes de cada faca ser atirada. Tudo o excitava. E era para tudo isso que ele corria. Embaixo das arquibancadas, no escuro, segurava com uma das mãos o membro teimoso que se agitava só em vê-la. Com a outra, afastava a cortina de entrada, para poder continuar olhando fixamente para Rafaella. E se imaginava rolando com ela bem ali, no picadeiro.
Foi ela quem o pediu em casamento. E ele achou graça na iniciativa. Dois meses depois, no cartório de uma cidade pequena, casaram-se. Em seguida, uma festa no circo, com os artistas, o pai dela e duas amigas que vieram da capital só para o casamento. Da mãe, ninguém sabia. 
Rapariga — disseram —Abandonou Vladimir com a menina e caiu no mundo com o amante fazendeiro. 
Alguns achavam que Rafaella era filha do amante, mas nunca tiveram certeza. E Vladimir cuidou dela, dando-lhe sempre do melhor. 
Geraldo Magela não queria saber daquelas histórias. Só pensava em estar com ela o tempo todo, filha de quem fosse. Amanheciam no sexo nervoso e intenso na cama estreita, e, ao longo do dia, ela o procurava para convidá-lo a voltar ao trailer. Rafaella era o espetáculo. E a ele só importava o espetáculo.
Agora, depois de tantos anos, tinha o mesmo tesão pela mulher. Mas, aos 62 anos, já não lhe era possível ter tantas ereções, antes tão fáceis. No entanto, Rafaella vinha se mostrando compreensiva em relação a isso. Nem reclamação, nem raiva, nem desprezo. Ao contrário, sempre que ele se desesperava em tentativas inúteis, ela o consolava dizendo que cada um é como é. Inconformado, ele procurou um médico na capital. A decepção foi imensa. Alimentara a certeza de que voltaria de lá com as pílulas azuis na mão, pronto para ser de novo o amante que sempre fora. Mas o coração, que já nascera com problema, não permitiu. Se tomar, morre, disse-lhe sem rodeios o especialista. Mais uma vez, Rafaella ficou ao lado dele. Tranquila, alegre, compreensiva, relaxada.

Hoje tem espetáculo? Tem, sim, senhor... 

Não, de novo, não! Que sonho idiota! Desse jeito ia acabar maluco. Já nem sabia mais se estava dormindo ou acordado. Apertou os olhos com força, se recusando a abri-los. Estava decidido a não sair da cama antes de sonhar com o refrão inteiro. Quem sabe assim fosse capaz de se ver livre daqueles versos irritantes. Permaneceu quieto, mas não adiantou. Lentamente, foi ouvindo os sons externos se tornando mais altos que o próprio pensamento. Aborrecido, sentou-se na beira da cama e pensou que deveria procurar um outro tipo de médico. Um que arrancasse da sua cabeça aqueles sonhos doidos.
Ouviu, sem querer, a vozinha fraca da criança que passava ao lado do trailer:

Hoje tem espetáculo? Tem, sim, senhor! 
Hoje tem marmelada? Tem, sim, senhor!

Não foi logo que a boca amargou. Eufórico com a coincidência, começou a repetir o refrão sem parar. Até que o verso final, do qual não se lembrava, gritou em seus ouvidos:


E o palhaço, o que é? É ladrão de mulher!

Naquela noite, alegando febre alta, não foi para a bilheteria. Devagar, caminhou até o trailer elegante do velho Mestre Ambrósio, rezando para não ser o que parecia, pensando em si mesmo como um monstro, como um homem indigno, de pensamentos abjetos. Mas, enquanto caminhava, voltavam-lhe nitidamente à memória as palavras que o consumiam: 

Quem mais dorme ao lado de uma deusa e acorda relaxado e feliz todos os dias?

Ele não estava relaxado. Nem era mais feliz todos os dias. Era Geraldo Magela, o faz-tudo. 
Quis correr, dar meia-volta, evitar a qualquer custo a certeza. Então, escutou os gritos que escapavam de dentro do trailer imenso: 

Acaba comigo! Acaba comigo!





sábado, 25 de novembro de 2017

As tentações de São Batráquio


Ao depararem-se com uma capelinha perdida junto à desolada foz do Sorraia, poucos saberão as peripécias por que passou o santo do seu orago.

São Batráquio nasceu em Sarilhos Pequenos numa família de apanhadores de lamejinhas. Moço calado e solitário, desde cedo manifestou problemas de relacionamento e comportamentos desviantes. Era presa frequente de terrores noturnos e várias vezes desapareceu de casa, sendo sempre encontrado escondido em locais isolados, como casebres em ruínas ou abrigos de pescadores em canaviais. Mostrando-se avesso à apanha de bivalves, acabou por aceitar tarefas de sacristão na igreja de uma terra próxima, o que custou ao pai umas boas sacadas de lamejinhas para o senhor padre da dita freguesia. Tinha então dezassete anos.
Durante meses, o serviço foi aceitável, com exceção do irritante jeito de imitar amiúde e em surdina o som de algum dos animais com que se cruzara, sobretudo gaivotas e rãs. Era muito prestável no apoio ao padre, no preparo dos paramentos e das alfaias litúrgicas, na limpeza da igreja e no arranjo dos altares e dos santos aí expostos. Quando não havia serviços religiosos, refugiava-se no despojado cubículo da pia batismal, em busca de solidão, ou no escuro e reservado confessionário. O que poderia ser um tempo de relaxamento e reflexão tornava-se, frequentemente, em eternidades de pesadelo. É que o demónio sabe todas as fraquezas de cada homem. Conhece as suas aspirações mais inconfessáveis, os seus anseios mais pecaminosos. E se, com muitas pessoas, — que alegremente se entregam aos prazeres mais obscenos —, nem se dá ao trabalho de as tentar, em relação a São Batráquio sabia que ele procurava resistir, se amarfanhava de desejos reprimidos, lutava com quantas forças tinha. Por isso o diabo tinha de lançar ilusões e insinuar as doçuras e os encantos das práticas pecaminosas. Os cálices pareciam abarrotar de iguarias, fazendo São Batráquio salivar e resmungar:
Huarrh!
As portinholas de todas as caixas de esmolas abriam-se por si, oferecendo-se ao futuro santo em dezenas de moedas brilhantes. E ele, de mãos trementes, grasnava:
Huarrh!
Pelos espaços vazios da igreja o diabo fazia desfilar belezas femininas de provocante luxúria, de irresistível apetibilidade. E ostentavam o rosto angélico das santas dos altares. O pecador, fremente de desejo, coaxava:
Huarrh!
Estas eram as fases de maior penar, os tempos infindos em que ele agonizava de dores do espírito, tentando conter-se. De dia, geralmente, conseguia. Cravava as unhas na pele, lavava o rosto com pedras de gelo, açoitava-se com o azorrague dos carrascos de Cristo atado à coluna. À noite, era mais difícil. Muitas vezes, sucumbia: empanturrava-se da bolacha de hóstias e do vinho de missa; com demorado empenho e habilidade, conseguia retirar algumas moedas das caixas; acariciava com redobrada sensibilidade os contornos dos rostos sagrados de Santa Eufémia e da Virgem da Assunção e as pregas da madeira pintada dos seus vestidos, temente, mesmo assim, de se atrever a imaginar o hipotético corpo santo que se esconderia por dentro.
Huarrh!
Depois, relaxava. Parecia que os seus atos não tinham consequências, chegava a sentir-se feliz e confiante. Mas então, vinham as penas. Os remorsos faziam-no amarrotar-se por dentro, o medo dos infernos fazia-o tremer e chorar convulsivamente. Tudo piorou, depois de ter bisbilhotado alguns livros de arte do padre e se ter deparado com as estampas das pinturas de Jerónimo Bosch. Via demónios que ameaçavam esquartejá-lo com navalhas de arranjo de peixe e arpões, com redes que o arrastavam para o fundo das águas, criaturas horrendas cujos olhos lançavam fogo, cuja urina derretia as lajes da igreja e cuja boca cuspia vermes e exalava miasmas nauseabundos.
Huarrh!
Então o santo pecador jurava ser ainda mais forte da próxima vez que as tentações o assaltassem. Mas os demónios que regem as pulsões dos sentidos não desaparecem nunca. Às vezes parece que estão esquecidos, que o pobre mortal foi relegado para a montureira dos objetos usados e vencidos, mas há sempre um outro dia que amanhece maldito. E mesmo os futuros santos, antes de vencerem os seus demónios, são marionetas nas mãos nefandas do demo. E os pobres pecadores voltam aos velhos pecados, com a mesma certeza do condenado perante o cadafalso, mas com o entusiasmo das alegrias do êxtase. Nunca tão bem é aplicado o conceito de “ciclo vicioso”.
Este jovem pecador escolhia sempre o fim do dia para pôr em prática os seus desvarios mais obscenos, com os quais mais se comprazia o diabo. Depois de a igreja se esvaziar e o padre sair, fechava as portas, apagava as luzes e mantinha acesa só meia dúzia de velas elétricas das promessas. Certa vez, foi negligente. Não vendo o padre nem na nave, nem na sacristia, convenceu-se de que ele já tinha saído. Na verdade, o clérigo ficara sentado no confessionário, após uma confissão particularmente deprimente, meditando nas atribulações das vidas dos pobres, e acabou por adormecer. Quando saiu de trás do pano, deparou com o jovem sacristão em cima do altar de Santa Iria, roçando-se e acariciando a escultura da santa, com as roupas descompostas.
Huarrh!
Ao pecador apanhado não pareceram muito diferentes os tratos que o padre lhe aplicou, dos habituais pesadelos pós-pecado. Mas, desta vez, o verdugo brandia uma vara de marmeleiro e envergava batina. Durante uma semana mal conseguiu conciliar o sono, com as dores que o percorriam. Curiosamente, parecia que os açoites tinham afastado os pesadelos. Durante meses, o pecador não se atreveu a pensar em santas, de modo carnal. Até o padre começou a pensar que talvez o corretivo tivesse sido remédio santo. Mas o mafarrico está sempre à espreita. Só ele terá congeminado um plano tão malévolo: conseguiu que este eficaz padre fosse deslocado para a igreja de uma das freguesias de Alcochete, a freguesia deste que tal vos conta. E terá incutido na ideia do padre de que era melhor levar aquele problemático sacristão, então com 20 anos, do que deixá-lo ao cuidado incerto de um incerto substituto. Quando São Batráquio viu o interior da nova igreja e as formosas santas que ocupavam os altares, temeu pela tentação. Santa Teresinha pareceu-lhe a mais sensual. De olhos ingénuos, não era uma santa de madeira pintada como as que conhecia — um manto branco cobria o burel que lhe vestia o corpo, sob o qual apareciam dois pezinhos descalços...
Huorrh!
O diabo que nele habitava sabia que a partir daquele momento o trajeto de pecado do nóvel sacristão estava traçado. Era uma questão de tempo e oportunidade. E ela chegou tão cedo quanto esperava. Foi no dia de Páscoa. Padre e sacristão percorreram toda a freguesia, casa por casa, a dar o Senhor a beijar. Depois das maratonas de confissões próprias da época, aquela maratona de sobe e desce escadas deixaram o clérigo de rastos. Percebia-se que iria tombar na cama exausto. São Batráquio manteve-se acordado no escuro do seu quarto, como presa encurralada. Pelas três da manhã, decidiu-se. Abriu a porta em silêncio e deixou-se conduzir pelas sombras das ruas desertas, a caminho da igreja. Ao entrar, sussurrou:
Huorrh!
Fechou tudo, deixou só a lampadinha do Santíssimo, para conferir um certo mistério exaltante, tapou com um pano negro os rostos das outras figuras sagradas, Sagrado Coração de Jesus incluído, para não sentir os seus olhares nas costas, e trepou para o altar onde Santa Teresinha parecia esperá-lo.
Huorrh!
Como seria acariciar aquelas vestes? Sentiria logo as formas que se escondiam no interior? O coração batia-lhe. Seria capaz de meter a mão por dentro do hábito? A excitação emocionava-o.
Huorrh!
Acariciou a face sedosa da imagem. Abriu-lhe o manto, contemplando a graciosidade austera do hábito. A mão hesitou em tocar a sua superfície. Era denso e rústico. Percorreu-o, tentando encontrar as formas do corpo da santa francesa. Avançou mais e mais, mas os seus dedos não encontravam qualquer resistência. Num desvario aterrado, agarrou o hábito com ambas as mãos, em vão. Finalmente, em urgência, abaixou-se e levantou-o por inteiro.
Huorrh!
Manteve-se por muitos segundos, boquiaberto, sem atinar no sentido do que via: a santa era um cabide só com pés e cabeça, em que estavam dependurados o manto e o hábito. Apenas. Não havia corpo algum. Apenas um espaço vazio por baixo do hábito. Em vez da sensualidade esperada, aquela estrutura transmitia escárnio. Zombaria. Imaginou quanto terá rido o sádico santeiro, ao fazer aquela artimanha. Em que ele tinha caído.
Huooooorrh! — berrou.
Enlouquecido, começou a pontapear todo aquele embuste. Saltou para o chão, arrancou as toalhas dos altares, derrubou lampadários e tocheiros, partiu quanto pôde. Subiu à torre sineira e tocou a rebate. Apareceu muito povo e uma ambulância acabou por levar o tresloucado.

Quando teve alta, São Batráquio não voltou para nenhuma das suas igrejas. Caminhou sem destino e foi assentar-se num lameiro perto da foz do Sorraia, na freguesia de Póvoa de Santa Clara. Aí passou a alimentar-se de moscas, imitando as rãs. De vez em quando, oferecia punhados de moscas aos pescadores que por ali passavam. Foram eles que lhe criaram a fama de santo. As moscas que ele lhes oferecia eram um isco milagroso na pesca. E foram eles que lhe deram o nome. Na verdade, São Batráquio fora batizado como Eustáquio, mas a parcial semelhança fónica, os sons que emitia e a sua atividade de caça-moscas, como os batráquios, fizeram o resto.
Quando morreu de pneumonia, ergueram-lhe uma capelinha no meio do lameiro, toda forrada por dentro de painéis de azulejos com cenas da sua vida. Fazem-lhe uma festa em maio, a que acorrem quase todos os habitantes da Póvoa de São Batráquio — o novo nome da terra. A sua imagem, que ostenta na mão o atributo de um pequeno mata-moscas, é levada em andor em volta da capela. Dizem que ajuda nas artes da pesca e cura resfriados. 

Joaquim Bispo
(Nos 500 anos da morte de Jheronymus Bosch)

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Imagem: Jheronymus Bosch, Tentações de Santo Antão (pormenor), 1505–1506.
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

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