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sexta-feira, 20 de abril de 2018

I LOVE MY JOB

José Armindo Moreira da Motta foi visto almoçando com uma bela mulher, numa mesa de canto
do restaurante Volare, no centro do Rio de Janeiro. A voz passiva e a indefinição do sujeito
nesta vaga sentença ameniza a gravidade do fato. Vamos à verdade explícita: quem o viu foi
Maria Regina Gregori da Cunha, amiga de sua esposa Heloisa Bastos Moreira da Motta, que
não poupou tempo e saliva.

- Helô, não foi a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez. Ele frequentemente almoça 
com essa pequena na mesma mesa.

Heloísa ouviu calada, um tanto por estupefação, outro tanto por não dar trelas a mexericos a
respeito de um marido tão austero, trabalhador, gentil, pai zeloso e provedor como José Armindo.
Embora tenha feito ouvidos de mercador às maledicências recorrentes de Maria Regina, também
não poupou os ouvidos do marido, quando chegou já tarde da noite.

- José, sempre espero você para jantar, não importa a hora. Faço o cabelo, visto um vestido 
sempre diferente, passo batom. Respeito sua dedicação e amor ao trabalho. Mas estou com uma
pulga atrás da orelha. 

- Eu sei, Helô. Admiro sua compreensão com a Royal. Mas que diabo de pulga seria essa?

José Armindo é Presidente da Unidade Brasil da Royal Breddell Propaganda, multinacional inglesa
que cuida da Comunicação e Relações Públicas de uma vasta carteira de anunciantes do Império
Britânico na América Latina. Poderoso esse Moreira da Motta. Conquistou a confiança de acionistas
e chefes londrinos, a quem devia gratidão pelo cargo, que exerce desde 1957. São quase cinco anos
de bons resultados e lucros mais do que suficientes para os gringos lhe admirarem e respeitarem.
Sua devoção incondicional à empresa e às liturgias da função é algo louvável pelos pares e superiores. Voltemos às pulgas de Heloísa, pois.

- José, um passarinho me contou que você anda almoçando com uma bela mulher. Mais jovem do 
que eu. Dizem até que é fina e elegante. 
- Helô, diga a esse seu passarinho para engolir um saco de alpiste a seco. 
- Ficou nervoso. Então é verdade.
- Pois é verdade. De fato, almoço pelos menos uma vez a cada quinze dias com a Sra. Áurea Lucia Smith. Faço questão de declinar nome e sobrenome desta senhora, com quem mantemos projetos comerciais para a Royal e para os clientes da Royal. 
- Mas como uma mulher é tão importante, a ponto de ocupar o tempo de um executivo tão graduado?
- Trata-se de uma rara exceção, Helô. Ela representa uma empresa parceira com muita competência, apesar do desdém que você mesmo exala ao se referir a uma mulher que trabalha.  
- Não se trata de desdém.
- Trata-se de pinimba. Trata-se do que a vida lhe ensinou, além de bordados, prendas domésticas, 
etiqueta, disposição de talheres e francês fluente. Está surgindo uma leve tendência no mundo dos 
negócios. Há algumas mulheres diferentes, que trabalham e não esperam maridos para jantar. 
Lamento por dizer isso. 
- Duvido que a moda pegue. Mulher decente não abandona o lar.
- Pois fique sabendo: são tão talentosas na profissão quanto você é dedicada ao ofício da administração da nossa casa.
- Obrigado.
- Você sabe que sempre prefiro você, do jeito que você é. Não aceitaria uma esposa que fosse diferente. Gosto de chegar em casa e sentir sua doçura. 
- Eu sei que você me tem como esteio da nossa família, o que muito me honra.
- Pois, honre-se. O que se trata no momento é crer ou não crer que um marido como eu esteja à mercê de comentários de passarinhos, quando almoça com uma parceira de trabalho.
- Você sempre tem um jeito de me convencer.
- Sou assim mesmo. Não que a persuasão faça parte do meu dia a dia na propaganda, mas quero lhe deixar à vontade para escolher entre acreditar em mim ou no que é mal dito sobre mim.

Madá, a copeira, trouxe a sopa. Só dois pratos, as filhas já haviam se recolhido. O casal fez o sinal
da cruz, orou agradecido pela refeição e iniciou o jantar, que se deu em quase silêncio. Heloisa ainda
ouviu do marido o convite para conhecer a Sra. Áurea.

- Não carece, meu marido.

Helô teve medo estreitar relacionamento com uma mulher diferente de si mesma. Talvez fosse acometida de inveja. Talvez quisesse não chacoalhar o cômodo ritual de esperar o marido provedor,
a hora que fosse, bem arrumada, cheirosa e prestimosa. Talvez não quisesse saber mais o que as aparências diziam. Talvez fosse conveniente acreditar no bom marido.

Dia seguinte, à mesa num canto do Volare, Moreira da Motta e a Sra. Áurea marcavam presença.

- Ora veja, minha esposa ouviu fofocas sobre nossos almoços frequentes.
- Que tolice.
- Entendo. Faz parte da sua criação desconfiar de maridos almoçando com outras senhoras. 
Assim como faz parte dos bons costumes esperar o marido para jantar, a hora que for. Ainda 
mais um marido assoberbado pelo trabalho, bem sabe você.
- Concordo. Mas não deixa de ser uma tolice.
- Claro. Nunca faltou nada à minha esposa e à minha família, nada faria que lhes faltasse. 
Mas mudando de assunto...
- Isso. Negócios. Vamos aos negócios.
- Mr. Breddell chega nesta quarta para uma semana de auditoria da filial.
- E você está preocupado?
- Neca de pitibiribas. Apenas me pediu para providenciar com você uma de suas garotas. 
- Alguma preferência?
- Sim. Diz que gostou muito da moreninha da última vez.
- A Dominique?
- Acho que é esse nome. O gringo ficou doido com a dedicação da menina. Disse que no auge 
das quenturas do amor gritava “I love my job, I love my job...”

Os dois caíram numa gargalhada contagiante. Aos poucos, retomaram a conversa.

- Dominique é uma das minhas melhores. Nunca lhe ofereci?
- Nem quero. Mr. Breddell não me perdoaria. 





terça-feira, 17 de abril de 2018

Prazer de ouvir as histórias

Asakusa Honganji temple in th Eastern capital.jpg







Prazer de ouvir
 as histórias dos velhos.
  Visto um pequeno quimono.
















segunda-feira, 16 de abril de 2018

Desobediência


Engole o choro, menina! Que coisa feia essa manha!

Secando os olhos na manga do pijama e soltando fungados longos, suspirados, ela guarda a dor num lugar que ainda não sabe que se chama alma. Estica para a mãe os bracinhos pequenos. 

E ainda quer colo, depois dessa feiura toda?

Quer. Mas não ganha. Sentada no berço, agarra pelas tranças a boneca de pano e se deita sobre ela, soluçando.

Engole o choro, idiota! Aqui, ninguém chora porque apanhou na escola! Se chegar em casa chorando de novo vai apanhar é de mim! 

Choro guardado. Rosto lavado com água fria. A alma quase sem espaço pra ajeitar qualquer dor. Mas ela empurra até caber. No quarto, abraça as fotos dos artistas que adora. Todas compradas na banca de revistas. Autografadas e tudo. Gosta de pensar que cada autógrafo foi dado só para ela. E dorme sonhando com um beijo na boca do seu cantor predileto.

Engole o choro, mulher! Que merda é essa? Cala a boca! Se você não parar eu vou te quebrar todinha!

Quebra, não. Não tem mais pedaço inteiro. E essa coisa salgada escorrendo dos olhos é só um hábito de menina feia. Passa. É que de vez em quando a alma  expulsa uma dor que se revolta lá dentro. E a dor sai molhada. 
No banheiro, vira o rosto para cima e jura até para si mesma que as lágrimas são do chuveiro. 

Engole o choro, vovó! Por que é que velho chora à toa, hein?

É a novela. É gripe. Claridade. Cebola. Alergia. Eu posso parar, quer ver? Eu sei sorrir. Está vendo? Está vendo, sua porra de menina idiota? 

Engoliu todos os choros. Mas cansou de obedecer. E foi deixando vazar toda aquela água represada ao longo dos anos. Disfarçadamente. Gotejando. Até secar. 
Hoje, abriu a porta, desceu os degraus e sentiu a rua fria sob os pés tortos pelo reumatismo. Caminhou feito bêbada, esbarrou nas pessoas, abraçou os postes, berrou com as buzinas, dormiu com os mendigos. E estendeu os braços para o nada, essa alma enorme.





segunda-feira, 2 de abril de 2018

DE AMORES E MOINHOS








Deslizo pelas entrelinhas do que escrevo,
Embora saiba que no momento você talvez não consiga me ler.

Lembro-me das paisagens e dos lugares que nunca chegamos a conhecer e,
Como num parque de diversões fechado para obras,
Enterro-me nos castelos de sonhos que construímos para nós.

Releio cartas que pensei em te enviar,
Mas percebo que foram escritas com sumo de limão,
Invisível a ti,
Como inaudível a ti é agora minha voz.

E deixo-me arrastar pelo moinho,
Quixote sem Rocinante,
Riobaldo sem sertão,
Riacho sem ribeirão,
Até me tornar pó, fim do grão.






domingo, 25 de março de 2018

Cinzas da vida



Ficou-lhes sempre na lembrança que tinham casado uns dias antes de Salazar ter caído da cadeira — 1968. Escolheram a igreja de São João Batista ao Lumiar, para a cerimónia religiosa, e o Castanheira de Moura, um restaurante da Estrada da Torre, para a boda. Vieram muitos familiares de Amélia, do Alvito, e alguns outros convidados do noivo Leonardo, da zona de Lisboa. Enquanto não arranjavam casa, ficaram a viver em casa da mãe dele, que tinha um andar espaçoso na zona velha da Quinta de S. Vicente.
Os primeiros anos correram bem, tanto quanto podem correr a quem tem ordenados de datilógrafa e de eletricista; valia-lhes não pagarem renda de casa. Depois ela conseguiu entrar para hospedeira de terra, no Aeroporto, e ele para técnico do Rádio Clube, mas, se entrava mais dinheiro, a separação determinada pelos horários ditou um maior afastamento.
Quando o 25 de abril de 74 rebentou com os dias negros da Ditadura, abriu também janelas de esperança a todos os que viviam vidas de cinza. Amélia viveu as euforias das manifestações, das lutas por melhores salários, das liberdades conquistadas. Passou a sair com colegas que, como ela, terminavam o turno à meia-noite, para beber um copo. Era bem mais apetecível do que ir a correr para casa, onde a esperava a sogra controladora. Leonardo fazia geralmente o turno da meia-noite às oito da manhã.
No grupo de quatro ou cinco colegas, rapidamente se aproximou do Paulo, que, além de uma boa figura, tinha carro e era a boleia certa para casa. Por fins de novembro, Amélia passou a ser visita frequente do quarto dele na Calçada de Carriche. Nunca o marido suspeitou, embora a mãe não deixasse de o informar das horas a que ela chegava a casa.
Certa noite, lá por maio, o desejo não pôde esperar por um quarto — amaram-se no banco do pendura do carro de Paulo, numa rua sem casas dos altos do Restelo. De vidros embaciados, uma lanterna acesa tentando descortinar o que se passava lá dentro foi um final desagradável — pós-final, felizmente. Dois polícias de giro identificaram os amantes e aconselharam maior discrição.
No dia seguinte, o alarme: um dos polícias telefonou para casa de Amélia — sabe-se lá com que intuitos lúbricos — e não houve como negar a relação extra-conjugal. Depois de discussões violentas, Amélia saiu de casa. Paulo recolheu-a e durante umas semanas parecia que a situação era o melhor que lhes podia ter acontecido, a não ser…
A não ser pelos meandros escuros da natureza humana. Pareceu a Paulo que a situação de Amélia era de dependência, e tornou-se um pouco sobranceiro. Além disso, a relação perdera aquela fulgurância de chama que só a clandestinidade atiça. Sexo sem ser furtivo perdia parte da graça. E Amélia não deixou de o perceber. Dois meses depois, mudou-se para um quarto que dividia com uma amiga.
Paulo não gostou. Mesmo sem a excitação de coisa proibida, sexo em casa, disponível sem muito trabalho, agradava à sua preguiça inata. Agora voltava a ter de se esforçar — combinar encontros, organizar e acompanhar passeios, fazer trabalho de sedução. E tornou-se altamente ciumento. Quando soube que Amélia tinha saído com um grupo de outro colega, fez uma cena. Mas Amélia tinha crescido, à imagem do país, que estava muito mais aberto e liberal. Já não estava para aturar manápulas de controlo. E rompeu com Paulo.
Ao contrário do homem de ideias arejadas que Paulo parecera ser, revelou-se, afinal, um tipo misógino e vingativo: no auge do ressabiamento, telefonou para o ex-marido de Amélia. Identificou-se, pediu desculpa pelos atos anteriores, declarou-se solidário com a sua situação de marido enganado e pediu solidariedade para a sua similar situação de amante enganado. Por palavras hábeis, demonstrou como ambos tinham sido atirados para a mesma humilhante condição por uma mesma pessoa, uma mulher volúvel, sem caráter. A terminar, indicou pormenorizadamente o local onde ela se encontrava com o novo namorado.
Leonardo, querendo recuperar alguma dignidade que julgava perdida, dispôs-se a mostrar firmeza conjugal. Dirigiu-se ao local indicado e efetivamente apanhou os amantes em flagrante. Uma moca de Rio Maior, que nessa altura era muito popular nas lutas políticas norte-sul, foi a ajudante que convocou para dar o necessário corretivo na ex-mulher. Deixou-a inanimada com escoriações e hematomas nas pernas, nas costas, no peito e um traumatismo craniano. O namorado escapou antes que Leonardo pudesse apanhá-lo.
A Polícia tomou conta da ocorrência e o processo da agressão foi a tribunal em novembro. Depois de ouvir as queixas de uma e as razões de outro, o despacho do juiz foi claro: admoestava-se o ex-marido pela conduta descontrolada, mas tomava-se em conta a humilhação a que tinha sido sujeito. Verberava-se com ênfase a conduta traiçoeira de Amélia, causa primeira das posteriores agressões. Referia-se que, felizmente para ela, já não se apedrejavam adúlteras, como era de lei nos tempos sagrados relatados na Bíblia.
De nada valeu que o advogado de Amélia lembrasse que não era ela que estava a ser julgada, que ela é que fora agredida barbaramente, e que todo o indivíduo tem direito a não ser discriminado perante a Justiça, conforme a Declaração dos Direitos Humanos.
Amélia ouviu uma repreensão verbal por conduta indigna e o ofendido um pedido de comiseração, tendo em conta os tempos desvairados que se atravessavam. Saiu calada. Sentiu-se outra vez género menor. Percebeu que os tempos de liberdade e luz que a sociedade vivia não tinham tocado alguns setores.
Pouco depois, o golpe contra-revolucionário de 25 de novembro de 75 punha um ponto final nas aspirações progressistas pós-ditadura de Salazar. Nada que ainda causasse perplexidade a Amélia. Claramente, o 25 de abril não chegara à Justiça, mas também já não ia chegar. Três meses depois, aceitou a carta de chamada de um primo e mudou-se para o Canadá. De vez.

Joaquim Bispo

Imagem: Jean-Paul Laurens, O Papa e o Inquisidor [Sixto IV e Torquemada], 1882.

* * *
Este conto integra a coletânea “Direitos humanos e minorias” da Revista Gueto, 2º semestre de 2017, edição especial, pp. 64–66.


* * *





quinta-feira, 22 de março de 2018

O Defeito Necessário



Tudo o mais em Leila era perfeito, as feições e linhas da face, cada traço delicado, mesmo as clavículas ou suas ebulições intestinais, destacando-se nela as coxas cujo tamanho e lisura, cujos músculos agigantados desafiavam as proporções do corpo feminino. Tudo o mais era perfeito, tudo, menos o nariz de gancho, e isso constataram os pais quando Leila nasceu, conferenciando eles acerca do membro desproporcional, de sua origem, se oriundo de um ascendente macabro e desconhecido ou se consequência de lastimosas anomalias genéticas. Quando com as mãos encobriam aquela tromba o bebê mudava e afigurava-se belo e divino, e ante às imposições desse fenômeno ótico-estético aos genitores restou suplicar pelo bem da filha, pela saúde, pela sorte de um acidente. Como se ouvindo aos clamores a menina cresceu e com sucesso ignorou a mácula em sua face, e ignorou também as insinuações dos amigos ou as injúrias professadas por outras crianças, tendo cada gracinha o condão metafísico de intensificar o encanto de seu rosto.

Pois viveu Leila desse jeito até a adolescência, alheia à magnitude da falha e da virtuosidade, e foi só ao beijar e por descuido cravar o nariz no olho de um namoradinho, ferindo-o, que teve consciência de si. Após visitar a emergência de um hospital e tomar conta do amado, no banheiro de casa trancou-se e à frente do espelho estudou sua deformidade. Soube-se amaldiçoada ao ver o que de espaço ocupava ela, e virando-se de perfil soube-se amaldiçoada em dobro. Era o tamanho, a curvatura de bico, o osso acima e entre os olhos, e com estes enevoados e já não mais inocentes agradeceu a ausência de verrugas.

Sou a bela e a fera em pessoa, refletiu. 

E fungou.

Ciente do contraste entre formosura e monstruosidade, e ignorando o assédio constante do animal homem e do animal mulher, que desconsidera méritos ou deméritos físicos, compreendeu como certas situações agora se explicavam, vide quando a ela ofereciam, em trens e coletivos, o banco reservado aos deficientes. 

E fungou e chorou mais. 

Entretanto a perfeição em Leila abrangia, além do exterior, seu interior, as rebuscadas sinuosidades do coração e da vontade, pois as provações da vida nela despertavam outra força, outra manifestação do belo, este não visto mas sentido. Para a mulher o inferno não passa de distração, evocou ela o verso de seu compositor predileto, e mal ruminado o até então escuso infortúnio decidiu acerca de como agir: faria uma rinoplastia. Assim foi em frente, altiva, e a consciência do defeito e a confiança exibida a tornaram ainda mais atraente. Amantes e galanteadores a enxergavam e cortejavam-na com despudor, e cercada de flores ela indagou se aquele órgão de bruxa não exalava feromônios. As amigas, belas e sedutoras também, inexistiam ao seu lado: viviam, ou escorriam, à sombra do nariz. Independente, Leila não quis ajuda dos pais, nem aos íntimos exprimiu sua vontade, apenas juntou moedas e sorriu ao ter em mãos os valores da cirurgia e, nos ouvidos, a confirmação do médico.

É um procedimento de rotina, disse ele. Tudo hoje é um procedimento de rotina, reiterou.

Dias antes da operação, rolando sobre a cama fofa e perfumada, sonhou com praias e ondas gigantes, a derradeira e maior delas retraindo-se até restar uma duna alta, vergada e sombria, desfazendo-se ao vento. A intervenção ocorreu sem adversidades, e a cara, inchada e roxa, foi isolada em ataduras. Retiradas as últimas, duas semanas depois, o curativo já não úmido e rosado, e refeita a cútis e suas cores, de imediato assomou-lhe a seguinte revelação: sim, era linda e formosa, mas não tanto quanto com o defeito. Aliás, era bem comum e ordinária.

Após a consulta final, exausta e chegando no lar, entrou no quarto e chorou ao enxergar em seu travesseiro a marca de uma reentrância singular e curva como os acasos da vida.


https://palpebrascomoondas.wordpress.com/





terça-feira, 20 de março de 2018

A VOZ DA SUA BELEZA

1962

21 de janeiro, 05:21 h.  Um corpo é encontrado boiando nas marolas da Praia da Urca.
Há uma perfuração na testa e mãos amarradas. Está em decomposição. Irreconhecível.

21 de janeiro, 10:42 h.Um rabecão do Instituto Médico Legal recolhe o corpo sob os
olhares de pequena multidão de curiosos. Todos tapam o nariz.

21 de janeiro, 22:48 h. O legista conclui que um homem de aproximadamente 35 anos veio
a óbito há pelo menos 48 horas com um tiro frontal de arma de fogo calibre 32. Não há
outros sinais de violência, além das escoriações nos punhos provocadas pela força da corda  amarrada.

25 de janeiro, 09:23 h. Até a essa hora, ninguém havia reclamado o corpo, que também não
havia sido identificado. As digitais estavam deterioradas pelo tempo em que ficaram imersas.
Alguns peixes cuidaram de esfacelar os dedos.

7 de janeiro, 18:32 h. Raul da Silva Maciel acorda da anestesia depois de três horas de uma
cirurgia exploratória na região abdominal. Mal abre os olhos, se dá conta de que está numa
UTI pós operatória. Grogue e atordoado. Recebe a visita do cirurgião. Dá-se um diálogo curto e grosso.
- Sr. Raul, carcinoma ductal no pâncreas. 
- Só isso? 
- Isso é tudo, não há mais o que fazer. 
- Quanto tempo? 
- Três, quatro meses. 
- Três, quatro meses de morfina, por favor. 

9 de janeiro, 19:07 h. Raul da Silva Maciel abre com dificuldade a porta do seu quitinete no
Catete. Com a mesma lentidão caminha à cristaleira no centro da pequena sala. Carrega uma
caixa de ampolas de morfina auto aplicáveis, como se aplicavam soldados na Segunda Guerra. Suas mãos estão trêmulas, a ponto de quase deixar espatifar no chão a garrafa de uísque, cujo gargalo
leva à boca.

10 de janeiro, 06:32 h. Raul acorda com gosto de banco de igreja na boca, embebido em uísque e bactérias produzidas pela noite entre resíduos nas gengivas e tártaros. Está jogado no tapete,
ao lado da garrafa vazia. Não sente dores. Sua cabeça lateja. Esfrega os olhos lentamente.
Um letreiro de neon pisca dentro de sua cabeça: Morgana, Morgana, Morgana.

18 de janeiro, 21:00 h. Morgana Ferrante estreia no La Rose D´Or. Suas tentativas de se tornar
cantora foram quase frustradas, até que lhe estendeu a mão o Deputado Federal por Alagoas
Leonildes Ferrante, a quem canta “Ne me quitte pas” olhando olho no olho do Deputado, sentado
na primeira fila, ladeado de Juvêncio, motorista e fiel capanga.

18 de janeiro, 23:05 h. Fim do espetáculo. Morgana é recebida no camarim por um assistente de palco que lhe entrega rosas vermelhas. Há um bilhete anônimo. Porém, as palavras lhe estonteiam. “Sempre acreditei na voz de sua beleza.” Morgana fica pálida e rasga o cartão.

18 de janeiro, 23:18 h.. No banheiro do La Rose D´Or , sob a permanente vigília de seu motorista
corpulento, o Deputado Leonildes ajeita a glostora no topete, ainda inebriado pela apresentação
de Morgana. Não percebe a aproximação de um homem magro, barba por fazer, um tanto cambaleante, um tanto curvado, um tanto firme no dizer.
- Coronel Leonildes! Sou louco pela sua mulher.
- Que traste é você?
- Um homem que ama sua mulher. Morgana, Morgana, Morgana!
- Que despautério!
- Amo sua mulher mais que seu dinheiro pode comprar! Vossa Excelência porca não sabe da missa 
a metade. 
- Juvêncio! Tire esse cabra daqui! E some com ele daquele jeito!
Raul é amarrado nos punhos. Leva um mata leão e perde os sentidos.


1961

20 de outubro, 16:34 h. A primeira aula de Morgana no Conservatório de Música é um fiasco.
Os professores se entreolham desencantados. Um deles quebra o lápis e joga os cotocos no chão.
O pianista se compadece. Mais que isso: fica encantado com a beleza de Morgana, apesar da voz
rouca e de precária afinação. O nome dele é Raul.

21 de outubro, 17:07 h. Chove a cântaros no Rio de Janeiro. À saída do Conservatório, Raul cede
seu paletó à Morgana, que espera o bonde numa marquise, se esquivando do aguaceiro. Dá-se um
comedido diálogo:
- Você não é o pianista? 
- Sim. 
- Desculpe o vexame de hoje.
- Não há o que se desculpar. Acredite na voz da sua beleza.
Morgana ruboriza. Raul também.  Chega o bonde para Rua Aguiar na Tijuca. Morgana sobe, deixando rabichos de olhar para Raul. Que lhe levanta o chapéu ao longe.

27 de outubro, 17:10 h. Raul e Morgana se encontram no mesmo ponto. Desta vez sem chuva.
Dois bondes se aproximam. O primeiro: destino Águas Férreas. O segundo: Aguiar-Fábrica.
Raul disfarça, deixa seu bonde passar e muda de rumo. Dá-se um segundo e contido diálogo:
- Tijucana? 
- Sim. 
- Eu também. 

29 de outubro, 17:10 h. Raul pega o mesmo bonde de Morgana, dois bancos atrás. Fica espreitando
encantado sua nuca revelada pela brisa que levanta seus cabelos. Raul percebe que Morgana vai
descer do bonde. Apressa-se, passa a sua frente e, se equilibrando no estribo, oferece sua mão.
Dá-se o terceiro diálogo:
- Muito gentil, pianista. 
- Raul, me chame de Raul. 
- Tocas há tempos no Conservatório? 
- O bastante para conhecer a voz de sua beleza. 
Morgana e Raul fitam-se. Olhos tímidos que sorriem.

31 de outubro, 17:22 h. Raul fecha o piano e vê Morgana chorando, também a cântaros, na coxia
do auditório, semi encoberta por uma cortina. Dá-se o quarto diálogo.
- Posso ajudar? 
- Não. É pessoal. 
- Se precisar... 
- Obrigado. Você é muito gentil. 
- Vai de bonde? 
- Vou, mas hoje prefiro ir sozinha, desculpe. 
Morgana parte às pressas. Raul faz que vai atrás, mas não vai. Medo.

18:33, 31 de outubro. Hildete, mãe de Morgana, está esperando a filha no portão.
- Enxuga essas lágrimas, lava sua cara de desenxabida. 
- Ele veio mesmo?
- O Deputado veio só para uma visita de pêsames. Era amigo de infância do seu pai lá das Alagoas. 
- Mas papai se foi há mais de ano! 
- Não interessa o pretexto, ele veio ver você. 
- Mas tem idade para ser meu pai. 
- E dinheiro pra tirar a gente dessa pindaíba.

18:17, 3 de novembro. Morgana se arruma para um jantar com o Deputado Leonildes Ferrante.
Olha-se no espelho por séculos. Não está confortável. Pensa no pianista que nem lembra o nome.
Romeu? Raul? Rui? Seu coração bate forte pelo que poderia ter sido. Pelo que não foi. Pelo não
era para ser. Lembra uma frase dita por Raul ajudando a descer do bonde, que lhe acalentou
sonhos de ser cantora.

16:38, 10 de novembro. Um homem senta-se súbito ao lado de Morgana no bonde.
Morgana se assusta, mas uma meiguice desconcertada toma conta do seu olhar. Dá-se um
diálogo definitivo.
- Você? 
- Sim, seu pianista. Sumiu uma semana? Não apareceu mais no auditório. 
- Não posso mais estudar canto aqui, vim me despedir dos professores. 
- Como assim? 
- Vou ter aulas particulares. Embarco mês que vem para Paris.  

21:29, 10 de novembro. Raul faz da garrafa de uísque uma mamadeira. Dorme no tapete da sala
da quitinete.

07:05, 11 de novembro. Raul acorda amarelado. O espelho não nega. Abre a camisa amarfanhada.
Parece uma gema. Apalpa o lado direito do abdômen. Dores. Franze a testa, lava o rosto sem gosto.
Toma um sal de frutas lentamente. Olha as borbulhas no copo e vê um letreiro de neon: Morgana, Morgana, Morgana.

16:32, 13 de novembro. Fraco e com suspeita de icterícia, Raul sobe no estribo do Aguiar-Fábrica
destino Tijuca. Salta na rua de Morgana. Assiste atrás de uma árvore a um Buick preto estacionar
no portão e um motorista corpulento abrir a porta para Morgana entrar. Estonteante e trágica visão.
Vestido colado no corpo, cabelo preso, nuca em nudez plena, sandálias de salto, sorriso rodeado
de batom carmim e um colar de pérolas que acende a rua. Um cinquentão altivo e garboso sai do banco traseiro do carro e a recebe com um abraço interminável. Talvez esteja acontecendo um beijo -  não se sabe, Raul fecha os olhos. E vomita bílis na calçada.

14:12, 17 de dezembro. Raul aparece no Conservatório onde estava licenciado. Todos se
espantam com sua cor amarelada, sua voz claudicante e um insincero sorriso para todos e para
a vida. Ouve não sabe bem de onde, cochichos indesejáveis entre duas alunas.
- Lembra da Morgana?
- Aquela bonitinha da voz rouca desentoada?
- Casou com um Coronel das Alagoas. Deputado Federal. Herdeiro de usineiro.  Idade do pai 
dela. Bonitão e rico de alça de ouro no penico.
- Essa pequena nunca me enganou. 
- Agora chama-se Morgana Ferrante. Foi para Paris. Estuda canto.
Raul desmaia.

07:46, 20 de dezembro. Raul tem alta em um Pronto Socorro, para onde foi levado na
ambulância chamada às pressas pelos colegas do Conservatório. Pega o bonde Aguiar-Fábrica
e salta na rua de Morgana. Fica encostado duas horas no muro em frente, olhar fixo na janela do quarto que nunca conheceu, supostamente da Morgana que também nunca conheceu como sonhou.
O portão está trancado. As portas e janelas estão fechadas. Uma tabuleta diz Aluga-se. 
O vazio corrói.

16:40, 20 de dezembro. O Deputado Leonildes assiste à última audição de Morgana, agora
Ferrante, para uma banca de chansonniers em Paris. Não há entusiasmo entre os franceses,
apenas um grito solitário de “Bravo!”, seguido de um indiscreto “Arretada, minha cabrita!”. Morgana se curva agradecida.

23:52, 24 de dezembro. Raul na quitinete do Catete. Um passarinho depenado na gaiola.
Gargalo da garrafa de uísque sobe e desde à boca. Nos olhos fechados na cabeça jogada no sofá,
pisca o recorrente neon: Morgana, Morgana, Morgana.

23:52, 24 de dezembro. As luzes de Paris iluminam as mãos dadas de Morgana e Leonildes pelas margens do Sena. Carregam copos e uma garrafa de champanhe. De olhos para a Notre Dame, saúdam o nascimento do Menino Jesus. Erguem as taças e se benzem. Morgana encosta o rosto
no peito aconchegante de Leonildes. Trocam afagos agradecidos, um pelo outro.
Por motivos diversos.

23:52, 31 de dezembro. Parece que o tempo parou na quitinete de Raul. Só a barba crescida dá
sinal que uma semana se passou. No mais, o gargalo, a garrafa renovada, o corpo cada vez mais magro jogado no sofá. E claro, o recorrente neon no breu dos pensamentos.

1962

17:36, 1 de janeiro. O casal Ferrante desembarca no Galeão. Réveillon inusitado a bordo da
primeira classe da Panair. Só faltaram fogos de artificio, por incompatibilidade física, e um amor
nu e ardente, por pudores. No mais, muita champanhe e juras falsas e francas de amor eterno.

08:12, 11 de janeiro. As letras de um colunista social são ferozes: “O casal Morgana e Leonildes Ferrante desembarca de Paris. Ele trazendo a amada pelo braço. Ela trazendo na bagagem um pré contrato para cantar no Le Rose D´Or, a nova febre dançante de Copacabana. L´amour, toujour 
l´amour.”. Sobre a legenda, a fotografia de dois apaixonados sorridentes. Raul recorta Morgana do retrato e cola na parede. Tudo dói. Raul auto aplica uma ampola de morfina.

11:01, 12 de janeiro. Raul só tira os olhos do retrato de Morgana para e levar o gargalo da
garrafa de uísque à boca automaticamente. Lembra do dia da sua estreia no La Rose D´Or. As horas  passam intensas. Como passam a morfina, o uísque, o neon.

14:28, 13 de janeiro. Raul decide por em prática um plano para deixar de viver.  Não tem coragem de fazer pelas próprias mãos.

21:20, 18 de janeiro. Do fundo da La Rose D´Or, Raul assiste à Morgana Ferrante entrar no palco. Começa a cantar "L´himne à l´amour". Pelos olhos de Morgana, que fecham-se e abrem-se
para a primeira fila, Raul sabe que não é para ele. Disfarça, e antes do fim do espetáculo dirige-se ao banheiro.

06:15, 19 de janeiro. Uma mulher dá entrada num Pronto Socorro Público, entregue por um táxi não identificado. Tem o rosto retalhado por um corte extenso do supercílio ao lábios, carente de suturas urgentes. Sua boca sangra por uma suposta  perda de dentes. Apresenta hematomas no olho esquerdo e no dorso lombar, configurando lanhos produzidos por objeto contuso, fivelas de cinto, a conferir. Com a voz rouca e débil, consegue balbuciar: "Meu nome é Morgana. Caí da escada."





sábado, 17 de março de 2018

fourmis dans l’œuf - poema de Vivian Matsui




fourmis dans l’œuf






não saber mais se um torna-se ovo por retração ou por impulso talvez ambos talvez só por impulso brotem formigas elas rompem a casca o ovo é o mundo a formiga quebra a casca a questão é se elas comem a gema antes

espero que não o ovo estaria morto só o cálcio ninguém responde o ovo é pétreo

o ovo se fechou a formiga já estava dentro foi assim a gema quis sair um instantezinho deslize de exaltação quase um grito de liberdade depois um suspiro de alívio entrou a formiga esquiva fechou o ovo satisfeito coitado ingênuo elas se multiplicam cataporicamente a conclusão é nunca nunca nunca vulnerabilidade o ovo mesmo o ovo retraído só uma ilusão eremita de segurança no fundo ele treme suores frios enxaquecas de ansiedade e insônia o ovo nunca dorme sempre vigia mas é medo mesmo

o ovo melhor nunca sorrir de olhos fechados


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Do livro como (não) foi
editora urutau





sexta-feira, 16 de março de 2018

Viva (para M. que não conheci)



faz tempo que ser mulher não é obedecer 
a qualquer sina
ao destino alienado de acordar 
pra ser boneca de corda, recatada, feminina
pasto para o prazer
inconsentido, cocho para o caralho  
insaciável de José de Pedro de Antônio de qualquer mané
usada calada violada surrada sufocada pela ausência de opções 
ensinada como dogma, aplicada como droga
faz tempo que as amélias amorfas saíram do palco 
— caíram do palco
e um novo elenco de úteros (fecundado
pelo sangue menstrual da plebe)
pulou da coxia para falar às mulheres de 
coisas que as mulheres (ainda) não sabiam
direito, luta, sororidade, comunidade
cidadania, empatia
voz demais para os ouvidos loucos
para os carrascos toscos 
para a sandice psicopata dos 
paus-mandados para calar 
caçar 
executar — a 9mm
a voz-realidade que sorria um sol de forças
a mulher que não cabia, não cabe no
ódio-capacho dos covardes sem rosto
a voz teimosa, não silenciável, que 
transcende o corpo que tombou e segue guia
que mostra como é despudoradamente linda
— e para ser ouvida sempre
a mulher que faz a própria sina.
Marielle Presente!







quinta-feira, 15 de março de 2018

confraternizando




Entrou sozinho e disse boa tarde a estender-me uma mão húmida e sem pressão, viscosa, mesmo. Nem lhe dei atenção, a olhar a querida Margarida que afinal tinha vindo. Que bom, pensei eu a beijá-la, efusiva, que eu gostava, e muito, que a minha amiga Margarida tivesse conseguido vir. Ficámos a perguntar-nos que é feito, mas já ela cumprimentava um outro que eu nem sei quem era: gente mais nova; gente que tinha entrado na empresa, depois de eu me ter aposentado. E reparei que o homem continuava pespegado, ali, a dois passos.
Tinha nele qualquer coisa que ia mal com o sorriso tímido; um não sei quê falso estampado nos olhos cinzentos com espessas sobrancelhas a sombreá-los.
Um bonito homem, mas desinteressante, pensei eu enquanto via o Zé Eduardo a sorrir-me: que saudade! e abraçámo-nos.
Tinha-me perguntado: lembra-se de mim?
E eu não me lembrava, mas não disse. Sorri-lhe, apenas, a olhá-lo como se tentasse descobrir algum traço dele no meu passado, mas esvaida, sei lá eu porquê, de qualquer interesse.
Insistiu. Afirmou que tinha estado um ano e meio na empresa, e eu nem duvidei, mas era como se nunca o tivesse visto.
Não se lembra do Crisóstemo Ricardo?! exclamou, e lá teria as suas razões para achar estranho que eu não o reconhecesse.
Mas não, nem aquele nome me dizia nada; e não me lembrava da cara, se bem que achasse estranho que tivesse esquecido aquele arzinho pacóvio a querer parecer ser outra coisa. Se o tinha visto, varrera-se-me.
E ficamos assim, ele na dele e eu na minha, cumprimentando os conhecidos que passavam, e eu talvez tenha sido deselegante, antipática, mesmo, depois que ele voltou à carga: se eu não me lembrava duma sessão em que ele tinha estado a dizer versos; assim mesmo o disse: versos; e eu ri-me, dei uma gargalhada descomposta e disse, peremptória, como ainda não lhe tinha dito: não, não me lembro, nada; e disse desculpe; mas não, não tinha qualquer ideia daquela cara.
Terá ficado ressabiado que esta gente tímida armada de vaidades ou, melhor dizendo, esta gente vaidosa a dar ar de tímida, é gente para ser levada com jeito ou ficam ressentidas e viram feras.
Nem terá sido o caso e, ainda assim, Ana Cláudia viria contar-me, lá pelo fim do dia, ela que adora ouvir num lado e vir contar no outro.
Sabes? começou.
E repetiu, adiantando.
Sabes? aquele insonso do Crisóstemo...
Quem?! interrompi-a eu.
Aquele que ficou a teu lado na mesa, ao almoço.
Sim, tinha ficado na mesa em que almocei com mais nove funcionários, uns já aposentados, como eu, uns velhos e outros na flor da idade. Ficara sentado do meu lado esquerdo. Coisas de acaso, ou porque tínhamos organizado as mesas pela letra do primeiro nome, e lá estavam os Carlos, dois, as Célias como eu, que éramos outras tantas, uma Cátia, um Celestino, uma Cristina, uma Celísia e uma Cinthia, brasileira. E o dito Crisóstemo.
Ana Cláudia ficara na mesa dos ás.
Estava esfusiante num vestido amarelo a dar-lhe pelo tornozelo, com um decote em bico até meio das costas. Calçava sabrinas pois, dizia ela, os saltos altos lhe faziam cãibras. Envelhecera com elegância e nem pintava o cabelo de louro ou de azeviche, como a maioria das mulheres a taparem, desgostosas, as cãs que se lhes vão espalhando; tinha o cabelo pintado num azul mate que lhe ia bem com a cor dos olhos.
Ah! esse?! balbuciei sem o menor interesse e sem dar grande atenção à lenga-lenga de Ana Cláudia. Ela queria contar-me. Dizer-me que o conhecia, ela que conhecia sempre meio mundo em cada local onde estava; que ele era um presunçoso, um convencido. E exclamava: ora o Crisóstemo que sempre teve a mania que ele é que sabe, e tu a cagar postas de pescada. Ela que nem tinha estado na nossa mesa, teria ouvido contar. Quem sabe se teria sido a Celísia que nunca tinha ido muito à bola com a minha cara. Devia ter sido ela. E a Ana Cláudia repetia-a, prosaica e a rir-se como se eu também estivesse a rir-me com ela: armaste-te e ele achou-se depreciado.
Ora bem, convencimento e vaidade, foi o que lhe vi bailar por baixo daquele sorriso de bom moço. Eu a pensar, assim, com os meus botões, mas sem memória de quem ele seria.
Tem um sorrisinho manhoso numa carinha de pacóvio, disse eu, mas Ana Cláudia nem me ouvia.
Cantava, lembras-te? dizia, embrenhada apenas no que me queria contar.
E foi quando se me fez luz.
Lembrava-me, sim senhora! se me lembrava, agora, do Crisóstemo! Tinha o cabelo aloirado e usava óculos com lentes de fundo de garrafa.
Ao tempo que isso fora!
O Crisóstemo da contabilidade que andava a tirar histórico-filosóficas.
O funcionário do primeiro piso que fazia rimas. Ele mesmo o propalava: faço versos em rima.
E cantava, sim, cantava!
Sorri-me de não me ter lembrado, antes.
Agora com cabelo grisalho, teria mudado os óculos por lentes de contacto.
Cantava, sim senhora!
Desafinado e com voz de falsete, sem alcance nem vivacidade, mas cantava.
Lembro-me, agora, dele, disse eu a rir-me de ter descoberto e Ana Cláudia sem calar-se um instante a contar que o tal Crisóstemo tinha dito barbaridades a meu respeito.
Deixei Ana Cláudia que falava, falava, e  dirigi-me ao fundo da sala onde o homem tomava  um drink no bar que improvisáramos.
Peço perdão, disse-lhe a estender-lhe a mão que ele demorou a segurar porque nem entenderia a minha aproximação.
E sorri a dizer-lhe:
Lembrei-me, só agora, dos seus versos. Ainda canta?
Foi à capella que cantou e corou quando o aplaudiram.
E disse versos, como ele mesmo apresentou: vou dizer agora uns versos que tenho escrito.
E disse.





segunda-feira, 12 de março de 2018

78 Musical - Crítica (por Lohan Lage)


         Escrito por David Massena e dirigido por Bernardo Dugin, o espetáculo “78 Musical” encerrou mais uma temporada de apresentações neste último final de semana. O palco do Teatro Municipal Laercio Rangel Ventura, em Nova Friburgo (RJ), nunca esteve tão frenético e nostálgico. O musical energizou o público com canções que marcaram a década de 70 e histórias de amor e liberdade, tendo como cenários a discoteca Overdose e o recanto hippie de Lumiar, distrito de Nova Friburgo. Cenários que, por sua vez, extrapolam a mera ambientação, enquadrando-se como quase-personagens. A discoteca ganha vida a cada coreografia, a cada movimentação dos andaimes, a cada truque com as luzes; enquanto Lumiar ganha cores e vozes que remetem à natureza, e já se apresenta até com música própria, a linda “Lumiar”, de Beto Guedes. A música e a dança são a anima de ambos os cenários e ao mesmo tempo o ponto de intersecção dos personagens que circulam por eles.


(Atores em cena)

         Dentre esses personagens, destaca-se Sofia (Dani Calazans), a jovem que anseia por saber mais sobre a vida dos pais e num passe de mágica é lançada para o passado, mais especificamente para o ano de 1978. Num clima de “De volta para o futuro” com “Grease”, o enredo desvela uma história de amor que enfrenta o moralismo hipócrita da Igreja Católica. Igreja que, sobretudo em cidades do interior, mostra as garras dogmáticas com mais radicalismo.
         Vale salientar aqui o bom humor presente no roteiro de David Massena. Ao mexer no vespeiro religioso, David não erra a mão e cutuca a onça com a vara do alívio cômico. A sátira que morde e assopra, muito bem alinhavada no roteiro, fazendo um paralelo certeiro com a força musical que imperou na década em questão.


(À esquerda, David Massena; ao lado, Bernardo Dugin)

         Destaca-se ainda a atuação do casal protagonista, Tom, um hippie de Lumiar, e Rita, uma bailarina de jazz, vividos respectivamente por Miguel Toscano e Diana Cataldo; e também de Pedro Borges, na pele de Fabinho, que encarnou um hippie com muita propriedade e apresentou um belo trabalho cênico e vocal em seu momento solo, com a canção “Balada do Louco”, do álbum “Mutantes e seus Cometas no País dos Baurets”, de 1972.
         A propósito, música boa é que não faltou. Bee Gees, Elis Regina, Raul Seixas, Village People, Gloria Gaynor... Mesmo quem não viveu a década de 1970, pôde sentir latente essa época. Surpreendentemente, o espetáculo se lança na contemporaneidade e atesta a velha máxima de que música boa é atemporal; assim como determinados temas que são abordados, como a gravidez na adolescência, a polêmica em torno do aborto e o consumo das drogas. Tudo dentro de uma atmosfera atual, com uma roupagem anos 70.
          Um último salve para a direção, que se mostrou segura, ágil; soube conduzir mais de 30 atores/cantores/bailarinos e adequar as transições de cenas e trabalhos coreográficos com extrema praticidade, reinventando-se com base na movimentação dos andaimes. A banda, que tocou ao vivo, também contribuiu bastante para o êxito dessas transições, sempre no timing certeiro.  
         Assim como prega o espetáculo, o que é bom de verdade não morre nunca. A boa história acontece e se faz perene na memória e nos corações.
E assim permanecerá o “78 Musical”: imortalizado.

Autoria: David Massena

Direção: Bernardo Dugin

Elenco: Alice Verly, Amélia Dugin, Aylla Freire, Bruno Petram, Carol Groetaers, Catarina Souza, Catharina Bucsky, Cesar Castro, Christian Knupp, Christine Valença, Cil Corrêa, Cláudio Raposo, Cyomara de Paula, Dani Calazans, Daniel Abreu, Diana Cataldo, Gauri Shankara, Gianne Bonan, Ilana Guilland, Isla Gastin, Luísa Rossi, Lucas Mury, Luiz Henrique, Maria Clara Andrade, Miguel Toscano, Nabila Trindade, Pedro Borges, Verônica Basile, Verônica Bello





segunda-feira, 5 de março de 2018

utopia



sonhei com um mundo 
onde todos tinham vez
o poder era sucinto
e a fome era viver 
as fronteiras haviam caído por terra
as diferenças não eram mais violentadas
os homens não tinham mais sobrenomes
e o medo já não servia pra nada





domingo, 25 de fevereiro de 2018

A Final Olímpica



Quando acordou, Victor Sooter percebeu que o estranho sonho da final olímpica de Matança em Massa, em que, minutos antes, estivera envolvido, fora desencadeado pela final do jogo de basquetebol entre os Estados Unidos e a Sérvia, nos Jogos Olímpicos do Rio de 2016, a que assistira, com o seu filho John de nove anos, na tarde do dia anterior. A partida tivera vários momentos de grande disputa e pai e filho tinham apoiado com saltos e urros a equipa pátria. Finalmente a América vencera. Como sempre. Com uma vantagem esmagadora: 96–66.

*

No sonho de Sooter, o vencedor da modalidade olímpica de Matança em Massa não é previsível. Há vários concorrentes com boas possibilidades, mas vão-se combatendo e eliminando uns aos outros. No fim, o Estado Islâmico sobrepõe-se a outros assassinos em massa e ascende a adversário dos Estados Unidos na final. A cada operação americana, o Estado Islâmico responde com a eliminação de mais uns quantos militantes curdos ou mais uns quantos aldeãos sírios.
Victor Sooter tem um papel importante na disputa: como na vida real, é controlador de drones de guerra. Como num jogo de vídeo, multiplica-se em disparos sobre alvos inimigos: um comboio de abastecimentos, uma reunião rebelde, o carro de um dirigente de milícias. Os marcadores de baixas rodam ininterruptamente. Os Estados Unidos estão em risco de não conseguir a medalha de ouro, como tinham conseguido facilmente em 2004 e 2008 contra o Iraque, e em 2012, contra a Líbia e a Síria.
O polegar direito de Sooter metralha continuamente, enquanto a mão esquerda coordena com grande perícia o sobrevoo do drone. As explosões no solo sucedem-se, o marcador dos Estados Unidos avança, mas o do Estado Islâmico parece descontrolado. Sooter faz um esforço — o esforço que a pátria espera —, toma o comando de vários drones ao mesmo tempo e metralha alucinadamente, acionando os botões de disparo em sucessão coordenada e eficaz. No solo, uma sequência ininterrupta de explosões indica-lhe que a sua missão patriótica está a ser bem sucedida. O contador de baixas roda vertiginosamente. A tensão é grande. Quem vencerá? Será preciso lançar outra vez a bomba atómica?

*

Horas mais tarde, na base de comando de drones, em Houston, Victor Sooter recebe ordem de pilotagem remota de um drone da base de Bagram, no Afeganistão, e ataque a uma aldeia das zonas tribais do Paquistão. A inteligência aliada tinha detetado movimentações suspeitas em área de influência rebelde. Depois de receber indicações da total operacionalidade do aparelho, confirmar o acesso a todos os comandos necessários, a qualidade das comunicações com os satélites geoestacionários e das imagens de todas as suas 16 câmaras, Sooter descolou e rumou para as coordenadas indicadas, à altitude habitual, indetetável sem aparelhagem sofisticada.
Quase hora e meia depois, sobrevoava a região montanhosa procurada, e logo o estreito planalto onde assentava a aldeia referida. Sooter confirmou, pelas imagens conjugadas, que decorria uma reunião de uma dúzia de homens adultos, dispostos em semicírculo, vestidos de claro e ostentando algo na cabeça, talvez turbantes regionais, cada um com a sua espingarda nos joelhos.
Deviam estar a preparar o ataque a uma esquadra de polícia ou a algum quartel, como habitualmente. Várias daquelas aldeias eram controladas por tribos rebeldes, responsáveis por várias ofensivas contra forças da ordem. A uma vintena de metros do grupo armado, percebia-se um ajuntamento de outros adultos e vários jovens e mulheres, vultos reconhecíveis pelas indumentárias coloridas.
Era um risco. Mesmo acertando apenas no meio do grupo armado, era possível que muitas das pessoas próximas fossem mortas ou estropiadas. De qualquer modo, não lhe competia decidir.
Meu major, foram assinalados vários civis muito perto do inimigo. Que faço?
O superior hierárquico observou as imagens, por um momento.
Esborracha essa mosquitagem toda! Quantos menos sobrarem, menos picadas depois.
Sooter posicionou o aparelho nas coordenadas adequadas e, após estabilizá-lo, movimentou lentamente o controlo do disparador. Quando o cursor se imobilizou bem a meio do grupo inimigo, fez uma verificação dos outros parâmetros e comandos. Rodou a pequena tampa do botão vermelho de disparo, destravou-o e fez o relatório final:
Tudo pronto, meu major: aparelho estabilizado, alvo enquadrado, mísseis prontos. Aguardo autorização de disparo.
Dá-lhes com tudo o que tens! — gritou o oficial.
Sooter recolheu-se por um momento. Sentiu o poder. O domínio absoluto. A vida daqueles inimigos da América completamente nas suas mãos. A certeza de ser o instrumento da justiça possível encheu-o de uma serenidade solene. Carregou no botão vermelho. A partir daquele momento, ele sabia algo terrível que os inimigos desconheciam. A morte estava a caminho e eles nem desconfiavam. Estavam mortos e não sabiam. Muitos daqueles malditos, agora tão seguros e enérgicos, daí a momentos não passariam de bocados de pasta mole e sangrenta. Não voltariam a ser empecilhos da ordem democrática que os Estados Unidos ofereciam ao mundo. Era desagradável, mas necessário; era a guerra.
Os treze segundos passavam lentamente, mas Sooter sabia o que veria dentro em pouco: os rastos instantâneos dos mísseis e logo as explosões enegrecendo a imagem. Aquele terreiro tão liso ficaria crivado de crateras. O seu olhar vagueou pelo grupo, pelo terreno, a apreciar a ilusória imagem de ordem aldeã, o passado. Pareceu-lhe reconhecer grandes letras ocidentais nos limites do terreno da reunião rebelde. Julgou ler NOT, mas as manchas do que pareciam letras confundiam-se com a restante cor do solo. Como em certos testes de daltonismo. Tentou decifrar a linha de manchas, em vão; as explosões ofuscaram a imagem de seguida.
Não pensou mais nisso. De qualquer modo, nada daquilo já interessava. Calma e eficazmente, levou o avião drone de volta à base no Afeganistão, em total segurança.
Duas horas depois, de regresso à sua vida de família, Sooter fazia a vontade ao filho e assistia ao concerto na escola em que o menino aprendia clarinete. Gostava tanto de música! Quem sabe se não seguiria essa inclinação? Viviam no país das oportunidades, onde era possível ser o que se quisesse, desde que se lutasse por isso. Era um grande país! Tinha orgulho nele.

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Uns dias antes, numa aldeia remota do Paquistão, Samir, um menino de nove anos, dirigia-se para a escola, por um caminho poeirento e ia lançando olhares apreensivos para o céu. Era um brilhante aluno da escola paquistanesa. A sua irmã, três anos mais velha, não tivera esse privilégio. Fora prometida a um amigo do pai e ia casar em breve. A boda traria à aldeia vários dias de comida, bebida e dança, ao som de uma orquestra de dutares, um instrumento de cordas tradicional. Porém, sagaz como era, o menino reconheceu o perigo na forma dos instrumentos musicais, que, de longe, podiam ser confundidos com espingardas tradicionais. Na escola, pediu ao professor que lhe ensinasse certas palavras em inglês. Assim que terminou as aulas, correu para o terreiro da festa e, em grande azáfama, iniciou a grande tarefa de juntar e dispor muitas pedras a formar uma mensagem para possíveis drones americanos: DUTARS NOT GUNS [Dutares não armas].
Dias depois, decorria a reunião festiva. A refeição fora farta e saborosa; aguardava-se que a orquestra iniciasse a música para todos dançarem. Reinava a alegria, exceto para Samir que continuava a lançar uma angustiada mensagem mental aos céus, em inglês: Read my stones [Leiam as minhas pedras]!

Joaquim Bispo

Imagem: Henri Rousseau, A Guerra, 1894.

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(Este conto integra a coletânea A Arte do Terror — edição especial — História, da Elemental Editoração, 2017.)



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