O bom de se apagar a luz
permanecer em total escuridão
-e nada se ver-
é que acende a luz da cabeça
brilham os olhos, como faróis,
aí posso voar para qualquer estrela
pois além da minha cabeça
só elas estão acesas, e o meu coração,
e voo cada vez mais alto
sou tragado pela leveza e calmaria do vento e oceano
e quando a luz torna a acender
apaga-se a luz da cabeça
e tudo volta ao normal
Assim, sem nada para ver.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
terça-feira, 10 de novembro de 2009
O Incrível Joaquim Maria
Ontem morreu Joaquim Maria. Todos os conheciam, ele dispensa apresentações, homem público, outrora amado pelos nobres, idolatrado pelo populacho.
A vida de Joaquim Maria foi recheada de dificuldades, mas ele venceu-as todas e se tornou um símbolo para nossa nação, poucos indivíduos representaram tanto o espírito de seu povo e de sua época como Joaquim Maria.
E o que o tornou tão célebre foram suas idiossincrasias. Ainda menino elas começaram a se manifestar, primeiro, de maneira discreta, mas após a tutela com o místico e sábio Roberto Alberto Norberto, Joaquim Maria aprendeu a controlar seus comportamentos e imediatamente se tornou um notável.
Seus atributos eram maravilhosos, mas o principal deles era sua capacidade de dialogar com qualquer indivíduo do planeta, sobre qualquer assunto. Se se encontrava com uma criança, Joaquim Maria parecia retroceder em anos, falava, gesticulava e até brincava como se criança fosse; mas se o interlocutor fosse um homem de ciência, ou um matemático, ou um engenheiro naval, Joaquim Maria falava sobre tais assuntos com propriedade, como se possuísse o mesmo conhecimento, como se houvesse cursado todas as faculdades e lido todos os livros de tais matérias.
Se conversava com uma mulher, Joaquim Maria afinava a voz, quebrava o pulso e fofocava sobre a vizinhança; se fosse com um mendigo, em pouco tempo também começava a esmolar, se fosse um capitalista, logo recitava de cor as cotações das ações e quais eram os melhores investimentos.
Certa vez, ao debater com um astrônomo, Joaquim Maria descobriu um novo planeta; outra, discutindo com um filósofo, Joaquim Maria provou a existência de Deus; escreveu três livros após ter se encontrado com autores renomados, duas óperas ao se reunir com compositores e pintou, durante uma sessão particular com o artista da corte, um dos quadros mais visitados da Galeria Real.
Podia manusear qualquer arma de fogo se na presença de militares, dançava como um profissional se dançarinos o cercassem. O mais impressionante, contudo, era o incompreensível dom de falar os idiomas dos interlocutores: russo ao conversar com um russo, ou alemão com um alemão, ou polonês com um polaco, ou hebraico com um judeu.
Existiam boatos de que até o comportamento de animais Joaquim Maria era capaz de reproduzir e testemunhas garantem que ele já havia atacado um carteiro na companhia de cães e que, outra vez, durante a visita ao zoológico, a polícia teve grandes dificuldades para retirá-lo dos galhos duma árvore ao lado da jaula dos macacos.
Os sábios do reino então se propuseram uma missão: descobrir o verdadeiro Eu de Joaquim Maria. Isolaram-no completamente numa sala espelhada e o observaram por semanas. No entanto, Joaquim Maria não esboçava nenhum tipo de comportamento, apenas permanecia sentado, olhando seu próprio reflexo. Mas num dia, subitamente, ele pulou da cadeira e começou a abanar os braços e a correr, em ziguezague, pela sala. Foi quando constataram que uma mosca havia se infiltrado no cômodo.
Mas ninguém imaginou que um dom tão extraordinário seria a causa da própria desgraça de Joaquim Maria. Sem nenhuma explicação, inadvertidamente, Joaquim Maria se tornou uma pessoa normal, como outra qualquer.
Quer dizer, mais ou menos...
Durante todos os anos em que Joaquim Maria não passou dum replicante, de algum modo inexplicável, ele também havia tido acesso a todos os pensamentos mais secretos das pessoas com as quais havia conversado. Joaquim Maria sabia de tudo, desde os detalhes mais sórdidos até as conjeturas mais intrincadas.
Joaquim Maria decidiu que tanto conhecimento deveria ser compartilhado e, num intervalo de três meses, escreveu um livro expondo tudo isto. Mas Joaquim Maria, agora repersonificado, era um crítico inclemente da sociedade, talvez o mais satírico de todos os tempos, um comediógrafo arguto e cruel da vida real.
Em seu livro, ele difamava desde o Imperador até a prostituta, do general ao bobo da corte. Contava tudo, sem censura, sem dó, nem piedade.
É óbvio que Joaquim Maria criou inimigos poderosos e tudo que se falava à boca pequena era que o queriam morto.
Então, ontem à noite, encontraram-no enforcado em seu gabinete.
O comissário da polícia afirmou que não investigará o crime, pois Joaquim Maria havia contado no livro sobre o caso extraconjugal que ele mantinha com um estivador; o Imperador se recusou a comentar o crime; não havia testemunhas; ninguém, a não ser eu, velho amigo de Joaquim Maria, compareceu ao sepultamento deste gênio de nossa época.
Escrevo este relato para que a memória dele não se apague, e cito o primeiro parágrafo da obra que tornou Joaquim Maria o inimigo público número um, após ter sido o maior expoente do país:
Contar mentiras é perigoso,
Mas falar a verdade pode ser fatal.
A vida de Joaquim Maria foi recheada de dificuldades, mas ele venceu-as todas e se tornou um símbolo para nossa nação, poucos indivíduos representaram tanto o espírito de seu povo e de sua época como Joaquim Maria.
E o que o tornou tão célebre foram suas idiossincrasias. Ainda menino elas começaram a se manifestar, primeiro, de maneira discreta, mas após a tutela com o místico e sábio Roberto Alberto Norberto, Joaquim Maria aprendeu a controlar seus comportamentos e imediatamente se tornou um notável.
Seus atributos eram maravilhosos, mas o principal deles era sua capacidade de dialogar com qualquer indivíduo do planeta, sobre qualquer assunto. Se se encontrava com uma criança, Joaquim Maria parecia retroceder em anos, falava, gesticulava e até brincava como se criança fosse; mas se o interlocutor fosse um homem de ciência, ou um matemático, ou um engenheiro naval, Joaquim Maria falava sobre tais assuntos com propriedade, como se possuísse o mesmo conhecimento, como se houvesse cursado todas as faculdades e lido todos os livros de tais matérias.
Se conversava com uma mulher, Joaquim Maria afinava a voz, quebrava o pulso e fofocava sobre a vizinhança; se fosse com um mendigo, em pouco tempo também começava a esmolar, se fosse um capitalista, logo recitava de cor as cotações das ações e quais eram os melhores investimentos.
Certa vez, ao debater com um astrônomo, Joaquim Maria descobriu um novo planeta; outra, discutindo com um filósofo, Joaquim Maria provou a existência de Deus; escreveu três livros após ter se encontrado com autores renomados, duas óperas ao se reunir com compositores e pintou, durante uma sessão particular com o artista da corte, um dos quadros mais visitados da Galeria Real.
Podia manusear qualquer arma de fogo se na presença de militares, dançava como um profissional se dançarinos o cercassem. O mais impressionante, contudo, era o incompreensível dom de falar os idiomas dos interlocutores: russo ao conversar com um russo, ou alemão com um alemão, ou polonês com um polaco, ou hebraico com um judeu.
Existiam boatos de que até o comportamento de animais Joaquim Maria era capaz de reproduzir e testemunhas garantem que ele já havia atacado um carteiro na companhia de cães e que, outra vez, durante a visita ao zoológico, a polícia teve grandes dificuldades para retirá-lo dos galhos duma árvore ao lado da jaula dos macacos.
Os sábios do reino então se propuseram uma missão: descobrir o verdadeiro Eu de Joaquim Maria. Isolaram-no completamente numa sala espelhada e o observaram por semanas. No entanto, Joaquim Maria não esboçava nenhum tipo de comportamento, apenas permanecia sentado, olhando seu próprio reflexo. Mas num dia, subitamente, ele pulou da cadeira e começou a abanar os braços e a correr, em ziguezague, pela sala. Foi quando constataram que uma mosca havia se infiltrado no cômodo.
Mas ninguém imaginou que um dom tão extraordinário seria a causa da própria desgraça de Joaquim Maria. Sem nenhuma explicação, inadvertidamente, Joaquim Maria se tornou uma pessoa normal, como outra qualquer.
Quer dizer, mais ou menos...
Durante todos os anos em que Joaquim Maria não passou dum replicante, de algum modo inexplicável, ele também havia tido acesso a todos os pensamentos mais secretos das pessoas com as quais havia conversado. Joaquim Maria sabia de tudo, desde os detalhes mais sórdidos até as conjeturas mais intrincadas.
Joaquim Maria decidiu que tanto conhecimento deveria ser compartilhado e, num intervalo de três meses, escreveu um livro expondo tudo isto. Mas Joaquim Maria, agora repersonificado, era um crítico inclemente da sociedade, talvez o mais satírico de todos os tempos, um comediógrafo arguto e cruel da vida real.
Em seu livro, ele difamava desde o Imperador até a prostituta, do general ao bobo da corte. Contava tudo, sem censura, sem dó, nem piedade.
É óbvio que Joaquim Maria criou inimigos poderosos e tudo que se falava à boca pequena era que o queriam morto.
Então, ontem à noite, encontraram-no enforcado em seu gabinete.
O comissário da polícia afirmou que não investigará o crime, pois Joaquim Maria havia contado no livro sobre o caso extraconjugal que ele mantinha com um estivador; o Imperador se recusou a comentar o crime; não havia testemunhas; ninguém, a não ser eu, velho amigo de Joaquim Maria, compareceu ao sepultamento deste gênio de nossa época.
Escrevo este relato para que a memória dele não se apague, e cito o primeiro parágrafo da obra que tornou Joaquim Maria o inimigo público número um, após ter sido o maior expoente do país:
Contar mentiras é perigoso,
Mas falar a verdade pode ser fatal.
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o incrível joaquim maria
domingo, 8 de novembro de 2009
Laboratório Poético: indrisos
[córrego por onde escorre o tempo]
córrego por onde escorre o tempo
sentença tornada gelo
lago vazio de perguntas
só um dique, ora seco, ora raso
ora transbordando
comportaria essas águas todas
essas correntes às vezes caudalosas
não raro somem sem razão nenhuma
______________________________
[um barco deixou aqui uma caixa]
um barco deixou aqui uma caixa
depois, deixou o barco o porto
deixou, pois, p'ra trás, o horizonte
choveu, e a chuva manchou a caixa
deixei os nomes e a tinta irem p'ra junto d'água
não vi para quem era, nem de que se tratava
ventou e o vento trouxe o barco de volta
deixei o chão, o porto, a caixa, a tinta, e fui embora
__________________________
córrego por onde escorre o tempo
sentença tornada gelo
lago vazio de perguntas
só um dique, ora seco, ora raso
ora transbordando
comportaria essas águas todas
essas correntes às vezes caudalosas
não raro somem sem razão nenhuma
______________________________
[um barco deixou aqui uma caixa]
um barco deixou aqui uma caixa
depois, deixou o barco o porto
deixou, pois, p'ra trás, o horizonte
choveu, e a chuva manchou a caixa
deixei os nomes e a tinta irem p'ra junto d'água
não vi para quem era, nem de que se tratava
ventou e o vento trouxe o barco de volta
deixei o chão, o porto, a caixa, a tinta, e fui embora
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laboratório poético,
V.,
Volmar Camargo Junior
A dança dos imortais
Volmar Camargo Junior
Um crime aconteceu numa cidade provinciana. Os policiais responsáveis pelo caso, Inspetor Magalhães e Inspetor Barbosa, estavam na delegacia, fazendo plantão como sempre. Tentavam deduzir algo a partir dos poucos fatos que tinham. Coçando a garganta, o policial Magalhães preparou-se para reler o primeiro boletim de ocorrência, lavrado por ele próprio na noite do crime.
— Recapitulando: “Orlando Nogueira, o Orlandinho assistia ao seu programa de televisão favorito quando ouviu à campainha soar das vezes – o segundo toque mais longo que o primeiro. Reconheceu o código, embora houvesse muitos dias que o autor, digo, a autora, não comparecia à sua casa. Assim que destrancou a porta, a amiga, Mighellina Fonseca de Alcântara e Silva, adentrou muito aflita no apartamento. Assim que entrou, disse estas exatas palavras: “Eles... querem... me... cal... argh!” Só então Orlando percebeu que Mighellina tinha as mãos, as costas da jaqueta de couro e o lado esquerdo do pescoço manchados de vermelho vivo. Sem aviso prévio, desfaleceu com os olhos vidrados. Estava morta.”
— Mas que bela porcaria, Magal! Precisava desse drama todo? A delegada vai te encher o saco. Bom, continua teu raciocínio.
— Obrigado. A moça não tinha inimigos, não era dada a hábitos escusos, “Um doce!”, disse o tal Orlando. Também não fazia nada de extraordinário. Era uma pobre moça rica, que gostava de romances de terror e que até se arriscava ela mesma a escrever alguns.
— Mas isso tem alguma importância? – perguntou o Barbosa.
— Ora, tem toda – respondeu o Magalhães - Essa moça apareceu moribunda no apartamento do amigo, e disse esta frase “Eles... querem... me... cal... argh!”. Alguém queria calá-la.
— E como concluiu que alguém queria calá-la? Ela só disse “cal...”. Talvez fosse dessas piadinhas em inglês... “They want to me telefonar”. Sabe aquela: What is um pontinho amarelo vendo a esposa transando com o amante? Um Corn-o-manso!
— Puxa, Barbosinha... Às vezes eu tenho vontade de anotar o que você diz.
— Agora está sendo cínico... Então ela era escritora. E daí?
— Sim. Escrevia muito bem, a propósito.
— Conseguiu algum livro dela?
— É lógico. Quer dizer, talvez não seja bem o que você está esperando.
— Por quê?
— Ela era defensora da publicação on-line. Tinha uma ONG e tudo, um lance muito esquisito: “Biblioterrorimo”. Os seus livros estão disponíveis na internet, de graça. O último tá aqui nesse site.
— Bah! Caso solucionado: quem mandou matá-la foi alguém grande do mercado editorial!
— Acho que não é tão simples assim, Barbosa. Dá uma lida nisso aqui. – disse, Magalhães, levantando-se de seu birô, apontando com a mão espalmada para o monitor do PC. – Enquanto isso, vou fazer um café. Tá a fim?
— Chá verde, para mim. Café tem me dado uma azia...
— Ok! Chá verde para o Inspetor Barbie, que está de dieta. Veadinho...
— “Barbie” é a @#$%¨&* que te pariu!
Enquanto Magalhães foi até a cozinha da delegacia, Barbosa acessou o link. Havia uma lista de quase trinta romances de autoria da tal moça, o que o deixou embasbacado. Escolheu o mais recente, intitulado “A Dança dos Imortais”. Conhecido por suas técnicas de leitura dinâmica, quase sem piscar, Barbosa leu ininterruptamente três capítulos do romance. Tinha um estilo notável, muito claro e, ao mesmo tempo, dotado de uma impecável correção gramatical. O romance de trezentas e treze páginas digitalizadas tinha por enredo a vida de um vampiro carioca, ambientada no que hoje é o centro velho do Rio de Janeiro, em finais do século XIX. Foi então que, como diz o ditado balzaquiano, a ficha caiu para o policial. No teclado, pressionou simultaneamente as teclas CTRL+L, e no campo localizar escreveu
“Eles querem me calar”
— Magal – gritou o Barbosa ao colega quando este trazia as duas xícaras fumegantes – Você leu o último romance da dita cuja?
— Qual? O do índio guarani que seqüestrou, torturou, matou e esquartejou o José de Alencar?
— Não, esse é o penúltimo. Estou falando deste aqui, o do vampiro.
— Esse não estava aí. – disse Inspetor Magalhães, pulando curioso diante do monitor, com os olhos arregalados. — Eu tenho certeza, olhei a página na mesma noite do crime... Eu até dei uma lida, e me admirei: a guria sabia escrever.
— Ah, é? E como ela deixou passar isso aqui?
O policial Barbosa selecionou o seguinte trecho:
(...) então, como uma tempestade, os homens vestido de preto começaram a atirarem contra a criatura, que ficou encurralado. Erguendo o punho serrado em direção ao holofote forte que queimava seu rosto com a luz intensa, o ser monstruoso proferiu a plenos pulmões, com um tom de voz gutural, demoníaco:
— Eles querem me calar! Mas eu sobreviverei! Mesmo que eu seje silenciado como da vez passada, minha obra ainda deixará a marca dela! Minha obra revelará a verdade sobre os Imortais.
E tendo dito estas palavras, uma nova e longa saraivada de tiros de metralhadora abafaram a gargalhada horrenda da monstruosa criatura meia homem, meia morcego. (...)
— E então, o que você acha?
— Eu acho que esse trecho precisa ser reescrito com urgência... onde já se viu? “Vez passada”, “marca dela”! Nem eu escrevo tão mal!
— Não estou falando disso – apesar de você ter razão. Você não acha muita coincidência que a mulher tenha morrido como uma vítima de...
— De um vampiro? Tá doido? Que tipo de policial você é, Barbosa?
— Do tipo que entende alguma coisa de literatura.
— Pronto. Falou o especialista.
— Acompanha comigo: pelo que eu li desse romance, o personagem principal é um certo Joaquim Maria, mulato, filho ilegítimo de uma escrava negra e um comerciante carioca que conheceu uma cigana espanhola chamada Capitu. Essa cigana, na verdade, era uma vampira, que o seduziu usando seus encantos, transformando-o também num vampiro. No terceiro capítulo, o tal Joaquim Maria tornou-se um escritor famoso. Não pude resistir, e pulei direto para o último capítulo, onde encontrei a frase que a Mighellina falou: o Joaquim Maria criou uma sociedade de vampiros-escritores que, na verdade, governam toda a indústria cultural no Brasil: os Imortais. Ele, o fundador, é considerado o maior escritor de todos os tempos; e não é para menos: seu talento é devido a ele ser um vampiro, e os outros todos, para se tornarem “Imortais” da tal sociedade secreta, precisam ser transformados também. Não que todos tenham talento... No fim das contas, o Joaquim percebeu o quanto seus lacaios se tornaram escrotos, e se arrependeu. Por isso é que ele decide contar toda a verdade para o mundo, dando uma entrevista a uma jovem escritora que abomina as práticas mercadológicas dos Vampiros de Fardão. Mas, antes que ele concedesse tal entrevista, os paus-mandados dos sanguessugas o encontram, o perseguem e, por fim, acontece aquela cena que eu não terminei de ler porque tu chegou com o meu chá. Ufa!
— Barbosa... essa é a história mais ridícula que eu já ouvi. Eu achei que a tal Mighellina fosse uma baita escritora. Rapaz, até a minha filha de doze anos tem idéia melhor pras aventuras de RPG dela.
— Magal! Magal! Presta atenção, meu filho! Essa moça, a tal defunta, é um embuste! Ela é uma “laranja intelectual”. Você não viu o jeito que ela escreve? É um horror! Ela até tem as idéias, mas quem escreve os romances dela de verdade é outra pessoa.
— Mas quem?
Então, ouviu-se um barulho metálico, uma forte pancada vinda detrás da porta que levava à sala do Instituto Médico Legal, contíguo à delegacia. E de novo. E de novo. E na quarta vez, a porta de aço voou contra a parede oposta. Todas as luzes da delegacia apagaram-se. Um guincho medonho foi ouvido em todo o quarteirão onde ficava a delegacia.
No dia seguinte, a faxineira desmaiou diante da porta da sala onde trabalhavam os inspetores Magalhães e Barbosa. Havia apenas restos de corpos humanos, papéis em desordem, o monitor do PC esmigalhado e, por todas as paredes, forro, cortinas, birôs, arquivos, cadeiras, soalho, o que restou do sangue dos dois homens.
A gaveta aonde, até o início da noite anterior, estava o cadáver etiquetado como sendo de Mighellina Fonseca de Alcântara e Silva, foi encontrada vazia. Ao seu redor, havia marcas de pegadas, como se fossem de um enorme animal bípede, que o rapaz da perícia, formado em biologia, alegou serem muito parecidas com as de um morcego.
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Um crime aconteceu numa cidade provinciana. Os policiais responsáveis pelo caso, Inspetor Magalhães e Inspetor Barbosa, estavam na delegacia, fazendo plantão como sempre. Tentavam deduzir algo a partir dos poucos fatos que tinham. Coçando a garganta, o policial Magalhães preparou-se para reler o primeiro boletim de ocorrência, lavrado por ele próprio na noite do crime.
— Recapitulando: “Orlando Nogueira, o Orlandinho assistia ao seu programa de televisão favorito quando ouviu à campainha soar das vezes – o segundo toque mais longo que o primeiro. Reconheceu o código, embora houvesse muitos dias que o autor, digo, a autora, não comparecia à sua casa. Assim que destrancou a porta, a amiga, Mighellina Fonseca de Alcântara e Silva, adentrou muito aflita no apartamento. Assim que entrou, disse estas exatas palavras: “Eles... querem... me... cal... argh!” Só então Orlando percebeu que Mighellina tinha as mãos, as costas da jaqueta de couro e o lado esquerdo do pescoço manchados de vermelho vivo. Sem aviso prévio, desfaleceu com os olhos vidrados. Estava morta.”
— Mas que bela porcaria, Magal! Precisava desse drama todo? A delegada vai te encher o saco. Bom, continua teu raciocínio.
— Obrigado. A moça não tinha inimigos, não era dada a hábitos escusos, “Um doce!”, disse o tal Orlando. Também não fazia nada de extraordinário. Era uma pobre moça rica, que gostava de romances de terror e que até se arriscava ela mesma a escrever alguns.
— Mas isso tem alguma importância? – perguntou o Barbosa.
— Ora, tem toda – respondeu o Magalhães - Essa moça apareceu moribunda no apartamento do amigo, e disse esta frase “Eles... querem... me... cal... argh!”. Alguém queria calá-la.
— E como concluiu que alguém queria calá-la? Ela só disse “cal...”. Talvez fosse dessas piadinhas em inglês... “They want to me telefonar”. Sabe aquela: What is um pontinho amarelo vendo a esposa transando com o amante? Um Corn-o-manso!
— Puxa, Barbosinha... Às vezes eu tenho vontade de anotar o que você diz.
— Agora está sendo cínico... Então ela era escritora. E daí?
— Sim. Escrevia muito bem, a propósito.
— Conseguiu algum livro dela?
— É lógico. Quer dizer, talvez não seja bem o que você está esperando.
— Por quê?
— Ela era defensora da publicação on-line. Tinha uma ONG e tudo, um lance muito esquisito: “Biblioterrorimo”. Os seus livros estão disponíveis na internet, de graça. O último tá aqui nesse site.
— Bah! Caso solucionado: quem mandou matá-la foi alguém grande do mercado editorial!
— Acho que não é tão simples assim, Barbosa. Dá uma lida nisso aqui. – disse, Magalhães, levantando-se de seu birô, apontando com a mão espalmada para o monitor do PC. – Enquanto isso, vou fazer um café. Tá a fim?
— Chá verde, para mim. Café tem me dado uma azia...
— Ok! Chá verde para o Inspetor Barbie, que está de dieta. Veadinho...
— “Barbie” é a @#$%¨&* que te pariu!
Enquanto Magalhães foi até a cozinha da delegacia, Barbosa acessou o link. Havia uma lista de quase trinta romances de autoria da tal moça, o que o deixou embasbacado. Escolheu o mais recente, intitulado “A Dança dos Imortais”. Conhecido por suas técnicas de leitura dinâmica, quase sem piscar, Barbosa leu ininterruptamente três capítulos do romance. Tinha um estilo notável, muito claro e, ao mesmo tempo, dotado de uma impecável correção gramatical. O romance de trezentas e treze páginas digitalizadas tinha por enredo a vida de um vampiro carioca, ambientada no que hoje é o centro velho do Rio de Janeiro, em finais do século XIX. Foi então que, como diz o ditado balzaquiano, a ficha caiu para o policial. No teclado, pressionou simultaneamente as teclas CTRL+L, e no campo localizar escreveu
“Eles querem me calar”
— Magal – gritou o Barbosa ao colega quando este trazia as duas xícaras fumegantes – Você leu o último romance da dita cuja?
— Qual? O do índio guarani que seqüestrou, torturou, matou e esquartejou o José de Alencar?
— Não, esse é o penúltimo. Estou falando deste aqui, o do vampiro.
— Esse não estava aí. – disse Inspetor Magalhães, pulando curioso diante do monitor, com os olhos arregalados. — Eu tenho certeza, olhei a página na mesma noite do crime... Eu até dei uma lida, e me admirei: a guria sabia escrever.
— Ah, é? E como ela deixou passar isso aqui?
O policial Barbosa selecionou o seguinte trecho:
(...) então, como uma tempestade, os homens vestido de preto começaram a atirarem contra a criatura, que ficou encurralado. Erguendo o punho serrado em direção ao holofote forte que queimava seu rosto com a luz intensa, o ser monstruoso proferiu a plenos pulmões, com um tom de voz gutural, demoníaco:
— Eles querem me calar! Mas eu sobreviverei! Mesmo que eu seje silenciado como da vez passada, minha obra ainda deixará a marca dela! Minha obra revelará a verdade sobre os Imortais.
E tendo dito estas palavras, uma nova e longa saraivada de tiros de metralhadora abafaram a gargalhada horrenda da monstruosa criatura meia homem, meia morcego. (...)
— E então, o que você acha?
— Eu acho que esse trecho precisa ser reescrito com urgência... onde já se viu? “Vez passada”, “marca dela”! Nem eu escrevo tão mal!
— Não estou falando disso – apesar de você ter razão. Você não acha muita coincidência que a mulher tenha morrido como uma vítima de...
— De um vampiro? Tá doido? Que tipo de policial você é, Barbosa?
— Do tipo que entende alguma coisa de literatura.
— Pronto. Falou o especialista.
— Acompanha comigo: pelo que eu li desse romance, o personagem principal é um certo Joaquim Maria, mulato, filho ilegítimo de uma escrava negra e um comerciante carioca que conheceu uma cigana espanhola chamada Capitu. Essa cigana, na verdade, era uma vampira, que o seduziu usando seus encantos, transformando-o também num vampiro. No terceiro capítulo, o tal Joaquim Maria tornou-se um escritor famoso. Não pude resistir, e pulei direto para o último capítulo, onde encontrei a frase que a Mighellina falou: o Joaquim Maria criou uma sociedade de vampiros-escritores que, na verdade, governam toda a indústria cultural no Brasil: os Imortais. Ele, o fundador, é considerado o maior escritor de todos os tempos; e não é para menos: seu talento é devido a ele ser um vampiro, e os outros todos, para se tornarem “Imortais” da tal sociedade secreta, precisam ser transformados também. Não que todos tenham talento... No fim das contas, o Joaquim percebeu o quanto seus lacaios se tornaram escrotos, e se arrependeu. Por isso é que ele decide contar toda a verdade para o mundo, dando uma entrevista a uma jovem escritora que abomina as práticas mercadológicas dos Vampiros de Fardão. Mas, antes que ele concedesse tal entrevista, os paus-mandados dos sanguessugas o encontram, o perseguem e, por fim, acontece aquela cena que eu não terminei de ler porque tu chegou com o meu chá. Ufa!
— Barbosa... essa é a história mais ridícula que eu já ouvi. Eu achei que a tal Mighellina fosse uma baita escritora. Rapaz, até a minha filha de doze anos tem idéia melhor pras aventuras de RPG dela.
— Magal! Magal! Presta atenção, meu filho! Essa moça, a tal defunta, é um embuste! Ela é uma “laranja intelectual”. Você não viu o jeito que ela escreve? É um horror! Ela até tem as idéias, mas quem escreve os romances dela de verdade é outra pessoa.
— Mas quem?
Então, ouviu-se um barulho metálico, uma forte pancada vinda detrás da porta que levava à sala do Instituto Médico Legal, contíguo à delegacia. E de novo. E de novo. E na quarta vez, a porta de aço voou contra a parede oposta. Todas as luzes da delegacia apagaram-se. Um guincho medonho foi ouvido em todo o quarteirão onde ficava a delegacia.
No dia seguinte, a faxineira desmaiou diante da porta da sala onde trabalhavam os inspetores Magalhães e Barbosa. Havia apenas restos de corpos humanos, papéis em desordem, o monitor do PC esmigalhado e, por todas as paredes, forro, cortinas, birôs, arquivos, cadeiras, soalho, o que restou do sangue dos dois homens.
A gaveta aonde, até o início da noite anterior, estava o cadáver etiquetado como sendo de Mighellina Fonseca de Alcântara e Silva, foi encontrada vazia. Ao seu redor, havia marcas de pegadas, como se fossem de um enorme animal bípede, que o rapaz da perícia, formado em biologia, alegou serem muito parecidas com as de um morcego.
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Volmar Camargo Junior
sábado, 7 de novembro de 2009
Poesia: Contra o Muro
por Ju Blasina*
Os muros são tantosObstáculos intransponíveis
A dividir a estrada
E nós — Tão poucos
Impedidos de proferir
Impelidos a prosseguir
A alta escalada
Apta a transcender
Esta plástica realidade
Ah, se nós fôssemos tantos
Quanto são os sonhos que ousamos ter (?)
Ah, se fôssemos tão fortes
Quanto é o medo que nos faz oprimir (?)
Que nos tenta abater
Ah, se fôssemos mais altos
Que os obstáculos
Que nos levam a cair
Não haveria muro
Capaz de suportar
Tamanha vontade
E a realidade (?)
Seria nova
Seria nossa (?)
Seria nada
*Nota da autora: poesia inspirada nos 20 anos da queda do muro de Berlim, completos em 09/11/09.
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Morte & Espelhos
por Ju Blasina
Ilustração: Jairo Tx
Mais um feliz dia de trabalho para o Dr. Shoji. Ele chega pontualmente às 07h04min — nem um minuto a mais nem um minuto a menos — ao seu distinto consultório, num dentre os tantos arranhacéus no centro de Tóquio; 49º andar.
— Ohayou, Menial San!
— Ohayou, Dr. Shoji, como vai a família?
— Bem, muito bem, eu diria. Agradeço por perguntar.
Seu inglês era absurdamente perfeito para um japonês e ele se orgulhava disso. Teve a melhor educação que o dinheiro e a disciplina podem fornecer, viajou o mundo e ao abrir seu consultório em Tóquio, fez questão de uma secretária americana — e poliglota! — para que assim atendesse melhor a todo e qualquer paciente, afinal "a insanidade não escolhe descendência" já dizia um provérbio de sua própria autoria.
— A senhorita poderia, por obséquio, levar uma xícara de chá até a minha sala, dentro de 4 minutos?
— Pois não, doutor. Chá verde, sem açúcar e 4 biscoitos para acompanhar?
— Sim, minha jovem, seria de meu agrado.
Era assim, todo santo dia, nem mesmo uma vírgula mudara de lugar — muito menos o chá — ainda assim, conferir as preferências quanto ao chá e o número de biscoitos era algo imprescindível para o bom relacionamento profissional, que já durava 4 anos!
Não tão pontual foi a chegada do primeiro paciente, Hiroito Okashi — primeira consulta. Aliás, como todo e qualquer paciente do Dr. Shoji: uma única consulta era suficiente para curar qualquer perturbação, conforme garante sua propaganda — rodapé de 4X4 cm, publicada a cada 4 dias, em quatro idiomas, logo abaixo do obituário:
"Para que o seu nome não esteja aqui amanhã, o meu está hoje: DR. KAGAMI SHOJI"
Sua secretária tomara boas lições de marketing e, segundo ela, o obituário é sem dúvida o melhor lugar para angariar os D’s (deprimidos e/ou desesperados).
Sr. Okashi procurava cupons de desconto para guloseimas quando, por acidente recortara o rodapé do Dr. Shoji e por pura gula ali estava — atrasado e esbaforido. O elevador teimava em parar sempre no andar inferior, e subir um lance de escada não foi nada agradável para o homem de 130 Kg.
Sr. Okashi não só estava atrasado e esbaforido, como também ensopado de suor! Ele se apóia na parede e entrega o cupom suado e amassado à secretária, que sorri gentilmente e pelo telefone anuncia ao doutor a chegada do paciente, sem citar o nome — seu serviço preza pelo absoluto sigilo!
O homem, sem entender "que raios de lugar é esse" e torcendo para que ao menos o brinde valesse o sacrifício da escadaria é então conduzido ao divã. Confuso e atônito, ele apenas senta naquele "banquinho confortável", enquanto o doutor faz o seu trabalho.
Exatos 40 minutos depois o homem deixa o consultório — calmo e bem disposto. Na saída esvazia os bolsos na lixeira da secretária, que com o mesmo sorriso automático, olha e pensa "como pode caber praticamente uma confeitaria inteira no bolso de um homem?" (...minutos de neurônios em sacrifício...) e a resposta: "é claro: é um bolso grande!"
Cerca de 90 minutos depois chega o próximo paciente – homem carrancudo, cara de poucos amigos, ombros tensos, olhar ameaçador — "um americano típico", pensa a Srta. Menial e sem ousa dirigir-lhe a palavra, apenas sorri e mais do que rapidamente o conduz ao consultório principal, onde o doutor já o aguarda. Alguns berros, barulhos e minutos depois (40, lógico), o homem sai do consultório. Sorri e agradece, apresentando-se e beijando a mão da secretária que, perplexa, jura ter ouvido o, agora gentil cavalheiro, Sr. Hardman cantarolar alguma coisa enquanto seguia pelo corredor, escada abaixo.
Pontualmente, às 13 horas chega ela: mulher bonita, cabelos e olhos extremamente negros. Apesar do ar suave e sorridente, há algo muito assustador naquela mulher e não é apenas a grande borboleta tatuada em preto cobrindo-lhe o rosto. "Coisas assim são comuns por aqui. Deve ser maquiagem, só pode!", pensa a secretária, enquanto a paciente caminha serelepe e entra direto no consultório, sem bater à porta e nem mesmo esperar ser anunciada!
Consulta muito breve, menos de 15 minutos e ela sai, com a mesma graça assustadora com a qual entrou.
Dr. Shoji dá por encerrado o expediente. Algumas pessoas orgulham-se de ter um relógio biológico apurado – ele poderia se gabar por sua agenda de consultas mental; apesar de não trabalhar com hora marcada, inexplicavelmente sempre sabe quantos, quando e quais pacientes atenderá por dia. O que torna a secretária tão obsoleta quanto um porta guarda-chuvas no verão, porém, além de imprescindíveis em um consultório respeitável, ambos são belos objetos decorativos – sobretudo a Srta. Menial!
— Oh, como eu nunca havia reparado em tamanha formosura... a palavra gostosa lhe é bem apropriada! - São tantos os adjetivos que lhe vêm a mente, tantos os atrativos que lhe pulam aos olhos, hormônios circulando em abundância e respostas fisiológicas previsíveis, que o Doutor nem mesmo percebe a atitude gerada. Se vê surpreendido... Ainda mais surpresa fica a Srta. Menial:
Ela se assusta com a brutalidade com a qual ele a toma, grita conforme seu cabelo é puxado e geme quando seu corpo é jogado violentamente sobre a mesa. Teme, reage brevemente, mas não desgosta... e como boa e servil secretária, logo reconhece o ato como algo "imprescindível para o bom relacionamento profissional, que já durara... Quantos anos mesmo?"
Após esta pequena recreação, Dr. Shoji alinha o paletó, pega a valise, despede-se cordialmente da tão gentil secretária e segue, tranqüilo e sereno, até sua residência, onde é esperado para o almoço familiar. Entra na impecável casa, beija a impecável esposa — respeitosamente, na testa — e passa a mão na cabeça de seus dois impecáveis filhos, já sentados à mesa.
A refeição cheira muito bem e tem uma aparência espetacular, porém não lhe apetece; nada ali lhe apetece, e ao contrário da comida, o cheiro e a aparência de sua esposa lhe são repugnantes. E mais uma vez ele é tomado por um impulso febril, incontrolável e violentamente esmurra a esposa na cara. A força é tamanha que a arremessa ao chão.
Abatido o primeiro obstáculo, ele olha em volta, ansioso à procura da próxima vítima. O filho corre para o quarto enquanto a pequena esconde-se debaixo da mesa. O que lhe traz um grande alívio:
— Ah, nada como filhos bem treinados! Filhos e cachorros! Que maravilha! - E dizendo isto se levanta e vai até a geladeira em busca de uma refeição decente.
— Hm, sorvete! Querida, onde guardamos os biscoitos? Ah, sua estabanada, o que faz no chão? Vamos, deixe-me levantá-la, assim, pronto! Você está tão... Abatida, deveria retocar a maquiagem, como faz a Srta. Menial! E você menina, isso são horas pra brincadeiras? Saia já debaixo da mesa! Crianças...
Ele se senta confortavelmente em sua poltrona favorita e saboreia a agradável e deliciosa refeição de sorvetes, biscoitos e confeitos coloridos!
— Ah, que belo dia de trabalho! Quanta satisfação!
Ao terminar a refeição sente um enorme vazio — que certamente não vem do estômago. É o tipo de vazio que um artista sente quando percebe sua obra incompleta. Isto o inquieta.
Ele percorre os cômodos da casa, procurando por "sabe-se lá o que". Confere atentamente sua agenda mental e de repente percebe o que esquecera: "Obrigações profissionais, claro!"
Ele sorri e caminha até o banheiro; abre o armário e de lá tira uma caixa de madeira relativamente antiga que ele nem lembrava possuir, mas soube exatamente onde encontrar. Abre a caixa, confere o conteúdo e sorri novamente, satisfeito por estar intacto. Olha-se no espelho e diz para si mesmo:
— Só mais este trabalho e meu dia estará completo!
Recorda do que lhe dissera a última paciente (sigilo profissional). Olha-se ao espelho, sorri e...
...40 segundos depois... Pronto: missão cumprida!
O filho ouve o tiro, a filha encontra o corpo, a mulher limpa o sangue: Chão, parede, teto e espelho.
E a secretária cuida dos detalhes:
— Alô, é do jornal? Sim? Olá, aqui é a Srta. Menial, eu gostaria de modificar o anúncio do Dr. Shoji – não, não, a página está ótima! Isto, obituário mesmo, só precisamos de uma leve alteração no texto, assim:
"Para que o seu nome não esteja aqui amanhã, o meu está hoje
– DR. KAGAMI SHOJI - amado pai e esposo"
— Sim, é só isso. Arigatou gozaimasu.
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Desejo e castidade
Passo os dedos em tua boca
e abro-a – entreabro,
como se pudesse te fazer pedir.
Passas os dedos em meus olhos
e fecha-os como a um cadáver querido
mas não podes me fazer sonhar.
Há a demanda insatisfeita.
Há a oferta insatisfatória.
e abro-a – entreabro,
como se pudesse te fazer pedir.
Passas os dedos em meus olhos
e fecha-os como a um cadáver querido
mas não podes me fazer sonhar.
Há a demanda insatisfeita.
Há a oferta insatisfatória.
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Wellington Souza
Marca a página
por Wellington Souza
Senta-se e abre o livro.
“Na escola arrebentada onde experimentou pela primeira vez a segurança do poder, a poucos metros do quarto onde conheceu a incerteza do amor, Arcadio achou ridículo o formalismo da morte. Realmente não se importava com a morte, e sim com a vida, por isso a sensação que experimentou quando pronunciaram a sentença não foi uma sensação de medo, mas de nostalgia. Não falou enquanto não lhe perguntaram qual era a sua última vontade.*”
Marca a página e fecha o livro.
Sai, atravessa a sala até a cozinha, enche um copo com água da torneira. A essa hora pouco importa as impurezas e precipitados. Na mesa de centro da sala havia ainda quinze, dos vinte Diazepans da cartela. Leva mais um à boca, seguido de um gole de água; mais um e outro gole, por fim o derradeiro e devolve o copo à mesinha de centro. Conta 3:23 horas no relógio de ponteiro.Volta à escrivaninha, senta e coloca café, que está forte, sem açúcar e não mais quente, na caneca de louça. Bebe de uma só vez. Escreve: “Já no avião/ sem volta e aflito/ olha para os lados/e seus colegas pularam/ e agora é a sua vez./ Pula./ é mágico o vôo liberto/ o forte vento é mágico/ o mundo, enfim sob ele/ é mágico./ Puxa a corda do pára-quedas:/ Da sua mochila saem panelas/ talheres/ conchas/ toalha de mesa/ cesta de piquenique/ um botijão de gás pequeno./ Atônito,/ele olha para o desenhista!”. Sente uma tontura, de onde sai o título: “Morte animada”.
Deixa de lado o rascunho. Abri o livro, mas não consegue focar as palavras com clareza. Mesmo assim segue lendo.
“— Digam à minha mulher — respondeu com voz bem timbrada — que ponha na menina o nome de Úrsula. — Fez uma pausa e confirmou: — Úrsula, como a avó. E digam-lhe também que se o outro nascer homem, que lhe ponham o nome de José Arcadio, mas não pelo tio, e sim pelo avô.
Antes que o levassem ao paredão, o Padre Nicanor tentou assisti-lo. “Não tenho nada de que me arrepender”, disse Arcadio, e se pôs às ordens do pelotão depois de tomar uma xícara de café preto. (...) “Ah, caralho!”, chegou a pensar, “me esqueci de dizer que se nascesse mulher pusessem Remedios.”Então, numa só pontada dilacerante, voltou a sentir todo o terror que o atormentara na vida. O capitão deu a ordem de fogo. Arcadio mal teve tempo de estufar o peito e levantar a cabeça, sem entender de onde fluía o líquido ardente que lhe queimava as coxas.
— Cornos! — gritou. — Viva o Partido Liberal!*”
Suas pestanas estão pesadas. Não agüenta mais o sono, para não dizer o efeito da droga. Tenta levantar-se. Apóia na escrivaninha, mas seus braços logo cedem ao peso do corpo. O direito se flexiona batendo o cotovelo e desliza, deixando o rascunho, canetas e lapiseira caírem no chão. Bate a testa na madeira, mas o impacto é leve. Volta a sentar, já sem forças no corpo, inerte. Tentar respirar, mas encontra dificuldades. Abre a boca e um filete de baba mancha o livro. Está ofegante, como que se afogando no ar.
Pensa em tomar a última dose para remediar o fim da tortura. Levanta abruptamente e cambaleia até a cama, onde o tronco e os membros superiores conseguem chegar, mas os inferiores não. Desmaia, então, com metade do corpo na cama e um braço, o outro está suspenso.
Inanimado, passará nessa posição quase dois dias.
_______________________________________________________________________________
Acorda numa tarde que não reconhece, com dúvidas sobre sua identidade e seu meio. Forte dor de cabeça e de barriga. Deita na cama e olha para o teto. Nada lhe vem à cabeça. Calcula se conseguirá andar, mexendo a perna. Senta e vê uma mancha de saliva na cama. Levanta escorando nas paredes e escorado chega até a cozinha. Prepara um copo de água com sal e segue, assim, até o banheiro. Bebe a água e vomita uma bile amarela, seguido de muitas tentativas que só fazem barulho, mas nada evacuam. Olha o espelho e encara uns outros olhos fúnebres.
Com o pulso bate no espelho, mas sua estrutura está fraca como seu espírito sempre foi. Concentra-se. Inclina o corpo para trás e bate com mais força. Quebra. O machucado no pulso é superficial. Ao arrancar um caco do espelho quebrado fere o dedo. Pega a lasca de espelho e corta um pulso, troca a lasca de mão e faz um corte mais profundo no outro. Perfura novamente o primeiro. O sangue já tinge parte do banheiro.
Caminha cambaleando até a janela da sala, onde ajoelha e se apóia, deixando os braços para fora. Repousa a cabeça no parapeito. O sangue escorre pelas mãos, pinga lá em baixo onde formará uma pequena poça.
Queria olhar o sol da tarde quente, mas ele está sobre as nuvens.
Inspira. Enfim, não sente mais medo da vida.
*Trechos do livro: Cem Anos de Solidão/ Gabriel García Márquez; tradução de Eliane Zagury – 49° Ed. – Rio de Janeiro: Record 2001.
Publicado originalmente no blog do autor: hipeR-Link
Senta-se e abre o livro.
“Na escola arrebentada onde experimentou pela primeira vez a segurança do poder, a poucos metros do quarto onde conheceu a incerteza do amor, Arcadio achou ridículo o formalismo da morte. Realmente não se importava com a morte, e sim com a vida, por isso a sensação que experimentou quando pronunciaram a sentença não foi uma sensação de medo, mas de nostalgia. Não falou enquanto não lhe perguntaram qual era a sua última vontade.*”
Marca a página e fecha o livro.
Sai, atravessa a sala até a cozinha, enche um copo com água da torneira. A essa hora pouco importa as impurezas e precipitados. Na mesa de centro da sala havia ainda quinze, dos vinte Diazepans da cartela. Leva mais um à boca, seguido de um gole de água; mais um e outro gole, por fim o derradeiro e devolve o copo à mesinha de centro. Conta 3:23 horas no relógio de ponteiro.Volta à escrivaninha, senta e coloca café, que está forte, sem açúcar e não mais quente, na caneca de louça. Bebe de uma só vez. Escreve: “Já no avião/ sem volta e aflito/ olha para os lados/e seus colegas pularam/ e agora é a sua vez./ Pula./ é mágico o vôo liberto/ o forte vento é mágico/ o mundo, enfim sob ele/ é mágico./ Puxa a corda do pára-quedas:/ Da sua mochila saem panelas/ talheres/ conchas/ toalha de mesa/ cesta de piquenique/ um botijão de gás pequeno./ Atônito,/ele olha para o desenhista!”. Sente uma tontura, de onde sai o título: “Morte animada”.
Deixa de lado o rascunho. Abri o livro, mas não consegue focar as palavras com clareza. Mesmo assim segue lendo.
“— Digam à minha mulher — respondeu com voz bem timbrada — que ponha na menina o nome de Úrsula. — Fez uma pausa e confirmou: — Úrsula, como a avó. E digam-lhe também que se o outro nascer homem, que lhe ponham o nome de José Arcadio, mas não pelo tio, e sim pelo avô.
Antes que o levassem ao paredão, o Padre Nicanor tentou assisti-lo. “Não tenho nada de que me arrepender”, disse Arcadio, e se pôs às ordens do pelotão depois de tomar uma xícara de café preto. (...) “Ah, caralho!”, chegou a pensar, “me esqueci de dizer que se nascesse mulher pusessem Remedios.”Então, numa só pontada dilacerante, voltou a sentir todo o terror que o atormentara na vida. O capitão deu a ordem de fogo. Arcadio mal teve tempo de estufar o peito e levantar a cabeça, sem entender de onde fluía o líquido ardente que lhe queimava as coxas.
— Cornos! — gritou. — Viva o Partido Liberal!*”
Suas pestanas estão pesadas. Não agüenta mais o sono, para não dizer o efeito da droga. Tenta levantar-se. Apóia na escrivaninha, mas seus braços logo cedem ao peso do corpo. O direito se flexiona batendo o cotovelo e desliza, deixando o rascunho, canetas e lapiseira caírem no chão. Bate a testa na madeira, mas o impacto é leve. Volta a sentar, já sem forças no corpo, inerte. Tentar respirar, mas encontra dificuldades. Abre a boca e um filete de baba mancha o livro. Está ofegante, como que se afogando no ar.
Pensa em tomar a última dose para remediar o fim da tortura. Levanta abruptamente e cambaleia até a cama, onde o tronco e os membros superiores conseguem chegar, mas os inferiores não. Desmaia, então, com metade do corpo na cama e um braço, o outro está suspenso.
Inanimado, passará nessa posição quase dois dias.
_______________________________________________________________________________
Acorda numa tarde que não reconhece, com dúvidas sobre sua identidade e seu meio. Forte dor de cabeça e de barriga. Deita na cama e olha para o teto. Nada lhe vem à cabeça. Calcula se conseguirá andar, mexendo a perna. Senta e vê uma mancha de saliva na cama. Levanta escorando nas paredes e escorado chega até a cozinha. Prepara um copo de água com sal e segue, assim, até o banheiro. Bebe a água e vomita uma bile amarela, seguido de muitas tentativas que só fazem barulho, mas nada evacuam. Olha o espelho e encara uns outros olhos fúnebres.
Com o pulso bate no espelho, mas sua estrutura está fraca como seu espírito sempre foi. Concentra-se. Inclina o corpo para trás e bate com mais força. Quebra. O machucado no pulso é superficial. Ao arrancar um caco do espelho quebrado fere o dedo. Pega a lasca de espelho e corta um pulso, troca a lasca de mão e faz um corte mais profundo no outro. Perfura novamente o primeiro. O sangue já tinge parte do banheiro.
Caminha cambaleando até a janela da sala, onde ajoelha e se apóia, deixando os braços para fora. Repousa a cabeça no parapeito. O sangue escorre pelas mãos, pinga lá em baixo onde formará uma pequena poça.
Queria olhar o sol da tarde quente, mas ele está sobre as nuvens.
Inspira. Enfim, não sente mais medo da vida.
*Trechos do livro: Cem Anos de Solidão/ Gabriel García Márquez; tradução de Eliane Zagury – 49° Ed. – Rio de Janeiro: Record 2001.
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Um muro de intransigência

Joaquim Bispo
O que aconteceu esta manhã conta-se em poucas palavras: um lunático entrou em Jerusalém vindo da Cisjordânia, acompanhado por um pequeno grupo de adeptos determinados. Devem ter passado, dispersos, as barreiras militares do muro, para não levantar suspeitas do Tzahal. Chegados às imediações da cidade, o líder mandou dois discípulos buscar uma burra, que estava presa, não muito longe, com a sua cria. Quando a trouxeram, os discípulos aparelharam-na com simples panos, ele montou-a e assim entrou em Jerusalém. A estranha personagem e os seus acompanhantes, todos de sandálias e túnica, cabelo comprido e cabeça descoberta, foram aplaudidos pelos transeuntes, sobretudo jovens, aparentemente entusiasmados com a performance, e houve quem estendesse no chão folhas de palma e mesmo roupas pessoais, para o grupo passar.
O episódio foi ignorado por quase todos os correspondentes estrangeiros, devido ao seu carácter irrisório e quase anedótico.
Quem me relatou os pormenores deste caso foi um homem de nome Zaqueu que, por ser pequeno, trepou a uma palmeira e assistiu a tudo. Disse-me que o chefe do grupo nasceu na Galileia, numa aldeia chamada Nazaré, actualmente ocupada por Israel. Viu a terra, que ele amou na adolescência, ser colonizada aos poucos por gentes vindas de várias partes do Mundo e tornou-se um revoltado. O seu carácter meditativo não o atirou, porém, para os braços da OLP ou do Hamas. Formou, no entanto, um grupo de activistas pacifistas que pretende, através da persuasão e de acções não violentas, consciencializar os habitantes de ambos os lados para a necessidade de se aceitarem mutuamente e partilharem o território em dois estados irmãos. Diz ele que não faz sentido que Israel queira reconstituir o estado com o mesmo território que dominou nos tempos áureos, mas que foi desmembrado há mais de dezanove séculos. Essa pretensão, diz, é tão absurda como os Árabes quererem reconstituir o califado de Córdoba no território da Península Ibérica, extinto, também, há séculos, ou o povo Inca tentar reanimar o seu antigo império destruído pelos Espanhóis ou os descendentes dos Cátaros reivindicarem o Languedoc para reorganizarem a sua religião. Mais inaceitável ainda seria que qualquer desses grupos organizasse um exército e começasse a expulsar os habitantes actuais desses territórios, recorrendo ao morticínio se necessário. Avesso à violência, também condena os actos de intolerância dos palestinianos para com os ocupantes, mas compreende o seu desespero. Diz ele, falando aos que param a ouvi-lo:
– Um homem plantou uma vinha, cavou-a, tratou-a, construiu-lhe um lagar e uma adega. Um dia, vieram uns lavradores e propuseram arrendar-lhe a vinha. Assim se fez, mas quando o dono da vinha enviou emissários a recolher a renda, estes foram apedrejados, feridos e alguns mortos. O mesmo fizeram ao filho do dono da vinha, cuidando apoderar-se definitivamente da herança dele. Agora, dizei-me compatriotas, quando vier o dono da vinha, que fará ele àqueles lavradores?
Com exemplos propícios à reflexão, como este, vai tentando mostrar que a outra parte também tem a sua razão.
Parece ser muito sagaz, embora idealista. O episódio de entrar em Jerusalém a cavalgar uma burra parece ter sido preparado meticulosamente para corresponder à profecia de Zacarias (Zc 9,9): «Regozija-te ó filha de Sião. Eis que vem a ti o teu Rei, justo e salvador. Ele é humilde e vem montado numa burra, e sobre o potrinho da burra.» Nicodemo, um membro do Knesset, que acedeu a comentar o episódio, é da opinião que esta entrada messiânica em Jerusalém foi uma estratégia pensada para chegar aos judeus mais conservadores. Aparentemente, esta mensagem visual não passou, apesar da relativa algazarra que os jovens militantes anti-guerra produziram durante todo o percurso da comitiva até à esplanada do Muro das Lamentações, onde muitos judeus fanáticos cabeceavam a afirmação dos seus preceitos religiosos. Aí, talvez por não ter tido a atenção que esperava, começou a gritar palavras de ordem em aramaico, a plenos pulmões, provocando os orantes, enquanto puxava as melenas a uns e desbarretava outros, sempre numa atitude de grande irreverência e insolência. O burburinho foi imediatamente detectado por uma patrulha militar que, com grande eficiência bélica, o intimou a parar. O homem não só não parou como começou a apontar a mão estendida para os soldados, com dois dedos unidos levantados. Não se sabe se os soldados entenderam esse gesto como agressivo, ou se simplesmente não toleraram a desobediência; certo é que alguns disparos foram ouvidos e o nazareno caiu com a túnica ensanguentada. Morreu pouco depois no hospital. Os companheiros foram presos e estão acusados de alteração da ordem pública, que poderá, eventualmente, evoluir para traição. Só então as agências noticiosas se movimentaram e conseguiram comprar uma gravação de telemóvel feita por um turista.
Este episódio é bizarro, mas estará esquecido em breve. Apesar do clamor internacional que tem denunciado a força excessiva utilizada pelo estado hebraico contra os opositores à anexação de território palestiniano – há quem lhe chame extermínio –, a determinação dos dirigentes israelitas em reconstituir a grande terra de Canaã «onde corre o leite e o mel» é inamovível, respaldada, que está, no apoio incondicional do novo império romano, que está disposto a tudo para ter um aliado fiel junto ao oceano subterrâneo de petróleo. Isolado na região, este país asiático, sequela dos complexos de culpa europeus, patenteia, ridiculamente, essa relação umbilical integrando, por exemplo, os torneios de futebol europeus ou os festivais de canções europeus, incapaz de uma identidade médio-oriental, que procura no território mas rejeita na cultura. O nazareno pacifista é a mais recente vítima anónima deste enorme equívoco.
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Joaquim Bispo
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Autor em Língua Portuguesa
AS DEVOTAS
I
Enquanto o sino bimbalha,
Bimbalha, bimbalha e tine,
Lançai do olhar a migalha
— Enquanto o sino bimbalha —
À raça que se amortalha
No horror que não se define...
Enquanto o sino bimbalha
Bimbalha, bimbalha e tine.
II
Perto da Igreja a senzala,
O Cristo junto aos escravos
E, pois, deveis visitá-la,
Perto da Igreja, a senzala
E procurar transformá-la
Da luz às palmas, aos bravos!...
Perto da Igreja a senzala,
O Cristo junto aos escravos.
III
E tão-somente por isto
Enquanto o sino bimbalha,
Bem antes de terdes visto
— E tão-somente por isto —
Todo o martírio do Cristo,
O vosso amor que lhes valha,
E tão-somente por isto,
Enquanto o sino bimbalha.
Fonte: Poemas Irônicos e Humorísticos de Cruz e Sousa
Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000098.pdf
Cruz e Sousa
I
Enquanto o sino bimbalha,
Bimbalha, bimbalha e tine,
Lançai do olhar a migalha
— Enquanto o sino bimbalha —
À raça que se amortalha
No horror que não se define...
Enquanto o sino bimbalha
Bimbalha, bimbalha e tine.
II
Perto da Igreja a senzala,
O Cristo junto aos escravos
E, pois, deveis visitá-la,
Perto da Igreja, a senzala
E procurar transformá-la
Da luz às palmas, aos bravos!...
Perto da Igreja a senzala,
O Cristo junto aos escravos.
III
E tão-somente por isto
Enquanto o sino bimbalha,
Bem antes de terdes visto
— E tão-somente por isto —
Todo o martírio do Cristo,
O vosso amor que lhes valha,
E tão-somente por isto,
Enquanto o sino bimbalha.
Fonte: Poemas Irônicos e Humorísticos de Cruz e Sousa
Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000098.pdf
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