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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Pedantrix

Tudo o que sei,
somente eu sei,
que tudo sei.





segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O BRAVO SOLDADO MARK

Passava de meia noite quando Arzt e Frau Löhnhoff, bêbados de errar o buraco da fechadura, abriram, enfim, o portão da casa. Arzt Hans caminhava na frente. Frau Bertha logo atrás. O silêncio soava como a restauração desacelerada de um êxtase recém gozado. Estavam inebriados com as palavras do Fühher que acabaram de ouvir pelos alto falantes numa cervejaria apinhada na Bavária.
Era Primeiro de Setembro de 1939 e a blitzkrieg contra a Polônia na madrugada anterior fazia da noite o esplendor da Cavalgada das Valquírias.

O casal subiu as escadas do casarão trocando as pernas, arrotando cerveja aos soluços e cantarolando Wagner.  Como por instinto simbiótico, os dois foram direto aos aposentos de Eithel, quando abriram a porta para admirar a filha, que no embalo de um sono profundo, emanava a beleza de sua pele alva e o dourado claro dos cabelos embaraçados sobre o rosto, guardiões junto com as pálpebras cerradas das joias que eram seus olhos azuis. Deitada de lado, joelhos dobrados, tinha sob sua proteção o filho de 7 anos dormindo na mesma cama aconchegante.

- Que Deus abençoe nosso soldado, disse Bertha.
- E que o Fühher o receba com toda sua perfeição, bradou Hans.

Eithel era a filha única do casal de arianos, como rezavam as cartilhas sobre raça pura de uma nação humilhada por um tratado de pós guerra que só produziu raiva e escombros. A missão da família Löhnhoff estava encaminhada: perpetuar e disseminar o alemão imaculado por todos os cantos da Terra.

Mas Eithel não era filha legítima. Fora sequestrada ainda bem criança por um grupo embrionário dos nacionais socialistas na fronteira coma Bielorrússia e oferecida a preço de ouro ao casal, já que, apesar de arianos de pedigree, era a mulher infértil, portanto, incapaz de contribuir com a expansão germânica pura pelo mundo. Uma desonra. Mas nada que o dinheiro do bom médico não pudesse comprar. “À Alemanha que emerge das ruinas morais, tudo, tudo e muito mais”, dizia ele com o braço direito apontado para os céus.

Arkt Hans Löhnhoff era um clínico geral obcecado por genética e pela Alemanha que renascia. Bertha comungava dos sentimentos pátrios do marido, e aceitar uma infeliz para criar como filha legítima seria a prova mais clara de sua devoção. Ao marido, à família germânica e ao Fühher.

Assim que Eithel foi adotada, o casal se mudou de um vilarejo próximo de Munique para Dresden, onde um centro de experiências cientificas com humanos havia atraído Hans. Ali, ele poderia com os incentivos infindáveis do Partido, desenvolver seus experimentos, especialmente esmiuçar as diferenças biológicas entre um cigano, um judeu, um homossexual e um ariano da melhor estirpe. E mais: dissecar o cérebro de um bolchevique para desvendar que mistérios levam um animal dito humano portar tão exótico pensamento.

Não muito distante de Dresden nasciam os primeiros campos de trabalho, onde a dita população inferior ficaria confinada como cobaias até que desaparecesse em sua totalidade, sem antes ceder ouro de seus dentes para os cofres nazistas e suas peles para a fabricação dos tambores que começavam a rufar em direção ao leste europeu.

Ao completar 14 anos, para orgulho dos pais, Eithel já pertencia à Liga das Meninas Germânicas, onde aprendia desde a manipular armas a amar incondicionalmente seu país, sua História, suas raízes, seus líderes, seu Fühher. Para ela, conquistar o mundo seria uma questão de tempo e algum sangue derramado. Dos outros, de preferência. Dos impuros, débeis, frágeis, inúteis, aleijados, indignos. Repetia cantilenas de que a colonização alemã do planeta não seria apenas apropriação de terras, mas a eliminação total de seus contrários. Não haveria colonizados para contar história, mas alemães legítimos onde quer que o planeta fosse habitável.

No entanto, tal retórica seria insuficiente. Além de pegar em armas, e propagar palavras ao vento, Eithel fora destinada – e estimulada pelos pais – a um gesto maior. Cabia a ela perpetuar sua raça a qualquer custo, embora o preço em mira era um bonitão de louros cabelos emplastrados, exemplar perfeito do vigor, do porte atlético e dos ideais da Alemanha eterna.

O primeiro encontro se deu por acaso. Ao esbelto Kapitän SS Kuntz fora designada a missão de treinar moçoilas da Liga a frequentar um possível front pelas bandas do leste, já que era iminente a resistência de Stalin ao assédio generoso de Hitler, com suas Wermatch e Luftwaffe na manga.

Eithel sentiu um frisson ao ser abraçada por trás a pretexto de bem segurar um fuzil. Bastou o rosto de Kuntz deslizar como uma pluma em seu pescoço, e seu volumoso e rijo entrepernas roçar
seus glúteos, para que a menina virasse em direção aos lábios que circundavam um sorriso másculo e sedutor. Ainda bem que a luz crepuscular escondeu das outras alunas e seus oficiais professores um beijo tão explosivo quanto um morteiro direcionado às fileiras inimigas.

Semanas se passaram, Eithel levou Kuntz a conhecer os pais, quando repetidas e enfáticas saudações ao Fühher retardaram as informalidades de um encontro para lá de desejado. Kuntz estava tenso, com uma taça de Riesling numa mão e os dedos nervosos e suados de Eithel na outra. Não tinha muita certeza do momento propício para revelar que era casado e deixara um casal de filhos nos arredores de Dusseldorf com a esposa, em nome de algo muito mais nobre chamado Grande Alemanha.
Ao segundo e longo gole, não resistiu. Confessou sua condição de pai de família.

Mas um oficial da SS que nascia era forjado à frieza. Olhando firme nos olhos de Arzt Hans recebeu de volta a aprovação orgulhosa de que entregar uma filha a tão seleto militar, acima de tudo, fazia parte da missão de limpar o mundo. E de imediato fora convidado a se estabelecer naquela residência, dividindo o quarto com sua pupila, enquanto sua companhia SS cuidava dos treinamentos militares da juventude da cidade.

Não houve hesitação de nenhuma das partes. Dormir com Eithel não era coisa que um macho ariano recusasse - a esposa oficial nas lonjuras da Renânia haveria de compreender, já que louros portentosos eram escassos no mundo e seria necessário, justo e legítimo dividi-lo com outras germânicas em nome de um mundo clareado. Pelo lado de Hans, entregar a filha ao corpo atlético de um ariano era a certeza da continuidade da missão e da raça. E assim, para consciência
tranquila de todos, Eithel se deu a Kuntz sob o teto e a orgulhosa concordância dos pais.

Tempos depois, a companhia SS de Kuntz partiu rumo a outras missões, mas deixou no lar dos Löhnhoff a semente de uma raça próspera, pura e onipotente. Aos primeiros enjoos, Eithel orgulhou-se que carregaria para sempre a nobreza de ser mãe de um ser humano de superior qualidade. Quem sabe um bravo soldado, quem sabe um músico excepcional, um escritor extraordinário, talvez uma professora rigorosa, uma enfermeira dedicada ou mesmo uma exemplar dona de casa de um
lar ariano. Não importa. Ter um Kuntz na barriga por si só era uma missão nobre a ser cumprida.

Hoje Frau Eithel Löhnhoff vagueia pelos jardins mal cuidados de um pobre asilo de idosos num subúrbio de Berlim, outrora oriental. Os reveses da vida cuidaram de apagar de sua memória os fatos mais recentes, mas jamais os detalhes de uma manhã esfumaçada de fevereiro de 1945.

A enfermeira Eithel abrigou-se num túnel improvisado sob o Hospital Militar de Dresden, às primeiras sirenes e aos roncos longínquos dos bombardeiros aliados, seguidos de explosões que se aproximavam como passos de um gigante determinado e aterrorizante. Com as mãos grudadas nos ouvidos e a cabeça entre os joelhos trêmulos, pressentiu o hospital desaparecer sobre o abrigo. Baixada a poeira, controlado o pavor, cessados os infinitos estrondos, rastejou entre um amontoado de desfalecidos pelo precário túnel até o que seria luz do dia disfarçado em noite de tanta fumaça. O que deixou de ver deve ter sido devastador. Os gritos, gemidos e pedidos de socorro escondidos pintavam um quadro de horror. Retardatários clarões sinalizavam avisos da morte e da destruição.
Eithel bateu com as mãos no corpo inteiro, como se para se certificar que estava viva ou, pelo menos, para limpar histericamente a alvura de seu uniforme. Enquanto se batia, chorava por dentro.

Um filme de terror se passou pelas suas entranhas. O primeiro personagem foi Kuntz, o esbelto capitão SS que lhe produziu Mark no ventre e desapareceu duas vezes: uma de sua vida, sem ao menos ver seu filho nascido, e outra da própria vida, congelado nos arredores de Stalingrado, com um rasgo extenso e profundo na altura da jugular. O segundo personagem fora seu pai, o obcecado cientista nacionalista, estraçalhado por lobos famintos, logo que um dos campos de experiências humanas caíra nas impiedades do Exército Vermelho. Restava-lhe imaginar a mãe Bertha e o filho Mark, recruta de 14 anos da debilitada Wermatch, que naquela manhã supostamente
estaria de folga ajudando a avó nos afazeres domésticos.

Quando a poeira se dissipou e os roncos sumiram nos céus, Eithel abriu os olhos ardentes e percebeu ao redor a bomba que lhe caíra silenciosamente na cabeça: sim, a Alemanha mais uma vez havia perdido uma guerra.

Focos de incêndio, ruínas, mortos até nos postes caídos e incandescentes, escombros, pedaços de gente, vidas retorcidas. A paisagem de Dresden era desoladora. E no meio da morbidez, Eithel ganhou forças para correr pelas ruas esburacadas, saltitar entre cadáveres chamuscados, carbonizados ou mutilados de todas as idades, até encontrar o que seria a casa que lhe acolheu, criou seu filho, seu orgulho.

Já caía a noite, quando avistou o que sobrou do casarão do casal Löhnhoff. A penumbra sugeriu um inferno. Apenas o portão tinha ficado de pé. Na calçada despedaçada, viu Bertha estirada no chão, velada por Mark, que chorava de joelhos dentro da empoeirada farda da Wermatch. Mantinha as botas, o culote e a túnica no lugar. O capacete tinha rolado a metros de distância.

Eithel de repente se viu paralisada. Assim como de repente, desembestou a correr em direção ao filho. Pegou o menino pelo braço, gritou um “não olhe para trás!” de ensurdecer os caídos e saiu de mãos dadas com ele sobre o que restou de Dresden.

Encontrou o que procurava. A horas de casa, na periferia distante, um pequeno pelotão do exército alemão estropiado guardava uma das entradas da cidade. Poucos valentes soldados, todos meninos como seu filho, rodeando um ninho de metralhadora, protegidos por heroicos sacos de areia, em direção à entrada da cidade voltada para o leste.

- Quem está no comando? - gritou Eithel.

Surgiu um jovem oficial. Nada de bonito, portentoso, garboso e impávido como Kuntz, mas um infeliz esquálido e de olhar desesperado.

- Eu, sargento Woltz, Frau. A maior patente desta patrulha.

- Pois então, Sargento, trago um bravo soldado.

Woltz olhou o rosto imberbe e apavorado de Mark.

- Vai, meu filho, nossa Alemanha precisa de você.

E Eithel soltou a mão de Mark, que logo recebeu uma Lugger recém tirada da cintura de um cabo morto, tão menino quanto ele. A mãe foi se afastando devagar, andando de costas, até que o breu da noite tomasse conta do cenário, como se uma cortina se fechasse.

Nunca mais soube do filho.

Até hoje espera por sua visita no pobre asilo de idosos num subúrbio de Berlim, outrora oriental. Não há um cair da tarde em que Eithel não se coloque em posição de sentido em direção ao leste. A cada sombra que vislumbra, ela diz para si mesma:

- Deve ser ele. Deve estar muito cansado. Vai precisar de mim para tirar suas botas. 








sábado, 18 de outubro de 2014

A época mais feliz


Mentir sempre foi uma das minhas benevolências mais praticadas com a minha mãe. Tudo o que eu como filho não poderia suportar era o lamento materno fustigado pela decomposição familiar. Quem olhava para a mesa da cozinha poderia imaginar que a miséria estava distante. Uma toalha feita com sobras de tecido era cerzida com a delicadeza daqueles dedos desgastados de D. Lucia. Nas prateleiras ao redor daquele espaço umas tábuas fixadas na parede sustentavam poucas panelas velhas e, várias latas de produtos dos quais nossas línguas nunca tinham sentido o gosto.
A infância foi cercada de imprevistos e dores – eu e meus outros quatro irmãos, nunca pudemos frenquentar o convívio social – restava apenas a escola. Que nos serviu por pouco tempo, assim que meu irmão mais velho chegou aos doze anos, precisou parar de estudar. Com isso, meu pai embestou em tirar os outros três da escola, pois acreditava que ajudando em casa seriamos mais homens. Porém, com o passar dos anos, tivemos algumas mortes, e a mais significativa foi a de S. Baltazar – nosso pai.
Nesta época eu tinha oito anos, não sabia direito nada, apenas sabia do homem rude, que maltratava a minha mãe, e aos poucos perdeu praticamente tudo o que tinha construído com trabalho em jogatinas e mulheres. As terras de Santa Helena estavam reduzidas ao espaço suficiente para a família deter a degradação sofrida.
As mentiras sempre estiveram presentes em casa – lembro de escutar meu irmão mais velho dizer que os animais da propriedade foram roubados, lógico isso inocentava o pai. Com a ausência de Baltazar fomos todos para o comércio informal – o primogênito trabalhava em uma frutaria, logo cairia em desgraça e seria assassinado após uma discussão em um bar. Os outros dois foram exercer atividades de chapas nos acostamentos – depois de alguns meses nunca mais foram vistos.
Sozinho em casa aprendi a lidar com a mentira, na tentativa de acordar todos os dias e dizer para minha mãe que a vida é perigosa, mas não viver é o pior dos perigos – por mais que com as minhas mentiras, eu fizesse parte deste ensejo.
Anos mais tarde fui ser alfabetizado, com isso poderia escrever e ler as cartas nunca escritas pelos meus irmãos. Pagava para alguém sempre colocar a correspondência no portão, o sorriso imensurável de D. Lucia ao receber a carta era o que sobrava da nossa gênese. Acabei de maneira inóspita exibindo uma felicidade corada para a família que minha mãe realmente achava ter. Apegada a imagem de uma santinha ela rezava toda a noite pelo retorno de seus filhos. Nestas horas eu sentia uma necessidade física de pegar uma faca e cravar na vida.
Nunca esqueço o dia em que vi minha mãe em um caixão sem um véu cobrindo seu rosto. Morreu com um semblante de felicidade, não parecendo que padeceu a vida toda das amarguras sofridas cotidianamente. O único que sobrou velava ao lado de outros poucos moradores antigos de Santa Helena a gratidão e a promessa de que a vida precisa ser vivida – independente de como seja.
Hoje sinto ao ver meus filhos, que a miséria da infância contornada pela toalha rala da mesa e todas aquelas latas de produtos que nunca sentimos o gosto foi a época mais feliz da minha vida, quero dizer, de nossas vidas. Herdei de minha mãe este sentimento.






sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Depois que ela fechou a porta












                    Depois que ela fechou a porta, era quase de manhã. Eu não quis acender a luz, o tom do céu já não era mais o mesmo, abri a janela para presenciar o amanhecer. Tudo foi aparecendo, cores voltavam a brilhar e eu já podia ver os meus pés. Dormir já não era mais possível, Ele estava diante de mim, com suas promessas de novidade, de que tudo seria novo, como se Cristo nascesse todo dia. Olhei para o relógio, mais um dia começou em minha vida; feliz, por renovar os meus sonhos, assim, tão gratuitamente.




Do livro A Cor do Sal (Editora Patuá).













quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Território

Lá, branco e preto namoram. Homem e mulher. Homem e homem. Mulher e mulher. O suor do trabalho vai para a cama sem banho. O suor da trepada escorrega os corpos na cama sem-vergonha. O gozo grita fode, grita mete, grita o dia de merda igual a todos os outros. A merda que invade as narinas a céu aberto. Merda de gente, de bicho, de viciado, de vadia. Ninguém mais sente. Nariz é pra cheirar o pó. O pó que menino vende.
Menino mata gente grande. Lá, mata. Mata velho dedo-duro, mata mulher que trai, puta que não rende, comerciante que não paga. Mata menino também. E morre menino no descarte do dia ou da semana. De crack, de bala achada, de desafeto, de porrada, de polícia, de saco cheio. Só não morre de rir. Nem de medo. Soldado não pode ter medo. Não pode nada. Soldado não é autoridade. Nem no tráfego, nem no quartel. Mas pensa que é. Até quando chupa o dedo pra dormir. Quando mija na cama, quando chora no sono, quando abraça a HK33, quando chama pela mãe sem abrir os olhos. 
Mãe é o caralho. Lá, quase sempre é. A bêbada que queima o braço do menino com brasa do cigarro. Menino de quatro anos. Porque ele pede doce, pede colo, pede rua. A noiada que vende bebês para os turistas de língua enrolada. Em troca de dinheiro pra comprar bagulho fino e enfiar no rabo dela e no dos homens dela. Os homens que arrebentam o menino de porrada e deixam ele nu do lado de fora de casa. Nos dias piores. Nos melhores, não. Nos dias bons o menino dorme na cama quente. Estuprado a noite inteira. Inteira, não meia. E a vagabunda não acredita no menino. Nunca. Mesmo acreditando. E repete que ele é ruim que nem cobra. Que ele quer que o homem dela vá embora. E arrebenta o menino de porrada e deixa ele nu do lado de fora de casa, soluçando entrecortado.
Lá, pastor anda limpinho. Roupa passada, camisa dentro da calça, o pinto dentro da calça. Difícil é o pastor fazer um fiel. Quem faz fiel é o tráfico. Os do pastor ostentam na igreja as bíblias gastas. Os outros ostentam no baile funk. Junto com os meninos que não são de lá. Mas que brincam de ser. Direitinho. Iguais, os que ficam por lá no fim do baile. Diferentes, os que descem para o asfalto quando o baile acaba. Dirigindo carro do ano. E vão para casa. Para amansar a larica com comida boa e um pouco mais de pó. Ou de pedra. Na beira da piscina com vista para o mar. Tomando scotch  cowboy servido no Baccarat da mamãe. Mamãe de menino rico não queima braço com cigarro, não dá porrada, não deixa nu do lado de fora. Põe dinheiro na conta.
Os fiéis do pastor dormem cedo. Nos braços de Deus e de Morfeu. Os do tráfico vão atrás das coxas. De homem, mulher, menina, menino. Branco e preto fodendo pelo resto da noite. Fazendo mais meninos pra descarte. Uns, no lixo, arrancados às pressas antes da vida. Outros, mais tarde um pouco. Só um pouco. Só o tempo de primeiro virar soldado, de virar noiado, de trepar com homem, mulher, preto, branco. E de voltar mais uma vez pra casa da mãe. Esperando um carinho na cabeça, um riso da boca de dentes tortos, podres. Boca de mãe devia rir sempre. E falar vem cá meu filho pra eu te dar um beijo, Deus te abençoe, como foi o seu dia, vai sair com quem, põe um casaco, já fez os deveres, come direito. 
A HK33 empinada dispara rajadas de fogos de artifício. Cachorro marcando território. 






quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Maria do Carmo


é difícil o amor
 melhor seria arrancar um braço
 fazê-lo voaaaaaar”  *

Diz que será bom recordar, e eu sinto-lhe o meio sorriso sob um batom que imagino enrugado e de cor berrante. Propõe que nos encontremos.
Combinamos.
Desligo e fico encostada na ombreira da porta. Fico remoendo.
Devia ter recusado. Ter inventado uma desculpa. Uma ocupação inadiável. Dizer-lhe que estava fora da terra onde ela viera procurar-me.
Devia ter, mesmo, dito, indelicada: não tenho nada para recordar contigo. Mas pelo contrário, disse-lhe, a tentar que ela julgasse em mim um sorriso afável: se queres, eu por mim. E acentuei o som das reticências, mas ela nem terá percebido encantada por eu concordar numa tarde de cavaqueira. Uma tarde a remexer no passado da gente, como ela mesmo disse.
Sentada à espera que ela chegue, noto que nem sequer coloquei perfume ou qualquer coisa bem cheirosa nos sovacos. Brincos de prata, pendentes, sim, esses, trago, como é meu costume, tal como estar com um vestido justo em malha vermelha e trazer sabrinas com meias opacas, umas e outras de cor preta.
Olho o espelho que ocupa, a toda a largura, uma das paredes do restaurante, e mordo o lábio de cima, hábito que tenho desde há muito e me aguenta a palavra corrosiva que normalmente me acompanha o brilho maldoso nos olhos. Quem mo disse foi um namorado, e eu sigo à risca este morder o lábio quando quero comedir-me.
Diria, fosse o caso: estou apetecível, e assim, calo-me, mas volto a olhar o meu reflexo, e fico presumindo que Maria do Carmo virá arranjada a rigor para este encontro. Ela gostava de vestidos, e de arranjos, e eu imagino-a, o cabelo platinado, ou negro azeviche num arranjo recente, e as unhas feitas num verniz berrante. E há-de trazer um lencinho embebido em água-de-colónia, lenço que tirará da carteira para um suor que nem tenha mas a ela pareça que lhe escorre na dobra que o queixo lhe faça em cima da gola da camisa, seda pura por baixo do casaquinho, conjunto completo com a saia justa, tudo em em pied de pool branco e preto. Lã pura, corte impecável.
Será assim que a verei daqui a nada, interrogo-me e olho o relógio. Ainda não está atrasada, e seria inesperado, que ela dizia, ainda tão menina: devemos chegar a horas, diz a minha mãezinha.
Maria do Carmo que foi minha colega de carteira, trará, quase me atrevo a jurar, sapatos de salto muito alto e meias com revesilho. Meias em tom de pele. Virá decerto bem vestida.
Sexta-feira, então, disse ela ao telefone, e eu devia ter dito que não tínhamos fosse o que fosse que nos unisse, nada que, recordado, desse a cada uma, e às duas em conjunto, qualquer motivo.
Mas não disse, e aqui estou eu a esperá-la.
Três e trinta, mais minuto menos minuto, tinha ela dito como quem parafraseia, e eu senti que, assim, recordando os meus atrasos, ela iniciava o seu remexer pelo passado.
Ai Carminha, Carminha, murmuro eu sem muita vontade de ficar, face a face, com a minha antiga parceira de carteira.
A gente partilhando o tinteiro, cada uma vestindo a bata branca, obrigatória, e por baixo uma saia de pregas em azul-escuro e uma camisola.
Maria do Carmo tinha uma saia de xadrez em tons de vermelhos e cinzentos de que eu gostava muito, tanto quanto detestava a saia de malha cor de salmão que a minha mãe teimava que eu vestisse: por baixo da bata, filha! e é tão quentinha! insistia.
Maria do Carmo usava vestidos com renda em redondo nos punhos e na gola.
No final do dia, cada uma vestia o seu abafo. O meu era um casaco liso, em tom de castanho com botões de quatro furos, e o dela era um sobretudo verde com botões doirados. Deixávamo-los dependurados nos cabides na entrada das salas onde tínhamos Português, Francês ou Matemática. Em todas as salas, excepto nos laboratórios onde tínhamos cacifes. E, se chovia, cada uma trazia um impermeável transparente como o vidro, e uma sombrinha. E galochas. Nisso, eram igualinhas as nossas indumentárias de meninas a frequentar o terceiro ano do liceu.
Apenas se chovia e apenas por fora.
No tempo quente, usávamos vestidinhos de manga curta em tecidos fininhos com bolas ou florinhas ou num xadrezinho miúdo. Usava-os ela, que eu tinha um único vestido em azul clarinho com risquinhas brancas, e a minha mãe lavava-o e secava-o, e eu vestia-o ao outro dia muito passado a ferro, muito mimoso.
Como se fosse novo, dizia a minha mãe a dar-mo ainda quente do ferro e segurando-o, com cuidado, pelos ombros.
Tínhamos vivido, sim, eu e Maria do Carmo emparceiradas numa mesma carteira no período da manhã, até ser o almoço e, no período da tarde, até ser hora do lanche e sairmos da escola, e lá ao fundo havia o rio.
 Tínhamos tido, cada uma a sua, uma mala de cartão debruado a metal fininho. Uma mala com cheiro.
Se bem que eu não sei se a mala de Maria do Carmo também cheirava o mesmo odor. Ela nunca mo disse e eu nunca lhe perguntei. A minha mala tinha, e mantém, que, num dia de arrumações, descobri, amassada, mas ainda inteira, a minha mala de cartão prensado, e curiosa de saber se tinha lá dentro algum caderno, um livro, algum lápis, abri-a com cuidado. Estava vazia. Mas, levantando a tampa, entrou-me pelo nariz aquele odor que era um odor intenso de eu ter tido tão pouca idade e ter vestido um vestidinho azul com risquinhas e por cima uma bata muito branca.
Um cheiro que me trouxe a imagem da minha colega de carteira do terceiro ano, e eu fechei a mala e deixei que ficasse lá onde a tinha encontrado.
Não iria dizer-lhe de malas nem de cheiros.
Maria do Carmo quase em atraso e eu, aqui sentada na mesa do restaurante, sorriu-me e olho-me de esguelha no espelho da outra parede.
Não irei dizer-lhe: olha, a minha mala ainda tem cheiro, descobri um dia destes. Não pronunciarei uma palavra acerca desse cheiro inconfessado que talvez fosse o cheiro de todas as malas, e não só da minha, que era castanha com uma asa arredondada.
Olho o relógio.
Olho o meu que trago no pulso, e olho aquele imenso sobre o espelho da parede em frente, mais do que um relógio, um adereço, mas está certo: são três horas e vinte e oito minutos em ambos os marcadores.
Maria do Carmo está quase, quase.
Mal percebi que era ela ao telefone, veio-me às narinas aquele odor. Um cheiro que afinal nem fosse senão resultante do paninho de apagar a lousa misturado com restos de borracha soltos. Ou cheiro do papel prensado e da cola de que era feita a mala. Ou seria disso tudo e mais do sabão azul e branco com que era lavado o guardanapo que me levava o lanche.
Não iria confidenciar isso com Maria do Carmo.
Não iria dizer-lhe: e o cheiro que tinha a mala da escola, lembras-te dele? mas lembraria, sensata e cordial, quando me chamavam: anda jogar ao prego, ao Manecas, anda saltar à corda.
Mas não irei confessar-lhe o horror que sempre tinha sido entrar e sair na corda que rodava. A corda a rodar de cima para baixo, e depois em sentido contrário, e eu apavorada que a corda me batia, ou me encalhava nas pernas, e eu baralhava tudo estatelada na terra do recreio. Como eu preferiria ficar sentada a desenhar florinhas na borda dos cadernos. Ou uma cercadura de pássaros. Mas eu acorri sempre ao chamamento: anda saltar à corda, anda. Acorri sempre e, apesar do medo, joguei muitos jogos, esfolei os joelhos, rasguei bibes e o cós das saias.
Irei dizer-lhe: lembras-te Maria do Carmo? a falar dos jogos, mas não lhe confessarei esses meus temores, que se Maria do Carmo os soubesse colocaria sobre a boca, os dedos de unhas envernizadas que ela decerto terá daqui a nada sentada à minha frente nesta mesa, e ficaria a sonegar-me o total do seu imenso espanto. E mais se espantaria, se eu lhe dissesse que tremia de vergonha, a minha timidez ao rubro, quando a professora de Francês ou de Língua Portuguesa me convidava para ler em voz alta para a classe a redacção impecável que tinha escrito na prova.
Não. Não seria por termos agora netos que eu iria confessar-lhe que dizer um poema em frente ao quadro negro, eu ali pespegada sob o crucifixo e aquele senhor sisudo e mais o outro com o casaco repleto de medalhas, era tão odioso como ficar perdida de todas no jogo das escondidas e ninguém vir ver que aquele esconderijo era o melhor de todos: nunca te encontramos, refilavam, cansadas de buscar-me o intervalo inteiro, e a sineta tocava ou a contínua batia palmas a chamar-nos: meninas, e elas sem me encontrarem.
E a jogar ao Manecas ou a jogar às cinco pedrinhas ou no jogo da malha, eu morria de medo de trocar os pés, de trocar as mãos e estragar o jogo. Mas ganhava. 
Ganhas sempre, dizias, irritada. Lembras-te, Maria do Carmo?
Não irei perguntar-lhe.
Olho a porta e os dois mostradores. São três e trinta. Em ponto.
Não és decerto aquela mulher que ali entra, calças de ganga e o cabelo a dar para o grisalho, uma parca usada e nem verniz nas unhas nem batom nos lábios. Nem és tu aquela senhora de saia- casaco cinza-rato e chapéu com duas flores. Não. Nenhuma das mulheres tem o ar de quem marcou encontro, nenhuma se aproxima da mesa em que estou sentada à tua espera.
Disseste: colocas uma flor vermelha em cima dum livro, e eu coloquei uma flor de papel, uma flor enorme, muito visível e muito igual à cor do meu vestido.
Passam dois minutos da hora marcada. Olho a porta e olho o relógio.
Se Maria do Carmo entrar agora e sorrir, eu vou perceber que é ela. Não terei esquecido o sorriso que tinha quando, numa outra tarde, abalámos pelo rio.
Isso, então, não poderei dizer-lhe: Maria do Carmo, lembras-te que nem uma palavra quando a tua mãe disse: quem te manda andares com ela?!
Que se eu dissesse, seria insidiosa, debruçar-me-ia, até, sobre a mesa e falaria em voz cava: lembras-te, Maria do Carmo?
Não, não iriei dizer-lhe.
Ainda menos deixarei que contemos, cada uma seu pedaço.
Deixámos a margem quase a pique e fomos pelo açude, diria ela.
Tu na frente. Tu a dares-me a mão, pespontaria eu.
Não. Não iremos dizer nada disto. Nem falaremos do cheiro que tinha a mala dos livros e cadernos e lápis e borrachas.
Maria do Carmo vem com atraso e eu imagino como seria eu e ela recordando.
Os sapatos escorregavam nos limos e tu gritavas-me: anda, anda, não sejas medrosa, e eu apavorada.
Assim, diria eu.
A água corria em cascata e os pés poisavam sem tino na estreiteza da pedra mais limo que outra coisa, dirias tu fugindo a recordar que tinha sido trágico se não fosse o destino estar escrito de outro modo.
Ou tu dirias, a medo: o pior foram as mães.
Ou nem dirias. Não te atreverias a dizer, que se o fizesses, eu poderia ser cruel imitando o sotaque espanholado, que a tua mãe viera da raia, diziam as outras mães maldosas de nem terem sido elas as casadas com um homem tão rico como era o teu padrasto. Amantizada, diria a minha mãe e tu chorando e eu chorando. Está vendo o que fez a sua filha? Era a tua mãe e eu aqui, imitando-a.
Não. Não iriamos recordar, ou tu dirias: lembras-te?! Tu lembras-te de tudo?!  como se preferisses que tivesse esquecido.
Como se fosse possível ter esquecido.
A tua mãe pressurosa de que fosses uma menina da senhora professora, uma menina que nunca iria atravessar o rio senão levada por colega de poucos princípios.
Lembras-te, tu ainda te lembras! dirias, tu pasmada.
A tua mãe repetia naquele tom de senhora que não parte loiça pois nem nela toca que para isso tem criadas: a sua filha levou a minha menina por maus caminhos.
E tu, sonsa, a fingir que nem era contigo, choramingavas. Lembras-te, Maria do Carmo?!
Eu tinha o braço partido, dirias a enxugar a dobra do queixo com o tal lencinho, e eu a dizer-te: nem foste capaz de contar que eu te salvara de ires na correnteza. Partiste o pulso e fendeste a pele do braço esquerdo, mas não foste rio abaixo como eu temi e tu tanto gritaste: socorro, salva-me ou digo que foste tu que me trouxeste.
Ainda me recordo da tua roupa colada ao corpo e de ter notado que usavas calcinhas pelo joelho debaixo do vestido.
Se de aqui a nada recordássemos deste modo, havias de pedir-me: cala-te, não foi para isto que vim ver-te.
Mas já eu estaria de freio nos dentes.
Vamos passar o rio, tinhas-me dito. E eu sempre medrosa, mas sem querer desmerecer, ainda disse: é perigoso. E tu riste. E fomos. Para onde vamos, Maria do Carmo? e tu sabias para onde nos levavas.
Mas o limo escorregou demais nas tuas sandálias que eram novas.
Não, não irei dizer-lhe: lembras-te? 
Maria do Carmo.
Rirá de boca escancarada de estarmos lembrando aquela coisa ignara de que nunca entendemos o préstimo: óleo de fígado de bacalhau tomado em obrigatórias colheradas.
Quando ela chegar, será disso que falaremos.
Olho o relógio e olho a porta. 
Acaba de entrar uma senhora de cabelo branco com uma echarpe colorida a rodear-lhe o pescoço. Tem óculos muito negros que tira para olhar em roda.
É ela. Tenho a certeza que é Maria do Carmo.
A mulher sorri-se e eu juro que é de ter visto a flor vermelha sobre o livro que coloquei aqui na mesa.
No relógio que está por cima do espelho, os ponteiros ficaram parados nas três horas e trinta minutos, e eu estremeço, e já a mulher se debruça sobre a mesa e nem pergunta. Sorri-se, apenas, e nem fala, Maria do Carmo murmura: és tu a minha parceira de carteira. E eu não lhe sinto odor de perfume, e ela não tem batom, nem verniz nas unhas, e traz sapatos rasos e uma blusa simples de algodão rosado.
Enquanto se senta, noto que não tem sinal de calcinhas por baixo da saia muito justa em xadrez cinzento.
Maria do Carmo, que nem pergunta. Mal se senta, ela diz-me, debruçada sobre a mesa, um sorriso radioso a inundá-la: queria tanto saber se ainda cheiras aquele cheiro. O teu corpo cheirava todo  a esse cheiro que ainda hoje guardo, naquela tarde em que parti o pulso.

Maria do Carmo.




* verso do poema "Não é fácil o amor"de Luís de Andrade, musica e voz de Janita Salomé no álbum "Cantar ao sol "   por sugestão amável do Joaquim 





segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Aos cacos



De um dia para o outro, coisas começaram a cair na cozinha.
Pratos, copos, xícaras e canecas amanheciam despedaçados no chão.
Talheres, cestas, latas e sacos de condimentos permaneciam mudos e intactos em seus postos. a aparência plácida e estática, como se sua segurança dependesse de seu silêncio e alienação.
A partir de então, quase dois anos agora, todas às manhãs era a mesma coisa: eu levantava, ia à cozinha, recolhia pacientemente os despojos de minha louça e, agachada, analisava ali mesmo se seu destino seria o lixo ou a recuperação.
Muitas peças eram salvas, devo admitir. Ali perto de onde tudo caía havia um tubinho de cola, desses que tudo grudam, aguardando de prontidão. Então eu o passava lentamente nas partes separadas e, como se montando um quebra-cabeça, resgatava aos cacos sua integridade.
Outras peças não. Algumas viravam verdadeiros estilhaços, outras perdiam lascas que não mais se encaixavam ou que de tão finas saltavam para longe e sumiam de meu campo de visão.
A hora era sempre a mesma, eu via e sentia tanto pela claridade do céu quanto pela temperatura do quarto: no prenúncio do amanhecer. Hora certa e medida? Não sei. Era quando o céu não estava mais tão negro e quando a temperatura subia fazendo com que eu me livrasse do lençol e da manta com um movimento insistente dos pés. Então, em sequência a esse movimento de cobertas sendo jogadas no chão, ouvia o estalo e o estilhaço das louças se espatifando.
Eu ouvia e aguardava. Às vezes, tentava até adivinhar. Quantas seriam? Quantos copos ou quantos pratos?  Quais itens seriam privilegiados?
A quebradeira demorava uns dez minutos, um item de cada vez, em queda livre, sem impulso: Plaft... plaft.... plaft.  Com o tempo, fui desenvolvendo a capacidade de perceber qual peça caía e qual o intervalo entre uma e outra.
Os copos de vidro produziam um som mais aberto e alto, pareciam explodir: Plaaaft! As canecas de cerâmica, um som mais fechado, mais baixo, como se com elas tudo fosse mais sério: Plâft.  As xícaras de porcelana branca eram a que produziam mais barulho, as mais escandalosas, como quem perde a virgindade à força: Pláááááft! Pláááááft! Pláááááft! Quanto aos pratos, engraçado, não havia muita diferença entre eles.  Produziam um baque... e um crack. Uma vez só, normalmente ao meio.
O intervalo entre as quedas variava também. Se começasse pelos copos, em três minutos cairiam  as xícaras  de porcelana branca  ou em cinco minutos as canecas. Plaaaft... Pláááááft!... Plâft.
Quando os pratos tomavam parte na quebradeira ouviam-se cracks repetidos entre plafts, pláfts e plâfts.
Assim sucessivamente, diariamente, rotineiramente.


Um dia levei um jarro para casa, um belo jarro azul-marinho. Cerâmica pesada, artesanal, com acabamento esmaltado e arabescos dourados em tom fechado − “ouro velho” presumi.
Sem querer envolvê-lo no ritual suicida de minhas louças utilitárias, acomodei-o numa prateleira distante, bem à altura dos olhos.
 De tão pesado, não caberia usá-lo. Ficaria em minha cozinha como peça decorativa e admirável, que todos os dias eu admiraria tanto por sua beleza quanto por sua sofisticação.
Meses de calmaria experimentou o meu o jarro, como mero expectador dos espetáculos matinais até que, no espaço de algumas semanas, começou a trocar de lugar.
Passei então a não mais saber onde o veria. Alternava-se nas prateleiras, ora subia ora descia. E às vezes aparecia sobre a mesa, como uma sentinela.
Tive medo de que se quebrasse, mas isso não acontecia. O que era bom, pois não conseguiria repô-lo com a facilidade que repunha as louças.
Caso quebrado, ou viraria caco colado ou lixo triturado em caminhão.

Eu preparava o café naquela manhã, a água esquentava na chaleira, o pó aguardava no filtro de papel.  Eu lia o jornal, sentada à mesa quando ouvi o ruído do jarro se arrastando.
Um arrastar lento, pausado, quase inaudível.
Levantei e fiquei olhando para ele. Mexeu-se novamente, como se executando uma dança compassada. Era a primeira vez que isso acontecia.
Me aproximei, alisei-o com minhas mãos mornas e a dança cessou.
Mudei de posição à mesa e continuei a ler, os olhos ora no jornal, ora nas prateleiras.
Foi quando tive a ideia.  
À noite, quando aquela mesma hora chegasse, quando percebesse o clarear do céu e a elevação da temperatura, eu não aguardaria mais no quarto.  Chutaria as cobertas para o chão e levantaria em seguida. Iria então pé ante pé à cozinha e veria in loco o que há anos acontecia.
Acabei o café e saí para a biblioteca. Teria um expediente cheio, muitos livros para receber e catalogar.
O dia transcorreu normalmente, fui e voltei do trabalho. À noite, me despedi de meu namorado que há dias insistia conhecer minha casa. Tenho tia doente e acamada, caso perdido, coitada, explicava a ele. Melhor não ir por enquanto, não seria agradável.
Ele concordava relutante e ia embora.
Voltei para casa, acendi a luz da sala e larguei bolsa e pastas sobre o sofá. Logo em seguida,  entrei no quarto e abri a janela para arejar. Fechada durante todo o dia, o ar vicioso da casa me sufocava.
Descansei um pouco, tomei banho e me preparei para a noite. Os filmes na tevê não me interessavam, comédias românticas ficção da ficção. O livro na cabeceira me deu sono. Dormi.
Então acordei àquela mesma hora e, como planejado, chutei as cobertas e logo me levantei. Saí sorrateiramente do quarto, atenta a qualquer ruído vindo da cozinha, e segui.
Nada.
Encostei o ouvido à porta da cozinha e fiquei aguardando do lado de fora, espiando pela fenda entre as dobradiças. Devem saber que estou aqui, pensei.
Então entrei e, protegida pela geladeira, fiquei olhando para as louças, para os jarros. Tudo parado.
Minutos depois, a dança começou aos estalos que, num crescendo, transformou-se em frenesi. E as louças foram saltando para os meus pés, para cima de mim.
De repente, como se numa explosão de loucura e vigor, todas as portas dos armários se abriram e todos os copos, pratos, potes, xícaras me atacaram, jogando-se em minha direção.  Estilhaçavam-se na lajota fria e ricocheteavam em cima de mim.
Fui sendo alvejada, jogada para trás, sentindo cortes rasgarem minha pele e cacos pontiagudos abrirem furos em minhas pernas, em meus seios, em meu rosto.
Protegi os olhos e comecei a gritar, a chorar de pânico e dor. Apavorada, saí correndo da cozinha e subi as escadas. Se ficasse ali, morreria.
Num impulso, abri ofegante a porta do quarto de minha tia. Ela estava deitada, esticada, a camisola escura tomada de pó.  Tudo fechado, o tal ar viciado, reconheci, vinha de lá. Há quanto tempo estaria assim? Há quanto tempo não a via?
Então a olhei de perto.
Com os olhos vidrados no rosto de porcelana branca, virou lentamente o pescoço num grosso e sonoro arrastar. Tinha a face craquelê, a pele envernizada. Olhou-me sem ver, mexeu músculos frágeis e flácidos.
Meu sangue pingava, empoçava no chão e secava com rapidez. Naquela poça endurecida, senti-me imobilizada.
Tentei correr, mas não consegui. Quanto mais o rosto porcelanado se virava para mim, mais craquelado ficava, mais rachava, quebrava. Até começar a cair:
 Pláááft... pláááft.... pláááf.  
Esfacelou-se completamente. Senti ânsia de vômito. Fiz força para não envergar. Segundos depois, foi como se tudo começasse a ficar mais fluido, diluído.
O sangue endurecido foi ficando gosmento até voltar ao seu estado líquido. Meu vômito começou a escorrer pelo quarto feito água pura, pura bile.
Saí dali.
O movimento na cozinha havia cessado, nenhuma peça de vidro ficara inteira. Nem meu jarro tão caro. Sentei-me à mesa e olhei desalentada para o chão. Nada a fazer.
Em sequência, peguei vassoura, pá, jornal, pano, balde, água. Voltei ao quarto, varri os restos de minha tia, limpei a nojeira. Fiz uma trouxa com os lençóis e escancarei as janelas para arejar.
Voltei à cozinha, juntei os estilhaços e joguei tudo fora. Nem uma só xícara permanecera intacta. Talvez isso significasse o fim.
Apressada, terminei a limpeza. Em meia hora teria que sair. Tomei um banho, limpei os cortes pelo corpo e me vesti. Virei as costas e fui embora.
Sentia-me aos cacos, o corpo tenso, os cortes ardendo, os movimentos duros, os ossos a estalar.
Fui andando pela calçada rumo à biblioteca. No caminho, procurei respirar profundamente para relaxar. Teria mais um dia cheio pela frente.








domingo, 12 de outubro de 2014

A Carne do Almoço


*por Lohan Lage Pignone

Me coma
Eu não sou mulher
Sou algo de se comer
Como aquele resto de carne
Congelado em sua geladeira.
Das flores, dizem que sou a trepadeira
Eu que nunca me dei ao luxo de ser rosa.

Vai, goza.
Goza na minha cara.
Quem sabe eu não vire um copo-de-leite?
Eu que nem sou mulher,
Dizem que mulher é bicho amoroso, sensível,
delicado...
Ah!
Eu dou mesmo é o rabo.
Isso me faz ser qualquer tipo de carne,
Menos uma mulher.
A cada dia, a cada esquina,
Ao menos posso ser o que eu quiser.

O que chamam de amor, eu digo que é sobrevivência.
Eu não faço amor, faço dinheiro.
Faço metade, um terço, é mais caro
o inteiro.
Carne de primeira eu sou,
Posso dizer que também sou de segunda,
terça, quarta...
Puta: é do que me chamam.
Não é um adjetivo, eu sei.
Essa sou eu, em substância,
carne e osso. Nem tanto osso assim.
Homem gosta é mesmo de carne,
Estou sempre pronta para servi-lo.
Nem dor eu sinto mais,
Quando um dente voraz rasga meu mamilo,
Quando a mão queima na minha cara desbotada.
Sei bem o que é isso...
Toda carne precisa ser amaciada.
Vai ver por isso me chamam de vaca,
Pobre bicho destinado ao abate.
Vai ver por isso me vejo tão abatida
Diante desse espelho.
Mas é só um espelho...
Nele arrumo meus cílios,
Pinto meus lábios.
Esse prato precisa ir à mesa.
Almoço sem carne não é almoço decente.
Me coma, sem demora,
Pois atrás... Atrás de mim,

Sempre tem gente.






sábado, 11 de outubro de 2014

Amo...





Amo os loucos em suas santidades petrificadas, submersos em mistérios e alucinações.

Primitivos, inocentes, sem as cabeças amordaçadas.
Desfilam em pontes esgarçadas, sem egos.
Como meros figurantes num mundo
de estrelas obscuras, decadentes.
Em seu vazio ensurdecedor, batem asas salpicadas de louvor.
Mágicos da realidade, metamorfoseiam suas dores obscuras em espasmos solitários, dormem em berços enferrujados da hostilidade e do inconformismo.


Amo os inseguros, os deprimidos, os anoréxicos, os medrosos, perdedores, fracos...
Enfim, os que não se compactuam com o brilho efêmero,
não se deslumbram com as luzes da ribalta, ficam no seu canto em sussurros e meditação... únicos!
Em suas dores! Sem o vômito azedo do social...
Despedidos das luzes da ribalta, se encaminham para a cachoeira dos solitários,
em busca do banho da individuação...
Sem persona, sem caricaturas, se espremem na dor,
para  irrigar o inusitado do acaso,
buscando intensidades que se cruzam no acontecer.

 Amo a vida. Na sua androginia e bipolaridade... em todas as suas intensidades.
No seu frenesi orgiástico, em seus  fluxos insanos  e desdita, em sua desesperança e ócio, em sua magia e desencanto,
em suas disfunções, na sua escassez de vitórias e em amargas derrotas,
nos seus surtos psicodélicos, em sua desesperança e ambiguidade,
com todas as suas nuances e matizes, como ramalhetes de flores desfeitos.
Na sua cumplicidade e desafetos, com seus enigmas e embates, amo, sobretudo, pela sua finitude e infinita generosidade. 


The end






sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Na Estrada

Henry Alfred Bugalho

Não havia ninguém por perto quando ele acertou a árvore.
"O caminhoneiro deve ter dormido e perdeu o controle do veículo." Isto era o que as pessoas diziam.
Eu e meu irmão corremos para a estrada. Era uma cena assustadora, as marcas de derrapagem, o metal retorcido, o sangue pingando no asfalto. A equipe de resgate estava se preparando para cortar através do metal para retirar o corpo do motorista.
Nosso pai apareceu e, tomando-nos pela mão, disse que devíamos ir para casa.
"Isto não é lugar para crianças."
Dois policiais bateram à nossa porta, fazendo-nos perguntas, mas não havíamos visto ou ouvido nada.
Depois, a investigação determinou que ele estava dirigindo por quase vinte e quatro horas sem descanso. Ele estava embriagado também, revelaram os exames de sangue.
"Viu? Podia ser você," disse minha mãe para meu pai, enquanto ele assistia a uma partida de futebol na TV.
"Cale a boca!" Ele disse. "Não era eu."
E ele deu um gole na garrafa de cerveja que segurava.
Daquele dia em diante, eu mal conseguia dormir quando meu pai entrava em seu caminhão e nos deixava por vários dias. Podia ter sido ele... Eu pensava. Numa estrada. Numa árvore. Pingando sangue no asfalto.





quarta-feira, 8 de outubro de 2014

meta( )poética

                                  (disparei o cronômetro)

este poema iniciou há vinte minutos
porque precisei
antes de escrevê-lo
fazer alguns cálculos
                                   (sou péssimo para contas de cabeça)

calculei todos os gastos para que tu
estejas diante desse poema

                                   (até agora já se passaram três minutos
                                   desde o disparo)

para estar sentado em meu colchão
usando meu notebook

                                   itens que não considero mais para a contabilidade
                                   já se incorporaram a mim

meu corpo levou trinta e três anos
três meses
catorze dias e dezoito horas
                                   (dezenove ao fim do poema)
para estar em condições de estar aqui

                                   (uma pausa)

estar aqui e agora escrevendo um poema custa-me

                                   (aluguel
                                   condomínio
                                   energia elétrica
                                   internet
                                   livros de poesia e
                                   litros de álcool)

quase dois centavos por minuto

                                   (nova pausa
                                  
                                   ela fala que vai a porto alegre
                                   para um congresso
                                   ficará lá quatro dias
                                  
                                   retomo o cronômetro)
                                  
há pouco tempo eu recebia um salário do comércio
recebo agora uma bolsa de estudos
dum órgão de apoio a pesquisadores
vinculado ao governo federal

ganho três centavos e meio por minuto para estudar poesia
dinheiro                      (prefiro acreditar)
bem investido
dos impostos do contribuinte
goste ele ou não de poesia

                                   (abre parênteses

                                   eu conto todos os minutos do dia
                                   porque ganho inclusive para sonhar
                                   que estou escrevendo artigos científicos
                                   sobre poesia

                                   eu deveria
                                   nesse momento meu dever seria        escrever
                                   um artigo científico sobre                  um poema
                                   pra um seminário ou congresso ou simpósio 
                                                                                              sobre poesia

                                   mas parei para                                    escrever
                                                                                              um poema
                                                                                              sobre poesia

                                   fecha parênteses)


fazendo as contas
este poema levou
para ser escrito
revisado                      (reescrito em boa parte)
cerca de duas horas


                                   (ela chama minha atenção para qual seria a possível
                                   e ingrata profissão de william shakespeare
                                   no século vinte e um
                                   diz que ele tem cara de trabalhador do comércio
                                   ou de prestador de serviços

                                   eu digo que estou escrevendo um poema

                                   ela pede desculpas)

a mim
depois de duas horas
custou dois reais e trinta e dois centavos

aos cofres públicos
abastecidos pelos impostos
                                    (os teus impostos
                                   caro contribuinte
                                   pelo que sou muito grato)
esse mesmo tempo custou
quatro reais e dez centavos

fiquei com um real e setenta e oito centavos de troco

esse  um real e setenta e oito centavos
                                   (ganhos desonestamente com poesia
                                   em vez de artigos científicos)
correspondem aos cinco doze avos que eu mesmo pago
em impostos

resultado

nem eu
nem tu
                                   (nem ela
                                   que adormeceu me esperando para dormir)

                                   (nem meu vizinho
                                   que tosse para mostrar que está acordado
                                   por causa do ruído intermitente do teclado
                                   que escapa dia e noite do meu apartamento)

ganhamos nada
já está incalculável
o prejuízo de nossa convivência





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Poema submetido à seleção da segunda fase do concurso do site Autores S/A
Desclassificado, infelizmente.