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sábado, 13 de agosto de 2022

Sinais dos não tempos, nnestes tempos de agora

 

Uma luz tão intensa, que conseguiu cegar por completo o sol, brilhou nos céus instantes antes de se ouvir deflagrar uma gigantesca explosão, que devastou em poucos minutos praticamente tudo. Não restou pedra em cima de pedra, de pé só ficou a destruição.

Um vento quente e pegajoso que se formou na altura da explosão continuou a lançar faúlhas ainda incandescentes que alimentaram a voracidade dos incêndios. As cinzas que caíram amortalharam pessoas, animais e coisas.

O número de mortos era incontável e viam-se espalhados por todos os lados. Os feridos agonizavam sob os escombros sem socorros disponíveis para os ajudarem. Os vivos sãos arrastavam-se durante horas pelas ruas, como se fossem sonâmbulos em busca do nada.

Não sabiam o que tinha acontecido, só sabiam que à sua frente tinham o apocalipse.

A., caminhou longas horas arrastando os passos errantes por entre os destroços. Quando sentiu que as forças começavam a fraquejar sentou-se no chão e fechou os olhos à tragédia. Não queria ver mais nada, somente esquecer aquele inferno de ferro e fogo. Já era tarde quando conseguiu reconciliar-se com o sono.

Esse sono que em vez de lhe trazer um pouco de alívio ainda o mortificou mais. Poucos foram os momentos dormidos em que não foi assaltado por negras e tenebrosas imagens saídas do fim dos tempos: pessoas a desintegrarem-se, edifícios a ruir estrondosamente, crateras que se abriam e engoliam pedaços da cidade, negras aves de rapina que voavam rasante com pedaços de carne nas garras, animais famintos que estripavam os ventres dos moribundos.

Toda essa surreal imagética, assim como aparecia assim desaparecia, sucedendo-lhe alguns momentos de silêncios aterradores, quebrados a espaços por assustadoras explosões.

O cheiro a queimado e a morte eram agora ainda mais intensos. A tragédia revelava-se em toda a sua crueldade. Não sabia que horas eram. O negro nevoeiro que envolvia toda a cidade não deixava perceber se ainda era de madrugada ou se o sol nesse dia tinha nascido. Naquela situação, qualquer hora era tão boa como outra qualquer, porque a medição do tempo iria passar a ser feita não pelo passar das horas, mas pelo passar dos metros, quanto mais longe daquele inferno melhor.

Com os olhos semicerrados ficou a olhar para os movimentos dos que se apressavam a partir. Faziam tudo calados e em silêncio partiam. Levavam o que as forças lhes permitiam e lançavam olhares de desconfiança para todos os lados enquanto caminhavam. Não sabiam para onde iam, não sabiam o que existia para além, mas iam.

Aqueles que ficavam, já nem olhavam ao redor, nem perscrutavam o horizonte, esperavam com a resignação estampada no rosto, com o olhar vago, não esboçando sequer um gesto que fosse. Mais pareciam vivos mortos, de tudo alheados, e que se deixavam estar pelos cantos perdidos na solidão dos seus medos.

Alguns dos que partiram, nem avançaram, nem conseguiram regressar, ficaram pelos caminhos, mortos ou feridos, porque as emboscadas e os ataques selvagens eram frequentes. Bandos de malfeitores tinham-se constituído e começaram a construir poderes organizado no meio daquele caos. A luta pela conquista do poder que dava acesso à sobrevivência justificava tudo, cada um escrevia a sua própria lei.

A desconfiança alastrava e o medo ia começando a assentar arraiais. A todos os momentos viam-se partir grupos formados e engrossados ao acaso, porque ninguém se arriscava a aventurar-se sozinho.

Os fracos, feridos e todos os que não estivessem em condições de aguentar a viagem eram considerados um peso morto e mais susceptíveis de aguçar uma atracção apetitosa de salteadores. Facilmente poderiam a vir a ser pasto de bichos esfomeados. Em vez de serem integrados em qualquer um dos grupos que continuamente se iam formando eram deixados à sua sorte. Daquele não mundo, já só esperavam o inferno de uma não vida. Antes a paz duma morte do que uma sobrevivência indigna.

A., decidiu enfim partir, quando o último grupo de sobreviventes se formou. Nada mais ali o retinha.

Teve de parar várias vezes, para perscrutar ansiosamente o horizonte e, por isso, os seus ocasionais companheiros, não esperaram, coisas da sobrevivência, mais uma boca a comer. Viu-os mais tarde ao longe e no fundo dum vale, relativamente perto a corta mato e sem qualquer desvio, mas a cerca de algumas horas de distância se encontrar caminhos inacessíveis. Nunca os conseguiria alcançar, a não ser que lhes gritasse, mas tinha receio que o grito e o eco que naturalmente se lhe seguiria alertassem alguém indesejado. Também não tinha garantias de quem o apunhalou pelas costas uma vez, não o viesse a fazer outra vez. Deixou-se ficar escondido a vê-los a afastarem-se.

Com aquele nevoeiro de cinza e com o calor húmido que se fazia sentir o simples caminhar tornava-se insuportável. Os nauseabundos cheiros trazidos pelos ventos quentes colavam-se às andrajosas roupas e agarravam-se à nua pele. O cansaço e a insuportável dor do abandono dilaceravam-lhe as entranhas da alma. Apesar desse sofrimento estava disposto a ir buscar forças onde fosse possível, para continuar a caminhar para dentro destes tempos, em prol de outros tempos futuros. Não queria ser vencido, sem luta, pela barbárie dos não tempos dos tempos de agora. Continuar o caminho nem que pés se recusassem a andar. Não queria sequer pensar que nessa estrada, sem fim, o fim já se aproxima.

 

 





terça-feira, 9 de agosto de 2022

Os dois elefantes

 



A montra era pequeníssima e muito empoeirada, sendo difícil distinguir os muitos objetos que a atulhavam, contrastando com as muitas lojas e lojinhas daquela rua tão turística, modernas, limpíssimas e com escaparates obviamente saídos das mãos de especialistas. 

Mesmo assim, Sara decidiu entrar apenas por curiosidade. Sempre que visitava pela primeira vez um país gostava de conhecer o artesanato local, mas tentando o mais possível evitar “armadilhas turísticas”, dando preferência às que tinham um ar mais pobre, mas bem mais local. Por vezes comprava alguma coisa mas, na maior parte dos casos, só lhe agradavam peças demasiado caras para os seus poucos recursos ou demasiado volumosas para bagagem aérea ou, até, para o seu apartamento.

Mal passou a porta, foi forçada a parar. O interior era muito escuro, especialmente para quem vinha da luminosidade forte do exterior. Quando ao fim de uns bons minutos começou a distinguir formas, ficou fascinada. Por todo o lado havia estatuetas, vasos, quadros, máscaras, vitrinas cheias de pequenos objetos, tecidos e, até, plantas. Tudo misturado e amontoado para caber numa área em que um terço já seria demais. Poderia passar ali o dia todo que não veria nem metade.

A um canto, empoleirado num banco, estava o dono. Era um velhote baixo, de barbicha branca, que estava muito entretido a escrevinhar num enorme livro pousado numa pequena mesa à sua frente.

Nem levantou os olhos quando Sara entrou. Ou estava muito habituado a ter visitantes ou não lhe interessava saber o que queriam. Tendo esperado em vão um cumprimento, um aceno, um simples reconhecimento da sua presença, acabou por desistir e começou, muito simplesmente, a investigar as peças mais próximas da porta.

Havia coisas maravilhosas. A pequena loja era uma autêntica arca de tesouros, uma verdadeira gruta de Aladino. Infelizmente era tudo demasiado caro, a aparência desleixada da fachada não refletia de modo algum o que escondia. Mesmo assim continuou a explorar, avançando cuidadosamente pelos estreitos corredores irregulares deixados entre móveis e outras peças. Mesmo se não comprasse nada, pelo menos veria coisas bonitas.

Aproximava-se a hora do jantar e Sara tinha de regressar ao hotel, que ainda ficava um tanto distante dali. Decidiu, pois, ver apenas mais uma vitrina e depois desistir. E foi então que os viu. Estavam na prateleira mais alta, cobertos de pó e rodeados de peças um pouco maiores que quase os tapavam. Mesmo assim pareciam sobressair daquele ambiente escuro e poeirento: um par de pequenos elefantes.

Com cuidado, abriu a vitrina e retirou-os. Não tinham mais de um palmo de altura, com uma ligeira diferença entre eles. Tirada um pouco da poeira que os cobria com um dos lenços de papel que trazia sempre consigo, verificou que, para além da altura, afinal não eram iguais. Um era cinzento-claro, com alguns laivos quase negros, e o outro verde-escuro. Pareciam feitos de pedra-sabão e tinham uma expressão muito engraçada com a tromba virada para um lado e as enormes orelhas um pouco afastadas da cabeça, parecendo estar à escuta de alguma coisa.

Verificou a etiqueta com o preço, colada nas respetivas barrigas. Embora não fossem exatamente baratos, custavam bem menos do que as outras peças que vira. Mesmo assim estavam um pouco fora daquilo que pretendia gastar em compras supérfluas.

Ia colocá-los de novo na vitrina, quando algo a fez parar. Eram tão bonitos! E, pensando bem, até nem eram assim tão caros! Bastar-lhe-ia gastar um pouco menos no casino para os poder comprar sem estragar o seu orçamento de férias.

Ainda hesitou durante mais uns momentos, mas por fim decidiu comprá-los. Fechou a porta da vitrina e dirigiu-se para a zona onde estava o dono da loja. Este abandonou a sua escrita de muito má vontade, quase como se achasse que um comprador era uma intrusão desnecessária e indesejada, mas lá lhe embrulhou os elefantes e recebeu o seu valor total, é que perante tanta indiferença Sara nem se atreveu a pedir um desconto..

Chegada ao hotel, Sara mostrou-os aos companheiros de viagem, recolheu alguns elogios, não muito entusiásticos, diga-se de passagem, e depois enfiou-os no fundo da mala, esquecendo-os por completo durante o resto das férias. Só os voltou a ver quando desfez a bagagem ao regressar a casa.

Depois de os limpar muito bem e de lhes pôr uma camada fina de cera, colocou-os em cima da cómoda, mesmo à frente da cama, exatamente no ponto de união das duas cortinas de voile branco. Ficavam bem engraçados, o verde-escuro um pouco à frente do cinzento-claro, com as trombas voltadas para a janela, como se observassem o que se passava lá fora.

E a vida retomou o seu ritmo habitual. Sara andava ocupadíssima no serviço e em geral chegava a casa tão cansada que mal tinha tempo para algumas arrumações indispensáveis. E quando limpava o pó, fazia-o mecanicamente sem se deter em nenhum objeto em particular, limitando-se a manter tudo mais ou menos no sítio. Nunca mais olhara ou acariciara os seus elefantes, como fizera nos primeiros dias após o seu regresso.

Os meses foram passando e o Inverno chegou. A janela do quarto de Sara vedava mal, deixando entrar uma corrente de ar gélido, não havendo aquecedor que chegasse para remediar a situação. O quarto estava, por isso sempre muito frio. Todas as noites Sara lembrava-se que tinha de mandar arranjar a janela quanto antes. Enquanto se encolhia toda debaixo de um monte de cobertores, jurava que seria a primeira coisa que faria na manhã seguinte. Mas esquecia-se sempre ou só se lembrava ao domingo, quando fazia uma arrumação maior.

E os elefantes lá continuavam, no centro da cómoda, com a tromba virada para a janela e para o reduzido jardim do prédio, sem flores e sem folhas. Sara já nem se lembrava deles ou da pequena loja, escura e atravancada de coisas, onde os comprara. Tal como a recordação das férias que então passara, tinham sido postos de parte.

Um sábado à noite Sara foi a uma festa dada por uma colega de serviço. Encontrou pessoas que já não via há muito tempo e divertiu-se de tal modo que já era de madrugada quando regressou a casa. A noite estava mesmo muito fria, com um nevoeiro espesso a cobrir tudo. Chegou a casa tão gelada que foi logo a correr fazer uma grande chávena de café para se aquecer. Quando entrou no quarto lembrou-se da janela mal vedada. Apesar de ter deixado o aquecedor ligado, fazia quase tanto frio lá dentro como na rua. Resmungando contra si própria por se ter esquecido, mais uma vez, de chamar alguém para reparar a janela, lá se enfiou na cama, depois de ter acrescentado mais um cobertor grosso ao monte que utilizava habitualmente.

Esquecera-se de correr as cortinas e à luz acinzentada que o candeeiro da rua espalhava através do nevoeiro podia ver os dois elefantes de pedra-sabão, o verde-escuro à frente e o cinzento-claro um pouco mais atrás. Antes de adormecer recordou subitamente a pequena loja cheia de maravilhas onde os tinha comprado, mas foi só uma visão fugidia pois estava muito cansada e adormeceu quase logo.

À medida que a noite passava, Sara, sempre a dormir, foi-se enfiando cada vez mais debaixo dos cobertores. Nunca tivera tanto frio! Bem se enroscava, mas não havia meio de aquecer.

De repente, acordou sobressaltada. Parecera-lhe ouvir um ruído estranho dentro do quarto. Ainda ensonada, pôs a cabeça de fora dos cobertores e olhou em volta. Via distintamente os contornos dos móveis graças à luz que entrava pela janela. Pelo eu tom, a manhã não devia estar longe. Não fazia ideia do que a acordara, talvez algum carro a passar na rua, mas parecera-lhe ser dentro do quarto.

Não se notava nada de anormal. O pior é que se sentia bem acordada e seria muito difícil voltar a adormecer, sobretudo naquela atmosfera gélida. Deixou-se, pois, ficar simplesmente deitada, com a cara meia tapada pelos cobertores. Mesmo em frente via-se a cómoda, com os vários objetos dispostos no seu topo.

De repente deu um salto na cama. Os elefantes tinham desaparecido!

Espantadíssima sentou-se na cama, esquecendo o frio, concentrando o olhar naquela zona, que era a melhor iluminada do quarto por estar junto à sua única janela. Não, não era ilusão, tinham mesmo desaparecido.

Andaria alguém dentro de casa? Um assaltante? Mas porque teria tirado apenas os elefantes de pedra-sabão que, embora bonitos e engraçados, não valiam assim tanto? Faltaria mais alguma coisa?

Preocupada com a hipótese de ter um ladrão em casa, Sara saltou da cama, enfiou as chinelas e o roupão, que ficava sempre numa cadeira ao lado da cama, e começou a inspecionar o quarto. Não faltava mais nada! Só os pequenos elefantes!

Cada vez mais admirada, apoiou-se na cómoda para observar bem o local onde os vira anteriormente. Como a janela ficava mesmo em frente podia ver, também, o jardim. Este nunca fora bonito mas no Inverno era francamente deprimente: alguns canteiros vazios, duas árvores tortas e despidas de folhas e um caminho ensaibrado por onde se moviam duas manchas escuras.

Duas manchas escuras? Quem estaria no jardim àquela hora?

Debruçando-se um pouco sobre a cómoda, Sara espreitou pela janela.

Nem queria acreditar no que via! Os pequenos elefantes, os seus elefantes de pedra-sabão, que por qualquer razão não lhe pareciam agora tão minúsculos, caminhavam lentamente pelo caminho ensaibrado, o cinzento-claro à frente, o verde-escuro atrás. Dirigiam-se para o portão.

Sem sequer parar para pensar, Sara saiu do quarto e correu, corredor fora, até chegar à porta de entrada. Tinha de ir ver o que se passava.

Perdeu bastante tempo a abrir a porta, que estava bem fechada e trancada. Conseguiu, finalmente, abrir o último fecho e saiu para o jardim. Na sua precipitação, até deixou a porta aberta. Ela,  que era sempre tão cuidadosa!

Os elefantes estavam já a passar o portão que, aparentemente, alguém deixara aberto, sim, porque sem mãos eles não o teriam certamente feito. Sara precipitou-se, mas, quando lá chegou, já eles estavam do outro lado da rua, caminhando sempre no seu passo lento mas regular. E o seu tamanho não era ilusão, parecia mesmo que cresciam a cada passo que davam.

Sem bem saber o que fazia, Sara seguiu-os. Na esquina havia uma loja que vendia flores exóticas. Era uma loja pequena, mas sempre muito bem aquecida por causa do tipo de plantas que tinha. O par dobrou a esquina, sempre sem se apressar. Mas quando Sara atingiu o mesmo ponto parou, desorientada: não os conseguia ver!

Onde se teriam metido? O nevoeiro continuava, mas não estava tão espesso que não se visse uma boa distância em todas as direções. Intrigada, Sara encostou-se à montra da loja de plantas exóticas. Mal tocou no vidro começou a ver tudo a andar à roda. Mas que momento tão mal escolhido para ter uma tontura!

Fechou os olhos com toda a força esperando que passasse. Quando se sentiu um pouco melhor abriu-os de novo, mas voltou a fechá-los logo muito depressa. Devia estar a sonhar! Ou então continuava tonta!

Respirando fundo, lá se encheu de coragem para tentar de novo. Muito devagarinho foi abrindo os olhos, mas apenas uma pequena nesga. E sim, vira mesmo o que vira momentos antes, mas era IMPOSSÍVEL!

Rua e loja tinham desaparecido. Nevoeiro e frio também. Estava agora cercada de uma vegetação luxuriante e desconhecida, pelo menos para si, que pouco entendia de plantas. Mas o sol brilhava sobre as folhas muito verdes e as numerosas flores exóticas e coloridas e fazia bastante calor. Mesmo muito calor!

E ali estava ela, Sara, no meio daquele ambiente tropical, de camisa de noite de flanela, roupão de lã e chinelos quentinhos. Incrível!

Mesmo à sua frente abria-se um caminho estreito e sinuoso.

O chão parecia ser de areia branca e as plantas vinham mesmo até à borda, mas sem o invadirem. Como não sabia o que fazer nem onde estava, decidiu segui-lo. Mas foi forçada a caminhar com cuidado porque as pedrinhas que afinal constituíam o caminho magoavam-lhe os pés através da sola fina dos chinelos.

O calor era tanto que teve de tirar o roupão, nada adequado àquele ambiente. Mesmo assim continuava a sentir-se demasiado quente.

O caminho era tão sinuoso que só conseguia ver uma pequena distância à sua frente. Por isso, assustou-se tremendamente quando a vegetação alargou, surgindo uma grande clareira, terminada, ao fundo por uma parede rochosa. Um fio de água escorria pela ela e ia cair numa grande taça escavada no chão da clareira.

E ali estavam os seus pequenos elefantes mesmo à borda da taça. Pareciam estar a beber da água que escorria pela parede rochosa.

Sara começou a correr na direção deles mas logo parou, espantada, deixando cair o roupão que levava no braço. Os elefantes tinham começado a crescer a ritmo acelerado e, do tamanho de pequenos cães que tinham quando os vira antes de contornarem a esquina, estavam agora enormes. Por fim ficaram do tamanho de elefantes normais, mas mantinham as suas cores originais e viam-se os veios da pedra-sabão ao longo da pele, embora mexem-se orelhas e tromba, como se sondassem o ar.

Assustadíssima, Sara recuou para o carreiro tentando esconder-se no meio da vegetação. Os elefantes estavam agora virados para ela e pareciam estar à espera de qualquer coisa. Tinham a mesma expressão de expectativa que tanto agradara a Sara na pequena loja onde os comprara.

Ao fim de alguns momentos começou a ouvir-se muito barulho. Os elefantes deixaram de abanar as orelhas e ficaram muito quietos lado a lado, com o cinzento-claro um pouco mais à frente.

O barulho aumentou até que entraram na clareira diversos animais, leões, tartarugas, gazelas, búfalos e muitos outros. Pareciam-se com animais verdadeiros, desde que não se olhasse para as cores, que eram bem estranhas: uns eram verdes, outros castanho-dourado, outros ainda cor de leite, havendo-os também em cores berrantes, rosa, verde, amarelo, enfim, um autêntico arco-íris. Mas em todos se viam veios como os do mármore ou pedras semelhantes.

Felizmente, Sara conseguira esconder-se bem por trás do tronco de uma bananeira e nenhum dos animais deu por ela.

Quando já estavam todos na clareira, formaram um grande círculo com os elefantes no centro. Pareciam conhecer-se todos. Pelo menos tocavam-se e faziam uma algazarra tal que parecia uma reunião de velhos amigos que não se viam há uns tempos.

Finalmente, o elefante cinzento-claro levantou a tromba e deu um grande bramido. Fez-se imediatamente silêncio e todos se sentaram, ou deitaram, muito quietos. Tinha começado a reunião.

Sara, que já tivera demasiadas surpresas nos últimos minutos, nem se espantou por perceber tudo o que eles diziam. Pareciam estar a trocar impressões sobre os locais de onde tinham vindo. Nenhum era dali e alguns eram oriundos de países bem distantes, mas parecia terem algo em comum, todos tinham sido trazidos para este país de clima nada apropriado por alguém que os achara engraçados.

Mas quase todos tinham queixas em relação à sua situação atual. Uns queixavam-se de negligência e pó acumulado. Outros falavam de maus-tratos e mostravam cicatrizes e falhas que provavam o que diziam. Outros, ainda, diziam viver em recantos tão obscuros que ninguém dava por eles. Enfim, um nunca acabar de queixumes.

De todos os animais presentes só dois estavam satisfeitos com a vida que tinham: uma tartaruga de olho-de-tigre, muito luzidia e bem tratada, e uma coruja de malaquite, que parecia olhar para os restantes com um certo ar de superioridade.

Finalmente, chegou a vez dos elefantes e Sara. O elefante cinzento-claro, que parecia ser o dirigente da reunião, tomou a palavra. Tinha uma voz muito fina e baixa, que contrastava com o seu corpanzil e com o bramido que dera para iniciar a sessão. Mesmo assim, ouvia-se bem em toda a clareira e Sara prestou a máxima atenção ao que tinha a dizer.

- Meus amigos! Até agora tenho-vos escutado sem dizer palavra mas chegou a minha vez de falar. Pelo que ouvi, todos tendes queixas a apresentar, só dois estão felizes com a vida que têm. A tartaruga, que teve a sorte de ir viver com uma senhora de idade, que passa o dia a limpar e a polir, e a coruja porque foi ter a uma casa onde pensam que tem poderes mágicos. Embora algumas das vossas histórias sejam tristes nada ouvi que se compare com a minha. E com a do meu companheiro, claro, pois sempre formámos um par.

Ao ouvir isto o elefante verde-escuro tossicou modestamente e pareceu ficar envergonhado por ver que todos olhavam para ele, quanto a Sara, lá continuava muito escondida à beira do carreiro, ansiosa por conhecer a tragédia de que falava o elefante cinzento-claro.

- Quando nascemos tínhamos, como todos vós, grandes esperanças no futuro que nos esperava. Fomos criados com tempo e cuidado e esperávamos ser sempre bem tratados e estimados. Mas afinal, que nos aconteceu? Mal ficámos prontos, começaram por nos embrulhar em metros de papel, tão apertado que mal podíamos respirar, e fomos parar a uma caixa que já tinha tantas coisas que por pouco não fomos esmagados. E olhem que somos bastante resistentes!

Ouviu-se um murmúrio de assentimento. Os dois elefantes eram, de longe, os mais fortes animais presentes.

- Enfim! Sempre pensámos que ao fim de algum tempo as coisas melhorassem. Mas não! Quando finalmente nos retiraram daquela caixa e de todo aquele papel, onde é que estávamos? Nas mãos de um velhote distraído que nos levou para uma caverna escura e totalmente atulhada de artigos. E ali ficámos, anos e anos, cobertos de pó e cada vez mais encobertos por outras coisas que iam sendo enfiadas no nosso abrigo. Muita gente entrava e levava outros animais, expostos em condições mais favoráveis. Mas a nós, quem nos via? Até teias de aranha conhecemos.

Ouviram-se exclamações de horror. Afinal, nenhum dos outros animais passara por uma experiência tão horrível como a dos elefantes. Teias de aranha!

- Finalmente, um dia, conseguimos captar a atenção de uma das visitantes da caverna. Mas não foi nada fácil, deu-nos até bastante trabalho! Por pouco não nos colocava de novo no meio de todo aquele pó, abandonando-nos de novo ao nosso triste destino. Mas unindo as nossas forças. lá a convencemos a levar-nos.

Ao ouvir isto Sara recordou-se do modo como hesitara com os elefantes na mão, sem saber se havia de os comprar ou não. E, francamente, perante toda esta estranheza, já estava um tanto arrependida de não os ter deixado na vitrina. Pelo menos não estaria ali, no meio daquele calor, em camisa de flanela e chinelos.

Mas já o elefante continuava.

- Ficámos muito contentes, é claro. Íamos, finalmente, ser bem tratados e apreciados, embora tivéssemos de fazer novamente uma viagem em condições desagradáveis, mas era isso inevitável se quiséssemos chegar ao paraíso. Mas como nos enganámos! Quando chegámos ao nosso destino, fomos postos num sítio sem graça nenhuma, tendo como única paisagem um pequeno terreno com duas árvores quase sem folhas e algumas flores raquíticas. E nem respeitaram as hierarquias. Eu, o mais velho fui colocado atrás do meu companheiro!

Ao ouvir isto o elefante verde-escuro mostrou-se ainda mais envergonhado e voltou a tossicar, nervosamente. Sara estava indignadíssima por ouvir chamar ao seu quarto um sítio sem graça nenhuma, esteve mesmo para sair do esconderijo e protestar contra tal injustiça, mas enquanto se decidia, o elefante recomeçou o seu discurso.

- Ainda se nos tratassem bem! Mas não. De vez em quando tiram-nos o pó, à pressa e de qualquer maneira. Uma vez até me deixaram cair desastradamente, vejam este risco aqui de lado. E ninguém nos aprecia ou admira, ninguém nos toca, sequer, sem ser para a tal pseudolimpeza. É claro que o mesmo acontece a muitos de vós. Mas o pior ainda está para vir.

Neste ponto todos os animais se aproximaram mais e arrebitaram as orelhas para ouvir melhor. Que mais teria acontecido?

- Um dia, o frio começou. E que frio! Exatamente no local onde estávamos havia uma corrente de ar que nos gelava até às moléculas, capaz de nos transformar em blocos de pedra, se não o fôssemos já. Dia após dia o frio aumentava e ninguém fazia nada para o minorar ou para nos proteger. E quando tentávamos desviar a atenção do frio que nos trespassava, o que víamos? O tal terreno, que cada vez tinha um aspeto pior, ou a nossa tratadora que até parecia uma toupeira sempre a resmungar e a enfiar-se em tocas.

Sara sentia-se cada vez mais indignada, embora fosse forçada a reconhecer, bem no íntimo, que o seu elefantezinho até tinha uma certa razão. A indignação dos animais também aumentava, mas por outras razões, é claro! Todos pareciam concordar que a história do elefante era a pior de todas. Começaram todos a falar ao mesmo tempo e a algazarra era tal que Sara teve de tapar os ouvidos. Mesmo assim, era impossível não os ouvir.

Ao fim de algum tempo o elefante cinzento-claro lançou novo bramido e todos se calaram. Depois de tossir para aclarar a voz, um tique irritante que parecia ser muito seu, prosseguiu num tom elevadíssimo e muito agudo.

- Meus amigos! Isto não pode continuar. Não podemos deixar que nos maltratem assim sem nada fazermos. Por isso convoquei esta reunião, temos de arranjar um plano para nos vingarmos.

- Sim! Vinguemo-nos! Vinguemo-nos!

Todos os animais berravam o mesmo, até a tartaruga e a coruja que não tinham histórias tristes para contar, mas pareciam ter sido arrastadas na onda geral.

O barulho era tal que Sara começou a sentir-se atordoada. Sem se importar de ser vista, começou a correr pelo carreiro por onde viera, abandonando o roupão. Mas via tudo a andar à roda e acabou por cair no chão, desmaiada. Quando voltou a si sentiu um grande peso em cima do corpo. Deu um grito, pensando que um dos elefantes estava a tentar esmagá-la. Mas quando abriu os olhos, muito a medo, viu que estava na cama e o peso era dos cobertores.

Afinal fora apenas um pesadelo! Nunca mais beberia café de madrugada.

Satisfeita meteu-se de novo debaixo dos cobertores e adormeceu.

Os elefantes continuavam em cima da cómoda, o cinzento-claro à frente, o verde-escuro atrás, com a tromba afastada da janela e as orelhas muito juntas à cabeça. Mas, mentalmente, deixou a si mesma o recado firme de resolver definitivamente o problema da janela e, porque não, de inverter a posição dos seus dois pequenos elefantes, não fosse o diabo tecê-las!


Texto e foto: Luísa Lopes 








quarta-feira, 3 de agosto de 2022

ACROBATA

 


 

um pessegueiro roxo

braços em formas de garras

dedos intumescidos

pernas retesadas.

 

quando estamos dormindo

tudo parece fácil:

pé fora da cama

e acrobacia de quedas.






sexta-feira, 29 de julho de 2022

Menina Bonita

 


Nasci há cerca de meio século! Dito assim, parece horrivelmente antigo, mas a verdade é que nasci no século passado, na década de sessenta.

Era um mundo diferente, aquele para o qual abri os olhos, no longínquo ano de 1965. Governava António de Oliveira Salazar, num país, que há quatro anos via a sua juventude esvair-se para o “ultramar”, na chamada guerra colonial.

Quase não recordo os primeiros anos, claro, tirando uma ou outra história que, à força de ouvir contar tantas vezes pelos familiares, já não sabemos se se trata realmente de uma memória nossa.

As primeiras recordações que sei serem minhas, e que consigo datar, serão por volta dos cinco, seis anos, pouco tempo antes de começar a escola primária. A minha baliza temporal é a bandeira a meia haste que me recordo da minha mãe ter dito ser por causa da morte do Salazar que foi em 1970. Eram tempos muito diferentes, lembro-me da da leiteira que empurrava um carrinho e passava porta a porta a vender o leite a granel, da padeira com a enorme canastra à cabeça, por vezes a minha avó ou a tia-avó, que distribuía o pão. O cheiro dos cigarros “Definitivos” que o meu bisavô fumava, o sabor do toucinho salgado e das azeitonas da mercearia da esquina.  A moeda brilhante e o “Simolzinho” que o avô dava na pequena tasca, por onde passava ao fim do dia, ao regressar do emprego.

Em casa, o meu mundo, além da habitação propriamente dita, era o quintal partilhado com uma vizinha, onde havia couves, feijão verde e uma figueira que dava figos vermelhos muito doces. A vizinha tinha galinhas e coelhos. Nesse quintal, havia também o barraco, como chamávamos à pequena construção onde a minha mãe “tangia” a máquina de tricotar, com o rádio a transmitir o folhetim “Simplesmente Maria”. Era um mundo inteiro cercado pela porta para a estrada por um lado e pelos muros que separavam de outro terreno... desconhecido.

Não consigo saber quando nem porquê me comecei a interessar pelo outro lado do muro... talvez a curiosidade pelo desconhecido, talvez por ouvir vozes do outro lado ou possivelmente por escutar risos de criança.

Imagino que, quando saltei o muro a primeira vez, me deva ter sentido como o Flash Gordon pela primeira vez em Mongo, ou como os primeiros exploradores portugueses nas costas de África. Não ponho dúvidas que devo ter explorado todos os recantos daquele mundo novo que eram áreas extensas, muitas vezes maiores que o meu quintal, com casebres abandonados, árvores de fruto e duas casas habitadas, uma à esquerda e outra à direita da minha; Na da direita, rapidamente aprendi que não devia aportar o meu navio explorador naquelas paragens; Era a morada de um terrível e feroz animal! Só soube mais tarde que se chamava Dragão. Por mim, fiquei aterrado quando me vi frente àquela enorme e temível criatura, que saltava e espumava dentro de uma imensa jaula, ladrando a sua indignação pela minha ousadia e mostrando os enormes dentes com que ameaçava destroçar-me. De certeza que devo ter tido a minha quota parte de pesadelos com aquela horrível fera. Na da direita, encontrei um tesouro... a menina bonita, da minha idade, com compridos cabelos negros, aos cachos e uns vivos olhos castanhos que me olhavam com curiosidade e admiração.

Tornámo-nos, claro, companheiros inseparáveis e juntos vivemos aventuras maravilhosas a desvendar aquele mundo sem fim que era o terreno nas traseiras da minha casa.

De que falaríamos nós e quais seriam as brincadeiras, naqueles tempos longínquos, em que o mundo rodava devagar e vivíamos vidas inteiras, até que uma das nossas mães nos chamasse para comer. Cantávamos a canção da Tonicha que nos maravilhara os olhos e os ouvidos no festival da canção... ainda hoje, os versos da “Menina do Alto da Serra” me parecem que foram feitos para ti, a minha menina bonita de cabelos aos cachos:

“Menina de saia aos folhos,
Quem na vê fica lavado.
Água da sede dos olhos,
Pão que não foi amassado.
Menina do riso aos molhos,
Minha seiva de pinheiro.
Menina de saia aos folhos,
Alfazema sem canteiro”

Quando comecei a frequentar a 1ª classe, numa escola a poucas centenas de metros de casa, comecei a ver-te menos vezes, mas todos os minutos eram para saltar o muro e reencontrar a minha menina bonita de olhos brilhantes.

As minhas idas à mercearia para recados incluíam o livro onde era anotada a despesa para ser paga no fim do mês. Era o tempo em que os detergentes para roupa traziam, por  brindes, brinquedos para as crianças, que os rebuçados, vinham embrulhados em papeis que eram cromos para colecionar. O Helmer desesperava a tentar apanhar o Pernalonga, o Pápaléguas fazia gato sapato do coiote, o Daffy Duck e o Picapau endoideciam todos os restantes.

Quando passei para a 3ª classe houve um grande acontecimento, a nova escola primária, acabada de construir há uns anos, foi inaugurada com pompa e circunstância. Nunca tinha visto tantos e tão bons carros, consegui ver até o professor Marcelo Caetano e eu e mais umas dezenas de crianças não perdemos a oportunidade de correr ruidosamente atrás da viatura oficial.

Os quadros afixados, um de cada lado do crucifixo que dominava a parede sobre o quadro negro, agora tinham outro significado. Uns meses depois, tiraram-nos... dizem que por causa da liberdade, na altura não percebi muito bem. Por outro lado foi fantástico terem vindo demolir o muro que separava o recreio das meninas e dos meninos. Agora podíamos fazer tropelias numa área muito maior.

De repente, gritava-se “Viva a liberdade!”, todos andavam com cravos vermelhos ao peito e a “Gaivota voava com asas de vento e coração de mar”.

“Uma gaivota voava, voava,
Asas de vento,
Coração de mar.
Como ela, somos livres,
Somos livres de voar.

“Tomaram conta da quinta dos carros!”, disse-me um colega e eu fui ver; Os portões estavam escancarados e as paredes cobertas de letras pintadas em vermelho, os jardins da entrada estavam cheios de caixas, móveis, lixo... uma pena.

Também eu e tu, menina morena, do cabelo aos cachos, brincamos aos soldados libertadores, que expulsaram os homens maus que não deixavam que fossemos livres... o que quer que isso quisesse dizer.

Agora éramos mais... e tu tinhas duas primas que começaram a vir brincar connosco e eu tinha o meu irmão mais novo e o meu primo. Os seis, éramos um exército difícil de dominar. Foi nesses dias maravilhosos que revivemos os episódios da novela “Gabriela”, tu a bela Gerusa e eu o apaixonado Rômulo. Meses mais tarde, estávamos na base lunar, que seria construída num futuro longínquo,  em 1999. Tu a enigmática doutora Helena e eu o sisudo comandante Koenig.

Era a chegada dos retornados e por todo o lado havia pessoas, umas tão brancas como nós, outras nem tanto, que falavam um português diferente e olhavam-nos com sobranceria... enfim, quando cá chegaram, eu já cá estava, não precisei deles até àquele momento, não iria ser agora que iria precisar. Uma vez, fui a uma mercearia acabada de comprar por um desses retornados e, coisa que nunca tinha visto, andavam atrás de mim a ver se roubava alguma coisa!!! Do alto dos meus onze, quase doze anos, nunca disse nada a ninguém, mas a ofensa bastou-me e nunca mais lá pus os pés.

No ano seguinte, o espaço 1999 tinha que dividir o seu espaço com a escrava Isaura e eu fui o malvado Leôncio que tudo fazia para te prender a ti a doce e inocente Isaura.

Nessa época de descobertas, foi fácil perceber que o feminino e o masculino se atraem em todas as espécies e a aproximação entre mim e a tua prima estava a provocar efeitos em nós. Foi fácil roubar um beijo trapalhão. Quando nos surpreendeste, éramos demasiado jovens para perceber a tua indignação, e eu, como um idiota, achei que estavas apenas preocupada com a tua prima...

Aquele foi o último ano que brincamos juntos. Com a entrada para o ensino secundário, o tempo era pouco e as novas amizades, criaram laços que nos puxavam em direções diferentes.

O “mundo” continuava em revolução. Ramalho Eanes foi eleito presidente da republica e Mário Soares o primeiro ministro... as coisas estavam más para a política, foi a primeira vez que ouvi falar em FMI. No Vaticano, assumia o papado João Paulo II.

Continuei a ver-te, mesmo assim, a espaços até ao dia que fizeste a tua festa de quinze anos, ali mesmo, num dos edifícios abandonados, daquele mundo perdido que outrora desvendaste comigo. Era ainda a época dos bailes de garagem. Durante uns dias, enquanto preparávamos o espaço, contatei de novo contigo. Os teus olhos brilhantes, o teu cabelo negro, ondulado, traziam recordações e nostalgia. Lembramos as nossas brincadeiras e os teus olhos pareceram brilhar ainda mais. No tão esperado dia da tua festa, havia muita gente que eu não conhecia. Os teus amigos novos, chegados contigo de um mundo onde eu não existia. Fomos dançar e senti em ti, na tua flexibilidade e leveza, um grau de evolução muito superior ao meu, mais mulher, mais adulta. Mas foi quando te vi dançar com os teus novos companheiros, com o teu novo amigo, que eu percebi que, a menina bonita dos cabelos negros e olhos brilhantes, já não era minha.



À "minha" eterna Zézinha 
1964-2018






segunda-feira, 25 de julho de 2022

Ponto de encontro

 

O tempo era de liberdade. O regime autoritário e conservador de décadas caíra dois anos antes. Cada um entendera os novos tempos segundo as suas aspirações. Alguns chamaram-lhe libertinagem e advogavam travagens sociais, depois das políticas.

Para Marco, acabados os fulgores da utopia revolucionária, era tempo, sobretudo, de continuar a aproveitar o relaxamento do controlo social e das regras morais apertadas de antigamente. Gostava da legitimação que lhe dava a expressão “Tirar a barriga de misérias”. Resumindo: desfrutar os prazeres da libido, tanto quanto sabia. Tanto quanto conseguia. E diversificando, sempre que possível.

Várias linhas longitudinais paralelas no interior do cinto, como mapa ferroviário, só esperavam receber nomes femininos para começar a ser marcadas com estações e apeadeiros, como as outras mais próximas da fivela.

No vigor dos seus 28 anos, o único problema era o da oportunidade, ou antes, o da capacidade de criação de novas oportunidades. Porque, mais do que acrescentar marcas, o objetivo inconfessado era gravar mais e mais novas linhas.

Certa manhã de domingo, o telefone acordou-o com um convite de saída: Etelvina ia sair com uma amiga e o namorado dela e… faltava um.

Boa! A que horas me vêm buscar?

A linha de Etelvina já contava com quatro ou cinco estações, mas, na altura, Marco estava sem carro; já era bem bom conseguir marcar mais uma estação, mesmo que não fosse numa linha nova.

O namorado da amiga tinha um grande carrão e, depois de um passeio pela serra da Arrábida, levou o grupo para uma pequena vivenda para os lados da Lagoa de Albufeira. Um gira-discos criou o ambiente propício para dançar. Apesar de se sentir a falta da potência do som e da vozearia das boites, foi-se criando boa disposição e até algum enleio de sedução que Marco terá insinuado e Marília, a amiga, terá apreciado.

A batida animava, os olhos claros e o volume de outros encantos do novo conhecimento ajudavam ao empolgamento de Marco, pela perspetiva de nova aquisição ferroviária; perdão, sensual. Ambos tentavam fingir que a interação era a normal num pequeno grupo de amigos, animado pela dança, mas se Etelvina via com razoável conformismo a possibilidade de troca, o namorado de Marília já não estava a gostar da brincadeira. Afinal, o carro era dele, a casa era dele, e fora ele que trouxera a mais apetecível sobremesa. Resolveu esclarecer que o encontro era de divertimento entre amigos e não de troca de casais. Por outras e conciliadoras palavras. Mas sem margem para evasivas.

Sem problema. Cada um dos aspirantes a promíscuo mostrou-se muito humilde e cumpridor do status instalado, mas estava só a adiar o que ali apetecera. Nessa noite tiveram de se contentar com o prato do dia, mas já com água na boca para o sabor que se esperava sofisticado das iguarias que se adivinhavam. Mas que não perdiam pela demora.

No dia seguinte, Marco combinou um almoço com Marília no “Ponto de encontro”, um restaurante em Alvalade.

Já tinha uma partida de ténis marcada para esse dia, o seu próximo dia de folga, mas não quis arriscar um adiamento do almoço. Havia que soprar na brasa enquanto estava acesa.

Ainda pensou tentar alterar o ténis, mas achou que a boa disposição que o exercício físico lhe transmitiria seria uma boa garantia para uma companhia divertida e enérgica. Além disso, duas horas e meia chegavam para as três partidas do costume. Dava mais que tempo.

No dia da possível inauguração da nova ferrovia, a primeira partida decorreu bastante disputada, mas Marco ganhou-a. A segunda foi para o colega, com alguma facilidade. A terceira, a decisiva, foi outra vez renhida. Foram a tie-break por várias vezes.

Esses prolongamentos eram bem-vindos, mas começavam a preocupar Marco, que via a hora marcada com Marília a aproximar-se perigosamente. Eram tempos muito anteriores aos telemóveis; não podia avisar que talvez chegasse atrasado. E não tinha coragem de pedir ao amigo para deixar o encontro a meio, ele que, mais uma vez, o tinha ido buscar à porta de casa. Decidiu que, se chegasse atrasado, pediria desculpa pelo atraso e tudo ficaria bem. Como era frequente no emprego.

A ganhar por 6–5 e a servir para match-point, Marco bateu potente e colocado. Se ganhasse aquele ponto, ganhava o encontro e ainda conseguiria chegar a horas ao almoço. O amigo defendeu o serviço com dificuldade e em desequilíbrio. Era o fim, felizmente. Calculou Marco e sentiu-o dolorosamente o adversário, que viu a sua bola seguir baixa a dirigir-se para a rede. Caprichosamente, talvez até por alguma ajuda da brisa, a bola bateu na parte superior da rede, subiu talvez meio metro, caiu ainda sobre a aresta da rede e… tombou para o campo de Marco, que corria desesperado.

«Azar ao jogo...», pensou, a tentar confortar-se. Na prática, aquele ponto perdido exigia prolongar o encontro por, pelo menos, mais duas bolas. Para seu maior constrangimento, o amigo empatou a partida e foram novamente a tie-break. A diferença abismal de ânimo dos jogadores ditou o resultado final. A Marco já não interessava ganhar nenhuma bola. Avançou decidido para a derrota.

Em vão. Quando chegou ao restaurante, passava meia hora do combinado. Afogueado, percorreu as salas, na expectativa, à entrada de cada uma, de encontrar Marília sozinha numa mesa, mas não estava. A boa disposição física esmoreceu até se transformar em cansaço e apatia. Abusara da sorte.

Nos dias seguintes, telefonou várias vezes para a casa de Marília, mas a mãe dizia sempre que ela não estava. Viu-a vários meses depois, num dia de folga em que, já com carro, foi passar o dia à praia do Meco. Vinha a caminhar pelo areal com um pequeno grupo de rapazes e raparigas, que seguiram, enquanto ela parou a cumprimentá-lo. Ambos nus, como quase toda a gente naquela praia de nudistas, mas sem desfaçatez para se desfrutarem, ao menos, com o olhar, deram os dois beijinhos da praxe, trocaram três trivialidades e seguiram.

«Aquele ponto...», amargurou-se Marco. Ali terminava o projeto de uma linha que, sem estações nem um mero apeadeiro, não chegara a ter movimento. Só a mudança de agulha de uma automotora que, reluzente, ainda se divisava ao longe.

Joaquim Bispo

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Imagem:

Claude Monet, Gare Saint-Lazare, Chegada de um comboio, 1877.

Museu de Arte Fogg, Universidade de Harvard, Cambridge, USA.

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terça-feira, 19 de julho de 2022

Amargor

 


Ouvi dizer que há solução para uma vida vazia. Mas as mesmas pessoas que ladram isso reforçam o estereótipo de que não é possível. Elas mentem e se enganam o tempo inteiro. Parece que jorram abobrinhas porque não têm o que falar. São, igualmente, almas vagantes da existência. Flávio, um amigo muito próximo, entrou na onda de empreender. Foi cooptado pela nova febre da liderança coaching. Quer me vender um troço mesclado entre terapia e direcionamento, quando ele, o próprio, sequer tem prumo. Foi, recentemente, vendedor de produtos de “nutrição revolucionária”, florista, empreendedor do ramo de circulação urbana (Uber), e, agora, diz que definiu o seu destino, ou seja, ajudar pessoas a encontrarem o seu mundo. E o pior, ele leva no papo uma ruma de desesperados. As pessoas querem resultados fácies, ou a expectativa de algo promissor. É só conferir o tanto de gente que cai em armadilhas de pirâmides de criptomoedas. Na verdade, embalam um sonho de sucesso; que, por seu turno, tem a ver unicamente com o dinheiro. Sendo Flávio um amigo muito presente, boa praça e atencioso, não quis lhe desmotivar, dizer que não o faria por não acreditar etc. e tal. Ainda sabendo que Flávio não é afeito a conselhos, fiquei na dúvida se deveria orientá-lo – eu, um fracassado, não tanto da mesma laia. Não tenho a capacidade de desmanchar sonhos, muito menos de ser o tutor de um homem crescido, dono do seu nariz. E, veja só, Flávio alega que tem em consideração, como referência, o sucesso de Porfírio, nosso amigo de infância. Ora, Porfírio nasceu em berço de ouro e foi introduzido, muito novo, no ramo empresarial de castanhas e derivados do caju, uma fruta rica, nordestina, exportada para vários países. “Jota, Porfírio entendeu o que lhe disse e está montando um novo plano para alavancar. Vai dar certo, você vai ver!”. Acho que por piedade, ou pena, Porfírio “embarca” nas ideias de Flávio; compra seus cursos, ajuda na aquisição de materiais e numa infinidade de coisas. Claro, Porfírio é amigo até debaixo d’água, como dizem; quantas vezes não me socorreu?! Incontáveis. É, para nós, um irmão. A ingenuidade de Flávio me comove e me preocupa. É sério que ele espera que alguma de suas dicas seja levada em consideração por Porfírio? A questão é que Porfírio dá a entender que Flávio está certo e entra no jogo. Outro dia, pediu que eu não o desmotivasse; que o “menino” estava tentando se dar bem, e que dessa vez parece que tinha se encontrado. Como fiquei com raiva de Porfírio! Disse a ele que nós, como irmãos, devíamos nos orientar pela honestidade; que o que estávamos fazendo com Flávio era inventar uma nova função para a roda: nenhuma; mais do mesmo. Porfírio emendou, com a cara amarrada, que eu não teria esse direito de desvirtuar o que poderia dar certo, de verdade; devíamos pagar para ver; que as pretensões de Flávio não eram crime, pelo contrário, ajudaria pessoas emocionalmente perturbadas, depois da pandemia, a descobrirem o seu caminho. “Jota, Flávio é um ‘menino’ de coração puro, humano, decente. Deixe-o ser feliz!”. Na saída, Porfírio quis me oferecer uma grana, porque sabia que eu estava passando por dificuldades – óbvio, está estampado na minha cara. Perguntei, sem pensar, se isso era para comprar o meu silêncio. De imediato, Porfírio se trancou, baixou as sobrancelhas – o que é bem típico quando fica furioso – e saiu, sem mais. No fim das contas, terei de suportar as venetas de Flávio e a bondade franciscana de Porfírio. O amor é mais importante que o amargor que estou sentindo.





domingo, 17 de julho de 2022

Crisálida - poema de Fernanda Estácio

 










Fernanda Estácio nasceu em São Paulo, em julho de 1983. Frequentou o curso de Letras entre 2002 e 2007 na Universidade de São Paulo e, atualmente, é professora de Língua Portuguesa, da rede privada. O poema faz parte do livro “Acordar”, da Editora Patuá.














sábado, 9 de julho de 2022

Sensatez


  

Era a conselheira afamada de todo aquele bosque. Começara modestamente, muitos anos antes, escutando e aconselhando apenas as muitas corujas que ali viviam. Mas aos poucos, à medida que a sua fama alastrava, começara a ser procurada por outras aves, até de locais bem distantes, e pelos pequenos animais que conseguiam trepar pelos ramos da vetusta árvore onde habitava.

O movimento era tal que a certa altura, e por consenso geral dos habitantes do bosque, fora convidada a mudar-se para uma abertura no tronco dessa mesma árvore, quase ao nível do solo, que diversos animais alargaram e ampliaram de modo a tornar-se um local confortável onde pudesse passar a receber todos os que dela necessitavam, fossem ou não voadores ou trepadores.

Foi ainda decretada a proibição de caçar num raio de 500 metros a partir do “consultório”, para impedir que predadores mais “espertos” ficassem simplesmente à espera de que fosse ou viesse da consulta. E para que se pudesse dedicar totalmente ao bem-estar dos outros animais, foi estabelecido um sistema de entrega de refeições – a cargo dos predadores – e de arranjo da clareira e da sua habitação – tarefa dos que não caçadores.

A vida prosseguiu calma e rotineira durante longos anos, sendo a nossa “Doutora” Coruja cada vez mais procurada. Como o interior do tronco era bastante escuro, podia receber durante algumas horas do dia animais diurnos, sem incómodo excessivo para os seus olhos adaptados à noite.

Sem necessidade de caçar e indolente por natureza, raras vezes se ausentava, limitando-se a um pequeno voo ao crepúsculo, para manter a saúde e a tonicidade das asas. Enfim, uma espécie de passeio higiénico.

Mas um dia ocorreu a uma das raposas do bosque que mais dia menos dia iriam ter problemas. Apesar de gozarem de vida longa, nenhuma coruja é eterna e quando a Doutora morresse, quem passaria a aconselhá-los?

Após muitas confabulações, foi decidido dar-lhe uma aprendiza, coruja, claro, que fosse aprendendo com a mestra e a pudesse um dia substituir.

Apesar do incentivo de comida certa e uma vida sem trabalhar, bom, pelo menos para sobreviver, não houve exatamente um enxame de candidatos. A escolhida teria de ser jovem – sim, de que serviria uma aluna idosa exceto causar a curto prazo o mesmo tipo de problemas? – mas não em demasia a ponto de ter a estouvadice da adolescência. E a ideia de passarem uma boa parte do dia e da noite enfiadas numa toca não era exatamente aliciante para aves novas que tinham prazer em voar e explorar o mundo à sua volta.

Houve de facto apenas uma candidata, um corujinha que ferira uma asa durante o seu primeiro voo e que mal conseguia sobreviver, alimentando-se muitas vezes de restos de outros animais, mas sempre à socapa por saber perfeitamente que era uma presa fácil.

A ideia de passar a comer bem e era um motivo mais do que suficiente, isto para além de se tornar inviolável, nem o predador mais esfaimado ousaria atacá-la. E ter de passar a maior parte do tempo no mesmo sítio não a perturbava, voar fazia-lhe doer as asas, pouco diferente seria.

Foi pois aceite pela comissão encarregue da escolha, sob a condição, claro, de ser aprovada pela Doutora.

Obtido o seu acordo, a corujinha instalou-se num canto da toca, de onde poderia ouvir e ver tudo, mas passando despercebida na escuridão que ali reinava. Poucos sabiam deste arranjo e, assim, os pacientes podiam continuar a expandir-se à vontade na convicção de que tudo ficaria apenas entre eles e a sábia coruja.

Sendo organizada por natureza, a corujinha arranjou um grande bloco e duas canetas de cores diferentes para ir tomando nota do que os pacientes diziam e das sábias respostas da Doutora, tudo com muitos sublinhados e espaço para as suas notas e opiniões pessoais. Tinha ainda um caderno onde planeava ir anotando os casos de acordo com o tema tratado, formando assim quase um compêndio de casos e tratamentos. Sim, a nossa corujinha tinha alma de académica!

Os meses foram passando e a corujinha, agora bem gordinha e lustrosa graças à boa alimentação servida a horas certas, lá ia anotando zelosamente tudo o que os pacientes diziam, indo já no seu sexto bloco. Mas as linhas destinadas às sábias palavras da Doutora continuavam totalmente em branco. Esta limitava-se a fechar um dos olhos, ou ambos, virava ligeiramente a cabeça, num ou outro caso extremo emitia um som impossível de reproduzir e que tanto podia ser assentimento, negação ou pergunta, mas, à parte os cumprimentos e despedidas da praxe, não abria a boca, por muito longa que fosse a consulta.

Depois de muito matutar, a nossa corujinha encheu-se finalmente de coragem e atreveu-se a questioná-la num belo dia em que estavam sozinhas:

- Mestre, não entendo a razão da sua fama. Nestes meses que passámos juntas nunca lhe ouvi uma palavra, uma frase, muito menos um conselho. Mas todos juram que foi graças a si que resolveram certos problemas ou que encontraram o caminho certo.

Após um curto silêncio, a sagaz coruja dignou-se esclarecê-la, mas não antes de a fazer jurar segredo eterno.

- Sabes, descobri há muito que os que me consultam não estão minimamente interessados na minha opinião. No fundo, já sabem muito bem o que têm de fazer. Mas pensar dá trabalho e é algo que a maior parte evita. E tomar decisões, sobretudo difíceis, exige um tipo de coragem que pouca gente tem. Virem aqui, exporem-me os seus problemas ou dúvidas, nada mais é do que dizerem em voz alta o que não ousam dizer a si mesmos, nem sequer mentalmente. Limito-me, pois, a fazer sinais ou a emitir sons ininteligíveis que interpretam como apoio ou não, consoante o que já pensavam antes de virem.

E continuou:

- A verdadeira sageza não está em dar bons conselhos ou orientar os seres para onde achamos que devem ir. Quem melhor do que eles sabe o que resulta para si mesmos? Não, a verdadeira sageza está em levá-los a fazerem o que já sabiam que tinham de fazer, o que sabem que é correto, por muito complicado que seja, mas deixando-os convencidos de que foram para aí levados por um ser superior, bem mais sensato do que eles.

Luísa Lopes





domingo, 3 de julho de 2022

CRÔNICA DE UM FRACASSO PRENUNCIADO


 

         

Eu hoje estive vendo uma galeria de pessoas derrotadas, mas com gritos de certeza numa espécie de vingança futura. Eu estava entre eles em pensamento e se eu estivesse lá de fato, certamente estaria gritando como eles as mesmas palavras-de-ordem, superando a derrota do dia e sufocando a sequência das derrotas diárias. Há 30 anos fazemos isto, ou seja, oscilamos entre o suicídio e o grito. Eu teria gritado, mas depois em casa eu pensaria no assunto, já com a ressaca moral das derrotas acumuladas.

Está cada vez mais difícil “arrancar alegria ao futuro”. Não sei, mas penso que se houvesse uma mudança ela seria, talvez, mais uma manchete nos jornais e a nossa vida prosseguiria, infelizmente, da mesma forma. Estamos ao largo das coisas do mundo e as alterações de percurso já não nos atingem pois estamos já fora do curso das coisas.

Hoje, depois de 10 anos, eu reconheço uma pessoa que conheci no afã estudantil. Bem no início da luta pela vida. Estávamos na mesma sala de espera, lutando por uma perspectiva melhor de vida. Enquanto esperávamos, cheguei a compor alguns versos banais enaltecendo a sua beleza e a sua calma, típica de quem vai, certamente, abarcar alguma coisa. Ela apertava os livros contra os seios e caminhava pelos corredores de espera. Seus cabelos esvoaçavam e eram longos e lisos. Dez anos depois eu a reconheço praticamente na mesma situação em que estávamos e em que estou ainda, quer dizer, nos corredores de espera. Apenas que agora somos pessoas adultas e já resignadas com a merda.

Será que nada mudou desde então? Alguma coisa sempre muda na periferia da vida. Ela hoje está de cabelos curtos e o corpo mais velho ainda lembra as antigas formas desafiantes ao mundo. Parece que o aspecto prático inundou tudo. Trabalha e vende roupas nos intervalos do expediente de trabalho. As calças jeans deram lugar aos moletons de malha que sempre me pareceram pijamas.

Ela não me reconheceu de imediato e mesmo eu tive uma certa dificuldade em reconhecê-la, pois a vida, às vezes, obscurece a vista. Seguimos por caminhos diversos que nos levariam, por uma série de coincidências e acasos fortuitos, ao mesmo ponto onde agora estamos, ou seja, na cela pública e comum onde nos debatemos. O que prova que a vida é cíclica. Cíclica sem sair do lugar de onde começou a rodar.

Não me apresentei. Não me identifiquei. Hoje eu me escondo atrás de uma grande barba e estou quase sempre indisponível para a vida. Muitos dos meus amigos já morreram, outros se afastaram e o fato comum de termos as nossas vidas destroçadas na verdade não têm muita importância. Apenas que temos os nossos filhos para criar e reconhecer esta pessoa hoje, 10 anos depois, despertou em mim uma súbita nostalgia de quem se aproxima do fim tendo como bagagem apenas a melancolia das malas vazias.

Revejo meus livros e meus (des)apontamentos e percebo que tenho, além das gavetas, uma cabeça abarrotada de tudo e com tendência ao vazio. O tempo é inexorável e dilui a beleza da existência, como de fato se diluiu em nós em nossa miséria funcional. Atualmente eu me sinto como um velho poeta de trinta e poucos anos enquanto que ela ainda é de certo modo bela, mas de uma beleza destituída de especificidade e de sonhos.

 

PS: Estou agora no meio das galerias de onde jogamos papéis picados sobre os nossos adversários. Queremos um pouco e precisamos ainda “arrancar alguma alegria ao futuro”, por isso rompemos às vezes o nosso silêncio e permitimo-nos um pouco de humanidade e ternura para conosco e para com os de nossa geração.